August 23, 2026

Díaz-Canel diz que EUA asfixiam Cuba e nega guinada capitalista

 

Homem de cabelos grisalhos, vestido com camisa azul e blazer preto, segura cartão com bandeira e nome de Cuba em ambiente interno com janelas grandes e vista para área verde.

Mônica Bergamo

Havana (Cuba)

Aos 66 anos, o engenheiro Miguel Díaz-Canel comanda Cuba no momento mais crucial de sua história, em que até mesmo a capacidade de sobrevivência da ilha como nação autônoma é considerada sob ameaça.

Sob bloqueio implacável do governo do norte-americano Donald Trump, que desde maio impede a entrada de combustível e insumos no país, os cubanos enfrentam situações extremas em que faltam luz, água, transporte, alimentos e remédios. O lixo, nas ruas, fica por dias sem ser recolhido.

Para tentar contornar o cerco do ataque norte-americano, o parlamento de Cuba aprovou há dois meses um pacote de reformas econômicas apresentado pelo governo com 176 medidas que abrem espaço para o setor privado de forma inédita —e impensável há poucos anos.

Empresários privados estão autorizados a ter mais de dois negócios, com mais de cem empregados, o que possibilita o surgimento de conglomerados. Ações poderão ser negociadas livremente. Companhias estrangeiras poderão explorar a terra por até 99 anos, em sistema de usufruto.

Canel, que desde que assumiu o governo viu o PIB do país encolher 15% depois de sucessivas crises (entre elas, o fim da pareceria energética com a Venezuela e a Covid-19), afirma que as reformas não vão trazer o capitalismo de volta a Cuba.

"O povo não permitiria", disse ele em entrevista exclusiva concedida à Folha na semana passada em Havana.

Nem são concessão direta ao governo Trump. "Os EUA não têm moral para nos pedir nenhuma concessão, nem nós estamos dispostos a fazê-las", afirma.

Na entrevista, o líder da ditadura cubana diz que os EUA promovem um genocídio silencioso no país e tentam, com a escalada das sanções, provocar uma explosão social que leve "à famosa queda da Revolução, que eles tanto desejaram e pela qual tanto esperaram".

Afirma que o governo, no entanto, não vai capitular. "Não temos alternativa senão resistir."

Confrontado com críticas à burocracia, à demora em implantar reformas e às restrições políticas internas, Díaz-Canel admite erros, mas rejeita que sejam a causa central da crise.

Questionado sobre a possibilidade de uma intervenção americana e seu próprio destino diante de uma eventual ação militar, endurece o discurso: "Se chegar a minha hora, chegou. Mas não vai ser com fraqueza e covardia. Vai ser lutando."

 

BLOQUEIO ENERGÉTICO

Organismos internacionais alertam que Cuba pode se transformar, ou já está se transformando, em uma Gaza silenciosa, com um bombardeio sem bombas. Como o senhor define a situação?
É uma avaliação perfeitamente correta. Neste momento, estamos submetidos a uma política de pressão máxima por parte do governo dos Estados Unidos.

Estão impondo a Cuba uma guerra multidimensional: ideológica, cultural, econômica e midiática.

O imperialismo está tentando, por todos os meios, nos asfixiar economicamente para provocar uma explosão social. Ou seja, para que o povo, em consequência do acúmulo de insatisfações e privações, chegue a uma ruptura com o governo cubano, levando à famosa queda da Revolução, que eles tanto desejaram e pela qual tanto esperaram.

É possível que isso aconteça?
Cuba é a nação submetida há mais tempo a um bloqueio econômico, e não de um Estado qualquer, mas da principal potência do mundo, que rege o comércio, as finanças e a economia.

Em seu primeiro mandato [como presidente dos EUA, de 2017 a 2021], o governo Trump impôs mais de 240 medidas que endureceram esse bloqueio.

Eles nos incluíram em uma lista de países que supostamente apoiam o terrorismo, o que é uma falácia. Isso nos excluiu de todo o sistema de relações econômico-financeiras do mundo.

 

No atual mandato [de Trump], o bloqueio foi internacionalizado por meio do mecanismo de sanções secundárias [que pune empresas de qualquer outro país que se relacionarem com Cuba], estabelecendo-se também um bloqueio energético [desde janeiro].

Em sete meses, entrou neste país apenas um navio petroleiro, procedente da Federação Russa, trazendo uma ajuda humanitária de 100 mil toneladas de petróleo bruto. Desde então, não entrou mais combustível, o que agravou a situação e teve impacto na vida das cubanas e dos cubanos.

Quando não há energia, falta luz, falta água, não há transporte. A vida doméstica se complica. O bloqueio paralisa a economia. Ninguém no mundo consegue sobreviver sem energia.

Mas alguma gasolina entra no país, não?
Entra por meio de importações privadas, o que atende a algumas das necessidades dos [negócios] particulares.

A soma de tudo o que os privados importaram nesses sete meses, no entanto, equivale a um navio. E nós precisamos de sete navios de combustível por mês [para suprir o país inteiro].

Construiu-se uma rede de sanções e pressões coercitivas que restringem o funcionamento do país e que estão se transformando em um genocídio.

"Não acredito que serão cúmplices desse genocídio silencioso. Se ele avançar, é porque o mundo está permitindo. Aquilo que pode acontecer hoje com Cuba, e que já aconteceu na Venezuela e em Gaza, poderá acontecer com qualquer nação"

Miguel Díaz-Canel

Presidente de Cuba

Nesses sete meses, não pudemos dispor de 1.400 megawatts porque não havia combustível. Se tivéssemos usado essa capacidade, os apagões tão incômodos e prolongados que ocorrem em Cuba teriam sido reduzidos para aproximadamente três horas por dia.

No entanto, hoje temos apagões de mais de 20, 30, às vezes até de mais de 40 horas. Além disso, sofremos blecautes, quando o sistema desliga-se por completo, e sua recuperação leva dias.

CRIANÇAS MORTAS

Quais são as áreas mais diretamente afetadas?
Ficamos sem a energia necessária para a vida familiar, para os processos produtivos e os serviços, para a saúde, a educação e o transporte.

Neste momento há uma lista de espera de mais de 98 mil pacientes para cirurgias, entre eles 12 mil crianças. Há mais de 117 mil pacientes com câncer, entre eles cerca de 1.200 crianças, que não estão recebendo os tratamentos oncológicos. Há mais de 3 mil pessoas para as quais temos dificuldades em garantir o tratamento de hemodiálise.

Já são mais de 64 mil crianças com seus esquemas de imunização atrasados, o que nunca aconteceu. A mortalidade infantil, que era de quatro a cinco mortes a cada mil nascidos vivos —uma taxa de países desenvolvidos— mais que dobrou. São mortes de crianças. Que poderiam ter sido evitadas porque nós sabemos como evitar.

Nós verificamos que faltam remédios em hospitais.
Por causa da pressão dos EUA sobre as companhias marítimas [ameaçadas de sanções por Trump caso levem mercadorias a Cuba], temos atualmente milhares de contêineres em diferentes portos do mundo que não chegam ao país.

Há neles alimentos, peças de reposição para nosso sistema eletroenergético, sistemas fotovoltaicos, matérias-primas para produzir remédios. Só conseguimos cobrir 30% da lista básica de medicamentos.

A maioria das empresas turísticas que mantinham investimentos em Cuba se retirou: 50% de nossos hotéis estão fechados, e há cerca de 27 mil empregados do setor de turismo afastados do trabalho.

"Se somos tão incapazes, ineptos, ineficientes, por que nos bloqueiam? Não seria melhor deixar que caíssemos por conta própria?"

Miguel Díaz-Canel

Presidente de Cuba

Cuba está à beira de um colapso?
Não, nós não estamos à beira de um colapso.

Estamos em uma situação complexa, mas com uma enorme criatividade, que se soma à heroica capacidade de resistência do povo cubano. Estamos buscando alternativas e há uma luta plena para superar essas adversidades com nossos próprios esforços e talento.

Há apagões, mas nenhum apagou a esperança do povo cubano nem abalou a nossa capacidade.

Sem energia elétrica, todos os dias nossos médicos e enfermeiros chegam aos hospitais para salvar vidas. Sem energia elétrica, nossos professores concluíram o ano letivo e formaram mais de 30 mil estudantes universitários.

O que não posso negar é que se trata de uma situação extremamente complexa, de sofrimento, na qual se vê a perversidade de um governo tão poderoso quanto o dos EUA, que sacrifica o povo cubano na tentativa de submeter uma nação. E essa nação não se rende, esse povo não se rende.

BUROCRACIA

Mas, presidente, nós conversamos com um grande número de pessoas. Há o reconhecimento do endurecimento do bloqueio externo, mas a maioria se referiu especialmente a um bloqueio interno. Há reclamações sobre o governo, que seria o maior responsável por problemas que existem há muitos anos.

Quando as pessoas se referem ao bloqueio interno, estão falando das insatisfações com determinados aspectos da burocracia, com a lentidão de certas ações do governo. E nós temos sido os principais críticos e autocríticos disso.

Mas digo com toda a sinceridade: ainda que tivéssemos feito tudo certo, sem falhas —algo muito difícil em um país que vive há mais de 60 anos em uma situação de praça sitiada—, a principal causa do que vive Cuba hoje é o bloqueio [dos EUA].

Ele é determinante. Sem ele, teríamos combu stível e não teríamos apagões. Haveria alimentos. Produziríamos os medicamentos de que precisamos. O que estão fazendo é realmente um crime.

"Você conseguiria viver com 20 horas de apagão? Está acostumada a isso? Sabe o que é preciso fazer para viver com 20 horas de apagão? E há apagões por culpa do socialismo? Ou há apagões por culpa do imperialismo? De que lado está a razão?"

Miguel Díaz-Canel

Presidente de Cuba

Há uma visão também de que a discussão sobre se Cuba é ou não socialista está superada. E que se trata de saber hoje, na verdade, se ela seguirá existindo como país, como nação independente.

O que se tenta salvar é a nação, o país, a independência e a soberania. Nas condições de Cuba, isso está totalmente relacionado à construção socialista.

Se fôssemos capitalistas, estaríamos como nos anos 1950, em que todas as nossas riquezas e possibilidades estavam nas mãos de monopólios americanos. Era uma dependência total.

Em séculos de existência, o capitalismo demonstrou não ter solução para os problemas. A desigualdade cresce a cada ano no mundo.

O socialismo, em Cuba, esteve bloqueado desde que surgiu. Portanto, é muito cínico questionar um sistema quando você não permite que ele se desenvolva plenamente.

Se somos tão incapazes, por que nos bloqueiam? Se somos tão ineptos, tão ineficientes, por que nos bloqueiam? Não seria melhor deixar que caíssemos por conta própria?

Eles sabem que Cuba, mesmo bloqueada, conseguiu solucionar problemas de justiça social que não estão resolvidos nos EUA.

 

O CAPITALISMO SALVARÁ O SOCIALISMO?

Mas, presidente, ainda podemos dizer que Cuba é socialista?

Ninguém concluiu ainda a construção do socialismo, e cada país tem suas particularidades.

É um processo que pressupõe transformações de deformações estruturais que, no caso de Cuba, são resultado de séculos de dominação colonial espanhola e de décadas de dominação neocolonial norte-americana.

Houve uma revolução vitoriosa em 1959 que devolveu a dignidade a esse país, transformou e permitiu que ele avançasse. E, por causa do exemplo que representa, e da visão hegemônica, arrogante e criminosa do governo dos EUA, essa política [de bloqueio] foi imposta a Cuba.

Não é mais justo e possível alcançar resultados quando a saúde e a educação são gratuitas, quando tudo é compartilhado por todos e as riquezas são distribuídas? Mas, se você me cerca e não me deixa criar riqueza, como vamos distribuí-la?

É verdade que existe um bloqueio em Cuba para que o socialismo não se realize, mas...
[interrompendo] Se você não vive em Cuba, não pode entender o que é o bloqueio.

Mas eu posso...
[interrompendo novamente] Não entende o que é o bloqueio. Não entende as limitações provocadas pelo bloqueio. Você conseguiria viver com 20 horas de apagão? Está acostumada a isso? Sabe o que é preciso fazer para viver com 20 horas de apagão?

E há apagões por culpa do socialismo? Ou há apagões por culpa do imperialismo? De que lado está a razão, Mônica?

Não estou falando de razão. Estou perguntando: vocês estão enfrentando a situação com reformas capitalistas. Ou seja, é preciso promover o capitalismo para salvar o socialismo? Porque em Cuba hoje há propriedade privada, patrões e empregados, diferenças sociais gritantes. Ainda há socialismo em Cuba?
Estamos em um processo de construção socialista.

Mesmo com reformas capitalistas?
Não há reformas capitalistas.

Deixe-me explicar: o socialismo defende justiça social, e nós seguimos defendendo justiça social. O socialismo defende soberania e independência, e isso defendemos como ninguém.

Nos anos 1960 e 1970, vivíamos em uma bolha. Recebíamos 13 milhões de toneladas de combustível da União Soviética. Pudemos desenvolver toda uma infraestrutura industrial e produtiva, e realizamos programas sociais de grande envergadura.

"Há apagões, mas nenhum apagou a nossa esperança e capacidade. Sem energia elétrica, todos os dias nossos médicos e enfermeiros chegam aos hospitais para salvar vidas"

Miguel Díaz-Canel

Presidente de Cuba

Quando cai o paradigma do socialismo [nos anos 1990], cai a União Soviética, cai o Leste Europeu, [há uma queda de] mais de 80% do nosso comércio exterior.

Foi preciso introduzir reformas. Fidel disse: "É preciso fazer concessões para manter a revolução e o socialismo". Foi aí, nesse momento, que começou a desigualdade social.

Naquele momento Fidel começa uma abertura.

Tivemos que abrir lojas em divisas. Nos abrimos ao investimento estrangeiro. Um grupo de pessoas passou a se diferenciar não pelo que contribuía para a sociedade, que é um princípio socialista, mas pelo que recebia de remessas [de familiares] dos EUA.

Tudo isso provocou um nível de diferenças sociais indesejado, e que não conseguimos conter.

Agora, eu lhe garanto que em Cuba há menos diferença social do que em um país capitalista.

No capitalismo, é cada um por si. Aqui, as pessoas que têm menos renda são amparadas por mais de 32 programas sociais apoiados pelo orçamento do Estado.

Mas, para ter justiça social, é preciso produzir riqueza para ser distribuída com critérios de equidade.

 

E o senhor acredita que essa riqueza se produz com mais facilidade em uma economia de mercado?
Como se mantém um princípio de construção socialista quando se está bloqueado pela principal potência do mundo? Que agora nos cortou até a energia? O que fazer? O que fazer?

Temos um setor privado com o qual se pode romper parte desse bloqueio.

Essas transformações [as medidas econômicas recém-anunciadas] buscam também dar maior autonomia à empresa estatal socialista.

Quem fortalece a empresa estatal não está renunciando ao socialismo. Apenas está reconhecendo que pode haver um sistema que tem como principal ator o Estado, mas que se inter-relaciona com o restante dos atores. Que flexibiliza o investimento estrangeiro e que está pedindo que os cubanos residentes no exterior possam investir em Cuba.

Para que? Para que haja mais produção e benefícios para a população. Isso não é, de forma alguma, capitalismo.Os principais meios de produção seguem nas mãos do Estado, como representante do povo.

Dificilmente há retorno depois que o capitalismo se consolida. Por que em Cuba seria diferente?
Porque aqui há um Partido Comunista que representa o povo, que controla e aplica essa reforma. Há unidade da maioria do povo em torno desse partido. E há participação popular.

Esses 3 elementos são a garantia de que não haverá um processo de restauração capitalista. O povo não permitiria porque sabe o que a revolução significou em matéria de benefícios.

DIÁLOGO COM OS EUA

Os EUA estão se impondo a Cuba pela força de uma forma dramática. Por quanto tempo o país pode resistir sem um acordo?
Não temos alternativa senão resistir. Temos que resistir.

Mas vocês estão buscando um acordo?
Fidel sempre defendeu esse diálogo. Chegamos a ter uma relação mais avançada com [o ex-presidente dos EUA] Barack Obama. Mas isso não significa negociar, nem se subordinar aos interesses do imperialismo.

Não pode haver diálogo sob opressão. É preciso buscar um canal de diálogo sem condições prévias.

Como está esse canal?
Está estancado. Há um desejo de dialogar e há funcionários do nosso governo que conversaram com o governo dos Estados Unidos. Mas ainda não foi possível avançar. Não há uma agenda.

Agora mesmo o secretário de Estado [Marco Rubio] disse que vai cortar todas as formas de escape que Cuba pode encontrar. Vazam informações para a imprensa de que haverá operações da CIA contra Cuba.

Há uma leitura de que as medidas econômicas recentemente anunciadas já são, na verdade, concessões aos EUA.
Os EUA não têm moral para nos pedir nenhuma concessão, nem nós estamos dispostos a fazê-las.

As 176 medidas econômicas anunciadas são resultado de um debate de aperfeiçoamento que ocorre há mais de dez anos.

Não houve demora? Elas agora estão sendo implantadas em um momento terrível.
São processos complexos. Agora há mais urgência pela situação em que estamos.

Se os EUA seguirem pressionando, a situação pode se prolongar indefinidamente.
Pode se prolongar indefinidamente. É o que vem ocorrendo há mais de 60 anos.

Mas não assim, de forma tão crítica.
O Período Especial [nos anos 1990] foi muito crítico. O bloco socialista desmoronou e os EUA apostaram tudo na queda da Revolução.

Além disso, eu não acredito que o mundo vá assistir passivamente a esse genocídio.

O mundo tomou consciência do genocídio em Gaza e chegou tarde com sua solidariedade. Não conseguiu impedir que 70 mil palestinos, 60% deles mulheres e crianças, fossem assassinados pelo conluio entre Israel e EUA.

Não acredito que serão cúmplices desse genocídio silencioso em Cuba. Se ele avançar, é porque o mundo está permitindo.

Aquilo que pode acontecer hoje com Cuba, e que já aconteceu na Venezuela e em Gaza, poderá acontecer com qualquer nação se permitirmos que o mundo se renda aos desígnios dessa administração [dos EUA].

O fascismo está ressurgindo e sabemos as consequências. Sabemos o que é o Holocausto. O mundo vai se submeter a isso?

Por que não haveria o risco de acontecer em Cuba o mesmo que na Venezuela, que hoje tem uma presidente, Delcy Rodrigues, que obedece aos EUA?
Eu não gosto de comparações, muito menos com a Venezuela, uma nação e sobretudo um povo com o qual temos relações históricas.

O que pode impedir que algo assim aconteça em Cuba tem a ver com a nossa história, com a forma como nosso povo está unido em torno da Revolução.

Tem a ver com a decisão da maioria de nós, revolucionários, de dar a vida pela Revolução. Portanto, aqui não haverá surpresa.

RESISTÊNCIA OU MORTE

O senhor acredita mesmo que o povo quer dar a vida pela Revolução? Um povo que está precisando de água... Será, presidente?
A maioria desse povo está disposta a dar a vida pela Revolução e já demonstrou isso em outras ocasiões.

Se 32 combatentes cubanos [que faziam a segurança de Nicolás Maduro] deram a vida na Venezuela [ao serem mortos pelos EUA no dia do sequestro do venezuelano], o que milhões não fariam para defender a Revolução? Os que morreram eram de outra galáxia? Ou eram expoentes desse sentimento do povo cubano?

O senhor acredita em uma invasão dos EUA a Cuba, ou na captura de Raúl Castro?
Dessa administração dos EUA podemos esperar qualquer coisa.

Somos um país de paz. Mas há uma retórica constante de ameaças por parte dos EUA. O povo está se preparando para a defesa.

Mas como, presidente, se nem sequer há gasolina no país?
Temos nossos segredos, que não vamos revelar.

Todas as semanas há um Dia Nacional da Defesa. As estruturas estão ativadas. Temos uma concepção que é a Guerra de Todo o Povo.

"Se chegar a minha hora, chegou. Mas não vai ser com fraqueza e covardia. Vai ser lutando"

Miguel Díaz-Canel

Presidente de Cuba

É uma estratégia defensiva que nos permite agir com conceitos de guerra de guerrilha, de guerra irregular, [que vêm] da tradição histórica da nossa Independência e da guerra de guerrilha na Sierra Maestra [na Revolução de 1959].

Conhecemos as tendências da arte militar contemporânea, estudamos as guerras e as últimas invasões. Estudamos as capacidades do Exército norte-americano. Também temos nossa capacidade e nossa dignidade.

Por que prender pessoas que protestam?
Em que lugar do mundo não há insatisfações? A diferença é que aqui as pessoas fazem reivindicações diante das instituições do Estado e do partido. Confiam nelas. São atendidas, e não reprimidas.

Os EUA destinam parte de seu orçamento para ações subversivas em Cuba, que se aproveitam dos problemas aos quais nossa sociedade foi levada por causa do bloqueio.

Pagam pessoas para transformar reivindicações em atos de vandalismo, em assaltos a mercados e ataques à propriedade estatal.

Atenta-se contra a segurança cidadã. Como ocorre em qualquer país, aplica-se a lei.


O senhor nunca sentiu medo pessoal quando, por exemplo, capturaram Maduro na Venezuela e o levaram preso para os EUA?
Na medida em que participamos da revolução e conhecemos a sua história, tomamos a decisão de dar a vida pela causa. Vamos ter medo de que? É uma decisão já tomada.

Se chegar a minha hora, chegou. Mas não vai ser com fraqueza e covardia. Vai ser lutando.

Quando uma pessoa tem essa atitude diante da vida —e minha esposa também tem—, nada temos a temer.

No tempo que nos resta, vamos nos entregar de corpo e alma a este povo e a esta revolução.

Fidel nos ensinou que os reveses se transformam em vitória e que nenhum inimigo, por mais poderoso que seja, é invencível. Sabemos que vai ser duro. Sim, está sendo duro. Mas, veja: aqui estamos, em pé, lutando, sem nos render.

FOLHA  

 


August 21, 2026

Odysseus Wasn’t Real. But He Had Real Worshipers in Ancient Ithaca.

 

 

 The ruins of a 2,400-year-old complex suggest that, to the Greeks of antiquity, Homer’s protagonist was not just a character in a poem but a figure of genuine devotion.

 

 For nearly 3,000 years, Homer’s “The Odyssey” has reigned as literature’s ultimate road trip. It’s a sweeping tale of a displaced king who fights wrathful gods and sea monsters to reclaim his throne on the Ionian island of Ithaca. It has at least 60 translations into English alone and more than three dozen film interpretations, including Christopher Nolan’s blockbuster version, which hits theaters worldwide on Friday.

Was the crafty monarch who dreamed up the Trojan Horse a flesh-and-blood ruler or just a figment of Homer’s imagination? Modern scholars generally view the epic poem as folklore. But in recent years, archaeologists working in Ithaca have found evidence that the ancients viewed the story quite differently. High on a rocky ridge, they have uncovered what might be antiquity’s most devoted fan club: the ruins of a sprawling, 2,400-year-old sanctuary with details suggesting that King Odysseus was a figure of local worship.

The partially standing complex is carved directly into the terraces of Mount Exogi and has long been known locally as the School of Homer. Archaeologists have poked into the site for more than a century but largely dismissed any relation to “The Odyssey.” An 1878 excavation at the outcrop found little to match the vivid descriptions in Homer’s text.

Since 2018, however, Giannos G. Lolos, an archaeologist at the University of Ioannina, in Greece, has led excavations at the site, building on systematic digs that were conducted there from 1994 to 2011. In a statement last summer, the Greek Ministry of Culture described major discoveries from the site, including a grand ceremonial hall, what may have been a strategic watchtower and an intact cistern built in the Mycenaean style.

ImageA large stone ruin on the top of a hill.
The Hellenistic tower on the Upper Terrace of the Odysseion in Ithaca.Credit...Christina Marabea

Locals have long wondered if the ruins were the foundations of Odysseus’ Mycenaean palace. But Dr. Lolos noted that his team had found nothing to indicate that the surviving parts of the complex dated as far back as 1200 B.C., when Odysseus’ travels would have taken place. Nonetheless, the ruins bridge the gap between ancient poetry and historical reality. To the Greeks of antiquity, Odysseus was real enough to command deep, abiding reverence.

“What these new pieces help us understand isn’t the Bronze or Iron Age era of Homer,” said Rachel Kousser, an archaeologist and art historian at the City University of New York who was not involved with the project. “Instead, it is the way that the Hellenistic Greeks created an imagined Homeric past.”

The School of Homer, which archaeologists refer to as the Odysseion, dates to about the third century B.C., roughly 500 years after Homer composed his epics, and a full millennium after the hero supposedly began his disastrous commute home from the war.

Deep in the soil of the Odysseion, Dr. Lolos and his colleagues discovered a remarkable trove of polished black cups, jewelry and private prayer vessels. But the true treasure lay in thousands of shattered pottery fragments. Among them were roof tiles etched with Latin and classical Greek, suggesting this remote site was a surprisingly cosmopolitan hub.

A view down a stone passage leading underground.A tiny bust of Odysseus on a white surface placed next to a scale bar.
The interior of the built underground spring chamber; a small bronze bust of Odysseus recovered from the Odysseion.Credit...Christina Marabea

The team found more than 100 bronze and silver coins minted in city-states across the Hellenistic and Roman worlds. “It points to a constant flow of sailors, merchants and pilgrims, even from far distant places, to the Odysseion of Ithaca,” said Christina Marabea, an archaeologist at Hellenic Open University in Patras, Greece, and a researcher on the site. In 2022, Dr. Marabea collaborated with Dr. Lolos and other scholars on a paper titled “Emerging Evidence for Neolithic Ithaca” that was published in the Journal of Neolithic Archaeology.

On three separate tiles, the name Odysseus was stamped or inscribed into the clay. One translates to “of Odysseus,” implying that the mythical hero owned the grounds. Another reads “to Odysseus” — a direct gift to the king himself.

These rites were not reserved solely for the wayfaring hero. Across the excavation site, archaeologists found dozens of spindle whorls and pear-shaped loom weights — the everyday tools of a time-honored craft. To Dr. Marabea, their presence strongly suggests that women played a leading role in the rituals. She believes that these female worshipers may have been venerating the clever king’s equally resourceful wife, Penelope, who famously used her loom to keep suitors at bay.

A close-up view of a fragment of red roof tile with some faint Greek letters stamped into it, resting on a white surface next to a scale bar.
One of the fragments of stamped roof tile bearing part of the name of Odysseus.Credit...Christina Marabea

Although Homer’s tale was not inspired by a real Odysseus, historians say, it did immortalize a vanished era of gritty Bronze Age chieftains who raided overseas, ruled enormous stone citadels and controlled wide trade networks from 1700 to 1050 B.C. And the myth of Odysseus helped inspire a powerful religious phenomenon known as the hero-cult. By the eighth century B.C., these regional sects had grown so dominant that when the Athenian lawgiver Draco drew up the city’s first legal code, he didn’t just mandate punishments for mortals — he legally required citizens to honor local heroes alongside the Olympian gods.

“The kings lived in palaces across the region and were buried in grand beehive-shaped tombs with splendid armor,” said Daisy Dunn, a classicist and the author of “The Missing Thread: A Women’s History of the Ancient World.” Homer describes Odysseus as wearing a boar-tusk helmet; archaeologists have indeed found splinters of boar ivory in some graves.

Nearly as much debate surrounds the author of “The Odyssey.” Seven Mediterranean cities have fought for the bragging rights to Homer’s birth, a bitter rivalry captured by the 16th-century playwright Thomas Heywood: “Seven wealthy towns contend for Homer dead / Through which the living Homer begged his bread.” Other scholars argue that “The Iliad” and “The Odyssey” are simply too far apart in style, tone and worldview to have ever burst from a single mind.

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A black-and-white etching after a bust of Homer. In line with the style, his eyes have no irises or pupils.
An etching of an eighth-century B.C. bust of Homer.Credit...Hulton Archive/Getty Images

Today, mainstream academic opinion lands squarely in the middle: There was not one Homer but a long line of them. The masterworks we read today were not cooked up by a solitary genius. Rather, around the eighth century B.C., just as Greece was tweaking the Phoenician alphabet to build its own writing system, the texts were stitched together from a vast collective memory.

In this telling, the tales are centuries-old anthologies. They were shaped by so-called rhapsodes, roving oral entertainers who plucked sagas from the mists of time, constantly reinventing them to keep their own audiences hooked.

But not everyone agrees.

“I feel no shame in saying I believe there was one Homer, even if that wasn’t his actual name,” Dr. Dunn said. “‘The Iliad’ and ‘The Odyssey’ are just so well-structured, so well-paced, that it feels like one person has really thought through their development.” She envisions Homer not as a passive relic, but as an active architect of the written word, a master editor racing to capture a fleeting world before it slipped into silence.

After 20 years of brutal warfare and aimless drifting, King Odysseus finally made it home to Ithaca. Or did he?

Even ancient historians had their doubts. In the third century B.C., the geographer Eratosthenes urged readers not to take “The Odyssey” too literally. “You will find the scene of the wanderings of Odysseus when you find the cobbler who sewed up the bag of the winds,” he wrote wryly.

For generations, the map has refused to fit the myth. In “The Odyssey,” Ithaca is described as a low-lying sanctuary sitting farthest to the west, where the sun sets into the gloom. Yet the modern Greek island bearing that name is decidedly mountainous, and it sits stubbornly to the east of its neighbor, Cephalonia.

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A wide view of a Greek countryside leading into a bay or inlet with bright blue waters with sloping, slightly rocky mountains on either side.
Paliki Peninsula on the island of Cephalonia, where recent scholars suggest Odysseus lived.Credit...Mick Rock/Cephas Picture Library Ltd., via Alamy

A long-running theory proposes that a Bronze Age channel once separated the Paliki peninsula from Cephalonia, making it a distinct island, a notion supported by researchers for decades. But 20 years of geological research yielded no evidence for this channel, prompting a reinterpretation by scholars. In an article published July 5 in the online journal Antigone, James Diggle, a classicist, and John Underhill, a geologist — and authors, with Robert Bittlestone, of “Odysseus Unbound: The Search for Homer’s Ithaca” — propose that early translators and mapmakers misunderstood the poet. A strict, literal reading of the original Greek text, they note, never identifies Ithaca as an island but rather in terms more suggestive of a peninsula.

But the recent findings at the Odysseion may point the dispute back toward tradition. According to Dr. Lolos, the excavations strongly validate modern Ithaca as Homer’s true Ithaca. He contends that the description “lying low and far to the west” was born of poetic perspective, not literal cartography. Seen from the sea, Ithaca’s dramatic coastline mirrors Homeric vistas.

Dr. Lolos said the strongest proof of the island’s mythic past are the artifacts retrieved from its soil. For instance, a fragment of a late Hellenistic clay prayer mask, scratched with a blunt vow to Odysseus. Or a small bronze bust, found in 1904, that echoes the hero’s signature capped silhouette from antique Ithacan coins. Or a late third century B.C. decree that was recorded and preserved on stone walls in Magnesia (what is now western Turkey): It was issued by the people of Ithaca and explicitly names the Odysseia, an athletics and cultural festival held to celebrate the king.

These objects do more than reshape archaeological timelines; they tie literature to landscape. For those who lived there, Dr. Lolos notes, modern Ithaca was indisputably home. Myth, it turns out, may just be history waiting to be dug up.

THE NEW YORK TIMES 

 

 

 

 

 

August 18, 2026

Glória Menezes, atriz que mudou a interpretação televisiva

 



São Paulo

Morreu, nesta terça-feira (18), Glória Menezes, aos 91 anos, uma das grandes atrizes do Brasil, que marcou os palcos, o cinema e a televisão brasileira em mais de 60 anos de carreira. Ela morreu em sua casa, no Rio de Janeiro, de forma tranquila, segundo a família. A cerimônia de despedida será reservada para a família.

Figura fundadora da teledramaturgia brasileira e nome determinante na modernização da interpretação audiovisual no país, não foi apenas com mocinhas e vilãs de 40 títulos televisivos que a artista montou a extensa galeria de personagens que fez dela um dos rostos mais conhecidos do país.

Marcada pela introdução do naturalismo psicológico na TV aberta, ao lado do marido, o ator Tarcísio Meira, fez uma aliança artística e afetiva que virou patrimônio nacional.

Mulher com cabelo castanho volumoso penteado para o lado, maquiagem escura nos olhos e batom brilhante. Ela usa um lenço azul claro e uma flor azul grande presa ao cabelo.
A atriz Glória Menezes - Reprodução

A televisão foi um porto mais frquente. Mas houve também, em sua trajetória, dedicações pontuais ao teatro e pelo menos um grande papel no cinema, a sofrida Rosa, do filme "O Pagador de Promessas", de 1962, de Anselmo Duarte.

Nascida na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 19 de outubro de 1934, Nilcedes Soares Guimarães —batizada com um prenome derivado da junção dos nomes dos pais, José Nilo e Mercedes— dedicou sua juventude a estudar piano. Mudou-se aos seis anos com a família para a capital paulista.

Foi nesse polo urbano em expansão que construiu sua vocação e buscou uma fundamentação acadêmica rigorosa. Matriculou-se na Escola de Arte Dramática, mas abandonou o curso um ano antes de concluí-lo, em 1959. Lá, foi uma das fundadoras do grupo Jovens Independentes, com quem montou seus primeiros espetáculos.

Sua transição para o circuito profissional ocorreu também em 1959, sob a direção de Antunes Filho, na peça "Devoção à Cruz", que lhe rendeu o prêmio de atriz revelação.

Iniciou sua carreira fazendo teleteatro na TV Tupi e, em 1959 ainda, atuou em "Um Lugar ao Sol", sua primeira participação em novela, na TV Excelsior

Um ano depois, já com o nome artístico Glória Menezes, estreou em uma montagem assinada por Antunes Filho, um dos diretores mais importantes do país, para a peça "As Feiticeiras de Salém", de Arthur Miller, no Teatro Maria Della Costa. Glória conquistou o prestigiado Prêmio APCA ao viver a densa e controversa Abigail Williams.

Mas foi com "O Pagador de Promessas", peça de Dias Gomes filmada por Anselmo Duarte, que ela de fato se tornou atriz célebre, pronta para deslanchar. O longa, que trazia Leonardo Villar no papel central, venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes e foi indicado como melhor filme estrangeiro ao Oscar.

Na pele da sertaneja Rosa, mulher de Zé do Burro, vivido por Leonardo Villar, Glória entregou um trabalho de extrema contenção, amadurecimento e densidade interiorana.

Não demorou para que, em 1963, Menezes ganhasse papel central em uma novela, em "2-5499 Ocupado", de Dulce Santucci, a primeira telenovela de exibição diária do país, que rendeu a Glória o Troféu Imprensa de melhor atriz em 1964.

Glória Menezes e Tarcísio Meira na novela 'Espelho Mágico' - Acervo Globo/Divulgação

Interpretava uma presidiária, par romântico com Tarcísio Meira, de quem se tornou mulher em 1963. Eles haviam se conhecido dois anos antes, nos bastidores do teleteatro da TV Tupi, durante a produção de "Uma Pires Camargo".

Foram cerca de seis décadas juntos —o ator morreria em 2021, aos 85 anos, vítima da Covid-19. Na época, ela também foi internada por complicações da doença.

Juntos, eles tiveram um filho em 1964, Tarcísio Filho, que também se tornou ator. Tarcísio foi o único filho de Meira e também o terceiro de Menezes. Ela é mãe de Maria Amélia e João Paulo, nascidos em um casamento anterior. ..

Glória e Tarcísio conquistaram o público como casal modelo e eternos parceiros de cena em novelas da Globo. Contratada pela emissora em 1967, estrearam na emissora com "Sangue e Areia", iniciando uma era de prestígio e consolidação da telenovela como o produto dramático mais relevante do Brasil.

A grande contribuição da atriz esteve na ruptura com os maneirismos empolados herdados do rádio e das primeiras fases da TV. Apoiada em sua bagagem teórica, introduziu uma atuação orientada pela economia de gestos, pela modulação de voz e pela exploração do "close-up". Os silêncios e a mirada concentrada tornaram-se referências de sofisticação para as gerações seguintes.

Esse domínio técnico ficou plenamente demonstrado em 1970, no clássico "Irmãos Coragem", de 1970, de Janete Clair, com direção de Daniel Filho. Na novela, um dos maiores sucessos de audiência da TV Globo, Glória Menezes assumiu o papel da jovem que tinha três personalidades diferentes —transitando com precisão milimétrica entre a tímida Lara, a rebelde Diana e a lúcida Márcia.

Demonstrou, enfim, flexibilidade para transitar do drama solene à comédia ácida e ao deboche urbano. Glória e Tarcísio também estiveram lado a lado em "Rosa Rebelde", de 1969, "Espelho Mágico", de 1977, "Guerra dos Sexos", de 1983, a série "Tarcísio & Glória", de 1988, "Páginas da Vida", de 2006, e "A Favorita", de 2008, entre outras novelas. Em 1984, ela também estrelou um sucesso de Gilberto Braga, a novela "Corpo a Corpo". 

Passaram a contracenar juntos não só na TV, mas também no teatro. Em 1976, por exemplo, subiram ao palco com a comédia "Tudo Bem no Ano Que Vem", de Bernard Slade, direção de Flávio Rangel.

Em dois momentos de destaque na carreira de Glória, Tarcísio não estava no mesmo elenco. Em "Brega & Chique", de 1987, de Cassiano Gabus Mendes, a atriz fez uma dona de casa pobre que ganhava uma herança milionária.

E em "Rainha da Sucata", de 1990, de Silvio de Abreu, fez a decadente aristocrata Laurinha Figueroa, um dos pontos altos de sua galeria dramática. O desfecho trágico da vilã, arremessando-se do topo do edifício Cetenco Plaza, na avenida Paulista, para incriminar a rival, cristalizou-se como uma das sequências mais célebres da teledramaturgia nacional.

A solidez de sua presença continuou a brilhar em sucessos posteriores como "Deus Nos Acuda", de 1992, "A Próxima Vítima", de 1995, "Torre de Babel", de 1998, e "Senhora do Destino", de 2004.

A atriz também valorizou em sua trajetória o tipo de personagem que exige do intérprete alguma transformação física. Em dois de seus trabalhos, teve de raspar a cabeça: na novela "Jóia Rara", encarnou uma monja tibetana; e na peça "Jornada de um Poema", de 2000, com direção de Diogo Vilela, interpretou uma professora que desenvolve um câncer e fala no palco sobre a doença.

FOLHA