April 28, 2026

EUA e China: uma disputa palmo a palmo na América Latina

 

 

Guerra comercial e competição por influência na região aumentam a tensão política entre as superpotências


 
 Das minas da Nicarágua aos portos do Peru e telescópios na Argentina. Do petróleo da Venezuela ao Canal do Panamá e minérios em Goiás. De Norte a Sul, a América Latina se transforma em palco da disputa entre os interesses chineses e americanos.

Um ano depois de Donald Trump iniciar uma guerra comercial e declarar abertamente sua intenção de militarizar o hemisfério, a China se organiza para defender seus ativos e investimentos na região. O resultado tem sido uma crescente tensão política entre governos locais e as duas superpotências.

Em seu plano de segurança, Trump deixou claro que quer o controle da América Latina e que não irá tolerar a presença chinesa em locais considerados como estratégicos. A Casa Branca sabe como empresas chinesas construíram, possuem ou operam grande parte da infraestrutura critica da região. A disputa por recursos naturais e influência passou a ser um fator constante nas capitais da região.

Mas, em dezembro de 2025 e poucos dias depois de Trump consolidar num documento sua Doutrina Donroe de reocupação do espaço latino-americano, a China divulgou o que chamou de seu novo “Livro Branco” sobre seu relacionamento com a América Latina.

Ainda que não cite nominalmente os EUA, o plano de Pequim criticou a “intimidação unilateral” e destacou a “gloriosa tradição de independência” da América Latina. Para completar, afirmou que apoia a estratégia da região de manter seu status de “zona de paz”, uma alusão ao militarismo de Trump no continente. O recado, portanto, estava dado.

Voos espaciais

De um lado, a estratégia chinesa foi a de capitalizar o enorme descontentamento de certos setores e governos latino-americanos diante das tarifas de Trump e, assim, atrair esses países ainda mais para a sua esfera de influência. Não por acaso, o plano apresenta a China como a defensora de um “ambiente internacional aberto e cooperativo”, opondo-se à ‘intimidação”, em mais uma referência aos EUA.

Alguns dos projetos chineses acenderam o alerta na Casa Branca. O texto defende a ideia da redução do peso do dólar no comércio da região e fala numa aproximação em áreas estratégicas, como transferência de tecnologia e intercâmbios de cientistas, bem como inteligência artificial e cooperação espacial.

Uma das apostas é a introdução do sistema de satélites BeiDou, concorrente do Sistema de Posicionamento Global, ou GPS. Se não bastasse, a China se comprometeu a incluir um latino-americano nos programas espaciais tripulados de Pequim.

Na Argentina, porém, a Casa Branca convenceu Javier Milei a abandonar a concessão de uma área do país para que a China construísse um novo telescópio espacial.

Mas a China também deixou claro que, depois de décadas de aproximação e acordos com os latino-americanos, não aceitará simplesmente deixar a região.

No documento, portanto, Pequim rejeita o que chama de “ciber-hegemonia”. Ou seja, a manobra dos EUA para excluir empresas e componentes chineses da infraestrutura digital da América Latina.

Um alerta claro da ameaça que seus interesses sofrem foi a audaciosa operação de Trump para sequestrar Nicolas Maduro, em janeiro deste ano, e romper os acordos de abastecimento a preços baixos de petróleo da Venezuela para a China. A partir de agora, Pequim terá de pagar um preço de mercado pelo combustível venezuelano. E, claro, passando pela administração dos EUA.

Menos de dois meses depois de publicar seu “guia” de atuação na região, a China passou a implementá-lo e não demorou para que, de ambos os lados, as disputas fossem iniciadas.

Um dos focos da tensão passou a ser o Panamá. Pressionado pelos EUA, o governo local provocou o Judiciário a anular os contratos que existiam entre uma empresa chinesa e o Canal do Panamá, em janeiro de 2026.

As autoridades em Pequim, imediatamente, iniciaram um processo para retaliar o governo local. Um procèsso de arbitragem internacional foi iniciado, com Pequim solicitando uma indenização de US$ 2 bilhões.

Os projetos de empresas chinesas com o Panamá foram suspensos e companhias de transporte marítimo passaram a redirecionar suas cargas por outros portos. Na China, tudo o que vinha do Panamá passou a ser alvo de uma inspeção reforçada. Um mês depois, o Panamá tomou o controle dos portos administrados por empresas chinesas e expulsou os funcionários contratados por Pequim.

No Peru, o porto de Chancay – operado pela China – também se transformou em foco da crise. Uma decisão da Justiça impediu a ingerência por parte de autoridades locais no porto, o que gerou protestos dos EUA e denúncias em Washington de que a China estaria violando a soberania peruana. Além disso, a recente queda do presidente do Peru, José Jerí, ainda ocorreu por conta de uma relação entre seu governo e um empresário chinês.

Xi Jinping discursando em evento diplomático com países latino-americanos. A cena ilustra a estratégia da China de ampliar sua influência política e econômica na América Latina.
Xi Jinping na abertura do IV Fórum CELAC-China, em maio de 2025 (Foto: Ricardo Stuckert/Pr)

Reserva de mercado

A disputa entre EUA e China também abalou a política no Chile. No começo do ano, a decisão do então governo de Gabriel Boric de fechar um acordo para a construção de um cabo submarino de fibra óptica para conectar seu país aos territórios chineses levou o governo Trump a impor sanções contra ministros e outros funcionários de Santiago.

Segundo Washington, o acordo poderia abalar a “segurança regional”. Sob Boric, a China ainda assinou acordos para financiar a construção de hospitais e ferrovias.

A ingerência americana passou a ser um fator constante, sempre que algum governo da região anuncia um acordo com os chineses.

Nas Bahamas, a decisão do governo local de pegar um empréstimo milionário da China para a construção de um hospital foi o estopim de um protesto da Cada Branca. A diplomacia americana passou a pressionar as autoridades caribenhas a buscar outras fontes de financiamento.

Poucos aspectos são tão sensíveis nessa disputa entre as superpotências na região como a mineração. O governo Trump se apressou por montar uma espécie de pacto para garantir uma reserva de mercado de minerais críticos na região, com a participação de Equador, México, Paraguai e Peru.

No Brasil, o governo de Goiás, numa medida que passou a ser questionada internamente pelo governo Lula, também assinou um acordo com os EUA no setor de minerais críticos. Já na Argentina, o governo de Javier Milei se comprometeu a dar prioridade às vendas de seu cobre, lítio e outros minerais críticos em detrimento de “economias ou empresas que manipulam o mercado”, em referência à China.

Como resposta, Pequim fortaleceu sua ofensiva para garantir novas áreas de concessão de mineração, como no caso da Nicarágua, e se lançou em disputas por contratos em várias partes do continente.

Observadores na China destacam que, poucas vezes nas últimas décadas, a América Latina ocupou uma posição tão central na disputa entre duas nações em busca da hegemonia. Resta saber, para diplomatas, qual será o limite da guerra pelos recursos naturais da região e como os governos locais irão reagir para tirar proveito dessa disputa.

 

LIBERTA 

 

Flávio Bolsonaro dançou

 

 

 

Reflexões sobre a capitalização e a descapitalização política do “macho limítrofe”


 

Flávio Bolsonaro protagonizou uma cena que o aproximou mais do aloprado presidente argentino Javier Milei do que dos eleitores do seu pai, eleitores que ele, sem dificuldades, herdará se mantiver a compostura do homem que chegou ao mais alto cargo da nação mais por sua falta de qualidades do que por seus méritos, considerando os afetos que mobilizou, a saber, pânico e ódio numa combinação de sucesso político ímpar na história do Brasil.

Esse é o DNA de Bolsonaro, no qual a família deveria insistir para voltar ao poder. De fato, é possível que seus membros não venham a se tornar presidentes da República. O povo pode estar vacinado – exceto os antivax –, além do que votos para presidenciáveis mudam ao sabor de ondas emocionais de massa, sempre difíceis de prever. De qualquer modo, a parte da população que segue surfando no ódio, certamente, reelegerá os Bolsonaro como deputados, vereadores e outros cargos mais acessíveis.

Seja como for, é preciso olhar para a tecnologia da dancinha. E a que acometeu Bolsonaro Filho foi estranha e, por muitos caminhos, leva a pensar no antigo doidivanas da política, o outrora incensado Aécio Neves. Aécio, que não fez dancinha, mas dançou faz lembrar o Bolsonaro filhinho do papai, talvez por ser o netinho de vovô. Aos mais jovens, sugiro pesquisar sobre Tancredo Neves, avô de Aécio.

Para quem não lembra, Aécio foi o político mineiro que jurou se vingar de Dilma Rousseff, depois de ter perdido a eleição para a petista em 2014. Quase ninguém lembra que ele foi um dos primeiros a acionar o ódio misógino como capital político, o qual, depois, levou ao golpismo capitaneado pelo decrépito Eduardo Cunha, que teve um época de errância entre prisões até se tornar uma figura obscura.

Atualmente, Aécio Neves está no fim da fila para o Senado em Minas. Lembrar de Aécio gritando contra Dilma leva à memoria mais recente sobre a imagem do homem que gritou em nome de Ustra como o “pavor de Dilma Rousseff”, naquele fatídico dia 17 de abril de 2016. Esse homem, pai do personagem da dancinha, está preso e, provavelmente, não terá mais forças para voltar à política. De fato, é curioso que golpistas que agiram contra aquela presidenta, atualmente presidenta do banco do BRICS, sigam de mal a pior.

Aécio Neves ao lado de Tancredo Neves em imagem histórica familiar. A comparação reforça o debate sobre herança política e capital simbólico no caso de Flávio Bolsonaro.
Aécio com o avô Tancredo Neves, na década de 1980 (Foto: Reprodução)

Filhinho de papai

Bolsonaro Filho sacolejou as carnes de um modo meio desarticulado, ao som do “Funk do 01”, uma música de pré-campanha, na intenção de demonstrar que é um sujeito jovial, alegre, que é um cara espontâneo e que, gostando da musicalidade popular como é o funk, as populações que o cantam e dançam, que o criam ou o consomem podem confiar nele.

Todo mundo leu a cena da dancinha a partir da ideia de que Flávio Bolsonaro está tentando se distanciar do pai, algo válido, mas não tão válido assim, pois o pai também tinha suas brincadeiras e fazia cenas que visavam aproximá-lo do povo, fosse andando de jet-ski, fosse comendo farofa grotescamente, fosse bancando o macho predador. Bolsonaro queria parecer um sujeito do povo e, de fato, o era. Já Bolsonaro Filho não tem a mesma história, nem o mesmo apelo e nem o mesmo carisma. Ele tem apenas o nome do pai.

De fato, Bolsonaro pai sempre apostou no grotesco como capital, no qual se inclui o machismo. Gritaria, destempero, agressividade eram parte da cena e produziam profundos efeitos de poder, a ponto de cooptar eleitores fascinados com o carisma, a coragem antissistema ou o simples e puro absurdo que comove pessoas a votar apenas para ver a democracia e a vida do povo em escombros.

Se Flávio quiser ir longe, considerando que se tornar presidente foi o mais longe – ou o longe demais – que seu pai pôde ir, ele deveria se tornar mais parecido com o pai. Nesse caso, a dancinha tem um papel bem especifico. Ela serve no contexto de um jogo retórico em que é preciso criar confusão, principalmente a mental, pois o eleitor não pode entender nada, sob pena de, raciocinando, votar em algo sério e não em Bolsonaro.

É preciso impedir que se vote em algo sério: essa é a tarefa da dancinha hipnótica. Confundir faz parte disso. Trata-se de um método essencial à extrema direita, que só consegue se eleger mobilizando o caos, do qual afetos tristes como o ódio, a inveja, a maldade, a vingança e preconceitos em geral (misoginia, racismo, LGBTfobia etc.) são expressão óbvia.

Contudo, Flávio ganha mais quando lança mão de Trump, quando faz guerra ao Pix, quando consegue tocar o pânico como seu pai fez durante as eleições e durante seu mandato. Ou seja, Bolsonaro Filho teria que investir na imagem e no discurso para se assemelhar ao pai e não para se afastar dele, como alguns acreditam que ele vem tentando fazer.

O valor da desqualificação

Assemelhar-se ao pai, nesse caso, significaria aproveitar-se do capital principal do pai, a saber, o que chamei em livros e outros artigos de “ridículo político”. Um método de capitalização política que vem fazendo muito sucesso desde as eleições de 2016, pelo menos. É esse método, que envolve o grotesco e a infâmia, que vem levando hoje trapaceiros de todo tipo a altos cargos do Congresso Nacional.

Bizarríssimos deputados e senadores compõem o reconhecido “Congresso inimigo do povo”. Seguem sendo muito bem votados sem projeto, sem construir nada pelo Brasil. Quem se pergunta como é possível que cidadãos e cidadãs votem em candidatos tão desqualificados, corruptos, estupradores, assassinos, religiosos visivelmente embusteiros, homens cheios de ódio contra meninas e mulheres, gente sem escrúpulos, capaz de tudo por dinheiro e poder, em geral fica sem resposta. Mas quem analisa o valor da performance da desqualificação na política e da violência que dela faz parte começa a entender o que se passa.

Venho insistindo há anos que análises psicopolíticas e esteticopolíticas que levem em conta aspectos “cênicos” do campo político podem explicar tanto ou mais sobre cenários eleitorais do que pesquisas tradicionais sobre opinião. O que está em questão é o elo entre o performer político em sua cena “ridícula”, “grotesca” ou “infame” e o eleitor, que tudo vê sem saber o que fazer com isso. Nesse caso, o efeito do “Funk do 01” não parece ter sido muito comovente, pois o que se espera de um Bolsonaro é que ele apele para a força, a gritaria e o pavor como fazia o pai.

Outros candidatos

Apesar da vantagem de ser filho do ex-presidente, e estar sendo incensado nesse momento inicial em que a mídia precisa combater Lula, há vários candidatos que podem atrapalhar os votos de Flávio Bolsonaro no desenrolar da campanha. Apostaria, nesse estágio da fascistização da política, na figura de Ronaldo Caiado, que pode atrapalhar com força os planos do filhinho de papai. Caiado é um Bolsonaro melhorado, que sabe usar garfo e faca, que é “doutor”.

Misturando autoridade de médico e autoritarismo de chefe de polícia, Caiado é um político experiente, um representante do agronegócio, algo que tem poder no Brasil e, inclusive, poder cênico. O cênico é o âmbito da identificação, o lugar onde as pessoas se reconhecem e no qual elas se mimetizam com os outros com quem se identificam.

Caiado comoveu em sua campanha para a presidência em 1989 usando um cavalo branco e fazendo a cena do “príncipe”. É um personagem adequado no imaginário político da força bruta desejável para simular a sensação de segurança entre as massas. Talvez o inconsciente nacional saiba que as milícias do Rio de Janeiro não são nada perto dos ruralistas do velho oeste brasileiro.

A campanha presidencial de Caiado vai apelar para um sentimento identificatório. Quem não tem como possuir terras e gado, caminhonetes e casarões greco-goianos, pode sempre se contentar em ligar o rádio no sertanejo universitário e, por fim, votar no Caiado. Assim o pobre imitará o rico e se sentirá menos mal. Quando não tem nada de parecido com os ricos, pode-se, pelo menos, se identificar com ele pelo voto. O circuito da cafonice estética e política está fechado.

O simples fato de o PSD de Kassab ter escolhido Caiado, em vez do sulista Eduardo leite, sinaliza para algo importante. Nesse momento, ninguém quer apostar em nenhum tipo de “terceira via”. A polarização ainda não esgotou seu potencial. Ninguém quer “conciliações” em momento decisivo como o que se avizinha. O que as pessoas querem é segurança e o discurso de força traz a ilusão dessa garantia.

Ronaldo Caiado durante campanha presidencial. A imagem ilustra o uso de símbolos visuais e estética de poder na construção de narrativas políticas no Brasil.
Caiado em campanha para a Presidência, em 1989 (Foto: Reprodução)

A chance do bailarino

Sabemos que, no Brasil, o voto se decide por aspectos passionais e não racionais. A alta intenção de voto em Bolsonaro Filho ainda existe porque Bolsonaro pai está vivo e ainda não se tornou mais um Aécio Esquecido das Neves. Essa intenção depende única e exclusivamente da devoção das massas ao pai e da falta de outros candidatos que possam animar mais a extrema direita.

A promessa de Flávio teria que ser a de ressuscitar o pai Bolsonaro. Não o contrário. Ninguém votaria no Flávio que está sendo construído pelas narrativas, inclusive midiáticas, sem que ele fosse um Bolsonaro. A eleição de 2026 vai explicar quanto realmente vale esse nome. Certamente, há a hipótese de que não valha nada, como o “Neves” também já não vale.

Flávio Bolsonaro se elegeu sempre às custas do nome do pai Bolsonaro, que ele agora escamoteia, sem poder negar. Flávio se elegeu, de vereador a senador, em nome do papai e nada oferece de importante, em termos políticos, sem esse nome. De fato, setores do poder econômico e midiático esperam que Flávio seja um nada, como esperavam de Bolsonaro pai, mas não imaginavam que seria tão ruim, que um presidente de verdade faria tanta falta ao Brasil.

É que Jair Bolsonaro foi incompetente demais, até mesmo para os que desejavam que ele fosse apenas uma marionete e, como tal, manipulável pela direita econômica e midiática, que o colocou no cargo de presidente. A sua desqualificação para o cargo extrapolou todos os limites, indo além de todo o compreensível. Além disso, ninguém soube ensinar Bolsonaro a ser presidente, por se tratar de um aprendizado impossível e por ele mesmo ter sido uma surpresa para os que, odiando a normalidade democrática, preferiam ver o circo pegar fogo, até que eles mesmos saíram queimados.

A fragilidade de Flávio Bolsonaro é parte de sua cena. Se a esquerda usar uma tática um pouco mais “brutal”, ou seja, se em vez de segurar o fraquejador como fez Jandira Feghali, deputada, médica e humanista, decidir assoprar um pouco, o filhote do abusador da democracia não ficará em pé. A imagem do playboy desmaiando, como na campanha para prefeito do Rio em 2016, precisa voltar a circular. A imagem do homem fraco desmaiando e sendo segurado por uma médica de esquerda acaba com qualquer tentativa de melhorar a imagem com uma dancinha.

LIBERTA 


 

 

Um pornô nada soft

 

 

 

Pornografia de plataformas digitais banaliza e estimula violência contra as mulheres

 

“Disse ao meu filho de 14 anos que não pode gozar na cara. Não pode bater o pau na cara. Aliás, não pode bater!”.

O comentário feito por uma promotora de Justiça, durante um evento do Ministério Público, em meados de março, ilustra o dilema de uma mãe cujo trabalho passa por compreender como a pornografia digital molda o comportamento de uma geração.

Enquanto mães, a preocupação dela e das colegas estava em dialogar com adolescentes cujo privilégio começa em ter por perto responsáveis dispostas a trocas saudáveis sobre sexo. Como representantes da alta cúpula do MP, que atuam no enfrentamento a diferentes tipos de violência, o grupo trocava impressões sobre um pornô nada soft. Um enredo perverso, que não se restringe aos mais jovens.

Não se trata aqui de condenar fetiches ou impor regras morais. Se combinado, vale tudo o que a dupla (o trio, o quarteto…) quiser. O que ocorre, no entanto, é o condicionamento do desejo a um impulso de infligir violência às mulheres no contexto sexual, cultura que se popularizou junto à explosão de plataformas digitais dedicadas à pornografia.

Autora de Garota Sobre Garota – Como a Cultura Pop Colocou Uma Geração de Mulheres Contra Si Mesma (ed. Todavia), a jornalista Sophie Gilbert, da revista The Atlantic, dedica um dos capítulos do livro a analisar como o “pornô gonzo” – “gênero que imita o pornô amador por dispensar narrativas e focar a ação, tentando deixar a pessoa que assiste imersa na cena” –  influenciou um tratamento violento e misógino de mulheres. Isso se tornou predominante na segunda metade dos anos 2000, quando o lançamento dos sites gratuitos de vídeo como PornHub, RedTube e YouPorn consolidaram a pornografia online.

Escritora e jornalista Sophie Gilbert, autora de 'Garota Sobre Garota', em retrato frontal. O artigo aborda como o "pornô gonzo", variedade estudada por Gilbert, e a pornografia digital influenciaram o tratamento violento e misógino de mulheres na sociedade contemporânea.
A escritora e jornalista Sophie Gilbert, autora de Garota Sobre Garota (Foto: Divulgação)

Psicodramas de raiva

O cenário concebido por Sophie nada tem a ver com o pornô chique retratado no clássico Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson, diretor que venceu o Oscar de Melhor Filme neste ano por Uma Batalha Após a Outra. O ponto de partida da jornalista são os atentados do 11 de Setembro de 2001 em Nova York, que, entre outros efeitos, criou um ambiente de “guerras e alienação”, levando à ascensão do torture porn, gênero que abrange produções marcadas por “violência chocante” e “uma sede impulsiva por vingança”, cujo marco é a estreia de O Albergue (2005), de Eli Roth.

Coproduzido por Quentin Tarantino, o filme de terror, que, aliás, inspirou o crítico de cinema estadunidense David Edelstein a cunhar o termo torture porn, acompanha dois universitários dos Estados Unidos que viajam à Europa. Em busca de “experiências que entorpeçam os sentidos e a memória”, a dupla acaba num hostel, onde são submetidos a todo tipo de tortura, num ambiente de sexo e sadismo.

O impacto de O Albergue – que teve uma sequência assinada pelo mesmo diretor – não se restringiu ao terror, sendo incorporado pela pornografia num momento em que, de acordo com Sophie, a estética e os valores dessa indústria haviam sido integrados à cultura mainstream.

“À medida que o cinema de arte no final dos anos 1990 começou a apresentar imagens sexuais explícitas, em filmes como O Romance, de Catherine Breillat, e Os Idiotas, de Lars von Trier, a indústria do pornô respondia com sua própria mudança de direção”, escreve a jornalista.

O novo elemento dessa transformação foi a violência, tendo como principal representante o produtor Max Hardcore. Conhecido por abusar de mulheres com instrumentos ginecológicos, simular estupros, entre outras bizarrices que Sophie descreve no livro, Hardcore, segundo o ex-editor da revista Hustler Evan Wright, criou “psicodramas de raiva dirigida contra a beleza feminina”.

É nesse contexto que os novos modelos do pornô se infiltram na cultura mais ampla, banalizando padrões sexuais brutais contra mulheres. Entre os episódios que demonstram essa influência, a autora de Garota Sobre Garota menciona uma performance de stand-up comedy do humorista Russell Brand, na qual ele brinca sobre gostar “daqueles boquetes em que vai parar um pouquinho na garganta […], aqueles em que o rímel escorre de leve”. Pouco tempo depois, Brand foi acusado de abuso por várias mulheres. Uma delas, afirmou que tinha 16 anos quando o comediante tentou asfixiá-la com o pênis, “uma técnica conhecida no pornô como cockgagging”.

Pornografia da vingança

Essa mesma brutalidade irá pautar a explosão do pornô digital, com o lançamento de plataformas como o PornHub (2007), responsáveis pela ruína do modelo de negócios dessa indústria, ao eliminar a necessidade de pagar por pornografia.

“Praticamente qualquer coisa que você quisesse ver estava disponível na mesma plataforma: vídeos fetichistas e cenas de estupro publicados juntos de vídeos de revenge porn [pornografia da vingança] e fragmentos nostálgicos [da atriz pornô estadunidense] Jenna Jameson. Em 2013, se estimou que os sites associados ao PornHub chegavam a atrair 1 bilhão de visitantes por mês”, descreve a jornalista.

À disposição dessa multidão de espectadores, episódios que mostram tapas, enforcamento ou bofetadas, como revelou uma pesquisa realizada em 2010 por Ana Bridges, professora do departamento de psicologia da Universidade de Arkansas. De acordo com o estudo, 88% de mais de 300 cenas pornográficas populares contavam com algum tipo de agressão física, em sua grande maioria de homens contra mulheres

Inevitavelmente, essas condutas provocaram mudanças perceptíveis em como as pessoas transam na vida real. No livro, Sophie menciona um levantamento de 2019, feito por uma instituição de combate à violência de gênero no Reino Unido, mostrando que 38% das mulheres britânicas com menos de quarenta anos relataram terem sido estapeadas, enforcadas, sufocadas ou cuspidas sem consentimento durante o sexo.

É desse tipo de tratamento que se alimenta o ecossistema da chamada machosfera, adestrando homens a performarem virilidade e violência e mulheres, submissão.

LIBERTA 

April 27, 2026

À margem da lei

 À margem da lei

 

Os policiais influencers surfam no vácuo regulatório das corporações, revela estudo do Instituto Sou da Paz


Por Mariana Serafini 

Homens encapuzados, perseguições eletrizantes por vielas mal iluminadas e discursos de guerra típicos de filmes de ação dos anos 1990. Vídeos com essa estética têm grande apelo nas redes sociais, sobretudo quando os protagonistas são policiais fardados que buscam entreter o público com uma amostra da “realidade das ruas” e, claro, ganhar uns bons trocados com isso. Para impulsionar o próprio engajamento, vale quase tudo: de dancinhas da última trend a conselhos amorosos para os seguidores.

Os policiais influencers surfam no vácuo regulatório e, não raro, usam a popularidade alcançada nas redes como trampolim político. Especialistas observam que esse comportamento tem gerado uma crise de legitimidade nas forças de segurança, pois a opinião individual do agente se confunde com a voz do Estado, e alertam para a falta de regulação para conter esses abusos.

Na quarta-feira 8, a deputada estadua­l Ediane Maria, do PSOL de São Paulo, denunciou ao Ministério Público Federal o agente da Polícia Rodoviária Federal Breno Vieira, responsável pelo canal “Café com teu pai”. Ele se apresenta nas redes como conselheiro amoroso e faz o papel de um “pai” para orientar mulheres em relacionamentos. As lições amorosas são temperadas com altas doses de misoginia e machismo. Ainda assim, ele acumula quase 30 milhões de seguidores no YouTube, Instagram e TikTok.

    Dois terços das forças de segurança possuem normas para o uso das redes, mas as regras são frágeis e pouco específicas

“É uma questão problemática: um servidor público concursado, designado para atuar como agente de segurança pública, que, em vez de servir à população, está focado em trabalhos extras”, comenta Ediane Maria. A prática é proibida pela PRF, mas o canal está no ar há mais de um ano sem qualquer repreensão, observa a parlamentar. “Isso é nocivo porque pode induzir a população a acreditar que esse posicionamento é oficial.”

Para dimensionar o problema, o Instituto Sou da Paz analisou as regras internas de 56 corporações policiais no País, incluindo a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e as polícias civis e militares estaduais. O levantamento identificou que apenas 37 instituições contam com algum tipo de regulação, em sua maioria criada às pressas a partir de 2021. A diretora-executiva da ONG, Carolina Ricardo, afirma que a “ausência de contornos nítidos favorece a atuação de agentes em uma zona cinzenta”. Segundo ela, o cenário impõe “desafios disciplinares”, pois, à medida que esses policiais ganham fama, torna-se mais difícil puni-los ou desligá-los das corporações.

Um caso emblemático é o de Gabriel Monteiro, ex-soldado da Polícia Militar do Rio de Janeiro, que usou a exposição nas redes para impulsionar a carreira política. Armado e fardado, publicava no YouTube vídeos de “experimentos sociais” e, amparado pela popularidade, passou a desrespeitar superiores e fazer acusações sem provas – como em 2020, ao atribuir ao coronel Íbis Pereira, ex-comandante da PM fluminense, envolvimento com o tráfico e filmá-lo sem autorização. O episódio resultou em punição disciplinar, mas não houve responsabilização pelo uso das redes, à época sem normas específicas. No mesmo ano, chegou a ser expulso por deserção (decisão revertida), depois deixou a corporação e ingressou na política. Eleito vereador pelo PL no Rio, teve o mandato cassado por má conduta em agosto de 2022. Três meses depois, foi preso preventivamente, acusado de estupro, e permaneceu em Bangu 8 até 2025, quando o Superior Tribunal de Justiça concedeu liberdade com monitoramento eletrônico. Hoje, mantém presença nas redes, onde exibe a tornozeleira e ainda associa sua imagem à polícia, inclusive no nome de usuário no Instagram: @gabrielmonteiropm­.

Trunfo. O canal de Da Cunha no YouTube segue ativo com mais de 3 milhões de inscritos – Imagem: Redes Sociais

Em outubro de 2023, a PM do Rio editou uma instrução normativa com regras para o uso de redes sociais e aplicativos de mensagens, incluindo a proibição expressa de usar símbolos da corporação, como brasões e nomes, em perfis pessoais. Para a gerente de advocacy do Instituto Sou da Paz, Nathalie Drumond, a decisão é bem-vinda, embora um tanto tardia. Ela reconhece, porém, que se trata de um debate complexo, por “esbarrar em liberdades individuais e no direito à manifestação de opinião”.

O estudo do Sou da Paz mostra que o número de deputados federais oriundos das forças policiais saltou de 4, em 2010, para 42, em 2018 – aumento de 950%. Em 2024, ao menos 849 policiais foram eleitos vereadores. Para Carolina Ricardo, o uso das redes gera “desigualdade nas eleições”, pois muitos agentes iniciam a campanha antes do período oficial. Segundo a especialista, a saída não é proibir as plataformas, mas reforçar a fiscalização interna e a aplicação de punições para desestimular a prática.

O uso das redes sociais não traz apenas visibilidade e influência, mas também lucros elevados com a monetização de conteúdo. Em meados de 2020, o delegado Carlos Alberto da Cunha passou a publicar, no YouTube, vídeos sobre a “rotina de um policial civil” na capital paulista, sob a justificativa de incentivar jovens a ingressar na carreira. A exposição rapidamente se converteu em fonte de renda paralela. Dados da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo indicam que ele mantinha uma estrutura profissional de produção, com ­custos superiores ao próprio salário (cerca de 10 mil reais), enquanto os ganhos com o canal ultrapassavam 500 mil reais por ano. Em 2022, Da Cunha elegeu-se deputado federal pelo União Brasil.

    Delegado Da Cunha foi denunciado por encenar nas redes o resgate de uma vítima de sequestro

Especialistas alertam para o risco de subordinar o cumprimento da lei à lógica dos algoritmos. Da Cunha levou esse comportamento ao extremo ao encenar uma operação de resgate de uma vítima de sequestro em seu canal no YouTube. O estudo do Sou da Paz revela que ele não participou do momento real da libertação: ao chegar ao local, após a operação já ter sido concluída, obrigou a vítima e os suspeitos, já detidos, a participar de uma reconstituição forjada para suas câmeras. As irregularidades não param por aí. Instalações da Polícia Civil foram usadas como estúdios pelo influenciador. Além disso, funcionários contratados para sua equipe de filmagem foram flagrados dirigindo viaturas e portando armas da instituição. A conduta resultou em denúncia por crime de peculato.

A Corregedoria da Polícia Civil investigou a conduta do delegado e recomendou sua demissão em 2022. O processo baseia-se em acusações de abuso de autoridade e constrangimento ilegal. A palavra final cabe ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Para Drumond, o caso ganhou complexidade adicional devido à alta exposição do agente. “Quando o delegado Da Cunha sofreu medidas disciplinares, o caso virou um debate público e a discussão, que deveria ser técnica sobre a adequação da conduta de um servidor da segurança pública, passou a ser politizada”, afirma.

Da Cunha foi denunciado criminalmente pelo Ministério Público no caso da encenação do resgate, ainda sem desfecho. Em sua defesa, alegou que a filmagem foi uma “simulação para fins probatórios”. Reconstituições oficiais, no entanto, são atribuição da Polícia Técnico-Científica, e não devem ser usadas como ferramenta de autopromoção em redes sociais, observa o Sou da Paz. A única sanção efetiva até o momento foi um breve afastamento em 2021, quando o delegado teve arma e distintivo recolhidos pela Corregedoria da Polícia Civil. Em 2023, a corporação devolveu sua carteira funcional e uma pistola, por decisão do delegado-geral. O canal no YouTube segue ativo, com mais de 3 milhões de inscritos.

Segundo o Sou da Paz, embora dois terços das polícias tenham algum nível de regulação sobre redes sociais, as normas são pouco específicas. O estudo defende a proibição do uso de elementos de identificação – como fardas, armas e viaturas – em perfis pessoais, além de mecanismos mais ágeis de responsabilização. “As normativas atuais ainda não dão conta desse problema de produção de conteúdo e monetização”, avalia Drumond. “Esse é um problema que precisa ser enfrentado com urgência.” • 

CARTA CAPITAL 

 

April 24, 2026

Fiz muita arte, que tanto me impressiona como me dá vergonha, diz Robert Crumb

 

 

 HENRIQUE ARTUNI 

Nem a caligrafia nem o tom das respostas deixam mentir. Quem escreve à reportagem, à mão, é Robert Crumb. "Eu tenho reputação de recluso? Você tem certeza disso? Escute, se eu fosse realmente um recluso, não estaria respondendo a estas perguntas. Na verdade, sou até bastante sociável. Tenho muitos amigos, ok?", dizem as letras de forma, em grafite, bem coladas umas às outras.


Tão rabugenta como bem-humorada, a resposta vem do autor que, desde os anos 1960, revirou a linguagem do quadrinho americano para expor não apenas suas paranoias e taras mais sujas, como satirizar a sociedade de consumo sem piedade, como mostram os trabalhos de "Tempos M
odernos", coletânea recém-lançada pela editora Veneta.

 

Obra do quadrinista Robert Crumb que está na coletânea 'Tempos Modernos' - DivulgaçãoA questão era como Crumb, hoje aos 82 anos, revê toda essa obra confessional e sem pudores, enquanto mantém, sim, uma aversão à exposição pública.


Afinal, o autor, nascido na Filadélfia numa família pobre e disfuncional, refugia-se do sonho americano desde 1991 na comuna medieval de Sauve, no sul da França, a cerca de 750 km de Paris.

 


Não tem rede social, não usa internet, não vai com frequência a grandes eventos —quando veio à Flip, em 2010, mal saía do hotel— nem dá muitas entrevistas. "Não frequento bares ou cafés. Não vou a ‘baladas’. Não gosto de multidões. Não suporto música pop alta", ele afirma, completando a lista.
Ao mesmo tempo, o autor já abriu muito de sua intimidade para o mundo como estrela do documentário "Crumb", de Terry Zwigoff, de 1994. Tampouco fecha as portas a jovens entusiastas que despertem nele a memória daquele rapaz franzino que, há quase 60 anos, vendia pelas ruas de San Francisco os primeiros números da "Zap Comix", um marco do underground.

"Eu viajo, faço aparições públicas, estive em todos os lugares nestes últimos seis meses. Estou ficando em casa por um tempo agora."


Ele se refere aos eventos de divulgação da biografia "Crumb: A Cartoonist's Life", escrita pelo pesquisador Dan Nadel —um desses fãs obstinados que conseguiram se aproximar do artista para tentar decifrá-lo. O livro, fruto de um trabalho de sete anos, chegará ao Brasil pela editora Todavia, com tradução de Érico Assis, mas ainda sem previsão de lançamento.

 

 

Para alguns, Crumb é o artista mais influente de sua geração, o mestre que soube traduzir viagens de LSD, fantasias, neuroses e tabus da América em HQs estreladas por personagens como o gato Fritz, o guru Mr. Natural e, muitas vezes, pelo próprio autor.


Para outros, é um inimigo do feminismo, pervertido e passadista —só porque poderia passar o resto da vida ouvindo sua coleção de blues com milhares de 78 rpm dos anos 1920 e 1930, uma das poucas coisas que, como ele já disse, desperta nele algum amor pela humanidade.


"Certamente deixei minha marca e uma grande pilha de arte! Parte disso me envergonha um pouco, parte é impressionante até para mim", afirma. "O que me envergonha mais, porém, é ler entrevistas antigas que dei ao longo das décadas, as muitas coisas estúpidas que disse, opiniões que disparei. Isso me faz perceber: apenas desenhe e pare de dar entrevistas, como esta, por exemplo. Tomou um dia inteiro da minha vida."


E isso porque o artista decidiu responder apenas à metade das questões enviadas pela reportagem por email, esquivando-se de comentar, por exemplo, sua visão crítica da cultura "woke", as acusações de racismo e machismo em sua obra e mesmo seus projetos futuros.


O ponto, para Crumb, é que não há contradição. "Ser confessional e transparente no trabalho não é a mesma coisa que ser sociável, de gostar de sair e passear."


Fechado em seu estúdio, ele consegue, ainda hoje, se autoanalisar e expurgar tantas angústias no papel, num desenho tão hachurado e realista quanto cartunesco, conciliando Walt Disney, o estilo borrachento de um "Popeye" e as nojeiras da revista "Mad".


Os trabalhos mais recentes de "Tempos Modernos", dos últimos dez anos, exibem ainda um pincel mais atento ao grotesco das coisas como elas são, tamanho o detalhismo, por exemplo, do topete do presidente Donald Trump numa história de título autoexplicativo: "Alimentação ruim e penteado ruim destroem a civilização humana".

 Desenho em preto e branco mostra perfil de homem com cabelo penteado para trás, cercado por balões de texto que discutem alimentação ruim e penteado ruim destruindo a civilização humana. Inclui retratos menores de outras pessoas e textos explicativos em estilo de quadrinhos.


"A fase otimista do meu trabalho durou apenas alguns anos, de 1965 a 1968. Depois disso, começa a ficar sombrio e pessimista. Meu estilo de desenho tornou-se mais realista ao longo dos anos à medida que lidava mais com a realidade humana cotidiana", diz. "Talvez seja hora de eu voltar para aquele estilo mais cartunesco. Era mais fácil, levava muito menos tempo."


Organizada pelo editor Rogério de Campos com a ajuda de Crumb e de sua agente, Lora Fountain, "Tempos Modernos" reúne exemplares desses diferentes períodos, incluindo colaborações com jornais ecologistas e anticapitalistas. Em comum, os trabalhos abordam sua desconfiança da tecnologia, das modas e do sucesso.


Algumas delas são assinadas ao lado da mulher, Aline Kominsky-Crumb —uma artista underground pioneira— ou da filha do casal, Sophie, também quadrinista.

 


Numa das mais antigas, de 1977, ele narra a cobertura de um simpósio sobre exploração espacial. "Saí cambaleando pela porta, com a cabeça girando depois de oito horas de mentiras, conversa fiada, propaganda e loucura que tinha acabado de suportar."


Meio século depois, Crumb responde sobre o tema com minúcia —preenche uma página falando de "antigravidade" e de tentativas de "engenharia reversa de discos voadores"—, mas sua visão apocalíptica mudou pouco.


"Virou um hobby para os obscenamente ricos" diz. "Agora temos uma classe de indivíduos que acreditam ser semideuses. Eles acreditam que sua riqueza sozinha lhes dá o direito de decidir nosso destino. Ouçam bem, boa gente! Este é um estado de coisas muito perigoso!"


Ao comentar as bizarrices hoje produzidas por inteligência artificial, ele adota o mesmo tom alarmista. "Estamos construindo enormes ‘data centers’ que exigem vastas quantidades de energia e água para evitar que esses cérebros mecânicos superaqueçam e derretam!"

 

Muito do volume foi tirado também da revista "Weirdo". Criada pelo artista em 1981, a publicação refletiu o clima punk da época e foi o lar de Mode O’Day, uma mulher obstinada a fazer parte da panelinha artística de Nova York. Foi na Grande Maçã que a carreira de Crumb começou a deslanchar, ainda como assistente do quadrinista Harvey Kurtzman, mas logo ele quis distância da agitação de lá.


Diferente de outras criações do autor, Mode O’Day é bem menos conhecida do público brasileiro, daí seu destaque em "Tempos Modernos". Ela faz uma dupla inusitada com Doggo, um cão antropomórfico hippie, descrito como um "delinquente sexual" —um título não raro dado ao próprio Crumb.


Afinal, por trás do magrelo com óculos fundo de garrafa, sempre morou um tarado por mulheres fortes, que não hesitou em representá-las com coxas, nádegas e seios fartos.

 

Seu apetite sexual já foi tema, no país, de álbuns como "Meus Problemas com as Mulheres" e "A Mente Suja de Robert Crumb", mas, no novo volume, ele aparece com uma dose de autocrítica —sobretudo nos trabalhos assinados com a esposa.


Os cartuns resumem bem uma relação que durou de 1978 até a morte de Aline, há pouco mais de três anos. Na biografia, Dan Nadel descreve a artista como uma parceira completa e protetora do marido, que soube construir uma comunidade, em Sauve, que hoje ajuda a filha do casal a cuidar do v
iúvo octogenário que mal sabe falar francês.

 

Os cartuns mostram um casal com o mesmo humor autodepreciativo e a mesma liberdade sexual, ainda que Crumb, mais velho, agora condene seus impulsos libidinosos do passado. Não à toa, é Aline quem tira sarro dos leitores numa cena em que ele, hipnotizado pela "bunda musculosa" da mulher, monta nela e brinca de cavalinho.


Mas eles não escondem suas discordâncias, como a respeito da Covid, conforme Crumb se recusa a tomar a vacina, ataca a mídia e o consenso científico.


Questionado, o autor diz que é irônico que ele concorde em algo com figuras como Jair Bolsonaro, que desdenhou da vacina durante seu mandato como presidente do Brasil. Reforça, no entanto, que não é negacionista, fã de Trump ou do movimento conspiratório QAnon, e que, na França, muitos intelectuais de esquerda desconfiaram dos imunizantes.


Seu problema, diz, é com uma indústria farmacêutica "notória por sua falta de integridade", que só tem olhos para os lucros.

 

 

Não por acaso, a história que encerra "Tempos Modernos" fala da dificuldade do casal com o dinheiro, após a galeria de Crumb vender uma arte original de sua HQ "Gênesis", de 2009 —uma adaptação fiel ao texto bíblico— por US$ 2,9 milhões. Assustados com o montante, eles vão atrás de um consultor financeiro, que recomenda, curiosamente, investir em gigantes do agronegócio, farmacêuticas e afins.


"E os anos 1960, o LSD e tudo o que vivemos? Foi para nada?", questiona Aline. No fim da mesma página, marido e mulher sobem ao terraço da casa para observar os pássaros. "As melhores coisas da vida são de graça. Não há solução!", conclui Crumb nessa HQ de raras tintas coloridas.


Não é diferente do que escreve nesta entrevista a lápis e borracha. "Ok, eu tiro sarro de mim mesmo, da minha paranoia, mas acredito nas coisas que digo. Minhas preocupações são totalmente genuínas. Mas, sabe, ao fazer quadrinhos, você tem que manter o entretenimento, tem que ver o absurdo, a tolice essencial de tudo isso. ‘Tudo é vaidade’, como diz tão sabiamente o livro de Eclesiastes no Antigo Testamento. Amém, irmão."

FOLHA 

 

 

April 19, 2026

World Press Photo divulga as principais fotos do ano: Guerras, protestos e imigração são temas recorrentes

 Farīsāt: Filhas da Pólvora. Foto de Chantal Pinzi para Panos Pictures

 

Considerado o concurso mais prestigiado do fotojornalismo mundial, o World Press Photo anunciou os 42 vencedores regionais de sua 69ª edição. A partir desse conjunto de imagens, a “Foto do Ano” será divulgada em 23 de abril, em Amsterdã, durante a abertura da exposição. Ao todo, o júri avaliou 57.376 fotografias enviadas por 3.747 profissionais de 141 países.

A seleção contemplou sete fotografias por continente e pode ser conferida na íntegra no site da premiação. Em comum, os trabalhos abordam temas como guerras, protestos, crises migratórias, incêndios e insatisfação popular, refletindo alguns dos principais acontecimentos recentes ao redor do mundo.

Protestos pró-Palestina na Universidade de Columbia. Foto de Alex Kent para o The New York Times — Foto: Divulgação/World Press Photo
Protestos pró-Palestina na Universidade de Columbia. Foto de Alex Kent para o The New York Times — Foto: Divulgação/World Press Photo

Na América do Norte, destaca-se a imagem de um protesto contra a guerra em Gaza na Universidade de Columbia, em que um estudante aparece com as mãos imobilizadas, registrada por Alex Kent para o The New York Times. Fotografias do jornal norte-americano aparecem mais de uma vez entre os finalistas. Outro registro marcante é o de um agente do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) com o rosto coberto, feito por Carol Guzy, do Miami Herald.

Prisões realizadas pelo ICE em tribunal de Nova York. Foto de Carol Guzy, para Miami Herald — Foto: Divulgação/World Press Photo
Prisões realizadas pelo ICE em tribunal de Nova York. Foto de Carol Guzy, para Miami Herald — Foto: Divulgação/World Press Photo

Na América do Sul, dois brasileiros estão entre os selecionados. Priscila Ribeiro apresenta um trabalho sobre os desafios da habitação no país, enquanto Eduardo Anizelli, da Folha de S. Paulo, documentou os cadáveres enfileirados após a megaoperação realizada em outubro nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. O júri considerou no registro da brasileira que "através de um retrato afetuoso e íntimo de uma avó a cuidar dos seus netos, a foto transmite alegria, união e a resiliência cotidiana de famílias que vivem em condições precárias”.

Um Território de Esperança. Foto de Priscila Ribeiro — Foto: Divulgação/World Press Photo
Um Território de Esperança. Foto de Priscila Ribeiro — Foto: Divulgação/World Press Photo

Ainda na região, chama atenção a fotografia do argentino Tadeo Bourbon, para a revista Mu, intitulada “Argentina de Milei”, que mostra um padre sendo detido durante um protesto contra o congelamento de pensões. Durante o anúncio dos selecionados, a presidente do júri global, Kira Pollack, ressaltou que "os fotógrafos aqui reconhecidos fizeram a sua parte. Deixaram a sua marca. Agora é a nossa vez de olhar”.

Argentina de Milei. Foto de Bourbon Tadeo para a Revista Mu — Foto: Divulgação/World Press Photo
Argentina de Milei. Foto de Bourbon Tadeo para a Revista Mu — Foto: Divulgação/World Press Photo

Segundo Gabrielle Fonseca Johnson, presidente do júri da Ásia Ocidental, Central e Meridional, o principal eixo temático da região foi o impacto dos conflitos sobre indivíduos e comunidades, destacando histórias de reconstrução e resiliência no pós-guerra. Uma das imagens vencedoras da região mostra uma mulher de 60 anos se preparando para dar à luz. Descrito pelo júri como um "retrato íntimo e multifacetado", o registro evidencia os impactos da política do filho único no país, "ao mesmo tempo em que destaca o amor, o cuidado e a resiliência".

Maternidade aos 60 anos. Foto de Wu Fang — Foto: Divulgação/World Press Photo
Maternidade aos 60 anos. Foto de Wu Fang — Foto: Divulgação/World Press Photo

Na Europa, destacam-se as imagens relacionadas à guerra na Ucrânia e ao envelhecimento populacional. Já na África, um dos destaques é o registro de protestos da geração Z em Madagascar, que evidencia a mobilização política de jovens impulsionada pelas redes sociais.

Emma, ​​a Robô Social. Foto de Paula Hornickel — Foto: Divulgação/World Press Photo
Emma, ​​a Robô Social. Foto de Paula Hornickel — Foto: Divulgação/World Press Photo
Protestos da Geração Z em Madagascar. Foto de Luís Tato para Agence France-Presse — Foto: Divulgação/World Press Photo
Protestos da Geração Z em Madagascar. Foto de Luís Tato para Agence France-Presse — Foto: Divulgação/World Press Photo

Criado em 1955, o World Press Photo valoriza não apenas o impacto visual das imagens, mas também sua relevância jornalística e temática. O vencedor da “Foto do Ano” recebe um prêmio de 10 mil euros. O segundo e terceiro lugar também são divulgados.

O GLOBO     

 

 

A Lesson of Vietnam: Getting in Is Easier than Getting Out

 

 

The war was sustained by a seductive delusion: that an unwinnable conflict might still be managed into an outcome short of humiliation.

By Louis Menand

 

On March 8, 1965, at 9 a.m., United States marines landed on a beach ten miles north of the city of Da Nang, South Vietnam. Americans had been providing direct military support in South Vietnam since 1954, the year the country was split in two, and the war, beginning with France’s fight to preserve its colony, had been going on since 1946. But the marines were the first American combat troops to arrive.

The Johnson Administration downplayed the significance of the landing. It explained that the marines were being deployed to secure an airbase used for Operation Rolling Thunder, a bombing campaign against North Vietnam that had begun a week earlier and that would continue, with two brief pauses, for three and a half years.

You can always stop bombing, though. When boots are, as they say, on the ground, your off-ramp options dwindle. Everyone understood that sending in the marines marked a fork in the road that could not be easily unforked. Once Americans started getting killed, it would be hard to leave without winning the war, and the war might prove very hard to win. For this reason, the marines had spent the previous thirty-two days on boats circling in the South China Sea, waiting while the decision to land was being debated in Washington, D.C

Most of the marines in the first wave had little idea what to expect. They came in on landing craft, D Day style, and leaped into the surf in full battle dress, carrying M-14s. As they stormed the beach, they were astonished to be greeted not by enemy fire but by photographers, young Vietnamese women handing out garlands of flowers, and a few sightseers. A banner read “Welcome to the Gallant Marines.”

It wasn’t only the marines who were uninformed about what was happening. The South Vietnamese government was, too. The United States had neglected to tell it that the marines were coming. It was a sign, if one were needed, that this would be a war in which nothing would go according to plan.

Ten years later, on April 30, 1975, the United States did get out of Vietnam, an episode that is the setting for Elisa Tamarkin’s unusual and imaginative book “Done in a Day: Telex from the Fall of Saigon” (Chicago). It could be said that the end did not go according to plan, either, except that there was not much of a plan to begin with. Despite intelligence that Saigon would be overrun by the North Vietnamese Army in a matter of days, the American Ambassador, Graham Martin, refused to prepare for an evacuation.

Martin seemed to have believed, up to the very last minute, that a negotiated settlement was possible, and he worried that it would be demoralizing for the South Vietnamese to see Americans packing up. So he did nothing except reassure Henry Kissinger, who was the national-security adviser and the Secretary of State (under Gerald Ford, now the fourth American President to wish that Vietnam would just go away), that it was “a bit premature” to think about departure.

But everyone else knew the end had come. That winter, the North Vietnamese had launched a major offensive. There was initial resistance from the South Vietnamese Army (ARVN), but, on March 13th, the President of South Vietnam, Nguyen Van Thieu, ordered a retreat from the central part of the country. The soldiers had little time to prepare; the retreat turned into a rout. Many ARVN soldiers deserted, and the North Vietnamese advanced without much trouble.

Two major cities north of Saigon, Hue and Da Nang, fell rapidly—Hue on March 25th and Da Nang five days later. And the North Vietnamese were taking no prisoners. Tens of thousands fled by boat from Hue, many drowning in the attempt, and by the end of March a million refugees—soldiers, civilians, whole extended families—were clogging Route 7B, a major highway, trying to get farther south. The caravan along the road came to be known as the Convoy of Tears.

On March 29th, a private contractor flew a 727 jet into the airport at Da Nang on a mission to rescue women and children. The moment the plane landed, a mob poured onto the runway and began chasing it by jeep, by motorbike, and on foot. Three hundred managed to clamber aboard before it took off. People shot others ahead of them in line. Women and children were trampled. As the plane ascended, someone threw a grenade at it, damaging a wing. All but five of the adults who made it on were men, most of them soldiers. Dozens climbed into the cargo bay. Seven people hung on to the outside and fell off during the flight. (A similar scene is rendered 

n Viet Thanh Nguyen’s “The Sympathizer,” one of a number of things in that amazing novel which, if you did not know the history, you would find unbelievable.)

During the week of April 21st, the United States Air Force transport of evacuees out of Saigon’s airport, Tan Son Nhut, was in full swing. Those with proper paperwork were instructed to wait for a bus at a designated pickup point to be driven to the airport, but sometimes the buses did not show up, and sometimes the paperwork was inadequate or nonexistent.

At Tan Son Nhut, the terminal was jammed. All sorts of trickery were tried, from claiming to be a family member of someone who had the right paperwork—one man got three “wives” out that way—to naked bribery. People were bandaged or put in casts, then driven onto the tarmac in ambulances with sirens blaring. Flights for orphans were organized. (It was highly unlikely that the North Vietnamese were going to harm orphans.) The first “baby flight” crashed when taking off, killing a hundred and thirty-eight people, including seventy-eight children.

Nevertheless, according to Max Hastings’s stupendous military history “Vietnam: An Epic Tragedy, 1945-1975” (2018), Air Force planes were able to make three hundred and four sorties out of Tan Son Nhut, successfully evacuating nearly forty-three thousand Americans and Vietnamese. Then, in the early morning of April 29th, the North Vietnamese shelled the airport, rendering the runways useless for fixed-wing aircraft. Two marines, Corporal Charles McMahon and Lance Corporal Darwin Judge, were killed in that strike, the last American soldiers to die in Vietnam.

By the time Ambassador Martin authorized an evacuation, the only way out—since Martin had vetoed a proposal to put refugees on freighters and take them down the Saigon River to the coast (too demoralizing a spectacle)—was by helicopter. The scheme (unfortunate code name: Operation Frequent Wind) was a desperate measure. The rooftop and courtyard of the American Embassy, plus thirteen other buildings in Saigon and Tan Son Nhut, were designated as departure points. People gathered there in the hope that there would be space for them on a helicopter.

Hastings reports that, over a period of eighteen hours, Marine helicopters flew six hundred and eighty-two missions, carrying 1,373 Americans and 5,595 Vietnamese and other nationals to ships in the South China Sea, where the Seventh Fleet was moored. When there was not enough room on the ships’ decks for incoming helicopters to land, empty ones were pushed into the sea. Thirty or forty helicopters were sunk.

On the streets of Saigon, there was widespread looting. ARVN soldiers stripped to their underwear so that the North Vietnamese could not identify them. At the U.S. Embassy, a frantic attempt to destroy papers that could be used to identify collaborators went wrong when backwash created by helicopter propellers scattered shredded files all over the courtyard for the North Vietnamese to reconstruct, which they did. The Embassy was pillaged. Five million American dollars were burned.

Martin flew out in the next-to-last helicopter, at 4:58 A.M. on April 30th. Eventually, every American who wanted to evacuate was evacuated, but thousands of Vietnamese who had worked for or collaborated with the Americans were left to the mercy of the North Vietnamese. Many had been assured that they would be evacuated. They had been lied to. Before Martin left, Ford had ordered that only Americans were to board the remaining helicopters, and Martin and Kissinger feared that, if the Vietnamese realized they were being abandoned, they would begin shooting Americans. When the last helicopter left the Embassy, at 7:53 a.m. on April 30th, four hundred and twenty Vietnamese stood in the courtyard, waiting for the rescue they had been promised. Thousands more were massed outside the gates.

The last people to leave were eleven marines who had been assigned to protect the Embassy. When they got onto the roof, they dropped a tear-gas grenade down the stairwell to prevent Vietnamese from trying to join them. They had to wait two hours for a helicopter to arrive, and one marine slipped while trying to get on board and 

ad to be pulled in as the helicopter was lifting off. He was Juan Jose Valdez, a sergeant from Texas. He had landed in Vietnam ten years earlier, one of the first marines to arrive. Now he was the last American out.

The fall of Saigon is an extremely well-documented event. Hundreds of reporters and photojournalists came to Vietnam to witness the end of a war that had lasted thirty years and in which millions had died, and many recorded their impressions. It was something of a scene. (Hunter S. Thompson was there for Rolling Stone, though he does not seem to have done much reporting.)

The English writer James Fenton came to see the dénouement. More or less by accident, he found himself riding on the first North Vietnamese tank to enter the courtyard of the Presidential palace in Saigon. His article “The Fall of Saigon,” published in Granta in 1985, is a classic account. Philip Caputo, who had landed as a marine in 1965, returned in 1975 as a journalist for the Chicago Tribune and described the evacuation in his best-selling memoir, “A Rumor of War” (1977). He was airlifted out from Tan Son Nhut airport on April 29th.

American officials provided their accounts, too, most monumentally the C.I.A. analyst Frank Snepp’s “Decent Interval,” published in 1977 at almost six hundred pages—a book that exposed the American failure to organize an efficient evacuation. (The C.I.A. sued Snepp for breach of the secrecy agreement he had signed when he joined the agency, and the case went to the Supreme Court, which ruled in favor of the C.I.A. Snepp had to hand his royalties over to the government.) Larry Engelmann’s oral history, “Tears Before the Rain” (1990), published vivid firsthand stories by American and Vietnamese survivors.

Footage of those final days can be seen in Ken Burns and Lynn Novick’s ten-part PBS docuseries “The Vietnam War” (2017), and in a previous PBS series, the thirteen-part “Vietnam: A Television History” (1983), a first-rate documentary with less of the voice-of-God gravitas that sometimes afflicts Burns’s productions. And, of course, there are photographs, the best known by a Dutch photojournalist, Hubert van Es: a line of people trying to get up a ladder to a helicopter perched on a rooftop. (The photo was incorrectly captioned: the building in the picture is not the U.S. Embassy, and that helicopter was not the last helicopter. It is an Air America aircraft, which means it belonged to the C.I.A. The agency had its own airline.)

One reason the ending came as a shock was that Vietnam was the original forever war. Daniel Ellsberg, the man who liberated the Pentagon Papers, called it a “stalemate machine.” And yet, as Tamarkin says in “Done in a Day,” the outcome should not have surprised anyone, since there was never any intelligence suggesting that the war could end in anything other than a defeat for the U.S.

Heads of state—Charles de Gaulle, Jawaharlal Nehru—warned American Presidents to stay out of Southeast Asia. When Kissinger visited Saigon in October, 1965, as an adviser to the American Ambassador, Henry Cabot Lodge, he wrote in his diary that “no one could really explain to me how even on the most favorable assumptions . . . the war was going to end.”

What the Pentagon Papers revealed is that the American government had reason to know all along that the venture was ill-fated. After 1968, the goal was to somehow abandon the war but avoid defeat. Richard Nixon’s euphemism for this was “peace with honor.” Nixon had run for President in 1968 on a promise to end the war, but, by the time the troops were finally removed, in March, 1973, twenty thousand more U.S. soldiers had died. Those lives were sacrificed on the altar of national honor. The United States got nothing in 1973 that it could not have gotten in 1969.

Tamarkin has a fresh angle on the fall of Saigon, a personal one: her stepfather, Bob Tamarkin, flew out on the last civilian helicopter on the morning of April 30th. Bob was not an American official. He was a reporter, the Saigon bureau chief for the Chicago Daily News. He managed to get over the wall and onto the Embassy grounds, and then to the rooftop and out. He was the last correspondent to leave.

He was flown to the U.S.S. Blue Ridge, an amphibious-command ship, and from there to the carrier U.S.S. Okinawa, where he wrote a diary of his last hours in Saigon, published in the Chicago Daily News on May 6th. He concludes the piece:

My chopper lifted off, its red lights blinking, and headed toward the South China Sea. The passengers, including me, sat stoically in the dark, tired and numb. Some were dazed, finding it difficult to believe that the Americans were pulling out in this manner, skulking away in the darkness.
Below in the courtyard where the big choppers had been loading, the headlights from the cars and trucks surrounding the parking lot were still on to light the way for the choppers.
Hundreds of Vietnamese looked up, waiting for the next one.
It never came.

“Done in a Day” is an unclassifiable book. It is not quite a memoir, not quite a biography. Elisa Tamarkin was four years old when Saigon fell. She and her mother were there, but only for a couple of weeks. (In April, they had been shipped off to Hong Kong.) So the author has no stories of the evacuation to tell us. And Bob Tamarkin—who died when Elisa, now an English professor, was in graduate school—is a rather remote figure in the book.

It’s hard to know whether this was advertent or inadvertent. But, whatever her feelings for him as a parent, Elisa clearly devoted herself to excavating this episode in Bob’s life. He proved an elusive subject. When, in her research, she finally comes across a partial image of him—just the back of his head, really—in a photograph of the crowd trying to get over the Embassy wall, it is as though he has been brought back, fleetingly, to life. Maybe the correct genre for “Done in a Day” is elegy. Tamarkin’s book is a kind of time capsule of the late sixties and early seventies. A lot makes its way into her pages, from Frank Kermode’s “The Sense of an Ending” to Thomas Harris’s self-help best-seller “I’m OK—You’re OK.”

But it eventually emerges that Tamarkin’s main topic is not Vietnam. It’s the press—more specifically, the newspaper business. For the end of the war was also, it turns out, the beginning of the end of the American daily, and, in the book, she casts Bob in the role of the last hardboiled foreign correspondent, a guy in a trenchcoat who never uses the first person. The Chicago Daily News had been one of the first to assign correspondents to permanent posts abroad in peacetime, back in 1898. It closed its foreign service in 1976, a year after Bob was helicoptered out of Saigon. The paper folded in 1978.

Tamarkin’s title, “Done in a Day,” refers, of course, to the fall of Saigon. But “Done in a Day” was also the newsroom motto at the Chicago Daily News. The phrase was meant to capture the special ethos of daily journalism. Each issue has to be written in a day (no old news) and to represent a day, the day just past. And then it had to be done all over again tomorrow.

There is a bit of romanticizing here, but it’s a personal story; she’s entitled. The world of the daily reporter is lovingly close-read (which is what English professors do), from the telex machine that was standard technology for getting copy from the field to the editor’s desk, to the use of “-30-” to mark the end of copy and the idea that an article in a daily paper should be literature, written, she says, “like steel” (which is not the way English professors write).

The newspaper theme works with the Vietnam theme because Vietnam was possibly the most covered war in history. At its height, there were nearly seven hundred credentialled journalists in Vietnam. Thirty-three were killed there. And the press was given virtually unlimited access (a big mistake, as American officials realized, and one that has not been repeated). Reporters were allowed to ride on military transports, to eat and sleep with the troops, to tag along on search-and-destroy missions (Michael Herr’s 1977 book “Dispatches” is a harrowing description of what that was like), and to photograph everything (pictures by the French photojournalist Catherine Leroy, recently collected as “One-Way Ticket to Vietnam, 1966-1968,” show how close photographers came to the action).

Television was then the most powerful journalistic medium. Something like thirty million people watched the “CBS Evening News with Walter Cronkite,” every night. Tamarkin cites The New Yorker’s television critic Michael Arlen’s term “the living-room war.” The phrase, which Arlen first used in 1966, is taken to mean that Vietnam was a war people experienced nightly on TV. Arlen did mean that, but, as Tamarkin says, he mean 

more. He meant that the war was the air Americans breathed after 1965, that Vietnam was everywhere. “Vietnam wasn’t the only thing that mattered in American life in those years,” Arlen wrote, “but operatively it mattered most; as long as it was on, it mattered most.”

But why was that? It is a little mysterious how quickly the war became the defining issue in American politics. It was as though everyone was waiting for this shoe to drop. Within three days of the Da Nang landing in 1965, a group of professors at the University of Michigan met to discuss a response. They called for a work moratorium (i.e., a strike, as such campus demonstrations would later more frankly be called), and a meeting was organized for March 24th. Three thousand students showed up. The teach-in began at 8 P.M. and continued all night, though it was interrupted by bomb threats.

Two days later, there was a teach-in at Columbia University. On April 17th, barely a month after the marines landed, twenty thousand people marched against the war in Washington, D.C., in a demonstration organized by Students for a Democratic Society. On May 21st, an antiwar teach-in at the University of California, Berkeley, attracted thirty-thousand people and lasted thirty-six hours. And for four years, the temperature kept rising. Everyone seemed to know from the start that Vietnam was bound to happen and that it would not go well.

Yet between 1950 and 1953, 38,574 Americans had died in Korea, a much higher casualty rate than in Vietnam. That war was not popular, but there were no major “U.S. Out of Korea” demonstrations. Comparatively speaking, sending a few marines to Da Nang was just a spark. Still, it started a conflagration that took years to extinguish and that fractured the American left.

If we wanted to indulge in what historians call “retrospective determinism,” it is easy enough to line up the dots that lead to the last helicopter. On January 27, 1973, the United States and the governments of North and South Vietnam signed the Paris Peace Accords, negotiated by Kissinger, in his capacity as Nixon’s national-security adviser, and the North Vietnamese diplomat Le Duc Tho. Though Kissinger and Tho received the Nobel Peace Prize later that year, Kissinger knew that the accord meant the end of South Vietnam. He did not think that the North would just quit. He was bargaining for what he deemed “a decent interval” between the withdrawal of American troops and the collapse of the South. That way, the United States could abandon the war without losing it.

A key provision of the accords was an agreement for the United States to withdraw its troops in exchange for the release of close to six hundred American P.O.W.s in the North, held in places like the notorious “Hanoi Hilton.” (South Vietnam held thirty thousand P.O.W.s, who were also released. These received less attention.) One of the oldest American P.O.W.s in Hanoi had been shot down in August, 1964, and was incarcerated for eight and a half years. By 1973, the American public had ceased to care about the fate of South Vietnam. But they cared about the P.O.W.s. It was the era of “Tie a Yellow Ribbon.” In terms of domestic politics, whatever deal the American government cut, it had to get the P.O.W.s back. (Later on, the emotional issue was the M.I.A.s.)

The most important parts of the accords, though, were not in the accords. They were in private letters, drafted by Kissinger, that Nixon sent to Nguyen Van Thieu to persuade him to sign the treaty. In the letters, Nixon conveyed “my absolute assurance that if Hanoi refuses to abide by the terms of the agreement it is my intention to take swift and retaliatory action.” The United States, he said, “will respond with full force should the settlement be violated by North Vietnam.” Thieu would not have signed the treaty without that assurance. He is supposed to have said of Nixon, “He is an honest man. I am going to trust him.” Famous last words.

The ceasefire was broken by both sides almost immediately, but in minor ways. The North Vietnamese surely knew of Nixon’s secret promise (they had double agents everywhere), and although they had weathered years of bombardment—the United States dropped more than three times as many tons of bombs than the Allies dropped during the entire Second World War—they did fear the B-52s. They were careful not to push too hard. They also needed time to rebuild their forces.

The initial attack of the 1975 offensive was therefore a test. The North took the provincial capital of Buôn Ma Thuô.t, and then they crossed their fingers and waited. Nothing happened. The Americans did not send the Marines. They did not launch a bomber. The United States was saying, “You guys are Thieu’s problem now,” and the North got the message. They knew that Saigon would not be defended by American ground forces or air power, and that it was ripe for the taking. A campaign they had expected would last two years was over in two months.

As the North bore down on Saigon, Thieu begged for American financial support, but Congress was in no mood to pour more millions into the black hole of Southeast Asia. In a speech at Tulane University, on April 23rd, President Ford announced that the Vietnam War “is finished as far as America is concerned.” The line received a standing ovation. Thieu heard him. On April 26th, Thieu, having stepped down as President, fled to Taiwan.

By April 30th, the South Vietnamese had nothing left. When their new President, Duong Van Minh, offered a transfer of power, the North Vietnamese just laughed at him. “All power has passed into the hands of the revolution,” one of them told him. “You cannot hand over what you don’t have.”

The North Vietnamese had done nothing to interfere with Operation Frequent Wind. Their goal was to get all Americans out of Vietnam, and they were pleased to see the Americans deporting themselves. Afterward, there was no bloodbath. There were executions, mostly of the revenge variety, and not ordered by the politburo in Hanoi. Yet the North Vietnamese were not the ideological comrades of American college students and Jane Fonda. They were genuine totalitarians. Perhaps a million South Vietnamese were arrested, and many of them were sent to concentration camps for “reëducation.” Their families were told that they would be gone for a few days, but some remained there for as many as seventeen years. Meanwhile, between 1975 and 1995, more than three million people from Indochina continued to flee, this time without American assistance, and many on boats launched into the South China Sea. At least two hundred thousand Vietnamese are estimated to have died on the water.

What was the United States fighting for in Vietnam? “Humiliation” is a word that recurs continually in memorandums circulated in the Administration when the decision was being made to send the marines, back in 1965. In March, shortly after the Da Nang landing, an Assistant Secretary of Defense, John McNaughton, wrote a memo assigning relative weights to American objectives in Vietnam. In his view, the principal aim was “to avoid a humiliating U.S. defeat.” He assigned this a weight of seventy per cent. Second, at twenty per cent, was to keep Southeast Asia out of Chinese hands. And the third, at ten per cent, was to permit the people of South Vietnam to enjoy a better, freer way of life.

Another State Department official, George Ball, told Lyndon B. Johnson in late June, “Once we suffer large casualties, we will have started a well-nigh irreversible process. Our involvement will be so great that we cannot—without national humiliation—stop short of achieving our complete objectives. Of the two possibilities, I think humiliation would be more likely than the achievement of our objectives—even after we had paid terrible costs.”

From the beginning, in other words, a paramount American interest in Vietnam was “face.” The important thing was not to lose. “I knew from the start that I was bound to be crucified either way I moved,” Johnson told Doris Kearns Goodwin. “If I left the woman I really loved—the Great Society—in order to get involved with that bitch of a war on the other side of the world, then I would lose everything at home. . . . If I left that war and let the communists take over South Vietnam, then I would be seen as a coward and my nation would be seen as an appeaser and we would both find it impossible to accomplish anything for anybody anywhere on the entire globe.”

Johnson had to do it to show that he could do it. Much like Vietnam, only a lot faster, the American war in Iran has reduced itself to saving face. Within two weeks, the United States was trying to figure out how to end the war without losing it. Meanwhile, people were being killed. ♦ 

NEW YORKER