May 31, 2021

A VERDADE A GALOPE

 

 

 


p or A N DRÉ BA R RO C A L

 No governo do presidente
Pinóquio, mentir é virtu-
de. Eduardo Pazuello e Er-
nesto Araújo não são mais
ministros da Saúde e das
Relações Exteriores, mas
seguem virtuosíssimos.


Na CPI da Covid, esbalda-
ram-se em lorotas e cinismo. Na semana
anterior, outro ex-colaborador de Jair Bol-
sonaro mentira, e o presidente da comis-
são, Omar Aziz, do PSD, fraquejara diante
do pedido do relator, Renan Calheiros, do
MDB, para prender Fábio Wajngarten, ex-
-chefe da propaganda governamental. Re-
sultado: um liberou geral para inverdades,
queixa feita nos bastidores da CPI por Otto
Alencar, colega de partido de Aziz.


Alencar, que é ortopedista, atendeu Pa-
zuello no primeiro dia de depoimento do
general da ativa, a quarta-feira 19, e diag-
nosticou-o com síndrome vasovagal, a
falta momentânea de sangue no cérebro.
Imagine-se se o fardado não tivesse ido à
CPI munido de um habeas corpus do Su-
premo Tribunal Federal que lhe permitia
calar para não se incriminar. Seu advoga-
do invocou o direito ao silêncio uma vez no
dia 19, quando Pazuello fora confrontado
com contradições quanto à falta de oxigê-
nio em Manaus em janeiro, episódio que é
uma das razões de ser da CPI e de um pro-
cesso criminal contra o general.

Calheiros cobra de Aziz a criação de um
grupo de assessores capaz de pegar no ato
mentiras de depoentes. Que tal um polí-
grafo? Apesar das inverdades, a CPI já
delineia os crimes do presidente e de Pa-
zuello, prenúncio de um relatório final
duro – Calheiros fará nos próximos dias
um relatório sobre o primeiro mês da co-
missão. O que não significa que o ex-capi-
tão cairá. As conclusões dos senadores só
virarão processo criminal contra Bolso-
naro na Justiça se o procurador-geral da
República, Augusto Aras, quiser. E só le-
varão ao impeachment no Congresso, por
crime de responsabilidade, se o presiden-
te da Câmara, Arthur Lira, do PP, quiser.
E nenhum dos dois deseja jogar Pinóquio
ao mar. Aras até espera ser reconduzido
ao cargo, em setembro, pelo ex-capitão

“Esta é uma CPI diferente das outras,

pois é construída em cima de fatos sa-
bidos e os responsáveis por esses fatos
igualmente são sabidos. Nosso trabalho
é confirmar o desleixo, o descuido, a
omissão do governo, do presidente, do
Ministério da Saúde”, diz o senador
Humberto Costa, do PT, membro titular
da comissão. “O que foi apurado até ago-
ra aponta claramente que governo falhou
absurdamente. O relatório final vai apon-
tar crime comum contra a saúde pública,
os direitos humanos e genocídio indígena,
e crime de responsabilidade.” Por causa
do genocídio de indígenas, tratados com
desdém e cloroquina por Brasília, o rela-
tório deverá ser enviado ao Tribunal Pe-
nal Internacional, onde há uma denúncia
contra Bolsonaro por incitar o genocídio
antes da pandemia.

Para colaborar com as investigações,
a CPI pediu a professores da Faculdade
de Saúde Pública da USP e a advogados 

da ONG de direitos humanos Conectas a atu-
alização de um estudo de janeiro. O docu-
mento do início do ano examinava 3 mil
normas federais editadas na pandemia e
concluía: o governo trabalhou para disse-
minar o vírus, em busca da imunidade de
rebanho (contágio de uns 70% da popu-
lação e a consequente produção de anti-
corpos). E agiu assim para manter a eco-
nomia aberta. Duas ilustrações da políti-
ca pró-vírus: o veto presidencial à lei do
uso obrigatório de máscaras no País e um
decreto que ampliou a lista de atividades
essenciais (que não poderiam parar), pa-
ra incluir construção civil, salão de bele-
za e academia de ginástica.


A atualização do estudo será en-
tregue à CPI até o dia 28. Se-
gundo um dos autores, Fer-
nando Aith, professor de Po-
lítica, Gestão e Saúde da USP,
foram mapeadas mais 600 ou-
tras iniciativas federais pró-vírus adota-
das em 2021. “Imunidade de rebanho só
existe com vacinação. Por contágio é um
absurdo, nunca se aplicou em lugar ne-
nhum do mundo, porque significa mortes
em massa. E não apenas mortes por Covid,
mas também mortes indiretas, em razão
do colapso do SUS”, afirma.


À CPI, Luiz Henrique Mandetta, minis-
tro da Saúde no início da pandemia, con-
firmou que Bolsonaro namorou a imuni-
dade de rebanho. Uma das teorias sopra-
das ao presidente, segundo Mandetta,
por conselheiros paralelos. Quantos bra-
sileiros estariam vivos se o governo hou-
vesse tido bom senso na crise sanitária e,
além disso, apostado na vacina? Respon-
der esta pergunta é um dos próximos pas-
sos da CPI, segundo os senadores Alessan-
dro Vieira, do Cidadania, e Rogério Carva-
lho, ambos suplentes da comissão.


O epidemiologista Pedro Hallal, co-
ordenador de estudos sobre Covid-19 na
Universidade Federal de Pelotas, tem um
número na ponta da língua: 3 de 4 mor-
tes eram evitáveis. Ou seja, 330 mil pes-
soas não teriam sido enterradas – esta-
mos com 440 mil falecidos. Hallal fez es-
timativas para um cenário em que o Bra-
sil aceita as primeiras ofertas de vacina da
Pfizer, em agosto de 2020. Essas propos-
tas previam 4,5 milhões de doses a mais
até o fim de junho de 2021, na compara-
ção com a quantidade do contrato de mar-
ço do governo com o laboratório, uma das
informações dadas à CPI pelo presidente
da Pfizer na América Latina, o boliviano
Carlos Murillo. Segundo Hallal, escapa-
riam de 5 mil a 25 mil pessoas.


Na avaliação de Aziz, está claro, a

partir dos depoimentos, que de início
o governo não quis comprar vacinas e
abraçou a imunidade de rebanho e a clo-
roquina. Para dimensionar quantas vi-
das teriam sido salvas com a vacinação
em massa, Carvalho quer a ajuda do epi-
demiologista matemático Eduardo Mas-
sad, da FGV e da USP.

Massad fez alguns cálculos logo após o
início da vacinação, em 17 de janeiro. Es-
timava que 130 mil morreriam este ano de
Covid, mas, se toda a população fosse imu-
nizada em fevereiro, 89 mil escapariam. O
SUS, segundo Massad, consegue vacinar
a população toda em um mês. Se o fizesse
em março, 57 mil se salvariam. Em abril,
33 mil. Em maio, 19 mil. Números obtidos
a partir de um modelo matemático defa-
sado, que não leva em conta, por exemplo,
a variante P1 surgida no Amazonas, mais
contagiante e letal, daí a decisão de Mas-
sad de atualizar os cálculos.


A falta de vacinação ainda custará mui-
tas vidas. A imunização vai a passo de tar-
taruga. Em números absolutos, tínhamos
aplicado 54 milhões de doses até a terça-
-feira 18, quinta maior quantidade – somos
a quinta maior população mundial, ressal-
te-se. Em termos relativos, porém, estáva-
mos em 13o poosição no ranking global. 

Entre os vacinados a cada
cem habitantes, estávamos em 61o lugar.

O ritmo de vacinação caiu por falta de
doses. Em abril, a média diária tinha sido
de 822 mil. Em maio, estava em 682 mil
até o dia 18. O governo reviu de maio pa-
ra setembro a previsão de imunizar todos
os 77 milhões de brasileiros prioritários. O
Instituto Butantan, fabricante da Corona-
Vac, parou a produção dia 14 e, segundo o
governador paulista, João Doria Jr., do PS-
DB, retomará dia 26. O insumo importado
da China, o chamado IFA, acabou. O em-
baixador chinês, Yang Wanming, se reuni-
ria na quinta-feira 20 com o governador do
Piauí, Wellington Dias, do PT, represen-
tante do consórcio de governadores, pa-
ra conversar sobre o tema. Teria a China
de o início. Em 5 de maio, o presidente não
citou a China, mas deixou claro que se re-
feria a ela ao apontar uma “guerra quími-
ca” por trás do surgimento do Coronaví-
rus e ainda que tal “guerra” favoreceu a
economia chinesa. Na época, Aziz co-
mentou que a China daria o troco. Não é
a primeira vez que há dificuldade na che-
gada de insumos chineses ao Butantan e
à Fiocruz. Em janeiro, o então presidente
da Câmara, Rodrigo Maia, foi a Wanming,
tratar do assunto, pois no governo federal
havia quem fizesse corpo mole.


Na última entrevista como ministro da
Saúde, em 15 de março, Pazuello afirmou
que tinha havido um “hiato” em janeiro
e fevereiro na fabricação de vacinas pe-
la Fiocruz, órgão federal. “Estávamos no
cronograma extremamente positivo e per-
demos aí de 30 a 40 dias nesse cronogra-
ma por um atraso dessa entrega do IFA. E
até hoje nós não compreendemos por que
atrasou. Não há um posicionamento do
governo chinês.” Não entendeu, general?


Além de Bolsonaro, Ernesto
Araújo, que deixou o governo
duas semanas após Pazuello,
colecionou manifestações
hostis à China quando chan-
celer. Apesar disso, afirmou à
CPI, na terça-feira 18, que não havia “hos-
tilidade” sua, que não fez “nenhuma de-
claração anti-chinesa” e que não há rela-
ção entre essas posições e o atraso na vin-
da de insumos asiáticos. Um dia depois,
Pazuello também chafurdava em menti-
ras na CPI, e uma delas foi sobre a China.
“Nunca o presidente da República man-
dou eu desfazer qualquer contrato, qual-
quer acordo com o Butantan.” Um debo-
che, a fim de proteger o ex-chefe, de quem,
aliás, disse jamais ter recebido ordem pa-
ra coisa alguma.


Pazuello anunciou a governadores,
em 20 de outubro de 2020, a compra da
CoronaVac. No dia seguinte, Bolsonaro

dizia em entrevista: “Já mandei cance-
lar. O presidente sou eu e não abro mão
da minha autoridade”. Pouco antes, es-
crevera no Twitter: “Não será compra-
da”. Foi esse episódio que levou Pazuello
a dizer, ao lado do presidente, em 22 de
outubro: “É simples assim: um manda, o
outro obedece”. Na CPI, ignorou a decla-
ração do presidente em entrevista e falou
só da tuitada presidencial: “Uma posta-
gem na internet não é uma ordem”, é uma
posição de “agente político”.


O “aconselhamento paralelo” – expres-
são usada por Mandetta – recebido por
Bolsonaro na pandemia parece ter servi-
do aos propósitos do “agente político”. En-
tre os próximos passos da CPI, está iden-
tificar quem fazia parte desse grupo, cha-
mado por Renan Calheiros de “Ministério
da Morte”. Já foram mencionados na co-
missão alguns nomes que integrariam o
time, e o destaque é para um dos filhos de
Bolsonaro, o vereador Carlos.


Mandetta contou ter partici-
pado de reuniões governa-
mentais sobre Coronaví-
rus, das quais Carlos par-
ticipava e fazia anotações.
O rapaz apareceu em outra
quando Mandetta havia deixado o cargo.
Foi em 7 de dezembro de 2020, uma con-
versa no Palácio do Planalto do então che-
fe da Comunicação Social da Presidência,
Fábio Wajngarten, com duas diretoras da
Pfizer, Shirley Meschke (Jurídico) e Eliza
Samartini (Relações Governamentais),
conforme depoimento de Carlos Murillo.
Wajngarten havia topado fazer lobby no
governo pela vacina da empresa ao saber
que ninguém, Bolsonaro incluído, havia
respondido, dois meses depois, uma car-
ta de 12 de setembro.


Por que Carlos se metia nesse assun-
to? É o que Humberto Costa e Alessandro
Vieira, proponentes da convocação dele,
querem saber. Não é difícil imaginar a ra-
zão. Bolsonaro decidiu desde o início po-
litizar a pandemia. Para fidelizar apoia-
dores radicais, atacava a China, Doria,
vacinas, OMS. Como afirmou um dia após
Mandetta depor, Carlos é seu “marque-
teiro”. Tradução: seu termômetro quan-
to ao humor no bolsonarismo. Ainda não
há, porém, consenso no G7, o bloco que dá
as cartas na CPI, para botar o filho do pre-
sidente no banco de depoentes. Aziz, por
exemplo, por ora, é contra.


Outro do “Ministério da Morte” na
mira é o deputado Osmar Terra, do MDB
gaúcho, igualmente mencionado por
Mandetta. Vieira e Carvalho querem con-
vocá-lo. Apesar de médico, Terra sempre
fez prognósticos que minimizavam a gra-
vidade do Coronavírus e mostrava-se a
favor da imunidade de rebanho. Em 7 de
abril de 2020, com menos de um mês de
pandemia, disse que morreriam 950 bra-
sileiros por ano. Recorde-se: terminamos
2020 com 195 mil cadáveres.


Seria o conselho paralelo capitanea-
do pelo bilionário curitibano Carlos Wi-
zard? É a desconfiança de Calheiros e
Vieira. Em 2 de julho de 2020, Wizard
despontou na TV Brasil, do governo, ao
lado da imunologista Nise Yamaguchi,
grande cloroquinista. Ali, disse que ha-
via passado cerca “de um mês em Brasí-
lia, juntamente com o (então) ministro
Pazuello, atuando como conselheiro do
Ministério da Saúde” e que tivera então
“a oportunidade de conhecer autoridades
médicas” que “participam desse conse-
lho científico independente”. Disse ainda
que “nós criamos esse conselho científico
independente para conscientizar a popu-
lação, a comunidade médica, os gestores
públicos que a Covid-19 tem tratamento
sim, quando atendido logo”. Em suma, um
bando de cloroquinistas. À CPI, Pazuello
admitiu ter se reunido com o grupo uma
vez, só uma, a pedido de Wizard.


“Ser negacionista ou idiota não é crime,
mas tomar decisões administrativas com
base em negacionismo e idiotia é crime de

responsabilidade, no mínimo”, diz Viei-
ra, proponente da convocação de Wizard.
Bolsonarista da gema, o bilionário orga-
nizou, ao lado do colega Luciano Hang, a
tentativa de arrancar, em Brasília, a per-
missão para empresários comprarem va-
cinas por conta própria e as aplicarem nos
funcionários. A causa teve aval presiden-
cial, foi aprovada pelos deputados, mas
não no Senado – por enquanto. Teria Wi-
zard financiado o “Ministério da Morte”?
É o que Vieira quer averiguar, ao propor
a quebra dos sigilos bancário, fiscal e co-
municacional do bilionário desde março
de 2020, início da pandemia.


Maçom, Wizard é amigo de Pazuello.
Conheceu-o em 2018, ambos em Roraima
em razão da Operação Acolhida, de recep-
ção de refugiados venezuelanos. Quan-
do o general assumiu a Saúde, em maio
de 2020, convidou-o para ser secretário
de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insu-
mos. A nomeação não se confirmou, se-
gundo Pazuello, devido aos negócios de
Wizard. O cargo prometido ao empresá-
rio é o principal representante do Minis-
tério da Saúde na Comissão Nacional de
Incorporação de Tecnologias ao SUS. Pa-
ra ser comprado pela Saúde, um medica-
mento precisa de aval da Conitec. À CPI,
Mandetta disse que o colegiado jamais
aprovaria a aquisição de cloroquina para
Covid, por motivos científicos. Na quinta-
-feira 20, a comissão decidiria sobre o re-
médio, e seu ponto de partida era um do-
cumento contrário à prescrição.


Naquele dia, iria à CPI Mayra Pinhei-
ro, secretária de Gestão do Trabalho e
da Educação do Ministério da Saúde. O
depoimento ficou para a terça-feira 25,
em razão do prosseguimento do teste-
munho de Pazuello. Mayra é conheci-
da como “capitã” cloroquina. Ela re-
quereu ao Supremo habeas corpus pa-
ra silenciar na CPI, mas não conseguiu.
Um documento obtido por CartaCapital
mostra o cloroquinismo dela na crise
amazônica. Em 11 de janeiro, Mayra pe-
diu à Secretaria de Saúde de Manaus pa-
ra ir a postos do SUS pregar o “tratamen-
to precoce”. Para Aziz, ex-governador do
Amazonas, o estado foi “cobaia” federal
na cloroquina. O atual vice-governador,
Carlos Almeida Filho, disse à Folha em
5 de maio que o Amazonas foi “laborató-
rio” da imunidade de rebanho, por deci-
são do governador bolsonarista Wilson
Lima, do PSC, com quem rompeu.


Almeida deverá ser chamado a
depor à CPI. A comissão tam-
bém logo ouvirá médicos e
acadêmicos sobre cloroquina,
entre outros assuntos, com a
presença, inclusive, de profis-
sionais bolsonaristas favoráveis ao dito
tratamento precoce. “Hitler também ti-
nha seus médicos, como o Mengele”, diz
Humberto Costa. Para Rogério Carva-
lho, apostar na cloroquina no início da
pandemia, em março de 2020, até pode-
ria ser um caminho, pois ainda não havia
posição internacional a respeito. Em ju-
nho de 2020, porém, os Estados Unidos
e a OMS cancelaram testes e desistiram
desse caminho. E por aqui?


Em 5 de maio, já com a CPI em curso,
Bolsonaro chamou de “canalha” quem é
contra o tratamento precoce, sinônimo de
cloroquina. Em uma transmissão na web
dia 13, criticou o uso de máscaras, que se-
riam uma “ficção” como proteção à con-
taminação por Coronavírus. A apoiado-
res na porta do Palácio da Alvorada, dia
17, disse que eram “idiotas” aqueles que
ainda ficam em casa. “A CPI já tem ele-
mentos suficientes para provar crime
contra a saúde pública”, diz Carvalho. “E
o que temos visto são crimes em flagran-
te, continuados. O presidente continua fa-
zendo propaganda contra todas as medi-
das de combate à pandemia. A Procurado-
ria- Geral da República pode até não fazer
nada com o relatório final, mas esses cri-
mes vão prescrever em cinco anos e ou-
tros procuradores poderão agir.” •

CARTA CAPITAL








May 23, 2021

As digitais do Tio Sam

 

 





 

POR RODRIGO MARTINS

Em 17 de dezembro de 2015, o
Le Monde publicou um elo-
gioso perfil de Sergio Moro,
no qual o juiz era compara-
do a Eliot Ness, o lendário
agente do Tesouro dos EUA que conse-
guiu colocar Al Capone atrás das grades.
À época, o diário francês parece não ter
notado o absurdo de se comparar um ma-
gistrado, de quem se espera isenção e
equidistância entre as partes, a um poli-
cial à caça de gângsteres. Ou, ainda mais
ridículo, de ilustrar a reportagem com
uma charge na qual Moro figura como
um Cristo Redendor. “Este juiz do inte-
rior do Paraná, com cara de policial de
filmes B, provoca calafrios nos caciques
políticos em Brasília e empresários de
São Paulo”, dizia o texto, assinado pela
correspondente Claire Gatinois.


Cinco anos depois, o Le Monde parece
buscar a redenção por meio de uma con-
tundente reportagem de três páginas, a
demonstrar como a Lava Jato foi usada pa-
ra atender aos interesses estratégicos dos
Estados Unidos. Embora não traga exata-
mente uma grande revelação, o texto assi-
nado por Nicolas Bourcier e Gaspard Es-
trada tem o mérito de acrescentar relatos
de autoridades do Departamento de Justi-
ça, confirmando o interesse da Casa Bran-
ca em usar a operação para proteger suas
empresas. “Para os EUA, trata-se de re-
duzir a influência geopolítica do Brasil na
América Latina, mas também na África.”
CartaCapital tem exposto a pegada de
espiões norte-americanos em solo pátrio
desde 1999, mas o jornal francês destaca
que, após os ataques de 11 de setembro de
2001, o governo Bush procurou ampliar
a “ação contraterrorista” no Brasil. “Para
contornar a frieza das autoridades brasi-
leiras – que consideravam o risco terro-
rista deliberadamente exagerado pelos
EUA – a embaixada americana em Brasí-
lia começou a criar uma rede de especia-
listas locais, capazes de defender as posi-
ções americanas ‘sem parecer peões’ de
Washington, para usar a frase do embai-
xador Clifford Sobel em telegrama diplo-
mático que o Le Monde pôde consultar.”


Por sua atuação no caso Banestado, no
qual colaborou com autoridades norte-
-americanas, Moro foi convidado a parti-
cipar de um programa de relacionamen-
to financiado por Washington. “Foi or-
ganizada então uma viagem aos Estados
Unidos em 2007, durante a qual ele fez
uma série de contatos no FBI, no Depar-
tamento de Justiça e no Departamento
de Estado, ou seja, relações exteriores”,
relata o Le Monde. No ano seguinte, Ka-
rine Moreno-Taxman, procuradora 

especializada no combate à lavagem de
dinheiro e ao terrorismo, criou o “Proje-
to Pontes”, que oferecia cursos para au-
toridades judiciárias brasileiras sobre as
técnicas anticorrupção, inclusive as de-
lações premiadas. Os seminários realiza-
dos, alguns deles com a participação de
Moro como palestrante, serviram ainda
ao propósito de favorecer o compartilha-
mento informal de informações. Ou seja,
“fora dos tratados bilaterais de coopera-
ção judiciária”, emenda o jornal.


Dois anos depois, Moreno-Taxman foi
convidada para falar em uma conferên-
cia de agentes da Polícia Federal realiza-
da em Fortaleza. Diante de 500 partici-
pantes, ensinou aos brasileiros a tática do
xadrez anticorrupção: “É preciso ir atrás
do rei de maneira sistemática”, para então
derrubá-lo. “Para que o Judiciário possa
condenar alguém por corrupção, é preci-
so que o povo o odeie”, enfatizou. “A socie-
dade deve sentir que ele realmente abusou
de seu cargo e exigir a sua condenação.”
Qualquer semelhança com os espúrios
métodos lavajatistas não é coincidência.


 

Moro assistiu à palestra na primeira fila.
Com a deflagração da Lava Jato, o De-
partamento de Justiça dos EUA usou uma
“grande isca” para atrair os procuradores
brasileiros: a divisão das multas aplicadas
pelas autoridades de lá às empresas brasi-
leiras por meio da Foreign Corrupt Prac-
tices Act, a lei que proíbe cidadãos e com-
panhias com atuação nos EUA de subor-
nar governos estrangeiros. “Para prestar
garantias de boa vontade, os investigado-
res brasileiros organizam uma visita con-
fidencial a Curitiba, em 6 de outubro de
2015, de 17 integrantes do Departamen-
to de Justiça, do FBI e do Departamento
de Segurança Interna para que estes rece-
bam explicações detalhadas dos procedi-
mentos em andamento”, diz o Le Monde.
“Eles dão acesso a advogados de empresá-
rios chamados a ‘colaborar’ com a Justiça

americana, sem que o Poder Executivo
brasileiro seja informado. Mas isso tem
um preço: cada uma das multas impostas
às empresas brasileiras pela FCPA terá de
incluir uma parcela destinada a Brasília,
mas também à operação.”


Não por acaso, nas mensagens
hackeadas de procuradores da Lava Ja-
to e apreendidas na Operação Spoofing,
há tantas referências a autoridades dos
EUA, como CartaCapital noticiou nas
edições 1143 e 1144. Em 4 de novembro
de 2015, menos de um mês após a visita si-
gilosa dos agentes do FBI, Moro disse ser
preciso “colocar US attorneys (procura-
dores norte-americanos) para trabalhar,
pois até agora niente”. Dallagnol concor-
da: “Eles estão só sugando por enquanto.
Hoje falei com eles sobre as contas lá da
Ode (Odebrecht) pra ver se fazem algo”.
Os procuradores brasileiros ti-
nham cuidado para não desagradar

aos parceiros. Em 19 de maio de 2016,
Dallagnol sugere “fazer um acordo con-
junto com os americanos” em relação à
Braskem, petroquímica do Grupo Ode-
brecht. “Se não formos fazer, temos que
pelo menos ver se eles se sentem confor-
táveis com solução diversa”, acrescenta.
Em 29 de setembro do mesmo ano, o pro-
curador Júlio Noronha pergunta se há
alguma objeção a um comunicado que a
Braskem pretendia divulgar ao mercado.

“Carol PGR” não vê problemas, mas se
preocupa com a opinião dos parceiros:
“Os americanos concordaram?”


As tratativas eram clandestinas. O
Acordo de Assistência Judiciária em Ma-
téria Penal entre Brasil e EUA prevê que
a cooperação internacional seja media-
da pelo Ministério da Justiça, no caso do
Brasil, e pelo Departamento de Justiça,
no caso dos EUA. Além disso, todos os
documentos recebidos precisam ter um
comprovante de entrega. Moro e Dallag-
nol passaram por cima do governo brasi-
leiro. Em resposta à defesa de Lula, que
obteve um mandado de segurança para
ter acesso aos dados compartilhados, o
Departamento de Recuperação de Ati-
vos e Cooperação Jurídica Internacio-
nal, vinculado à pasta da Justiça, disse
não ter registros de pedidos de coopera-
ção da Lava Jato com os norte-america-
nos. Em novembro de 2020, o ministro
Ricardo Lewandowski determinou que a
Corregedoria do Ministério Público Fe-
deral apure se houve, de fato, intercâm-
bio de informações com autoridades es-
trangeiras. O mistério persiste.


A participação de Tio Sam na opera-
ção tem sido denunciada há tempos. Em
2018, o site Consultor Jurídico revelou a
cooperação informal de agentes do FBI
com a força-tarefa da Lava Jato em Curi-
tiba, feito admitido com naturalidade
por funcionários do bureau de investiga-
ção durante um evento promovido pelo
escritório de advocacia CKR Law, de São
Paulo, em fevereiro daquele ano. Em ju-
lho de 2020, foi a vez de a AgênciaPúbli-
ca seguir o rastro deixado por investiga-
dores do FBI, entre eles a agente especial
Leslie Backschies, que, após atuar na La-
va Jato, virou chefe da Unidade de Cor-
rupção Internacional do FBI.


A reportagem do Le Monde foi publica-
da dias antes de o plenário do STF ana-
lisar uma decisão monocrática de Edson
Fachin, que anulou as condenações de
Lula nos casos do tríplex do Guarujá e do

sítio em Atibaia, ao reconhecer que Curi-
tiba não era o foro competente para julgar
os processos. Embora tenha restituído os
direitos políticos do ex-presidente, o vere-
dicto é visto como manobra do magistra-
do para prejudicar a análise da suspeição
de Moro, que acabou reconhecida pela Se-
gunda Turma do STF duas semanas de-
pois, contra a vontade de Fachin.


Às vésperas do julgamento, o jornal O
Globo publicou um curioso editorial, reco-
mendando à Corte o reconhecimento da
incompetência do juízo de Curitiba com o
arquivamento da decisão sobre a parciali-
dade de Moro. “Caso seja mantida a suspei-
ção, é esperado que ela não só acabe por ser
estendida aos demais processos envolven-
do Lula, mas que seja usada por outros réus
da Lava Jato para alegar a própria inocên-
cia, pois a promiscuidade atribuída à rela-
ção de Moro com os procuradores da for-
ça-tarefa se tornaria um argumento váli-
do para questionar qualquer ação em que
ambos tenham atuado”, diz o texto.


A pretexto de “preservar o trabalho da
Lava Jato”, o braço midiático da operação
busca salvar a biografia de Moro e validar
“provas” contra Lula coletadas sob a ins-
trução de um juiz parcial. Além disso, a
suspeição do magistrado não pode ser es-
tendida a outros réus, afirma o advogado
Marco Aurélio de Carvalho, fundador do
Grupo Prerrogativas. “A suspeição é uma
condição personalíssima, de um juiz pa-
ra um determinado réu, não tem como
afetar processos de outros acusados.”

Na verdade, a decisão de Fachin nem
sequer deveria ser submetida ao plenário,
passando por cima da Segunda Turma,
como seria o rito natural. “Minha estra-
nheza é que, dos milhares de habeas cor-
pus que a Primeira e a Segunda Turma
julgam o ano todo, por que justamente
o caso do ex-presidente é submetido
ao plenário? Será que o processo tem
nome, e não apenas capa?”, criticou
Ricardo Lewandowski, contrariado com
a inovação, avalizada pelos colegas. “A
última vez em que se fez isso custou ao ex-
presidente 580 dias de prisão, e causou
a sua impossibilidade de se candidatar
novamente a presidente da República.”


O julgamento do mérito seria retoma-
do na tarde da quinta-feira 14, após a con-
clusão desta reportagem. Na avaliação de
Carvalho, a ideia de anular a suspeição de
Moro, com base na esdrúxula tese de que
a decisão da Segunda Turma ficou preju-
dicada pela decisão anterior de Fachin, é
completamente descabida. “No Direito
Processual Penal, a suspeição de um juiz,
por ser um vício mais grave, tem prece-
dência. Mas, ainda que essa primazia não
fosse respeitada, a incompetência do fo-
ro de Curitiba apenas reforça a suspeição
de Moro”, avalia o advogado. “Desde o iní-
cio, ele sabia que não poderia julgar casos
sem relação com a Petrobras, mas produ-
ziu, em conluio com os procuradores da
Lava Jato, uma jurisdição artificial, com
o objetivo de perseguir Lula, para retirá-
-lo das eleições presidenciais de 2018. Em
outras palavras, Moro é suspeito também
por ser incompetente para julgar o caso.”
Para o especialista, a Corte está dian-
te de uma oportunidade singular de dar
um basta nos abusos da Lava Jato. O

problema é que o nome do réu ainda me-
xe com a cabeça dos magistrados, como
lembrou Lewandowski. Em 23 de mar-
ço, horas após a Segunda Turma do STF
declarar Moro suspeito, o juiz Luiz Anto-
nio Bonat, de Curitiba, suspendeu o en-
vio dos processos de Lula para o Distri-
to Federal, como havia ordenado Fachin.
O juiz argumentou que, com a nova deci-
são, o reconhecimento da incompetência
do juízo do Paraná havia sido “prejudi-
cado”. Pouco depois, ele recuou e despa-
chou a papelada para Brasília, mas man-
teve o bloqueio de bens do petista.


Não é tudo. O Supremo permitiu o aces-
so da defesa de Lula ao acordo de leniên-
cia da Odebrecht, mas os procuradores
da Lava Jato se recusam a compartilhar
os dados, que poderiam provar a ilegal
cooperação com autoridades dos EUA e
da Suíça. Diante dos reiterados atos de
desobediência, os advogados do ex-pre-
sidente pediram, na segunda-feira 12, o
trancamento da ação do sítio em Atibaia
e dos processos do Instituto Lula. “Em
completo abandono de qualquer noção
que seja de fair-play processual, os pro-
curadores da extinta ‘força-tarefa’, além
de ocultar, lavar e distorcer provas e de
manterem relações espúrias com Mo-
ro, agiram decisivamente nos bastido-
res para que as ilegalidades perpetradas
não fossem questionadas ou reforma-
das”, observa a peça da defesa.


“O problema mais grave nos acordos de
leniência celebrados pela força-tarefa da
Lava Jato é a falta de transparência nas
tratativas junto a autoridades estrangei-
ras e na gestão dos recursos bilionários
envolvidos nas negociações”, comenta o
advogado Fernando Hideo Lacerda, autor
de uma petição ajuizada no Superior Tri-
bunal de Justiça para investigar a desti-
nação dos valores acertados entre o MPF
e as empresas. “O futuro do processo pe-
nal brasileiro depende da abertura des-
sa caixa-preta. Não apenas Lula tem di-
reito a um julgamento justo, mas o povo

brasileiro precisa conhecer a verdade so-
bre os métodos tirânicos empregados pe-
lo juiz Moro e seus comandados da força-
-tarefa. O julgamento da suspeição é o pri-
meiro passo, mas é preciso que os agentes
públicos que violaram a Constituição res-
pondam pelos seus atos na esfera discipli-
nar, administrativa e criminal.”


A responsabilização ficou, porém, mais
difícil de ser alcançada após a PF divulgar
um conveniente relatório, dizendo não ser
possível atestar a autenticidade das men-
sagens da Operação Spoofing. Para tanto,
os peritos dizem que seria preciso acessar
os servidores russos do Telegram, aplica-
tivo de onde vazaram as mensagens, ou o
conteúdo armazenado nos dispositivos
utilizados pelas vítimas dos hackers. Mas
estas, “por questão de segurança e seguin-
do orientação institucional, apagaram os
Embates na Corte. Agora, Mendes
pretende dar um basta aos abusos da
Lava Jato, mas Fachin está empenhado
em salvar a biografia de Moro e validar
as “provas” instruídas por um juiz parcial
conteúdos então armazenados”, justifi-
cou o subprocurador-geral da República
José Adonis Callou de Araújo Sá.
Cascata. Quando as primeiras conver-
sas foram vazadas pelo Intercept, a PF so-
licitou os telefones dos integrantes da for-
ça-tarefa da Lava Jato para perícia, e eles
se recusaram a entregar os equipamen-
tos. Além disso, as mensagens mencio-
nam processos, documentos, reuniões e
diligências que podem ser checados, como
fizeram os jornalistas que tiveram aces-
so ao material antes da prisão dos hackers
Walter Delgatti Neto e Danilo Marques.
A propósito, os procuradores apaga-

ram as mensagens por razões de seguran-
ça ou para destruir provas? “O empreitei-
ro Marcelo Odebrecht foi preso, entre ou-
tros motivos, por promover uma limpeza
nos aparelhos telefônicos dele e de outros
executivos da empreiteira”, lembra Carva-
lho. “Portanto, pelo critério da Lava Jato,
isso poderia ser interpretado como obs-
trução das investigações. Se Dallagnol fos-
se julgado por Moro, ele já estaria preso.” •

May 16, 2021

Saúvas de farda

 
No segundo dia de
seu mandato, Jair
Bolsonaro deu
uma enigmática
declaração na ce-
rimônia de pos-
se do ministro da
Defesa, general Fernando Azevedo e Sil-
va. Dirigindo-se a outro oficial presente
na solenidade, prometeu levar um segre-
do para o túmulo: “General Villas Bôas,
o que já conversamos ficará entre nós. O
senhor é um dos responsáveis por eu es-
tar aqui”. O comentário instigou a curio-
sidade de todos. Qual teria sido a confi-
dência do então comandante do Exérci-
to para o presidente? E, principalmente,
por que o militar seria um dos responsá-
veis pela chegada do capitão reformado
ao Planalto? O mistério persiste até ho-
je, a despeito dos esclarecimentos cobra-
dos, à época, pela deputada Gleisi Hoff-
mann, presidente do PT.


Uma contribuição era de conheci-
mento público, não faria sentido guar-
dar segredo. Em abril de 2018, às véspe-
ras do julgamento de um habeas corpus
que poderia libertar Lula, líder nas pes-
quisas de intenção de voto, Villas Bôas fez
uma ameaça velada ao Supremo Tribunal

 Federal. “Asseguro à Nação que o Exérci-
to Brasileiro julga compartilhar o anseio
de todos os cidadãos de bem de repúdio
à impunidade e de respeito à Constitui-
ção, à paz social e à Democracia, bem co-
mo se mantém atento às suas missões ins-
titucionais”, escreveu no Twitter. Impos-
sível saber se algum ministro se sentiu in-
timidado a ponto de mudar o próprio voto,
mas um fato não pode ser negado: a deci-
são da Corte satisfez o desejo do general.
Derrotado pelo placar de 6 votos a 5, o ex-
-presidente permaneceu preso e impedi-
do de disputar as eleições.

Passados quase tres anos, o ex-coman-
dante confessa, no livro-entrevista Gene-
ral Villas Bôas: Conversa com o Coman-
dante, recém-lançado pela Editora FGV,
que o controverso tuíte não apenas visa-
va influenciar o Supremo, como foi discu-
tido com integrantes da cúpula das For-
ças Armadas. “O texto teve um ‘rascunho’
elaborado pelo meu staff e pelos integran-
tes do Alto-Comando residentes em Bra-
sília. No dia seguinte da expedição, reme-
temos para os comandantes militares de
área. Recebidas as sugestões, elaboramos
o texto final, o que nos tomou todo expe-
diente, até por volta das 20 horas”, relata
Villas Bôas, acrescentando que a mensa-
gem era apenas “um alerta”.


Villas Bôas parece não compreender
bem o significado das palavras, comen-
ta Celso Amorim, ex-chanceler de Lula
e ministro da Defesa de Dilma Rousseff.
“Quando alguém faz um alerta com a ar-
ma na mão, você tem escolha? Para mim

está claro que foi ameaça, e ela surtiu
efeito”, afirma o diplomata. “Essa deci-
são não mudou apenas o destino do ex-
-presidente, mas também o do Brasil.
Naquele momento, Lula liderava as pes-
quisas de intenção de voto e tinha gran-
des chances de se eleger. Isso abriu ca-
minho para a ascensão da extrema-di-
reita”

O livro de Villas Bôas acirrou os âni-
mos em Brasília. Com três anos de atra-
so, fato lembrado pelo próprio general nas
redes sociais, o ministro Edson Fachin
disse ser “intolerável e inaceitável” qual-
quer tentativa de pressionar o Judiciário.
Relator do caso, ele votou contra o habeas
corpus de Lula e, talvez, queira demons-
trar que não foi por medo da reação mili-
tar. Gilmar Mendes engrossou o coro: “Di-
tadura nunca mais”. Foi o que bastou pa-
ra o deputado bolsonarista Daniel Silveira
gravar um vídeo com insultos e ameaças
aos juízes da Corte (leia mais à pág. 32).
Chamado de “Xandão do PCC” pelo parla-
mentar, o ministro Alexandre de Moraes
decretou a prisão do valentão e caberá à
Câmara dos Deputados decidir se revoga
ou mantém a decisão judicial. A eventual
intervenção do Planalto em prol do alia-
do só abalaria ainda mais as tensas rela-
ções do governo com o Supremo.


O empenho da cúpula das
Forças Armadas em in-
viabilizar a candidatu-
ra de Lula foi regiamen-
te recompensado. Dos
23 ministros de Bolsonaro, 11 têm his-
tórico militar. A banda fardada nunca
teve tanto prestígio, desde o fim da dita-
dura. Segundo um levantamento divul-
gado pelo Tribunal de Contas da União
em julho de 2020, mais de 6,1 mil mi-
litares da ativa e da reserva ocupavam
cargos civis no governo federal, o dobro
do contingente antes de o ex-capitão
assumir a Presidência. Nem mesmo a
Venezuela de Nicolás Maduro, sempre
criticada, tem gestão tão militarizada.
Na verdade, os números do TCU estão

subestimados. Na mesma época, o site
Poder 360 divulgou outro levantamen-
to, obtido por meio da Lei de Acesso à In-
formação, a revelar a existência de 8.450
oficiais e praças da reserva entrincheira-
dos em ministérios, comandos e tribunais
militares. Nessa conta foram incluídos os
inativos contratados em uma nova moda-
lidade, batizada de “tarefa por tempo cer-
to”, que pode durar até dez anos. Soma-
dos aos 2.930 militares da ativa, o núme-
ro passaria de 11,3 mil.


Tantos militares no car-
go desfizeram uma falá-
cia alimentada pelos ofi-
ciais das Forças Armadas
e de parte da mídia: a falsa
imagem de competência e probidade atri-
buída aos fardados. Nestes dois anos de
governo, afloram denúncias de mau uso
do dinheiro público, sinecuras diversas,
benefícios a parentes e despreparo puro
e simples. Neste último item, o caso mais
vistoso é o do general Eduardo Pazuello,
ministro da Saúde, investigado por negli-
gência no combate à pandemia.


Além do loteamento de cargos no go-
verno, as Forças Armadas receberam
numerosas benesses de Bolsonaro. Em
2019, quando a Reforma da Previdência
obrigou os brasileiros a trabalhar por
mais tempo para ter direito à aposenta-
doria, a turma fardada conseguiu barga-
nhar uma reforma mais branda, atrelada
a um generoso plano de reestruturação
de carreiras que aumentou o salário dos
militares na ativa em até 43%. Resultado:
a economia com os vencimentos de pra-
ças e oficiais foi reduzida a 10,5 bilhões
de reais em dez anos, o equivalente a 1,3%
dos 800 bilhões de reais que o governo
tirou dos aposentados em geral. A maior
parte dos privilégios permaneceu into-
cada, como a aposentadoria com salário
integral e sem idade mínima.


O projeto tampouco pôs fim à farra das
pensões vitalícias para filhas de milita-
res. A benesse foi extinta em 2000 para
novos servidores, mas quem antes esta-
va nas Forças Armadas pode pagar um
adicional de 1,5% na contribuição pre-
videnciária para manter o privilégio

.
“Muitas beneficiárias acabaram se ca-
sando e, após a morte do marido, acu-
mularam pensões, uma por ser viúva e
outra por ser filha de militar falecido. E
o pior é que o STF tem autorizado a con-
cessão desse duplo benefício”, comenta
o deputado Paulo Pimenta, do PT. “Com
Bolsonaro, as benesses foram ampliadas.
Ele dobrou, por exemplo, o valor da ajuda
de custo paga aos militares transferidos
para a reserva. Agora, quem se aposenta
recebe o equivalente a oito salários, isso
não existe em nenhum lugar do mundo.”


Em junho de 2020, o ex-capitão tam-
bém reajustou em 73% a bonificação sa-
larial paga aos militares que fazem cur-
sos ao longo da carreira. O penduricalho,
chamado de “adicional de habilitação”,
custará aos cofres públicos mais de 26,5
bilhões de reais em cinco anos. Para su-
portar tantos privilégios, Bolsonaro tur-
binou o orçamento do Ministério da De-
fesa. Em 2021, pretende gastar 110 bilhões
de reais. É quase o mesmo valor que o go-
verno se dispôs a gastar com a pasta da
Educação ao longo deste ano, 114 bilhões.
Nem mesmo a pandemia reduziu o ape-
tite da turma. No fim de janeiro, o site Me-
trópoles causou alvoroço ao revelar as des-
pesas do governo com alimentos e bebi-
das, que teriam totalizado 1,8 bilhão de re-
ais no ano passado, segundo um levanta-
mento feito pelo portal no painel de com-
pras do Ministério da Economia. Entre as
mais controversas, figuravam os 15,6 mi-
lhões de reais gastos com leite condensado
e os 2,2 milhões usados na compra de chi-
cletes. A Defesa concentrava a maior parte
dos gastos, ao menos 632 milhões de reais.


À época, a pasta disse que os valores
efetivamente gastos com esses itens eram

muito inferiores à cifra divulgada na re-
portagem e lembrou que o governo preci-
sa alimentar mais de 370 mil servidores
das Forças Armadas, além de apresen-
tar justificativas plausíveis para o con-
sumo dos itens mais polêmicos. O leite
condensado faz parte da dieta dos mili-
tares, devido ao seu elevado valor energé-
tico. A goma de mascar, por sua vez, auxi-
lia na higiene bucal, quando a tropa está
impossibilitada de fazer a escovação ade-
quada. Deputados do PSB decidiram, po-
rém, investigar melhor esse carrinho de
compras. Descobriram que a Defesa com-
prou nada menos que 700 toneladas de
picanha, 140 toneladas de lombo de ba-
calhau e 80 mil cervejas em 2020

.
Em denúncia encaminhada para a
Procuradoria-Geral da República, os
parlamentares apontaram, ainda, nu-
merosos indícios de superfaturamento.
Em uma das compras, o quilo da picanha
saiu por 118 reais. Em outra, o quilo do
bacalhau custou 150 reais. As cervejas,
quase sempre das marcas mais caras dis-
poníveis no mercado, chegavam a apre-
sentar sobrepreço de até 48,6%. Se o go-
verno gasta apenas 9 reais por dia com a
alimentação de cada militar, como diz o
Ministério da Defesa, por que desperdi-
çar recursos em itens supérfluos? Aliás,
como explicar gastos tão elevados com
carnes nobres caras se “o País está que-
brado”, como repete Bolsonaro, ao esqui-
var-se das cobranças pela renovação do
auxílio emergencial?


Pazuello é investigado por omissão
na crise do oxigênio em Manaus e por
propagandear a cloroquina, produzida com
sobrepreço no Laboratório do Exército
nos estados e municípios. Em algumas ci-
dades, como Blumenau, em Santa Catari-
na, o estoque disponível daria para aten-
der a demanda por cem anos, denuncia a
mídia local. Não por acaso, o Tribunal de
Contas da União deu um prazo de 15 dias
para o Ministério da Saúde, o Exército e a
Fiocruz justificarem o esforço de produ-
ção e distribuição da droga.

As Forças Armadas não desperdiçam
recursos apenas para satisfazer o próprio
paladar. Em dezembro, a Aeronáutica as-
sinou um contrato de 33,8 milhões de dó-
lares, mais de 150 milhões de reais, com
uma empresa finlandesa para comprar
um satélite de monitoramento da Ama-
zônia. Especialistas dizem que a aquisi-
ção é inútil, pois o País dispõe de equipa-
mentos suficientes para supervisionar a
região. O contrato foi classificado como si-
giloso e o comando da Aeronáutica recu-
sou-se a prestar esclarecimentos.


Em setembro, a CNN Brasil revelou que

o Laboratório do Exército pagou quase o
triplo do valor para adquirir insumos pa-
ra a fabricação de cloroquina. Incontáveis
pesquisas atestam que o medicamento an-
timalárico não tem eficácia contra o Coro-
navírus, além de causar arritmia cardía-
ca e outros efeitos colaterais. Ainda assim,
Bolsonaro fez uma gigantesca encomenda
da droga para oferecer nos hospitais como
“tratamento precoce” da Covid-19.

Resultado: o remédio está encalhado
nos estados e municípios. Em algumas ci-
dades, como Blumenau, em Santa Catari-
na, o estoque disponível daria para aten-
der a demanda por cem anos, denuncia a
mídia local. Não por acaso, o Tribunal de
Contas da União deu um prazo de 15 dias
para o Ministério da Saúde, o Exército e a
Fiocruz justificarem o esforço de produ-
ção e distribuição da droga.

Na verdade, Bolsonaro e
Pazuello estão na mira
do Ministério Público
Federal. O procurador-
-geral da República,
Augusto Aras, abriu uma investigação pre-
liminar para apurar a eventual omissão da
dupla na crise do oxigênio em Manaus, que
resultou na morte de dezenas de pacientes
por asfixia. O Ministério da Saúde ignorou
uma série de alertas sobre a falta do insu-
mo antes do colapso nos hospitais. A pro-
dução e distribuição da cloroquina tam-
bém fazem parte do escopo das diligên-
cias. Difícil saber se a apuração vai, de fato,
deslanchar. Nomeado por Bolsonaro e de
olho em uma vaga no STF, Aras sempre se
mostrou leal ao governo, fazendo jus ao tí-
tulo de “engavetador-geral da República”,
jocoso apelido que, nos anos FHC, perten-
cia a Geraldo Brindeiro.


General da ativa do Exército, Pazuello
é motivo de constrangimento para as For-
ças Armadas. Para agradar ao chefe, ele
chegou a criar um aplicativo que reco-
mendava “tratamento precoce” para a Co-
vid com drogas sem eficácia comprovada,
o popular “Kit Cloroquina”. À frente do
Ministério da Saúde, mostrou-se incapaz

até mesmo de organizar uma licitação pa-
ra a aquisição de agulhas e seringas. Com
meses de atraso, lançou um edital às pres-
sas no fim de 2020, e só conseguiu com-
prar 3% dos 331 milhões de unidades pre-
tendidas. Apresentado como “especialista
em logística”, apostou todas as fichas em
uma única vacina e, depois, teve de correr
para celebrar contratos com outros labo-
ratórios. Na desesperada tentativa de si-
lenciar as críticas pelo atraso na campa-
nha de imunização, chegou a fretar um
avião para buscar vacinas na Índia, sem
antes consultar a disponibilidade do ma-
terial. A aeronave não chegou a decolar do
Recife. As autoridades indianas só despa-
charam as doses uma semana depois.


O resultado não poderia ser outro. Na
terça-feira 16, o Brasil superou a mar-
ca de 240 mil óbitos por Covid-19. Man-
tém a vice-liderança no ranking mundial,
atrás apenas dos EUA. Além disso, o País
Our World in Data, mantido por pesqui-
sadores de Oxford. Com esse porcentual,
o Brasil nem sequer figurava entre as 50
nações que mais avançaram na imuniza-
ção da própria população.


Mourão teve de abortar a operação na Amazônia
está prestes a completar um mês com mé-
dia superior a mil mortes por dia. Não há
o mais pálido sinal de arrefecimento da
pandemia. Para piorar, a campanha de
vacinação avança a passos de tartaru-
ga, fato que levou a Confederação Na-
cional de Municípios a pedir a cabeça do
ministro Pazuello. Até a quarta-feira 17,
apenas 2,6% dos brasileiros receberam a
primeira dose da vacina, segundo o site

O fim precoce
precoce da operação
Verde Brasil 2, destina-
da a combater as quei-
madas na Amazônia,
é outro vexame para o
Exército. Repetidas vezes, o vice-pre-
sidente Hamilton Mourão prometeu
manter os militares na região até o fim
de 2022. Depois de consumir ao menos
410 milhões de reais, valor muito supe-
rior ao orçamento do Ibama para a fisca-
lização ambiental em todo o País (cerca
de 70 milhões de reais), o general anun-
ciou a retirada da tropa até 31 de abril.


Segundo ele, o governo pretende focar
nos 11 municípios que mais desmatam
A lista das cidades foi atribuída a “fon-
tes de inteligência”. Na verdade, a ultras-
secreta relação está disponível no site do
Inpe a qualquer cidadão há mais de 13
anos, quando Lula assinou um decreto
regulamentando a estratégia de comba-
te ao desmatamento focada em municí-
pios prioritários.


A despeito dos gastos milionários, os
resultados da Verde Brasil 2 foram pífios.
Nos oito primeiros meses de atuação, de
maio de 2020 a janeiro de 2021, o número
de multas aplicadas pelo Ibama na Ama-
zônia por infrações contra a flora caiu
36,7% em relação aos mesmos meses de
2019/2020, revela um levantamento fei-
to pelo Observatório do Clima. Na compa-
ração com 2015/2016, a queda foi de 60%.
Além disso, a taxa oficial de desmatamen-
to, medida pelo Inpe, aumentou 9,5% em
2020 em relação a 2019, num período par-
cialmente coberto pela operação militar.


Mas o fator determinante para a reti-
rada da tropa parece ser outro, bastante
mesquinho. Como não pode demitir o seu
vice, com quem teve uma série de atritos
públicos, Bolsonaro tratou de esvaziar o
seu poder. “O que nós podemos falar pa-
ra aqueles que nos criticam é o seguinte,
olha: nós não temos condições, por ques-
tões econômicas, de atender nessa área.
Venha nos ajudar”, desconversou o presi-
dente uma semana antes de a operação ser
abortada. Os militares devem deixar a flo-
resta exatamente um mês antes do período
de seca na Amazônia, quando as queima-
das costumam se alastrar pelo bioma.


Uma pergunta crucial para o futuro do
País se impõe: os militares abrirão mão
das sinecuras e voltarão pacificamente
para os quartéis se Bolsonaro perder a
eleição em 2022? •

RODRIGO MARTINS

Carta Capital 


May 10, 2021

Orçamento secreto bilionário de Bolsonaro banca trator superfaturado em troca de apoio no Congresso

 


Breno Pires, O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA – Um esquema montado pelo presidente Jair Bolsonaro, no final do ano passado, para aumentar sua base de apoio no Congresso criou um orçamento paralelo de R$ 3 bilhões em emendas, boa parte delas destinada à compra de tratores e equipamentos agrícolas por preços até 259% acima dos valores de referência fixados pelo governo.

O flagrante do manejo sem controle de dinheiro público aparece num conjunto de 101 ofícios enviados por deputados e senadores ao Ministério do Desenvolvimento Regional e órgãos vinculados para indicar como eles preferiam usar os recursos.

O detalhe é que, oficialmente, o próprio Bolsonaro vetou a tentativa do Congresso de impor o destino de um novo tipo de emenda (chamada RP9), criado no seu governo, por “contrariar o interesse público” e estimular o “personalismo”. Foi exatamente isso o que ele passou a ignorar após seu casamento com o Centrão.

Os ofícios, obtidos pelo Estadão ao longo dos últimos três meses, mostram que esse esquema também atropela leis orçamentárias, pois são os ministros que deveriam definir onde aplicar os recursos. Mais do que isso, dificulta o controle do Tribunal de Contas da União (TCU) e da sociedade. Os acordos para direcionar o dinheiro não são públicos, e a distribuição dos valores não é equânime entre os congressistas, atendendo a critérios eleitorais. Só ganha quem apoia o governo.

O senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), por exemplo, determinou a aplicação de R$ 277 milhões de verbas públicas só do Ministério do Desenvolvimento Regional, assumindo a função do ministro Rogério Marinho. Ele precisaria de 34 anos no Senado para conseguir indicar esse montante por meio da tradicional emenda parlamentar individual, que garante a cada congressista direcionar livremente R$ 8 milhões ao ano.

Ex-presidente do Senado, Alcolumbre destinou R$ 81 milhões apenas à Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), a estatal que controla, ao lado de outros políticos.

Um caso emblemático é o do deputado Lúcio Mosquini (MDB-RO). O governo aceitou pagar R$ 359 mil num trator que, pelas regras normais, somente liberaria R$ 100 mil dos cofres públicos. No total, o deputado direcionou R$ 8 milhões.

Há situações até em que parlamentares enviaram milhões para compra de máquinas agrícolas para uma cidade a cerca de dois mil quilômetros de seus redutos eleitorais. É o caso dos deputados do Solidariedade Ottaci Nascimento (RR) e Bosco Saraiva (AM). Eles direcionaram R$ 4 milhões para Padre Bernardo (GO). Se a tabela do governo fosse considerada, a compra sairia por R$ 2,8 milhões. À reportagem, Saraiva disse que atendeu a um pedido de Nascimento, seu colega de partido. Por sua vez, Nascimento afirmou ter aceito um pedido do líder da legenda na Câmara, Lucas Vergílio (GO).

Planilha secreta do governo obtida pelo Estadão revela que Alcolumbre também destinou R$ 10 milhões para obras e compras fora do seu Estado. Dois tratores vão para cidades no Paraná, a 2,6 mil quilômetros do Amapá. Sem questionar, o governo concordou em comprar as máquinas por R$ 500 mil, quando pelo preço de referência sairiam por R$ 200 mil.

As máquinas são destinadas a prefeituras para auxiliar nas obras em estradas nas áreas rurais e vias urbanas e também nos projetos de cooperativas da agricultura familiar. Os políticos costumam promover festas de entrega dos equipamentos, o que lhes garante encontros e fotos com potenciais eleitores em ano pré-eleitoral.

Ao serem entrevistados, deputados e senadores negavam o direcionamento dos recursos ou se recusavam a prestar informações. Confrontados com ofícios assinados por eles e a planilha do governo, acabaram por admitir seus atos.

‘Minha cota’ e ‘fui contemplado’: os termos nos ofícios dos parlamentares

O deputado Vicentinho Junior (PL-TO) escreveu à Codevasf que havia sido “contemplado” com o valor de R$ 600 mil para compra de máquinas. “Dificilmente esse ofício foi redigido no meu gabinete, porque essa linguagem aí, tão coloquial, eu não uso”, disse.

Somente após o Estadão encaminhar o documento, Vicentinho Junior admitiu a autoria, mas minimizou a expressão “contemplado” ali utilizada. “Às vezes, uma colocação nesse sentido nada mais é do que ser simpático”, resumiu.

“Minha cota”, “fui contemplado” e “recursos a mim reservados” eram termos frequentes nos ofícios dos parlamentares. Foi dessa última forma que a deputada e atual ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda (PL-DF), se dirigiu à Codevasf para definir o destino de R$ 5 milhões. “Não me lembro. Codevasf?”, perguntou ao Estadão.

Ao ler o documento, Flávia desconversou: “É tanta coisa que a gente faz que não sei exatamente do que se trata”. Nem tudo, porém, é registrado. O senador Rodrigo Cunha (PSDB-AL) admitiu que “ditou” para o ministro Marinho onde R$ 7 milhões deveriam ser aplicados.

Na prática, a origem do novo esquema está no discurso de Bolsonaro de não distribuir cargos, sob o argumento de não lotear o primeiro escalão do governo. De um jeito ou de outro, a moeda de troca se deu por meio da transferência do controle de bilhões de reais do orçamento ao Congresso. Tudo a portas fechadas, longe do olhar dos eleitores.


BRASÍLIA – A compra de máquinas pesadas virou uma obsessão do atual Congresso. No orçamento secreto de R$ 3 bilhões de recursos do Ministério de Desenvolvimento Regional que o governo terceirizou para deputados e senadores no final do ano passado, ao menos R$ 271,8 milhões foram para aquisição de tratores, retroescavadeiras e equipamentos agrícolas.

Os tratores foram os itens mais requisitados. As máquinas são destinadas a prefeituras para auxiliar nas obras em estradas nas áreas rurais e vias urbanas e nos projetos de cooperativas da agricultura familiar. Os parlamentares indicaram um gasto de R$ 15 milhões para a aquisição de 115 máquinas. Destas compras, apenas 12 estão previstas com preços dentro da tabela de referência do governo.

O esquema montado pela equipe do presidente Jair Bolsonaro para se aproximar do Congresso jogou nas mãos de um grupo de deputados e senadores os recursos do ministério comandado por Rogério Marinho (sem partido-RN).

Destinados geralmente a prefeituras de redutos dos parlamentares, as máquinas e equipamentos saíram na maioria das vezes acima do preço de referência estabelecido pelo próprio ministério, em cartilha válida para 2021.

São dezenas de motoniveladoras, retroescavadeiras, carretas agrícolas, pás carregadeiras e caminhões, entre outros itens. Os autores das indicações são 37 deputados e cinco senadores. Entre eles, estão o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP) e o ex-líder do governo na Câmara, Vitor Hugo (PSL-GO).

Dos recursos do “planilhão”, o Ministério do Desenvolvimento Regional liberou R$ 2,8 milhões para a compra de quatro motoniveladoras em convênios indicados por Vitor Hugo. Pela tabela do governo, o custo dessas quatro máquinas sairia por R$ 500 mil a menos.

Do total de gastos com compras de máquinas e equipamentos agrícolas que a reportagem conseguiu rastrear, 361 itens têm valores acima dos preços de referência do governo, considerando a tabela deste ano. Não foi possível, porém, obter informações sobre uma boa parte das aquisições que serão feitas pelos órgãos vinculados ao ministério. A falta de detalhamento ocorreu especialmente nas compras da Companhia de Desenvolvimento do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs).

Nos últimos dez anos, a ação orçamentária que inclui a compra de maquinários deu um salto em valores aplicados. O gasto passou de R$ 484 milhões em 2010 para R$ 4,5 bilhões em 2020, segundo ano de mandato de Bolsonaro. Pelo menos R$ 1 bilhão foi para a compra de equipamentos, incluindo tratores, no ano passado.

Dos R$ 132 milhões de compras de máquinas pesadas previstas no planilhão passíveis de análise, 81% do montante, isto é, R$ 107,1 milhões, foram para contratos identificados com preços acima da tabela do governo. O valor global é de R$ 23 milhões a mais do que se a compra respeitasse a tabela.

Parlamentares indicam preços e modelos de tratores para compra

O deputado Charles Fernandes (PSD-BA), por exemplo, chegou a indicar até o CNPJ e o telefone para contato de uma associação beneficente à qual queria destinar uma retroescavadeira no interior da Bahia. O parlamentar escreveu que o item deve ser comprado por R$ 300 mil, o que supera em R$ 50 mil o preço de referência.

Por sua vez, o presidente da Câmara, Arthur Lira, pôde direcionar R$ 30 milhões só para o Dnocs. Com esse valor, o órgão está adquirindo 44 tratores agrícolas a preços superiores aos R$ 100 mil previstos na cartilha do ministério. No total, os itens custarão R$ 1,6 milhão a mais do que a referência.

Os documentos demonstram que Lira ainda direcionou recursos para o governo de Mato Grosso (a 2.300 quilômetros em linha reta do seu reduto eleitoral) comprar seis carretas agrícolas, por preço total de R$ 138.060. Pela tabela do governo, as máquinas custariam R$ 60 mil. No total, Lira manejou R$ 114 milhões do orçamento secreto de Bolsonaro. No caso dos recursos do orçamento secreto, além do sobrepreço, parte dos convênios foi assinada pelo governo federal mesmo com pendências legais.

Motoniveladoras foi um dos itens mais caros

Máquina usada para nivelar terrenos, a motoniveladora foi um dos itens mais caros nas listas de compras indicadas por parlamentares. Com a “cota” do deputado Nelto (Podemos-GO) serão compradas quatro máquinas desse tipo por R$ 723 mil cada, quando o preço de referência é R$ 470 mil. O plano de compra nessas condições está aprovado pela Sudeco. O Estadão localizou a aprovação para a compra da mesma máquina, no mesmo dia, por R$ 584 mil cada.

Fora do acordo para os políticos operarem o orçamento secreto, o Estadão encontrou vários registros de compras de tratores e máquinas agrícolas que seguem o preço de referência. Um convênio do Ministério do Desenvolvimento com o município de Nanuque (MG), por exemplo, registra a compra de uma motoniveladora no valor de R$ 462 mil, pouco menos que a referência, de R$ 470 mil.



May 9, 2021

Maria, preciso te contar sobre Bolsonaro, o fazedor de órfãos

 Uma imagem de arquivo feita pelo premiado fotógrafo Lilo Clareto, que morreu em 21 de abril.

Eliane Brum

Maria, você tem apenas 2 anos. Um, dois. E apenas esses dois anos separam seu nascimento da morte do seu pai. Lilo Clareto morreu em 21 de abril. A causa oficial da certidão de óbito é: “sepse grave, pneumonia associada à ventilação e covid (tardia)”. Mas essa é apenas a verdade parcial sobre a morte do seu pai. Eu olho para você, Maria, e me preparo para a conversa que um dia teremos, aquela em que precisarei contar a você a verdade inteira.

Maria, seu pai foi vítima de extermínio. Seu pai é um dos mais de 410.000 brasileiros que tombaram por um crime contra a humanidade entre os anos de 2020 e 2021. Enquanto eu escrevo essa carta para você, os assassinatos seguem acontecendo a uma média de quase 2.400 cadáveres por dia. Eu olho para você, Maria, e você ainda diz, os olhos escancarados de expectativa, quando alguém faz barulho na porta da frente: “pa!”. E, então, decepcionada: “pa?”.

Não, Maria, seu pai não entrará mais pela porta da casa cantando e com as mãos estendidas para pegar você no colo. Enquanto escrevo essa carta para você, Maria, seu pai virou cinzas. Essas cinzas serão um dia jogadas na boca do Riozinho, lá onde esse rio, só pequeno no nome, encontra o Iriri, na Terra do Meio, na Amazônia.

Sei que mesmo que eu espere até você ficar muito mais velha, Maria, você não será capaz de entender por completo. Você já poderá compreender o pensamento de Davi Kopenawa, Sueli Carneiro e Paul Preciado, mas não terá como compreender o pensamento de um homem que, na maior crise sanitária da história do Brasil, trabalhou para disseminar um vírus que pode matar. E mata.

Não importa a idade que você tenha e os diplomas que acumular, Maria. Ainda assim não haverá como compreender um homem que estimulou as aglomerações quando os médicos pediam que a população ficasse em casa. Um homem que vetou a obrigatoriedade de uso de máscaras quando as populações da maioria dos países do mundo usava máscaras para se proteger da contaminação. Um homem que esbanjou dinheiro público com medicamentos comprovadamente sem eficácia contra uma doença fatal e mentiu para a população que eram eficazes. Um homem que chamou o que matou seu pai e quase meio milhão de brasileiras e brasileiros (até agora) de “gripezinha”. Um homem que recusou as vacinas contra essa doença que converteu você em órfã. Não, Maria, você não poderá entender esse homem em nenhuma circunstância.

Você olhará para mim com seus olhos escuros, suas pupilas negras, em busca de esclarecimento. Eu vou olhar para você e prometo fazer o possível para não baixar os olhos. Porque, Maria, eu não tenho resposta. Muitas teorias já foram feitas sobre genocidas como Adolf Hitler, Pol Pot e Slobodan Milosevic. Eu já li algumas delas. E muitas, tenho certeza, serão feitas sobre Jair Bolsonaro. E também se escreverá muito sobre as brasileiras e brasileiros que o sustentaram no poder. Primeiro com seu voto, depois com sua crença. Assim como tantos filmes e livros foram feitos e escritos sobre os alemães medianos que sustentaram, com sua ação ou omissão, o extermínio de 6 milhões de judeus, homossexuais, ciganos e pessoas com deficiência na Alemanha dos anos 1940. Pessoas que andavam entre nós, que conversavam amenidades na fila do pão e, de repente, olhamos para elas e as descobrimos salivando com a morte. Pediam não mais pão, mas mais armas.

O que é o mal, Maria? Nos debatemos com esse dilema desde sempre. Até viver horrores como esse apenas pelos livros, eu tinha muitas dúvidas sobre nomear o mal. Me parecia simples demais, fácil demais. Mas, hoje, Maria, depois do que tenho testemunhado com meu próprio corpo, preciso dizer que o mal existe. Bolsonaro é o mal, Maria. E Bolsonaro foi engendrado nesse mundo, nessa época histórica, por essa sociedade, por essa conjunção de genes e de acasos, por essas circunstâncias.

Bolsonaro tenta fazer o mal desde que o Brasil sabe de Bolsonaro. Ele era militar do Exército e já planejava colocar bombas nos quartéis. Por interesses de um grupo e de outro, quem deveria barrá-lo não o barrou. E, de impunidade em impunidade, o mal assumiu o poder. E, por isso, seu pai perdeu a vida e você ficou sem pai. Você, Maria, e dezenas de milhares de outras crianças. Quando eu finalmente for capaz de ter essa conversa com você, talvez sejam centenas de milhares de outras filhas e filhos sem pai ou sem mãe. Porque hoje, quando escrevo essa carta para você, Maria, o mal ainda governa o Brasil.

Vou interromper o mal para falar do seu pai. Do contrário, também eu não suporto, Maria. Algumas pessoas, com a melhor das intenções, eu sei, me dizem que era a hora do seu pai, que ele já tinha cumprido sua missão nesse plano. Eu afirmo, com toda convicção: não era a hora de o Lilo morrer. Ao contrário, continuava sendo a hora de o Lilo viver. Seu pai me contava, apenas algumas semanas antes, que apesar de toda a dureza de enfrentar uma pandemia, ele vivia um dos melhores momentos da sua vida. Porque ele vivia apaixonado por sua mãe e porque ele tinha você, Maria. E ele sonhava em ensinar a você tudo o que ele sabia.

Seu pai nem ficou sabendo, Maria, mas enquanto estava em coma induzido no hospital, ele foi aprovado para o curso de Letras na Universidade Federal do Pará. Ele queria mesmo fazer Arqueologia, porque tinha se apaixonado pelo trabalho dos arqueólogos numa expedição que fizemos juntos à Estação Ecológica, na Terra do Meio. Mas não existia essa opção em Altamira. Como seu pai era poeta, das luzes e também das palavras, ele escolheu o curso de Letras. Seu pai sabia dizer por inteiro A Máquina do Mundo, poema de seu conterrâneo Carlos Drummond de Andrade. E, sempre que dizia, seus olhos boiavam em água salgada. Para o seu pai, a máquina do mundo estava sempre se abrindo como o diafragma da câmera com que ele capturava a realidade como ele a via. Desde que você nasceu, Maria, era a realidade de você que ele convertia em imagem. Você e sua mãe eram, para ele, um mundo só bom.

Não, Maria, não acredite nem por um segundo que era hora de o seu pai morrer. Não era. Seu pai, como centenas de milhares de brasileiros, morreu porque Jair Bolsonaro e seu Governo executaram um plano de disseminação do novo coronavírus para, supostamente, alcançar o que chamam de “imunidade de rebanho”. Sim, Maria, como gado. “Alguns vão morrer, lamento, essa é a vida”, era assim que o presidente do Brasil falava.

O mundo inteiro e todos os epidemiologistas respeitáveis diziam o contrário. Afirmavam que era uma insanidade, além de imoral. Dois ministros da Saúde, médicos, abandonaram o governo por não suportar a ideia de ser cúmplices desse crime. Mas Bolsonaro preferiu acreditar nele mesmo, com sua experiência de quase 30 anos se reelegendo no parlamento sem propor nada de útil, porque supostamente não queria que a “economia” fosse prejudicada e, assim, seu projeto de reeleição.

É isso que a análise de mais de 3.000 normas federais, feitas por um grupo de juristas renomados da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, provou. Na sequência, outros estudos concluindo que uma parcela significativa das mortes por covid-19 teriam sido evitadas se Bolsonaro tivesse combatido a covid-19 foram divulgados em algumas das mais importantes publicações científicas do mundo. Pesquisas internacionais mostraram que o Brasil teve a pior atuação na pandemia entre todos os países do planeta.

No momento em que escrevo essa carta para você, Maria, as ações deliberadas e as omissões deliberadas de Bolsonaro e seu Governo provocaram e seguem provocando dezenas de milhares de mortes evitáveis. Como a do seu pai, Maria. No momento em que escrevo essa carta para você, as ações deliberadas e as omissões deliberadas de Bolsonaro e seu Governo gestaram dezenas de milhares de meninas e meninos órfãos, pequenas e pequenos brasileiros que terão que crescer e viver sem pai ou sem mãe. Como você, Maria.

Eu olho para o seu rosto bochechudo de bebê e penso: como vou explicar a você o porquê de crescer sem pai? Eu olho para você, Maria, com apenas 2 anos, e penso: como vou explicar que sua vida, também materialmente, será enormemente prejudicada porque agora sua mãe terá de te sustentar sozinha? Eu olho para você, Maria, com apenas 2 anos, e penso: quem vai pagar a você, Maria, por aquilo que não tem preço, a perda de um pai? Quem vai pagar a todas as Marias e Clarices e Sthephanhys? Quem vai pagar a todos os Josés e Pedros e Neymares? Quem, Maria?

Antes que você levante seus olhos perfurantes para mim mais uma vez, eu preciso voltar a falar do seu pai. Quando eu o conheci, Maria, ele já era um repórter fotográfico experiente. Tinha trabalhado muitos anos no Estadão e recém desembarcara na Época, a revista onde eu trabalhava. Entre suas tantas fotos notáveis está a de um menino vivendo nas ruas de São Paulo, um menino condenado pela nossa incapacidade de enxergar. A imagem capturada pelo seu pai mostra uma criança pequena, apenas um pouco maior do que você, que desloca a chupeta da boca para dar uma tragada no cigarro. É brutal. A chupeta e o cigarro, lado a lado naquela boca com dentes de leite. A infância que resiste pedindo cuidado, a infância destruída que, sem cuidado, é incinerada com um cigarro.

Penso que só Lilo poderia ter capturado aquele instante. E, também daquela vez, Lilo sofreu com o que para sempre sofreria. O que seu pai denunciava provocava comoção social, discursos, mas a sociedade e o Estado logo se esqueciam. E as crianças do Brasil seguiriam morrendo antes de crescer.

E agora, Maria, agora é você a criança que perdeu o pai. Você e dezenas de milhares de brasileirinhas e brasileirinhos. Eu preciso respirar fundo, eu, que ainda tenho ar. Será que ainda restará oxigênio para mim, Maria, quando chegar a hora dessa nossa conversa, ou também eu serei mais uma vítima de extermínio? Enquanto escrevo essa carta para você nenhuma brasileira, nenhum brasileiro está seguro do dia seguinte. E não estará, até que Bolsonaro seja impedido de seguir executando seu plano de morte.

Mas, sim, eu preciso respirar o ar que ainda resta no país e seguir contando a você sobre o homem que matou seu pai. A análise dos documentos assinados pelo presidente do Brasil, que eu prefiro chamar de antipresidente, assim como suas declarações públicas e assim como os documentos e as declarações públicas de membros do seu Governo, pelo menos um deles general da ativa, mostram a execução de um plano de disseminação para promover imunidade por contágio. É verdade, isso aconteceu, os fatos estão documentados. Mas, ainda assim, Maria, eu preciso dizer a você que me parece faltar pelo menos uma peça.

Nunca conheci ninguém como Bolsonaro. Alguém que parece todo ele o que a psicanálise chama de “pulsão de morte”. Minha experiência de mais de 30 anos entrevistando gentes de todas as formas, inclusive assassinos, estupradores e abusadores, e cobrindo todo o tipo de eventos, me mostra que grandes acontecimentos são produzidos por subjetividades tanto ou mais do que por objetividades. As objetividades são o que permitem a subjetividade de se realizar como ato. Mas a força, a pulsão, ela vem de um lugar menos aparente, menos assumido e menos pronunciado.

Minha hipótese, Maria, é que Bolsonaro gosta de matar. Ele também gosta de assistir ao sofrimento de todos os outros, exceto o de seus filhos, que moldou a sua imagem e semelhança para seguirem seu legado de destruição. Um dia, se você tiver estômago, Maria, posso te mostrar uma série de cenas e declarações do homem que hoje governa o Brasil nas quais ele deixa explícito seu gozo com a dor alheia. Algumas vezes, ele até mesmo ri quando se refere aos mortos da pandemia.

O mais fácil, Maria, é achar que isso é loucura, como se a loucura pudesse explicar esse gosto por morte. Não é loucura, Maria. Bolsonaro gosta de matar, gosta de infligir sofrimento e de assistir ao sofrimento, gosta de ver o sangue dos outros correr. Ele gosta. E, infelizmente, Maria, não está sozinho nesse gosto. Seus apoiadores na Amazônia, Maria, onde ambas vivemos, tem essa mesma ânsia. Assim como Bolsonaro planejou explodir bombas nos quartéis, eles planejaram o “dia do fogo”, em 2019, e incendiaram vastas porções da maior floresta tropical do mundo.

Também preciso dizer a você, Maria, que Bolsonaro nunca escondeu seus gostos e pulsões. Ele já declarou que “a ditadura deveria ter matado pelo menos uns 30.000”, que preferia “um filho morto num acidente de trânsito a um filho gay”, que quem discorda dele “vai para a Ponta da Praia”. O que é “Ponta da Praia”, você certamente perguntará. E eu vou ter que explicar a você, Maria, que era um lugar de desova dos corpos dos opositores, torturados até a morte durante o regime militar que oprimiu o Brasil de 1964 a 1985, quando seu pai e eu éramos crianças e depois adolescentes.

Você saberá então, Maria, de mais um triste momento da história do seu país. Bolsonaro, Maria, é produto desse capítulo tenebroso do Brasil. É filho legítimo, principalmente, da impunidade daqueles que torturaram e mataram a mando e a soldo do Estado. Foi ali que Bolsonaro aprendeu que, a serviço do Estado, é possível liberar todas as pulsões de morte, todo o desejo de destruição dos corpos alheios, sem jamais ser responsabilizado e punido por isso. Ao contrário. Como aconteceu com Bolsonaro, o funcionário público planeja explodir quartéis e é promovido a capitão, depois vira deputado e um dia se torna presidente do país.

Ninguém tem como herói declarado um dos mais sádicos torturadores do Brasil por acaso. Sim, Maria, eu sofro para dizer isso a você, mas é preciso. O herói do presidente do Brasil é Carlos Alberto Brilhante Ustra, um homem que torturava até mesmo mulheres grávidas e crianças do seu tamanho, Maria. E, preciso repetir a você, porque você tem direito à verdade: Bolsonaro nunca escondeu isso. Pelo contrário. Ostentava seu herói publicamente como um troféu e, na campanha eleitoral que faria dele presidente, a figura do torturador foi estampada numa camiseta. E mesmo assim esse homem —esse homem— foi eleito.

Bolsonaro é o mal, Maria. E, antes que você levante seus olhos inquisidores na minha direção, eu preciso voltar a falar do seu pai, do contrário não terei forças para chegar ao final dessa carta. E preciso chegar.

Penso que seu pai aprendeu a ver com dona Geraldinha, a mãe que se alfabetizou aos 92 anos porque não queria morrer cega das letras, a mulher de palavra cantada que pariu 16 crianças na roça de Passos, em Minas Gerais. Nenhum sofrimento, e eles foram muitos, deixou marca nos olhos de sua avó, Maria. Eu queria tanto que você a tivesse conhecido, porque dona Geraldinha, assim como seu pai, tinha a pureza de quem a todo momento “renasce para a eterna novidade do mundo”. Dona Geraldinha deu ao seu pai, Maria, olhos de primeira vez.

E foi com esses olhos, Maria, que seu pai se tornou um fotógrafo capaz de documentar a brutalidade, a extensa folha corrida de violações de direitos dos tantos Brasis, sem jamais deixar de capturar a beleza mesmo nas horas brutas. Era nisso que seu pai era imbatível. Lilo apreendia num vislumbre onde estava a resistência pela alegria, pelo riso, pelas delicadezas do cotidiano. É desse olhar suas melhores fotos. E é com esse olhar que suas imagens atravessaram o mundo estampando páginas impressas ou digitais de publicações como EL PAÍS, The Guardian, Folha de S. Paulo, Amazônia Real, Repórter Brasil e tantas outras.

Meu caminho se cruzou com o do seu pai, Maria, em 2001, quando nós dois trabalhávamos na revista Época. Viajamos juntos pela primeira vez para o território Yanomami. Nunca tínhamos trocado palavra antes dessa pauta e olhávamos desconfiados um para o outro. Depois de avião, helicóptero e voadeira, finalmente alcançamos a aldeia indígena à noite, ensopados de chuva amazônica. Nos ofereceram vermes assados na brasa das fogueiras e um espaço no lado de fora da bela casa coletiva. Só cabia uma rede, e seu pai e eu dormimos com o pé de um na cara do outro.

Choveu sobre nós a noite inteira e atravessamos a madrugada tremendo de frio. Ao amanhecer, despertamos com os gritos da equipe de saúde que acompanhávamos: “No chão, não! Segura por favor! Cospe aqui!”. Os profissionais da ONG Urihi precisavam coletar o primeiro catarro da manhã para teste de tuberculose, a doença levada pelos garimpeiros que dizimava —e ainda dizima— os indígenas. Nunca vimos tanto catarro na nossa vida. Com uma estreia dessa magnitude, ou nos amávamos para sempre ou nos odiávamos para sempre. Seu pai e eu nunca mais nos separamos. Tornamo-nos irmãos de alma na vida e uma dupla de reportagem no jornalismo —e nunca separamos uma dimensão da outra. É por isso que, quando você nasceu, Maria, tive a honra de ser sua madrinha.

Duas décadas já haviam se passado desde a primeira reportagem e dezenas de outras aconteceram. Em 2017, seu pai e eu decidimos documentar o Brasil e o mundo desde a Amazônia e nos mudamos para Altamira. Desembarcamos na cidade na noite de 16 de agosto e, numa típica lilagem, na mesma noite seu pai beijava sua mãe (ou sua mãe beijava seu pai) no trapiche do cais, na beira do rio Xingu. Sua mãe, Maria, já era uma das mulheres mais bonitas da região, mas principalmente, Maria, uma ativista pela Amazônia e pelos direitos das mulheres negras. Você nasceu desse amor maior do mundo, Maria, e foi alimentada a leite materno e manifestações contra Belo Monte e tudo o que não presta, onde você passava de colo em colo, amparada por mãos assinaladas por trabalho duro.

E por tudo o que não presta seu pai foi morto, Maria. Ele possivelmente se contaminou com covid-19 ao documentar em vídeo o ecocídio produzido pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte na Volta Grande do Xingu. Esse crime já foi denunciado pelo Ministério Público Federal, mas ainda assim segue sendo perpetrado por conivência do Governo Bolsonaro. Quando você puder ler essa carta, Maria, você já terá descoberto. Ainda assim, preciso te dizer. Você, Maria, nasceu e crescerá numa cidade transfigurada por uma obra corrupta e corruptora. Altamira, Maria, se tornou a cidade mais violenta da Amazônia. Nesse cenário de cataclisma climático provocado por ação humana, adolescentes começaram a se matar em série no início de 2020. Vamos acordar desde já, Maria, que você aprenderá com sua mãe a resistir a todas as formas de morte.

Doente desde os primeiros dias de março, seu pai enfrentou todo o colapso do sistema público de saúde numa cidade amazônica. Sobre esse capítulo, Maria, vou precisar pedir licença a você para me aprofundar em uma segunda carta, porque há muito que ainda precisa ser esclarecido. Por enquanto, vou apenas mencionar que seu pai morreu na fila por uma vaga numa UTI pública de São Paulo.

Seu pai só não morreu na rua, Maria, como aconteceu —e ainda acontece— com milhares de brasileiras e brasileiros porque uma rede de amigas e amigos dedicou seus dias a conseguir doações que permitiram interná-lo na UTI de um hospital privado. Ainda assim, seu pai morreu com uma dívida impagável que nem todas as vaquinhas e vendas de fotos e de camisetas conseguiram alcançar. Seu pai sonhou tanto com a casa própria que nunca conseguiu construir com seu salário de jornalista enquanto viveu e sua morte custou um valor capaz de construir várias casas. Assim é o Brasil, Maria.

Para não perder o fio, é necessário que eu siga te contando sobre tudo o que não presta. Você deve ter percebido, Maria, que eu cada vez prolongo mais os parágrafos sobre seu pai porque meu coração se rebela diante da pergunta inescapável. Desta vez, prometo, vou enfrentar seus olhos e deixar que eles me furem.

Você vai me perguntar, Maria, com o olhar sangrando, por que Bolsonaro não foi barrado. Você vai me perguntar, Maria, por que as instituições, em todas as áreas, não impediram Bolsonaro de seguir disseminando o vírus e matando brasileiras e brasileiros. E eu vou ter que dizer a você que aqueles que comandam as instituições se dividem entre os covardes e os corrompidos. Ambos cúmplices, já que a omissão é um tipo de ação.

Para você não sentir-se tão ferida pela sociedade brasileira, é justo que eu diga a você que já são muito mais de 100 os pedidos de impeachment de Bolsonaro hibernando na gaveta do presidente do Congresso. Primeiro foi Rodrigo Maia, que os manteve lá, hoje é Arthur Lira, representante de uma facção do parlamento formada por deputados de aluguel cujo apelido é Centrão. Quem paga mais, leva. E Bolsonaro desembolsou 3 bilhões de dinheiro público em verbas extras para alugar a lealdade de excelentíssimas excrescências. Para que começassem a investigar a atuação do Governo Bolsonaro na pandemia por uma comissão parlamentar de inquérito foi preciso uma ordem do Supremo Tribunal Federal.

Eu sei, Maria, eu também sinto nojo. E o vômito me atravessa a garganta quando me obrigo a te dizer que existe ainda uma entidade metafísica a que dão o nome de “mercado”. Essa entidade apoiou e respaldou Bolsonaro, assim como o miniministro da Economia, Paulo Guedes, por acreditar que poderia lucrar com Bolsonaro no poder. É preciso dizer que, embora seja pronunciada como se fosse uma entidade acima do bem e do mal, movendo-se por forças superiores, o tal “mercado” é apenas um clube muito seleto de humanos feitos com o mesmo número de cromossomos que eu e você, mas que se apropriam da maior parte da riqueza do planeta. Parte desse clube seletíssimo já fez as contas e desistiu, mas há os que ainda acreditam que Bolsonaro pode seguir tendo alguma utilidade. Esse clube resume-se a um punhado de bilionários e supermilionários e um número menos insignificante de executivos a soldo deles.

Tenho de te contar, Maria, que uma parte da imprensa do país faz bochecho com antisséptico bucal antes de pronunciar ou escrever a palavra “mercado”, como se estivesse se referindo a uma espécie de Oráculo de Delfos. E, para se referir aos generais e às Forças Armadas que apoiaram (e apoiam) Bolsonaro, duplica a dose de enxaguante assim como os amantes fazem para se preparar para o primeiro beijo. Um dia, talvez numa terceira carta, vou precisar te contar, Maria, sobre o fetiche de farda que acomete o Brasil. Qualquer general de pantufa faz essa turma tremer. Ainda não sei dizer se por medo ou por pulsão erótica.

Eu sei, Maria, sei que ainda estou fugindo do tema mais difícil. Desculpa, mas ainda não será nesse parágrafo. Vou precisar contar um pouco mais sobre seu pai para voltar a preencher meus pulmões com ar depois dessa rápida incursão pelo esgoto.

Quero te contar que seu pai tinha se tornado verbo. A definição do verbo “lilar” virou até camiseta à venda na lojinha online criada para arrecadar doações para o tratamento e também para o seu sustento e o da sua mãe. Como está o Lilo, as pessoas me perguntavam? Lilando. E todos já entendiam que ele estava se movendo pelas ruas como se o mundo fosse bom e não tivesse pressa, parando para coletar uma muda de flor por onde andasse sem perceber que a 4X4 tirou fino, poetando nas esquinas, cantando seu assombroso repertório de MPB ou a coleção completa de Pink Floyd com a certeza inabalável do amor da plateia.

Seu pai era assim, Maria. Mesmo pisando sobre campo minado, ele cantava ou poetava, como se intuísse que era preciso manter a leveza ao pisar nas bombas para não explodir com elas. Desarmava qualquer um, às vezes literalmente, com sua certeza de que ninguém teria motivo para fazer mal a ele. Seu pai acreditava que, no final, sempre haveria alguém disposto a lançar uma corda para ele emergir do fosso já puxando um samba. E assim seguia lilando Brasis afora.

Faço mais uma vez uma prece silenciosa para que seu pai não tenha descoberto que dessa vez o buraco era fundo demais e nem todas as cordas que os médicos e enfermeiros, assim como sua família e seus amigos jogaram foram suficientes para enfrentar um extermínio promovido com a máquina do Estado.

Não, Maria, ainda não vou retomar esse caminho de escuridão. Ainda preciso te contar que fui descobrindo devagar que existe algo em que seu pai era ainda mais talentoso do que na fotografia. Lilo era um gênio do amor. A rede que se teceu em apenas um dia para cuidar dele e, agora, também de você e sua mãe, é a prova da capacidade do seu pai em ser amado. E ele retribuía. Enquanto não foi intubado, mesmo na UTI, seu pai dava um jeito de responder às mensagens que recebia de todas as geografias. Como já não tinha ar nem força suficientes para escrever ou falar, promovia uma farta distribuição de emojis. A última mensagem que tenho dele no meu whatsapp tem um coração, nove árvores copadas, três coqueiros e três plantinhas fofas. E então seu pai mergulhou no coma induzido.

Eu jamais imaginaria, Maria, que nossas últimas palavras trocadas seriam emojis. Há 20 anos eu e seu pai andávamos juntos contando os Brasis, eu como repórter de texto, ele como repórter de fotos. Sempre acreditei que, quando escrevia, somava os olhos do Lilo aos meus. E, quando ele fotografava, somava os meus olhos aos dele. Nos movíamos pelo mundo de modo quase simbiótico, nos entendendo apenas pelo olhar. Preciso contar a você, Maria, que quando os olhos de seu pai foram fechados, passei a andar pelos mundos, os de fora e os de dentro, meio cega, cambaleando, desacostumada a ter apenas um par de olhos para contar as histórias desse tempo. E, quando soube que Lilo nunca mais voltaria abri-los, senti que seus olhos tinham sido amputados de mim.

Sim, eu sei Maria, é hora de enfrentar os teus olhos bem abertos. E me encarando. O que eu adiei até agora é a pergunta inescapável. Por que nós não impedimos Bolsonaro?

Eu poderia começar essa resposta te contando que o Brasil é um país fundado sobre corpos humanos, os dos indígenas e depois os dos negros que aqui chegaram escravizados. Você tem, Maria, essa história gravada no corpo, é a tua história. Esse país sempre conviveu com a morte violenta, acreditando que era “normal” existir os matáveis, gente da sua cor, Maria, e os não matáveis. Teu povo, Maria, só parou de ser formalmente escravizado há pouco mais de um século e segue fornecendo a carne para as piores estatísticas de vida e de morte. É um país brutal, Maria, e mesmo a alma dos melhores entre nós é deformada pelo racismo estrutural.

Ainda assim não seria a história inteira. Minha geração é fraca, Maria, preciso dizer a você. Grita muito, mas se arrisca pouco a enfrentar os opressores. Prefere sempre arriscar o corpo dos outros, e a essa altura você já sabe a cor do corpo dos que são chamados a se sacrificar. Quando tua geração olhar para a minha, como você está fazendo agora, tenho certeza que teremos uma vergonha maior do que a vida, porque esse é o tipo de vergonha que mancha uma vida. A depender do tamanho da omissão, mancha até mesmo um nome, para muito além das primeiras gerações.

Sim, vocês, vítimas do fazedor de órfãos chamado Bolsonaro, vão cravar seus olhos em nós e perguntar: “Por que vocês não o impediram de matar nossos pais e mães? Onde vocês estavam? O que estavam fazendo?”. E, por fim, a pergunta mais dura: “Quem são vocês?”.

Te digo, Maria, que hoje já somos marcados de guerra. Nenhum povo perde quase meio milhão de pessoas sem ficar marcado. E seremos assinalados por essa vergonha, por essa afronta, por esse ultraje de testemunhar o extermínio e nos descobrir acostumados a morrer ou a ver matar. Eu já repeti essa pergunta algumas vezes e volto a repetir: como pode barrar seu próprio genocídio um povo que se acostumou a morrer?

Já está dado, Maria, já aconteceu. Mais de 410.000 mortes assinalam uma sociedade para sempre. O que não está dado é se permitiremos que outros mais de 410.000 morram. Neste momento, o Congresso faz uma CPI para apurar os crimes do Governo Bolsonaro relacionados à covid-19. Acredite, Maria, só agora, pela primeira vez, a responsabilidade de Bolsonaro sobre as mortes por covid-19 tornou-se o principal tema do Brasil.

Quando você ler essa carta, Maria, já estará decidido e contado nos livros de história se Bolsonaro seguiu matando seu povo ou se finalmente, com um atraso para sempre criminoso, ele foi responsabilizado e barrado. Espero, Maria, mas espero tanto, que você e todos os órfãos tenham algum motivo não para nos perdoar, porque é imperdoável, mas ao menos para ter menos vergonha da minha geração. Que possamos dizer, ainda que tardiamente, que obrigamos as instituições a cumprir seu dever constitucional.

Pelo menos uma coisa eu te prometo, Maria, e prometo também a todas as crianças sem mãe e sem pai. O que aconteceu será contado, será documentado, será gravado em pedra se for preciso. Os filhos e netos de cada autoridade que se omitir conhecerão a história que manchará seu sobrenome. E enquanto eu encontrar ar para respirar estarei lutando para ver Bolsonaro responder por seus crimes na justiça, a do Brasil e a do mundo. Não faço isso por você, Maria, não sou mentirosa. Faço isso por mim. O olhar que mais temo é o meu no espelho do banheiro.

Lembrar será nossa resistência. Lembrar é sempre nossa resistência. E lembraremos, Maria. E transmitiremos essa memória geração após geração.

Eu tinha planejado terminar essa carta falando sobre borboletas. Mas não será como planejei. Para não dizer que não falei de borboletas, vou então te contar o seguinte, Maria. A viagem mais importante que eu e seu pai fizemos aconteceu em 2004. Fomos os primeiros jornalistas a alcançar a Terra do Meio, no Pará, na Amazônia profunda. As fotos do seu pai e o meu texto foram decisivos para impulsionar a criação da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. É por isso que seu pai colocou na capa do perfil dele no Facebook uma foto aérea do Riozinho e escreveu: “Enterrem meu coração numa curva do Riozinho do Anfrísio”.

Quando alcançamos o Riozinho pela primeira vez, Maria, fomos engolfados por uma revoada de borboletas. Não dezenas nem centenas, mas milhares. Eram amarelas, de vários tons de amarelo, e para sempre eu e seu pai sentiríamos que havíamos atravessado um portal. Um portal da floresta, sim, mas também um portal dentro de nós. Daquele momento em diante, nós dois começamos a nos amazonizar. Maria, o Riozinho se tornou para nós a terra das borboletas amarelas.

Aprendemos, seu pai e eu, a nos tornar natureza ou nos retornar natureza. É também por isso que afirmo a você, Maria, com toda convicção, que não era hora de seu pai morrer. Bolsonaro destrói a floresta numa velocidade só vista no período da ditadura civil-militar. Milhares e milhares de quilômetros quadrados de mundos complexos povoados por gentes de todas as espécies, humanas e não humanas, foram deletados do mapa. Bolsonaro destruiu também a vida de mais de 410.000 famílias, entre elas a sua.

Com esse massacre, Bolsonaro e seu Governo provocaram um profundo desequilíbrio no planeta. Não se apaga quase meio milhão de vidas sem causar um cataclisma. Eu sei que na sociedade que vê pessoas apenas como indivíduos e não como seres em constante intercâmbio com outros seres, essa ideia é de difícil apreensão. Mas você, Maria, é capaz de compreender. Já podemos sentir esse desequilíbrio no ar que nos falta. Cada morto que deveria estar vivo esgarça o tecido da Terra. O que acontece nesse momento é uma catástrofe de grandes proporções, para muito, mas muito além de uma lista de vítimas.

Na hora em que seu pai morreu, eu tive um sonho acordada. Vi uma onça que se movia delineada em branco. Não uma onça como a vemos na floresta que vemos, mas semelhante a um fantasma de onça. E ela estava furiosa. A dor que senti com a morte do seu pai era a dor de ter minhas tripas arrancadas a den

tadas. Compreendi então que seu pai era a onça. E compreendi que eu precisava deixá-lo partir. A onça então embrenhou-se na floresta. Dou a você esse sonho, para que seu pai reconvertido em onça caminhe ao seu lado por todas as florestas.

Seu pai não terá o coração enterrado numa curva do Riozinho. Mas terá, sim, suas cinzas lançadas lá onde esse rio pequeno apenas no nome encontra o Iriri. E eu espero que o portal de borboletas amarelas se abra para recebê-lo. Parece simples, porque as borboletas sempre estiveram lá, mas dias atrás soube que Bolsonaro e todos os destruidores da Amazônia antes dele e com ele estão roubando também as cores das borboletas. Cientistas do Brasil e do Reino Unido descobriram que as borboletas estão se tornando cinzas e pardas para se mimetizar a uma natureza morta que assumiu a cor das queimadas e derrubadas. Sim, Maria, homens como Bolsonaro e sua estirpe de assassinos estão também roubando literalmente a cor do mundo.

Não vou iludir você, Maria, com histórias de esperança. Não sou esse tipo de madrinha. Você e todas as órfãs e órfãos nasceram no tempo que luto é luta. E terão que lutar —e muito— para que o mundo em que viverão siga tendo cor. Eu estarei ao seu lado, com minhas palavras e meus dentes.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora de Brasil, Construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago).