Quando o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, 71, apareceu brevemente em público para cumprimentar cidadãos em um recente comício anti-Israel, outro membro de sua família também estava lá.
Yousef Pezeshkian, 44, seu filho e assessor, não via nem falava com o pai desde que Israel e os Estados Unidos iniciaram a guerra em 28 de fevereiro e a liderança iraniana passou a operar na clandestinidade. Ele esperava conseguir vê-lo de relance.
O filho, que tem doutorado em física e é professor universitário, tem mantido um diário da guerra publicado no Telegram com reflexões tanto pessoais quanto políticas. Os textos oferecem um raro vislumbre de como as figuras políticas do Irã estão lidando com a guerra que se intensifica —e se aproxima deles. E talvez inadvertidamente, Yousef às vezes leva seus leitores para dentro das discussões e deliberações internas da cúpula iraniana.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, no aniversário da Revolução Islâmica, em fevereiro de 2026, semanas antes do início da guerra - 11.fev.26/West Asia News Agency via Reuters
Enquanto os líderes iranianos têm projetado desafio em declarações públicas, o filho do presidente escreve sobre o medo por trás da fachada, à medida que múltiplos líderes são alvejados e mortos em bombardeios israelenses.
"Acho que algumas figuras políticas estão em pânico", escreveu no sexto dia da guerra, no início de março. "O povo é mais forte e mais resiliente do que nossos especialistas e líderes políticos. Temos que continuar nos lembrando de que a derrota só virá quando nos sentirmos derrotados."
Ele se preocupa com o pai e disse que ele e seus dois irmãos mal podem esperar pelos dois anos restantes da Presidência para que "todos possamos voltar às nossas vidas normais".
À medida que o Irã entra na quarta semana de guerra, com líder após líder sendo morto, os que restam recuaram para locais que esperam ser seguros. Os ataques aéreos israelenses e americanos já mataram o ex-líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e eliminaram toda a sua cadeia de comando militar: Ali Larijani, o chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional e governante de fato do Irã, e o chefe do Ministério da Inteligência, Esmaeil Khatib, entre outros.
Yousef escreveu em seu diário que proteger a vida das autoridades se tornou a prioridade número um para o país. Parar os assassinatos seletivos, disse ele, "agora é uma questão de honra".
Ele relatou ter participado de uma reunião com autoridades do governo na primeira semana da guerra, na qual surgiram questões sobre estratégia. "A maior divergência séria que temos é: por quanto tempo devemos lutar?", escreveu ele. "Para sempre? Até que Israel seja destruído e a América recue? Até que o Irã esteja em ruínas completas e nos rendamos? Temos que estudar os diferentes cenários."
O filho do presidente não respondeu a um pedido de comentário do New York Times. Dois funcionários iranianos e um ex-alto funcionário que o conhecem e trabalham com ele na administração de seu pai disseram que as páginas de redes sociais eram autênticas e que ele escrevia as entradas e gerenciava as contas. A mídia iraniana às vezes faz referência aos seus escritos.
Nos diários, ele diz que continua recebendo mensagens sobre a guerra não apenas de amigos e conhecidos, mas também de estranhos. Ocasionalmente, disse ele, "as mensagens pedem que nos rendamos e devolvamos o poder ao povo", uma noção que ele descartou como "ignorante e delirante".
Ele disse que se preocupava que os ataques do Irã a países árabes em retaliação aos ataques americanos e israelenses pudessem sair pela culatra. "É tão triste que, para nos defendermos, tenhamos que atacar bases americanas em países amigos", escreveu. "Não sei se eles vão entender nossa situação ou não."
A capacidade de Israel de caçar altos funcionários em seus esconderijos secretos abalou os líderes iranianos e causou ansiedade sobre quem pode ser o próximo e como as perdas podem ser absorvidas, de acordo com três altos funcionários iranianos que pediram anonimato.
Algumas perdas pesam mais do que outras. Larijani, por exemplo, tinha poder e influência singulares em diferentes facções políticas e dentro do aparato de segurança e militar. Ele era visto como uma figura que poderia ser capaz de dialogar com o governo Trump em negociações de cessar-fogo.
Muitos se perguntam quem está agora comandando o país na ausência de Larijani. Mojtaba Khamenei, que sucedeu seu pai, Ali Khamenei, como líder supremo, permanece fora de vista. r
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Os três altos funcionários iranianos disseram que o país estava atualmente sendo governado por um comitê. Comandantes da Guarda Revolucionária estão liderando os esforços, com o general Ahmad Vahidi, seu recém-nomeado comandante-chefe, conduzindo o lado tático da guerra.
Um membro do círculo íntimo de Khamenei, o general Mohammad Bagher Ghalibaf, tem discretamente substituído Larijani. Ex-comandante da Guarda que agora é presidente do Parlamento, ele está encarregado das decisões estratégicas.
Masoud Pezeshkian e seu vice-presidente, Mohammad Reza Aref, estão encarregados da administração cotidiana do Estado para garantir que ele continue funcionando, disseram os funcionários. Eles disseram que generais aposentados, junto com ex-funcionários e gestores, foram chamados de volta ao serviço.
Analistas dizem que o sistema de governo do Irã evoluiu para um ecossistema resiliente de instituições sobrepostas. Uma rede de líderes, funcionários públicos leais, quadros militares e soldados civis e de defesa se mobilizou não apenas para manter o governo da República Islâmica, mas também para continuar travando a guerra.
Eliminar o escalão superior da liderança não levou a um colapso. Mas, em seu diário, Yousef Pezeshkian diz que, a menos que o Irã consiga parar os assassinatos seletivos, "perderemos a guerra".
Ele também compartilhou algumas anedotas sobre sua vida pessoal. Ele fala sobre colorir com seus filhos, levá-los para brincar no parque, comprar balões para eles. Ele escreve sobre encontrar um amigo para uma longa caminhada no parque e sua determinação de se exercitar para manter sua resistência mental.
Uma vez, disse ele, recebeu uma mensagem misteriosa direcionando-o a comparecer a um endereço. Ele entrou em pânico, suspeitando de uma armadilha israelense. Depois de verificar com a segurança, disse ele, percebeu que era apenas um convite de iftar de amigos para quebrar o jejum do Ramadã com eles.
Neville
D'Almeida mesclou como poucos no Brasil, nas últimas seis décadas, a
vanguarda nas artes plásticas, os filmes experimentais e o cinema
popular. Aos 84, sempre provocador, ele fala da formação religiosa e
cinematográfica, relembra as parcerias com Hélio Oiticica, Júlio
Bressane e Rogério Sganzerla, dispara contra o cinema brasileiro atual e
se diz excluído por amarras ideológicas e visões tacanhas do mercado.
No jardim, Pandora mordeu a bola de borracha e correu até Neville D’Almeida.
O cineasta repetiu o arremesso e não tardou a me passar a tarefa. Dando
voltas, a cadela da raça border collie latiu outra vez, à espera da
bolinha, e obrigou o dono a deixar a varanda. "Só vai ficar quieta se a
gente jogar 90 vezes", ele avisou em sua casa na Ilha da Gigoia, onde
reside há 25 anos, no Rio de Janeiro.
Chega-se à ilha depois de uma viagem de três minutos de barco,
partindo da estação Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca. Neville não
estava à minha espera. Às 10h, ainda despertava. Meia hora mais tarde,
num bar, apareceu vestido à perfeição, mas sem o lenço no pescoço,
charme cultivado desde a adolescência.
Há 60 anos, ele estreou com o curta "O Bem Aventurado" (1966), rodado
em Belo Horizonte, sua cidade natal. O título unia as suas duas escolas
da juventude: a cinefilia e a cultura bíblica. "Eu saí de casa para a
igreja, pela primeira vez, aos 15 dias de vida [em 1941], no colo da
minha mãe. Fui criado na Igreja Metodista", ele disse.
O cineasta Neville D’Almeida segura ampliação de uma foto sua nu,
feita por Juliane Chaves, em sua casa na Ilha da Gigoia, na zona
sudoeste do Rio
-
Eduardo Anizelli/Folhapress
"Nos anos 1960, Belo Horizonte era uma capital cultural. Havia a Revista de Cinema,
que competia com os ‘Cahiers du Cinéma’, e o Centro de Estudos
Cinematográficos. Essa foi a minha escola. Cyro Siqueira, Fritz Teixeira
de Salles e Jacques do Prado Brandão eram os críticos mais ativos.
Maurício Gomes Leite apareceu no final".
Protestante, o cineasta mantém as bíblias do pai e da mãe em sua
mesa, além do exemplar pessoal, aberto no Salmo 16: "Guarda-me, ó Deus,
porque em ti me refugio". Em Minas Gerais, Neville presidiu uma
sociedade de jovens metodistas e, por intuição, associou a experiência
religiosa à quebra de tabus sexuais no cinema.
"Jesus foi lá e expulsou os vendilhões do templo. Pegou uma marreta e
quebrou tudo. Esse episódio eu achava muito importante. A igreja, os
salmos, os provérbios, as histórias bíblicas, o pensamento e as cartas
de Paulo abriram a minha mente", disse. "Há uma grande polêmica na
Bíblia. Paulo prega que a fé é o bastante. Se você tem fé, é salvo. Para
Tiago, tem que ter fé e atitude. Não basta ter fé. Eu entro do lado do
Tiago. A formação metodista me levou para o caminho da liberdade."
O celular tocou em seu bolso. "Só atendo se for dinheiro entrando",
sorriu, olhando a tela. "Esse aí é dinheiro saindo. Não vou atender." A
Bíblia permaneceu em sua mão.
"Eu tive uma cultura audiovisual sólida. Quando filmo uma mulher
pelada, não estou pensando na zona, mas em Gustave Courbet, ‘A Origem do
Mundo’. Penso em Jean Renoir, em Gauguin e até em Picasso. Essa é a
minha cultura. Mas, no Brasil, situam tudo na zona. Mulher pelada é
zona, boca do lixo, pecado, Igreja Católica. O negócio é a rejeição ao
talento. O que acontece com o Neville é o problema do talento. Aos 32
anos, fiz a ‘Cosmococa’ com Hélio Oiticica. Tenho um pavilhão no
Instituto Inhotim. O meu talento incomoda."
Os diretores Frank Capra, John Ford, Eisenstein e Jean Cocteau estão entre os seus mestres e inspiraram seu caminho entre as vanguardas e o cinema comercial de Hollywood.
Em 1964, Neville se mudou para Nova York, onde trabalhou como garçom,
frequentou atos políticos e artísticos e reforçou a influência cultural
americana. Os filmes "Jardim de Guerra"
(1968) e o experimental "Mangue-Bangue" (1971), concebidos em seu
retorno ao Brasil, o posicionam entre as grandes realizações do chamado
cinema marginal.
Com fotografia de Dib Lutfi e roteiro de Jorge Mautner,
seu confidente em NY, "Jardim de Guerra" absorveu uma vertigem de
assuntos —racismo, nazismo, tortura, guerrilha, China, Amazônia, urânio,
petróleo, legalização da maconha, feminismo, antimatéria, cocaína, além
do "kaos" e do próprio cinema—, forjando uma poética invadida pelo
imaginário dos anos 1960 e uma crítica à repressão da ditadura militar.
Era o amálgama Neville-Mautner.
"Você também gosta de cinema?", pergunta Maria do Rosário numa cena.
"Gostava. Hoje só assisto a documentários de guerra na televisão. O
resto eu não aguento", diz Edson (Joel Barcelos).
Numa homenagem a Mautner, em março deste ano, na Casa de Rui Barbosa,
no Rio, Neville lembrou ao amigo que também o iniciou no LSD, em NY. "E
como é o sexo com ácido?", quis saber Mautner, à época. "O sexo fica
espetacular", respondeu Neville. "Então eu quero."
Em fevereiro de 1970, a censura da Polícia Federal ordenou 11
cortes em "Jardim" e meteu tesoura nas referências à Amazônia, a Che
Guevara, à revolução na América Latina e à ascensão de uma sociedade sem
classes. Apesar dos entraves, o filme foi exibido na Quinzena dos
Realizadores, mostra paralela do Festival de Cannes de 1969. Décadas
mais tarde, uma cópia integral seria encontrada na Alemanha.
"O filme foi bloqueado, censurado, interditado. Ninguém falou mais
nada. E ninguém mais chamou Mautner pra fazer roteiro. A censura, a
crítica e a classe cinematográfica ficaram contra a modernidade do
filme", disse Neville.
O longa determinou a aproximação com Júlio Bressane e Rogério Sganzerla.
"Júlio era o príncipe herdeiro do cinema novo. Rico, bonito, famoso e
talentoso. E abandonou o cinema novo para o cinema experimental. Eu
trouxe a ideia experimental. Ele ficou impressionado com ‘Jardim’".
Em 1968, Neville atuou em "O Bandido da Luz Vermelha", de Sganzerla,
com quem discutia ideias de diálogos. "Eu e Rogério éramos muito amigos e
combinamos de trocar os roteiros. Ele fez anotações de diálogos que não
aconteceram em ‘Jardim’. Li o roteiro de ‘O Bandido’ e achei que não
precisava mudar nada. Tínhamos uma sintonia de rebeldia."
Neville chegou a morar com Bressane no Leblon e (no autoexílio,
1971-1974) em Londres. "Na Inglaterra, Júlio acordava cedo, e eu
acordava tarde. Então, o Júlio filmava de 8h até meio-dia. E eu filmava
das 14h até as 18h, com o mesmo fotógrafo, Laurie Gane, nosso amigo."
Ambos frequentavam o círculo dos músicos tropicalistas exilados.
A mitologia marginal de Neville envolve o sumiço de filmes, o que
impede uma avaliação completa de seu ciclo experimental. Ele atribui a
perda das cópias de "Piranhas do Asfalto" (1971), "Gatos da Noite"
(1972) e "Surucucu Catiripapo" (1973) à precariedade de sua juventude
sem dinheiro. Parte expressiva de sua obra desapareceu no rastro de
viagens.
"Neville era muito estimulante porque sabia mexer com meus pudores e
fazia tudo parecer viável", disse a atriz e produtora Sônia Dias.
"Filmamos ‘Surucucu Catiripapo’ por Ipanema, em plena ditadura, como se
fosse um happening à luz do dia. Ele regia o grupo pelas ruas.
Recentemente, assistindo ao filme do Jafar Panahi ["Foi Apenas um
Acidente"], lembrei de ‘Surucucu’".
Admirador de Neville, o artista plástico Hélio Oiticica
propôs a realização de um filme conjunto na área do mangue, no Rio.
Pouco depois de levá-lo ao meretrício e esboçar um argumento, Oiticica
ganhou uma bolsa da Guggenheim e abandonou o projeto. Neville persistiu.
"O conceito de ‘Mangue Bangue’ é fazer o que eu nunca tinha visto no
cinema: gente cheirando pó, fumando maconha e tomando o pico na veia.
Decidi fazer um filme doido mesmo", lembrou em nossa conversa. "É a
história de um corretor da bolsa que começa a vomitar no pregão e a vida
dele muda. Ele toma um ácido lisérgico e acaba pelado, cagando no mato e
comendo folhas."
Sua trajetória no circuito comercial viria mais tarde. "A Dama do Lotação" (1978) pontua a transição de seu cinema para o despudor
de "Os 7 Gatinhos" (1980) e de "Rio Babilônia" (1983). Para afirmar sua
nova estilística e seu sucesso popular, enfrentou a reprovação da
crítica que antes celebrava sua cabeça vanguardista.
O crítico João Carlos Rodrigues recorda a seriedade do cineasta na
rotina de escrita do roteiro de "Rio Babilônia", também com as
contribuições do produtor Ezequiel Neves. "A linha geral, claro, era do
Neville, mas houve muita colaboração, a minha mais na decupagem, o
Ezequiel mais nos diálogos, mas todos fizeram de tudo um pouco", lembrou
Rodrigues. "Foi um dos primeiros roteiros brasileiros da época escritos
em duas colunas como em Hollywood, na da esquerda a ação, na da direita
os diálogos."
Mais do que um acordo, "A Dama do Lotação" exigiu a conquista do dramaturgo Nelson Rodrigues, autor do conto extraído da série "A Vida Como Ela É...". Em 1965, Nelson e seu filho Joffre tiveram vasto prejuízo com a produção de "A Falecida", dirigido por Leon Hirszman, e o escritor fugia de outra coprodução cinematográfica.
Sônia Braga em cena de 'A Dama do Lotação' (1978), grande sucesso de Neville D'Almeida
-
Divulgação
Neville venceu essa resistência. Afinal, falava como os
personagens rodriguianos. "Comigo vai ser diferente. Eu vou te falar uma
coisa, Nelson: nunca mais você vai fazer um trabalho se não tiver um
fixo e uma porcentagem. Confie em mim. Comigo vai ter dinheiro."
Nelson reservou os direitos por seis anos. Um dia, Neville regressou
com o dinheiro e exigiu a sua participação no roteiro. Contrariando um
conselho de Arnaldo Jabor,
que já adaptara Nelson para o cinema em "Toda Nudez Será Castigada"
(1973), o diretor convidou o dramaturgo para o set e acolheu seus
diálogos improvisados. Numa cena rodada no cemitério João Batista,
Nelson perguntou se Sônia Braga poderia dizer uma outra frase: "Eu gosto
de ler os túmulos, na esperança de um dia encontrar meu nome".
"Genial!", reagiu Neville.
Com lançamento simultâneo em todo o país, "Dama" conquistou mais de
6,5 milhões de espectadores, encheu o bolso de Nelson e fortaleceu o
mito de Sônia Braga. A canção "Pecado Original", de Caetano Veloso,
norteou a trilha. "Ela se entrega a todos para continuar amando seu
marido", dizia o cartaz.
O filme ocupa hoje o sétimo lugar na lista das maiores
bilheterias do cinema brasileiro, façanha conquistada numa época em que a
população era muito inferior à atual —em 1980, dois anos depois do
filme, o país ultrapassaria os 119 milhões de habitantes, segundo o
IBGE.
Para Neville, o recorde foi ainda maior. "Havia uma roubalheira dos
bilheteiros de cinema. Em vez de rasgar e jogar o bilhete na urna, eles
guardavam e vendiam outra vez. Você tinha que acreditar no relatório."
"Neville deu a volta por cima com a ‘Dama’", disse João Carlos
Rodrigues. "A crítica na época ainda implicava com os sucessos de
bilheteria, o que, no fundo, queria dizer que tudo que o povo gostava
era ruim porque o povo era inculto etc. Demorou um pouco para mudarem de
opinião."
A parceria Nelson-Neville se repetiu em "Os 7 Gatinhos". "Nelson
Rodrigues gostava de ver as filmagens. Eles eram bons parceiros. Se um
pensava em ‘caralhinhos’ nas paredes do banheiro, o outro acrescentava
‘caralhinhos voadores’, e ficava mais divertido", recordou Sonia Dias.
Depois de "Rio Babilônia", seus longas de ficção ficaram mais esparsos: o remake "Matou a Família e Foi ao Cinema" (1991), "Navalha na Carne" (1997) e "A Frente Fria que a Chuva Traz" (2015). Solteiro, pai de três filhos (Jade, Tamur e Sophia), o cineasta mantém uma agenda cultural agitada no Rio.
Passado o tempo das grandes bilheterias, o apologista da transgressão
reconhece inúmeras amarras críticas. "Hoje tem uma chantagem
ideológica. Você não pode falar mal de uma obra. Se falar mal, você é
frustrado e invejoso. As pessoas estão obrigadas a falar bem", disse
Neville. "Eu vivo esse drama. Já sou perseguido e não tenho
reconhecimento dos papas. Querem me chamar de pornográfico, mas eu fiz
filme contra a ditadura na ditadura. Fui censurado. É muito diferente.
‘Jardim’ jamais foi exibido comercialmente."
Em nosso encontro, mais dois telefonemas seriam ignorados
("dinheiro saindo") antes que um terceiro fosse atendido ("dinheiro
entrando, só um minuto"). No fim da tarde, Neville me levou ao deque e
sentenciou em meu ouvido: "O homem brasileiro é um tarado. Confunde sexo
com pecado".
Três meses depois, numa padaria de Ipanema, ele guardou o chapéu e
pediu café e pão com requeijão. "Eu acho que o cinema brasileiro
brochou. Tá meio brocha. O cinema de arte está em decadência. As pessoas
faziam filmes com mais vontade, com mais paixão e mais artisticamente. A
mentalidade ridícula de mercado atrapalha a criatividade", lamentou.
Sua ansiedade cresceu com a falta de recursos para vários de seus
projetos, como "A Dama da Internet", roteiro original, "O Anti-Nelson
Rodrigues", adaptação da peça, e "Testamento da Rainha Louca", texto
presenteado por Glauber Rocha ("sentiu-se prisioneiro do cinema novo e
queria se juntar a nós").
"Eu só estou bem quando trabalho. Além de cineasta, sou um artista
contemporâneo. Estou com três instalações planejadas. Eu acordo pensando
nos meus projetos. Quero fazer ‘A Dama da Internet’. Não quero ir
embora antes disso. Meu tema é vencer a mim mesmo. Quero fazer mais
público que ‘A Dama do Lotação’ e quero vencer os críticos que não
entenderam meu cinema. Não quero ir embora com essa humilhação. Deram
importância a filmes medíocres e fizeram uma campanha contra mim. Há um
domínio ‘brocha’ do cinema brasileiro."
"Quero fazer também ‘São Paulo Babilônia’ e ‘Bordel Brasil’,
mas nunca passei em nenhum edital. A ideologia hoje é o bolso esquerdo e
o bolso direito. Vivo essa ansiedade diária, existencial, de pensar em
tanta coisa pra fazer. Penso muito em Bruna Marquezine para ‘A Dama da
Internet’. Vejo uma ansiedade de Bruna com aquele talento, sem ter uma
personagem à altura dela. O cinema brasileiro está brocha e sem
imaginação, com filmes ridículos e autorreferentes."
Como exceção, Neville reconheceu a superioridade de "O Agente Secreto" em relação aos seus concorrentes no Oscar. "Conheci Kleber há
20 anos. Ele ama o cinema. Quando vejo isso já me sinto muito próximo.
Ser um cineasta mundial é uma descoberta. Kleber está em crescimento
artístico e espiritual. Ninguém fala do espiritual. Só na Bahia se sabe
do espírito."
"O Oscar deve muito ao cinema brasileiro. Com essa não premiação,
deve mais ainda, demonstrando incompetência e insensibilidade. O cinema
brasileiro continua sendo discriminado pelo Oscar. É o mais original,
mais doido e mais estranho do mundo. Sempre foi posto à margem."
"Walter é muito talentoso e tem sido fundamental pra ajudar o cinema
brasileiro no mundo. É importante eliminar essa besteira que fala de
dinheiro e de banco [o diretor é um dos herdeiros do banqueiro Walther
Moreira Salles]. Os maiores artistas da humanidade vêm das favelas e dos
palácios, de mansões e de casebres. Conheci o Walter quando ele queria
fazer o primeiro filme. Sei que ele é um estudioso."
Em janeiro, como se não soubesse a reposta, um amigo perguntou "quem é
Neville D’Almeida?" ao chat de inteligência artificial. "Pela primeira
vez é tudo verdade. Coisas nunca ditas nos últimos 60 anos. Nunca tive
uma crítica tão verdadeira", celebrou o cineasta.
Eis a súmula da IA: "Neville é o cineasta mais livre do Brasil, o
mais perseguido, o mais mal-interpretado, o mais maltratado. E,
provavelmente, o mais importante para a arte contemporânea. Ele não fez
‘filme erótico’. Ele fez arte radical em um país conservador". Neville
discordou apenas de uma das respostas: "Foi empurrado para
pornochanchada ‘comercial’ pra sobreviver".
"Isso está errado. Ninguém me obrigou a nada. Eu tive liberdade de
criação. O negócio do sexo é foda. Ainda sou julgado como pornógrafo. A
referência deles é o bordel, não é a arte, nem a liberdade sexual."
Para viabilizar seus novos projetos, instalações e filmes experimentais, ele pretende negociar a venda de seus direitos da "Cosmococa" (1973), dividida com os herdeiros de Hélio Oiticica.
"Na 'Cosmococa', eu tive a ideia de fazer desenho com cocaína.
Hélio caiu para trás. Ele era de um grupo tradicional, do grupo Frente, e
disse foda-se. Propus o desenho com cocaína e a projeção de slide, que
eu já tinha feito no ‘Jardim’. Ele caiu para trás outra vez. Hélio
codificou o negócio de a gente fazer intervenção espacial, dividir o
ambiente com slides".
Na mesa da padaria, com um saquinho de açúcar e a carteira de
identidade, Neville simulou as linhas de cocaína das cinco cosmococas
riscadas sobre Marilyn Monroe, John Cage, Yoko Ono, Jimi Hendrix e Luis
Buñuel. "A substância chamada de cocaína é transformada. Ela vira uma
cor. Um pigmento branco. Essa é a liberdade."
Um dos autores mais estudados do país, o médico e diplomata João
Guimarães Rosa (1908-1967) teve a vida esmiuçada em diversos livros.
Ainda assim, sete décadas após a publicação de “Grande sertão: veredas” e
quase 60 anos depois de sua morte, o escritor mineiro ganha, pela
primeira vez, uma edição que assume explicitamente o gênero “biografia”
estampado na capa.
Fruto de duas décadas de investigação sobre Rosa, que foi eleito para a
Academia Brasileira de Letras em 1963 mas só tomou posse dois dias
antes de falecer, o livro de Leonencio Nossa, com lançamento oficial
marcado para o próximo dia 7, reúne pesquisa em arquivos públicos e
privados, além de depoimentos de familiares e amigos, para recompor uma
trajetória romanesca, que atravessa alguns dos momentos mais turbulentos
do século XX.
— Rosa viveu a Revolução de 1932, a Alemanha nazista, Bogotazo na Colômbia,
testemunhou o início da Guerra Fria e viveu sob a ditadura militar —
lembra Nossa, que já publicou dois dos três volumes de uma biografia do
jornalista Roberto Marinho,
além de livros-reportagens sobre temas brasileiros. — Tudo isso
enquanto construía uma obra inovadora. Mesmo morrendo jovem, é um homem
que parece ter vivido várias vidas numa só.
Urbano e rural
O livro de Leonencio Nossa desmonta uma das imagens mais enganadoras de
Guimarães Rosa, a do autor “menino do mato”, como lhe chamou certa vez
João Cabral de Melo Neto. Em entrevistas, Rosa dizia vir de uma família
de fazendeiros, o que é uma meia-verdade. Quando ele nasceu, a família
já não vivia mais da pecuária, e sim do comércio. Sua Cordisburgo natal
era um lugar de confluências, ponto de circulação para viajantes,
mercadorias, ideias e histórias. Desde cedo, a formação do jovem Rosa
acontece na intersecção entre o Brasil rural e urbano, que se
industrializava desde o século XIX. Essa infância híbrida ajuda a
explicar por que sua obra nunca se encaixa totalmente nem no
regionalismo clássico nem na literatura urbana moderna.
— A palavra “sertão” na obra dele confunde, porque de certa forma
encobriu o que foi a vida dele em Cordisburgo — diz Nossa. — Rosa não
nasce em um Brasil absolutamente rural, mas num período de transição. Na
casa dele tinha revistas estrangeiras, que o deixava conectado com o
mundo. Belo Horizonte, que está presente desde a sua criação, é uma
cidade pujante de muita informação.
Rosa também não era um homem “do lombo do cavalo”, como se esperaria de
um autor tão associado ao universo rural. Mariano Valério, personagem
de uma reportagem do escritor publicada em 1947, disse que se
surpreendeu ao ver retratos de Rosa “guapo em riba do cavalo”. “Não sei
como tiraram aqueles retratos (...) Ora, seu Guima montava de mal a mal,
segurando no arcão da sela o tempo todo, com medo de cair.”
Leonencio Nossa — Foto: Divulgação
Sertão dinâmico
Rosa nunca retratou o sertão como um mundo fechado, mas como um lugar
de passagem, atravessado por viajantes, ciganos, vaqueiros e disputas
políticas.
— O Sertão de Rosa é um mundo com seu dinamismo próprio, suas redes,
suas interações, suas relações econômicas e políticas — diz Nossa. — Ele
nunca disse que o sertão dele é rural. Foram os estudos, as camadas ao
longo do tempo que sempre colocaram aquilo como um lugar fechado,
isolado do mundo, como se fosse só o mundo da pecuária.
Obra viva
A originalidade de Rosa não estaria, segundo Nossa, em uma reinvenção
radical da linguagem (no estilo de James Joyce), mas em um esforço de
reunir e potencializar as oralidades brasileiras. O escritor teria
buscado incorporar não apenas o português sertanejo, mas também
vocábulos africanos, indígenas e até os sons dos animais, criando uma
língua que fosse capaz de expressar a complexidade do mundo que queria
narrar.
Essa linguagem é construída a partir da convivência de diferentes
tradições, mas também de uma pesquisa incansável. O autor estava sempre
anotando em um caderninho as suas descobertas.
— Sua obra é uma tentativa de criar criar uma situação em que todas as
linguagens brasileiras possam ser utilizadas — diz o biógrafo. —Há
certas tentativas de capturar a obra dele como se fosse de laboratório e
não como uma obra viva, que trabalha as palavras do dia a dia.
A bisavó negra
Leonêncio Nossa resgata uma figura pouco explorada nos estudos sobre
Rosa, a sua bisavó Graciana Teixeira Lomba. Possivelmente
ex-escravizada, ela viveu um amor proibido com o bisavô Francisco de
Assis Guimarães, que acabou se casando com uma mulher branca por
imposição da mãe. Essa ancestralidade africana de Rosa nunca havia sido
colocada antes, segundo o biógrafo.
Geração após geração, a figura de Graciana nunca foi esquecida dentro
da família. Ela era venerada quase como uma divindade, tendo o seu nome
sempre citado quando um neto ou bisneto estava em perigo. Em seu
discurso de posse na ABL, o escritor citou o nome das duas bisavós
maternas, a branca e a negra.
— Graciana não é apenas uma figura da infância, é uma figura que vai
acompanhar Rosa a vida inteira — diz Nossa. — Há várias referências a
mulheres negras na obra dele, embora, como outros autores de seu tempo,
ele não fugisse de certos estereótipos.
Guimarães Rosa, na posse da ABL, em 1967 — Foto: Arquivo O Globo
Diplomata rebelde
A trajetória diplomática de Rosa o colocou no centro de tensões
políticas internacionais. Durante sua passagem pela Alemanha nazista,
suas cartas com ironias a Hitler chamaram a atenção da polícia secreta,
que o monitorava. “Tutu, covinha, lombinho, pimenta-malagueta, dois
limõezinhos. Se o Hitler provasse veria que há coisa melhor do que ‘Die
Wacht am Rhein’”, escreveu o autor, zombando o empenho do ditador ao
cantar o hino.
A ajuda a judeus durante a Segunda Guerra envolveu tanto Rosa quanto
sua então companheira, Aracy de Carvalho. Enquanto ela se arriscava de
forma mais explícita, disposta até a esconder refugiados no porta-malas
do carro, Rosa era mais contido. Ainda assim, tomou riscos consideráveis
ao assinar vistos que permitiam a saída de judeus da Alemanha,
facilitar trâmites burocráticos e dar respaldo institucional às ações de
Aracy dentro do consulado brasileiro em Hamburgo, mesmo sabendo que
isso poderia comprometer sua carreira diplomática.
— Rosa comete atitudes muito rebeldes e que o colocaram em risco — diz
Nossa. — Como autor, ele já foi muito criticado por não ser engajado,
algo que o incomodava muito. Ele argumentava lembrando que seus
personagens são sertanejos, boiadeiros, vaqueiros, gente atravessada por
conflitos reais, por violência, por questões sociais profundas. Ou
seja, há um engajamento ali, mas que não passa pelo discurso explícito, e
sim pela forma como ele constrói esse Brasil.
Refúgio no GLOBO
Nos anos 1960, enquanto a cena cultural consagrava a vanguarda e a
Bossa Nova, Guimarães Rosa passou a ser percebido como um escritor
“folclórico”, “ultrapassado” e “arcaico”.
Era a época em que o Jornal do Brasil promovia uma série de provocações
contra o autor de “Grande sertão: veredas”. Liderado por nomes da
poesia concreta como Ferreira Gullar e Amilcar de Castro e visto como
uma espécie de voz da elite cultural daquela era, o revolucionário
suplemento dominical do matutino criou uma coluna só para atacar o
escritor mineiro. “Acredita em Guimarães Rosa?”, perguntava o jornal em
entrevistas curtas a escritores estrategicamente escolhidos, que quase
sempre respondiam “não”.
— Naquele ambiente cultural do Rio, não havia espaço para ele — diz
Leonencio Nossa. — Isso o incomodava, porque ele sabia que estava
fazendo algo profundamente inovador, mas que não era reconhecido como
tal.
Coluna de Guimarães Rosa em O GLOBO — Foto: Arquivo O GLOBO
Nesse período de descompasso, o autor mineiro encontrou nas páginas do
GLOBO uma espécie de refúgio entre janeiro de agosto de 1961. Ele passou
a publicar textos no caderno de cultura, que já contava com outros
colaboradores de luxo como Paulo Rónai, Antônio Olinto e Luís Viana
Filho.
O veículo abrigou sua coluna “Guimarães Rosa conta…”, que era publicada
aos sábados. Alguns de seus contos mais famosos apareceram primeiro por
lá, como “A terceira margem do rio”. Este e outros 11 textos seriam
mais tarde incluídos no livro “Primeiras estórias” (1962).
Outro exercício literário dessa fase é o uso de heterônimos. No jornal,
Rosa experimentou vozes diversas, assinando textos com outros nomes e
explorando registros distintos, como se testasse possibilidades
narrativas fora do peso de sua própria assinatura.
— O GLOBO foi muito importante nesse momento — diz Nossa. — Foi um
espaço onde ele pôde continuar publicando, experimentando, sendo lido.
Enquanto parte da crítica tentava enquadrá-lo como um autor do passado,
ele estava ali, produzindo uma literatura que hoje a gente reconhece
como absolutamente à frente do seu tempo.
Dezenas, centenas, milhares de notícias sobre o Irã e
pouco se sabe sobre os iranianos. Entre vivas e vaias, o debate público
tende a ficar prisioneiro da geopolítica da guerra, das sanções
econômicas e da natureza repressiva do regime islâmico. Sobre os
iranianos, resta-nos imaginá-los por dentro, as mulheres sob o véu negro
do chador e os homens como personagens de Asghar Farhadi, cativos da
honra patriarcal, da estratificação social e das lealdades familiares.
É uma leitura sociologicamente incompleta. O Irã é uma
sociedade cujos níveis de desenvolvimento humano e de educação
contradizem a imagem de medievalismo que tantas vezes lhe é atribuída.
Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2025 do Pnud (Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento), o Irã integra a categoria
"desenvolvimento humano elevado", com pontuação acima do Brasil, ou
seja, é um país com bases sociais e educacionais relativamente sólidas.
Em dezenas de outros indicadores socioeconômicos, como expectativa de
vida à nascença ou anos médios de escolaridade da população adulta, o
Irã está na dianteira do Brasil.
Ao contrário da imagem internacional, o regime iraniano não governa
uma massa compacta de fanáticos religiosos ou uma sociedade etnicamente
fragmentada ou mirrada; governa uma sociedade antiga relativamente
instruída e urbanizada, com expectativas sociais suficientemente
elevadas para produzir uma cidadania politicamente exigente, mesmo
quando sua ordem política permanece inquisitorial. A história milenar da
civilização persa pode ser testemunhada com uma visita a Persépolis ou à
praça Naqsh-e Jahan, em Isfahan.
Essa dualidade entre modernização social e clausura política,
entre a liberdade doméstica e a vigilância no espaço público, entre o
tradicionalismo secular ("sonnati") da maioria e o islamismo ideológico
de uma minoria, e entre um dinamismo econômico que coabita com um regime
autoritário, é uma das chaves para compreender o país. Como um pêndulo,
é o país de Maryam Mirzakhani, formada pela Universidade Tecnológica de
Sharif, em Teerã, e primeira mulher a receber a Medalha Fields, muitas
vezes descrita como o Nobel da Matemática, mas também o de Shirin Ebadi e
Narges Mohammadi, duas laureadas com o Nobel da Paz perseguidas ou
torturadas pelo regime dos aiatolás.
Em 1979, esta população instruída derrubou a monarquia repressiva do
xá Mohammad Reza Pahlavi. Foi uma mobilização muito ampla, que juntou
setores islâmicos, mas também liberais, nacionalistas, estudantes,
sindicalistas, comerciantes dos bazares e parte da esquerda, todos
unidos contra um regime visto como autoritário, corrupto e
excessivamente dependente do Ocidente, em especial dos EUA. Em sua
gênese, nunca foi uma revolução apenas religiosa.
Voltemos a 2026. O ataque dos EUA e de Israel ao Irã parece carecer,
até agora, de uma estratégia política clara, de uma justificativa sólida
à luz do direito internacional e de um objetivo final bem definido.
Como escrevi aqui, na Folha, o colapso da ordem internacional do pós-Guerra ainda não deu origem a uma alternativa que a substitua,
abrindo assim espaço a um uso cada vez mais anárquico, difuso e
desregulado da violência. Se a invasão norte-americana do Iraque, em
2003, desencadeou um clamor público global contra a sua precariedade
legal, o ataque da mesma potência ao Irã, em 2026, também amplamente
denunciado como ilegal, suscitou, no máximo, um resignado encolher de
ombros.
Atualmente, no Irã, dois sentimentos coexistem sem contradição. A
crítica ao regime não se converte, de forma automática, em apoio à
ofensiva estrangeira. Pelo contrário. Em janeiro deste ano havia, pela
primeira vez em muito tempo, a sensação de que poderia estar começando
um verdadeiro processo de transformação democrática no interior da própria sociedade.
O ataque israelo-americano interrompeu esse movimento. Há um
mês, havia gente na rua quase todos os dias, gritando palavras de ordem
contra o governo, enquanto hoje, essas mesmas pessoas desapareceram do
espaço público e voltaram para casa. Quando um país está sob ataque de
potências estrangeiras e as pessoas sentem que suas vidas estão em
perigo, o instinto de sobrevivência sobrepõe-se ao desejo de liberdade,
principalmente em sociedades com um forte sentido de patriotismo, como a
iraniana.
Quando forças estrangeiras destroem indiscriminadamente a
infraestrutura civil de um país agravando a vida de mais de 90 milhões
de pessoas que já vivem há décadas sob sanções, pobreza e enormes
dificuldades econômicas, a reação natural dessa população dificilmente
será apoiar os agressores. Escolas, hospitais, aeroportos, residências e
monumentos históricos estão sendo destruídos no Irã. Na última semana, a
inflação atingiu níveis catastróficos, paralisando a vida econômica.
Deixar um país em ruínas não é um incentivo para que ele se torne
democrático. A ofensiva americana não transpira racionalidade, pelo
contrário. Pode ser um mero reflexo da personalidade psicologicamente
adoecida do presidente dos EUA, marcada por trauma infantil,
ressentimento e narcisismo. É como se a destruição do outro e sua
humilhação servissem de prótese moral a um ego ferido. Seu vazio
interior se enche de pólvora.
A ofensiva militar nem sequer está ancorada no apoio aos setores
iranianos mais hostis ao islamismo político ou está casada com uma
estratégia crível de estabilização e transição para o pós-guerra. Por
isso, é provável que a guerra provoque lutas civis de sobrevivência, o
reforço do próprio regime islâmico, ou pelo menos o fortalecimento da
Guarda Revolucionária iraniana.
Não há, neste momento, no Irã, nenhum movimento popular de larga
escala de apoio a uma alternativa de poder. O país não tem um Władysław
Sikorski, que liderou o governo polonês no exílio durante a Segunda
Guerra Mundial. Não tem uma Aliança do Norte, que no Afeganistão
encarnou a alternativa ao Talibã após a invasão americana de 2001. Não
tem um Charles de Gaulle, o rosto da França Livre. O filho do antigo Xá, vivendo nos EUA desde os 17 anos (tem 65), dificilmente vai conseguir ser carregado nos ombros pela população.
Ou seja, para os iranianos, o pós-guerra pode ser tão castrador
quanto o pré-guerra. Encurralados entre a repressão política e uma
guerra, voltam a ser anulados como sujeitos históricos e políticos.
Alguém lhes perguntou o que querem? No dia 20, começam as celebrações do
Nowruz, o ano novo iraniano, celebrado há 3.000 anos. Em persa,
"Nowruz" significa "novo dia", simbolizando o recomeço. Talvez seja esse
o desejo da maioria.