July 24, 2018

25 anos da Chacina da Candelária: Personagens da Tragédia




Elias Amador, músico e regente que tirou dos acordes sua principal lição de vida:

Ele aprendeu a roubar, a cheira cola e a viver nas ruas com apenas 6 anos, quando deixou a casa dos pais, em São Gonçalo, para viver perambulando entre Niterói e o Rio. Chegou a dormir, com outros meninos, diante da Igreja da Candelária. Vinte e cinco anos depois da chacina nas imediações do templo, Elias Alves Amador, de 33 anos, está casado, é pai de dois filhos, e coordena o projeto de música Amar, que atende, no Centro do Rio, a cerca de 40 jovens, entre 7 e 17 anos. Todas são moradoras de comunidades, como os morros de São Carlos, Providência, Mineira, Pinto e Prazeres.
Elias Amador, músico e regente, que tirou dos acordes sua principal lição de vida - Marcelo Régua / O Globo
— A música e a fé me salvaram. Eu não tenho dúvidas. Foram elas que me resgataram da rua. Hoje, eu estou retribuindo tudo, regendo e ensinando música a crianças carentes, com o perfil muito semelhante ao meu de 25 anos atrás — diz o músico, formado em licenciatura
e música pela Unirio.
O projeto funciona na Igreja Evangélica Fluminense. Para manter as aulas, Elias conta com doações. Não recebe nenhum centavo público.
— Quando vivia nas ruas, fiéis da igreja evangélica vieram, um dia, me oferecer sopa. Aos 13 anos, sem saber ler e escrever, fui acolhido pela instituição Obras Sociais de Fé e Alegria. Minha vida mudou. Aprendi a ler, a escrever e a plantar. Com 19 anos, deixei o projeto. Prestei vestibular nove vezes até ser aprovado. Agora ensino para as crianças o que aprendi.

Adilson Dias, professor e diretor teatral que foi salvo pela arte:

Professor e diretor teatral, Adilson Dias, de 38 anos, foi parar na Igreja da Candelária por uma curiosidade de menino. Aos 9 anos, resolveu ver o que tinha no fim da linha do trem da Central do Brasil. Chegou à gare da Estação Dom Pedro II, nome antigo da Central. Lá, virou engraxate de sapatos e foi ficando.
Adilson Dias, professor e diretor Teatral que foi salvo pela arte - Marcelo Régua / O Globo
— Eu tinha casa, mãe e pai. Tinha uma família, mas fui parar nas ruas e na Candelária atraído pelo chafariz. Quando a situação ficava tensa nas ruas, eu corria para dentro do Centro Cultural Banco do Brasil. Fiz amizades, conheci várias crianças e alguns meninos que morreram. Entrava no CCBB para beber água gelada e ficava encantado com aquela cúpula — lembra Adilson, que era conhecido como Bochecha na época.
O rapaz conta que a arte o salvou. Depois de sofrer uma agressão no Centro, foi viver em frente à Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema. Ele fala emocionado da virada que deu na sua vida.
— O ator Sérgio Britto, meu padrinho, me levou para fazer teatro na CAL (Casa das
Artes de Laranjeiras).
Em 2011, já diretor teatral, ganhou elogios da crítica ao dirigir “A Paixão de Cristo", na Cidade de Deus, na qual Jesus tinha cabelos black power e foi queimado dentro de pneus, como na tortura feita por traficantes, conhecida como “micro-ondas”.
— A arte me salva e me protege. Quando olho para o passado, eu vejo que é possível sonhar — diz Adilson.

Claudete Costa, coordenadora do Movimento Nacional dos Catadores, que dedicou a vida à reciclagem:

Claudete Costa, hoje com 38 anos e mãe de dois filhos, saiu de São Paulo para morar em Vassouras, no Estado do Rio, com o pai, a mãe e os irmãos. Ela estava com 8 anos.
— A gente tinha uma ótima vida, até meu pai agredir minha mãe. Deixamos tudo para trás e viemos morar na cidade do Rio. Na rua. Ficamos sob uma marquise na Rua Uruguaiana. Minha mãe catava papelão, e a gente ajudava. Ficamos ali, sem casa, por mais de quatro anos. Foi nessa época que eu conheci os meninos que viviam na Candelária — conta Claudete.

 
Claudete Costa, coordenadora do Movimento Nacional dos Catadores, que dedicou a vida à reciclagem - Marcelo Regua / O Globo
Uma mulher, que se tornou amiga de sua mãe, levou a família toda para morar num quarto alugado em Queimados, na Baixada Fluminense.
— A gente foi morar lá, mas ficava a semana toda dormindo nas ruas do Centro. Eu vivia fugindo para encontrar os meninos na Candelária. Conheci o Bochecha e vários outros garotos. Quando a chacina aconteceu, eu estava de castigo, trabalhando com minha mãe próximo à Praça Quinze — lembra.
A experiência com a mãe acabou virando profissão. Claudete, que era conhecida entre os meninos de rua como Beiçola, há 28 anos vive da reciclagem de material que recolhe das ruas. Foi eleita coordenadora estadual do Movimento Nacional dos Catadores, com representação em todos os municípios do Rio:
— O lixo me salvou. É o que eu costumo dizer. E ainda hoje me ajuda a sobreviver e a cuidar da minha família.

REPORTAGEM DE ANTONIO WERNECK

25 anos depois da Candelária: Jovens são recrutados por facções e deixam de morar sob marquises e nas praças no Centro do Rio


A Igreja da Candelária, perto de onde oito jovens foram mortos em 1993: poucos adolescentes dormem hoje na região Foto: Marcelo Régua

por
O GLOBO

No pequeno trecho de calçada, no início da noite, um adolescente de 15 anos está enrolado num cobertor. A cada pessoa que passa, ele pede um real. Há muita gente circulando àquela hora no Centro. Ele não está sozinho. Três amigos — de 19, 20 e 25 anos — estão ali juntos, amontoados sobre pedaços de papelão. Todos aparentam estar drogados. Mais adiante, um senhor dorme, também protegido por um cobertor. Uma cena que se repete diante de cada prédio da rua. Ao fundo, a Igreja da Candelária já estava iluminada.

Vinte e cinco anos depois da Chacina da Candelária, como ficou conhecida a morte de oito jovens — o mais novo tinha 11 anos e o mais velho, 19 —, a cena de adolescentes dormindo sob marquises e nas praças do Centro é cada vez mais rara. O pivete da música de Chico Buarque e Francis Hime, que vende chiclete e capricha na flanela, ficou no passado. O menino de rua não cheira mais cola. Ele fuma crack e, na maioria das vezes, é vítima do abandono do poder público, da família e da exploração de um traficante.

LEIA MAIS:
Vigília marca 25 anos da chacina da Candelária
Acervo O GLOBO: Há 25 anos, PMs mataram 8 moradores de rua, 6 deles menores, na Candelária.

FAMÍLIAS EM VEZ DE GRUPOS

Na madrugada de 23 de julho de 1993, policiais militares que estavam em dois carros abriram fogo em direção aos jovens que dormiam nos arredores da Candelária. Por ali, viviam pelo menos 70 crianças e adolescentes. Três PMs foram condenados pelo crime, mas já estão soltos. Na semana passada, uma equipe do GLOBO voltou ao local do massacre e só encontrou adultos dormindo no local. Em outros pontos do Centro, também quase não são vistos adolescentes morando nas ruas. Eles continuam na região, mas só durante o dia, quando praticam assaltos e consomem drogas. O mais comum são famílias inteiras sob as marquises, muitas delas com crianças.
A defensora pública Rachel Gonçalves Silva, coordenadora de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da Defensoria Pública, disse que o perfil do infrator que vive nas ruas do Rio mudou nos últimos 25 anos:
— Hoje, o adolescente está sendo recrutado muito cedo pelo tráfico na favela. Por isso, não vai morar nas ruas. Muitos ficam presos ao traficante por causa de dívidas com drogas e precisam roubar para pagar. São vítimas do bandido e do Estado. Infelizmente, ainda não temos pesquisas sobre isso, mas, nas nossas conversas com os adolescentes nas instituições, eles atribuem ao tráfico a responsabilidade pela mudança em suas vidas.
Segundo Rachel Silva, 12 adolescentes do Rio estão hoje no Programa de Proteção à Criança e ao Adolescente Ameaçado de Morte, financiado pelo governo federal. São jovens que se envolveram com o tráfico e foram ameaçados quando tentaram deixar o mundo do crime. Muitos, que não receberam ajuda, foram mortos.
— Pelos relatos que nós ouvimos, normalmente, o adolescente que comete o ato análogo ao roubo tem um histórico de passagem pelo tráfico. Ou seja: ele chega e diz para o traficante que quer sair, mas é obrigado a roubar para pagar a dívida contraída. Então, temos um novo perfil: viraram soldados do traficante e acabam sendo explorados. Para sair, eles precisam entrar no programa de proteção, ser retirados do estado e deixar tudo para trás — disse.
A educadora Yvonne Bezerra de Mello, de 71 anos, foi a primeira pessoa a chegar à Igreja da Candelária no dia da chacina. Ela trabalhava com os jovens que viviam naquela região do Centro, e um dos sobreviventes telefonou para a sua casa naquela noite.
— Eu não tenho dúvidas em dizer que o morador de favela está sendo cooptado pelo tráfico cada vez mais cedo. Alguns são recrutados aos 12 anos. Já vi casos de crianças com 10 anos entrando para o tráfico — disse Yvonne, que há 20 anos fundou e hoje coordena o projeto Uerê, na Favela da Maré, que atende cerca de 400 jovens com bloqueios cognitivos e emocionais devido à violência.
Para a educadora, nesses 25 anos, a situação da infância no Rio só piorou:
— Infelizmente, os governos, a sociedade, as pessoas não aprenderam nada com a chacina. O Rio sempre foi violento, mas não como agora. Estão empurrando essas crianças para a rua e para a marginalidade. Temos uma evasão escolar enorme na cidade. Oito mil crianças deixaram o ensino fundamental este ano. Elas deixaram a escola para fazer o quê? Ir para a marginalidade?

UNICEF CONTRA A MORTE DE JOVENS

Para monitorar o perfil do jovem que vive hoje nas ruas do estado e cobrar apoio das autoridades, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) criou o Comitê para Prevenção de Homicídios de Adolescentes. A iniciativa pretende mobilizar os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, para que sejam criadas políticas públicas que impeçam o assassinato de menores.
Números divulgados pela Defensoria Pública revelam que 335 crianças e adolescentes foram mortos no Estado do Rio, em 2016. No ano anterior, o número foi menor: 278. Um levantamento do Laboratório de Dados do Fogo Cruzado mostra que, este ano, 56 crianças e adolescentes foram baleados na Região Metropolitana, sendo que 25 morreram.
O desembargador Siro Darlan, presidente da 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, era o juiz de menores quando ocorreu a chacina. Segundo ele, hoje o jovem infrator é vítima do tráfico e do Estado, que não tem combatido o aliciamento deles pelos bandidos.
— O Estado tem culpa por certas infrações penais cometidas por indivíduos abandonados à própria sorte, aos quais foram negados direitos mais fundamentais, como saúde e educação — disse ele, que na última sexta-feira acompanhou a vigília na Candelária, organizada por entidades civis e parentes de vítimas da violência, para marcar os 25 anos da chacina, a serem completados amanhã

July 22, 2018

Comportamento de pai de Neymar dá a medida de quem ele é

Juca Kfouri

O fato: Neymar pai era o único familiar de jogador hospedado no mesmo hotel da seleção brasileira em Sochi, o Swissôtel, durante a Copa do Mundo.

Três fontes diferentes afirmaram à repórter Camila Mattoso, da Folha, que familiares dos jogadores da equipe de Tite se queixaram ao coordenador técnico da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Edu Gaspar, de que, no hotel da seleção, o pai do camisa 10 da equipe teria feito uma festa depois do jogo contra a Suíça.
O que fez ela, responsável que é?
Partiu para apurar a veracidade do que lhe contaram.
Ao apurar, ouviu mais.
Ouviu que Neymar pai, irritado com reclamação de Gaspar, o ameaçou, ao recomendar que ele ganhasse a Copa do Mundo porque em caso contrário seria substituído por Alexandre Mattos, diretor de futebol do Palmeiras e amigo do genitor da maior estrela do futebol nacional.
A repórter falou com Gaspar que desmentiu ter recebido a ameaça.
Faltava perguntar ao principal protagonista.
Ela perguntou se ele tinha dado alguma festa e, diante de sua irritação com a pergunta, gravou a parte final da conversa  —e o avisou que estava gravando: “Cidadã. Não te dei meu telefone, não conheço você, não sei quem é você. Você não tem o direito de ligar para mim. Agora, você está me abordando com uma pergunta dessas? Eu não fiz festa nenhuma, deu para você entender? Quero saber quem é o mentiroso e se você quer vender jornal?” disse Neymar pai.
“A festa que eu fiz foi com a sua mãe”, gritou, ofendendo a repórter que, calmamente, seguiu perguntando se ele confirmava a suposta festa e lhe dizia que bastava ele dizer sim ou não.
“Eu estava com a sua mãe lá. Eu fiz a festa com a sua mãe”, seguiu aos gritos Neymar pai.
“Estou te respondendo, estava a sua mãe, seu pai, quem você quiser”, continuou.
Neymar da Silva Santos, pai do jogador Neymar, em evento do Instituto Neymar Jr.
Neymar da Silva Santos, pai do jogador Neymar, em evento do Instituto Neymar Jr. - Mastrangelo Reino - 20.dez.2017/Folhapress
Impossível afirmar que houve a festa, apesar da reação desproporcional, pois bastaria negar numa conversa civilizada, embora exista quem tenha visto um grupo de mulheres indo para sua suíte.
O que fica muito claro é como se comporta o mentor do principal jogador do país.
E como não faz o menor sentido é que a CBF lhe dê privilégios.
Fazer festas é direito dele, vender o filho para o Barcelona dias antes da final do Mundial de Clubes também, apesar de condenável.

Comportar-se como agiu com a repórter dá a medida de quem ele é.
Ainda mais porque ela só queria ouvir o outro lado.
Como é direito do outro lado e se exige no jornalismo.



July 21, 2018

O poder é ilegítimo e brutal contra os que efetivamente o questionam

Ilustração

Vladimir Safatle:

"A ré tem uma personalidade distorcida, voltada ao desrespeito aos Poderes constituídos, o que pode ser constatado, no tocante ao Judiciário, por ter descumprido uma das medidas cautelares impostas pela 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (proibição de frequentar manifestações e protestos), o que acarretou a decretação de sua prisão preventiva (vide fls. 4.522/4.523) ["¦]. Já o desrespeito ao Poder Executivo pode ser evidenciado, por exemplo, pelo enfrentamento aos policiais militares nas passeatas e ao 'Ocupa Cabral' (é inacreditável o então governador deste estado e sua família terem ficado com o direito de ir e vir restringido). O desrespeito ao Poder Legislativo, por sua vez, pode ser verificado, por exemplo, pelo 'Ocupa Câmara'."
Este é um trecho da sentença do juiz Flavio Itabaiana contra 23 manifestantes que participaram das manifestações de 2013 e 2014, condenando-os a penas de cinco e sete anos de prisão em regime fechado por formação de quadrilha, corrupção de menores, dano qualificado e lesão corporal.
Nenhum policial foi condenado por incitação à violência, por infiltração em grupos de manifestantes com o intuito claro de iniciar confrontos, por lesão corporal contra manifestantes que ficaram cegos ou tiveram ferimentos graves.
Mas há uma condenação de manifestantes que lutavam contra aumentos abusivos de tarifas de transportes, contra o esvaziamento da democracia parlamentar, contra os gastos com a Copa do Mundo e a corrupção.
De toda forma, a pérola escrita pelo referido juiz expõe, de forma didática, a matriz do pensamento autoritário nacional, assim como o caráter meramente formal da "democracia" que impera em nossas terras.
Ao que se vê, na sociedade que o senhor Itabaiana defende, alguém que desrespeita "poderes constituídos", que se manifesta em frente à casa de um governador corrupto, que não admite ser limitado em seu direito de se manifestar e protestar só pode ter uma "personalidade distorcida".
Nesse caso, podemos nos perguntar o que seria uma personalidade não distorcida. Alguém para quem os ditos Poderes nunca devem ser criticados de forma aberta e através de manifestações populares? Alguém que faz deferência quando um governador passa na rua?
No entanto, a "personalidade distorcida" em questão é exatamente aquela que a democracia produz, ou deveria produzir. Como dizia Condorcet na aurora da Revolução Francesa: "A função da educação pública é tornar o povo indócil e difícil de governar".
Um povo indócil faz barricada, impede o direito de ir e vir dos governantes, quebra vidraças de banco quando precisa se fazer ouvir, pois sabe que para um poder surdo essa é a única linguagem compreensível.
Esse poder só ouve àquilo que não o coloca em questão, a quem, no fundo, procura reforçá-lo. Ou seja, a capacidade de se colocar contra o poder, de não se submeter à violência estatal e ao seu braço armado, é algo que só existe naqueles que entenderam o que afinal está em jogo quando se fala em emancipação e liberdade social.
A democracia nunca viu problemas em aceitar essa indocilidade do povo, pois ela sabe que o poder deve temer o povo que ele julga representar, e não o inverso.
Mas, no Brasil, uma das funções principais do Poder Judiciário é procurar, de todas as formas, criminalizar a revolta, nem que seja utilizando um vocabulário digno do psicologismo mais rasteiro à serviço da servidão.
Esses 23 manifestantes que correm o risco de prisão a partir de agora são claramente presos políticos.
À parte, na morte acidental de um cinegrafista por um rojão disparado por manifestantes —fato que merece uma análise isolada—, o único "crime" em questão é a existência política insubmissa.
Algo que em nossas terras parece ser cada vez mais imperdoável. Mas faz parte de um poder cada vez mais ilegítimo ser cada vez mais brutal contra todos aqueles que efetivamente o questionam.

 

July 19, 2018

Was Russia 2018 the Greatest of All World Cups?


  • By Rory Smith, www.nytimes.com
  •  
  • MOSCOW — Some time around France’s virtuoso victory against Argentina and Belgium’s breathtaking comeback against Japan, the planet seemed to come to a decision. Russia 2018, it was universally decided, had not just been a good World Cup, and not just a great World Cup. It had, in fact, been the best World Cup.
    That assessment may not last, of course: once we have all had a chance to reflect, it may not quite live up to the standards of the 1982 tournament, most people’s market leader whenever this conversation arises.
    Regardless of its exact place in the hierarchy, the effusive discussion itself will be of considerable relief to FIFA, which hitched its fortunes to President Vladimir V. Putin of Russia, for better or for worse. When international soccer is being outflanked in so many ways by the club game, when it can appear to be such an afterthought, when the next edition, in 2022, will be occur mostly during December and the one after that, in 2026, will expand to 48 teams from 32, these five weeks needed to be a success.

    Have they gone well enough to carry FIFA and the World Cup through the next eight years of upheaval without suffering considerable damage? Certainly, this has been not just an enjoyable tournament, but a significant one, one whose broader consequences may echo for a few years yet. In more ways than one, Russia 2018 really was a game-changer.

    Kylian Mbappé of France emerged as the breakout star of this World Cup.Foto de: James Hill for The New York Times

    The Rise of Collectivism

    If there is little doubt this has been an outstanding tournament, it seems fair to say there has been no outstanding team. Either France or Croatia would be a more than worthy winner, of course, but one has played a notch below its potential brilliance and the other right at the very edge of its capabilities. Neither would be considered, by most, a team for the ages in the mold of Spain’s 2010 vintage.
    Nor has it been a World Cup dominated by individuals: Kylian Mbappé has shone the brightest, and Luka Modric the longest, but in a sport increasingly in thrall to stars, almost all of those teams that had been constructed in the service of the great and the good failed to ignite.
    Mohamed Salah and Robert Lewandowski went home in the group stage, and Lionel Messi, Cristiano Ronaldo and Andres Iniesta soon after. Neymar made it to the quarterfinals, but won few friends along the way. His addiction to melodrama was a discordant note at a World Cup that has seen thankfully little controversy.
    Instead, it has been a tournament for collectives: for Uruguay’s resilient, defiant defense; for England’s ingenious, coordinated set pieces; for Belgium’s lethal, perfectly orchestrated counterattacks. Russia’s work rate brought the host country within a penalty shootout of the semifinals; Japan and Mexico, with its brave, breakneck style, might have made the quarters.

    The days when the World Cup represented the pinnacle of the sport, the highest form of soccer, are long gone. Now it is best seen as a snapshot of where the game is. This year — one of shocks and surprises and the great being brought low — the picture is pretty clear.
    The gap between the very best teams, the traditional giants, and everyone else is shrinking, and shrinking fast, reduced almost to nothingness by the spread of knowledge, the sophistication of coaching and, crucially, by the end of the tiki-taka era.
    Increasingly, the style international teams hope to emulate — and have the most success in doing so — is not that of Barcelona, and that glorious Spain team of eight years ago, but of Atlético Madrid or, occasionally, Borussia Dortmund: willing to sit and wait, or happy to press opponents into mistakes.
    The reasons for this are obvious: lesser teams cannot beat greater ones by playing them at their own game. In a straight fight, the more technically accomplished side, the one with the brightest stars, almost always wins. By playing on the counterpunch, the playing field is leveled. Suddenly, unheralded teams have a chance in a way that would be unimaginable if Spanish-style possession was the dominant ideology.
    The teams that have had the most success here — in particular France and Croatia, but England and Belgium, too — of course have done so because they have the best of both worlds: players of remarkable talent who are prepared to place it entirely at the service of their team. Too many others seemed to arrive in Russia expecting the opposite to happen. Those days are over.

    Lionel Messi of Argentina looked forlorn during much of this World Cup, which may have been his last.Foto de: Catherine Ivill/Getty Images

    A Changing of the Guard

    On the afternoon of June 30, France sent home Lionel Messi, who had looked so haunted, so stressed, during Argentina’s chaotic time in Russia. That evening, Uruguay’s battle-scarred defense shut down Cristiano Ronaldo and Portugal. In the space of six hours, the two finest players of their generation — the two players who have towered over the 21st century game — exited the World Cup stage.

    The question that now lingers is whether it is for the last time. Neither Messi nor Ronaldo has won this competition, of course, and neither has much of a track record of leaving ambitions unfulfilled. It is difficult, though, to escape the sense that this was their last chance.
    Messi may return in 2022, though by that time he will be 35, and even his magic is likely to have faded. Can Argentina, so chaotic here, afford to spend the next four years building around a player entering the twilight of his career? Will Messi find the idea of another arduous qualifying campaign appealing? The head says one thing. The heart may say another.
    Ronaldo, meanwhile, will be 37. He clearly does not believe he is finished: in the hours before the first semifinal, he was in Greece, completing his $110 million transfer to Juventus.
    It is worth noting that his contract lasts four years, until the summer of 2022, a few months before the Qatar World Cup. It is a staggering commitment to a player of his age, but perhaps even his new employer feels, by that stage, his remarkable powers might have waned a little.
    What is for certain, however, is that this is the final World Cup either will approach at, or even near, his peak. It was impossible to escape the sense that this tournament marked the end of one thing, and the beginning of another. Andres Iniesta, reduced to the role of substitute as Spain ground to a halt against Russia, will not be back; Lewandowski left no impression at all as Poland slipped from sight in the group stage. Of that generation, only Modric, steering Croatia to the final, has excelled, and he may yet choose to bow out in glory.
    In their stead, a new generation is rising, led by the tournament’s breakout star, if that is not a strange tag to give to someone who is already the second-most expensive player in the world: Mbappé.
    He has a long way to go if he is to emulate either Messi or Ronaldo, of course; on the evidence of this World Cup, he is unlikely to have a peer and a rival capable of pushing him as hard as the Argentine and the Portuguese have for so many years. Throughout Russia 2018, though, it became increasingly clear that this is Mbappé’s time. That of Messi, Ronaldo and Iniesta — in terms of World Cups, at least — has passed.

    For the first time at a World Cup, players were able to draw inspiration almost instantly from images of their fans celebrating back home, like these ones in Dubrovnik cheering on Croatia.Foto de: Zoran Marinovic for The New York Times

    The Feedback Loop

    The 1990 World Cup captured Ireland’s imagination. The team defied the odds in Italy, its unexpected run to the quarterfinals transfixed the nation. Even those who normally turned their noses up at soccer, “the English game,” were hooked, swept up in the excitement.
    Many saw it not simply as the summer when Ireland became a true soccer nation — its loyalties having always been split between soccer, rugby, Gaelic football and hurling — but as the start of the country’s economic boom in the 1990s. Italia ’90 was Ireland’s coming out on the international stage.
    The mania, though, was lost on the fans and players who were there; what little information they had, from family, friends and reporters, could not convey the extent of the team’s impact. “I missed Italia ’90,” the journalist Con Houlihan wrote. “I was in Italy at the time.”
    The experience of the players in Russia could not have been more different. If South Africa 2010 was the first Twitter World Cup, and Brazil 2014 the first during which fans were given a glimpse into the players’ lives through Instagram, Russia 2018 may well be remembered as the first WorldCup.gif.
    The players, almost all of them social media natives, have been able to keep up — in real time — with the scenes of celebration back home. They have seen videos of fan parks and crammed streets. For the first time, perhaps, they have been able to appreciate the effect they have had; that, in turn, has had an effect on them.

    As the England defender Kyle Walker wrote on Twitter (obviously), the images “felt so good for us here in Russia, and united us more and more.” The way players experience World Cups fundamentally changed in Russia, and so did the role the fans can play. It is no longer limited to cheering for the team inside the stadium. Even those at home now genuinely do seem to make a difference.

    The video review system, known as V.A.R., changed the way referees, players and coaches approach the game.Foto de: Kevin C. Cox/Getty Images

    Video and the Law of Unintended Consequences

    In the 1920s, soccer’s authorities were worried that the game was becoming boring. Too many teams, they felt, had perfected the art of catching opponents offside, meaning too few goals were being scored. To try to rectify the situation, the Laws of the Game were amended, theoretically to hand the advantage back to attackers.
    It worked, initially, but teams did not take long to adapt, changing their defensive structures to account for the new rules. Soon, the number of goals was plummeting again, back to where it had been, and beyond.
    In the 1980s, crowds were dwindling. The game’s authorities were convinced dull soccer was, once again, to blame. This time, they changed the rewards: three points would be awarded for a win, rather than two. The aim was to incentivize teams to push for victory. Instead, a study by Luis Garicano and Ignacio Palacios-Huerta found, those teams that took a lead became more inclined to draw back, and protect it. If anything, games became more defensive.
    Major changes to the fabric of soccer, in other words, do not always have the intended effect. If this World Cup is anything to go by, the same may soon be said of video assistant referees.
    On balance, for all the fears that the World Cup was too high-profile a stage for what was essentially a trial run, V.A.R. has been a success in Russia. Though the group stages were marked by some confusion about when it should and should not be used (it has barely made an appearance in the knockout rounds, oddly), the rather fluid definition of what constitutes a “clear and obvious” mistake has allowed it to do its job. Referees have awarded penalties they had initially missed, or struck off decisions that were incorrect. V.A.R. has passed the test.

    Just as significant, though, it has changed the game in ways that had not been foreseen. England, in particular, seemed to be seeking the illegal embrace of defenders from corner kicks through the tournament, rather than trying to score goals. And Roberto Martinez, the Belgium manager, confirmed that the presence of V.A.R. had changed the way his team handled both defensive and offensive set pieces.
    The ramifications could be significant. This has been a World Cup decided by the dead ball: nearly half of the goals have come, directly or indirectly, from set pieces.
    If that pattern is maintained, the way soccer is played itself could change: it places a premium on winning free kicks and corners, and having players capable of delivering them well, defending them well, and either scoring from them or using them as a route to win penalties. Soccer has always obeyed the law of unintended consequences. V.A.R. may be no different.

    Victor Moses and Nigeria just missed advancing to the round of 16. Just two teams not from Europe or South America advanced from group play.Foto de: Sergio Perez/Reuters

    More Teams May Mean More Chance

    Mexico made it, even though at one point it seemed as if Juan Carlos Osorio’s players were doing all they could not to. Japan might have blown it, too, right at the end, but got there by the skin of its teeth. Everyone else failed: some narrowly, some spectacularly, but all — sadly — predictably.
    Between them, Africa, Asia and the Concacaf region sent 13 teams to this tournament. Those teams combined to win 10 games. But Mexico and Japan were the only representatives from those regions to make it out of the group stage, and they both fell in the round of 16. It fits the pattern: in the five World Cups this century, there have been 40 slots available in the quarterfinals. Teams outside Europe and South America have claimed only five.
    Privately, at least one coach here confided that it is all but impossible for African and Asian teams to compete with Europe, in particular.

    Partly, of course, that is a legacy of political, economic and social exploitation — either through the depredations of colonialism or the distorting effects of soccer’s transfer market — but it does not necessarily explain why large, rich Asian nations make so little impression.
    Whatever the cause, the World Cup cannot risk three of its confederations fading into irrelevance. In that light, FIFA’s deeply unpopular decision to expand the tournament may not be quite the disaster most expect. The motivation for the change may be purely financial, but that does not mean there will not be a sporting impact, too.
    Africa, in particular, has always suffered because its qualification process is so brutal: good teams miss out because there are so few spots available that even the slightest mistake is punished in a way that does not happen in Europe. Ghana, Ivory Coast, Algeria and Cameroon would hardly have been out of their depth here.
    For Asia and Concacaf, the issue is more complex. Watching Panama and Saudi Arabia, it was hard to see how adding more teams would do anything other than dilute the quality of the competition, create more hopeless mismatches, foster more humiliation.
    In the short term, that is likely to be true; in the long run, it is to be hoped that exposure to the elite will raise standards across the board. The World Cup’s next few years will be difficult: first Qatar, then expansion. That does not mean, however, that the glory days are definitely over. Russia 2018 might have been the best World Cup for years. This will not necessarily be the last time we say that.

    © 2018 The New York Times Company.


July 18, 2018

Sorrir é para poucos: Quem ganhou e quem perdeu na Copa da Rússia



por

Marcada pelo árbitro de vídeo, a Copa viu Mbappé despontar como revelação e Modric se consagrar como craque. E, enquanto a Croácia surpreendeu, campeãs mundiais precisaram se sentar no divã. Para CBF e Neymar, o futuro é de gestão de crise.


VENCEDORES DA COPA

MBAPPÉ
Falar que o atacante deu certo é eufemismo. O torneio foi um sonho, como ele mesmo definiu, ainda sem saber o desfecho. Campeão, recebeu o prêmio de revelação. Para muitos, também deveria ter sido eleito o craque. Com apenas 19 anos, já disputou sua primeira Copa como protagonista e brilhou: teve a maior atuação individual da competição, nas oitavas, contra a Argentina. Na final, foi muito bem e marcou o último gol do título francês. (Thales Machado)

RÚSSIA
Subestimada por torcedores estrangeiros — e nacionais —, a Rússia se transformou em uma imensa festa de muitos sorrisos, apesar da fama de sisuda e linha dura. Sob sanções há quatro anos, organizou um evento de sucesso: não registrou incidentes graves e mostrou um futebol que até permitiu aos locais, descrentes de início, sonhar alto. Foi o mundial mais caro do mundo: custou US$ 11 bilhões, e as autoridades já esperam o retorno. Os turistas disseram que voltam. Vladimir Putin recebeu 30 chefes de Estado, mesmo alguns que não eram esperados com o anúncio de boicote. Para o líder controvertido de um país que muitos querem isolar diplomaticamente, parece um resultado mais do que satisfatório. (Vivian Oswald)

VAR
Protagonista do Mundial na primeira fase, o árbitro de vídeo passou a participante discreto na reta final. E aí está o segredo do seu sucesso: como todo bom árbitro de carne e osso, a tecnologia se encaixa melhor quando não está no centro das atenções. A discrição virou a alma do negócio. Segundo o presidente da Fifa, Gianni Infantino, cerca de 440 lances foram checados pelas equipes do VAR até a semifinal, mas apenas 19 passaram por revisão — quando o árbitro de campo é avisado de um possível erro. Destes casos, 16 tiveram a decisão modificada. No fim das contas, o VAR interveio pontualmente. A impressão de que a tecnologia interferia no jogo de forma exagerada não se confirmou nos números. (Bernardo Mello)

CROÁCIA
Quando começou a Copa, a Croácia era só o adversário do primeiro amistoso do Brasil, que disputaria a segunda vaga do Grupo D. Na prática, o time atropelou a Argentina, venceu a chave e, de empate em empate no tempo normal, avançou até a final, tornando-se o menor país a atingir o feito desde o Uruguai. De quebra, permitiu que Modric fosse eleito o melhor jogador da competição. Mais que um vice, a Copa de 2018 coloca o futebol croata em um patamar acima do que estava há um mês. (T.M.)

THIAGO SILVA
Ele não chorou uma lágrima: nem quando marcou o gol que confirmou o Brasil nas oitavas, nem quando perdeu para a Bélgica nas quartas e viu seu ciclo em Copas do Mundo se encerrar sem o sonhado título. O mais importante que mostrou na Rússia, porém, não foi o controle emocional. Thiago Silva provavelmente se despede dos Mundiais com uma atuação à altura de seu talento. Foi o grande jogador do Brasil na Rússia, craque nas cinco partidas que disputou. Merecia que sua bola contra a Bélgica tivesse entrado em vez de ter ido na trave. Mas o futebol está longe de ser um jogo de merecimento. (Bruno Marinho)

PERDEDORES DA COPA

NEYMAR
Na Copa do VAR, organizada por uma Fifa que tenta vender a ideia de que os anos de corrupção ficaram para trás, Neymar e seu jeitinho bem brasileiro de cavar faltas e tentar manipular a arbitragem pegaram mal. Se ficasse restrito às pancadas que de fato sofre nos jogos, o atacante e seu desempenho irregular seriam apenas mais um capítulo da competição. Mas o brasileiro virou piada mundial com seu hábito de se contorcer de dor ao menor contato que sofre. Não enganou ninguém e terá de lidar por algum tempo com os questionamentos sobre seu caráter. (B. Marinho)

CORONEL NUNES/CBF
Em campo, a seleção não teve motivos para se envergonhar. Fora dele, foi um papelão atrás do outro do presidente da CBF, Coronel Nunes. Na eleição da sede de 2026, gerou saia justa ao votar no Marrocos, em vez de apoiar Canadá, México e EUA, como combinado pela Conmebol. Xingado em um restaurante, viu um de seus assessores quebrar um copo na cabeça de um torcedor. Se força política pesa, o Brasil mostrou não ter nenhuma — todos os lances polêmicos de arbitragem foram ignorados, mesmo com o VAR em ação. (B. Marinho)

ARGENTINA/SAMPAOLI/MESSI
A Argentina tem um longo caminho a seguir. Jorge Sampaoli já saiu: se por um lado moveu-se mal no Mundial, por outro chegou como bombeiro, na reta final das eliminatórias, em meio ao caos da AFA. Pior: foi coagido a renunciar com gestos que tentavam constrangê-lo, como a nomeação para dirigir o time sub-20 num torneio amistoso. No meio do desgoverno, está Messi, vítima do processo, mas com o peso de carregar, talvez para sempre, a marca de uma carreira brilhante sem um título mundial, ou mesmo sem uma Copa com atuações de seu tamanho. (Carlos Eduardo Mansur)

ESPANHA
A frágil campanha não decreta a morte de um modelo que marcou época. Apenas indica como a Espanha se desarrumou às vésperas da Copa. A demissão do técnico Julen Lopetegui a 48 horas do torneio radicalizou problemas que o time apresentava nos amistosos: falta de pressão ao perder a bola, recomposição defensiva ruim e dificuldade de infiltração. A saída de Xavi em 2014 e, agora, a partida de Iniesta indicam que não será fácil buscar intérpretes. Thiago e Saúl despontam como herdeiros. David Silva talvez permaneça. Já a verticalidade de Isco e Asensio pode ser usada para que o time não jogue o tempo todo contra rivais encerrados atrás. (C.E.M.)

ALEMANHA
Das derrotadas da Copa, é a que aparenta ter as condições mais estabelecidas para se reestruturar. A formação de jogadores funciona, e o futebol local é organizado, embora a liga seja desequilibrada. Claramente, a mescla de jovens e experientes usada durante todo o ciclo pré-Copa, mas ausente no Mundial, sobrecarregou o time no meio-campo e criou problemas defensivos. A falta de um homem com drible também pesou. E, neste ponto, é impossível não lembrar a ausência de Sané, por opção de Joachim Löw. O técnico vai continuar e tem conhecimento do futebol alemão e da seleção para fazer os ajustes. Mas, agora, trabalhará sob uma pressão que, antes, não recebia. (C.E.M.)

July 13, 2018

Weggis particular

de RENATO MAURÍCIO PRADO

Muito se falou da bagunça em Weggis, na Copa de 2006, na Alemanha, mas pouco se tem comentado a respeito do que aconteceu na Copa da Rússia, com os autênticos “bondes” de parentes e amigos dos jogadores sempre gravitando em torno do hotel da seleção, muitas vezes até com acesso aos treinos fechados, como se pode atestar graças a uma indiscreta postagem de um vídeo feito por um “parça” de Gabriel Jesus, que ajudou até a tirar dúvidas a respeito da escalação que viria a ser usada por Tite.
A comissão técnica, conivente, nunca se mostrou incomodada com tal promiscuidade e a alegação oficial era de que os jogadores só tinham contato com as famílias e os amigos nos dias de folga. As fotos dos jogadores com os filhos, em pleno gramado de treino desmentem categoricamente tal afirmativa. É sabido também que Neymar pai, sempre ele, durante o Mundial, transferiu-se para o próprio hotel onde estavam hospedados os jogadores, provavelmente para dar “apoio” ao filho, tão “injustamente” criticado.

O paternalismo exacerbado foi a marca do trabalho de Tite e Edu Gaspar nesta Copa. Da exagerada intervenção do treinador, no dia em que Neymar foi perguntado sobre as críticas que lhe foram feitas por Osório, à desastrosa entrevista coletiva do coordenador, dizendo-se penalizado com o “sofrimento” do craque maior do elenco.

Preocupado em não contrariar o grupo e “ganhar o vestiário”, o técnico, na verdade, se tornou refém dos caprichos e vontades dos jogadores. Soa exagerado dizer que foi por causa disso que o Brasil perdeu a Copa. Mas, certamente, esse clima de permissividade e falta de foco não ajudou nem um pouco. Se Tite continuar, precisará rever muitos dos seus conceitos. A começar por esse. Copa do Mundo não é ocasião para fazer turismo com parentes e amigos.

July 11, 2018

Is Neymar Black? Brazil and the Painful Relativity of Race



  • By Cleuci De Oliveira, www.nytimes.com
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  • Years before he became the most expensive player in the world; before his Olympic gold medal; before the Eiffel Tower lit up with his name to greet his professional move from Barcelona to Paris, Neymar da Silva Santos Júnior, the Brazilian forward known to the world simply as Neymar, faced his first public relations controversy.
    The year was 2010, and Neymar, then 18, had shot to fame in Brazil after a sensational breakout season. During an interview for the newspaper O Estado de S. Paulo, in between a conversation about Disneyland and sports cars, he was asked if he had ever experienced racism. “Never. Not in the field, nor outside of it,” he replied.
    “It’s not like I’m black, you know?”
    His answer was heard like a record-scratch across the country. Was this young man in denial about his racial identity? Particularly when in the same interview he outlined his meticulous hair care regime, which involved getting his locks chemically straightened every few weeks, then bleached blonde.
    Or was there a less alarming explanation behind his comment? Could Neymar merely be pointing out that, as the son of a black father and a white mother, his lighter skin tone shielded him from the racist abuse directed at other players? Had he, at least in his context, reached whiteness? Whatever the interpretation, Neymar’s words revealed the tricky, often contradictory ways that many Brazilians talk, and fail to talk, about race in a country with the largest population of black descendants outside of Africa.
    When audiences tune in to watch Brazil play, they are treated to a rich spectrum of skin tones flashing vibrantly across the screen. The racial makeup of the Brazilian squad, in fact, generally reflects the demographics of the country. According to 2017 data released by the census department, 47 percent of Brazilians identify as mixed-race, while another 8 percent identify as black. One third of marriages happen across racial boundaries. Such numbers confirm the common belief held by Brazilians, and the millions of international travelers who visited last year, that the country is a racially fluid society.
    Unlike the national team, however, the upper echelons of most professions in Brazil — be it medicine, media, business, entertainment or government — are occupied by whites. The nation’s raw demographic data paints an accurate portrait of a diverse people; yet it also adds patina to the old myth, promoted for generations by the government and first intellectualized by sociologists nearly a century ago, that Brazil is a democracia racial, or “racial democracy.”
    Because Brazil never had an apartheid system like South Africa, or a ban on mixed-race marriages like America, went the argument, a spirit of warm relations blossomed across racial divides.
    Never mind that Brazil was the last country in the Americas to abolish slavery in 1888; or that after abolition, the ruling class mounted a campaign to whiten the majority-black population, by fully subsidizing the immigration of over four million white Europeans, giving them free land, and compelling Brazilians to take up with them.
    “The Brazilian people, more than any other, needs the influence of advanced peoples in building a race,” read one 1914 pamphlet, “especially at the historic moment when the percentage represented by the African race is beginning to decline and must disappear into the whirlpool of the white race.”
    Even once democracia racial was widely debunked by a new generation of social scientists, the enduring legacy of the myth was that, rather than engage with the race question, Brazilians had turned racism, and talking about racism, into a taboo. In concealing the problem from vigorous public debate, a hierarchy based on skin color was allowed to congeal.
    Today, the socioeconomic consequences of Brazil’s “pigmentocracy” still reverberate: The top one-percent of Brazil’s economy is about 80 percent white; three-quarters of the bottom 10 percent, meanwhile, are black or mixed-race. In 2016, more than half of black or mixed-race students between the ages of 18-24 hadn’t reached high school. And only 13 percent of those in the same age bracket were enrolled in college.
    Even that happier stat that a third of marriages are mixed-race comes with an asterisk: According to the sociologist Edward Telles, author of “Race in Another America: The Significance of Skin Color in Brazil," the rates of intermarriage are negligible among wealthier Brazilians.
    Soccer is celebrated as one of the meritocratic spheres in Brazil, where talent counts the most. But when the sport first took hold in the country, in the early 20th century, the major clubs and leagues barred nonwhites. The most famous player of all time, Edson Arantes do Nascimento, popularly known as Pelé, had another nickname near the start of his career: gasolina, the Portuguese word for crude oil.
    To the frustration of some Brazilians, Pelé has long preferred a posture of attempting to ignore racism and he has largely resisted public alliances with activists. In 2014, speaking on a Brazilian sports channel, Pelé chastised Brazilian club goalkeeper Aranha for confronting spectators who called him a monkey. “If I had to stop or shout every time I was racially abused,” he said, “every game would have to be stopped.”
    That same year, in Spain, a spectator threw a banana at Daniel Alves, Neymar’s fellow Brazilian and then-teammate at F.C. Barcelona. Alves jauntily ate the banana in defiance. Neymar responded by starting a viral campaign with the caption somos todos macacos: “we are all monkeys.” The move was applauded as a cheeky response by some. But many black Brazilians weren’t impressed. His image was still haunted by the 2010 incident, in which he appeared to distance himself from his black heritage.
    “This is the difference between Brazil and America,” Paulo César Lima, the 1970 World Cup champion and black rights activist, said during the 2010 episode. “Over there, if you’re black, you stand up and say you’re black.”
    Lima’s words point to a painful and somewhat paradoxical consequence of Brazil’s racial fluidity. America’s politics of racial purity, which culminated in the notion that even one-drop of African blood made a person legally black, fostered solidarity among those targeted by discriminatory laws. In Brazil, however, the often admirable blurring of racial boundaries is a modern reality that — rather than stemming from colorblindness — is tainted with the sinister origins of state-sanctioned attempts to dilute, even dissolve, blackness.
    When in 1965, Ebony magazine set out to explore why, at the height of the U.S. civil rights and African independence movements, black Brazilians had failed to mobilize in a similar fashion, it concluded that Brazil’s legacy of embranquecimento, or whitening, had a great deal to do with it.
    Black rights groups in Brazil, such as Educafro and the student movement Coletivo Negrada, have since fought to counter that legacy. Activists don’t want social ascension, or economic betterment, to have to correlate with whiteness. They want visibly black and brown faces not just on the beloved national team, but in the highest ranks of Brazilian society. And in the past two decades, they’ve succeeded in measurable ways.
    Brazil now has some of the most robust affirmative action policies in the world, with many admissions spots in federal universities reserved for nonwhite students and those at the poverty level. In every department of the federal government, 20 percent of jobs go to black and mixed-race candidates.
    But with these gains came new dilemmas. Concerns over affirmative action fraud have plagued some of the most prestigious university programs, fostering unease on campuses. Students of complex heritages and identities report each other to administrators for not being black, or at least black enough. Episodes of mass expulsions occur multiple times a year — followed, inevitably, by lawsuits from the expelled students.
    And the mechanisms put in place to curb potential fraud, predominantly in the form of in-person interviews with government-appointed anti-racism experts, have proved cumbersome at best and counterproductive at worst. In 2016, one government department in the state of Pará went as far as devising a candidate checklist that measured features such as nose-width, skull shape and hair curl tightness. The department retired the checklist following a national outcry.
    In 2017, Neymar addressed racism in a speech at the United Nations, as a representative for the NGO Handicap International. Back in Brazil, the public applauded his speech, interpreting it as a turning point in his willingness to wrestle with the issue. “This has been a problematic theme for years,” he said. “And it is prevalent within soccer. But incidents are occurring less and less. People are changing. The world is changing.”
    When spectators — whether they be from England, the United States, or India — see Brazil playing, they should resist any urge to romanticize the country as a living illustration of racial harmony. What they’re seeing, rather than a post-racial society, is a different country with distinct racial quagmires of its own.
    The World Cup is a wonderful event, showcasing the best of human achievement. And Brazil, with Neymar leading the way, have a good shot at winning it. But this pageant of nations is also a reminder, on the 130th anniversary of slavery’s abolition, that the modern world, in all of its globalized splendor, still lacks a truly equal, multiracial society.
     

July 10, 2018

Ficamos para trás: a Copa é da Europa





Martín Fernandez

 
No domingo que vem, a Copa do Mundo será conquistada pela quarta vez seguida por uma seleção europeia. A hegemonia dos clubes, facilmente explicada por fatores como organização e dinheiro, finalmente se estendeu para o futebol de seleções. E nada indica que essa tendência vá mudar um dia. Historicamente equilibrada, a contagem de títulos mundiais entre os dois continentes que realmente importam neste esporte terminará 2018 com goleada: Europa 12 x 9 América do Sul.

Sim, houve algo de injustiça na eliminação do Brasil — embora não haja nada de injusto no fato de ter sido a Bélgica o time a avançar à semifinal na Rússia após o duelo em Kazan. Sim, Uruguai e França faziam um jogo relativamente parelho em Nizhny Novgorod até um goleiro fazer a defesa da Copa e o outro tomar o frango da Copa. Sim, a Colômbia só caiu nos pênaltis ante a Inglaterra. Sim, o Peru merecia mais pelo futebol que apresentou contra Austrália e Dinamarca na primeira fase. Sim, a Argentina... bom, a Argentina, não.

As lições que a Rússia deixa ao futebol brasileiro em particular e ao futebol sul-americano em geral são claras demais, caso alguém não tenha percebido: o Brasil não pôde com a Suíça, a Argentina não aguentou a Islândia. Colômbia e Uruguai caíram com justiça ante os primeiros rivais minimamente organizados que passaram por seus caminhos.

Também não é acaso que a Inglaterra seja a atual campeã mundial nas categorias sub-20 e sub-17, títulos que Brasil e Argentina costumavam monopolizar não faz muito tempo. O técnico da Bélgica é um espanhol que treina 11 atletas do Campeonato Inglês; mais da metade da seleção francesa joga fora da França (mas dentro da Europa); o craque croata Rakitic estudou na Suíça, brilhou na Alemanha, arrebenta na Espanha. Enquanto a Europa derruba as fronteiras do futebol, o lateral-direito titular do Brasil na Copa do Mundo passou metade do ano disputando o Campeonato Paulista.
Encerrada a Copa da Rússia, a Europa vai mergulhar em sua Liga das Nações, uma espécie de torneio por pontos corridos entre seleções, criado pela Uefa para que seus países compitam entre si e não precisem perder tempo (nem dinheiro) jogando amistosos contra seleções do terceiro mundo. Tipo o Brasil. Enquanto isso, a Conmebol vai organizar sua Copa América com os 10 times da América do Sul e mais dois convidados, Japão e Qatar.

Em novembro de 2022, quando seleção brasileira voltar a uma Copa do Mundo com o eterno status de favorito, o abismo só terá aumentado.

Terão se passado vinte anos de gritaria autocentrada em torno do “penta único”, do poder da “amarelinha”, de craques que valem centenas de milhões de euros. Tudo verdade. E tudo bobagem: o mesmo clube que revela Neymar e Rodrygo vota no Coronel Nunes para presidente da CBF. E este não é um exemplo hipotético.

Como dizia o jornalista americano Henry Louis Menken, para todo problema complexo existe uma solução simples, elegante e completamente errada. Não é simples sair do buraco em que o futebol sul-americano se meteu. A primeira reação da CBF à eliminação em Kazan foi a melhor possível: não houve pratos quebrados nem jogadores crucificados.

As derrotas do Brasil nos últimos quatro mundiais — 2018 incluído — nasceram de decisões equivocadas tomadas imediatamente após quedas em Copas do Mundo. Mas será preciso muito mais do que renovar com Tite se o Brasil quiser tentar retomar o protagonismo que um dia já teve.

July 9, 2018

Coitadinho do Neymar...


No dia seguinte a uma das mais traumáticas derrotas da seleção brasileira, contra a Itália, em 1982, na Copa da Espanha, a concentração no belo castelo de Mas Bado, em Barcelona, foi aberta à imprensa e pudemos conversar pessoalmente e com calma, com os jogadores, o técnico Telê Santana e sua comissão técnica. Detalhe: na véspera, após a partida, todos eles já tinham falado com os jornalistas, apesar da enorme dor pela desclassificação inesperada, que frustrou não somente a torcida do Brasil, mas milhões de fãs apaixonados por aquele time, no mundo inteiro.

No dia seguinte à eliminação para a Bélgica (ontem), apenas o coordenador da seleção Edu Gaspar apareceu para uma entrevista. E teve o desplante de dizer que “não é fácil ser Neymar” e que chega até a sentir pena dele (!!!). Afinal, ressaltou: “Se ele ri, é criticado e elogiado. Se chora, é criticado e elogiado. Se não dá entrevistas, é elogiado e criticado. Chega a dar pena, porque o que esse menino sofre não é fácil”. Detalhe: após a derrota para os belgas, o camisa dez da seleção recusou-se a falar com os repórteres, passando pela zona mista em silêncio. Pobrezinho...

Esse tipo de paternalismo sem sentido foi um dos (vários) erros de Tite e sua comissão técnica na Copa da Rússia. Em vez de demagogicamente carregar para as entrevistas os auxiliares, que não têm nada a acrescentar ao que ele próprio poderia falar, o treinador deveria era ter mostrado ao seu principal jogador que, como maior estrela da companhia, ele precisava deixar de ser mimado e se portar como exemplo. Ao contrário, Tite, Edu e seus pares só fizeram justificar e assim alimentar o comportamento narcisista e egocêntrico do craque. Fico só imaginando o que Telê Santana diria se soubesse que algum dos seus comandados pretendia levar dois cabelereiros para a Copa. Sabe aquela história do foco? Pois é...

Como muita gente já disse, Neymar sai da Copa menor do que entrou. Nem tanto pelo que não conseguiu jogar (algo compreensível diante da cirurgia que sofreu e o deixou três meses inativo), mas por suas atitudes de prima-dona insuportável e farsante contumaz. O topete de pintassilgo dourado, na estreia, foi de um ridículo atroz. E ninguém na comissão técnica teve coragem de dizer a ele o mico que iria pagar. Se bobear, houve quem garantisse que, em caso de vitória, faria penteado idêntico...

O teatro absurdo e grotesco dos arrancos de cachorro atropelado a cada contato com os adversários revoltou não somente os adversários, mas a maioria do mundo do futebol, conseguindo irritar até os brasileiros que, torcida à parte, reconheciam naquele ritual farsesco algo desnecessário e contraproducente – basta ver a má vontade que todos os árbitros passaram a demonstrar com ele e com a seleção. Afinal, como ser a favor de alguém que entra em campo disposto a fraudar o seu trabalho?

Ah, mas em sua conta no Instagram Neymar disse que está difícil até encontrar forças para voltar ao futebol. Coitadinho, não é, Edu Gaspar?
 
RENATO MAURICIO PRADO

July 8, 2018

As Brazil Crashes Out, the Magic Appears to Be Gone, Too



  • By Rory Smith, www.nytimes.com
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  • KAZAN, Russia — It is a fine line between respect and deference, and in the days before they came face to face with Brazil, Belgium’s players and staff did all they could to navigate it.
    A World Cup quarterfinal against Brazil was a challenge, defender Vincent Kompany said, but he and his teammates would not be “losing sleep” over the identity of their opponents. There was “no weakness” in Brazil’s team, according to striker Romelu Lukaku, although “defensively, they can be taken” on.
    2018-07-06T22:00:00.000Z World Cup 2018: Brazil vs. Belgium
    Belgium’s coach, Roberto Martínez, would concede only one advantage to his opponent before his team beat Brazil, 2-1, on Friday. “The difference is, we have not won the World Cup, and they have won it five times,” he said. “Brazil has got that psychological barrier out of the way.”
    That weight of history, of course, is what lends Brazil its magic. It is what makes Brazil the world’s most prestigious national team, a byword not just for taste and style but for success, too. That ultimate marriage of style and substance is what makes the sight of those canary yellow jerseys, blue shorts and white socks so enchanting, what makes the colors gleam just a little brighter.
    [Up Next: Follow our live coverage of England vs. Sweden]
    To see them is to remember Pelé and Jairzinho, Romário and Ronaldo, all of the single-name stars who emerged, every four years, to light up a tournament and so many childhoods. It is to recall the goals they scored and the World Cups they won, the stories of their indelible greatness the world was told when it was young.
    It is the same whether you are a fan or a player: Brazil is different; Brazil is special. Martínez is quite right — that effect must count for something, at some level, however deep in the subconscious. It must bewitch those who find themselves tasked with stopping the thing that so inspired them.
    And yet if those jerseys are intimidating to see, they are surely no less daunting to wear. All those greats, all those ghosts, on your shoulders and on your back, reminding you of what you are supposed to achieve, who you are supposed to be, that only victory counts as success and everything else is failure.
    But Martínez was also quite wrong. Brazil might have won five World Cups, but this Brazil team — this Brazil generation — has not won any, and it will be painfully, crushingly aware of it.
    There are five stars on Brazil’s jersey representing those championships, but the last one was added in 2002. After this defeat, the soonest a sixth can join it is in 2022, a wait of two long decades for a nation that — for all the romance of jogo bonito — values only victory. This team, like the three that have gone before it, has failed.
    There has not even been a succession of near misses. Brazil fell in the quarterfinals in 2006 and 2010, just as it has in Russia. It went one step further on home soil in 2014, but found only humiliation, the sort that can scar a nation, waiting there.
    Every time, the rhythm of the country’s reaction has been the same. There is a bout of soul-searching; the manager is sacked; a new coach promises to make the team more resilient, more tenacious. He does this by playing with more defensive midfielders. It does not work. The cycle begins again.
    This time, it is even harder to believe such a response would be proportionate. Brazil was not embarrassed by Belgium: Tite’s team created more than enough chances to have forced extra time, at the very least. It can regard itself unfortunate not to have been awarded a penalty for a foul on Gabriel Jesus. It can believe itself cursed that, in the first half in particular, Belgium defended so effectively by accident, rather than by design.
    Not every defeat is proof of some spiritual failing. Not every defeat means everything is wrong. Certainly, there is no shortage of talent on this Brazilian squad, just as there was no shortage of talent in any of the squads since 2002. Neymar is not a mirage, and neither are Jesus, Philippe Coutinho, Douglas Costa and the others.
    There are some aging legs in the back line, and something of a dearth of young, dynamic fullbacks, but this is a country that exports thousands of players every year. It is a place where players will continue to grow.
    That is what has allowed Brazil to build its history, that endless flowering of talent, one star replaced smoothly by another, year after year, cycle after cycle, decade after decade.
    What has happened since 2002, though, suggests this is no longer the advantage it once was. The playing field has been leveled: Brazil is no longer pre-eminent in the way it once was, possessed of enough raw brilliance to carry it through. The explanation for that does not lie in Brazil’s shortcomings, but in someone else’s strengths.
    It is not a coincidence that all four of this year’s World Cup semifinalists, whatever happens in the second set of quarterfinals, are from Europe. This is, increasingly, a European competition. All four of the most recent world champions have been European. Since 1990, what might be broadly termed soccer’s modern era, there have been eight World Cups. Brazil has won two. Europe will have picked up the rest.
    At least one manager here has confided privately that Europe’s power — in terms of finance, influence, and physicality — has become almost impossible to compete with, certainly for Africa, Asia and North America, and increasingly for South America, the game’s other traditional stronghold.
    The major nations of the Old World have industrialized youth development so effectively that France, Germany and Spain can now rival Brazil and Argentina as a source of players. Its smaller countries have such easy access to best practices that their size is no longer an issue. Their players and coaches can be exported easily to the best leagues in the world. The latest developments in coaching, sports science, nutrition and the rest can be imported rapidly. It is that process that allowed Iceland to draw with Argentina, and be a little disappointed it did not win. It is that process that has left Belgium in the World Cup semifinals, and Croatia and Sweden with hopes of joining them.
    And it is that process that has seen Brazil come and go from four World Cups, all without success. Each one, each failing, simply adds to the pressure that awaits the next team to try to end the wait, to try to overcome all of the advantages that Europe can call on.
    The players in those yellow jerseys know as well as anyone that Brazil has won five World Cups. They know more than everyone that they have not contributed to any of them. Increasingly, those victories are not a psychological barrier that lies broken at their feet, but one that towers above them, standing in their way, casting them into shadow.
     

July 6, 2018

Mbappé, Jesus e os Mascheranos do sofá



Márvio dos Anjos

Javier Mascherano foi um dos símbolos da gana argentina em 2014, quando a equipe de Sabella chegou à final contra a Alemanha e perdeu. Quatro anos depois, perdeu vaga no Barcelona, migrou para a China e, na seleção zumbi, foi uma imitação de si mesmo.

O sangue que escorria do seu supercílio esquerdo na vitória sobre a Nigéria evocava uma bravura, como que para justificar sua posição de titular. Quando Jorge Sampaoli perdeu a confiança, o comando e a vergonha, Mascherano foi fotografado ao seu lado, apontando para a prancheta, técnico ‘de facto’. Se a humildade temperasse a ânsia por glórias, talvez se deixasse no banco, liderando, mas sem atrapalhar.
O tempo passou por Masche tão rápido quanto lhe escapou Kylian Mbappé, que, aos 19 anos parece movido por todos os sonhos da França — alguns deles, muito especiais, evocados por um gesto público de solidariedade.
O jornal “L’Équipe” revelou que o atacante do Paris Saint-Germain doa seu salário por jogo a instituições de caridade. Seus empresários fizeram um acerto com a Federação Francesa de Futebol para que os 20 mil euros a que têm direito por jogo fossem pagos diretamente a ONGs que assistem crianças deficientes.
O exemplo deverá ser seguido por outros do lado africano da equipe bleu: o zagueiro Samuel Umtiti, camaronês como o pai de Mbappé, já anunciou intenção de acompanhar Kylian na solidariedade. Ainda que o Evangelho de Mateus seja contra caridade em público, é reconfortante saber que um dos prodígios do futebol, milionário antes dos 20, já entende que não precisa de tudo que ganha.
Só lhe falta entender o lugar da crítica: Mbappé decidiu boicotar a imprensa. Na Rússia, fala apenas com a transmissão oficial, enquanto corre do batalhão reporteiro da zona mista. O que levou o comentarista Éric Cantona, lenda do futebol e da galhofa, a apontar-lhe a arrogância e a sugerir-lhe outro emprego, mais discreto.
Haverá críticos bons e ruins, monsieur Mbappé, como haverá jogadores bons e ruins. A crônica esportiva é a tentativa de controlar dois cavalos que puxam uma biga: um é a análise do jogo em si, a mais correta sobre os modos de ganhar e perder; o outro é a representação dos anseios dos torcedores e o impacto sobre eles, que são afinal quem justifica o tratamento do futebol como tema de interesse público.
É nocivo neutralizar a aspecto emocional, porque o futebol é uma paixão; ao mesmo tempo, não é correto deixar de ponderar o contexto maior das ações, que às vezes se traduzem em sutilezas pouco captadas pelo grande público e até por alguns jornalistas. O pior cego — você sabe porque Nelson dizia — é o que só vê a bola.
Quem diz, por exemplo, que Gabriel Jesus teve má atuação contra os gigantes da Sérvia não percebeu sua movimentação no primeiro gol: o garoto se aproxima de Veljkovic e o “atrai”, como um ímã, até perto de outro zagueiro. Assim, escancara-se um imenso corredor na direita para a penetração de Paulinho. Sem esse magnetismo, Veljkovic estaria lá, fechando o portão. Pouco importa que Jesus esteja zerado na Copa: o Brasil não está. E isso graças a Jesus, que executou um movimento precisamente ensaiado por Tite, a fim de aproveitar a letalidade do volante.
Deixar de notar o que Jesus e Mbappé fazem no momento em que surgem no teatro mundial — com e sem a bola — é ser um Mascherano do sofá: uma imitação de especialista, narcisisticamente preso a tudo que é anterior ao jogo. Onde os favoritos são sempre os mesmos, onde os ídolos não falham e onde basta ver a bola e os nomões consagrados, como se nada mais os cercasse.

July 4, 2018

Shattered Glass, Switched Vote: More Turbulence for Brazil’s Soccer Federation


  • By Tariq Panja, www.nytimes.com
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  • MOSCOW — It is fair to say Colonel Antonio Nunes, the president of Brazil’s soccer federation, has endured a tough start to the World Cup.
    Hounded by the news media and criticized by fellow South American soccer leaders after backtracking on a collective pact to vote for the North American bid to stage the 2026 World Cup, Nunes, 80, has been in a type of self-imposed exile in Moscow. He has been staying away from official functions, beyond his national team’s games, and generally keeping a low profile.
    But any hopes he had of avoiding attention outside the Russian capital quickly evaporated within hours of his arrival in St. Petersburg on Thursday, a day before Brazil’s national team squared off against Costa Rica in its second game.
    What was supposed to be a low-key dinner with other federation officials at the Stroganoff Steak House in Russia’s second city descended into yet more controversy — and the type of negative headlines that have stubbornly clung to the scandal-plagued Brazilian federation ever since all three of Nunes’s predecessors were named in a sprawling soccer corruption indictment by the United States Department of Justice in 2015.
    While the group was eating on Thursday, a Brazilian fan spotted Nunes, exchanged insults with the administrator and shoved him. That prompted Gilberto Barbosa, a sort of aide-de-camp to Nunes, to respond by smashing a drinking glass over the fan’s head. The incident forced the restaurant to close earlier than planned, a short time before a photo of the supporter’s head swathed in a large white bandage quickly appeared online.
    To be sure, the chaos in the restaurant was an extreme example of a federation making unwelcome news. And Brazil’s soccer body is not the only one engulfed in institutional crisis: Neighboring Argentina was until recently put under special measures by FIFA, and earlier this month Ghana’s federation faced dissolution amid yet more corruption allegations.
    Still, Brazil’s status as a record five-time World Cup champion gives its leaders a special place in soccer’s firmament, whether its officials live up to that role or not.
    Barbosa, known as Giba, a looming presence alongside Nunes wherever he traveled in Russia, was quickly sent home to Brazil after the restaurant incident. Approached for comment, Nunes waggled his finger, declining to speak about the matter. Rogerio Caboclo, who has been elected to replace Nunes when his term ends next year, was wary about commenting on the situation.
    “We would love to have control over everything, but in the end things like this happen,” Caboclo told The New York Times.
    That episode, and incidents like the federation’s loud complaints about refereeing decisions and the World Cup’s new video assistant referee system, contrast with the relative tranquillity of the Brazilian soccer team under its coach, Tite. The team appears to have recovered sufficiently from its humiliating 7-1 semifinal defeat to Germany at the 2014 World Cup and is now regarded among the favorites to win the title in Russia.
    Off the field, though, things are clearly taking longer to heal.
    Nunes’s presidency was born out of crisis. Little known before his unlikely ascent, the former military policeman first took charge as a stand-in while Marco Polo del Nero — wanted in the United States on the corruption charges — took a four-month leave of absence. Nunes assumed the role permanently after Del Nero was first suspended and then banned for life by world soccer’s governing body, FIFA, following its own corruption investigation. Del Nero had carried on running the federation, known by its acronym the C.B.F., for almost two years while facing the charges, but had steadfastly refused to leave Brazil for fear of arrest.
    Nunes ascended to the top spot in Brazilian soccer almost accidentally, and by virtue of his advanced age. He was first elected into the role of a vice president, and weeks later assumed the temporary presidency when Del Nero stepped down under rules that confer seniority onto the oldest among the vice presidents.
    Though he’s nominally in charge, Nunes, universally referred to as the Colonel, appears to have little day-to-day control over operations; that is left to a group that includes to federation’s secretary general, Walter Feldman; Coboclo; and — according to the Brazilian news media — Del Nero.
    “In the background, C.B.F now has three presidents,” said Jamil Chade, the author of “Politics, Bribery and Football,” a Portuguese-language book on how soccer is run in Brazil, South America’s biggest nation. “The president-in-command does not command and is only there to avoid a vacuum of power. There is an elected president who will only assume power in 2019, and finally there is the president, who actually commands but in fact is banned from football.”
    Still, Nunes had enough power to have control over Brazil’s vote when more than 200 national associations voted June 13 to choose the host for the 2026 World Cup. Nunes was present and signed an accord months earlier with 10 other South American leaders to pick a combined North American bid, and he was even reminded of it by colleagues minutes before it was time to push the button.
    Seemingly oblivious to the fact that FIFA had agreed to make public the details of the vote, Nunes instead opted to vote for Morocco, the North Americans’ only rival. Initially, when he was asked by reporters why he had picked Morocco in violation of a public declaration to support its rival, Nunes said he couldn’t comment because the vote was secret. Then, confronted with proof, he first said it was another delegate who had voted before eventually admitting he had picked Morocco because it hadn’t hosted the World Cup before.
    Days later, after Nunes failed to show up at the inauguration of a World Cup facility created in Moscow by Conmebol, the South American regional body, Argentina’s soccer president described his actions as “treacherous” and Conmebol president Alejandro Dominguez said they had damaged the image of the regional organization. On Saturday, Nunes missed another major Conmebol event; Caboclo said Nunes’s decision to stay away was a “personal decision.”
    In his absence, it’s been left to Caboclo and Fernando Sarney, Brazil’s representative on FIFA’s governing council, to mend relations with other South American nations.
    For Brazilians, the apparent institutional chaos at the C.B.F. reflects wider problems in Brazil, which is in the grip of a yearslong corruption investigation that has brought down some of the country’s most well-known business leaders and a handful of politicians, including the former president Luiz Inácio Lula da Silva.
    Yet soccer’s popularity in Brazil, especially when the national team plays well, as it did in qualifying and in its win on Friday, sometimes shields the federation from even worse criticism.
    “Without doubt when things are going well we have much more tranquillity and calmness to work,” said Caboclo, though he acknowledged that the cash-rich, scandal-plagued C.B.F. still had much work to do to regain public trust.
    “What exists here is a question of public opinion that in time will be back on track,” he said.

    © 2018 The New York Times Company.