June 20, 2026

Um passo para tras, dois para a frente

 

 Vini Jr., Matheus Cunha e Paquetá comemoram gol da seleção brasileira contra o Haiti na Copa do Mundo

 

Por Rafael Oliveira

 

A fragilidade do Haiti, que não tem tradição em Copas (retornou após 52 anos de ausência), já era sabida. No entanto, não faz sentido menosprezar, pelo nível do adversário, os 3 a 0 que fizeram o Brasil chegar aos 4 pontos e assumir a liderança do Grupo C. O importante era que o time do técnico Carlo Ancelotti aproveitasse a oportunidade coletiva e individualmente. E isso aconteceu. Mas veio acompanhado de um susto, já que Raphinha reclamou de dor muscular e foi substituído ainda no primeiro tempo 

O atacante sentiu a coxa direita. Há suspeita de lesão. Caso ela se confirme, a CBF já não pode mais promover substituições no elenco. Por isso, o alerta está ligado na comissão técnica.

— Todos nós ficamos preocupados — disse Paquetá.

O Brasil não jogou um futebol à altura do que o público esperava diante de um rival tão fraco tecnicamente, mas encontrou uma forma de atuar e viu Vini Jr. ganhar companhias no protagonismo do time.

A principal delas foi Matheus Cunha. Com dois gols, tirou o peso das cobranças para ser mais goleador e, ao menos nos próximos dias, suspendeu o debate sobre quem deve ser o centroavante da seleção. E fez tudo isso sem abrir mão de suas características, pois atuou como um falso 9 com a mobilidade de sempre. O outro foi Paquetá. O meia tirou a má impressão da estreia e teve participação determinante.

Mas ninguém brilhou tanto quanto Vini. Eleito o melhor do jogo mais uma vez, o camisa 7 mostrou que a boa atuação contra o Marrocos não foi pontual e que pretende fazer uma boa Copa do Mundo. Participou dos três gols, tendo dado uma assistência e marcado o seu.

— Eu vou chegando no nível que quero chegar na seleção. Temos muito o que evoluir. Eu também, claro. Quero fazer muito mais pela seleção — afirmou Vini.

Assim como foi contra o Marrocos, o Brasil mais uma vez começou sem se entender. Muitos erros de passe, falta de intensidade e perdas de bola bobas entregavam um time desatento. O que serve para ligar o alerta, já que se mostra um problema persistente.

Desta vez, contudo, do outro lado havia um adversário muito menos ameaçador. Ainda que bem organizado, o Haiti tinha muita dificuldade de chegar à área brasileira para finalizar. E, à medida que o time de Ancelotti encontrou o seu jogo, passaram a dar muitos espaços para os avanços brasileiros.

A boa notícia aqui é justamente que a seleção não precisou passar por todo um primeiro tempo de horror para depois de fato entrar em campo. É verdade que a fragilidade do Haiti ajudou, mas o importante é que as movimentações e dinâmicas mostraram um caminho, ainda que esta engrenagem precise ser azeitada.

Danilo voltou a ocupar bem a lateral direita. Não se limitou a formar uma saída em três com os zagueiros e subiu diversas vezes, sendo um importante armador para a equipe. Aparentemente, ganhou a posição e justificou a convocação antecipada por Ancelotti.

Douglas Santos foi outro que não decepcionou. Com o Brasil pouco ameaçado, ele inclusive se arriscou mais na frente e quase foi premiado com um belo gol. Depois de muito tempo, as laterais não foram um problema para a seleção nesta sexta-feira.

Outro que aproveitou a fragilidade do adversário para mostrar que pode ser peça do sistema de Ancelotti foi Paquetá. Mais uma vez jogando pelo lado esquerdo, o meia pressionou o adversário, desarmou e lançou ótimas bolas para os companheiros. Ao lado de Bruno Guimarães, outro que estava numa noite afiada, formou uma dupla de armadores promissora.

Não à toa, os dois tiveram participação importante nos gols, mesmo não tendo sido os protagonistas das jogadas. Bruno iniciou a do primeiro, de Matheus Cunha, aos 22 minutos. Já Paquetá começou as dos dois seguintes: o segundo do camisa 9, aos 35; e o de Vini, já nos acréscimos da etapa inicial.

A exceção ali no meio de campo foi Casemiro. Mesmo diante de um adversário limitado, o volante teve momentos de dificuldade, resumidos no drible desconcertante sofrido ainda no primeiro tempo.

Na etapa final, o placar até poderia ter ficado mais largo, mas a verdade é que a seleção não produziu para isso. As muitas trocas fizeram a eficiência cair. A exceção foi Martinelli, que jogou bem.

As entradas de Rayan, ainda no primeiro tempo no lugar de Raphinha, e de Endrick encheram o torcedor de expectativa. Os primeiros segundos do ex-Vasco na Copa foram acompanhados do funk que leva seu nome sendo cantado pelo público. Já o momento em que o camisa 19 pisou no campo e foi anunciado pelo locutor representou uma catarse no estádio da Filadélfia. Quase como um gol.

A verdade é que a participação dos dois xodós da torcida foi de coadjuvante. Não que isso seja um grande demérito, já que eles entraram num time já muito modificado. E, ainda assim, quase protagonizaram o lance do que seria o quarto gol, com assistência de Rayan e conclusão de Endrick. Só que o camisa 19 estava impedido.

— Estava meio ansioso, mas depois que entro em campo, que toco pela primeira vez na bola, esse peso sai — disse Rayan. 

O GLOBO 

 

 

June 19, 2026

Entre a paz e a hecatombe

 

 Homem de perfil com cabelo curto encaracolado e barba rala fala em microfone, com fundo azul desfocado. Ele é o lateral Danilo, da seleção brasileira de futebol.

Eu gostaria de escrever esta frase em relação à partida do Brasil contra o Haiti na Copa do Mundo: "Vai ser uma moleza!".

E escrevi, mas sem convicção. Em outros tempos, o Haiti seria uma barbada. A dúvida, só uma: goleada de quanto? Hoje, a tendência é que não seja. Nem barbada, nem goleada.

A seleção brasileira entra em campo nesta sexta contra os haitianos, na Filadélfia (EUA), pela segunda rodada do Mundial, extremamente pressionada. Mais que o resultado (1 a 1), o desempenho contra Marrocos, na estreia, foi insatisfatório. Pífio.

A primeira meia hora dirão que é para esquecer, de péssima que foi, com os marroquinos fazendo os brasileiros correrem a esmo, sem ver a cor da bola. Eu digo que é para lembrar, fazer dessa meia hora um aprendizado e buscar fórmulas para impedir a repetição

Nesse quadro de pressão, o Brasil, possivelmente modificado em comparação ao 11 inicial que foi a campo em Nova Jersey, enfrentará uma retranca, um paredão com nove, dez jogadores, o time todo, à frente do goleiro Placide .

Hora do italiano. Treinador com salário astronômico (R$ 5 milhões por mês), Carletto Ancelotti precisa ter treinado os brasileiros a executarem jogadas que derrubem essa parede, ou que a contornem, ou que a saltem. Está lá para resolver pepinos.

Não servirá de desculpa para inoperância o adversário jogar fechado. Sabe-se de véspera que será assim. Bola com o Brasil, marcação forte e atenta do Haiti. Que, caso consiga roubá-la, partirá em velocidade no contra-ataque.

O roteiro está previsto. O Haiti tentará repetir o que Cabo Verde, um calouro em Copas, fez com êxito diante da Espanha, que sem criatividade e rapidez e com um futebol burocrático, de toquinhos laterais, objetividade e ousadia mínimas, facilitou para a zebra: 0 a 0.

Cotado para entrar na lateral direita, Danilo afirmou ter visto os cabo-verdianos "deixarem a vida em cada bola, irem além até da saúde" para fazer "um papel bonito na Copa contra uma seleção favorita". É de esperar que os haitianos ajam da mesma forma contra o Brasil.

A mensagem de Danilo é esta: com técnica superior, é preciso ter mais disposição, mais garra que o adversário. Muita gente questiona o comprometimento desse time, desconectado do povo brasileiro porque a maioria dos atletas atua fora, em grandes ligas europeias ou não (tem dois na Rússia, tem dois 

Difícil torcer para quem às vezes nem se conhece. Para Ibañez. Para Igor Thiago. Para Douglas Santos. Tostão pediu o Endrick. O Brasil pediu e pede o Endrick. Pois sabe quem é o Endrick.

O Endrick estava doido para jogar contra Marrocos. O ataque do Brasil, débil, clamava por ele. E Ancelotti nada, manteve o garoto no banco. Uma tola ancelottice.

Na sua idade, 67 anos, Ancelotti não pode ser tolo. Não quer começar com o Endrick? Jogo encrencado, bote-o no intervalo.

Ancelotti há de prezar pela paz para a seleção (e consequentemente para ele). Ela virá, em dose maior ou menor (somos exigentes!), com uma vitória sobre o Haiti.

Empatar ou perder (de um rival batido 100% das vezes pelo Brasil, três goleadas, 17 gols a favor e 1 contra) significará uma hecatombe, um dos piores pesadelos –só que estando acordado.


FOLHA 

 

É dificil reconhecer a verdade sobre a seleção brasileira

 

 Seleção treina antes do jogo contra o Haiti

 

Fernando Kallás
 
 

Eu não sei você, mas eu não estava preparado para cair na real que o Brasil desceu de escalão. Por mais que soubesse que o ciclo foi lamentável, que a seleção bateu recordes negativos, sofreu contra rivais mais fracos, se classificou aos trancos e barrancos e ainda por cima gastou uma valiosa vaga no elenco para levar um Neymar lesionado em uma decisão em que parece ter pesado mais a fé do que a tática, quando o Brasil aterrisou Mas se o primeiro tempo contra o Marrocos foi um toque de despertar, a entrevista coletiva do Danilo na quarta-feira foi um balde de água fria jogado na cara daqueles, como eu, que não quiseram acordar mesmo depois de todos os sinais.

Danilo é muito lúcido falando, mas eu não sei se estou preparado para essa lucidez se o papo é seleção brasileira. Porque dói, cara. É muito difícil reconhecer o estado em que a seleção se encontra, principalmente quando a explicação quem dá é um dos líderes do time que reconhece, sem titubear, que o Brasil, hoje, está um nível abaixo da concorrência.

“Temos que ser claros: nós não temos a maturidade que uma equipe como a França ou a própria Argentina tem hoje,” Danilo disse. E, para piorar, ele reconheceu que o Brasil não tem, hoje, a capacidade de jogar de igual pra igual como as principais seleções dessa Copa: “As nossas ferramentas têm que ser diferentes... Talvez ficar um pouco mais baixo, talvez não pressionar tanto, talvez aceitar em algum momento que a posse de bola e o comando do jogo possam ser do adversário...”

Longe de mim querer filosofar sobre preferir perder jogando como time grande a ganhar como time pequeno, mas não deixa de ser chocante ouvir do líder da seleção brasileira que a camisa mais pesada do mundo, a do jogo bonito, de Pelé, Garrincha e Ronaldo, já não tem o mesmo pedigree. Que o Brasil perdeu hierarquia como seleção e que precisa pensar seriamente em jogar na retranca, no contra-ataque, para poder ter uma chance de conseguir ganhar o hexa esse ano.

Hoje o Brasil enfrenta o Haiti com a obrigação de reconhecer suas limitações e não utilizar esse jogo contra um rival teoricamente fraco para tentar mascarar as fraquezas. Porque o resultado de hoje provavelmente não importa muito. Mas me preocupa quando ouço o Ancelotti dizer que “a Copa não se ganha no primeiro jogo” e que “a estreia não irá determinar o resultado final da Copa”.

A Espanha em 2010 e a Argentina em 2022 são exemplos de como importa, e muito, aprender com um toque de atenção na estreia da Copa. Sempre e quando se tem a lucidez, ou, como o Danilo repetiu várias vezes, a maturidade de entender que o começo condiciona o caminho que você percorre. Até porque não existe uma regra de como lidar com a derrota.

Vicente del Bosque quase não mexeu no time que perdeu para a Suíça na estreia da África do Sul. Já Lionel Scaloni fez cinco mudanças depois de perder para a Arábia Saudita. Ancelotti precisa encontrar o seu caminho. E o primeiro passo é hoje contra o Haiti.em Nova Jersey eu fui tomado por aquele otimismo inocente, aquela febre de Copa que é gostoso sentir e que faz parte da identidade como brasileiros. Que a camisa canarinho mete medo antes mesmo de a bola rolar e que não existe outro resultado aceitável para o Brasil em uma Copa do que o título.

O italiano já sabia que teria pela frente um dos rivais mais difíceis, senão o mais difícil que qualquer cabeça de chave poderia enfrentar. E, para piorar, na estreia.

O técnico da Espanha, por exemplo, já falou claramente que pode poupar vários titulares, inclusive a grande estrela Lamine Yamal, na estreia contra o fraco Cabo Verde. Não duvido que a Argentina, cheia de jogadores cansados e lesionados, também pegue leve na estreia contra a Argélia. Portugal pega a RD Congo; Alemanha, Curaçao.

Já Ancelotti pega a grande surpresa da última Copa, o time que eliminou Portugal e Espanha antes de perder para a França na semifinal, e que venceu o Brasil em uma noite que, para eles, foi memorável. E para nós, quase humilhante.

Foram dias estranhos aqueles que vivi de perto em Rabat, em março de 2023, acompanhando a seleção antes da derrota por 2 a 1 para o time da casa. Quando aquele amistoso foi anunciado, lembro muito bem as conversas com colegas jornalistas que também cobrem a seleção, todos meio sem entender muito bem por que a CBF tinha se metido naquela que parecia uma tremenda roubada.

Tite tinha deixado o comando, e o Brasil não tinha técnico. Cruzar o Atlântico com o treinador da seleção olímpica para ser o arroz da festa do Marrocos, no que seria o primeiro jogo deles na frente da torcida depois da campanha histórica no Catar, era algo meio surreal.

E tinha a tensão adicional do então presidente Ednaldo Rodrigues estar disposto a tentar persuadir Ancelotti a deixar o Real Madrid para assumir a seleção. Eu, inclusive, não fui ao Marrocos para cobrir o jogo. Minha única intenção, como repórter da Reuters, era convencer Ednaldo a falar sobre isso pela primeira vez diante de uma câmera. E consegui a exclusiva que caiu como uma bomba na Europa. Era o presidente da Confederação Brasileira de Futebol reconhecendo pública e abertamente que queria um treinador estrangeiro que tinha contrato vigente com o maior clube do mundo... Era o começo de uma novela que primeiro parecia impossível, foi ridicularizada e, dois longos anos depois, acabou se concretizando, mas às custas de um abandono da seleção brasileira que pode ter consequências na busca pelo hexa nos EUA.

E o primeiro capítulo do que foi o pior ciclo de Copa daquela que, um dia, foi a maior e mais respeitada seleção do planeta começou lá em Rabat. Foi uma noite mágica para o time da casa e para os torcedores locais, porque coincidiu com o fim do mês sagrado do Ramadã, o chamado na fé muçulmana de Eid al-Fitr, quando os fiéis terminam o período de jejum e penitência com júbilo. A partida foi posta num horário acorde com a celebração. Foi lindo de ver como observador, mas estava na cara que era uma cilada a que o Brasil foi irresponsavelmente exposto.

Graças a derrotas como aquela, a seleção foi perdendo uma das coisas mais difíceis de recuperar no futebol: a hierarquia. Aquele respeito, receio que os rivais sempre tiveram quando viam do outro lado a mística camisa amarela.

Vini Jr., Casemiro, Paquetá e Ibañez estavam em campo naquela derrota e, amanhã, terão a oportunidade de recuperar, dentro de campo, essa hierarquia, esse respeito. E mostrar que nada disso está perdido, que o Brasil é apenas um gigante adormecido. 

O GLOBO 

 

 

Ancelotti confia em Raphinha em meio a dilema

 



Diogo Dantas  e 
Rafael Oliveira

 Nove atacantes convocados, incluindo Neymar como cereja do bolo. O setor que parecia mais bem servido e resolvido nas mãos de Carlo Ancelotti virou o grande dilema da seleção brasileira em plena Copa do Mundo. A equipe chega para o duelo de hoje, contra o Haiti, às 21h30, na Filadélfia, com mais dúvidas do que certezas na parte ofensiva.

Além de Vinicius Junior, destaque no empate da estreia com o Marrocos, Raphinha ainda é a outra convicção de Ancelotti. O atacante do Barcelona, porém, é um dos focos de questionamento sobre o poderio ofensivo do Brasil, que vive uma espécie de crise de fartura e espera aproveitar a fragilidade do adversário para superar a desconfiança. E, se depender do treinador, o camisa 11, que não sairá para a entrada de outras soluções, segue intocável:

— Raphinha pode jogar em todas as posições na frente. Jogou na direita, depois na esquerda, sempre jogou bem, e ele tem toda a confiança do mundo. Para mim, é um dos melhores jogadores do mundo — sentenciou Ancelotti, respaldado por alguns números.

Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira, em coletiva de imprensa na véspera do jogo com o Haiti — Foto: Rafael Ribeiro / CBF
Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira, em coletiva de imprensa na véspera do jogo com o Haiti — Foto: Rafael Ribeiro / CBF

Mais intensidade que Vini

Criticado pela atuação na estreia, Raphinha foi quem mais deu intensidade ao time, com 80 sprints acima de 20km/h e total de 11,7 quilômetros percorridos, líder no quesito. Vini, por exemplo, teve 20 sprints a menos e percorreu 10,1 quilômetros, mas atingiu velocidade máxima mais alta, 34,1km/h contra 33,1km/h, além de ter feito o gol de empate. Além disso, o mapa de calor do camisa 11 exibido pela Fifa mostra um jogador se movimentando por todos os espaços do setor ofensivo. Não houve, porém, chances claras. Só um chute no gol. Nos passes, o camisa 11 também pecou, com 66% de acertos.

A versatilidade de Raphinha fez Ancelotti alterar o esquema com quatro atacantes para três homens de meio-campo, mas as peças bateram cabeça na estreia. Desde então, o técnico italiano ensaiou retomar o plano inicial e dobrar a aposta na convicção exibida ao longo de mais um ano no comando da seleção. E ela tinha como pilares do ataque Vini e Raphinha. O problema é que o jogador do Barcelona — ainda intocável — virou uma espécie de contraponto em relação aos jovens que aguardam chance, especialmente Endrick.

Autor do gol do Brasil no empate da estreia com o Marrocos, Vinicius Junior é outro intocável de Ancelotti — Foto: Jewel SAMAD / AFP
Autor do gol do Brasil no empate da estreia com o Marrocos, Vinicius Junior é outro intocável de Ancelotti — Foto: Jewel SAMAD / AFP

O 'anti-Endrick'

O jovem de 19 anos poderia jogar como atuou no Lyon na última temporada e ocupar o lado direito, mas é ali que Raphinha costuma começar as partidas. Nos últimos dias, Ancelotti esboçou possibilidades para que Raphinha caia mais pela esquerda, como joga na Espanha, o que o faria se aproximar de Vini Jr. Do lado direito, Luiz Henrique foi observado no começo da semana, assim como Rayan. O italiano também revezou Igor Thiago, Matheus Cunha e Endrick por dentro. As peças no entorno se movem, e Raphinha segue sendo um coringa para que o Brasil renda mais coletivamente, o que o faz sofrer mais resistência da torcida, que quer chance para Endrick.

Atacante Endrick em treino da seleção brasileira nos Estados Unidos — Foto: MAURO PIMENTEL / AFP
Atacante Endrick em treino da seleção brasileira nos Estados Unidos — Foto: MAURO PIMENTEL / AFP

Histórico de outra Cop

A resistência de parte da torcida a Raphinha não é recente. Ela ganhou força após a entrevista concedida a Romário antes do clássico contra a Argentina, quando afirmou que daria "porrada" nos adversários se fosse necessário. A declaração repercutiu negativamente após a derrota por 4 a 1 para os argentinos, ainda nas Eliminatórias.

Mais recentemente, o atacante voltou a gerar críticas ao comentar o Mundial de Clubes. Em entrevista durante as férias europeias, Raphinha lamentou a redução do período de descanso dos jogadores em razão da competição. Embora a fala estivesse relacionada ao calendário, ela foi interpretada por parte dos torcedores brasileiros como um menosprezo ao torneio, que despertou grande interesse no país.

Mas o desgaste de imagem vai além de episódios pontuais. Raphinha simboliza para parte da torcida uma frustração esportiva que se arrasta há anos. Quando surgiu na seleção durante o ciclo para a Copa do Mundo de 2022, o atacante parecia destinado a assumir protagonismo. Atuações como a da vitória sobre o Uruguai, quando marcou dois gols e foi um dos destaques da equipe, alimentaram a expectativa de que o Brasil havia encontrado uma nova referência ofensiva.

A Copa do Catar, porém, representou uma ruptura nessa trajetória. Apesar de ter participado dos cinco jogos da campanha brasileira, Raphinha terminou o torneio sem marcar gols ou dar assistências. O desempenho discreto contrastou com a expectativa criada nos meses anteriores e marcou o início de uma cobrança que aumentaria no ciclo seguinte.

Nas Eliminatórias para a Copa de 2026, disputadas em meio a uma das piores campanhas da história recente da seleção, o atacante também não conseguiu reproduzir o nível exibido na Europa. A dificuldade em transferir para o Brasil o protagonismo que exerce em seu clube passou a ser uma das principais críticas ao camisa 11. O contraste é evidente. Pelo Barcelona, Raphinha se consolidou como um dos melhores jogadores do mundo, sendo apontado por muitos como merecedor da Bola de Ouro de 2025 e mantendo papel decisivo na temporada seguinte. Na seleção, entretanto, a influência nunca alcançou o mesmo patamar.

A expectativa da comissão técnica e da torcida era que ele assumisse, ao lado de Vini Jr., a liderança da nova geração ofensiva da equipe. Ao longo dos últimos anos, foi testado em diferentes funções e setores do ataque na tentativa de potencializar suas características. Ainda assim, o rendimento ficou aquém do esperado. O jogador que decide partidas de Champions League e conduz o Barcelona em grandes noites europeias ainda busca uma atuação capaz de produzir impacto semelhante com a camisa da seleção brasileira.

Contra o Haiti, porém, parece o jogo ideal para Raphinha e o Brasil deslancharem na Copa do Mundo.


O GLOBO

Cristiano Ronaldo looks a sad shell of the great footballer he once was

 




In many ways, it’s not really his fault.

If you were indulged and told you could do something for long enough, even though the evidence is pretty clear that you can’t anymore, you would probably try to keep doing it too.

If you were consistently picked by a manager who ignores the obvious, you might think you still have it.

If you walked into a stadium full of people, many who have come to specifically see you and one of whom made a sign that said “With or without the World Cup, you will always be my GOAT”, you might think you were still worth seeing.

Cristiano Ronaldo is still worshipped by his fansJoe Buvid/ISI Photos/ISI Photos via Getty Images

It’s hard to let go. Especially when there’s always another milestone to reach for. Another tournament to play in. A thousand career goals to reach. And especially when your peers and old rivals are still doing it.

But Cristiano Ronaldo can’t do it anymore. Or at least, he can’t do it to anywhere near the standard required for Portugal, a team who, in theory, are among the favourites to win the World Cup.

        For just over an hour of Wednesday’s 1-1 draw against DR Congo in Houston, Ronaldo basically did nothing. It wasn’t even as if he was doing things badly, rather that he wasn’t doing them at all. He was a void, a theoretically corporeal being but one that might as well have been a wisp, a spirit of no substance.

There weren’t really any shanked shots, any terrible passes, any egregious errors. Nothing that someone could create a supercut of to put on social media to mock him. Nothing.

Then, after half-time, he had two shots. They were pretty much identical, efforts that went wide of the near post from cutbacks at the byline.

This was the first:

  

… and this was the second:

 

Neither were sitters — although you could argue a prime Ronaldo would have gobbled them up — and the first was from a pass that was behind him and very difficult to direct goalwards.

The second was slightly more symbolic, in that if he had let it run then Bruno Fernandes, who was right behind him, would’ve had a clearer effort on goal.

It was something Thierry Henry picked up on Fox Sports. “The team needs to score. You don’t need to score,” Henry said, suggesting Ronaldo is putting himself above the team. “If he goes into the six-yard box, it would have been a tap-in for Bruno Fernandes.”

Then after that … nothing again.

The most telling moment was arguably not either of those two missed chances, but one shortly afterwards when a cross came over from the right with Ronaldo at the far post. It looked like a decent ball, the sort that he used to rise magnificently to head home. This time he didn’t rise. In a literal sense: he just didn’t jump. Because he can’t anymore? Because he didn’t want to? Who knows.

The ball was cleared by DR Congo defender Chancel Mbemba, in what turned out to be a routine header away from a guy who used to be Cristiano Ronaldo.

Shortly after those chances, thousands of the Portugal fans in the stadium began singing Ronaldo’s name, trying to rouse him, trying to manifest one of those great moments he used to produce. He encouraged the chants, maybe trying to manifest something himself. But he couldn’t.

At the moment, the only convincing argument for Ronaldo’s presence is that he creates a distraction, something for his team-mates to take advantage of. “A lot of the game he’s standing in an offside position,” said Wayne Rooney on the BBC, as in the example below where Ronaldo is circled.

“That’s not him being lazy, that’s him being very clever. He’s making the DR Congo defence have to search for him, which is creating space for his team-mates. But it also means that when the ball goes out wide he can get back in an offside position and cause real problems.”

The trouble being that he isn’t causing any of those problems. Because he can’t do it anymore.

And the opposition know it, too. After the game, the DR Congo players were too sensible or respectful to say that outright, but it’s clear they know.

“We know he isn’t the same as before, so we knew he would run less,” said midfielder Ngal’ayel Mukau. “I expected maybe a bit more from him, but it’s normal, he’s a bit older. It’s an honour to play against him.”

Again, Ronaldo is not necessarily the one to blame for this. After the game, Roberto Martinez doubled down on not just selecting him but leaving him on for the full 90 minutes. “In a game like this, where it was difficult to break down the penalty area, it’s crucial to utilise Cristiano’s skills,” he told the media. “It wouldn’t make sense to take off the best goalscorer in football history in a match where we need to score goals.”

He didn’t really mean to, but he said the magic word in there: history. Ronaldo is the past. And it’s not new; it’s not as if Martinez couldn’t have seen this coming: this was the 10th major tournament game in a row in which Ronaldo has failed to score.

If Martinez wanted to take him as a sort of mascot, who the rest of the players were in awe of and could either inspire them or provide a ‘break glass in case of emergency’ late option off the bench — as Carlo Ancelotti has done with Neymar — or even as a specialist penalty taker, then that would be justifiable.

But he’s continuing to pick a 41-year-old who walks around for most of the game and doesn’t really provide a goal threat, as the spearhead to one of the most talented groups of wingers and midfielders in the World Cup. It’s impossible to think that, had Ronaldo been suspended as a result of the red card he got against Ireland in their penultimate qualifier, rather than receiving an inexplicable pardon for two of his three-game ban, it would have been better for Martinez and Portugal.

All of this was particularly acute when compared to what happened on Tuesday, when the biggest stars delivered with some gusto. Erling Haaland scored twice for Norway. Kylian Mbappe scored twice for France. And of course, the great looming spectre, the other half of the greatest individual rivalry in the game’s history, Lionel Messi scored a hat-trick for Argentina.

After the final whistle, Ronaldo began to walk, slowly, straight for the tunnel. Halfway there he paused, turned back and shook hands with some team-mates and some opposition players. Then he turned again and completed his journey off the pitch.

A few of his colleagues were not far behind, but they were called back to the centre circle, from where most of the Portugal squad applauded their fans. But Ronaldo was already gone, down into the bowels of the stadium. There’s no suggestion that he actively ignored his team-mates and by extension the fans, but he was just … gone, on his own, no use to his colleagues. As metaphors go, it’s not an especially subtle one.

In many ways, it’s not really his fault. But he can’t do it anymore.

THE NEW YORK TIMES 


Do legends like Lionel Messi get treated differently by referees?

 


By Graham Scott

Yes, superstar players receive preferential treatment from referees, although nothing like as much as many fans seem to think.

But something else is also true: anything these players do on or off the field receives such a disproportionate amount of attention that it is impossible for them to receive a fair trial.

Lionel Messi’s clumsy/careless/reckless/downright dangerous tackle (readers, please delete as appropriate) on Algerian defender Aissa Mandi in Tuesday’s World Cup match is a case in point, maintaining what some observers see as a trend of the Argentine getting away with offences lesser mortals would be punished for.

Few referees would have dismissed him for the challenge — not because it was Messi but because there was no intent or intensity in his actions. Bear in mind that the ref was Szymon Marciniak, who was in charge of the 2022 World Cup final. We are not talking about a novice.

Check out the reactions of the Algerian players, none of whom saw any malice. Footballers spring to the defence of a team-mate who is harmed deliberately and nowadays are drilled to cause a fuss to ensure the VAR takes a long, hard look at the replays.

Lionel Messi was not even booked for this foul on Aissa MandiTom Weller/picture alliance via Getty Images

The collective shrug of Algerian shoulders would have been one of the considerations in the video review room, given that VARs the world over are lambasted for delaying the game when no one on the pitch seems interested in overturning the on-field decision. You may not like that, but it’s true.

If you want a more clinical process with more consistent outcomes, you’ll have to tolerate longer delays and leave officials in peace to make their judgements. I don’t see that happening any time soon.

On replay, the decision is more challenging, because there is no doubt that Messi’s studs are planted into Mandi’s calf. It looked painful, and his reaction appeared genuine.

Some VARs may have recommended an on-field review due to the potentially serious consequences of the tackle, which seemed to put Mandi at risk of injury. To that extent, Messi was fortunate, as the referee may have reached for his red card if shown slow-motion replays of the contact on the pitch-side monitor.

For a player to receive a straight red card for serious foul play, there must be evidence that they endangered their opponent’s safety or used excessive force.

Watching in real time, the referee would have seen no such thing. The contact looked incidental and accidental, not forceful and deliberate, and a free kick sufficed. Sure, Mandi was hurt, but he did not require treatment, making it harder to build a case for a red card.

I appreciate that some will interpret this analysis as a charter for players to feign the extent of an injury (which many already do) and surround the referee aggressively to get their opponent sent off (ditto).

But the world’s top officials are smart enough to recognise the difference between a player who is in actual pain or writhing around like a mid-tantrum toddler, and to distinguish between organic anger and confected rage.

If I had been refereeing, I would have joined Marciniak in awarding a free kick only. I would have been mistaken, but only because it should have been a yellow card.

Had I been on VAR duty, much would depend on the first replay I was shown, as this has a major impact on the final outcome. The protocol in England is to watch such challenges at full speed from a wide angle first to assess the nature of the tackle. On that basis, it is highly unlikely that I would have been tipped into an intervention based on the still images and high-definition replays.

I’d like to think that the result would have been the same if the roles were reversed, and Messi had been on the receiving end. That’s highly likely, but I could not look you in the eye and say so with certainty.

Referees are charged with employing strict impartiality, but at the same time are expected to be more forgiving of offenders who are ‘not that kind of player’ while not prejudging those with reputations, however well deserved.

In relation to superstars, officials can be damned either way. Some believe this level of debate only occurs because of the player’s fame; others will point out that you can’t have one set of rules for one footballer, and another for one who is less celebrated. Both arguments have substance.

The extent to which referees are swayed or even intimidated by the identity of a guilty player varies from one official to another. The very best can set all prejudice aside and judge each incident on its merits and in context, and every ref will swear that they are always striving to do so.

But there are few officials who can achieve this goal absolutely, as all know that the scrutiny that will follow an incorrect red card shown to a legend of the game will be unbearable. We’re only human.

Consider the treatment of my former colleague Michael Oliver, whose wife was bombarded with hateful text messages after he sent off Italian great Gianluigi Buffon. Being right did not save him, or her for that matter.

Any bias, subconscious or otherwise, is in the margins, and relates to decisions that could go either way. I am confident that Marciniak would have made the same call even if Messi had been on the receiving end of the same tackle.

Such is the cult of personality surrounding players such as Messi and Cristiano Ronaldo, rational debate is impossible. YouTubers, TikTokers and other online commentators will not be amassing clicks for exploring nuance, only for taking sides.

In the wake of Tuesday’s incident, there was a rush to dredge up footage or photos of Messi’s handball against the Netherlands in the 2022 World Cup quarter-final in Qatar — a very clear deliberate handball which was not punished by a yellow card.

Messi was not booked for this handball against the Netherlands in 2022Richard Heathcote/Getty Images

That call was also in the margins, as the offence did not prevent the Dutch from launching a promising attack, but could easily have led to a caution as it was so cynical. As a result, Messi was free to commit a foul for which he was booked, safe in the knowledge he would only be receiving his first caution.

Messi’s foul on Tuesday carried more shades of grey, although most people will only have it on a slow-motion replay or a still image, rather than live, and their conclusions would have been drawn accordingly.

If only players would back up their oft-quoted claim that all they want is for referees to get decisions ‘right’ by giving us space to do so, rather than surrounding, hounding and intimidating them in an attempt to beat us into submission.

Wishful thinking, I know.