September 29, 2023

Meio século depois de golpe no Chile, defensores de Pinochet saem do armário

 Chilenos participam de protesto em repúdio à morte de policiais, e pedem políticas mais duras de controle ao aumento da violência nas ruas

 

Opiniões positivas sobre o regime se multiplicam, assim como o voto em políticos que não escondem sua admiração pelo ditador

Por Janaina Figueiredo 

Após o projeto de uma nova Constituição ter sofrido uma esmagadora derrota nas urnas em setembro do ano passado (38,11% a favor e 61,89% contra), e com o governo de esquerda do presidente Gabriel Boric em baixa, o pinochetismo — que nunca desapareceu — saiu do armário no Chile. A avaliação é compartilhada por cientistas políticos e jornalistas locais ouvidos pelo GLOBO, e confirmada por pesquisa realizada pela Mori Consultores.

No ano em que se completam cinco décadas do golpe de Estado de 11 de setembro de 1973, em que o Palácio de la Moneda organizará eventos de repúdio em grande escala, dados da Mori mostram que apenas 42% dos chilenos consideram que o ditador Augusto Pinochet (1973-1990) destruiu a democracia do país. Há dez anos, o percentual era de 63%, e em 2006, ano da morte de Pinochet, atingiu 68%.

A mesma pesquisa indicou que 36% dos chilenos acreditam que o ditador salvou o Chile do marxismo. Em 2013, o percentual foi de 18%. A evolução da opinião da sociedade sobre o que aconteceu há 50 anos acompanhou o crescimento da extrema direita no país, e de lideranças como a do ex-candidato à Presidência José Antonio Kast, fundador do Ação Republicana.

Kast, que em 2016 rompeu com o partido de direita tradicional União Democrática Independente (UDI), não está sozinho. Empoderados pelo resultado do plebiscito de 2022, no qual foi derrotado um projeto que pretendia substituir a Constituição herdada de Pinochet e em cujo processo de elaboração a direita teve pouca participação, dirigentes de vários partidos justificaram o golpe nos últimos meses. Cinco décadas depois de Pinochet ter bombardeado o Palácio de la Moneda e iniciado uma das ditaduras mais sanguinárias que a América Latina viveu nas décadas de 1970 e 1980, a direita chilena está disputando seu legado.

Saudades do ‘meu general’

O ressurgimento com força do pinochetismo, afirma o jornalista Néstor Aburto, diretor de conteúdo da Rádio Bio Bio, “acontece num país no qual cada vez se ouve mais a frase ‘se meu general vivesse isso não aconteceria’. Os chilenos que agora não se constrangem em expressar opiniões positivas sobre o ditador, acrescenta Aburto, referem-se a questões como o aumento da violência, a presença de imigrantes latino-americanos e os problemas econômicos.

A cientista política Marta Lagos, diretora da Latinobarometro e da Mori, considera o fenômeno político uma “derrota cultural da esquerda”.

— A direita se apropriou da agenda dos 50 anos do golpe e conseguiu instalar a ideia de que o problema foi Salvador Allende, e não Pinochet — afirma Lagos, referindo-se ao presidente socialista derrubado e que se suicidou durante o ataque ao palácio.

Para ela, “à medida que o país se aproxima do 11 de setembro, cada vez mais pinochetistas saem do armário”.

— A direita nunca foi democrática. Em 1990, quando Pinochet deixou o poder [após perder um plebiscito em 1988, no qual obteve 44,01%], um general me disse que os militares estavam apoiando o processo de transição porque a democracia estava na moda. Kast tirou todas essas pessoas do armário — aponta a diretora da Mori, que frisa: — Continuamos vivendo sob a sombra do pinochetismo.

O senador Iván Moreira, da UDI, admite que em outras épocas muitos evitaram mencionar o golpe por temor de perder votos. Hoje, argumenta, “está ressurgindo um olhar mais objetivo sobre o que aconteceu em 1973”.

— Sou pinochetista, sempre defendi o governo militar, mas lamentavelmente a direita chilena andou se escondendo, — aponta Moreira.

 Sua visão, compartilhada por muitos, é de que “sem Allende não teria existido Pinochet”. E de que “Pinochet salvou uma geração de chilenos de terminar em mãos do marxismo”. Perguntado sobre as graves violações dos direitos humanos durante a ditadura, Moreira concorda que a direita demorou muito tempo para reconhecer o que tinha acontecido, e hoje não justifica as violações cometidas.

— Aprendemos a lição, no Chile nunca mais haverá uma intervenção militar, os problemas da democracia devem ser resolvidos com democracia e não como se fez em 1973. Mas eram outras as circunstâncias, e Pinochet foi um bom presidente, que fez o Chile crescer durante duas décadas — diz o senador da UDI.

‘Estadista jamais’

O integrante mais votado da nova Assembleia Constituinte, que está elaborando um novo projeto de Constituição a ser submetido a plebiscito em dezembro, Luis Silva, afirmou recentemente que Pinochet foi um “estadista”. Num ambiente de crescente debate por conta dos 50 anos do golpe, o presidente Boric respondeu que “Pinochet foi um ditador corrupto e um ladrão, estadista jamais”.

Em 27 de junho, o Uruguai, governado pela centro-direita, lembrou o golpe de Estado do mesmo dia, em 1973. Como destaca o cientista político uruguaio David Altman, que há 20 anos mora no Chile, ninguém no país justificou a ação dos militares.

— No Chile, os defensores do golpe andavam mais moderados, baixaram o tom, mas agora o pêndulo está se mexendo e se vê uma luta pelo legado de Pinochet — sustenta Altman, que é professor da Universidade do Chile.

Em 11 de julho, a Câmara dos Deputados aprovou, por 67 votos contra 48, um projeto de resolução que veta a presença de Pinochet em documentos sobre presidentes da República na Biblioteca do Congresso. O debate foi iniciado pela deputada comunista Lorena Pizarro, que afirmou que a ditadura iniciada em 11 de setembro de 1973 “transformou o país em cenário de extermínio, dor, tortura, assassinatos e desaparecimentos de pessoas”. Já o deputado republicano Johannes Kaiser disse que “muitos teriam preferido continuar na luta armada”.

O Chile discute, 50 anos depois, se o golpe foi ou não aceitável. Mais de 30 anos após a redemocratização do país, conclui Lagos, a esquerda ainda não conseguiu instituir como fato histórico que Pinochet foi um ditador.

 Sua visão, compartilhada por muitos, é de que “sem Allende não teria existido Pinochet”. E de que “Pinochet salvou uma geração de chilenos de terminar em mãos do marxismo”. Perguntado sobre as graves violações dos direitos humanos durante a ditadura, Moreira concorda que a direita demorou muito tempo para reconhecer o que tinha acontecido, e hoje não justifica as violações cometidas.

— Aprendemos a lição, no Chile nunca mais haverá uma intervenção militar, os problemas da democracia devem ser resolvidos com democracia e não como se fez em 1973. Mas eram outras as circunstâncias, e Pinochet foi um bom presidente, que fez o Chile crescer durante duas décadas — diz o senador da UDI.

O GLOBO

September 28, 2023

Funcionários do Metrô, da CPTM e da Sabesp resistem à sanha privatista de Tarcísio

 

 P O R M A R I A N A S E R A F I N I

 Em pouco mais de oito meses
de gestão, Tarcísio de Frei-
tas notabilizou-se pela deso-
rientação. Anunciava medi-
das num dia, e desistia no
outro. Entre os numerosos recuos do go-
vernador paulista figuram as
propostas de abandonar o uso de
livros didáticos impressos, de
transferir a Cracolândia para
outro bairro da capital e a pro-
messa de retirar as câmeras das
fardas dos policiais militares – 
as existentes foram mantidas,
ele só congelou os investimen-
tos. Ao menos um de seus com-
promissos de campanha segue,
porém, intacto. Em 2022, duran-
te os debates televisivos, o ex-mi-
nistro de Jair Bolsonaro anun-
ciou a intenção de privatizar os
principais serviços públicos do
estado. Desde então, não recuou
1 milímetro sequer da decisão.
 
Azar dos funcionários da
Sabesp, do Metrô e da CPTM,
atordoados com a pressa para
leiloar as lucrativas empresas
públicas a toque de caixa. Eles
já colecionam dezenas de indí-
cios de irregularidades nos processos de
privatização, a começar pela contratação
de empresas de consultoria com dispen-
sa de licitação e casos explícitos de con-
flitos de interesse. Para resistir à sanha
privatista, os servidores buscam sensi-


bilizar a população paulista sobre os ris-
cos envolvidos na entrega de serviços es-
senciais à iniciativa privada. Nas plata-
formas das estações, sindicalistas bus-
cam envolver os usuários dos trens me-
tropolitanos em uma consulta pública.
Ao convidar os cidadãos para votar a
favor ou contra a privatização, as enti-
dades sindicais assumem o risco de co-
lher um resultado diferente do esperado.
 
Mas o objetivo do referendo informal não
é exatamente medir a popularidade do
projeto, e sim alertar que o processo es-
tá em curso e avança de forma acelerada,
sem o devido debate. “É uma oportuni-
dade para disputarmos a opinião pública
e informar sobre o que o governador quer
fazer. Está sendo muito bom, as pessoas
estão interessadas em participar, muita
gente tem dúvida e é um momento que
a gente pode esclarecer”, afirma Camila
Lisboa, presidente do Sindicato dos Me-
troviários de São Paulo. Na terça-feira
12, durante uma ação na esta-
ção Jabaquara, a reportagem de
CartaCapital observou alta par-
ticipação popular. Em menos de
duas horas, havia mais de mil vo-
tos depositados nas urnas.
 
Uma das “eleitoras” é a do-
méstica Cícera Maria da Silva,
que usa o Metrô diariamente
para se deslocar até o trabalho.
Mesmo no horário de pico, quan-
do os carros da composição es-
tão cheios, o serviço é rápido e
eficiente, avalia. “Se privatizar,
a passagem vai ficar mais cara.
Já pagamos impostos demais, o
transporte coletivo deveria ser
gratuito”, opina.
 
Ao término da votação, pre-
vista para ocorrer até 4 de ou-
tubro, as urnas serão abertas e o
resultado será revelado à popula-
ção. “A maior parte dos paulistas
já percebeu o engodo das privatizações.

Com o resultado, vamos seguir pressio-
nando o governador e buscando o apoio
de deputados estaduais e vereadores pa-
ra evitar que o pior aconteça”, afirma Alex
Fernandes, diretor de Imprensa do Sindi-
cato dos Metroviários. Com 34 anos de ca-
sa, ele observa que a empresa já viveu mo-
mentos melhores. O número de funcioná-
rios tem sido reduzido ano a ano. Muitos
se aposentam, mas as vagas não são repos-
tas. Há dez anos, eram cerca de 10 mil tra-
balhadores, hoje são 7 mil. “Enquanto is-
so, o número de passageiros só aumentou,
atendemos, em média, 4 milhões de pes-
soas por dia.” Com a privatização, a cate-
goria teme uma precarização ainda maior.
O Metrô realizou seu último concurso em
2019, mas ainda ninguém foi chamado.
 
Na CPTM, a concessão de linhas ao sertor
privado está mais avançada. Privati-
zadas em 2021, as Linhas 8 e 9 são contro-
ladas pelo consórcio Via Mobilidade. No
fim de março, foi publicado o edital para
o leilão da Linha 7, previsto inicialmente
para 28 de novembro. As principais em-
presas interessadas pediram, porém, pra-
zo maior para apresentar as propostas. O
projeto prevê um trem rápido para os des-
locamentos entre as cidades de São Paulo
e Campinas, com uma parada em Jundiaí.
 
Sob o comando da Via Mobilidade,  as

condições de trabalho pioraram, afirma
Eluiz Alves de Matos, presidente do Sin-
dicato dos Ferroviários de São Paulo. “A
jornada de trabalho deles é de 12 horas,
enquanto a nossa é de 8 horas diárias. E
o salário deles é muito inferior.” O líder
sindical teme, ainda, a redução do qua-
dro de funcionários. Quando as Linhas 8
e 9 foram privatizadas, explica, centenas
de trabalhadores aderiram a um progra-
ma de demissão voluntária. Quem ficou
sofre com o acúmulo de funções e jor-
nadas exaustivas. “A qualidade do ser-
viço também despencou. Toda semana
tem descarrilamento de trem, o tempo
de espera aumentou

Não bastasse, a contratação de funcio-
nários terceirizados disparou. Recente-
mente, a S&G, responsável pela venda de
passagens nas Linhas 8 e 9, decretou falên-
cia e dispensou os funcionários sem pagar
os salários devidos, bem como os direitos
de rescisão. Com as bilheterias abandona-
das, a CPTM teve de liberar as catracas e,
em caráter emergencial, deslocar funcio-
nários que exerciam outras funções pa-
ra retomar as vendas. “É isso que aconte-
ce quando a empresa privada não dá con-
ta das suas atribuições. Sobra para o Es-
tado resolver o problema”, alerta Matos.
 
No caso da Sabesp, o atual presiden-
te da companhia, André Salcedo, afirma
que a privatização deve ocorrer já no pri-
meiro semestre de 2024. A venda permi-
tiria, segundo o gestor, antecipar o cum-
primento das metas do Novo Marco Le-
gal do Saneamento, entre elas a promessa
de entregar, até 2033, água potável a 99%
da população e garantir esgoto tratado a
90%. Salcedo alega, ainda, que o valor da
tarifa deve cair. Só não explicou a mágica
como a empresa vai ampliar os inves-
timentos, reduzir as tarifas e, ao mesmo
tempo, assegurar a lucratividade espera-
da pelos acionistas?
 
“Se o Salcedo está dizendo que vai bai-
xar a tarifa depois de vender, por que não
baixa agora? Tem condições de fazer is-
so. Não existe exemplo no mundo de ta-
rifa menor depois da privatização”, aler-
ta Helena Maria da Silva, vice-presidente
do Sintaema, o sindicato dos trabalhado-
res em água e esgoto. Hoje, a Sabesp aten-
de 375 cidades paulistas e é considerada
uma das maiores empresas de saneamen-
to do mundo. O lucro líquido no segundo
trimestre deste ano foi de 743 milhões de
reais, 73% maior que no mesmo período
o ano passado. O governo paulista detém
50,3% do controle da companhia, uma so-
ciedade anônima de capital aberto.
 
A presidente do Sintaema aponta uma
série de irregularidades no processo de
privatização, a começar pela contratação
do atual presidente, que antes era diretor
na Iguá Saneamento, acionista da Sabesp
e que tem interesse em aumentar a sua
participação. Além dele, a diretora Pau-
la Violanti também veio da mesma em-
presa. “Eles não respeitaram a ‘quarente-
na’, o período mínimo exigido para sair de
uma empresa privada para assumir uma
companhia pública do mesmo setor”,
afirma Silva, que encaminhou a denún-
cia para o Ministério Público Estadual.
 
Não é tudo. A International Finance
Corporation é, ao mesmo tempo, credo-
ra e responsável pelo desenho do modelo
de privatização da Sabesp. Além do even-
tual conflito de interesses, a consultoria
ligada ao Banco Mundial celebrou con-
tratos milionários com o governo do es-
tado, com dispensa de licitação, para pre-
parar estudos do programa de desestati-
zação, como denunciou o deputado esta-
dual Guilherme Cortez, do PSOL.
 
Por ora, o Legislativo acompanha o
debate a distância. “Até o momento, não
chegou nenhuma proposta concreta na
Alesp, mas estamos atentos ao que es-
tá acontecendo por fora, como os leilões
marcados das linhas de transporte so-
bre trilhos”, diz a deputada estadual Pau-
la Nunes, também do PSOL. A oposição
busca o suporte de técnicos e especialis-
tas para resistir em dois fronts: da Fren-
te Parlamentar Contra a Privatização da
Sabesp, presidida pelo deputado Emídio
de Souza, do PT, e da Frente Parlamen-
tar em Defesa do Serviço Público, lidera-
da por Nunes.

CARTA CAPITAL    

 

 

 

 

September 27, 2023

Desigualdade: a raiz de todos os males

 

 

 Na Assembleia-Geral
da ONU, o presidente Lula aponta
o combate à desigualdade como
o principal desafio do planeta
 

P O R A N D R É B A R R O C A L

UBS é um tradicional ban-
co suíço acostumado a
guardar dinheiro dos mi-
lionários. Comprou neste
ano um concorrente em
crise, o Credit Suisse, e tornou-se o maior
gestor de ativos e fortunas do planeta. Es-
sa especialidade lhe permite analisar
muitas contas. Ao examinar 5,4 bilhões
de patrimônios familiares, o equivalente
a dois terços da população mundial, cons-
tatou que o 1% aninhado no topo da pirâ-
mide embolsa 44% da riqueza global. Por-
nográfico, certo? Adivinhe quem é o pri-
meirão da fila da concentração de renda,
com gula acima da média, entre as econo-
mias examinadas? O Brasil, claro. Nosso
1% controlava 48% da riqueza nacional

 em 2022, conforme o Global Wealth
Report, recém-divulgado pelo banco.

 
Ao voltar à tribuna da ONU, em Nova
York, para abrir pela sétima vez a assem-
bleia-geral anual da entidade, Lula colo-
cou o combate às desigualdades como a
grande tarefa da atualidade. Crise climá-
tica, sequelas da pandemia de Covid, inse-
gurança alimentar e energética, racismo,
intolerância e xenofobia são desafios que
“se alastram” no embalo da iniquidade, na
visão do presidente. “Se tivéssemos que
resumir em uma única palavra esses desa-
fios, ela seria desigualdade. A desigualda-
de está na raiz desses fenômenos ou atua
para agravá-los”, declarou na tribuna das
Nações Unidas na terça-feira 19. “Redu-
zir as desigualdades dentro dos países re-
quer incluir os pobres nos orçamentos na-
cionais e fazer os ricos pagarem impostos
proporcionais aos seus patrimônios.”

 
O que teriam pensado os comandantes
do Senado, Rodrigo Pacheco, e da Câma-
ra, Arthur Lira, diante dessas palavras?
Ambos assistiram ao discurso in loco,
como integrantes da comitiva brasileira
a convite de Lula. São dois ricaços. Pache-
co declarou à Justiça Eleitoral 22 milhões
de reais em bens na eleição de 2018. Lira,
5,9 milhões na disputa de 2022. Graças à
dupla, o Congresso impôs duas derrotas
ao governo neste ano no quesito “tribu-
tar quem pode mais”. Perderam validade
uma Medida Provisória que alterava re-
gras no Carf, o “tribunal dos impostos”, e
outra que cobrava Imposto de Renda dos
lucros com offshores (firmas ou fundos no
exterior). Essas propostas ressuscitaram
em forma de Projetos de Lei. O PL do Carf
foi aprovado em agosto em definitivo pe-
lo Congresso. O das offshores está para-
do, assim como uma MP para tributar os
lucros dos chamados fundos exclusivos.
Esses e as offshores pertencem a cerca de
62 mil titulares, cada um com patrimônio
médio de 24 milhões de reais, conforme
dados do Ministério da Fazenda.

 
Formado por endinheirados e sim-
patizantes, o Congresso é cercado pela
maior população de rua do País, em ter-
mos proporcionais. Dono da maior renda
percapita estadual (2,6 mil reais mensais),
o Distrito Federal tem 7.924 pessoas nas
ruas, 0,28% de seus habitantes, conforme
o Ministério dos Direitos Humanos. O ba-
talhão nas ruas brasileiras é de 236 mil,
tamanho da segunda maior cidade alago-
ana, Arapiraca. Cidadãos também sem co-
mida, presume-se. “A fome, tema central
da minha fala neste Parlamento mundial
20 anos atrás, atinge hoje 735 milhões de
seres humanos, que vão dormir esta noite
sem saber se terão o que comer amanhã”,
afirmou Lula nas Nações Unidas, em alu-
são à sua estreia naquele púlpito em 2003.
Por tradição, cabe ao Brasil abrir a assem-
bleia-geral, não importa o mandatár

Até Jair Bolsonaro ocupou o palanque,
para constrangimento geral da nação.
O número de famélicos citado por Lula
consta de um documento de julho da ONU.
É como se todos os moradores dos 50 paí-
ses europeus passassem fome. Combatê-
-la será uma das bandeiras do Brasil nos
12 meses no comando rotativo do G-20,
grupo das maiores economias. O petista
pretende propor no bloco uma força-tare-
fa contra a fome e outra contra o aqueci-
mento global. “Ao assumir a presidência
do G-20 em dezembro próximo, não me-
diremos esforços para colocar no centro
da agenda internacional o combate às de-
sigualdades em todas as suas dimensões”,
disse na ONU. Disparidades de gênero e de
raça também, não apenas de renda.

 
Em 2015, o mundo assumiu, no âmbi-
to das Nações Unidas, 17 compromissos
para atingir até 2030 que significariam
a melhora das condições de vida dos se-
res humanos e a preservação ambiental.
O Brasil adotará por conta própria um 18º
compromisso: igualdade racial. E como
estão os 17 existentes? Na segunda-feira
25, o Palácio do Planalto verá uma apre-
sentação do Relatório Luz Sobre a Agen-
da 2030 no Brasil e o documento diz, por
exemplo, que “as desigualdades socioe-
conômicas no Brasil se ampliaram expo-
nencialmente sob o governo Bolsonaro”.

 
De volta ao G-20. O bastão simbólico
foi passado ao Brasil em setembro, no
encontro anual do grupo realizado na
Índia. O próximo será em novembro de
2024, no Rio de Janeiro. A primeira reu-
nião aconteceu em 2008, em meio à cri-
se financeira surgida no Hemisfério Nor-
te. Lula estava em seu segundo manda-
to à época. Na Índia, o petista ressaltou
a importância do bloco naquele momen-
to, mas ressalvou: “Foi insuficiente para
corrigir os equívocos estruturais do neo-
liberalismo”. Neoliberalismo menciona-
do por ele na ONU como culpado por pio-
rar “a desigualdade econômica e política
que hoje assola as democracias”. Sobre
os “escombros” do neoliberalismo, teo-
rizou ele, despontou a extrema-direita.

 
Para um diplomata com experiência
nas Nações Unidas, o discurso de 22 mi-
nutos de Lula foi audacioso. O presidente,
diz, fez críticas ao status quo global e ex-
pôs os dilemas do capitalismo, mas sem
errar a mão, vide os sete aplausos da pla-
teia e a repercussão positiva na mídia.
Tudo isso com um pano de fundo geo-
político mais complexo do que em 2003
– do qual a guerra na Ucrânia é o me-
lhor exemplo. Às margens da ONU, Lula
reuniu-se na quarta-feira 20 pela pri-
meira vez com o ucraniano Volodymyr
Zelensky e insistiu no diálogo com a Rús-
sia. A guerra foi citada pelo brasileiro na
assembleia-geral como um fracasso da
ONU. Há, porém, quem lucre. No ano
passado, o gasto militar mundial bateu
recorde, conforme uma entidade pacifis-
ta sueca, a Sipri: 2,2 trilhões de dólares,
equivalente a um ano de funcionamento
da economia italiana. A guerra na Ucrâ-
nia começou em fevereiro de 2022.

 
Vistas em conjunto, as passagens pelo
G-20 e pela ONU, entremeadas por uma
viagem a Cuba, mostraram um Lula dis-
posto a liderar o Sul global contra a ordem
econômica imposta pelas nações ricas do
Norte após a Segunda Guerra Mundial.
A passagem por Cuba justificou-se pela
participação na reunião do G-77, grupo
fundado nos anos 1960 justamente para
ser porta-voz dos emergentes. O encontro
terminou com uma declaração que con-
dena a “atual ordem econômica interna-
cional injusta para os países em desenvol-
vimento”. No discurso em Havana, Lula
bateu nessa tecla. O G-77, disse, foi fun-
damental para “defender a construção de
uma nova ordem econômica internacio-
nal”, mas “muitas das nossas demandas
nunca foram atendidas”. A ONU, o siste-
ma Bretton Woods e a OMC, prosseguiu,
perderam credibilidade.

 
Bretton Woods é a cidade norte-ame-

icana palco, em 1944, de uma conferên-
cia internacional que levou à criação do
FMI e do Banco Mundial, pilares da ar-
quitetura financeira global vigente. Ao
participar de um debate sobre a revisão
dessa arquitetura, organizado em ju-
nho, em Paris, pelo presidente francês,
Emannuel Macron, Lula defendeu o
fim do domínio do fundo e do banco pe-
los países do Norte. “É preciso ter novas
direções, mais gente participando da di-
reção, porque não podem ser os mesmos
de 1945.” Uma consequência desse domí-
nio: em 2021, o FMI colocou 160 bilhões
de dólares à disposição dos países euro-
peus para reforçar suas reservas inter-
nacionais. Aos africanos, separou meros
24 bilhões. A propósito, ao passar por An-
gola em agosto, Lula relançou a ideia do
perdão da dívida dos africanos. “É pre-
ciso começar uma nova briga, que é a se-
guinte: o continente africano deve para o
FMI por volta de 760 bilhões de dólares.
Essa dívida vai ficando impagável, por-
que o dinheiro do orçamento nunca dá.”
A independência de Angola em relação
a Portugal e a ascensão de um governo
socialista em 1975 tiveram apoio de tro=

pas de Cuba. Na recente reunião na ilha
caribenha, em 16 de setembro, Lula de-
fendeu o fim do embargo econômico im-
posto pelos Estados Unidos após a revo-
lução cubana de 1959. Uma posição repe-
tida depois na ONU. Nos dois discursos, o
brasileiro também criticou a inclusão de
Cuba em uma lista norte-americana de
países patrocinadores de terrorismo. A
ilha havia saído da lista em 2015, tempos
de Barack Obama, mas voltou em 2021,
dias antes da troca de Donald Trump por
Joe Biden na Casa Branca.

 
Lula e Biden tiveram um encontro em
paralelo, na quarta-feira 20. Foi o segundo
desde a volta do brasileiro ao poder. O ou-
tro ocorrera em fevereiro, na Casa Branca.

 
De lá para cá, a proximidade de Lula com a
China e os BRICS e suas posições a res  

o da guerra na Ucrânia (ele culpa o Oci-
dente por respaldar Zelensky) haviam dei-
xado a impressão de falta de sintonia com
Biden. O embate com a extrema-direita na
política interna os aproxima, idem a defe-
sa internacional do meio ambiente. Ago-
ra, há outro tema a juntá-los: o mundo do
trabalho. Lula e Biden decidiram tremu-
lar juntos a bandeira dos direitos traba-
lhistas e dos sindicatos. “Não queremos
que só uma classe se saia bem. Queremos
que os pobres tenham oportunidades de
subir na vida, e essa visão é impulsiona-
da por uma força trabalhista forte. É por
isso que meu governo tem sido chamado
de o governo mais pró-sindicatos da his-
tória dos Estados Unidos”, afirmou Biden.

 
Lula cumprirá, aqui, a promessa de
campanha e vai rever a reforma traba-
lhista de Michel Temer? “O desempre-
go e a precarização do trabalho minaram
a confiança das pessoas em tempos me-
lhores, em especial os jovens. Os gover-
nos precisam romper com a dissonância
cada vez maior entre a voz dos mercados
e a voz das ruas”, disparou na assembleia-
-geral. Dissonância vista em números no
Brasil em duas pesquisas de setembro.
No “mercado”, 12% aprovam o governo e
47%, não, informa a consultoria Quaest.
Entre os brasileiros que ganham até dois
salários mínimos, 43% aprovam e 24%,
não, conforme o Datafolha.

 
Biden discursou nas Nações Unidas
logo após Lula e mostrou-se a favor da re-
forma do Conselho de Segurança, forma-
do desde sempre por um quinteto (EUA,
China, Rússia, França e Inglaterra) pri-
vilegiado com o poder de vetar as deci-
sões da entidade. É, de certa forma, ou-
tro tópico a aproximá-lo de Lula. O petis-
ta defende essa reforma desde seus man-
datos anteriores. Biden foi, aliás, o único
líder do conselho presente à Assembleia-
-Geral. Os outros quatro países manda-
ram representantes subalternos. Pior
para eles. Perderam um discurso e tan-
to do colega brasileiro.

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