August 29, 2021

Intervenção militar para defender democracia não é golpe, diz ex-comandante da Rota

 


Fábio Zanini

Ex-comandante da Rota, batalhão de elite da Polícia Militar de São Paulo, e de diversos regimentos da corporação ao longo de 35 anos de carreira, o coronel reformado Alberto Sardilli, 52, diz que a maioria da tropa é bolsonarista. E que por isso haverá adesão de policiais, inclusive da ativa, ao ato de 7 de setembro na avenida Paulista.

“O presidente é militar, a tropa se identifica com essa questão, ele preza valores que são os da PM há 200 anos”, afirma Sardilli, atualmente chefe de gabinete do deputado estadual paulista Frederico D’Avila (PSL).

Ele defende o coronel Aleksander Lacerda, afastado de uma função de comando após ter feitos postagens convocando para a manifestação em uma rede social, e diz que a punição aplicada pelo governador João Doria (PSDB) gerou revolta na corporação.

Sardilli diz ainda que a PM é comprometida com a democracia, mas que apoiará as Forças Armadas caso se chegue ao “limite extremo” de uma intervenção.

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Como será a participação de PMs de SP nas manifestações de 7 de setembro? Até sábado, havia um movimento razoável. Depois do episódio do coronel Aleksander, a coisa tomou uma proporção muito maior. O pessoal não aceitou, não viu com bons olhos a intervenção política do governador. A tropa e mesmo os oficiais da ativa ficaram inconformados. Falam de ala bolsonarista na PM, eu discordo. A maioria da PM é bolsonarista. Muito mais da metade, mais de 80%.

Por quê? Não são apenas as ideias do presidente. O comportamento do governador faz a tropa ir para o lado do Bolsonaro. O presidente é militar, a tropa se identifica com essa questão, ele preza valores que são os da PM há 200 anos. O governador acha que a tropa que amassa barro, que toma sol e chuva, vai lamber o sapatinho italiano dele.

Quais são esses valores compartilhados entre Bolsonaro e a PM? Valores da família, da correção, da transparência, de falar a verdade. E de Deus principalmente. A tropa normalmente é formada por pessoas muito simples, valorosas. Não estão acostumados com mentira. Eu concordo que a forma como o presidente se expressa cria às vezes uma indignação. Mas indignação mesmo é ouvir mentira deslavada. A PM ouviu uma promessa de campanha de que seria a segunda mais bem paga do Brasil. O cara justifica usando tudo que é artifício. A tropa não é trouxa. Prefere quem fala palavrão, mas fala a verdade.

O caso do coronel Aleksander não foi de insubordinação? O coitado do coronel foi lá se expressar na rede social dele. Rede privada dele. Sequer ele cita que é coronel ali. Às vezes parece que policial militar é cidadão de segunda categoria, não tem os mesmos direitos do cidadão comum.

Existem regras na PM que proíbem manifestação política. Manifestação política é diferente de manifestação cívica. Chamar as pessoas para ir para um desfile de 7 de setembro não tem nada de político. Manifestação política é o cara participar de um partido, de sindicato. No máximo ele foi malcriado.

Ele chama o Doria de cepa indiana. O Doria não aplaude a China, a Índia?

Não tem uma questão de respeito à hierarquia? A rede social é dele, pessoal. Se estivesse fardado, fazendo um vídeo, na rede da corporação, eu até entendo. Esse afastamento foi um ato político, ele sequer foi ouvido. Não teve direito a defesa. Se o Doria for afastar todo mundo de que não gosta, vai precisar contratar vigilância privada. Da PM não fica ninguém.

Esse episódio vai fazer muitos policiais militares repensarem a participação no ato de 7 de setembro? Pelo contrário. Vai ter muito PM que vai para o ato por causa disso.

Inclusive da ativa? Inclusive da ativa. O cara pode ir, se ele estiver à paisana. O 7 de setembro é a maior data cívica brasileira. Só não pode ir fardado.

A presença do Bolsonaro não torna a manifestação política? Discordo, porque o Bolsonaro nem partido político hoje tem. Ele é o presidente da República.

Qual o grau de comprometimento dos PMs com a democracia? Militar estadual sabe a missão que tem. Não vai embalar interesse politiqueiro de ninguém. A PM de São Paulo é tropa reserva das Forças Armadas, isso é dispositivo constitucional. A disciplina enverga, mas não quebra. A gente é tropa de Estado, não de governo. Governador fica quatro anos, nós vamos completar 200 anos. Já passamos por revolução, guerra, a gente é legalista. Agora, não se enganem. A gente não fala, não vai se expor com discursos, mas age na hora que tiver que agir conforme a Constituição. Se o Exército entender que precisa tomar alguma medida, as polícia militares continuam seguindo a Constituição.

Acionar o artigo 142 da Constituição [geralmente citado como justificativa para intervenção militar] seria seguir a legalidade? Se for acionado e o Exército demandar, estaremos dentro da legislação. Não vai caber a nós questionamentos.

Mas o sr. entende que o artigo dá às Forças Armadas o chamado Poder Moderador? Não sei se o melhor termo é Poder Moderador. As Forças Armadas são a ferramenta do país para manter a Constituição. Os Poderes são formados por pessoas, e as pessoas podem eventualmente errar. Às vezes o próprio Poder acaba errando. Hoje a gente vê algumas medidas sendo tomadas ao arrepio do que todo mundo espera.

O sr. está falando do Supremo? Por parte de qualquer órgão, em especial o Supremo. Não vou colocar nomes aqui. Mas a gente vê medidas que inconformam a população. Vamos seguir o que diz a Constituição. Se realmente houver quebra da paridade dos Poderes, da independência, certamente vamos ter que tomar uma medida para voltar à condição democrática original. O que a gente mais preza é a democracia.

Essa medida seria uma intervenção das Forças Armadas? A gente pode chegar nesse limite. É um limite extremo que ninguém quer, mas ele é possível.

Isso não seria golpe? Não é golpe. Golpe é ter meia dúzia de generais e depor o presidente, independente de condições anteriores. Agora, você intervir em uma condição em que determinado órgão, a exemplo do STF, toma medidas não refletindo o senso de justiça para a maioria da população brasileira, não acho que é golpe. Se você vai apanhar de alguém, você se defende. E é o papel das Forças Armadas, defender o país.

Como o sr. acha que a PM se posiciona quanto ao voto impresso? Poderia apoiar o Bolsonaro, caso ele não aceite uma derrota eleitoral? Voto impresso simplesmente seria uma forma de o eleitor olhar o que digitou, de ser uma possibilidade e conferência. Sou favorável. Tudo que der transparência aos atos vale a pena. Quem tem o discurso do voto impresso está defendendo a democracia.

O sr. foi nomeado para chefiar a Rota pelo hoje ministro Alexandre de Moraes, quando ele era secretário de Segurança Pública. O que acha dele hoje? Eu vou pelas ideias, não pelas pessoas. Eu tinha pelo Alexandre uma grande admiração, mesmo ele sendo questionado por muitos oficiais. Hoje eu não tenho a mesma admiração.

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August 21, 2021

Three People I Would Interview About Afghanistan


 

As I watch events in Afghanistan unfold, I find myself trying to ignore all the commentary and longing instead to interview three people: President Lyndon Johnson, Chinese President Xi Jinping and Mohammed Zahir Shah, the last king of Afghanistan.

Friedman: President Johnson, what did you think of Joe Biden’s speech about quitting Afghanistan?

Johnson: I listened to it, and I have to say that I choked up. If only I had had the guts to give that speech on April 7, 1965, about America’s involvement in Vietnam — the war that I inherited and then expanded with that speech. Promise me one thing: You won’t link to that speech.

Friedman: Sorry, Mr. President, but I already did. Here are some highlights of what you said to justify sending more troops into Vietnam:

Why are we in South Vietnam? We are there because we have a promise to keep. Since 1954, every American president has offered support to the people of South Vietnam. … We are also there to strengthen world order. Around the globe, from Berlin to Thailand, are people whose well-being rests, in part, on the belief that they can count on us if they are attacked. … We are also there because there are great stakes in the balance.

Let no one think for a moment that retreat from Vietnam would bring an end to conflict. The battle would be renewed in one country and then another. … Thus it became necessary for us to increase our response and to make attacks by air. This is not a change of purpose. It is a change in what we believe that purpose requires. … We do this to increase the confidence of the brave people of South Vietnam, who have bravely borne this brutal battle for so many years with so many casualties. … We will not be defeated. We will not grow tired.

Johnson: Yes, Mr. Friedman, I wish I had said what Biden did — and what his predecessors never would: “How many more generations of America’s daughters and sons would you have me send to fight Afghanistan’s civil war when Afghan troops will not?’’

Friedman: President Xi, what do you think of all the American commentators proclaiming China a winner from Biden’s withdrawal of U.S. forces from Afghanistan?

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Xi: Oh, my, these are what we call useful idiots. What planet are these people living on? We had a perfect situation going before Biden came along. America was hemorrhaging lives, money, energy and focus in Afghanistan — and its presence was making the country just safe enough for Chinese multinationals to exploit.

The Metallurgical Corporation of China and Jiangxi Copper had a contract to develop a copper mine in Mes Aynak, and the China National Petroleum Corporation was working on a field in the north of the country — and the Americans were funding the overall security. That is our idea of perfection! Alas, neither of these projects ever got off the ground because of the craziness in the Kabul government. But Afghanistan is hugely rich in minerals we need. Who will protect our investors after the Americans have stopped doing it for free? Not me.

Friedman: How about the Taliban?

Xi: The Taliban?! You think that we trust them? Have you noticed what their brothers in the Pakistani Taliban have been doing to our investments in Pakistan? Just read The Wall Street Journal from July 28:

ISLAMABAD, Pakistan — A gunman opened fire on a car carrying two engineers in the southern port city of Karachi, the latest attack on Chinese nationals in close ally Pakistan. … Chinese nationals have been the victims of multiple recent attacks in Pakistan. Earlier this month, a bombing killed nine Chinese construction workers in a bus being taken to the site of a dam being built in northern Pakistan. Targets of other attacks in recent years include the Chinese Consulate in Karachi, the partly Chinese-owned stock exchange in Karachi and a hotel in the Chinese-run port of Gwadar.

Xi: Pakistan cannot even keep us safe from its own Taliban and Baloch separatists — in their own country — and we own Pakistan! And don’t even get me started on how the Taliban victory could inspire our Uyghur Muslims. … Joe, Joe, what did you do to us, Joe? You should have listened to your foreign policy experts and stayed in Afghanistan. The last thing we want is you refocusing all of America’s resources and energy on competing with us for the industries of the 21st century, instead of chasing the Taliban around the Hindu Kush.

Friedman: Mohammed Zahir Shah was the last king of Afghanistan, who ruled from 1933 until he was deposed by his brother-in-law in 1973, triggering nearly a half-century of coups, wars and invasions. He was the last of a 226-year dynasty of Pashtun monarchs to rule Afghanistan.

Your Highness, what do you think of Biden’s decision to just quit Afghanistan and of the Taliban takeover?

Zahir: Let me tell you a few things about my country. The first thing you have to know is that we are and always will be a mosaic of many different languages and cultures and ethnicities and approaches to Islam. There are 14 ethnic groups recognized in our national anthem — Pashtuns, Tajiks, Hazaras, Uzbeks, Balochis, Turkmens, Nooristanis, Pamiris, Arabs, Gujars, Brahuis, Qizilbash, Aimaq and Pashai. We have Sunni, Sufi and Shiite Muslims. The reason the country was relatively peaceful under my leadership, until my idiot cousin toppled me, was that people saw me as a unifying symbol to whom they could all relate.

The Taliban represent only one element in our mosaic — Pashtun Sunni Islamism. Since they were ousted by the Americans 20 years ago, all they have been thinking about is how to again own the Afghanistan they lost, not how to govern anew the Afghanistan that exists today.

Let me tell you, Mr. Friedman, more than 70 percent of Afghanistan’s population is under 25 years old. Most of them know nothing about the Taliban and have never heard of Mullah Omar — just like all those 20-somethings in Iran who have never heard of the shah and give Iran’s Islamic rulers grief every day. They have been raised in a different Afghanistan, in a different age, and they will not easily give up the freedoms they enjoyed these past 20 years, even if the country was a mess.

Tribes in this part of the world, Mr. Friedman, have a saying: Me and my brother against my cousin. Me and my brother and my cousin against the outsider.

Americans were the outsider, and the Taliban could always find plenty of passive and active cousins for its project of getting you out. But now they and their brothers will have to deal with all their cousins inside — from those 14 different ethnicities — and that will be a different story. The Taliban have no idea how to govern a modern country. Vietnam’s nationalist leader, Ho Chi Minh, spent his exile in Paris. These Taliban guys studied, at best, in madrasas in Pakistan, where they don’t even teach science.

And then there’s the money. The American occupation was to Afghanistan what oil is to Saudi Arabia. You were like an oil well that didn’t dry up. But now that you’re gone, so is all that income to run the government and pay salaries. How are the Taliban going to replace it? You can smuggle only so many drugs to Europe. Sure, the Chinese will throw them some crumbs to keep them away from the Uyghurs. But there are no more sucker superpowers out there that want to come in and run this place, because they all now know that all they’ll win is a bill.

Here is my prediction: The Taliban will either form a national unity government with all the major ethnic and tribal groups, under loose centralized control — and it will sort of hold the country together and be able to enlist foreign aid — or they won’t. If they do, President Biden’s bet on getting out will prove right — that America’s presence was actually preventing Afghans from compromising and coming together to govern themselves. Maybe they will even find one of my family’s descendants to be the symbolic unifier. I repeat: My reign corresponded with one of the most peaceful eras in Afghan history.

But if the Taliban try to keep power all by themselves, with no cousins, watch out. The country will eventually resist it, the Taliban will crack down harder, and Afghanistan will not implode — it will explode. It will break up into different regions and hemorrhage refugees and instability. It will be very ugly, and America and Biden will be blamed for the chaos. But America will also be gone. Afghanistan then will be a huge problem for its neighbors, particularly Pakistan, China, Russia and Iran.

Friedman: Hmm. Pakistan, China, Russia and Iran? Maybe Biden had that in mind all along.

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August 20, 2021

Taliban Quash Protests and Seize Enemies, Tightening Grip on Afghanistan

 




MARC SANTORA RICHARD PÉREZ-PEÑA Carlotta Gall, 
The New York Times
 

The Taliban cracked down on protests that erupted in at least four cities in Afghanistan on Thursday and rounded up opponents despite promises of amnesty, even as fearful workers stayed home and thousands of people continued a frenzied rush to leave the country.

Even as the Taliban moved to assert control, hundreds of protesters took to the streets for a second day to rally against their rule, this time marching in Kabul, the capital, as well as other cities. Again, the Taliban met them with force, using gunfire and beatings to disperse crowds. And again the actions of Taliban foot soldiers undermined the leadership’s suggestions that, having taken power, they would moderate the brutality they have long been known for.

The police officers who served the old government have melted away, and instead armed Taliban fighters are operating checkpoints and directing traffic, administering their notions of justice as they see fit, with little consistency from one to another.

The Taliban were stepping up an intensive search for people who worked with U.S. and NATO forces, particularly members of the former Afghan security services, according to witnesses and a security assessment prepared for the United Nations. Though the Taliban have said there would be no reprisals, there have been arrests, property seizures and scattered reports of reprisal killings.

Credit...Victor J. Blue for The New York Times

Kabul’s international airport remained a scene of desperation, as thousands struggled to get in and board flights out.

Millions of other Afghans, including critical workers, particularly women, hid in their homes despite Taliban calls for them to return to work, fearing either retribution or the harsh repression of women that the militants instituted when they ruled from 1996 to 2001. Aid agencies said services like electricity, sanitation, water and health care could soon be affected.

The Taliban seized control of city after city with remarkable speed once most U.S. forces had withdrawn, brushed aside the demoralized and disorganized Afghan security forces, and swept into Kabul on Sunday. Now they are learning that while conquest may have been swift, governing a vibrant, freethinking society is not so easy.

The anti-Taliban protests have been a remarkable display of defiance of a group that has a long history of controlling communities through fear and meeting dissent with lethal force. The protests also offered evidence that while tens of thousands are now seeking escape, some of those left behind would try — for now, at least — to have a voice in the country’s direction, despite the growing crackdown.

There were news reports of several people killed in the eastern city of Asadabad when Taliban fighters opened fire Thursday at a rally of people waving the flag of the deposed government, marking Afghanistan’s annual celebration of gaining independence from Britain in 1919. It was not clear whether the victims had been shot or had died in a stampede.

There were even demonstrators waving the flag in Kandahar, the southern city that is considered the birthplace of the Taliban. In the southeastern city of Khost, the group imposed a curfew, a day after demonstrations and clashes there. The protests on Thursday in Kabul included one near the presidential palace, and another that drew about 200 people before the Taliban used force to break it up.

The events, led primarily by young men and women, were a wholly new experience for Taliban insurgents who have spent the last 20 years mostly in the mountains and rural districts of Afghanistan and Pakistan.

When the Taliban last held power, before being toppled by the U.S.-led invasion in 2001, Kabul was a dingy ruin, the population crushed by poverty and harsh rule and isolated from the world. But even as war dragged on, a new generation of educated, ambitious and media-savvy Afghans grew up in the cities — young people, including women, accustomed to making themselves heard.

Though Taliban leaders are in talks with former leaders of the deposed government about forming an inclusive governing council, on Thursday they declared the Islamic Emirate of Afghanistan — the same name they used a generation ago.

The tricolor flag flown by the collapsed government, taken down by the Taliban and replaced by their own banner, has become a repeated flash point, with people in multiple cities beaten for displaying it. On Wednesday, the Taliban fired on demonstrators waving the flag in the eastern city of Jalalabad, with reports of two or three people killed.

“Salute those who carry the national flag and thus stand for dignity of the nation and the country,” Amrullah Saleh, a vice president in the former government who has declared himself the acting president, wrote on Twitter. Mr. Saleh has holed up with local leaders in the Panjshir Valley in northeastern Afghanistan who control a group of fighters and so far refuse to acknowledge Taliban rule.

One of the protesters in Kandahar, Noorayel Kaliwal, tweeted on Thursday: “Our demand is that no government, system or group in Afghanistan change the national flag of Afghanistan.” He added that he supported a democratic system in the country, had been detained by the Taliban in July for his activism and was moving around to avoid arrest.

In Kabul, Hasiba Atakpal, a journalist from the Afghan news channel Tolo News, said that Taliban soldiers had stopped her reporting in the street. “They seized the camera from me, hit my colleague and fired in the air,” she said on Twitter.

She added that after the Taliban spokesman’s first news briefing, held on Tuesday, when he insisted that the rights of the media and women would be respected, she had not expected much good to come.

“I had low expectations but now it has become clear that there is a gap between action and words,” Ms. Atakpal said.

Residents of Kabul were feeling their way under the new regime gingerly. The streets were quiet, largely empty of traffic, interrupted by occasional bursts of gunfire and the roar of American military planes patrolling and conducting the round-the-clock evacuation.

With long experience of war and upheaval, most people stayed home. In particular, few women were on the street, though some ventured out without wearing the head-to-toe burqa once mandated under the Taliban, which forbid women from holding jobs or even venturing out of their homes without a male relative.

Schools were closed in Kabul on Thursday, as were most offices and banks. Electricity had been out for two days, one resident said.

The caution that has touched every household is the dread inspired by the Taliban soldiers who brandish their assault rifles and rockets with a calculated carelessness.

“They look very scary, as they have long hair and are very heavily armed,” said Masoom Shesta, 38, a trader in downtown Kabul.

Another resident said he had been forced to make a rapid U-turn when shooting broke out as he drove through the city.

Many Kabulis were already changing their ways to comply with the strict social regulations expected to come into force.

One woman complained that popular Turkish television serials were no longer airing, after cable companies closed down their services. The Taliban, which banned all television during their previous time in power, have since embraced media as a propaganda tool, and cable companies were already anticipating new rules on morally acceptable content in accordance with the militants’ strict interpretation of Islamic law.

Mr. Shesta said he was deleting photos from his cellphone of him meeting with the former president, Ashraf Ghani, and other government officials, many of whom have fled the country. Mr. Ghani left the capital on Sunday, and several of his senior officials traveled to Turkey on Monday.

At the Kabul airport, which is still controlled by U.S. troops, the Taliban are in charge outside its blast walls and used force and intimidation to control access, beating people back and firing their rifles.

Individuals and families, some having waited for days, stood or sat amid pieces of former lives discarded by others in their haste to flee — shoes, scarves, whole suitcases. Some families waited in taxis. Others got out to walk. Parents carried small children.

On Thursday morning, a Taliban fighter stood on a concrete barricade, holding a radio and a pistol and shouting. Taxis inched forward along a road lined with abandoned cars.

“The Taliban are beating people,” said Hayatullah, a resident of Kabul, who asked that only his first name be published to avoid problems with the Taliban. “They use lashes to disperse the people and sometimes fire into the air.”

His son had tried most of the day to gain access to the airport, without success, and would have to try again tomorrow, he said.

In a video obtained by The New York Times on Wednesday, men in uniform fired their rifles — whether into the crowd or above it was not entirely clear — as some people screamed and others crouched. A man pounded on the back of a van to keep it from backing into his mother, whom he pushed in a wheelchair.

The Pentagon said Thursday that some 7,000 Americans and other evacuees, including Afghan allies of the United States, had been airlifted out of the airport. That is still well short of the 5,000 to 9,000 passengers a day that the military said it can fly out once the evacuation process is at full throttle.

The State Department said that 6,000 people were at the Kabul airport fully processed and waiting to board planes. There have been reports of non-American evacuation flights leaving with many empty seats, a sign of the difficulties facing people trying to make their way to the airport.

U.S. commanders said the 5,000 troops deployed to Kabul to secure the airport could not ensure anyone’s safe passage to the airport. President Biden said Wednesday in an ABC interview that U.S. troops might stay past the Aug. 31 withdrawal date he has set if they are needed to get all Americans out.

The Taliban have said they are not keeping people from the airport who have valid visas and tickets. One commander said they were limiting access to help the international evacuation effort, to avoid the kind of overcrowding and chaos that occurred on Monday, when people swarmed onto the runway and several were killed.

But there have also been reports of Taliban fighters turning away people with proper documentation, and scanning the crowds for former officials to detain.

The threat assessment drafted for the U.N. by an intelligence consulting group, the Norwegian Center for Global Analyses, cited multiple reports that the Taliban had a list of people to question and punish, as well as their locations. Military and police personnel and people who worked for investigative units of the toppled government were particularly at risk, according to the document, which was dated Wednesday.

Already, the Taliban were going door to door and “arresting and/or threatening to kill or arrest family members of target individuals unless they surrender themselves to the Taliban,” said the document, which was seen by The New York Times.

It contained a reproduced letter dated Aug. 16 from the Taliban to an unnamed counterterrorism official in Afghanistan who had worked with U.S. and British officials and then gone into hiding.

The letter instructed the official to report to the Military and Intelligence Commission of the Islamic Emirate of Afghanistan in Kabul. If not, it warned, the official’s family members “will be treated based on Shariah law.”

Victor J. Blue, Helene Cooper and Jim Huylebroek contributed reporting.

 

August 19, 2021

Após decisão do TSE, canais bolsonaristas apagam vídeos com ataques às urnas eletrônicas e a ministros do STF

 Youtube

 Marlen Couto

Ao menos 25 canais no YouTube alinhados ao presidente Jair Bolsonaro apagaram ou tornaram privados 263 vídeos com ataques às eleições brasileiras e a autoridades da Justiça Eleitoral e do Tribunal Superior Eleitoral (STF) nos últimos dias. A limpeza ocorreu após a decisão do ministro Luis Felipe Salomão, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que suspende os repasses de recursos financeiros de plataformas digitais a canais investigados por propagar desinformação sobre o processo eleitoral.

O monitoramento foi feito pela empresa de análise de dados Novelo Data, que filtrou as publicações a partir de palavras-chave para chegar aos números, como os nomes dos tribunais e de seus ministros, além de referências às urnas eletrônicas.

Na lista estão dois canais ligados ao youtuber bolsonarista Fernando Lisboa, conhecidos como Vlog do Lisboa, que foram alvos da determinação do TSE e somam mais de 800 mil seguidores. Foram excluídos dois vídeos, um deles com referências à live de Bolsonaro com alegações falsas de fraude nas urnas que levou o presidente a ser investigado e outro vídeo intitulado "Lula só GANHA com Fraude nas Urnas".

O canal com maior número de vídeos excluídos é o do youtuber Gustavo Gayer, com 59 postagens. A conta tem quase 500 mil inscritos e já teve postagens removidas pelo próprio YouTube por disseminar notícias falsas sobre a pandemia e apareceu no relatório enviado pela plataforma à CPI da Covid, em junho, como o segundo canal que mais arrecadou com monetização de vídeos desinformativos, com R$ 40,7 mil.

Uma das postagens de Gustavo Gayer excluídas era uma live feita no início de agosto com a também youtuber bolsonarista Camila Abdo, do canal Direto aos Fatos, também atingida pela desmonetização determinada pelo ministro Salomão. O tema discutido foi a proposta de impressão do voto que acabou rejeitada na Câmara. Gayer foi candidato a prefeito em Goiânia no ano passado pelo partido Democracia Cristã (DC), mas não foi eleito.
 
Outro canal que apagou postagens foi o "O Jacaré de Tanga", que tem mais de 1,2 milhão de inscritos e é mantido por Felipe Lintz, ex-candidato a prefeito de Mogi das Cruzes, em São Paulo, pelo PRTB. O perfil é alvo das apurações da CPI das Fake News no Congresso. Autointiulado "defensor de Deus, pátria e família", Lintz exibe fotos ao lado de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) nas redes sociais. Ao todo 26 vídeos do "O Jacaré de Tanga" foram tirados do ar ou colocados em modo privado.

Guilherme Felitti, da Novelo Data, destaca que canais bolsonaristas que difundem desinformação costumam remover vídeos nos dias seguintes a ações de instituições como o TSE, o STF e a Polícia Federal:

— Foi assim quando a PF fez a primeira ação do inquérito de fake news do STF em junho de 2020, foi assim quando o STF ordenou a prisão do deputado Daniel Silveira em fevereiro de 2021 e foi assim também quando Roberto Jefferson foi preso e o TSE vetou a monetização dos canais em um espaço de poucos dias.

Como mostrou o GLOBO, a decisão do corregedor do TSE contra a monetização de propagadores de mensagens falsas sobre as eleições atinge perfis ligados a 11 influenciadores digitais, além três veículos de mídia (Terça Livre, Folha Política e Jornal da Cidade Online) e um movimento político (Nas Ruas) apoiadores de Bolsonaro. A maior parte dos alvos da decisão pela suspensão de repasses de verbas publicitárias pelas redes sociais já era investigada no inquérito sobre a organização de atos antidemocráticos aberto no ano passado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes.
 
Segundo a Polícia Federal, os perfis alvos da decisão integram uma rede organizada para estimular a polarização do debate político, especialmente com o impulsionamento de mensagens falsas sobre fraudes no sistema eletrônico de votação.

 

 

August 11, 2021

We Can’t Trust Big Pharma to Make Enough Vaccines

 A health worker prepares a dose of the Pfizer coronavirus vaccine in Johannesburg, South Africa.

By
Matthew Herder
The Nation
 

Almost everyone agrees the world needs more Covid-19 vaccines. As we write, some countries have yet to administer even a single dose of vaccine, and current projections suggest many countries will have to wait until 2023 to start widespread vaccination.

Yet debate rages as to why the world is short on vaccines, and what barriers need to be overcome in order to make and distribute more. Intellectual property has become a flashpoint in the discussion.

According to the large European and American drug companies currently making Covid-19 vaccines, the status quo—vaccine scarcity for all except those who live in a few dozen rich countries—is inevitable and unfixable. These companies consistently reiterate a basic factual premise: They are the only ones that can make these vaccines, and they are making them as fast as they can. Moderna, Pfizer-BioNTech, AstraZeneca, and Johnson & Johnson are currently on track to ship enough vaccines to vaccinate a majority of adults in the rich countries of the world and to donate and sell a significantly smaller number of doses to low- and middle-income countries, at least until next year. These companies insist they would make more doses and reach more people, if only they could—but, alas, they cannot. Moreover, they say, sharing intellectual property—especially vaccine manufacturing know-how—will only slow down production.

What prevents vaccine makers from making more vaccines, they say, are material problems hardwired into the world economy: lack of quality-controlled factories and ingredients to make vaccines, lack of freezers to store vaccines, lack of engineers and other professionals to oversee everything, and so on. “The scarcity of vaccines is not because of intellectual property but because of regrettable production and distribution challenges,” wrote Michelle McMurry-Heath, president of one of the leading Big Pharma trade groups. Moderna’s CEO said earlier this month, “There is no mRNA manufacturing capacity in the world”—and thus no way to make mRNA-based Covid-19 vaccines any faster than Moderna and Pfizer-BioNTech are already doing.

But we doubt Big Pharma’s premise. Global vaccine scarcity is not inevitable—or, at least, it is not primarily dictated by fixed constraints in the world’s physical capacity to make, store, and distribute vaccines.

Numerous independent experts have surveyed supply and distribution chains, interviewed pharmaceutical companies around the world, and concluded that additional vaccine manufacturing could be brought online quickly—if not tomorrow, then in a matter of weeks or months. These estimates are much shorter than the 18 months or more that Moderna and other current market leaders often claim. In fact, in recent weeks, drug companies in Israel, Canada, Bangladesh, South Africa, and Denmark have all said they have unused vaccine manufacturing capacity that could be brought online in a matter of months, not years, to fight Covid-19—but only if the existing incumbent manufacturers (or the governments that oversee and subsidize those manufacturers) share resources and knowledge, and create a legal pathway for new entrants to sell their vaccines.

Shouldn’t a rational incumbent be “eager to find partners with the capabilities to expand production,” as some scholars have written, so as to sell more doses of its vaccine? Aren’t “all of the vaccine manufacturers…trying to increase supply as quickly as possible,” as another has claimed? In our view, there are at least two reasons to be skeptical of that refrain.

First, it is of course true that these companies can make more money when they sell more doses, and partnering with competitors to outsource steps of their manufacturing processes may enable them to sell more doses. (For example, Moderna and J&J have done some outsourcing, cautiously.) But these partnerships impose a tradeoff. They require the manufacturer to share some of its closely guarded trade secrets—precise ingredient lists, detailed instructions for production, and so on. Patent-holders share these secrets judiciously, protected by nondisclosure agreements and other contracts that strive to keep control of the valuable knowledge in the their hands, but inevitably some knowledge “leaks” to the competitor. Incumbents eager to guard their first-mover advantage in the Covid-19 vaccine marketplace—and extend that advantage into other disease areas—may refuse the tradeoff, choosing to keep their secrets close (and forgoing wider sales of their existing products). Indeed, Moderna and BioNTech have told investors they are currently applying their mRNA technology to develop a wide range of new vaccines and treatments for cancer, heart disease, influenza, HIV, and other diseases, which could become global blockbusters—unless their global competitors beat them to the punch.

Meanwhile, the Financial Times reported in April that certain conspicuously unnamed companies “have warned in private meetings with US trade and White House officials that giving up intellectual property rights [to Covid-19 vaccines] could allow China and Russia to exploit platforms such as mRNA, which could be used for other vaccines or even therapeutics for conditions such as cancer and heart problems in the future.”

Second, incumbent vaccine makers might, for rational economic reasons, choose not to make more Covid-19 vaccines. This point is somewhat counterintuitive, but, to put it bluntly, perpetuating the pandemic is better for business than ending it. Vaccine makers have strong financial incentives to keep the virus spreading, at least to some extent. (Matt Stoller has aptly described these incentives as “ghoulish.”) This observation is no conspiracy theory; the companies themselves have acknowledged the profits to be secured over a medium- to long-term horizon, if the virus endures. Pfizer’s CFO announced a few months ago that the company “sees significant opportunity” in Covid’s becoming endemic in the United States, Canada, and other rich countries—a recurring, perhaps even permanent, fixture of our lives—which could make Covid-19 vaccines a durable “franchise” for the company. Particularly devastating from a public health perspective, and particularly appealing from a franchise-building perspective, are so-called variants of concern, which may evade existing immunity. Pfizer’s CFO pointed specifically to “these emerging variants” in response to a Wall Street analyst’s question about “the need to revaccinate annually.” Pfizer has also said that it plans, at some point in the foreseeable future, to end its so-called “low-cost” “pandemic pricing”—approximately $20 per dose—and begin charging more “normal” prices—perhaps as much as $175 per dose. Moderna’s CEO has similarly stated that Moderna expects to sell annual Covid-19 vaccine booster shots for the foreseeable future, as the virus is “not leaving the planet.” Moderna’s CEO went on to contemplate Moderna selling an annual booster shot “at your local CVS store” “that would protect you against the variant of concern against Covid and the seasonal flu strain.”

As the first-mover vaccine makers have admitted, demand for lucrative booster shots in rich countries will depend, at least in part, on the emergence of new variants of concern. Those variants will emerge if—and only if—the virus continues to spread to some extent. This simple fact gives the incumbent vaccine makers strong, and horrifying, incentives to leave people—even large numbers of people—unvaccinated. (Or, perhaps, half-vaccinated, as people who receive just one dose of a two-dose regimen remain at substantial risk of infection and illness). Pfizer’s and Moderna’s projections of handsome profits flowing from their annual booster shot franchises rely, quietly, on the prospect of unvaccinated people continuing to become infected by SARS-CoV-2. Their investors are already coming to rely on these projections.

Would a drug company really do such a thing? Leave people to die when it has the capacity to save them—either by manufacturing more, or by sharing with other would-be producers the knowledge and the rights required to manufacture more? One data point: In the midst of another, slower-moving epidemic—hepatitis C—one multinational drug maker, Gilead, “asserted that its primary concern in developing and marketing [its bestselling hepatitis cure] was to treat the largest number of HCV patients possible.” Yet a bipartisan Senate investigation concluded, “In reality, Gilead’s marketing, pricing, and contracting strategies were focused on maximizing revenue—even as the company’s analysis showed a lower price would allow more people to be treated.”

We have no proof that Moderna, Pfizer-BioNTech, J&J, and AstraZeneca are stretching the truth when they say that they are trying to increase global Covid-19 vaccine supply as quickly as humanly possible. But we’ve heard these kinds of claims before—and they have been proven wrong.

In the 1990s and 2000s, for example, HIV drug makers based in the United States and Europe sometimes claimed that manufacturers in other countries lacked the technical sophistication to make the drugs safely and reliably; in reality, manufacturers in India and other countries of the Global South succeeded in making these drugs, in high quality and on a massive scale, and ultimately did so more efficiently than the original makers. (Arguments about manufacturing or distribution capacity in the Global South often veer into patronizing, even overtly racist, tropes about “the West’s” supposed scientific supremacy, as when, in 2000, the editorial board of The Washington Post asserted, incorrectly, that anti-HIV drugs could not be deployed in the Global South because the “drugs need to be administered with a precision that rudimentary health infrastructures cannot aspire to.”)

More recently, earlier in the pandemic, the United States faced shortages of the anti-Covid-19 drug remdesivir. Gilead, which manufactures remdesivir and holds patents on the drug, contended that it was making as much remdesivir as global supply chains permitted. Faced with calls to license its patents to generic competitors, in an effort to expand supply, Gilead insisted that such licenses would be futile: “Proposals to allow generic manufacturers to make remdesivir ignore the fact that it takes six to 12 months to manufacture remdesivir.” In reality, a generic manufacturer in Bangladesh succeeded in making remdesivir on commercial scale in less than six months, without help or permission from Gilead, and began exporting to other countries—though not to the United States, where Gilead’s patents and other legal barriers prevent competition.

Why might today’s Covid-19 vaccine-making giants—Moderna, Pfizer-BioNTech, J&J, and AstraZeneca—insist on the premise that they are making vaccines as fast as they can, even if they know the premise is false? Because they—like HIV/AIDS drug-makers in the 2000s and Gilead during remdesivir shortages—face real pressure from governments, civil society, and patients to make more vaccines, and faster. In the face of mass death and horrible suffering in India, Brazil, Iran, and other countries, Americans are increasingly calling on their government to intervene more actively, to use existing legal authority to exert greater control over Covid-19 vaccines. (The mRNA and J&J vaccines rely on foundational coronavirus vaccine technology invented in a US government lab—the National Institute of Allergy and Infectious Diseases, led by Dr. Anthony Fauci. Other key components were developed in universities; the Pfizer-BioNTech vaccine, for example, would not work without a lipid-based delivery system technology developed by researchers at the University of British Columbia. All of today’s Covid-19 vaccines were funded in substantial part by government funding all over the world, strengthening the case for greater public oversight and control of vaccine manufacturing and distribution.) Thoughtful, detailed proposals from Public Citizen, PrEP4All, and others in civil society include calls to waive (or issue compulsory licenses to) the incumbents’ patents; to compel the incumbents to share their secret manufacturing processes; and to invest billions in publicly governed vaccine-manufacturing facilities.

To dismiss these calls out of hand, avoid difficult policy debates, and protect the status quo, the incumbents fall back on their shaky premise: Vaccine scarcity is lamentable but inevitable. They claim that any government intervention will, at best, be useless and foolish, and, at worst, devastating to the entire pharmaceutical and biotech sectors.

Given the incentives that the incumbents have to maintain control over Covid-19 vaccines—to, in effect, manufacture scarcity—we think there is ample reason to doubt their account of what is and what is not possible. Prior to the pandemic, few would have thought developing, manufacturing, and distributing even a single vaccine in less than a year would be feasible. Moderna’s factory in Massachusetts is a former Polaroid facility, which had never produced a single commercial drug or vaccine prior to Covid-19. Through unprecedented efforts and collaboration across industry, academic researchers, health care professionals, government agencies, and multilateral organizations all over the world—and massive amounts of public funding directed to vaccine developers alongside other incentives—we succeeded in generating safe and effective Covid-19 vaccines in record time.

To get vaccines to everyone who needs them, we need to do even more. We can indeed expand supply significantly by the end of 2021, but only with bold government action that combines big public investment with compulsory transfer of the incumbents’ trade secrets. (This transfer could be achieved by the US government’s using the Defense Production Act, or perhaps the threat of a patent infringement lawsuit brought against vaccine manufacturers by the US government itself.). It will take months, not weeks or days. We won’t know how long it will take unless we try. Other vaccines are in the pipeline, but given the dire need in many parts of the world we should make every effort to scale up global production of the vaccines we already know work—including by compelling Pfizer-BioNTech, Moderna, J&J, and AstraZeneca to share the manufacturing know-how they have come to control.

What we should not do is accept big pharma’s premise, or trust big pharma to solve the pandemic on its own initiative, any time soon.

 

 

August 9, 2021

Olimpiadas, superação e vida precária

 

 Silvio Almeida

Silvio Almeida

Se há duas coisas que nunca se divorciaram são o esporte e a política. Não falo apenas de como a prática esportiva sempre foi utilizada por movimentos políticos e governos para marcar posições, mas de algo maior: falo do esporte como elemento constitutivo do imaginário social, como alegoria das relações de poder e como projeção de potencialidades individuais e coletivas.

Os diferentes significados que o esporte teve ao longo da história são o índice de como transformações socioeconômicas afetam nossa concepção de “humanidade”.

Como afirma o historiador Johan Huizinga em seu livro “Homo Ludens”, o ato de jogar, “seja qual for sua essência, não é material” e para ele “ultrapassa, mesmo no mundo animal, os limites da realidade física”.

Huizinga conclui que este aspecto imaterial do jogo —o elemento lúdico— é originário daquilo que chamamos de cultura. A cultura se materializa na forma de um jogo, pois o jogo é, ao mesmo tempo, ritual e espetáculo, sagrado e profano, regra e imprevisibilidade, trabalho e divertimento, brincadeira e guerra.

Trago Huizinga a fim de iniciar uma reflexão de como os Jogos Olímpicos permitem-nos uma interessante leitura sobre a política em nosso mundo. E quando falo de Jogos Olímpicos me refiro não apenas ao que acontece nas quadras, no campo ou nas pistas: trato do “jogo” de forma ampla, algo que envolve a cobertura de imprensa, as disputas políticas e econômicas e, de modo muito particular, a maneira
com que atletas e torcidas manifestam disputas ideológicas.

Quero olhar para o Brasil nesta reflexão. Chama a atenção o esforço para que cada medalha olímpica seja celebrada como uma conquista da superação individual.

A medalha parece se tornar ainda mais saborosa quando o pescoço que a carrega for de alguém que não teve apoio, patrocínio ou que treinou em condições precárias. No fim das contas, esse atleta serve como pretexto para a defesa de que nada é mais decisivo para o bom resultado de um atleta do que o esforço individual.

Mas não foi a precariedade da vida que fez os campeões olímpicos. Pessoas como Rebeca Andrade e Italo Ferreira se tornaram campeãs apesar das dificuldades que tiveram na vida, e não por conta dessas dificuldades. São trajetórias singulares e que muito nos orgulham, mas que, diante do que o país oferece à maioria dos atletas, confirmam a exceção, e não a regra.

Basta ver o quadro geral de medalhas. Os líderes China e EUA investem pesadamente na formação de atletas. Por trás das inúmeras medalhas desses países há políticas de Estado que orientam a articulação entre os setores público e privado, tanto na formação dos atletas como no desenvolvimento de tecnologias esportivas.

Ainda que sejam louvados os feitos individuais, o que se tem, de verdade, é o conjunto da sociedade e o Estado atuando de forma decisiva no desenvolvimento do esporte.

Por outro lado, é igualmente revelador perceber a forma como a mentalidade embebida de darwinismo social projeta os atletas que não ganham medalhas. No caso brasileiro, quem não subiu no pódio é submetido a um ritual de expiação em que geralmente pede desculpas à nação.

Assim, a culpa pela derrota é ou do atleta, ou do “juiz ladrão”. De qualquer modo, tem-se a reafirmação do indivíduo como único responsável pelo próprio destino (e o de todo um país). É assombroso como naturalizamos a lógica de que a vida, inclusive o esporte, é um grande mercado e que o mercado é o lugar da guerra. É assustadora a maneira como espetacularizamos o sofrimento.

No tipo de jogo que marca cultura do tempo presente, não há apenas atletas, mas mercadorias; não há apenas torcedores, mas apostadores ou, talvez, para uma linguagem mais adequada aos nosso tempos, “piramideiros”. Se Huizinga está certo e a cultura é jogo, o Brasil virou um grande cassino.

FOLHA

 

August 7, 2021

Rebeca aterrissa nas tripas de Borba Gato

 A ginasta Rebeca Andrade depois de receber a medalha de ouro em Tóquio.

 

 A superação é a narrativa da Casa-Grande para encobrir a falta de políticas públicas para aqueles que o Brasil mantém na Senzala

EL PAIS

Rebeca é linda e, além de linda, Rebeca voa. Evocou o melhor do Brasil num momento em que o Brasil exibe todas as suas tripas em praça pública, a começar por Jair Bolsonaro, nascido e criado nos intestinos do país que mais longe levou a escravidão e o genocídio continuado dos pretos e dos indígenas. Me alegro com Rebeca e tudo o que ela representa: a menina negra criada na favela por uma mãe solo que alcançou a medalha olímpica ao som de funk, apesar de ter toda a estrutura de um país contra ela. E fez tudo isso no momento em que o Brasil que tem vergonha —tem vergonha de si mesmo. É maravilhoso e precisamos muito de beleza. Mas sinto incômodo com a narrativa da “superação” e sobre como a “glória” de Rebeca pode estar sendo usada, em muitos casos com boa intenção, para encobrir as tripas. Ou para encobrir que o Brasil ainda é muito mais de Borba Gato do que de Rebeca. Enquanto Rebeca voava como exceção, a violência corria solta na senzala que o Brasil nunca deixou de ser e, com Jair Messias Bolsonaro, ampliou o sangue no chão.

De modo algum quero reduzir a realização de Rebeca. Ela fez uma enormidade. E ter uma menina preta da favela fazendo enormidades é uma mensagem poderosa para outras meninas pretas e um recado certeiro para o Brasil escravagista. Mas a narrativa de superação é prima-irmã da narrativa da meritocracia. Ela enaltece o indivíduo que teria conseguido por seu próprio esforço pessoal um feito extraordinário, uma espécie de milagre individual do herói, no caso a heroína, que vence todas as adversidades por uma extraordinária força de vontade. Em mais de 30 anos como jornalista, nunca vi nenhum ser humano assim, nem mesmo os considerados gênios. É claro que há méritos pessoais, mas eles só se realizam porque por algum caminho houve oportunidades. Certamente um perfil à altura da vida de Rebeca, de sua família e de seu país vai mostrar as oportunidades e encontros decisivos que Rebeca teve na vida e contextualizar sua realização no campo do coletivo e da partilha, da comunidade e dos (escassos) programas de Governos.

O que quero dizer é que não acredito em superação, acredito em políticas públicas. Sempre que se louva o indivíduo como produto de si mesmo, se enaltece o capitalismo que produz uma desigualdade tão abissal que nega à maioria das meninas negras a chance até mesmo de se alimentar de forma saudável. A narrativa da superação comete ainda uma violência adicional contra os já tão violentados, a de que poderiam ter sido Rebeca se tivessem se esforçado mais, a de que mães sozinhas, às voltas com o sustento e os filhos, aviltadas de tantas formas, teriam “produzido” Rebecas se tivessem se dedicado mais. Também por Rebeca e por tudo o que ela representa, porque representa, essa narrativa feita seguidamente em nome do bem precisa ser colocada abaixo como as estátuas dos assassinos. Não devemos usar Rebeca contra todas as Rebecas. Nem mesmo quando precisamos muito de boas notícias e de redenção.

E, assim, obrigatoriamente, precisamos falar da estátua de Borba Gato. Apenas alguns dias antes do salto de Rebeca, Paulo Lima, conhecido como Galo, e outros ativistas botaram fogo na estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo. Realizaram o ato em nome da “Revolução Periférica”, duas palavras que colocadas juntas assustam bastante a minoria mais rica do Brasil. Galo é a liderança mais interessante surgida no Brasil urbano do centro-sul nos últimos anos. Articulador do movimento dos entregadores antifascistas, “preto e pobre”, Galo representa os mais aviltados entre os aviltados pelo capitalismo contemporâneo, que assumiram particular protagonismo no momento em que fizeram a ponte entre aqueles que podiam fazer home office, durante a pandemia, e os supermercados, as lojas, as farmácias, os restaurantes etc., cortando as cidades e arriscando-se nas ruas e avenidas infectadas pela covid-19 como um exército de escravos de um mundo distópico. São também eles a fazer o corte entre a suposta redenção tecnológica dos apps e mostrar que ela nada mais é do que uma nova fase da exploração do corpo dos trabalhadores. Além de todo o conteúdo político do movimento, esse grupo de motoboys colocou-se frontalmente contra o fascismo no Brasil.

A repercussão ao incêndio da estátua de Borba Gato tirou a máscara mesmo de quem a usou corretamente durante a pandemia e revelou todo o conservadorismo das elites brasileiras, mesmo as intelectuais. E de várias maneiras, das mais explícitas às mais sutis. Anunciar-se como antirracista, sim, mas botar fogo numa estátua, mesmo que a estátua homenageie, na figura de Borba Gato, os bandeirantes que destruíram, escravizaram e mataram negros e indígenas a partir do século 16, isso não. Não porque é arte, não porque seria o mesmo que negar a história, não porque supostamente colocaria pessoas em risco, todos esses argumentos foram enfileirados de forma elegante. Não porque tudo isso precisaria ser discutido publicamente, como se vários grupos e parlamentares não estivessem tentando fazer isso há anos, sem sucesso. Não pelas mais variadas razões. E, como de hábito, houve quem afirmasse que os ativistas não entendem nada de história porque Borba Gato nem seria tão ruim assim. O último argumento a ser lançado como pedra é sempre o da ignorância dos protagonistas que ousaram agir sem pedir autorização ou consultoria a quem realmente entende de História, assim, com “H” maiúsculo.

O espanto não deveria ser provocado pelo ato de incendiar a estátua de Borba Gato, mas pelo fato de que ela continua lá, depois de tudo. Antes de seguir, preciso dizer algo sobre o fogo. Na Amazônia, o fogo é instrumento dos destruidores. O fogo criminoso queima a floresta, incinerou grande parte do Pantanal, incendiou as casas e as ilhas de ribeirinhos expulsos pela hidrelétrica de Belo Monte e, neste momento, tem incendiado as casas de lideranças indígenas e camponesas, ateado pelas milícias armadas dos grileiros, base de Bolsonaro na floresta. Não gostamos do fogo que queimou o Museu da Língua Portuguesa (agora finalmente reinaugurado) nem do fogo que queimou o Museu Nacional nem do fogo que há pouco queimou a Cinemateca, estes sim incêndios criminosos, patrimônio público deixado para queimar. Não gostamos de fogo, mas não serei eu a dizer como aqueles que têm a história gravada a ferro —e fogo— no corpo devem lutar. O que quero dizer é que, na Amazônia, sabemos muito bem que, no fogo contra fogo, é sempre o mesmo lado que acaba queimado porque, no Brasil, a matéria morta das estátuas vale mais do que a carne viva dos negros e dos indígenas.

Este é outro ponto do nó. Borba Gato pegou fogo, mas quem queimou foi Galo. Ele assumiu a autoria do ato e foi preso. Sua mulher, que estava em casa quando a manifestação política foi realizada, chegou a ser presa e só depois foi libertada. A prisão é agora uma violência a mais em seu corpo preto. No momento em que este texto é publicado, Galo segue preso. O clamor para que Galo seja solto é muito menor do que deveria porque a maioria dos que costumam se declarar antirracistas querem que aqueles que lutem o façam com boas maneiras. Queimar estátuas seria de mau gosto porque, em alguma camada subconsciente, quem tem privilégios tem medo de até onde pode chegar o fogo. Então, por favor, vamos discutir tudo isso ao redor de uma mesa enquanto você segue arriscando o seu corpo e eu o compenso com uma boa gorjeta.

No lado oposto, também há um problema. Como posso dizer a Galo o quanto seu gesto foi extraordinário se não é o meu corpo que está em risco, mas sim o dele. Penso que é necessário ter cuidado quando quem vai preso é o outro. Se vou dizer a ele que, sim, que gesto histórico ele fez, preciso estar disposta a botar meu corpo ao lado do dele, a dividir a prisão com ele. E a questão é que, sendo branca de classe média, isso jamais vai acontecer. Ou jamais vai acontecer como acontece com ele. O meu risco é infinitamente menor do que o de Galo. Então, não basta bater palmas a ele. Se é para de fato se colocar ao lado de Galo na luta contra os Borbas Gatos contemporâneos, num estado em que a sede do Governo se chama Palácio dos Bandeirantes, é preciso que estejamos dispostos a pagar o preço de protegê-lo das arbitrariedades que virão. O que quero dizer é que não dá para fazer rebelião com o corpo dos outros.

Um dia antes de Rebeca Andrade ganhar a primeira medalha de prata olímpica da ginástica artista brasileira nasceu Suzi, uma menina também preta. Ela foi arrancada dos seios de sua mãe preta logo que saiu do útero, no Hospital Universitário, em Florianópolis, porque o Conselho Tutelar decidiu que Andrielle Amanda dos Santos não tem condições de criá-la. Adrielle tem apenas um ano a menos que Rebeca, chegou a viver na rua e usar drogas, perdeu uma filha ainda bebê e perdeu a tutela de duas outras. Segundo reportagem do portal Catarinas, ela foi humilhada durante o parto e impedida de seguir amamentando Suzi, que seguirá para uma instituição. Quando tentou vê-la, disseram que as visitas estavam proibidas. Também os avós paternos foram impedidos de registrar o bebê. “Na senzala, levavam as nossas crianças. Daí, os nossos seios, cheios de leite, foram romantizados, e vejam só, nos chamaram de mães de leite, de mães pretas, apesar das nossas crianças ancestrais terem sido vendidas, sequestradas”, escreveu em suas redes sociais a professora e intelectual Jeruse Romão. A retirada da filha dos braços da mãe é considerada por movimentos sociais que apoiam Andrielle como um sequestro pelo Estado baseado em racismo institucional.

No domingo em que Rebeca fez o salto que a colocou no ponto mais alto do pódio olímpico, Galo estava na prisão por queimar uma estátua que celebra a escravidão e o extermínio dos corpos dos ancestrais de Rebeca, uma estátua que celebra o avanço sobre a natureza em busca de riquezas como o ouro da medalha de Rebeca. Uma estátua que continua lá. Suzi e Andrielle estavam apartadas, a filha preta amputada da mãe preta como nos tempos da senzala. Em vez de políticas públicas para amparar a mãe em dificuldades, sequestro institucional. Sim, o salto de Rebeca é lindo e significa, mas não há nenhuma superação. O Brasil segue esmagando os mesmos corpos, queimando os mesmos corpos, atravessando à bala os mesmos corpos. Não aviltemos Rebeca e seu salto forjando uma mistificação redentora que é só isso mesmo, mistificação. Para cada Rebeca que salta, há milhões de outras agarradas pelas pernas para que não possam saltar e violentadas de várias maneiras, até mesmo quando dão à luz a suas filhas pretas.

Borba Gato não é estátua à toa. Ela segue lá porque representa. Quem está na cadeia não são seus sucessores contemporâneos, mas aquele que, em legítima defesa, reagiu a tudo o que os bandeirantes e a exaltação a eles representam. Quem está na cadeia são os que sempre estiveram na cadeia. Quem está morrendo é quem sempre foi assassinado. Borba Gato está tão vivo quanto sempre e sua mais mal acabada versão é hoje presidente do Brasil. Se Rebeca conseguiu saltar é por representar séculos de resistência contra todas as formas de morte promovidas e apoiadas pelo Estado brasileiro e suas elites. Não há redenção. Não há superação. Não há meritocracia. Há luta. E há luto. E o luto tem a cor de Rebeca.


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