May 22, 2026

The Guardian elege '100 melhores romances de todos os tempos


Jornal britânico elege '100 melhores romances de todos os tempos'

 Nem Machado de Assis, nem José Saramago. Na lista dos “100 melhores romances de todos os tempos” publicada pelo jornal britânico The Guardian não há nenhuma obra brasileira ou escrita em língua portuguesa. O primeiro lugar ficou com um romance tipicamente inglês (e pouco conhecido no Brasil): “Middlemarch: um estudo da vida provinciana”, de George Eliot, que veio à lume em 1872. 

 Descrito por Virginia Woolf como “um dos poucos romances ingleses escritos para adultos”, o livro apresenta um painel da vida no interior da Inglaterra na Era Vitoriana e trata de temas como amor, fé, amizade, traição, ciência, política, moralidade e poder. “Tudo bem, ele não é tão obviamente passional quanto ‘O morro dos ventos uivantes’ (e dificilmente ganharia uma trilha sonora de Charli xcx), o número 20 da nossa lista, nem tão divertido quanto ‘Orgulho e preconceito’ (na nona posição). Mas toda a vida humana está aqui”, escreveu Lisa Allardice, jornalista responsável pela cobertura de livros no Guardian.

O segundo lugar ficou com “Amada”, da americana Toni Morrsion, a única escritora negra vencedora do Prêmio Nobel de Literatura. Em terceiro, está “Ulysses”, romance do irlandês James Joyce que radicalizou o modernismo literário. O autor com mais obras na lista é Virginia Woolf, que aparece com “Ao farol”, Mrs. Dalloway”, “Orlando”, “As ondas” e “O quarto de Jacob”.

Cerca de três quartos das obras citadas foi escrita originalmente em inglês. Também foram contemplados clássicos da literatura russa — como “Os irmãos Karamázov”, de Fiódor Dostoiévski, e “Anna Kariênina”, de Liev Tolstói —, obras-primas francesas — como “Em busca do tempo perdido”, o monumental romance de Marcel Proust publicado em sete volumes —, e livros escritos em alemão, como “O processo” e “A metamorfose”, de Franz Kafka. Apenas dois livros latino-americanos foram lembrados: “Cem anos de solidão”, do colombiano Gabriel García Márquez, e “Pedro Páramo”, do mexicano Juan Rulfo.

A obra mais antiga da lista é “Dom Quixote”, do espanhol Miguel de Cervantes, publicada no começo do século XVII. A maioria dos romances data dos séculos XIX e XX e apenas dez foram lançados depois do ano 2000, como “A amiga genial”, da italiana Elena Ferrante, e “Meio sol amarelo”, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

Eram elegíveis para a lista romances que já tenham sido publicados em inglês, independentemente do idioma em que foram escritos. Os votantes foram 172 intelectuais e personalidades literárias, como os escritores Stephen King, Bernardine Evaristo, R.F. Kuang e Salman Rushdie (cujo “Os filhos da meia-noite”) também entrou na lista.

A jornalista Lisa Allardice reconhece que se trata de uma lista “parcial — como toda lista é”. “Tampouco podemos reivindicar um caráter definitivo — trata-se de literatura, não de ciência. O melhor romance é aquele que transforma o gênero, a sociedade ou o indivíduo? Aquele que captura o espírito de uma época ou cuja vida se prolonga muito além de suas páginas? Ou um romance que se grava tão profundamente em sua alma que você consegue se lembrar exatamente de quando e onde o leu pela primeira vez?”, questionou.

Veja a lista completa abaixo:

  • “Middlemarch”, George Eliot
  • “Amada”, Toni Morrison
  • “Ulysses”, James Joyce
  • “Rumo ao farol”, Virginia Woolf
  • “Em busca do tempo perdido”, Marcel Proust
  • “Anna Kariênina”, Liev Tolstói
  • “Guerra e paz”, Liev Tolstói
  • “Jane Eyre”, Charlotte Brontë
  • “Orgulho e preconceito”, Jane Austen
  • “Madame Bovary”, Gustave Flaubert
  • “O grande Gatsby”, F. Scott Fitzgerald
  • “A casa soturna”, Charles Dickens
  • “Emma”, Jane Austen
  • “Mrs. Dalloway”, Virginia Woolf
  • “Moby Dick”, Herman Melville
  • “1984”, George Orwell
  • “Cem anos de solidão”, Gabriel García Márquez
  • “Persuasão”, Jane Austen
  • “A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy”, Laurence Sterne
  • “O morro dos ventos uivantes”, Emily Brontë
  • “Retrato de uma senhora”, Henry James
  • “O mundo se despedaça”, Chinua Achebe
  • “Os filhos da meia-noite”, Salman Rushdie
  • “Os vestígios do dia”, Kazuo Ishiguro
  • “Lolita”, Vladimir Nabokov
  • “Dom Quixote”, Miguel de Cervantes
  • “O processo”, Franz Kafka
  • “Os irmãos Karamázov”, Fiódor Dostoiévski
  • “Fogo pálido”, Vladimir Nabokov
  • “Frankenstein”, Mary Shelley
  • “A primavera da srta. Jean Brodie”, Muriel Spark
  • “O deus das pequenas coisas”, Arundhati Roy
  • “David Copperfield”, Charles Dickens
  • “Wolf Hall”, Hilary Mantel
  • “Grandes esperanças”, Charles Dickens
  • “O conto da aia”, Margaret Atwood
  • “Homem invisível”, Ralph Ellison
  • “A idade da inocência”, Edith Wharton
  • “Seus olhos viam Deus”, Zora Neale Hurston
  • “Canção de Solomon”, Toni Morrison
  • “Coração das trevas”, Joseph Conrad
  • “A montanha mágica”, Thomas Mann
  • “Housekeeping”, Marilynne Robinson
  • “O quarto de Giovanni”, James Baldwin
  • “O caderno dourado”, Doris Lessing
  • “O leopardo”, Giuseppe Tomasi di Lampedusa
  • “Feira das vaidades”, William Makepeace Thackeray
  • “A metamorfose”, Franz Kafka
  • “Um delicado equilíbrio”, Rohinton Mistry
  • “Vasto mar de sargaços”, Jean Rhys
  • “A amiga genial”, Elena Ferrante
  • “A taça de ouro”, Henry James
  • “O trânsito de Vênus”, Shirley Hazzard
  • “Orlando”, Virginia Woolf
  • “As ondas”, Virginia Woolf
  • “Mansfield Park”, Jane Austen
  • “O som e a fúria”, William Faulkner
  • “Desonra”, J. M. Coetzee
  • “Não me abandone jamais”, Kazuo Ishiguro
  • “Howards End”, E. M. Forster
  • “Os anéis de Saturno”, W. G. Sebald
  • “Meio sol amarelo”, Chimamanda Ngozi Adichie
  • “Dentes brancos”, Zadie Smith
  • “O bom soldado”, Ford Madox Ford
  • “A cor púrpura”, Alice Walker
  • “O mestre e Margarida”, Mikhail Bulgakov
  • “O homem sem qualidades”, Robert Musil
  • “Meridiano de sangue”, Cormac McCarthy
  • ‘Crime e castigo”, Fiódor Dostoiévski
  • “Judas, o obscuro”, Thomas Hardy
  • “Kindred: laços de sangue”, Octavia E. Butler
  • “Nosso amigo em comum”, Charles Dickens
  • “Austerlitz”, W. G. Sebald
  • “Condições nervosas”, Tsitsi Dangarembga
  • “O olho mais azul”, Toni Morrison
  • “Drácula”, Bram Stoker
  • “O arco-íris”, D. H. Lawrence
  • “Uma casa para o sr. Biswas”, V. S. Naipaul
  • “Proclamem nas montanhas”, James Baldwin
  • “Rebecca”, Daphne du Maurier
  • “Os Buddenbrook”, Thomas Mann
  • “Fim de caso”, Graham Greene
  • “Adeus às armas”, Ernest Hemingway
  • “O talentoso Ripley”, Patricia Highsmith
  • “A vegetariana”, Han Kang
  • “A outra volta do parafuso”, Henry James
  • “A linha da beleza”, Alan Hollinghurst
  • “Ragtime”, E. L. Doctorow
  • “A mão esquerda da escuridão”, Ursula K. Le Guin
  • “O quarto de Jacob”, Virginia Woolf
  • “Vida e destino”, Vassili Grossman
  • “A educação sentimental”, Gustave Flaubert
  • “As cidades invisíveis”, Italo Calvino
  • “O mundo conhecido”, Edward P. Jones
  • “O retorno do nativo”, Thomas Hardy
  • “Pedro Páramo”, Juan Rulfo
  • “Ardil-22”, Joseph Heller
  • “A estrada”, Cormac McCarthy
  • “O mensageiro”, L. P. Hartley
  • “My Ántonia”, Willa Cather

GLOBO  


May 20, 2026

How Plausible Is ‘Project Hail Mary’? Astrophysicists Have Thoughts

 

 In a scene set on a spaceship, a man is a at work near a scientific instrument.

 

“The stars weren’t big enough,” Mark Popinchalk said. “Stars are really big.”

Popinchalk, a postdoctoral fellow at the American Museum of Natural History, was voicing a quibble with “Project Hail Mary,” the sci-fi blockbuster. Starring Ryan Gosling as Ryland Grace, a reluctant astronaut, it follows a desperate mission to save the human race, through perilous interstellar travel and some nifty microbiology experiments.

The film has inspired online argument about everything from its cheery vision of international cooperation to Grace’s rumpled, cardigan-friendly style. But much of the debate has centered on the film’s science.

In some ways, this is silly. “Project Hail Mary” is a work of science fiction, emphasis on the fiction. And while it’s possible to get caught up in the wattage of a light saber or the precise speed a warp drive allows, such speculation is extraneous to the stories. But this movie is based on a novel by Andy Weir (“The Martian”), who writes hard science fiction, which blends imagined tales with fact, or at least plausibility. As Weir said recently, scientific accuracy is his “whole shtick.”

So discussions of the science of “Project Hail Mary” aren’t exactly ancillary. Armchair physicists and even some actual physicists have powered countless online threads with questions around interstellar travel, alien life and why Grace, who has a doctorate in microbiology, can’t seem to balance a centrifuge.

The film, like the book, relies on a premise that a microbe called astrophage, a fictional space mold, has entered our solar system, absorbing enough of the sun’s light to send the Earth into an ice age. It has also attacked other suns, imperiling other planets. Jillian Bellovary, a scientist who directs the masters program in astrophysics at the CUNY Graduate Center, dismissed this crisis.

“Nothing can siphon the sun’s light away,” she said. “It’s a cute idea, OK, but that is not a thing.” This was also Popinchalk’s chief complaint, that the sun and similar stars are so massive that it would take a phenomenal amount of microbes to affect its light. Other scientific grumbles: that xenon, a noble gas, could transform into a pliant solid; that microbes cannot only survive but even thrive in the vacuum of space; that these microbes would somehow power interstellar travel.

“It is very squishy,” Charlotte Olsen, an astrophysicist at City Tech who specializes in galaxy formation, said of that idea. But Olsen didn’t mind the squish, in part because the film was accurate in so many other ways, like its depiction of the silence of space or the physics of a spacewalk, the work of rotational gravity or a moment when Rocky, the alien engineer who befriends Grace, calls out the lameness of naming a planet Tau Ceti e.

Many of the seemingly implausible ideas of “Project Hail Mary” do have some basis in fact. There’s precedent for a dangerous calculation error and for the use of light emission to power spacecraft. Scientists have even been able to crystallize xenon, though they can’t yet manipulate it in the ways Rocky can. And if the idea that astrophage might harm the sun stretches credulity, a lack of light has plunged the Earth into ecological crisis. Just ask a dinosaur. (Some Reddit wags have joked that the book’s great lapse is the insistence that Grace might walk from the Neutral Buoyancy Laboratory to the Mission Control Center in the Houston heat.)

“I didn’t get too upset at any of the scenes,” Bellovary said. “I was never like, Oh my God, that’s so wrong. That never actually happens. A pretty good score for science.”

What might delight scientists most is the depiction of scientific thought. While “Project Hail Mary” has its share of explosions and catastrophes, it’s the thinking that’s thrilling. Grace and Rocky must come together, with tools and whiteboards, craft and ingenuity, to solve a seemingly insoluble problem. They make mistakes, but they learn from those mistakes and from each other.

“Getting things wrong is really important in science, and that’s not something that people who aren’t scientists really know,” Bellovary said.

The film also shows the importance of cooperation. Grace bounced out of academia after his thesis was mocked, suggesting that he doesn’t work well with others. But in Rocky, a faceless, adorable life form, Grace finds a colleague. “One of the core things that scientists do is collaborate,” Olsen said. “My take is that he learns to become a scientist because he learns how to collaborate.”

Before the mission, Grace worked as a middle school science teacher. (Could Grace pilot a spacecraft without proper training? That’s another detail the movie fudges.) Bridget Ierace, a high school science teacher and a science communicator, thinks her students could learn a lot from the film.

“It shows the people behind the science,” she said. “It shows that scientists make mistakes and have emotions and that there are different things that drive them.” That’s not necessarily a lesson in physics or microbiology, but it’s still a good one.

THE NEW YORK TIMES  

 

  

May 10, 2026

Rio, à espera de um milagre



À espera de um milagre
 

Por Maurício Thuswohl

 Há dez anos, o Rio de Janeiro vivia um clima de euforia olímpica. Prestes a receber a maior competição esportiva do mundo, o estado, impulsionado pelos recursos dos royalties do petróleo, prometia desenvolver o “maior hub tecnológico da América Latina” e via seu símbolo mais conhecido – o Cristo Redentor – decolar como um foguete na capa da revista The ­Economist. Uma década depois, vive a ressaca das oportunidades desperdiçadas, com a economia em ruínas e grandes áreas do território sob controle do crime organizado. Acéfalo, o Rio está sem governador há quase um mês, e a população fluminense nem parece notar a diferença.

Dar fim à indefinição política instalada desde a renúncia do governador bolsonarista Cláudio Castro, do PL, é o primeiro passo. A bola está nas mãos do Supremo Tribunal Federal, que discute como deverá ser realizada a eleição para um mandato-tampão no governo estadual até o fim do ano: direta ou indireta. Somadas à renúncia de Castro, à nomeação do vice Thiago Pampolha (MDB) para integrar o Tribunal de Contas do Estado e à prisão do presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar (União Brasil), por suposto envolvimento com o Comando Vermelho, provocaram uma tripla vacância e a necessidade de eleições suplementares para escolher o ocupante definitivo do cargo, atualmente exercido de forma provisória pelo presidente do Tribunal de Justiça do Rio, desembargador Rodrigo Couto.

Até o momento, o placar do julgamento no STF é de 4 votos a 1 por eleições indiretas, nas quais os deputados estaduais­ devem escolher o governador interino. Os ministros Luiz Fux, André Mendonça, Nunes Marques e Cármen Lúcia votaram em sentido oposto ao relator, Cristiano Zanin, que defendeu a votação direta, mas também abriu a discussão sobre a possibilidade de se evitarem as eleições suplementares com a permanência de Couto à frente do governo até o fim do ano. Nesse caso, o desembargador passaria o cargo diretamente ao governador que será eleito em outubro.

    Especialistas defendem a criação de uma força-tarefa federal para sanear o estado

Apesar do placar parcial, a expectativa pelo empate no Supremo é grande, pois os ministros Flávio Dino, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, que ainda vão votar, já manifestaram posição em favor das eleições diretas. A discussão foi interrompida por um pedido de vista de Dino e ainda restam os votos de Dias Toffoli e Edson Fachin.

Até lá, os bastidores políticos devem ferver com as articulações em torno dos dois principais postulantes ao governo estadual: o ex-prefeito da capital Eduardo Paes, do PSD, apoiado pelo presidente Lula, e o deputado estadual ­Doug­las Ruas­, do PL, escolhido pelo senador ­Flávio Bolsonaro. Paralelamente, no governo federal, na oposição estadual e em parte da sociedade, há a avaliação de que a solução política, embora essencial, não basta para tirar o Rio do atoleiro. Para esses atores, impedir a continuidade do grupo de Castro, Bacellar e aliados no poder seria a única forma de conter a infiltração do crime organizado no estado.

“Nenhuma outra unidade da federação enfrenta a situação do Rio”, observou Dino no STF, após elencar os seis últimos governadores fluminenses, todos presos, afastados ou levados a renunciar para escapar à cassação. O magistrado lembrou a Operação Quinto do Ouro, levada a cabo pelo Ministério Público Federal e a Polícia Federal. “Prendeu o TCE do Rio inteiro, menos um. Isso nunca aconteceu em lugar nenhum do Brasil”, reiterou. Dino enumerou as prisões de “dois presidentes da Alerj, 13 deputados estaduais, um procurador-geral de Justiça e um procurador-geral do Estado” nos últimos anos. Esse é “o suporte empírico”, pondera o ministro, que deve ser levado em conta quando se tenta evitar as eleições indiretas, que, dada a correlação de forças na Alerj, manteria os grupos de Castro, Bacellar e Bolsonaro no poder.


Antes de pedir a Deus “piedade pelo Rio de Janeiro”, Gilmar Mendes lamentou a infiltração do crime organizado no Legislativo fluminense. “O presidente da Assembleia está preso. Eu conversava com o diretor da Polícia Federal, que dizia que 32 ou 34 parlamentares recebiam mesada do jogo do bicho”, afirmou o magistrado durante o julgamento. Em nota de desagravo, a Alerj disse não reconhecer “qualquer relação com a contravenção penal, bem como qualquer investigação neste sentido relacionada à atual legislatura”. Não reconhecer, está claro, não significa muita coisa.

São muitos os caminhos que podem ser seguidos por um eventual novo governo disposto a libertar o Poder Público do Rio da influência criminosa. Cada um deles, no entanto, demanda a organização de um trabalho conjunto que extrapole as atribuições estaduais. “É uma situação complexa porque, se temos banda podre na polícia, esta é sustentada também por uma banda podre na política e, muitas vezes, em setores do Judiciário, do Ministério Público. Então é preciso ter o expurgo de várias bandas podres, sem o que não é possível avançar”, avalia Daniel Cerqueira, especialista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e coordenador do Atlas da Violência.

Uma missão dessa magnitude, acrescenta Cerqueira, só poderia ser realizada por uma força-tarefa federal. O termo soa quase como um palavrão para nove entre dez fluminenses, sobretudo após a desastrosa intervenção de 2018, comandada pelo então general Walter Braga Netto e marcada por arbitrariedades e violência. Cerqueira reconhece o desgaste: “Aquela operação foi um casuísmo do governo Temer para dizer que estava fazendo alguma coisa. Foi uma péssima decisão, que custou mais de 1 bilhão de reais aos cofres públicos, gerou insegurança nas comunidades e não trouxe qualquer avanço à segurança pública no Rio. Isso não pode mais ocorrer”.


O professor sugere, porém, uma alternativa distinta, mais próxima de uma experiência realizada há 24 anos em outro estado. “Temos como exemplo a força-tarefa do governo FHC, que envolveu a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. Em 2002, esse grupo atuou no Espírito Santo, onde o presidente da Assembleia Legislativa era apontado como chefe do crime organizado, um coronel da Polícia Militar comandava o braço armado e até um juiz de execução penal integrava o esquema”, afirma. Aquela força-tarefa, relembra Cerqueira, conseguiu prender os principais envolvidos e enviá-los a presídios federais. “Isso possibilitou que o governador seguinte, empossado em 2003, iniciasse um processo de saneamento do estado.”

Cerqueira avalia ser possível fazer um trabalho de alto nível. “Junto à PF e ao MPF traríamos o Tesouro Nacional, o Coaf e outros órgãos não policiais, para acompanhar a questão da lavagem de dinheiro. Estamos falando de uma força-tarefa não para simplesmente aparecer com blindados nas ruas, mas baseada na investigação e na inteligência para identificar quem comanda o crime organizado, seja no Legislativo, no Executivo, no Judiciário ou nas próprias polícias”, ensina. O Rio, acrescenta o especialista, perdeu a capacidade de ter soluções internas. “O saneamento do estado não vai partir do próprio estado porque há uma Alerj dominada, um Executivo que até a gestão de Castro tinha muitas pessoas envolvidas, e bandas podres nas polícias e em setores da Justiça. É preciso uma força que venha de fora para conseguir extirpar esse câncer. Uma concertação, inclusive com o STF, para que o Estado brasileiro dê uma resposta contra o crime organizado no Rio”, destaca.

Coordenador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima avalia que militarizar a ajuda federal não é solução. Para ele, “as respostas não estão meramente nos aspectos territoriais, por mais que estes tenham de ser enfrentados. O mais importante é ter soluções articuladas contra a lavagem de dinheiro, com rastreamento de mercadorias e ativos. E, ao mesmo tempo, pensar a regulação de mercados de áreas sensíveis, como criptoativos e combustíveis”. Operações de Garantia da Lei e da Ordem, avalia o sociólogo, drenam recursos públicos e trazem pouquíssimos resultados práticos. “O que precisamos é coordenar esforços, enfrentar com estratégia a questão da lavagem, da responsabilização de autores, e criar mecanismos de ­compliance, integridade e monitoramento.”

    Para vencer as facções, não basta disputar o controle territorial das comunidades

Lima ressalta a importância da cooperação federal e lembra o exemplo capixaba: “As forças federais, em muitos casos, são desestabilizadoras da dinâmica criminal e atuam para mudar o cenário. Isso já aconteceu no caso do Espírito Santo. Precisamos criar mecanismos de valorização institucional e competências compartilhadas. Assim, quando falhar a estrutura estadual, a estrutura federal pode entrar sem grandes dificuldades para investigar”.

Para a socióloga Julita Lemgruber, “é forçoso admitir que o Rio, sozinho, não vai sair desse lamaçal”. Ela vê a necessidade de uma articulação ampla que passe pela inteligência investigativa e por intensificar ações que reúnam as diversas polícias e o MP. “É preciso que isso aconteça com agilidade e frequência porque é o único caminho.” A fundadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) lembra que as últimas operações da PF no estado mirando a questão da corrupção foram bem-sucedidas. “Acabaram revelando conexões espúrias entre Legislativo, Executivo, Judiciário, milícias e crime organizado”, lembra. Se o futuro governador quiser mesmo reverter esse quadro, diz, um pré-requisito é indispensável: “É preciso que ele esteja disposto a trabalhar com o governo federal”.

Para Cerqueira, a primeira coisa que o futuro governador tem de fazer é extinguir as atuais secretarias de Polícia Militar e Polícia Civil e reformular a Secretaria de Segurança Pública, para que esta possa pensar estrategicamente o enfrentamento ao crime organizado no Rio. Também são fundamentais, na avaliação do professor, a remodelação, o fortalecimento das corregedorias e a criação de uma ouvidoria unificada das polícias “com independência, participação da sociedade civil e prerrogativa não apenas de identificar desvios de conduta, mas de fazer a investigação necessária para imputar responsabilidades”. Outra medida importante é implementar um mecanismo proativo de identificação e expurgo de policiais que cometem desvios de conduta. “É mais ou menos o que fez o prefeito Rudolph Giuliani em Nova York”, sugere.

Um dos principais estudiosos do desenvolvimento econômico do Rio de Janeiro e dos motivos de sua decadência, o economista Mauro Osório, professor da UFRJ, situa o período iniciado nos anos 1970 como ponto de inflexão, quando a economia fluminense entra em um processo contínuo de perda de dinamismo, causado a partir da transferência da capital federal da Guanabara para Brasília, mudança que não teve compensações econômicas para o Rio e cujos efeitos concretos só se fizeram sentir uma década depois. Em 1975, veio a fusão entre a Guanabara e o antigo estado do Rio, o que aprofundou a falta de estratégias regionais adequadas de ­desenvolvimento para os territórios carioca e fluminense. Finalmente, o enraizamento de uma cultura política clientelista e fisiológica levou ao progressivo desmonte da máquina pública e facilitou sua infiltração pelo crime organizado.

Enquanto o STF tarda a definir se a eleição para o mandato-tampão de Castro será direta ou indireta, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) e o deputado Douglas Ruas (PL) se apresentam como candidatos – Imagem: Redes Sociais

Esse cenário levou a economia do estado a perder participação no PIB nacional ao longo de cinco décadas, passando de 16,7% em 1970 para 11,4% em 2022, uma queda de 31,4%, segundo dados do IBGE. Nesse mesmo período, a economia da cidade do Rio de Janeiro recuou de 12,8% do PIB nacional para 4%. Foi a maior perda entre as capitais brasileiras (68,9%). “Pouca gente acreditava que Juscelino Kubitschek iria, de fato, construir Brasília. A transferência da capital estava prevista desde a Constituição de 1891 e nunca havia sido realizada. O Rio não pediu nada quando a mudança ocorreu e quase nada lhe foi dado”, diz. Osório cita o caso alemão como contraponto: “Quando a capital alemã mudou de Bonn para Berlim, praticamente metade dos ministérios permaneceu em Bonn, como forma de compensação”.

Osório aponta como fatores decisivos as fusões das seções carioca e fluminense da Arena e do MDB – legendas do bipartidarismo vigente à época da ditadura –, além da consolidação de Chagas Freitas como principal liderança do estado. Para ele, esse processo resultou no fortalecimento excessivo da Alerj, um cenário que persiste até hoje e transformou a Casa em porta de entrada para o clientelismo e outros problemas da política estadual. “Essa lógica de clientela, pouco a pouco se transforma em prática mafiosa. E a partir daí o Estado vai se desestruturando”, explica.

    A participação do estado no PIB nacional caiu de 16,7% em 1970 para 11,4% em 2022

O deputado estadual Carlos Minc, do PSB, avalia que reverter a infiltração do crime na política do Rio é uma tarefa difícil e critica a postura da Assembleia Legislativa. Para ele, a Casa tem sido muito condescendente com políticos ligados ao crime organizado, como demonstra a relutância do plenário em cassar os mandatos de TH Joias e Rodrigo Bacellar, mesmo após todos os indícios de envolvimento com o Comando Vermelho apontados pela PF. Minc também atribui responsabilidade aos partidos, que, segundo ele, “não podem colocar em suas nominatas pessoas­ que mantêm relação direta com a milícia ou com o tráfico”. Já o sistema de Justiça, acrescenta, precisa agir com mais rapidez. “Veja o Cláudio Castro, que ganhou uma eleição de forma corrompida. Cometeu crime eleitoral visível, todo mundo sabia, e cumpriu quase todo o mandato. Só foi afastado agora no finzinho de tudo. Foi punido três anos e três meses depois de ter fraudado descaradamente uma eleição.”

Para o ex-vice-governador Luiz Paulo Corrêa da Rocha, hoje deputado estadual­ pelo PSD, a questão da criminalidade está intrinsecamente ligada à política de arrecadação e de desenvolvimento econômico e social. “Se faltarem recursos públicos, não teremos um funcionalismo público qualificado e justamente remunerado. Os quadros das polícias civis e militares estarão muito menores do que seus ideais, e a degradação social jogará a favor do crime com a oferta de uma mão de obra desqualificada”, diz. Por outro lado, se o Estado entrar em um ciclo econômico virtuoso, pondera o parlamentar, isso facilitará o combate ao crime. “A degradação econômica degenera as políticas públicas, inclusive aquelas de enfrentamento à criminalidade.”


Ex-ministro da Ciência e Tecnologia e ex-presidente da Finep, Celso Pansera, que já coordenou programas voltados ao desenvolvimento econômico e tecnológico do Rio, afirma que o enfrentamento ao narcotráfico exige estratégias de longo prazo, incluindo a requalificação das polícias. “Teríamos que ter curso para policiais todos os anos, além de boa qualificação e aumento substancial de salários”, diz. Ele também propõe a aposentadoria paulatina de todos os policiais na ativa envolvidos com o tráfico e as milícias.

Como se não bastasse, o Rio de Janeiro, com déficit projetado de 19 bilhões de reais para 2026 e dificuldade de honrar as dívidas com a União, mesmo após a adesão ao Propag, aguarda com apreensão a retomada do julgamento no STF, previsto para 6 de maio, que trata da redistribuição dos royalties do petróleo entre os estados. “Há uma liminar suspendendo a divisão desse dinheiro com outras unidades federativas. Se a liminar cair, o Rio estará em maus lençóis”, diz Corrêa da Rocha. Para Osório, é razoável discutir uma redistribuição dos royalties entre os municípios fluminenses, mas reduzir o volume total destinado ao estado seria catastrófico. “Será a pá de cal no Rio de Janeiro. Isso não interessa ao País nem a ninguém.” • 

CARTA CAPITAL  

 

May 5, 2026

New York Times' elege os 30 melhores compositores americanos vivos;

  Da esquerda para a direita, Lana Del Rey, Taylor Swift, Bob Dylan, Jay-Z e Mariah Carey: artistas estão em lista com os 30 melhores compositores americanos elaborada pelo 'NYT'

Gustavo Cunha
 

Levou um ano e meio para que o “New York Times” elaborasse uma lista dos 30 maiores compositores vivos dos Estados Unidos. O resultado, publicado pelo jornal americano na última semana, tem provocado reações desafinadas. Afinal, grandes figurões da música — como Madonna, Jackson Browne, Billy Joel, Lady Gaga, Patti Smith e Stevie Nicks, entre outros — ficaram de fora da seleção.

O levantamento gerou discórdia até mesmo entre os seis críticos do “New York Times” que deram a palavra final. “Houve grandes debates”, como revela a editora Sasha Weiss. Exemplo: o medalhão Randy Newman, músico com mais de 20 indicações ao Oscar, foi um “grande ponto de discussão”. Acabou excluído, sem dó. A lista foi formada com base em mais de 700 indicações de especialistas, incluindo historiadores e profissionais da indústria musical. A partir daí, os seis críticos foram enxugando o número — e, tcharan!, chegaram, enfim, aos 30 melhores.


Nile Rodgers

O guitarrista Nile Rodgers, com o grupo Chic, no Rock in Rio de 2019 — Foto: Pablo Jacob
O guitarrista Nile Rodgers, com o grupo Chic, no Rock in Rio de 2019 — Foto: Pablo Jacob

As composições do nova-iorquino de 73 anos — entre as quais “Good times” e “I want your love” — condensam o espírito do auge da era disco, segundo os críticos.

Lucinda Williams

A compositora americana Lucinda Williams — Foto: Reprodução/Instagram
A compositora americana Lucinda Williams — Foto: Reprodução/Instagram

“Seja o que for que alguém queira dizer sobre a ‘textura’ de uma música, isso ganha um caráter quase tátil com a americana de Louisiana”, destaca o jornal acerca da artista de 73 anos, que transita entre o country e o blues.

Stevie Wonder

Stevie Wonder no Rock in Rio de 2011 — Foto: Leo Aversa
Stevie Wonder no Rock in Rio de 2011 — Foto: Leo Aversa

Maior bardo vivo do coração humano, como definem os críticos, ele escreveu “algumas das músicas mais harmonicamente e cromaticamente complexas já criadas”. Exemplos, para citar só alguns: “Part-time lover”, “Girl blue” e “That girl”.

Jay-Z

O rapper Jay-Z — Foto: Chris Delmas/AFP
O rapper Jay-Z — Foto: Chris Delmas/AFP

Os críticos consideram que “Reasonable doubt” (1996) é um dos maiores álbuns de estreia de qualquer gênero, “prova de habilidades deslumbrantes do rapper como contador de histórias”.

Paul Simon

Cantor e compositor Paul Simon em apresentação no Central Park, em NY, em 2021 — Foto: Angela Weiss / AFP
Cantor e compositor Paul Simon em apresentação no Central Park, em NY, em 2021 — Foto: Angela Weiss / AFP

Voz para o “terremoto jovem” que abalou os anos 1960, este “artesão das palavras”, hoje com 84 anos, escreveu pérolas logo no álbum de estreia. Estão lá “The sound of silence”, “The times they are a-changin” e “I want to hold your hand”. Os críticos consideram que ele gravou duas das maiores canções sobre divórcio (“Hearts and bones” e “Graceland”).

Taylor Swift

Taylor Swift — Foto: Bloomberg
Taylor Swift — Foto: Bloomberg

A longevidade de um dos maiores símbolos da música pop atual — com 12 álbuns de estúdio e centenas de canções ao longo de duas décadas — dá ao público, segundo o jornal, “uma combinação inédita de autoria artística e sucesso comercial”.

Brian & Eddie Holland

Arquitetos de hits de grupos como The Supremes (com Diana Ross como vocalista) e Four Tops, os irmãos transformaram o cancioneiro americano ao tornar o amor algo físico e pulsante, traduzido em batidas e arranjos que convidam o corpo a sentir, como realçam os críticos.

Missy Elliott

A compositora Missy Elliott — Foto: Divulgação
A compositora Missy Elliott — Foto: Divulgação

A obra da rapper de 54 anos parte de um exercício elaborado de inverter e subverter, “esticando palavras como chiclete e fazendo sílabas ricochetearem”. São obras-primas, de acordo com críticos, canções como “Get ur freak on”, “Work it” e “On & on”.

Lionel Richie

Lionel Richie no The Town — Foto: Divulgação The Town
Lionel Richie no The Town — Foto: Divulgação The Town

A sequência de sucessos açucarados, com o dedo do artista de 76 anos, foi a trilha sonora das décadas de 1970 e 1980. Letras como “Easy”, “Endless love” e “Hello” são aulas de formas minimalistas da soul music sensual, como apontam os críticos.

Dolly Parton

Dolly Parton — Foto: Reprodução/Youtube
Dolly Parton — Foto: Reprodução/Youtube

Ícone cultural de várias gerações, a artista de 80 anos escreveu dois de seus maiores clássicos — “Jolene” e “I will always love you” — na mesma noite. O jornal destaca a “pureza sincera em sua obra e visão de mundo” entre hits country, incursões no pop e resgates do gênero bluegrass.

Young Thug

O rapper Young Thug — Foto: AFP
O rapper Young Thug — Foto: AFP

“Dissidente pós-estrutural” do rap e do hip-hop, como definem os críticos, o músico de 34 anos desmontou normas e tornou o gênero novamente selvagem a partir de um método calcado no... improviso radical.

Diane Warren

Compositora Diane Warren — Foto: Isabella Costa
Compositora Diane Warren — Foto: Isabella Costa

Está aí uma das compositoras mais prolíficas e populares dos EUA — e que escreve obras para gente diversa, de Taylor Dayne a Taylor Swift, de Patti LaBelle a Heart, de Chicago a Shanice. De “Rhythm of the night”, do DeBarge, a “There you’ll be”, do Faith Hill, é praticamente impossível não ter ouvido uma canção da artista nas rádios.

JoshOsborne, Brandy Clark e Shane McAnally

Numa era dominada por clichês, o trio de compositores traz temas mais variados — com maior nuance emocional e um olhar mais cosmopolita — ao country.

Fiona Apple

Fiona Apple — Foto: Divulgação
Fiona Apple — Foto: Divulgação

As canções da artista de 48 anos “nos devolvem à euforia da atração e ao enjoo da repulsa” e fazem o coração “parecer um lugar habitado”, como sublinham os críticos.

Babyface

O autor redefiniu a canção romântica no pop, com baladas de enorme impacto emocional. Hits como “End of the road” e “I’ll make love to you”, do Boyz II Men, bateram recordes e ajudaram a reposicionar o R&B no centro da música americana.

Stephin Merritt

Autor de “69 love songs”, o mestre dos desafios criativos combina sofisticação com humor e experimentalismo

Romeo Santos

À frente do grupo Aventura, o nova-iorquino modernizou a bachata — ritmo latino originário da República Dominicana — ao misturá-la com pop, R&B e hip-hop.

Carole King

A compositora de 84 anos transforma emoções complexas em canções universais. Hits como “Way over yonder” e “Tapestry” moldaram diferentes gerações — de Alicia Keys a Taylor Swift.

Outkast

A dupla revolucionou o hip-hop ao levar o sul dos EUA ao centro do gênero nos anos 1990. Com hits como “Player’s ball” e “Ms. Jackson”, os artistas misturam experimentação e apelo pop.

Mariah Carey

Mariah Carey no MTV Video Music Awards, em setembro de 2025 — Foto: Angela Weiss / AFP
Mariah Carey no MTV Video Music Awards, em setembro de 2025 — Foto: Angela Weiss / AFP

Ao surgir nos 1990, adiva pop foi visionária, segundo os críticos, ao fundir a intensidade do gospel com a força do R&B. Autora de 18 hits nº 1, redefiniu o gênero com músicas como “Fantasy” e “We belong together”.

Willie Nelson

Autor de clássicos como “Crazy”, “Night life” e “Funny how time slips away”, o veterano do country construiu uma obra vasta e fora de rótulos, na visão dos críticos.

Kendrick Lamar

Kendrick Lamar no Grammy 2026 — Foto: Reprodução/Instagram
Kendrick Lamar no Grammy 2026 — Foto: Reprodução/Instagram

As músicas do autor — tido como “dos rappers mais ideológicos em atividade” — são “verdadeiros monólogos de autoconfronto, mas também de confronto com o mundo”.

Valerie Simpson

“Rastrear a influência de Ashford & Simpson — dupla formada por Valerie Simpson e Nickolas Ashford — é como mapear o código genético da canção popular americana”, dizem os críticos. São clássicos “Ain’t no mountain high enough” (1967), “Solid”, “I’m every woman” e “California soul”.

Bob Dylan

Bob Dylan — Foto: Hector Mata / AFP
Bob Dylan — Foto: Hector Mata / AFP

Agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2016, Bob Dylan reinventou o que uma canção pode dizer e como pode soar, “expandindo os horizontes da música popular”. Transitou por múltiplas fases e estilos, da canção de protesto ao rock, sempre desafiando rótulos.

Lana Del Rey

Apresentação da cantora Lana Del Rey no palco Corcovado, na primeira noite do festival MITA 2023 — Foto: Lucas Tavares/Agência O Globo
Apresentação da cantora Lana Del Rey no palco Corcovado, na primeira noite do festival MITA 2023 — Foto: Lucas Tavares/Agência O Globo

O jornal destaca a “gramática sonora particular e inconfundível” da artista, que inventou um estilo indie-pop difícil de imitar. Entre sexo, morte e amor, as letras contróem uma estética de resignação sofisticada e autoral.

The-Dream

“Basta pensar num sucesso de R&B pós-anos 2000, e provavelmente há sua marca ali: ‘Umbrella’, de Rihanna; ‘Ride’, de Ciara; ‘Baby’, de Justin Bieber; e ‘Touch my body’ e ‘Obsessed’, de Mariah Carey” e ‘Single ladies (put a ring on it)’, de Beyoncé”, como lembram os críticos.

Jimmy Jam e Terry Lewis

Jimmy Jam e Terry Lewis são “mestres camaleônicos” que ajudaram a reinventar a carreira de Janet Jackson ao longo de diferentes fases. Misturam soul, funk e pop com inovação, moldando o som do R&B moderno.

Bad Bunny

Bad Bunny conquista o público com simpatia e emoção durante show no Allianz Park, em São Paulo — Foto: @irisalvesc/Live Nation Brasil
Bad Bunny conquista o público com simpatia e emoção durante show no Allianz Park, em São Paulo — Foto: @irisalvesc/Live Nation Brasil

O vencedor do Grammy de álbum do ano com “Debí tirar mais fotos” remodelou a música latina “com seu flow melancólico e letras ágeis”.

Bruce Springsteen

Bruce Springsteen canta do lado de fora do Capitólio do Estado de Minnesota durante o dia nacional de protesto "No Kings" em Saint Paul, Minnesota, em 28 de março de 2026 — Foto: Kerem Yucel / AFP
Bruce Springsteen canta do lado de fora do Capitólio do Estado de Minnesota durante o dia nacional de protesto "No Kings" em Saint Paul, Minnesota, em 28 de março de 2026 — Foto: Kerem Yucel / AFP

Para a crítica Lindsay Zoladz, o autor de “Born in the U.S.A.” aprendeu a usar os silêncios ao evoluir das “epopeias da juventude descarada e arrogante” a um papel “autoproclamado de consciência da América”.

Smokey Robinson

O jornal classifica o cantor que foi vice-presidente da Motown como um inspirador de “compositores mais bem-sucedidos e emocionalmente complexos que surgiram depois dele”, como Babyface e Anderson. Paak. “Stevie Wonder pode ser o maior inovador. Lionel Richie pode ter dominado o pop global. Nenhum deles se compara à precisão lírica consistente de Robinson”, dizem os críticos.

 
 O GLOBO

April 29, 2026

Onde está o foco?

 

 Onde está o foco?

A dificuldade de parte da plateia manter-se atenta ao palco ou à tela de cinema inquieta alguns artistas


 Eduardo Magossi ... 

Uma marmita de carne com mandioca aberta no meio de uma sessão de cinema. O brilho de um smartphone na cara de um ator no palco. Um pacote de salgadinhos estourando durante a canção interpretada ao vivo em um musical. Falta de noção ou novos hábitos?

O comportamento individual em salas de espetáculo, teatros e cinemas – espaços voltados à experiência coletiva – tornou-se um assunto recorrente. E, para atores, cantores, psicanalistas e gestores culturais, em certa medida, preocupante.

Antônio Fagundes faz, no sábado 18, o primeiro ensaio aberto de Sete Minutos. A peça, que estreia em maio no Teatro Cultura Artística, problematiza a relação entre artistas e plateia. O texto, de sua autoria, foi escrito e encenado pela primeira vez em 2002. Tinha algo de premonitório.

Naquela época, a presença dos celulares em nossas vidas era mais amena. Mas o ator já notava seus efeitos. “Os sete minutos do título se referem ao tempo que um espectador conseguiria manter o foco. Hoje, esse tempo caiu para sete segundos, o necessário para se rolar a tela do celular”, diz ele a CartaCapital.

O que levou Fagundes a escrever a peça foi a mesma constatação que o leva a reencená-la: a percepção de que algumas pessoas estão se perdendo na falta de foco. “O fato de elas irem ao teatro não significa que saiam de lá com alguma coisa. E isso sempre me preocupou”, afirma o ator.

    “Quando a indiferença ou o ruído passam a ser tolerados, eles rapidamente se normalizam”, diz o psicanalista Luiz Nogueira

A peça é uma comédia sobre as agruras de um ator que está apresentando Macbeth­, de Shakespeare, e, ao ter de lidar com o barulho vindo da plateia, decide abandonar o palco, levando o caos aos bastidores.

“Queria dar um toque para essas pessoas sobre as coisas que elas estavam perdendo, das possibilidades de entendimento que estavam deixando para trás. Com isso, esperava que elas saíssem modificadas do teatro”, diz. Duas décadas atrás, a peça foi apresentada para mais de 300 mil pessoas no Brasil e excursionou para Portugal. “A peça é um chamado bem-humorado e carinhoso para que as pessoas percebam o quanto elas estão perdendo da própria vida. Porque a invasão do celular também acontece fora do teatro.”

Ao fim de Sete Minutos será realizado um bate-papo com o público – o ator acredita ser também seu papel contribuir para a formação das plateias. Como é praxe em suas peças, a entrada após o início do espetáculo é proibida. “Temos que respeitar as pessoas que chegaram no horário. O teatro é o último resquício de humanidade que a gente tem, onde existe o contato presencial, e precisamos preservar isso.”

O que o personagem de Fagundes passa, a atriz e cantora Alessandra Maestrini­ viveu na pele. Recentemente, o barulho a levou a interromper uma apresentação do musical Yentl.

Realizado no Sesc Pompeia, em São Paulo, o espetáculo tem músicas delicadas – tiradas do filme homônimo dirigido por Barbra Streisand nos anos 1980 – e, a certa altura, Alessandra precisou pedir que um espectador parasse de comer e amassar o pacote de salgadinhos.

“É uma questão importante de ser discutida porque atrapalha não só o artista, mas o público que sai de casa para ir ao teatro buscando uma experiência de ­religare”, diz a cantora, usando o termo em latim que remete tanto a religião quanto a “unir novamente”.

Barulho. Fagundes reestreia Sete Minutos, peça de 2002 que brinca com a desatenção. Alessandra Maestrini ouviu, do palco, um pacote de salgadinho estourar e Eduardo Moscovis, um espectador falar ao telefone – Imagem: Annelize Tozetto/Festival de Curitiba, Renata Casagrande e Carlo Locatelli

Alessandra Maestrini define o teatro como um templo, um local de conexão, como são as igrejas, as mesquitas e as sinagogas. “Eu não acredito que as pessoas atendam o telefone nesses locais de conexão. No teatro, estou fazendo o público acessar seu momento presente, sua criatividade, que é o que existe de mais humano.”

Os atores Eduardo Moscovis e Mateus Solano também tiveram problemas com o público recentemente. Não se trata apenas do brilho dos smartphones atrapalhando os atores e o público, mas do descumprimento de uma regra básica: a proibição de se filmar o palco e de falar ao telefone durante um espetáculo.

No fim de março, durante a apresentação do monólogo O Motociclista no Globo da Morte, no Teatro Vivo, em São Paulo, Moscovis pediu que um espectador que estava falando ao celular desligasse o telefone ou se retirasse do recinto.

Solano também se sentiu importunado por uma pessoa que o filmava na boca de cena do palco, com o celular próximo de seu rosto, durante apresentação da peça O Figurante, em Santa Rosa, Rio Grande do Sul. Ele afastou o celular com um tapa.

Na semana passada, no Reino Unido, a atriz britânica Lesley Manville afirmou, em entrevista à rede BBC, que filmar ou tirar fotos de atores durante as peças de teatro é um “insulto”.

Segundo ela, as pessoas precisam deixar as redes digitais em seus bolsos mesmo depois dos aplausos da plateia. “Parece que todos querem ter uma foto para provar que estiveram ali. É teatro, vamos preservá-lo”, disse ela, que estrela a montagem de Ligações Perigosas no ­National Theatre, em Londres.

    “Vivemos um colapso de contextos, e isso torna a concentração volátil, diz o pesquisador Diogo Silva, do Sesc

Luciana Gabardo, gerente de Parcerias e Novos Negócios do Theatro Municipal de São Paulo, conta que a equipe já entendeu ser impossível evitar que as pessoas entrem com o celular em uma sala de concerto. Para garantir o conforto de todos, a casa criou protocolos.

“Exibimos um vídeo antes do início do espetáculo avisando o público que é preciso desligar os celulares e que, caso alguém esteja usando o aparelho com insistência, a equipe apontará canetas a laser para as telas”, explica Luciana. “Também é proibida a entrada de alimentos.” Ela diz, porém, que poucas vezes há problemas desse tipo no Municipal.

O portal Infoteatro – criado para divulgar e democratizar as artes cênicas – e que debuta na produção com ­Sete ­Minutos, divulgou na semana passada uma pesquisa realizada com usuários das redes sociais com a pergunta: “O que mais te incomoda quando você vai ao teatro?”

As respostas foram, obviamente, as mais variadas: “A pessoa roendo amendoim”; “Gente que pega o celular para mandar mensagem no Instagram quando a peça está rolando”; “Gente cochichando ao lado, amassando embalagem de bala”; ou “Outro dia tive que pedir para uma pessoa desligar o jogo de futebol que estava mais alto que o ator no palco”.

O problema também existe nos cinemas. A jornalista Marinete Veloso se surpreendeu durante uma sessão no Espaço Petrobras de Cinema, em São Paulo, quando um espectador tirou da mochila uma marmita com carne e mandioca. “As pessoas estão perdendo a noção da diferença entre um lugar público e a sala de sua casa”, afirma ela.

Adhemar Oliveira, dono da rede, diz já ter registrado casos de irritação de público com celulares ou conversas, mas não com comida. “Mesmo porque não posso proibir a entrada de comidas na sala”, explica.

Embora saibamos que o uso de celular no cinema reflete a mudança no modo de vida trazida pela conectividade, Oliveira reflete: “As redes, a comunicação e os vídeos de curta duração em formato vertical levam as pessoas a focar em duas ou três telas ao mesmo tempo. Mas, quando você vai ao cinema, você está se recolhendo, então seria um exercício saudável distanciar-se do celular”.

O dono do cinema nota também que, quando o uso do celular atrapalha a sessão, é comum que os demais espectadores presentes ajudem a coibir a prática. “Mas, se for o caso, vamos trazer de volta o lanterninha”, diz.

Em Londres. Para Lesley Manville, em cartaz no National Theatre com Ligações Perigosas, filmar os atores em cena é um “insulto” – Imagem: Sarah Lee/Teatro Nacional de Londres

Autor do recém-lançado Públicos em Emergência, que trata da democratização cultural nas artes visuais, o assessor sociocultural do Sesc São Paulo Diogo de Moraes­ Silva lembra que, com as redes sociais, passamos a ter a nossa subjetividade e o nosso sistema perceptivo estruturalmente alterados pela lógica do algoritmo e pelo imediatismo no consumo de informações.

“Nesta era da economia da atenção, as pessoas já têm dificuldade de dedicar sua concentração a um único objeto”, diz Silva­. Para o autor, vivemos um colapso de contextos, e isso torna a concentração volátil e implica a subjetividade. “Quando você posta uma imagem e eu, em outro lugar, a consumo, cria-se uma dinâmica que gera, por exemplo, no teatro, um comportamento que se teria em casa.”

O psicanalista Luiz Nogueira aponta um componente psicossocial importante envolvido no hábito relacionado ao uso de celular: como demonstrou o psicólogo social norte-americano Elliot Aronso­n, o comportamento individual ajusta-se às normas percebidas pelo grupo.

“Quando a indiferença ou o ruído passam a ser tolerados, rapidamente se normalizam”, diz Nogueira. “O desrespeito deixa de ser exceção e converte-se em padrão. Não é a emoção que irrompe; é o descaso que se instala.”

Uma pergunta incontornável é o quanto há de elitismo e nostalgia na busca por um certo tipo de plateia. O psicanalista pondera que o incômodo não deriva do desejo por um silêncio absoluto – até porque o teatro sempre foi um lugar vivo e, por vezes, barulhento. O problema, para ele, mora em outro lugar: “Não se trata de exaltação, mas de distração”.

O psicanalista avalia que assistir a um espetáculo implica aceitar que, durante aquele tempo, sua vontade de rolar o dedo pela tela do celular ou de postar instantaneamente sua experiência será subordinada ao direito do outro – seja o artista, seja o público ao lado – de viver aquele momento sem intervenções.

“Esse pacto não é apenas disciplinar, ou seja, ele não se reduz a desligar o celular ou evitar conversas paralelas. Ele funda a própria possibilidade da experiência estética enquanto experiência compartilhada. Quando a plateia rompe esse pacto, não se trata apenas de incômodo. Trata-se de uma crise da experiência comum”, afirma.

Como diz Nogueira, a pergunta, no fim, não é sobre formas de se impor o silêncio, mas sim: ainda desejamos o silêncio como forma de partilha? •

CARTA CAPITAL