September 29, 2020

Sobre “caboclos e índios”

 


Texto de Pedro Daltro

Bolsonaro culpou “caboclos e índios” lá na ONu, lembra? E não foi a primeira vez que ele expôs essa curiosa tese:

“Os incêndios que devastaram 25 mil hectares do Pantanal começaram em quatro fazendas de grande porte em Corumbá (MS), segundo investigação da Polícia Federal (PF) iniciada em junho (veja, abaixo, quais são as propriedades). A suspeita é que produtores rurais tenham colocado fogo na vegetação para transformação em área de pastagem.” [Folha]

Kenan Thompson Reaction GIF

Quero saber o nome do índio ou do caboclo!

“Conforme a PF, havia gado em duas das quatro fazendas de Corumbá onde os focos teriam começado. As propriedades rurais são as seguintes:

– Califórnia, que pertence Hussein Ghandour Neto e tem 1.736 hectares;
– Campo Dania, que pertence a Pery Miranda Filho e à mãe dele, Dania Tereza Sulzer Miranda, e tem 3.061,67 hectares;
– São Miguel, que pertence a Antônio Carlos Leite de Barros e tem 33.833,32 hectares;
– Bonsucesso, de Ivanildo da Cunha Miranda e tem 32.147,06 hectares.”

Nenhum cacique?!

trump fake news GIF

“Todas elas se enquadram no conceito de grandes propriedades, segundo critérios do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), já que têm área superior a 15 módulos fiscais. O módulo fiscal é uma unidade de medida agrária usada no Brasil. Ela é expressa em hectares e varia de cidade para cidade, pois leva em conta o tipo de exploração no município e a renda obtida com essa atividade, entre outros aspectos. Em Corumbá, o tamanho do módulo fiscal é de 110 hectares. Propriedades acima de 1.650 hectares são enquadradas com grandes. Por causa do grande aumento de queimadas na região do Pantanal, uma equipe da delegacia da PF em Corumbá começou a monitorar alguns focos. A suspeita é que foram provocados intencionalmente, por pessoas que se aproveitaram da situação climática atípica e da estiagem na área. Investigadores realizaram análises de imagens de satélite de toda a região. Alguns focos específicos de queimadas chamaram a atenção, porque eram próximos de áreas de preservação e começaram dentro de propriedades particulares. A PF chegou a descobrir, pelas imagens, quando os incêndios começaram nas fazendas: Califórnia, em 30 de junho; Campo Dania, em 1º de julho; Bonsucesso, em 14 de julho; e São Miguel, em 16 de julho. No dia 25 de agosto, para confirmar as informações coletadas dos satélites, uma equipe da PF sobrevoou as regiões das quatro propriedades e fez registros fotográficos. Os policiais ainda descobriram que, na fazenda São Miguel e Bonsucesso, havia outros focos de queimadas, além dos descobertos pelas imagens de satélite.”

E Bolsonaro dizendo que fogueira é detectada como incêndio, mas na realidade tem focos de incêndio que nem capturado pelos satélites são!

“No dia 14 de setembro a PF deflagrou a operação Matáá, que cumpriu dez mandados de busca e apreensão, sendo seis na área rural e os demais na cidade. Na casa de Pery Filho, os policiais encontraram armas e munições, e ele acabou preso em flagrante, sendo solto no dia seguinte por determinação judicial. Também foram apreendidos celulares, notebooks e outros materiais nas fazendas. “A materialidade tem que ser comprovada além da culpa, além do dolo. Nós temos que ter a intenção. Verificar se houve o ato intencional de destruição da vegetação. Essa que é a questão. Então, nós temos que apurar o ânimo do agente, dos investigados no caso. Se houve intenção de destruição do bioma ou não. Mesmo que seja para renovar pastagem”, disse o delegado de PF Leonardo Raifaini. Sobre a investigação, o delegado acrescenta que não estão restritos a apenas esse foco dos 25 mil hectares. “A investigação, acho que ela está sendo maturada, tá bem adiantada. Logo nós poderemos ter resultados para esclarecer os fatos”.”

Imagine a pressão que Bolsonaro vai colocar pra cima da PF.

“A Federação dos Agricultores e Pecuaristas de Mato Grosso do Sul (Famasul) informou que os produtores das regiões afetadas pelas queimadas têm “diversas iniciativas para prevenir e controlar a situação, amenizar os prejuízos, proteger a fauna, flora e a integridade física das pessoas”. “A Famasul defende o lícito, e confia no trabalho das autoridades para a apuração dos fatos”, disse o presidente da entidade, Maurício Saito.”

Entra em cena o constrangedor general vice-presidente da república – imagina chegar no Ulysses lá em 1988 e dizer que 30 anso depois teríamos um presidente capitão e um general vice…

“O vice-presidente Hamilton Mourão disse, nesta quinta-feira (24), que sobrevoou em Rondônia uma área de terra indígena apontada na leitura de um satélite como foco persistente de fogo – mas que o local não tinha incêndio e se tratava de uma rocha. Mourão afirmou que não estava “questionando dado nenhum”, mas usou o caso parar defender que os registros sobre queimadas sejam analisados qualitativamente para, na sua visão, diferenciar o que é um foco de calor do que é um foco de queimada.” [G1]

Boulos GIF

Imagine, alguém desse governo questionando dados do INPE?!

E lá vem uma surra memorável, senhoras e senhores:

“Ninguém desacredita dado de queimada. Quando você vai no site do Inpe a coisa é muito colocada, tem x focos de calor, não é queimada”, argumentou Mourão. O coordenador do programa de queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Alberto Setzer, rebateu o vice-presidente e explicou que, dentro do monitoramento feito pelo grupo, não existe diferença entre os dois termos: focos de calor ou focos de queimadas. “É tudo igual. Apenas nomes diferentes. Indicam vegetação queimando, ou algum incêndio residencial ou industrial”, afirmou Setzer. Ao falar sobre sua inspeção em Rondônia, o vice-presidente apontou uma suposta falha de leitura. “A minha avaliação é que o calor, a massa de granito ali reflete como se tivesse fogo. O satélite identifica qualquer ponto de calor, não necessariamente sendo fogo”, disse Mourão.”

calaboca

Alberto Setzer, especialista do Inpe, explica que os dados oficiais de monitoramento de queimadas não apontam equivocadamente rochas, asfalto ou outros elementos como focos de incêndio. Mesmo sem Mourão ter detalhado qual a origem dos dados usados no sobrevoo, Setzer explicou que, na ocasião, havia um foco detectado na terra indígena Uru-eu-wau-wau que foi registrado pelo satélite TERRA, e não pelo AQUA, que é o usado como referência na contabilidade das queimadas no país. “É um foco suspeito, isolado e não detectado por nenhum outro satélite. Não dá para dizer que é uma detecção falsa, apenas suspeita”, disse Setzer. Na quarta-feira (23), Mourão citou que o sobrevoo teve como base dados do satélite do Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia), ligado ao Ministério da Defesa. Nesta quinta, questionado sobre a fonte exata dos dados, ele explicou que a origem na verdade é o Gipam, um grupo integrado de proteção à Amazônia que usa dados de todas as agências federais, inclusive do Inpe.

O coordenador do Programa de Queimadas explica que o Inpe recebe dados de 10 satélites – alguns mais antigos e outros, mais avançados, que são “extremamente confiáveis”, e considerados satélites de referência, como o AQUA. “Alguns dos satélites muito antigos, que têm mais de 20 anos, talvez possam dar essa informação como ele [Mourão] disse – poderiam detectar uma coisa de granito muito quente. Mas isso não é usado nos cálculos, nas estatísticas. Por essa razão que nós temos esse satélite de referência, que não é sujeito a esse tipo de possível engano”, explicou o especialista. O vice-presidente ainda levantou a possibilidade de os focos serem apontados em áreas urbanas. “O satélite identifica qualquer ponto de calor, não necessariamente sendo fogo. Quando você olha ali o mapa de calor, você vai ver, bota lá Manaus, Belém, está tudo aparecendo em vermelho porque são focos de calor”, disse Mourão.

O especialista do Inpe rebateu Mourão. “Não temos um único caso destas detecções [em nossas estatísticas] de superfícies quentes como praias, asfalto de ruas, áreas cimentadas [ou seja, todas áreas urbanas], carros e ônibus no sol, pistas de aeroportos, estradas, telhados metálicos”, rebateu Setzer. “Os sensores [dos satélites mais novos] possuem características técnicas mais avançadas que são utilizadas pelos algoritmos, e assim os falsos alarmes são removidos”, disse. “Existem alvos quentes que podem gerar falsos alarmes, como pátios de usinas siderúrgicas e refinarias de petróleo com “flares” [chamas]. Nestes casos, o monitoramento do Inpe descarta estes locais”, explicou.”

Que surra, senhoras e senhores!

E acredite, o vice usou um leitor de temperatura do helicóptero!

“Na quarta, Mourão usou uma rede social para falar do sobrevoo e usou um termo técnico para dizer que os focos detectados pelos satélites podem não representar um foco de incêndio. “Tecnicamente, esses focos registram temperaturas de +47ºC e não são necessariamente uma queimada ou incêndio”, escreveu Mourão. Para Setzer, coordenador do programa de queimadas, o vice-presidente citou equivocadamente em seu tuite o parâmetro de temperatura de 47°C. “Estes 47 graus se referem ao modo como eram discriminados os focos nos satélites NOAA, mais antigos. (…) Esta é a “temperatura radiométrica”, um termo técnico, e que não corresponde à temperatura indicada por um termômetro”, explicou Setzer.”

O especialista explica que todo objeto gera uma radiação térmica por causa do calor que emite (no caso de um ponto de fogo) ou que reflete (no caso de uma rocha). Essa radiação é captada pelos satélites e transformada em dados. Esses informações são submetidas a algoritmos e equações que podem apontar a temperatura radiométrica – e, ainda, serem filtradas para evitar falsos positivos. “Um corpo a várias centenas de graus emite energia principalmente na faixa de 3,7 μm a 4μm do espectro ótico, que é onde o sensor do satélite opera. Um corpo com temperatura menor, seja ambiente ou até uns 100 graus, emite mais energia na faixa de 11μm”, explicou, mostrando como é feito o filtro que elimina os falsos positivos. “Esta questão dos 47°C é sempre levantada quando querem desacreditar o monitoramento”, disse Setzer.”

E vem mais merda por aí:

“A fusão do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) será analisada pelo Ministério do Meio Ambiente. Tema recorrente na pauta do governo, essa possibilidade vinha sendo rejeitada até o fim do ano passado, mas agora entrou na agenda. O Estadão apurou que o prazo para estudar o plano de fusão dos órgãos é de até 60 dias. O pedido foi feito pelo ministro do MMA, Ricardo Salles. O grupo que será responsável por elaborar a análise será formado por servidores do Ibama, do ICMBio e do MMA.” [Estadão]

É tipo você colocar o COAF nas mãos dum presidente ligado à milícia e cuja famiglia tem tara por donheiro viv. Ah não, péra aí…

“Segundo a reportagem apurou, a ideia é aglutinar áreas que tenham sobreposição de tarefas, como trabalhos administrativos. A tendência é que o ICMBio seja incorporado pelo Ibama a partir do ano que vem. O ICMBio é o órgão federal responsável pelas unidades de conservação federal e foi criado em 2007, a partir da cisão de uma área do Ibama. A autarquia do MMA cuida de 334 unidades protegidas em todo o País. Já o Ibama é responsável pela fiscalização ambiental em todo o País e processos de licenciamento federais, entre outras funções.”

O STF tinha que PROIBIR esse governo de mexer nesses órgãos, nem pisar o pé lá eles podem. Só diretoria do ógão pra baixo e ponto final.

Mas felizmente…

“Apesar do desejo de Salles, a fusão dos órgãos precisa passar pelo Congresso Nacional. Isso significa que o governo tem de enviar sua proposta ao Congresso, seja por medida provisória ou projeto de lei.”

praise the lord applause GIF

A criação do ICMBio foi aprovada pelo Senado em agosto de 2007, como desmembramento do Ibama, durante a gestão da então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. O instituto tem seu nome em homenagem a Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes, um dos maiores expoentes do País na luta pela conservação da Amazônia, covardemente assassinado a mando de dois fazendeiros em 1988, em Xapuri, no Acre.”

__/\/\/\/\/\/\__



September 27, 2020

Imagem Queimada: Os abalos que prejudicam a operação do Inpe

 Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais registraram 99 pontos de fogo no Pantanal há duas semanas, no maior incêndio ocorrido na região nos últimos 14 anos. Foto: Silas Ismael

Renato Grandelle

Avenida dos Astronautas, São José dos Campos, São Paulo. Um comitê formado por cientistas e engenheiros encerrou, na semana passada, uma série de entrevistas com os nove candidatos ao cargo de diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A comissão enviará uma lista tríplice ao ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, que escolherá, em um prazo indeterminado, o novo comandante do órgão. É um processo burocrático, mas, agora, carregado de uma tonalidade política. Reconhecido internacionalmente pela comunidade científica, o instituto foi empurrado para o ringue dos embates entre a oposição e o governo federal, ao mesmo tempo que vê sua estrutura minguar.

Nos últimos dez anos, o número de servidores caiu 28,6%. Entre os 761 remanescentes, 197 já têm condições de se aposentar. O orçamento despencou na última década, passando de R$ 385 milhões em 2010 para R$ 118 milhões neste ano. A Agência Espacial Brasileira (AEB), vinculada ao Ministério Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), pretende zerar os repasses para pesquisa e desenvolvimento do instituto em 2021.

Não bastassem os números desfavoráveis, a direção do Inpe enfrenta resistência de uma parcela crescente dos servidores. O coronel da Aeronáutica Darcton Policarpo Damião está à frente do instituto desde agosto, quando o físico Ricardo Galvão foi exonerado por Jair Bolsonaro, após um bate-boca em que defendeu os dados do desmatamento averiguados em boletins mensais e contestados pelo presidente. Damião foi apelidado por seus opositores de “interventor militar”. A crítica foi reforçada em julho, quando anunciou uma reestruturação interna que começou justamente na área responsável por diagnosticar a devastação da Amazônia.

Procurada por ÉPOCA para comentar a seleção do novo diretor, a assessoria de imprensa do instituto afirmou que Damião “não falará sobre esses assuntos”.

Um incêndio atinge uma floresta em Mato Grosso, habitat de araras-azuis, na semana passada, em meio à polêmica sobre a confiabilidade dos dados de desmatamento do Inpe. Foto: Lalo de Almeida / Folhapress
Um incêndio atinge uma floresta em Mato Grosso, habitat de araras-azuis, na semana passada, em meio à polêmica sobre a confiabilidade dos dados de desmatamento do Inpe. Foto: Lalo de Almeida / Folhapress

Damião, que foi defendido pelo ministro Marcos Pontes, é um dos nove candidatos à direção do órgão e tido por alguns de seus adversários como um sinal de que o governo federal pretende impor sua agenda ao Inpe. Por isso, há grupos do instituto que pressionaram o comitê de seleção a divulgar a lista tríplice que será enviada ao MCTI. A ideia era que a eventual presença do nome de Damião fosse condenada pela opinião pública, o que aumentaria a possibilidade de Pontes escolher um de seus concorrentes. A divulgação da lista, porém, depende da autorização do ministro, e a expectativa é que ele manterá o processo em sigilo.

Diretor do Inpe entre 2005 e 2012, o cientista da computação Gilberto Câmara é considerado o principal adversário de Damião. Em sua gestão foi criado o Deter, uma ferramenta que envia alertas do desmatamento na Amazônia, cujos elevados índices têm dado dor de cabeça ao governo federal.

Câmara decidiu participar da seleção quando faltavam apenas três dias para o encerramento das candidaturas. Define-se, no entanto, como “anticandidato”, por considerar que suas chances de vitória são remotas. Ainda assim, assegurou que está disposto a fazer as malas e deixar Genebra, onde é secretário executivo do Group on Earth Observations, ligado à Organização Meteorológica Mundial.

“Sou candidato, mas sem ilusão. Hoje temos ministros militares na Saúde e na Ciência, diretores militares na AEB e no Inpe”, disse Câmara. “O atual interino (Damião) nunca participou de um projeto de pesquisa, nunca publicou um trabalho científico. Acho que entro na lista tríplice, mas aí entra a linha ideológica do governo, que é uma lógica burra. A sinalização mais recente foi o investimento zerado em pesquisa e desenvolvimento. O Inpe é reconhecido internacionalmente. Só não é respeitado na Esplanada dos Ministérios.”

“O número de servidores do Inpe caiu 28% e o orçamento desabou de R$ 385 milhões para R$ 118 milhões nos últimos dez anos, e agora a Agência Espacial Brasileira pretende zerar os repasses para pesquisa e desenvolvimento em 2021”

­
­

O cientista da computação enfileira críticas à gestão do Inpe. Teme a manipulação dos dados sobre desmatamento e que o cofre vazio comprometa a capacidade operacional do instituto. O maior alvo de sua artilharia, porém, é a reestruturação interna anunciada por Damião, cujo principal enfoque é a redução do número de coordenadorias.

No mês passado, durante sua apresentação, o projeto foi chamado pelos servidores de improvisado e autoritário, já que poucos representantes da cúpula do instituto tiveram acesso a ele. Outra crítica feita à proposta é que ela não deveria ter tamanha projeção, já que veio de um diretor interino.

“É uma reforma ilegal, porque o estatuto do Inpe manda que todas as reestruturações sejam avaliadas pelo conselho técnico-científico do órgão”, protestou Câmara. “O Damião se julgou na capacidade de impor um plano usando a lógica da guerra, em que um general conversa com três coronéis, cinco majores, até chegar ao soldado, que é o menos qualificado. Na ciência não é assim. O soldado é o pesquisador que está no laboratório e muitas vezes tem tanta ou mais experiência que o diretor.”

O diretor interino, coronel Darcton Policarpo Damião, que sofre reação interna por seu plano de reestruturação e tenta vaga na lista tríplice. Foto: Lucas Lacaz Ruiz / Futura Press
O diretor interino, coronel Darcton Policarpo Damião, que sofre reação interna por seu plano de reestruturação e tenta vaga na lista tríplice. Foto: Lucas Lacaz Ruiz / Futura Press

Coordenador-geral de Ciências Espaciais e Atmosféricas, Clezio Marcos De Nardin, que também concorre à direção, discorda de Câmara. Ele defendeu uma reforma que reorganizaria o quadro de servidores para que deem conta de todas as tarefas do Inpe, considerando que o contingente do órgão está abaixo do ideal. Também negou que o Inpe esteja passando por um processo de militarização, destacando, inclusive, que o comitê responsável por elaborar a lista tríplice é formado por civis.

Na semana passada, Nardin enviou uma moção de apoio a Damião, questionando a decisão da AEB de zerar o orçamento para pesquisa e desenvolvimento científico. A agência, segundo Nardin, comete um ato “descabido, desproporcional e imprudente”, e ele disse que prefere imaginar que houve “um erro de digitação e que o MCTI saberá reverter esta situação”.

A falta de recursos, porém, não é um fardo apenas da pesquisa e desenvolvimento, disse Nardin. E pode provocar o colapso do instituto em poucos meses.

“Se os recursos não vierem, minha estimativa é que o Inpe não tenha dinheiro para pagar as contas de energia elétrica”, alertou. “Ou seja, vai parar de funcionar em maio de 2021. Imagine termos de desligar o supercomputador e o país ficar sem previsão numérica do tempo, por exemplo. Pergunte a algum agricultor o que ele faz sem esse dado ou como atuará um funcionário do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) para salvar vidas.”

Ricardo Galvão, diretor afastado em 2019 após embate com o governo. Ele fala em “problemas seríssimos” para o próximo dono do cargo. Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
Ricardo Galvão, diretor afastado em 2019 após embate com o governo. Ele fala em “problemas seríssimos” para o próximo dono do cargo. Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo

Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe, acredita que o sucessor de Damião terá à frente “problemas seríssimos”. Entre eles, evitar a interferência do governo nos boletins sobre devastação da Amazônia, o que pode arranhar a imagem do país no exterior e decidir o futuro da reforma anunciada por Damião.

Entre as questões seculares está a redução drástica no quadro de servidores, que, segundo ele, está levando o órgão a “quase uma situação de não prestação de serviços para a sociedade”.

“O atual diretor é interino. O próximo pode ter problemas de enfrentamento com o governo”, cogitou. “Temos um satélite sino-brasileiro para sensoriamento remoto para a Amazônia. Não sei se essa colaboração será renovada, por questões ideológicas do governo com a China.”

A integridade da floresta também está na mira de outros países. A Nasa e a Agência Espacial Europeia mantêm satélites monitorando a Amazônia em tempo integral. A China, segundo Galvão, consegue cobrir 70% do território brasileiro com uma resolução de 9 metros quadrados, melhor que a dos equipamentos nacionais.

Portanto, na ausência de boletins do Inpe, seja por deliberação do governo federal ou em consequência de sua infraestrutura cada vez mais negligenciada, outros países podem assumir a divulgação de dados relacionados à Amazônia. Empresas estrangeiras também estariam disponíveis a exercer o mesmo papel. Para os pesquisadores brasileiros, seria como dizer ao mundo que a produção científica nacional não é confiável. O próximo diretor do instituto, civil ou militar, terá muito trabalho empilhado em seu gabinete.

EPOCA

 

 

 

September 25, 2020

A isso dá-se o nome de ataque biológico

MEDO & DELIRIO EM BRASILIA :


Anteontem foi o post de número 500 dessas bandas, e acho que nada me chocou mais até aqui do que essa foto. Plena pandemia, uma pilha de 138 mil mortos e…

“Cumprindo agenda em Manaus, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e membros do Governo Federal dispensaram o uso de máscaras ao visitarem uma aldeia indígena da capital. Uma imagem publicada em rede social mostra todos os presentes sem o uso do acessório que protege contra o novo coronavírus. O uso de máscaras é obrigatório na cidade. Os Bolsonaro cumprem agenda na capital amazonense para fomentar ações do turismo na região, mesmo diante da pandemia de Covid-19.[G1]

Essa deve ser o crime mais espantoso desse governo que ostenta uma vastíssima coleção de crimes de responsabilidade, dava pra jogar os crimes pro alto, escolher um de olhos fechados e certamente teríamos um caso fortíssimo em mãos, em especial depois que a Dilma caiu do jeito que caiu, com as benções de ninguém mais ninguém menos que Eduardo Cunha.

Caminhamos alguns séculos pra trás. Volto a dizer, o governo federal trabalha com afinco desmedido para construir uma condenação contra si mesmo em corte internacional, isso aí deixou de ser atentado à saúde pública, é ATAQUE BIOLÓGICO aos índios. Dizem que as condenaçãoes internacionais se limitam a países que não têm algo que possa ser classificado como sistema jurídico independente, mas sempre tem uma primeira vez. E pelo andar da carruagem é a nossa única esperança.

“Armas biológicas, como os vírus da varíola e do sarampo, foram utilizadas no Brasil no século 19 para exterminar os índios. Pelo menos três casos documentados mostram que o contato dos índios com as doenças dos brancos também ocorreu de forma proposital, com o objetivo deliberado de dizimar tribos hostis. O mais “clássico” deles, segundo o antropólogo Mércio Pereira Gomes, aconteceu em Caxias, no sul do Maranhão, por volta de 1816. A vila estava se transformando em um grande centro de criação de gado, e os fazendeiros queriam se livrar dos índios timbira. “O plano era atrair os índios para a vila, então atacada por uma epidemia de bexiga (varíola). Uma vez ali, as bexigas dariam conta deles”, descreve o antropólogo Darcy Ribeiro no livro “Os Índios e a Civilização”. Os fazendeiros de Caxias “presentearam” um grupo de 50 índios com roupas de moradores da vila que haviam contraído a doença. De volta a suas aldeias, os índios espalharam o vírus.

A epidemia se disseminou rapidamente pelo sertão e atingiu até tribos a 1.800 km de Caxias. Francisco de Paula Ribeiro, na época comandante militar no sul do Maranhão, relatou com detalhes o massacre dos Timbiras. O texto, escrito em 1819, só foi publicado por volta de 1930, na revista do Instituto Geográfico e Histórico Brasileiro. Ele conta: “Não é certamente fácil fazer-se uma idéia de quantos mil desgraçados se evaporaram por semelhante motivo, e ainda muito mais quando sabemos o método extravagante que se pretendiam curar-se, sepultando-se nos rios para suavizar o calor das febres, ou ainda abreviando-se uns aos outros a vida, logo que conheciam com verdadeiros sintomas daquele mal tão cruel, ao que chamavam Pira de Cupé, sarna dos cristãos.”” [Folha]

jesus deal with it GIF

Não sei bem porque mas me lembrei disso aqui:

“Os imigrantes alemães se valeram do vírus da varíola na luta contra os índios xokleng e kaiangang, durante a colonização de Santa Catarina e do Paraná, no final do século 19. “Os bugreiros, caçadores de índios contratados pelas companhias de colonização, deixavam nas matas roupas com os vírus da varíola e do sarampo”, disse o antropólogo Gomes. O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), que viajou pelo Brasil entre 1816 e 1822, fez referências à guerra bacteriológica contra os índios botocudos, no vale do Rio Doce. Ele denunciou na Europa as atrocidades cometidas por portugueses e brasileiros, que entregavam aos índios roupas contaminadas por varíola. “Em breve, nada mais restará dos antigos povos indígenas que habitavam as terras do Brasil”, previu o naturalista, em 1847, no livro “Viagem à Província de Goiás”. Ele estava certo. Em 1500, a população indígena no Brasil ultrapassava 2 milhões de pessoas. Há estimativas que apontam até 6 milhões de índios. Hoje restam apenas 300 mil.”

O que leva o governo federal, um senador da república e um deputado federal a se encontrarem com índios em plena pandemia sem máscara?!

Passo ao Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia em 21 de junho deste ano maldito:

“Segundo o estudo, a taxa de mortalidade pelo coronavírus entre indígenas (o número de óbitos por 100 mil habitantes) é 150% mais alta do que a média brasileira, e 20% mais alta do que a registrada somente na região Norte – a mais elevada entre as cinco regiões do país. Igualmente preocupante é a taxa de letalidade, ou seja, quantas pessoas infectadas pela doença morreram: entre os indígenas, o índice é de 6,8%, enquanto a média para o Brasil é de 5% e, para a região Norte, de 4,5%. Já a taxa de infecção pela doença por 100 mil habitantes entre os indígenas é 84% mais alta se comparada com a média do Brasil. Ela não é maior do que o índice de toda a região Norte, mas demonstra uma inclinação da curva mais aguda. “Nesta análise, traduzimos em números aquilo que tem sido mostrado e falado pelos povos indígenas desde o início da pandemia: esta é uma população extremamente vulnerável ao novo coronavírus e, como tal, precisa receber um tratamento diferenciado”, diz a diretora de Ciência do IPAM, Ane Alencar.” [IPAM]

E o governo sabe muito bem disso. Reparou que na foto tem crianças e jovens? Pois bem:

“A morte de um bebê de 45 dias encobriu o futuro das etnias do Parque Nacional do Xingu. Foi a primeira vítima fatal da reserva indígena do Mato Grosso provocada pelo coronavírus, que vem se alastrando rapidamente pelos territórios protegidos da Amazônia Legal. Mas não foi a única criança indígena a tombar pela doença. A pedido da National Geographic Brasil, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Abip) contabilizou 18 mortes de pessoas com até 19 anos. Dessas, 13 eram recém-nascidas. Isso representa 4,6% do total de óbitos entre indígenas até o dia 30 de junho. A entidade monitora os casos de forma independente uma vez que questiona a subnotificação oficial. Enquanto, na última semana, a Apib divulgava 389 mortes, o Ministério da Saúde somava 156 no mesmo período. No mundo, as mortes pela covid-19 entre jovens são raras. Eles representam menos de 1% do total de óbitos em Itália, Espanha, EUA e até mesmo no Brasil. Em todo o Reino Unido, cinco pessoas abaixo de 18 anos morreram pelo vírus.” [National Geographic]

Mas voltemos ao ataque biológico de ontem:

“A foto em que ninguém usava máscaras foi publicada na segunda-feira (21) no perfil do presidente da Embratur. Ao G1, a Embratur confirmou a visita do presidente no Amazonas para “participar de um evento realizado pelo governo estadual para anunciar novidades relativas à promoção da retomada turística do estado” e disse que “todos cuidados contra o coronavírus, como o uso de máscara, foram tomados”. Sobre a imagem, a agência disse: “a foto em questão foi feita durante o momento de uma refeição típica, com formigas e peixes, oferecida aos visitantes pelo Cacique Dyakuru, também conhecido como Zé Maria”. O uso de máscaras passou a ser obrigatório em Manaus, tanto em espaços públicos quanto privados, desde o final de julho e a medida prevê multa para quem descumprir. A capital, que sofreu colapso no sistema de saúde e enterrou caixões empilhados e em valas comuns na pandemia, voltou a apresentar aumento de casos e internações. O G1 tenta contato com o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro sobre a situação.”

E é um padrão desse governo:

“O coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Fundação Nacional do Índio (Funai), Ricardo Lopes Dias, tentou quebrar a quarentena da base de proteção na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, durante uma missão promovida pela Funai à região, na última semana de agosto, afirma a chefe substituta da Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, Idnilda Obando, em ofício enviado ao Ministério Público Federal (MPF) e à Diretoria de Proteção Territorial da Funai, a quem Dias está subordinado. Ele também é acusado de indicar missionários para trabalhar na evangelização de índios korubo, grupo recém-contatado que habita a região. O GLOBO teve acesso às quatro páginas do ofício 43/2020 no qual Idnilda, que está há 34 anos na Funai, relata situação de constrangimento e assédio moral durante três reuniões com Dias, em Tabatinga (AM), ao tentar convencê-lo a não ingressar com sua comitiva na terra indígena sem o cumprimento de quarentena e, assim, expor os índios à contaminação de doenças, além dos profissionais que lidam diretamente com eles.

No documento, a servidora cobra da diretoria da Funai medidas contra o coordenador a quem chama de “ameaça à política pública do não contato aos índios isolados” e o acusa de “proselitismo religioso junto aos indígenas recém-contatados”. A servidora conta no ofício que após uma rodada de duas reuniões com Ricardo Dias e o coordenador titular da Frente Etnoambiental do Vale do Javari, Jaime Mayoruna, não conseguiu impedi-los de seguir com o plano, que só foi abortado depois de o MPF recomendar à presidência da Funai que cancelasse a entrada em terra indígena do coordenador sem o cumprimento da quarentena. A chegada da comitiva liderada por Dias em aeronaves do Exército e aparato militar com soldados armados de fuzis, no último dia 26 de agosto, causou espanto nos servidores da frente de proteção de Tabatinga, que não sabiam da missão organizada pela própria Funai. A cena se repetiu também em Atalaia do Norte (AM) dois dias depois, de onde pretendia sair a expedição.” [O Globo]

Vale ler a matéria na íntegra.

__/\/\/\/\/\/\__

clique para ler mais MEDO & DELIRIO EM BRASÍLIA

 

Queima, Brasil

 

 


Depois da Amazônia, é a vez de o Pantanal ser
consumido pelas chamas em meio ao descaso do governo


POR RODRIGO MARTINS 

O Pantanal agoniza. Fora de
controle, os incêndios flo-
restais consumiram mais
de 2,3 milhões de hecta-
res do bioma, território
superior ao de Israel ou equivalente a
dez vezes as áreas das cidades de São
Paulo e Rio de Janeiro somadas, atesta
o Laboratório de Aplicações de Satélites
Ambientais da UFRJ. Quem percorre os
145 quilômetros da Rodovia Transpan-
taneira descreve um cenário desolador.
Às margens da estrada, um vasto cemi-
tério de espécies, com cobras, jacarés, ja-
butis e outros animais carbonizados. Ao
adentrar na mata, os ambientalistas não
enfrentam dificuldade para encontrar
onças prostradas, imóveis, com as patas
queimadas, em carne viva. As cenas es-
candalizaram o mundo. Com longo his-
tórico de engajamento em causas am-
bientais, o ator norte-americano Leo-
nardo DiCaprio aderiu à campanha De-
fund Bolsonaro, que sugere um boicote
aos produtos brasileiros associados ao
avanço do desmatamento.


Trata-se da maior devastação da his-
tória do Pantanal, que perdeu ao menos
15% de sua cobertura vegetal para as
chamas. Até 15 de setembro, o Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais iden-
tificou 15.477 focos ativos de incên-
dio, o maior número da série histórica,

iniciada em 1998. Para piorar, a re-
gião enfrenta uma de suas maiores se-
cas. Segundo a Marinha, o nível do Rio
Paraguai, principal do bioma, chegou a
2,10 metros em junho, a menor marca
dos últimos 47 anos. De outubro de 2019
a março deste ano, o volume de chuvas
na Bacia Pantaneira foi 40% menor que
a média dos anos anteriores.


A estiagem é influenciada por mu-
danças na temperatura do oceano, um
fenômeno conhecido como Oscilação
Multidecadal do Atlântico, explica a geó-
grafa Ane Alencar, diretora de Ciência
do Instituto de Pesquisa Ambiental da
Amazônia. “Uma parte das águas da re-
gião amazônica vem do Atlântico. Essa
água percorre a floresta, é reciclada pe-
los rios voadores e segue para o Centro-
Oeste. Se a água do oceano está mais
quente, ela evapora com mais facilida-
de, reduzindo o volume de todo o siste-
ma.” Não por acaso, o recorde anterior de
queimadas no Pantanal foi registrado em
2005, com 12.536 focos ativos de incên-
dio. Naquele ano, as águas do Atlântico
também aqueceram, provocando uma
onda de furacões no Caribe e nos EUA,
além de um severo período de seca no su-
doeste da Amazônia e no Pantanal.
Nem por isso as recentes queima-
das podem ser atribuídas à combustão
espontânea da vegetação nativa, como

Jair Bolsonaro declarou em agosto.

A região pantaneira
perdeu 15%
da vegetação, a
maior devastação
de sua história


“Esses incêndios naturais costumam
ser provocados por descargas elétricas
no fim da estação seca. Mas ainda não
há sinal de chuvas na região, não hou-
ve tempestades com raios. Tudo indica
que o fogo teve origem na ação huma-
na”, observa Alencar. “Claro que a es-
tiagem favorece a propagação das cha-
mas, mas não podemos alterar o clima.
No que podemos intervir? Na realiza-
ção de queimadas prescritas logo após
a temporada de chuvas, para reduzir a
quantidade de material orgânico com-
bustível, e na fonte de ignição dos in-
cêndios. Em tese, a moratória das quei-
madas na estação seca deveria cumprir
esse papel, mas ela está sendo desres-
peitada. Pudera, um dia após proibir o
uso do fogo em território nacional por

120 dias, o presidente criticou o próprio
decreto que assinou em uma live, dizen-
do não concordar.”


A tese de combustão espontânea foi
desmentida pelas investigações em cur-
so. No início de setembro, o governo de
Mato Grosso divulgou os resultados de
perícias realizadas em cinco áreas da re-
gião do Pantanal, no sul do estado. Os
laudos concluem que os incêndios fo-
ram provocados pela ação humana, de
forma intencional ou não. Na região de
Barão de Melgaço, a queimada serviu ao
propósito de abrir “área de pasto para­
o gado”. Em outro local, denominado
Fazenda São José, produtores queima-
ram raízes para produzir fumaça, com
a finalidade de retirar favos de mel de
abelhas silvestres. Em outra proprie-
dade rural, uma máquina agrícola reco-
lhia feno quando pegou fogo. Na Rodovia
Transpantaneira, um acidente de trân-
sito teria iniciado o incêndio florestal.
Na Rodovia Helder Cândia, por sua vez,

a queimada começou com faíscas de um
cabo de alta-tensão rompido.


Em Mato Grosso do Sul, a Polícia
Federal afirma que o incêndio que des-
truiu 25 mil hectares de áreas de pre-
servação ambiental não foi acidental. A
suspeita é de que o fogo tenha sido uti-
lizado para remover a vegetação natu-
ral com o objetivo de aumentar a área
de pastagem para gado em cinco fazen-
das na região de Corumbá. Os suspei-
tos poderão responder pelos crimes de
danos a floresta de preservação perma-
nente, danos diretos e indiretos a uni-
dades de conservação, incêndios e po-
luição, cujas penas somadas podem ul-
trapassar 15 anos de reclusão.


Os infratores confiam, porém, na
impunidade. Até 31 de julho, o Ibama
gastou apenas 20,6% dos 66 milhões de
r ­ e­ais autorizados para ações de fiscali-
zação no País em 2020, revela um levan-
tamento do Observatório do Clima, com

base em dados do sistema
de execução orçamentária
do governo federal. A con-
sequência é nítida. No pri-
meiro semestre deste ano,
agentes do instituto aplica-
ram 3.421 autos de infra-
ção, uma queda de 52,1%
na comparação com o mes-
mo período do ano passa-
do. Detalhe: em 2019, ha-
via ocorrido uma redução
de quase 17% das multas.

A despeito das queima-
das que ameaçam o Pan-
tanal, o governo Bolso-

naro tem promovido sucessivos cortes
nos recursos destinados à contratação
de profissionais especializados no com-
bate ao fogo em áreas florestais, bem co-
mo para o pagamento de diá­rias de bri-
gadistas. A verba despencou de 23,7 mi-
lhões, no ano passado, para 10 milhões
neste ano, uma redução de 58%, de
acordo com dados do Portal da Trans-
parência. O orçamento global para pre-
venção e controle de incêndios em áre-
as federais era de 53,8 milhões de ­reais
em 2018, mas caiu para 45,5 milhões em
2019 e para 38,6 milhões neste ano. Não
é tudo. O Projeto de Lei Orçamentária
de 2021 proposto pelo Executivo pre-
vê um corte de 4% nas verbas destina-
das ao Ibama e de 12,8% para o ICM-
Bio. Além disso, uma série de políticas
ambientais morre de inanição na gestão
do ministro Ricardo Salles, revela outro
levantamento do Observatório do Cli-
ma. Dos 2,6 milhões de reais autoriza-
dos para ações de educação ambiental

foram gastos míseros 4,3 mil, ou 0,1%
do total. A Política Nacional sobre Mu-
dança do Clima, cujo plano de metas
deveria ser entregue às Nações Unidas
neste ano, consumiu apenas 6,3 mil
r ­ eais, ou 2,5% dos 253,4 mil previstos.
O Fundo do Clima, com dotação de 6,2
milhões, teve desembolso zero.


Embora o governo insista em negar
a realidade, os dados são irrefutáveis.
O desmatamento na Amazônia, igual-
mente ameaçada por incêndios flores-
tais, cresceu 34% de agosto de 2018 a ju-
lho de 2019, revelam imagens de satéli-
tes do Deter, o sistema de monitoramen-
to do Inpe. O compilado do último ano
ainda não foi divulgado, mas especialis-
tas preveem a repetição do quadro, pois
o número de alertas de desmatamento
cresceu 34,5% de agosto de 2019 a ju-
lho deste ano. Mas, na peculiar visão de
mundo do general Hamilton Mourão, vi-
ce-presidente da República, o problema
está no Inpe, responsável pela aferição
dos dados. “É alguém lá de dentro que
faz oposição ao governo. Eu estou dei-
xando muito claro isso aqui. Quando o
dado é negativo, o cara vai lá e divulga.
Quando é positivo, não divulga.”


O governo prefere
perseguir “inimigos”
internos e externos,
entre eles Leonardo
DiCaprio, a lidar
com a realidade

A tentativa de esconder os dados é es-
candalosa. Antes de Mourão, o ministro
Salles moveu uma irracional campanha
contra o instituto. A crise resultou na
demissão do físico Ricardo Galvão, en-
tão presidente do Inpe, que viria a ser es-
colhido como um dos dez cientistas do
ano pela revista Nature. “O maior opo-
sitor do governo é a verdade”, rebate o
ambientalista Marcio Astrini, secretá-
rio-executivo do Observatório do Clima.
“De 2004 a 2012, conseguimos reduzir
em 84% o desmatamento na Amazônia.
Depois houve um enfraquecimento da
agenda ambiental. Mas Bolsonaro virou
completamente o disco, oferecendo uma
espécie de salvo-conduto para as qua-
drilhas que lucram com a devastação. O

Brasil tinha protagonismo no debate so-
bre desenvolvimento sustentável, mas
se tornou um pária ambiental.”


Agora, o governo parece ter elegido
DiCaprio como alvo prioritário. Mourão
chegou a convidar o ator para “uma mar-
cha de oito horas pela selva, entre o ae-
roporto de São Gabriel e a estrada de
Cucuí”, na qual o general se dispõe a
A tentativa de esconder os dados é es-
candalosa. Antes de Mourão, o ministro
Salles moveu uma irracional campanha
contra o instituto. A crise resultou na
demissão do físico Ricardo Galvão, en-
tão presidente do Inpe, que viria a ser es-
colhido como um dos dez cientistas do
ano pela revista Nature. “O maior opo-
sitor do governo é a verdade”, rebate o
ambientalista Marcio Astrini, secretá-
rio-executivo do Observatório do Clima.
“De 2004 a 2012, conseguimos reduzir
em 84% o desmatamento na Amazônia.
Depois houve um enfraquecimento da
agenda ambiental. Mas Bolsonaro virou
completamente o disco, oferecendo uma
espécie de salvo-conduto para as qua-
drilhas que lucram com a devastação. O
ensinar, “em cada socavão” pelo trajeto,
“como funcionam as coisas nesta imen-
sa região”. Mais recentemente, foi a vez
de Salles perder as estribeiras, após o
astro de Hollywood manifestar apoio à
campanha Defund Bolsonaro. “O Brasil
está lançando o projeto de preservação
‘Adote um Parque’, que permite a você ou
qualquer outra empresa ou indivíduo es-
colher um dos 132 parques da Amazônia
e patrociná-lo diretamente a 10 euros
por hectare por ano. Você vai colocar seu
dinheiro onde está sua boca?”, escreveu
o ministro no Twitter, postagem depois
compartilhada por Bolsonaro.

Compreensível o desespero da turma.

Além dos alertas emitidos por fundos de
investimentos estrangeiros, Mourão re-
cebeu na terça-feira 15 uma carta assi-
nada pelos embaixadores de oito países
europeus a alertar que os governos de
Alemanha, Bélgica, Dinamarca, França,
Holanda, Itália, Noruega e Reino Unido
não estão dispostos a fechar os olhos pa-
ra o avanço do desmatamento no Brasil.
No mesmo dia, mais de 200 entidades e
empresas enviaram ao governo um con-
junto de propostas para a redução efe-
tiva do desmatamento no curto prazo,
a começar pela retomada das ações de
fiscalização. A Coalizão Brasil Clima,
Florestas e Agricultura, por sinal, con-
seguiu o incrível feito de unir ONGs am-
bientalistas, como a WWF e o Imazon,
com gigantes do agronegócio, a exemplo
de Amaggi, JBS e Marfrig. As empresas
temem que o descaso do governo com o
meio ambiente resulte na criação de bar-
reiras comerciais aos produtos brasilei-
ros, com gigantescos prejuízos ao País. •

CARTA CAPITAL

September 23, 2020

Heleno resolveu abrir seu triste coração

 do MEDO E DELIRIO EM BRASILIA 

Recupere o fôlego pois Heleno enviou um desesperado pedido de ajuda, só pode ser isso. Poucas horas antes da fala do Bolsonaro na ONU Heleno resolveu abrir seu triste coração:

“O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, afirmou nesta terça-feira que o Brasil pode retaliar países que adotem políticas de boicotes a produtos brasileiros por questões ambientais. Ele também afirmou que a Alemanha é “um que valia a pena”, devido ao consumo de produtos alemães pelo Brasil.

— [Retaliar] é uma medida que, obviamente, pode estar na mira do governo brasileiro, só que é aquele negócio: você já comprou uma coisa finlandesa, norueguesa, sueca? Eu não me lembro de ter na minha casa produtos — disse.

“O jornalista da Rádio Bandeirantes, então, afirmou: “Alemã já”.

— Não, Alemanha tem muita coisa. Esse é um que valia até a pena, mas eu não quero citar países, eu tenho muito medo de criar um problema diplomático e ser injusto até — completou Heleno.” [O Globo]

season 13 GIF

Finlândia, Noruegua, Suécia não estão aí à toa, são países que questionaram a política ambiental brasileira, Heleno trata a Suécia como algo desimportante mas olha essa matéria de 2017:

“Segundo dados da Embaixada da Suécia, existem hoje em torno de 220 empresas suecas no Brasil e que empregam aproximadamente 60.000 pessoas, além de movimentarem mais de 30 bilhões de coroas suecas (SEK) por ano- cerca 11,7 bilhões de reais. Grande parte das empresas suecas está localizada na região de São Paulo e, por isso, a cidade é frequentemente chamada de ‘a segunda maior cidade industrial da Suécia’ (depois de Gotemburgo). O Brasil é considerado o parceiro latino-americano mais importante para a indústria sueca e, de longe, é o maior mercado para suas exportações na região.” [Minsitério do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio]

Como é burro, Brasil! E como assim “até valia a pena” pra falar da Alemanha?! Que porra é essa?!

“Temos que criminalizar esse delitos, temos que ter condições de inteligência para ir atrás de quem é o dono do dinheiro, não é o pobre coitado do garimpeiro que tá lá, se ralando, e tentando sobreviver. É o camarada que tá por trás, no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, comandando esses escravos, muitas vezes é um trabalho escravo, estão lá se sacrificando na ponta da linha e acabam sendo criminalizados, acabam tendo prejuízos, e esses caras estão protegidos “

Sabe pra quê serve isso? Tráfico de drogas. Troque garimpeiro por traficantes, também tão lá, na ponta da linha, se sacrificando enquanto algum poderoso ganha dinheiro. O desespero do Heleno é tamanho que ele tá falando em trabalho escravo! Imagine, esse governo denunciando trabalho escravo, puta que pariu a hipocrisia! E, acredite, isso nao foi o mais absurdo.

“Heleno voltou a dizer que existem países e instituições interessadas em tirar Bolsonaro do poder. Ele defendeu que o governo tome medidas legais contra a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e disse que o governo estava “levantando dados dessa instituição”

A minha opinião é que nós temos que ir para cima, sim. Estamos levantando dados dessa articulação dos povos indígenas brasileiros, até porque acho que eles não tem nem CNJP, então nós estamos buscando realmente qual é a missão deles, quais são seus verdadeiros objetivos para, se for o caso, mover uma ação contra esse trabalho nefasto que eles fazem — disse.”

A AGU como?!

No Way Do Not Want GIF

O chefe do GABINETE SDE SEGURANÇA INSTITUCIONAL tá dizendo “NÓS TEMOS QUE IR PRA CIMA, SIM” dos índios – e atenção – “PRA SE FOR O CASO MOVER UMA AÇÃO“, ele se enforca de maneira constrangedora com as próprias frases, o GSI não pode ser tocado por um idiota desse naipe, porra!

“É lógico que as pessoas que leem jornal, que são bem informadas, têm na cabeça quais são esses países. Não cabe a nós, do governo, citar esses países, que eu vou criar um problema diplomático internacional. Eu também não vou botar minha cabeça à prêmio, porque não vale a pena. Eu ando sem segurança, a gente não pode exagerar “

Leandro Ramos Julinho Da Van GIF - LeandroRamos JulinhoDaVan ChoqueDeCultura GIFs

Que porra ele tá falando?! Ele tá dizendo que algum gringo vai mandar matar ele?! Enlouqueceu!

Sobre a tentativa de derrubar o governo Bolsoanro, sabe como é, os europeus só pensam nisso:

“Se surpreenderam com a vitoria dele, ai resolveram: “isso ai a gente derruba em um mês”. Os meses estão passando, e a popularidade do presidente está crescendo. Ele tá fazendo um governo maravilhoso? Não, é difícil fazer um governo maravilhoso, nós temos problemas sérios, é um país de 8,5 milhões de km², com diferenças regionais marcantes, só que ele vai atrás, corre”

Ô se vai atrás…

ernesto_3

__/\/\/\/\/\/\__


 

 

September 20, 2020

Milícias adaptam comportamentos para atuar em áreas ricas do Rio

 Vista aérea de prédios que caíram na Muzema, região controlada por milícias

Anna Virginia Balloussier

Se na periferia chega-se com o pé na porta, nas áreas elitizadas a fala é mansa. Ao menos na primeira abordagem. Poder paralelo que vem abocanhando territórios por décadas sob jugo do tráfico carioca, a milícia desenvolveu um modus operandi diferenciado para atuar nas regiões mais ricas do Rio de Janeiro.


“O padrão dos milicianos é muito plástico. São criativos e flexíveis, vão para onde tem grana. E aí tem as histórias de como os caras começam a se implantar progressivamente nessas partes da cidade”, afirma o sociólogo José Cláudio Alves, que estuda o tema há quase três décadas.

“Colocam cancela, dizem que vão tomar conta da rua, um morador os confronta, fala que não quer pagar e começa a ter tantos problemas que acaba pagando.”

Algo do gênero pode ter acontecido em Laranjeiras, que junto com o Cosme Velho forma a zona eleitoral onde Marielle Franco (PSOL) teve mais votos —suspeita-se que ela tenha sido assassinada a mando da milícia.

Uma agência do Bradesco nesse bairro da zona sul virou alvo em maio de 2018. Testemunhas relataram na época que bandidos armados chegaram em dois carros, explodiram caixas eletrônicos e fugiram. Tapumes ainda cercavam a agência, alvo do mesmo crime oito dias antes.

A Folha conversou com uma pessoa que pediu anonimato e que relata o seguinte: um grupo ofereceu segurança ao banco, que negou. Depois do primeiro episódio de violência, a proposta voltou à mesa. Nova recusa, nova explosão.

O Bradesco diz que registrou boletim de ocorrência dos dois casos e que desconhece a relação dos ataques com represálias de grupos criminosos. A segurança no estabelecimento, segundo o banco, é feita por uma empresa autorizada pela Polícia Federal.

A descrição tem verossimilhança com táticas desse poder paralelo, afirma Alves. “Vão te oferecer, você vai negar e imediatamente é atingido. O preço a pagar é o dobro cobrado inicialmente. Se persiste em não pagar, aí já tem risco de algo mais grave.”

Nos subúrbios e nas favelas, a teia miliciana é mais espraiada: cobra-se ágio sobre os serviços mais básicos, como botijão de gás, garrafão de água e sinal clandestino de TV por assinatura (o “gatonet”).

Em 2019, a reportagem foi à Muzema, comunidade na zona oeste vizinha à Barra da Tijuca, onde dois prédios desabaram. Milicianos são acusados de exploração imobiliária ilegal na região, o que inclui cobrança de taxas.

Na porta de um condomínio, a placa: “Prezado condôminos [sic], queremos informar para aqueles que ainda não contribuem com as mensalidades do condomínio”. A partir de janeiro, todos teriam que pagar R$ 60 (apartamento) ou R$ 100 (casa).

No Laguna, restaurante da ilha da Gigoia, a poucos quilômetros dali, um prato com lagosta custa R$ 20 a mais do que o valor exigido de uma casa e dois apartamentos em Muzema. Acessível por barcos, a vizinhança tem clima de vila de pescadores gentrificada pelo turismo, como Búzios.


A Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente foi à Gigoia em 11 de setembro com a meta de coibir a poluição na lagoa local. Acabou prendendo um homem e uma mulher flagrados com um revólver, uma pistola, duas espingardas, uma arma tipo garruchão, dois canivetes, uma faca, um bastão e duas toucas ninja.

São suspeitos, segundo a Polícia Civil, “de integrar uma organização criminosa apontada como responsável pela exploração imobiliária na ilha, que promove a construção clandestina de prédios e causa degradação ambiental”. A cena toda grita milícia. Dois anos antes, outra operação no mesmo CEP deteve 30 pessoas e apreendeu retroescavadeiras e material de construção em obras clandestinas.

Em 1981, um decreto municipal proibiu erguer um tijolo que fosse na Gigoia. Veio 2014, ano de Copa do Mundo no Brasil e com a Olimpíada no Rio logo ali. Nova ordem do poder público deu aval a edificações de até três andares.

O metrô chegou à Barra, de frente para um dos pontos dos barcos que servem de táxi flutuante. Pronto: a região ficou sexy para novos empreendimentos imobiliários, e a milícia, com expertise no ramo, farejou oportunidade.

O publicitário Henrique, 31, conseguiu um emprego na Barra, e todo dia gastava quase duas horas no trânsito até o trabalho.

Um colega já morava na Gigoia, e ele decidiu procurar algo ali. Comeu no mesmo Laguna (mas foi de camarão) e saiu à procura de imóvel para alugar. Minutos depois, conta, um homem de camisa do Flamengo o convidou para conhecer uma obra quase pronta.

“Perguntei o nome da construtora, ele desconversou, depois meu amigo me disse que a milícia estava por trás das construções. Tinha acabado de rolar Muzema [os prédios colapsados], fiquei assustado.

Presidente da Associação de Moradores da Gigoia, nascido e criado na ilha, Eduardo Dias, 42, se diz contra as novas edificações. “Sabemos que quase todo mês se inicia uma obra. Não sabemos de quem são.”
Para Dias, “centenas de moradores que procuram um lugar sossegado para criar os filhos” são responsáveis pelas dezenas de ligações ao Disque-Denúncia sobre o mercado imobiliário informal.

Nem sempre o poder público é solução. Ainda que hoje exista recrutamento de civis e de traficantes, milicianos são quase sempre policiais, na ativa ou não. Como denunciar ao Estado o próprio Estado?

Veja o caso de uma artista que abriu um projeto no centro do Rio, perto do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Um sujeito lhe sugeriu que contratasse seus serviços. Agradeceu, já tinha câmera de segurança. No dia seguinte estouraram a porta do ateliê. O homem retornou. Cedeu: se quisesse continuar ali, era isso ou isso, concluiu.

Situações como essa, segundo José Cláudio Alves, encaixam-se na estratégia miliciana de ocupar pelas beiradas o “filé mignon” da cidade. “São menos ostensivos. Vão fazer abordagem mais sutil, tentar convencer.” Os grupos também procuram regiões próximas a favelas. Pequenos comerciantes de Ipanema e Copacabana, por exemplo, são potenciais “clientes”.

São criminosos que sempre venderam segurança, diz o “faveleker” e ativista Thainã de Medeiros, do coletivo Papo Reto, do Complexo do Alemão.

“A milícia se ergue em cima da discurso de que a cidade é violenta, que tem uma galera que pode ser perigosa pra você. E a elite morre de medo disso, do pretinho que está descendo pra dar um rolê na praia, cuidar do seu carro. Não pensa duas vezes antes de pagar. Se a truculência acontece longe dela, beleza.”​






Coronel que preside Funarte é roteirista de filme militar com slogan de Bolsonaro

 Lamartine Barbosa Holanda, coronel da reserva do Exército e novo presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte) Foto: Reprodução

Vinicius Sassine

. O novo presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), o coronel da reserva Lamartine Barbosa Holanda, apresentou um currículo de produções internacionais para justificar sua indicação ao cargo. Em entrevista ao GLOBO, Holanda afirma ser cineasta e jornalista, funções que, segundo ele, exerceu com mais frequência após ir para a reserva do Exército, dez anos atrás. E garante: sua relação com o cinema vem desde a infância.

— Quando saiu meu nome, Lamartine Barbosa Holanda, ninguém publicou minhas obras que estão no exterior. Tudo bem, não tem problema — disse o coronel. — A minha origem em cinema... É desde pequeno. Por isso o pessoal acha que eu sou só militar. Você tem aí o meu currículo.

Quinta troca em 2 anos

Entre as produções nas quais trabalhou, está um filme com temática militar que usa o slogan de campanha do presidente Jair Bolsonaro. Holanda assina ainda o roteiro de um programa que mostra "treinamentos de alto nível das Forças Armadas" e é responsável por vídeos institucionais da estatal Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel) e da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Abimde). Holanda afirma não ser necessariamente "vocacionado" para o cinema.

— Não é que eu seja vocacionado com isso, mas eu também atuo em vários conteúdos. O roteirista, assim como o jornalista, tem de ter a versatilidade de escrever qualquer conteúdo, desde que seja relevante. Quando eu era pequeno, eu ia enrolar filme numa companhia lá no Rio Grande do Sul, ela existe ainda. Meu pai me levava lá para enrolar filme e desenrolar filme. Tinha essa formação.

À frente da Funarte, Holanda pretende levar adiante a realização de uma mostra de filmes militares, projeto que chegou a anunciar para outubro do ano passado, em uma visita feita na Cinemateca Brasileira, mas que acabou ficando pelo caminho diante da repercussão negativa do anúncio e da visita à instituição.

— É missão da Funarte. Mas não é só isso — disse o coronel, comentando em seguida as responsabilidades do novo cargo. — Para falar da Funarte, tenho a responsabilidade, são políticas públicas, de fazer um diagnóstico aqui, do que pode melhorar. O que a gente tem de fazer agora é um planejamento.



A Funarte foi criada em 1975 e tem a missão de incentivar a prática, o desenvolvimento e a difusão das artes no país. O órgão incentiva áreas como circo, dança, teatro, música, artes visuais, memória e pesquisa artística. A fundação lança editais periódicos para fomentar essas áreas e também atua na capacitação de artistas. No governo Bolsonaro, em menos de dois anos, é a quinta vez em que há uma troca de presidente da fundação.

A reportagem perguntou quem, afinal, o indicou para a Funarte, órgão que está sob a influência da Secretaria Especial da Cultura, ocupada pelo ator Mário Frias. A fundação e a secretaria estão vinculadas ao Ministério do Turismo. Holanda substituiu um ex-assessor do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), Luciano Querido. A nomeação foi publicada no Diário Oficial da União na última segunda-feira, assinada pelo ministro da Casa Civil, general Braga Netto.

— Há quantos anos eu estou no cinema? Esta seria a pergunta. Há quantos anos eu estou na arte? Meu nome não poderia ser conhecido. É por capacitação — disse, sem responder de onde partiu a indicação.

Filmes militares

Na entrevista, Holanda disse que produz e roteiriza um filme de ação, numa cooperação entre Brasil, Estados Unidos e Canadá, previsto para 2021. Ele não quis dizer, inicialmente, que filme é esse, por razões "contratuais". A reportagem localizou o trailer do filme, que seria uma trilogia, chamado "Sem contato". Holanda confirmou que é este o filme que produz.

Segundo ele, o convite partiu dos produtores Frederico Lapenda e Kirk Shaw. O trailer traz imagens de ações militares do Exército e as seguintes frases sobrepostas: "O inimaginável aconteceu. O terror. A guerra. Prepare-se. Brasil acima de tudo". Na campanha pela Presidência da República, e em situações cotidianas do governo, Bolsonaro usou o slogan "Brasil acima de tudo. Deus acima de todos".

O coronel do Exército aparece como roteirista do programa "Tropas", também sobre militares. O trailer descreve assim o programa: "A vida real dos treinamentos de alto nível das Forças Armadas brasileiras". Segundo informações do próprio coronel, ele cuidou também de peças institucionais da Imbel e da associação de indústrias da área de defesa e segurança.



Na lista de teasers de trabalhos audiovisuais enviados à reportagem, Holanda incluiu os filmes "Além da visão" e "O garoto do cachecol vermelho". Foi "diretor de conteúdo" dos dois produtos, segundo ele, mas o militar não aparece nos créditos do material de divulgação promocional. À reportagem, o coronel disse ter feito o "segundo e terceiro tratamento" do primeiro filme, além de ter sido o roteirista.

O GLOBO

 

September 18, 2020

Como o mundo enfrentaria o novo coronavírus se a pandemia estourasse em 1990?

 Máscaras, no passado, só para proteger da poluição, fazer um protesto ou conter um resfriado — e olhe lá. Foto: Alain Buu / Gamma-Rapho / Getty Images

O exercício de imaginação ajuda a dimensionar quanto a ciência avançou nestas três décadas e como a vida mudou de lá para cá