October 7, 2022

Calma, respira...

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

ESTHER SOLANO

 Confesso a vocês que domingo
quase enfartei. Não conseguia
desgrudar os olhos da tela e me
sentia naquele estado meio catatônico,
meio letárgico de quem esperou tanto
por algo e se sente como barata lerda e
atordoada quando o momento tão an-
siado chegou. Acho que não respirei até
Lula passar à frente de Bolsonaro. Na
verdade, acho que não respirei até o tér-
mino da apuração.

 
Aconteceu comigo como aconteceu
com muitos de nós. Ficamos decepcio-
nados porque Lula não ganhou no pri-
meiro turno e porque constatamos a for-
ça do bolsonarismo nos estados, elegen-
do governadores, senadores e deputados
com muito mais facilidade do que gosta-
ríamos. Mas, vamos lá, passado um cer-
to luto, analisemos os fatos. Lula não ga-
nhou em primeiro turno como talvez não
deveríamos ter esperado que ganhasse.
A história nos mostra que os presiden-
tes no Brasil são eleitos no segundo tur-
no, Lula teve 6 milhões de votos a mais
que Bolsonaro e quase dobrou os votos
de Haddad em 2018. Não é momento para
euforia, mas tampouco para a desolação.
Ganhamos o primeiro turno. O segundo
vai ser apertado, vai ser duro, vai ser
terrível, sim, mas vamos prosseguir, po-
demos ganhar.

 
Por outro lado, uma questão-chave
deve ficar bem entendida. O bolsonaris-
mo veio para ficar. Durante muito tempo
pensou-se que o bolsonarismo era sim-
plesmente conjuntural, facada, desin-
formação, Lava Jato... Sim, todos esses
fatores foram essenciais para entender
o crescimento exponencial de Bolsona-
ro, mas a realidade é que o bolsonarismo
mobiliza valores que representam uma
grande parte da sociedade brasileira.
O bolsonarismo representa uma parte
de Brasil. Esse é um fato e devemos tra-
balhar com ele. Devemos trabalhar com
a ideia de que, nos próximos anos, have-
remos de conviver com um bolsonaris-
mo 2.0, mais adaptativo, mais moderado,
estilo Tarcísio de Freitas, e com um bol-
sonarismo radical mobilizador do pâni-
co moral, à moda de Damares Alves. Os
dois bolsonarismos, o metabolizado e o
barulhento, estão aqui e devem perma-
necer por um largo tempo.

 
Isso não significa que o bolsonarismo
é o único vencedor da noite de domingo.
O PL aumentou muito sua bancada, mas
o PT também aumentou, o PSOL tam-
bém aumentou. Lula venceu em Minas
Gerais, o PT avançou em cidades que ti-
nha perdido eleições atrás. Eles elege-
ram vários dos símbolos do bolsonaris-
mo, nós também elegemos alguns dos
nossos, como Guilherme Boulos, Sônia
Guajajara e duas deputadas trans. Erika
Hilton (PSOL) e Duda Salabert (PDT).

 
A professora e ativista indígena Célia
Xakriabá também foi eleita deputada
federal pelo PSOL de Minas Gerais.
A realidade é que o bolsonarismo es-
tá mais forte do que gostaríamos, mas os
progressistas também têm força e as lu-
tas por direitos avançam. Quem perdeu,
e perdeu feio, foi a direita clássica tuca-
na (um minuto de silêncio para o PSDB).
Quem perdeu, e perdeu feio, foi Ciro Go-
mes, após uma das campanhas mais ver-
gonhosas da história do Brasil. E agora
vamos para o segundo turno. Partimos
com 6 milhões de votos a mais. Eleito-
res de Simone, de Ciro, venham conos-
co. Não é por Lula, é pelo Brasil.

 
A onda de pânico moral já começou
nas igrejas e vai se intensificar muito
mais. Vamos ver muitas fake news tur-
binando a questão do aborto, do fecha-
mento das igrejas, demonizando de novo
o PT. Vai ser um horror, disso não tenho
dúvida. Bolsonaro vai jogar pesado, vai
jogar muito baixo, e Bolsonaro jogando
baixo significa basicamente o submundo,
o esgoto, as latrinas da política emergin-
do em jatos. Isso vai ser o segundo turno.
Devemos, porém, permanecer firmes,
serenos e esperançosos, e isso não signifi-
ca estar iludido. Com muito trabalho, com
muita garra, com muita estratégia, pode-
mos vencer. Mas só poderemos vencer se
formos inteligentes, muito inteligentes.

 
Precisamos abrir o nosso abraço para to-
dos, trazer as pessoas para o nosso lado,
escutar, com empatia, com paciência, com
carinho. Venham conosco. Eleitores de Si-
mone, de Ciro, indecisos, aqueles que fica-
ram em casa, os que votaram em Bolsona-
ro por pressão social, mas desgostam pro-
fundamente dele, venham conosco.
Não é por Lula. Não é pelo PT. É pelo
Brasil.

carta capital

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