May 5, 2026

New York Times' elege os 30 melhores compositores americanos vivos;

  Da esquerda para a direita, Lana Del Rey, Taylor Swift, Bob Dylan, Jay-Z e Mariah Carey: artistas estão em lista com os 30 melhores compositores americanos elaborada pelo 'NYT'

Gustavo Cunha
 

Levou um ano e meio para que o “New York Times” elaborasse uma lista dos 30 maiores compositores vivos dos Estados Unidos. O resultado, publicado pelo jornal americano na última semana, tem provocado reações desafinadas. Afinal, grandes figurões da música — como Madonna, Jackson Browne, Billy Joel, Lady Gaga, Patti Smith e Stevie Nicks, entre outros — ficaram de fora da seleção.

O levantamento gerou discórdia até mesmo entre os seis críticos do “New York Times” que deram a palavra final. “Houve grandes debates”, como revela a editora Sasha Weiss. Exemplo: o medalhão Randy Newman, músico com mais de 20 indicações ao Oscar, foi um “grande ponto de discussão”. Acabou excluído, sem dó. A lista foi formada com base em mais de 700 indicações de especialistas, incluindo historiadores e profissionais da indústria musical. A partir daí, os seis críticos foram enxugando o número — e, tcharan!, chegaram, enfim, aos 30 melhores.


Nile Rodgers

O guitarrista Nile Rodgers, com o grupo Chic, no Rock in Rio de 2019 — Foto: Pablo Jacob
O guitarrista Nile Rodgers, com o grupo Chic, no Rock in Rio de 2019 — Foto: Pablo Jacob

As composições do nova-iorquino de 73 anos — entre as quais “Good times” e “I want your love” — condensam o espírito do auge da era disco, segundo os críticos.

Lucinda Williams

A compositora americana Lucinda Williams — Foto: Reprodução/Instagram
A compositora americana Lucinda Williams — Foto: Reprodução/Instagram

“Seja o que for que alguém queira dizer sobre a ‘textura’ de uma música, isso ganha um caráter quase tátil com a americana de Louisiana”, destaca o jornal acerca da artista de 73 anos, que transita entre o country e o blues.

Stevie Wonder

Stevie Wonder no Rock in Rio de 2011 — Foto: Leo Aversa
Stevie Wonder no Rock in Rio de 2011 — Foto: Leo Aversa

Maior bardo vivo do coração humano, como definem os críticos, ele escreveu “algumas das músicas mais harmonicamente e cromaticamente complexas já criadas”. Exemplos, para citar só alguns: “Part-time lover”, “Girl blue” e “That girl”.

Jay-Z

O rapper Jay-Z — Foto: Chris Delmas/AFP
O rapper Jay-Z — Foto: Chris Delmas/AFP

Os críticos consideram que “Reasonable doubt” (1996) é um dos maiores álbuns de estreia de qualquer gênero, “prova de habilidades deslumbrantes do rapper como contador de histórias”.

Paul Simon

Cantor e compositor Paul Simon em apresentação no Central Park, em NY, em 2021 — Foto: Angela Weiss / AFP
Cantor e compositor Paul Simon em apresentação no Central Park, em NY, em 2021 — Foto: Angela Weiss / AFP

Voz para o “terremoto jovem” que abalou os anos 1960, este “artesão das palavras”, hoje com 84 anos, escreveu pérolas logo no álbum de estreia. Estão lá “The sound of silence”, “The times they are a-changin” e “I want to hold your hand”. Os críticos consideram que ele gravou duas das maiores canções sobre divórcio (“Hearts and bones” e “Graceland”).

Taylor Swift

Taylor Swift — Foto: Bloomberg
Taylor Swift — Foto: Bloomberg

A longevidade de um dos maiores símbolos da música pop atual — com 12 álbuns de estúdio e centenas de canções ao longo de duas décadas — dá ao público, segundo o jornal, “uma combinação inédita de autoria artística e sucesso comercial”.

Brian & Eddie Holland

Arquitetos de hits de grupos como The Supremes (com Diana Ross como vocalista) e Four Tops, os irmãos transformaram o cancioneiro americano ao tornar o amor algo físico e pulsante, traduzido em batidas e arranjos que convidam o corpo a sentir, como realçam os críticos.

Missy Elliott

A compositora Missy Elliott — Foto: Divulgação
A compositora Missy Elliott — Foto: Divulgação

A obra da rapper de 54 anos parte de um exercício elaborado de inverter e subverter, “esticando palavras como chiclete e fazendo sílabas ricochetearem”. São obras-primas, de acordo com críticos, canções como “Get ur freak on”, “Work it” e “On & on”.

Lionel Richie

Lionel Richie no The Town — Foto: Divulgação The Town
Lionel Richie no The Town — Foto: Divulgação The Town

A sequência de sucessos açucarados, com o dedo do artista de 76 anos, foi a trilha sonora das décadas de 1970 e 1980. Letras como “Easy”, “Endless love” e “Hello” são aulas de formas minimalistas da soul music sensual, como apontam os críticos.

Dolly Parton

Dolly Parton — Foto: Reprodução/Youtube
Dolly Parton — Foto: Reprodução/Youtube

Ícone cultural de várias gerações, a artista de 80 anos escreveu dois de seus maiores clássicos — “Jolene” e “I will always love you” — na mesma noite. O jornal destaca a “pureza sincera em sua obra e visão de mundo” entre hits country, incursões no pop e resgates do gênero bluegrass.

Young Thug

O rapper Young Thug — Foto: AFP
O rapper Young Thug — Foto: AFP

“Dissidente pós-estrutural” do rap e do hip-hop, como definem os críticos, o músico de 34 anos desmontou normas e tornou o gênero novamente selvagem a partir de um método calcado no... improviso radical.

Diane Warren

Compositora Diane Warren — Foto: Isabella Costa
Compositora Diane Warren — Foto: Isabella Costa

Está aí uma das compositoras mais prolíficas e populares dos EUA — e que escreve obras para gente diversa, de Taylor Dayne a Taylor Swift, de Patti LaBelle a Heart, de Chicago a Shanice. De “Rhythm of the night”, do DeBarge, a “There you’ll be”, do Faith Hill, é praticamente impossível não ter ouvido uma canção da artista nas rádios.

JoshOsborne, Brandy Clark e Shane McAnally

Numa era dominada por clichês, o trio de compositores traz temas mais variados — com maior nuance emocional e um olhar mais cosmopolita — ao country.

Fiona Apple

Fiona Apple — Foto: Divulgação
Fiona Apple — Foto: Divulgação

As canções da artista de 48 anos “nos devolvem à euforia da atração e ao enjoo da repulsa” e fazem o coração “parecer um lugar habitado”, como sublinham os críticos.

Babyface

O autor redefiniu a canção romântica no pop, com baladas de enorme impacto emocional. Hits como “End of the road” e “I’ll make love to you”, do Boyz II Men, bateram recordes e ajudaram a reposicionar o R&B no centro da música americana.

Stephin Merritt

Autor de “69 love songs”, o mestre dos desafios criativos combina sofisticação com humor e experimentalismo

Romeo Santos

À frente do grupo Aventura, o nova-iorquino modernizou a bachata — ritmo latino originário da República Dominicana — ao misturá-la com pop, R&B e hip-hop.

Carole King

A compositora de 84 anos transforma emoções complexas em canções universais. Hits como “Way over yonder” e “Tapestry” moldaram diferentes gerações — de Alicia Keys a Taylor Swift.

Outkast

A dupla revolucionou o hip-hop ao levar o sul dos EUA ao centro do gênero nos anos 1990. Com hits como “Player’s ball” e “Ms. Jackson”, os artistas misturam experimentação e apelo pop.

Mariah Carey

Mariah Carey no MTV Video Music Awards, em setembro de 2025 — Foto: Angela Weiss / AFP
Mariah Carey no MTV Video Music Awards, em setembro de 2025 — Foto: Angela Weiss / AFP

Ao surgir nos 1990, adiva pop foi visionária, segundo os críticos, ao fundir a intensidade do gospel com a força do R&B. Autora de 18 hits nº 1, redefiniu o gênero com músicas como “Fantasy” e “We belong together”.

Willie Nelson

Autor de clássicos como “Crazy”, “Night life” e “Funny how time slips away”, o veterano do country construiu uma obra vasta e fora de rótulos, na visão dos críticos.

Kendrick Lamar

Kendrick Lamar no Grammy 2026 — Foto: Reprodução/Instagram
Kendrick Lamar no Grammy 2026 — Foto: Reprodução/Instagram

As músicas do autor — tido como “dos rappers mais ideológicos em atividade” — são “verdadeiros monólogos de autoconfronto, mas também de confronto com o mundo”.

Valerie Simpson

“Rastrear a influência de Ashford & Simpson — dupla formada por Valerie Simpson e Nickolas Ashford — é como mapear o código genético da canção popular americana”, dizem os críticos. São clássicos “Ain’t no mountain high enough” (1967), “Solid”, “I’m every woman” e “California soul”.

Bob Dylan

Bob Dylan — Foto: Hector Mata / AFP
Bob Dylan — Foto: Hector Mata / AFP

Agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2016, Bob Dylan reinventou o que uma canção pode dizer e como pode soar, “expandindo os horizontes da música popular”. Transitou por múltiplas fases e estilos, da canção de protesto ao rock, sempre desafiando rótulos.

Lana Del Rey

Apresentação da cantora Lana Del Rey no palco Corcovado, na primeira noite do festival MITA 2023 — Foto: Lucas Tavares/Agência O Globo
Apresentação da cantora Lana Del Rey no palco Corcovado, na primeira noite do festival MITA 2023 — Foto: Lucas Tavares/Agência O Globo

O jornal destaca a “gramática sonora particular e inconfundível” da artista, que inventou um estilo indie-pop difícil de imitar. Entre sexo, morte e amor, as letras contróem uma estética de resignação sofisticada e autoral.

The-Dream

“Basta pensar num sucesso de R&B pós-anos 2000, e provavelmente há sua marca ali: ‘Umbrella’, de Rihanna; ‘Ride’, de Ciara; ‘Baby’, de Justin Bieber; e ‘Touch my body’ e ‘Obsessed’, de Mariah Carey” e ‘Single ladies (put a ring on it)’, de Beyoncé”, como lembram os críticos.

Jimmy Jam e Terry Lewis

Jimmy Jam e Terry Lewis são “mestres camaleônicos” que ajudaram a reinventar a carreira de Janet Jackson ao longo de diferentes fases. Misturam soul, funk e pop com inovação, moldando o som do R&B moderno.

Bad Bunny

Bad Bunny conquista o público com simpatia e emoção durante show no Allianz Park, em São Paulo — Foto: @irisalvesc/Live Nation Brasil
Bad Bunny conquista o público com simpatia e emoção durante show no Allianz Park, em São Paulo — Foto: @irisalvesc/Live Nation Brasil

O vencedor do Grammy de álbum do ano com “Debí tirar mais fotos” remodelou a música latina “com seu flow melancólico e letras ágeis”.

Bruce Springsteen

Bruce Springsteen canta do lado de fora do Capitólio do Estado de Minnesota durante o dia nacional de protesto "No Kings" em Saint Paul, Minnesota, em 28 de março de 2026 — Foto: Kerem Yucel / AFP
Bruce Springsteen canta do lado de fora do Capitólio do Estado de Minnesota durante o dia nacional de protesto "No Kings" em Saint Paul, Minnesota, em 28 de março de 2026 — Foto: Kerem Yucel / AFP

Para a crítica Lindsay Zoladz, o autor de “Born in the U.S.A.” aprendeu a usar os silêncios ao evoluir das “epopeias da juventude descarada e arrogante” a um papel “autoproclamado de consciência da América”.

Smokey Robinson

O jornal classifica o cantor que foi vice-presidente da Motown como um inspirador de “compositores mais bem-sucedidos e emocionalmente complexos que surgiram depois dele”, como Babyface e Anderson. Paak. “Stevie Wonder pode ser o maior inovador. Lionel Richie pode ter dominado o pop global. Nenhum deles se compara à precisão lírica consistente de Robinson”, dizem os críticos.

 
 O GLOBO

April 29, 2026

Onde está o foco?

 

 Onde está o foco?

A dificuldade de parte da plateia manter-se atenta ao palco ou à tela de cinema inquieta alguns artistas


 Eduardo Magossi ... 

Uma marmita de carne com mandioca aberta no meio de uma sessão de cinema. O brilho de um smartphone na cara de um ator no palco. Um pacote de salgadinhos estourando durante a canção interpretada ao vivo em um musical. Falta de noção ou novos hábitos?

O comportamento individual em salas de espetáculo, teatros e cinemas – espaços voltados à experiência coletiva – tornou-se um assunto recorrente. E, para atores, cantores, psicanalistas e gestores culturais, em certa medida, preocupante.

Antônio Fagundes faz, no sábado 18, o primeiro ensaio aberto de Sete Minutos. A peça, que estreia em maio no Teatro Cultura Artística, problematiza a relação entre artistas e plateia. O texto, de sua autoria, foi escrito e encenado pela primeira vez em 2002. Tinha algo de premonitório.

Naquela época, a presença dos celulares em nossas vidas era mais amena. Mas o ator já notava seus efeitos. “Os sete minutos do título se referem ao tempo que um espectador conseguiria manter o foco. Hoje, esse tempo caiu para sete segundos, o necessário para se rolar a tela do celular”, diz ele a CartaCapital.

O que levou Fagundes a escrever a peça foi a mesma constatação que o leva a reencená-la: a percepção de que algumas pessoas estão se perdendo na falta de foco. “O fato de elas irem ao teatro não significa que saiam de lá com alguma coisa. E isso sempre me preocupou”, afirma o ator.

    “Quando a indiferença ou o ruído passam a ser tolerados, eles rapidamente se normalizam”, diz o psicanalista Luiz Nogueira

A peça é uma comédia sobre as agruras de um ator que está apresentando Macbeth­, de Shakespeare, e, ao ter de lidar com o barulho vindo da plateia, decide abandonar o palco, levando o caos aos bastidores.

“Queria dar um toque para essas pessoas sobre as coisas que elas estavam perdendo, das possibilidades de entendimento que estavam deixando para trás. Com isso, esperava que elas saíssem modificadas do teatro”, diz. Duas décadas atrás, a peça foi apresentada para mais de 300 mil pessoas no Brasil e excursionou para Portugal. “A peça é um chamado bem-humorado e carinhoso para que as pessoas percebam o quanto elas estão perdendo da própria vida. Porque a invasão do celular também acontece fora do teatro.”

Ao fim de Sete Minutos será realizado um bate-papo com o público – o ator acredita ser também seu papel contribuir para a formação das plateias. Como é praxe em suas peças, a entrada após o início do espetáculo é proibida. “Temos que respeitar as pessoas que chegaram no horário. O teatro é o último resquício de humanidade que a gente tem, onde existe o contato presencial, e precisamos preservar isso.”

O que o personagem de Fagundes passa, a atriz e cantora Alessandra Maestrini­ viveu na pele. Recentemente, o barulho a levou a interromper uma apresentação do musical Yentl.

Realizado no Sesc Pompeia, em São Paulo, o espetáculo tem músicas delicadas – tiradas do filme homônimo dirigido por Barbra Streisand nos anos 1980 – e, a certa altura, Alessandra precisou pedir que um espectador parasse de comer e amassar o pacote de salgadinhos.

“É uma questão importante de ser discutida porque atrapalha não só o artista, mas o público que sai de casa para ir ao teatro buscando uma experiência de ­religare”, diz a cantora, usando o termo em latim que remete tanto a religião quanto a “unir novamente”.

Barulho. Fagundes reestreia Sete Minutos, peça de 2002 que brinca com a desatenção. Alessandra Maestrini ouviu, do palco, um pacote de salgadinho estourar e Eduardo Moscovis, um espectador falar ao telefone – Imagem: Annelize Tozetto/Festival de Curitiba, Renata Casagrande e Carlo Locatelli

Alessandra Maestrini define o teatro como um templo, um local de conexão, como são as igrejas, as mesquitas e as sinagogas. “Eu não acredito que as pessoas atendam o telefone nesses locais de conexão. No teatro, estou fazendo o público acessar seu momento presente, sua criatividade, que é o que existe de mais humano.”

Os atores Eduardo Moscovis e Mateus Solano também tiveram problemas com o público recentemente. Não se trata apenas do brilho dos smartphones atrapalhando os atores e o público, mas do descumprimento de uma regra básica: a proibição de se filmar o palco e de falar ao telefone durante um espetáculo.

No fim de março, durante a apresentação do monólogo O Motociclista no Globo da Morte, no Teatro Vivo, em São Paulo, Moscovis pediu que um espectador que estava falando ao celular desligasse o telefone ou se retirasse do recinto.

Solano também se sentiu importunado por uma pessoa que o filmava na boca de cena do palco, com o celular próximo de seu rosto, durante apresentação da peça O Figurante, em Santa Rosa, Rio Grande do Sul. Ele afastou o celular com um tapa.

Na semana passada, no Reino Unido, a atriz britânica Lesley Manville afirmou, em entrevista à rede BBC, que filmar ou tirar fotos de atores durante as peças de teatro é um “insulto”.

Segundo ela, as pessoas precisam deixar as redes digitais em seus bolsos mesmo depois dos aplausos da plateia. “Parece que todos querem ter uma foto para provar que estiveram ali. É teatro, vamos preservá-lo”, disse ela, que estrela a montagem de Ligações Perigosas no ­National Theatre, em Londres.

    “Vivemos um colapso de contextos, e isso torna a concentração volátil, diz o pesquisador Diogo Silva, do Sesc

Luciana Gabardo, gerente de Parcerias e Novos Negócios do Theatro Municipal de São Paulo, conta que a equipe já entendeu ser impossível evitar que as pessoas entrem com o celular em uma sala de concerto. Para garantir o conforto de todos, a casa criou protocolos.

“Exibimos um vídeo antes do início do espetáculo avisando o público que é preciso desligar os celulares e que, caso alguém esteja usando o aparelho com insistência, a equipe apontará canetas a laser para as telas”, explica Luciana. “Também é proibida a entrada de alimentos.” Ela diz, porém, que poucas vezes há problemas desse tipo no Municipal.

O portal Infoteatro – criado para divulgar e democratizar as artes cênicas – e que debuta na produção com ­Sete ­Minutos, divulgou na semana passada uma pesquisa realizada com usuários das redes sociais com a pergunta: “O que mais te incomoda quando você vai ao teatro?”

As respostas foram, obviamente, as mais variadas: “A pessoa roendo amendoim”; “Gente que pega o celular para mandar mensagem no Instagram quando a peça está rolando”; “Gente cochichando ao lado, amassando embalagem de bala”; ou “Outro dia tive que pedir para uma pessoa desligar o jogo de futebol que estava mais alto que o ator no palco”.

O problema também existe nos cinemas. A jornalista Marinete Veloso se surpreendeu durante uma sessão no Espaço Petrobras de Cinema, em São Paulo, quando um espectador tirou da mochila uma marmita com carne e mandioca. “As pessoas estão perdendo a noção da diferença entre um lugar público e a sala de sua casa”, afirma ela.

Adhemar Oliveira, dono da rede, diz já ter registrado casos de irritação de público com celulares ou conversas, mas não com comida. “Mesmo porque não posso proibir a entrada de comidas na sala”, explica.

Embora saibamos que o uso de celular no cinema reflete a mudança no modo de vida trazida pela conectividade, Oliveira reflete: “As redes, a comunicação e os vídeos de curta duração em formato vertical levam as pessoas a focar em duas ou três telas ao mesmo tempo. Mas, quando você vai ao cinema, você está se recolhendo, então seria um exercício saudável distanciar-se do celular”.

O dono do cinema nota também que, quando o uso do celular atrapalha a sessão, é comum que os demais espectadores presentes ajudem a coibir a prática. “Mas, se for o caso, vamos trazer de volta o lanterninha”, diz.

Em Londres. Para Lesley Manville, em cartaz no National Theatre com Ligações Perigosas, filmar os atores em cena é um “insulto” – Imagem: Sarah Lee/Teatro Nacional de Londres

Autor do recém-lançado Públicos em Emergência, que trata da democratização cultural nas artes visuais, o assessor sociocultural do Sesc São Paulo Diogo de Moraes­ Silva lembra que, com as redes sociais, passamos a ter a nossa subjetividade e o nosso sistema perceptivo estruturalmente alterados pela lógica do algoritmo e pelo imediatismo no consumo de informações.

“Nesta era da economia da atenção, as pessoas já têm dificuldade de dedicar sua concentração a um único objeto”, diz Silva­. Para o autor, vivemos um colapso de contextos, e isso torna a concentração volátil e implica a subjetividade. “Quando você posta uma imagem e eu, em outro lugar, a consumo, cria-se uma dinâmica que gera, por exemplo, no teatro, um comportamento que se teria em casa.”

O psicanalista Luiz Nogueira aponta um componente psicossocial importante envolvido no hábito relacionado ao uso de celular: como demonstrou o psicólogo social norte-americano Elliot Aronso­n, o comportamento individual ajusta-se às normas percebidas pelo grupo.

“Quando a indiferença ou o ruído passam a ser tolerados, rapidamente se normalizam”, diz Nogueira. “O desrespeito deixa de ser exceção e converte-se em padrão. Não é a emoção que irrompe; é o descaso que se instala.”

Uma pergunta incontornável é o quanto há de elitismo e nostalgia na busca por um certo tipo de plateia. O psicanalista pondera que o incômodo não deriva do desejo por um silêncio absoluto – até porque o teatro sempre foi um lugar vivo e, por vezes, barulhento. O problema, para ele, mora em outro lugar: “Não se trata de exaltação, mas de distração”.

O psicanalista avalia que assistir a um espetáculo implica aceitar que, durante aquele tempo, sua vontade de rolar o dedo pela tela do celular ou de postar instantaneamente sua experiência será subordinada ao direito do outro – seja o artista, seja o público ao lado – de viver aquele momento sem intervenções.

“Esse pacto não é apenas disciplinar, ou seja, ele não se reduz a desligar o celular ou evitar conversas paralelas. Ele funda a própria possibilidade da experiência estética enquanto experiência compartilhada. Quando a plateia rompe esse pacto, não se trata apenas de incômodo. Trata-se de uma crise da experiência comum”, afirma.

Como diz Nogueira, a pergunta, no fim, não é sobre formas de se impor o silêncio, mas sim: ainda desejamos o silêncio como forma de partilha? •

CARTA CAPITAL 

 

April 28, 2026

EUA e China: uma disputa palmo a palmo na América Latina

 

 

Guerra comercial e competição por influência na região aumentam a tensão política entre as superpotências


 
 Das minas da Nicarágua aos portos do Peru e telescópios na Argentina. Do petróleo da Venezuela ao Canal do Panamá e minérios em Goiás. De Norte a Sul, a América Latina se transforma em palco da disputa entre os interesses chineses e americanos.

Um ano depois de Donald Trump iniciar uma guerra comercial e declarar abertamente sua intenção de militarizar o hemisfério, a China se organiza para defender seus ativos e investimentos na região. O resultado tem sido uma crescente tensão política entre governos locais e as duas superpotências.

Em seu plano de segurança, Trump deixou claro que quer o controle da América Latina e que não irá tolerar a presença chinesa em locais considerados como estratégicos. A Casa Branca sabe como empresas chinesas construíram, possuem ou operam grande parte da infraestrutura critica da região. A disputa por recursos naturais e influência passou a ser um fator constante nas capitais da região.

Mas, em dezembro de 2025 e poucos dias depois de Trump consolidar num documento sua Doutrina Donroe de reocupação do espaço latino-americano, a China divulgou o que chamou de seu novo “Livro Branco” sobre seu relacionamento com a América Latina.

Ainda que não cite nominalmente os EUA, o plano de Pequim criticou a “intimidação unilateral” e destacou a “gloriosa tradição de independência” da América Latina. Para completar, afirmou que apoia a estratégia da região de manter seu status de “zona de paz”, uma alusão ao militarismo de Trump no continente. O recado, portanto, estava dado.

Voos espaciais

De um lado, a estratégia chinesa foi a de capitalizar o enorme descontentamento de certos setores e governos latino-americanos diante das tarifas de Trump e, assim, atrair esses países ainda mais para a sua esfera de influência. Não por acaso, o plano apresenta a China como a defensora de um “ambiente internacional aberto e cooperativo”, opondo-se à ‘intimidação”, em mais uma referência aos EUA.

Alguns dos projetos chineses acenderam o alerta na Casa Branca. O texto defende a ideia da redução do peso do dólar no comércio da região e fala numa aproximação em áreas estratégicas, como transferência de tecnologia e intercâmbios de cientistas, bem como inteligência artificial e cooperação espacial.

Uma das apostas é a introdução do sistema de satélites BeiDou, concorrente do Sistema de Posicionamento Global, ou GPS. Se não bastasse, a China se comprometeu a incluir um latino-americano nos programas espaciais tripulados de Pequim.

Na Argentina, porém, a Casa Branca convenceu Javier Milei a abandonar a concessão de uma área do país para que a China construísse um novo telescópio espacial.

Mas a China também deixou claro que, depois de décadas de aproximação e acordos com os latino-americanos, não aceitará simplesmente deixar a região.

No documento, portanto, Pequim rejeita o que chama de “ciber-hegemonia”. Ou seja, a manobra dos EUA para excluir empresas e componentes chineses da infraestrutura digital da América Latina.

Um alerta claro da ameaça que seus interesses sofrem foi a audaciosa operação de Trump para sequestrar Nicolas Maduro, em janeiro deste ano, e romper os acordos de abastecimento a preços baixos de petróleo da Venezuela para a China. A partir de agora, Pequim terá de pagar um preço de mercado pelo combustível venezuelano. E, claro, passando pela administração dos EUA.

Menos de dois meses depois de publicar seu “guia” de atuação na região, a China passou a implementá-lo e não demorou para que, de ambos os lados, as disputas fossem iniciadas.

Um dos focos da tensão passou a ser o Panamá. Pressionado pelos EUA, o governo local provocou o Judiciário a anular os contratos que existiam entre uma empresa chinesa e o Canal do Panamá, em janeiro de 2026.

As autoridades em Pequim, imediatamente, iniciaram um processo para retaliar o governo local. Um procèsso de arbitragem internacional foi iniciado, com Pequim solicitando uma indenização de US$ 2 bilhões.

Os projetos de empresas chinesas com o Panamá foram suspensos e companhias de transporte marítimo passaram a redirecionar suas cargas por outros portos. Na China, tudo o que vinha do Panamá passou a ser alvo de uma inspeção reforçada. Um mês depois, o Panamá tomou o controle dos portos administrados por empresas chinesas e expulsou os funcionários contratados por Pequim.

No Peru, o porto de Chancay – operado pela China – também se transformou em foco da crise. Uma decisão da Justiça impediu a ingerência por parte de autoridades locais no porto, o que gerou protestos dos EUA e denúncias em Washington de que a China estaria violando a soberania peruana. Além disso, a recente queda do presidente do Peru, José Jerí, ainda ocorreu por conta de uma relação entre seu governo e um empresário chinês.

Xi Jinping discursando em evento diplomático com países latino-americanos. A cena ilustra a estratégia da China de ampliar sua influência política e econômica na América Latina.
Xi Jinping na abertura do IV Fórum CELAC-China, em maio de 2025 (Foto: Ricardo Stuckert/Pr)

Reserva de mercado

A disputa entre EUA e China também abalou a política no Chile. No começo do ano, a decisão do então governo de Gabriel Boric de fechar um acordo para a construção de um cabo submarino de fibra óptica para conectar seu país aos territórios chineses levou o governo Trump a impor sanções contra ministros e outros funcionários de Santiago.

Segundo Washington, o acordo poderia abalar a “segurança regional”. Sob Boric, a China ainda assinou acordos para financiar a construção de hospitais e ferrovias.

A ingerência americana passou a ser um fator constante, sempre que algum governo da região anuncia um acordo com os chineses.

Nas Bahamas, a decisão do governo local de pegar um empréstimo milionário da China para a construção de um hospital foi o estopim de um protesto da Cada Branca. A diplomacia americana passou a pressionar as autoridades caribenhas a buscar outras fontes de financiamento.

Poucos aspectos são tão sensíveis nessa disputa entre as superpotências na região como a mineração. O governo Trump se apressou por montar uma espécie de pacto para garantir uma reserva de mercado de minerais críticos na região, com a participação de Equador, México, Paraguai e Peru.

No Brasil, o governo de Goiás, numa medida que passou a ser questionada internamente pelo governo Lula, também assinou um acordo com os EUA no setor de minerais críticos. Já na Argentina, o governo de Javier Milei se comprometeu a dar prioridade às vendas de seu cobre, lítio e outros minerais críticos em detrimento de “economias ou empresas que manipulam o mercado”, em referência à China.

Como resposta, Pequim fortaleceu sua ofensiva para garantir novas áreas de concessão de mineração, como no caso da Nicarágua, e se lançou em disputas por contratos em várias partes do continente.

Observadores na China destacam que, poucas vezes nas últimas décadas, a América Latina ocupou uma posição tão central na disputa entre duas nações em busca da hegemonia. Resta saber, para diplomatas, qual será o limite da guerra pelos recursos naturais da região e como os governos locais irão reagir para tirar proveito dessa disputa.

 

LIBERTA 

 

Flávio Bolsonaro dançou

 

 

 

Reflexões sobre a capitalização e a descapitalização política do “macho limítrofe”


 

Flávio Bolsonaro protagonizou uma cena que o aproximou mais do aloprado presidente argentino Javier Milei do que dos eleitores do seu pai, eleitores que ele, sem dificuldades, herdará se mantiver a compostura do homem que chegou ao mais alto cargo da nação mais por sua falta de qualidades do que por seus méritos, considerando os afetos que mobilizou, a saber, pânico e ódio numa combinação de sucesso político ímpar na história do Brasil.

Esse é o DNA de Bolsonaro, no qual a família deveria insistir para voltar ao poder. De fato, é possível que seus membros não venham a se tornar presidentes da República. O povo pode estar vacinado – exceto os antivax –, além do que votos para presidenciáveis mudam ao sabor de ondas emocionais de massa, sempre difíceis de prever. De qualquer modo, a parte da população que segue surfando no ódio, certamente, reelegerá os Bolsonaro como deputados, vereadores e outros cargos mais acessíveis.

Seja como for, é preciso olhar para a tecnologia da dancinha. E a que acometeu Bolsonaro Filho foi estranha e, por muitos caminhos, leva a pensar no antigo doidivanas da política, o outrora incensado Aécio Neves. Aécio, que não fez dancinha, mas dançou faz lembrar o Bolsonaro filhinho do papai, talvez por ser o netinho de vovô. Aos mais jovens, sugiro pesquisar sobre Tancredo Neves, avô de Aécio.

Para quem não lembra, Aécio foi o político mineiro que jurou se vingar de Dilma Rousseff, depois de ter perdido a eleição para a petista em 2014. Quase ninguém lembra que ele foi um dos primeiros a acionar o ódio misógino como capital político, o qual, depois, levou ao golpismo capitaneado pelo decrépito Eduardo Cunha, que teve um época de errância entre prisões até se tornar uma figura obscura.

Atualmente, Aécio Neves está no fim da fila para o Senado em Minas. Lembrar de Aécio gritando contra Dilma leva à memoria mais recente sobre a imagem do homem que gritou em nome de Ustra como o “pavor de Dilma Rousseff”, naquele fatídico dia 17 de abril de 2016. Esse homem, pai do personagem da dancinha, está preso e, provavelmente, não terá mais forças para voltar à política. De fato, é curioso que golpistas que agiram contra aquela presidenta, atualmente presidenta do banco do BRICS, sigam de mal a pior.

Aécio Neves ao lado de Tancredo Neves em imagem histórica familiar. A comparação reforça o debate sobre herança política e capital simbólico no caso de Flávio Bolsonaro.
Aécio com o avô Tancredo Neves, na década de 1980 (Foto: Reprodução)

Filhinho de papai

Bolsonaro Filho sacolejou as carnes de um modo meio desarticulado, ao som do “Funk do 01”, uma música de pré-campanha, na intenção de demonstrar que é um sujeito jovial, alegre, que é um cara espontâneo e que, gostando da musicalidade popular como é o funk, as populações que o cantam e dançam, que o criam ou o consomem podem confiar nele.

Todo mundo leu a cena da dancinha a partir da ideia de que Flávio Bolsonaro está tentando se distanciar do pai, algo válido, mas não tão válido assim, pois o pai também tinha suas brincadeiras e fazia cenas que visavam aproximá-lo do povo, fosse andando de jet-ski, fosse comendo farofa grotescamente, fosse bancando o macho predador. Bolsonaro queria parecer um sujeito do povo e, de fato, o era. Já Bolsonaro Filho não tem a mesma história, nem o mesmo apelo e nem o mesmo carisma. Ele tem apenas o nome do pai.

De fato, Bolsonaro pai sempre apostou no grotesco como capital, no qual se inclui o machismo. Gritaria, destempero, agressividade eram parte da cena e produziam profundos efeitos de poder, a ponto de cooptar eleitores fascinados com o carisma, a coragem antissistema ou o simples e puro absurdo que comove pessoas a votar apenas para ver a democracia e a vida do povo em escombros.

Se Flávio quiser ir longe, considerando que se tornar presidente foi o mais longe – ou o longe demais – que seu pai pôde ir, ele deveria se tornar mais parecido com o pai. Nesse caso, a dancinha tem um papel bem especifico. Ela serve no contexto de um jogo retórico em que é preciso criar confusão, principalmente a mental, pois o eleitor não pode entender nada, sob pena de, raciocinando, votar em algo sério e não em Bolsonaro.

É preciso impedir que se vote em algo sério: essa é a tarefa da dancinha hipnótica. Confundir faz parte disso. Trata-se de um método essencial à extrema direita, que só consegue se eleger mobilizando o caos, do qual afetos tristes como o ódio, a inveja, a maldade, a vingança e preconceitos em geral (misoginia, racismo, LGBTfobia etc.) são expressão óbvia.

Contudo, Flávio ganha mais quando lança mão de Trump, quando faz guerra ao Pix, quando consegue tocar o pânico como seu pai fez durante as eleições e durante seu mandato. Ou seja, Bolsonaro Filho teria que investir na imagem e no discurso para se assemelhar ao pai e não para se afastar dele, como alguns acreditam que ele vem tentando fazer.

O valor da desqualificação

Assemelhar-se ao pai, nesse caso, significaria aproveitar-se do capital principal do pai, a saber, o que chamei em livros e outros artigos de “ridículo político”. Um método de capitalização política que vem fazendo muito sucesso desde as eleições de 2016, pelo menos. É esse método, que envolve o grotesco e a infâmia, que vem levando hoje trapaceiros de todo tipo a altos cargos do Congresso Nacional.

Bizarríssimos deputados e senadores compõem o reconhecido “Congresso inimigo do povo”. Seguem sendo muito bem votados sem projeto, sem construir nada pelo Brasil. Quem se pergunta como é possível que cidadãos e cidadãs votem em candidatos tão desqualificados, corruptos, estupradores, assassinos, religiosos visivelmente embusteiros, homens cheios de ódio contra meninas e mulheres, gente sem escrúpulos, capaz de tudo por dinheiro e poder, em geral fica sem resposta. Mas quem analisa o valor da performance da desqualificação na política e da violência que dela faz parte começa a entender o que se passa.

Venho insistindo há anos que análises psicopolíticas e esteticopolíticas que levem em conta aspectos “cênicos” do campo político podem explicar tanto ou mais sobre cenários eleitorais do que pesquisas tradicionais sobre opinião. O que está em questão é o elo entre o performer político em sua cena “ridícula”, “grotesca” ou “infame” e o eleitor, que tudo vê sem saber o que fazer com isso. Nesse caso, o efeito do “Funk do 01” não parece ter sido muito comovente, pois o que se espera de um Bolsonaro é que ele apele para a força, a gritaria e o pavor como fazia o pai.

Outros candidatos

Apesar da vantagem de ser filho do ex-presidente, e estar sendo incensado nesse momento inicial em que a mídia precisa combater Lula, há vários candidatos que podem atrapalhar os votos de Flávio Bolsonaro no desenrolar da campanha. Apostaria, nesse estágio da fascistização da política, na figura de Ronaldo Caiado, que pode atrapalhar com força os planos do filhinho de papai. Caiado é um Bolsonaro melhorado, que sabe usar garfo e faca, que é “doutor”.

Misturando autoridade de médico e autoritarismo de chefe de polícia, Caiado é um político experiente, um representante do agronegócio, algo que tem poder no Brasil e, inclusive, poder cênico. O cênico é o âmbito da identificação, o lugar onde as pessoas se reconhecem e no qual elas se mimetizam com os outros com quem se identificam.

Caiado comoveu em sua campanha para a presidência em 1989 usando um cavalo branco e fazendo a cena do “príncipe”. É um personagem adequado no imaginário político da força bruta desejável para simular a sensação de segurança entre as massas. Talvez o inconsciente nacional saiba que as milícias do Rio de Janeiro não são nada perto dos ruralistas do velho oeste brasileiro.

A campanha presidencial de Caiado vai apelar para um sentimento identificatório. Quem não tem como possuir terras e gado, caminhonetes e casarões greco-goianos, pode sempre se contentar em ligar o rádio no sertanejo universitário e, por fim, votar no Caiado. Assim o pobre imitará o rico e se sentirá menos mal. Quando não tem nada de parecido com os ricos, pode-se, pelo menos, se identificar com ele pelo voto. O circuito da cafonice estética e política está fechado.

O simples fato de o PSD de Kassab ter escolhido Caiado, em vez do sulista Eduardo leite, sinaliza para algo importante. Nesse momento, ninguém quer apostar em nenhum tipo de “terceira via”. A polarização ainda não esgotou seu potencial. Ninguém quer “conciliações” em momento decisivo como o que se avizinha. O que as pessoas querem é segurança e o discurso de força traz a ilusão dessa garantia.

Ronaldo Caiado durante campanha presidencial. A imagem ilustra o uso de símbolos visuais e estética de poder na construção de narrativas políticas no Brasil.
Caiado em campanha para a Presidência, em 1989 (Foto: Reprodução)

A chance do bailarino

Sabemos que, no Brasil, o voto se decide por aspectos passionais e não racionais. A alta intenção de voto em Bolsonaro Filho ainda existe porque Bolsonaro pai está vivo e ainda não se tornou mais um Aécio Esquecido das Neves. Essa intenção depende única e exclusivamente da devoção das massas ao pai e da falta de outros candidatos que possam animar mais a extrema direita.

A promessa de Flávio teria que ser a de ressuscitar o pai Bolsonaro. Não o contrário. Ninguém votaria no Flávio que está sendo construído pelas narrativas, inclusive midiáticas, sem que ele fosse um Bolsonaro. A eleição de 2026 vai explicar quanto realmente vale esse nome. Certamente, há a hipótese de que não valha nada, como o “Neves” também já não vale.

Flávio Bolsonaro se elegeu sempre às custas do nome do pai Bolsonaro, que ele agora escamoteia, sem poder negar. Flávio se elegeu, de vereador a senador, em nome do papai e nada oferece de importante, em termos políticos, sem esse nome. De fato, setores do poder econômico e midiático esperam que Flávio seja um nada, como esperavam de Bolsonaro pai, mas não imaginavam que seria tão ruim, que um presidente de verdade faria tanta falta ao Brasil.

É que Jair Bolsonaro foi incompetente demais, até mesmo para os que desejavam que ele fosse apenas uma marionete e, como tal, manipulável pela direita econômica e midiática, que o colocou no cargo de presidente. A sua desqualificação para o cargo extrapolou todos os limites, indo além de todo o compreensível. Além disso, ninguém soube ensinar Bolsonaro a ser presidente, por se tratar de um aprendizado impossível e por ele mesmo ter sido uma surpresa para os que, odiando a normalidade democrática, preferiam ver o circo pegar fogo, até que eles mesmos saíram queimados.

A fragilidade de Flávio Bolsonaro é parte de sua cena. Se a esquerda usar uma tática um pouco mais “brutal”, ou seja, se em vez de segurar o fraquejador como fez Jandira Feghali, deputada, médica e humanista, decidir assoprar um pouco, o filhote do abusador da democracia não ficará em pé. A imagem do playboy desmaiando, como na campanha para prefeito do Rio em 2016, precisa voltar a circular. A imagem do homem fraco desmaiando e sendo segurado por uma médica de esquerda acaba com qualquer tentativa de melhorar a imagem com uma dancinha.

LIBERTA 


 

 

Um pornô nada soft

 

 

 

Pornografia de plataformas digitais banaliza e estimula violência contra as mulheres

 

“Disse ao meu filho de 14 anos que não pode gozar na cara. Não pode bater o pau na cara. Aliás, não pode bater!”.

O comentário feito por uma promotora de Justiça, durante um evento do Ministério Público, em meados de março, ilustra o dilema de uma mãe cujo trabalho passa por compreender como a pornografia digital molda o comportamento de uma geração.

Enquanto mães, a preocupação dela e das colegas estava em dialogar com adolescentes cujo privilégio começa em ter por perto responsáveis dispostas a trocas saudáveis sobre sexo. Como representantes da alta cúpula do MP, que atuam no enfrentamento a diferentes tipos de violência, o grupo trocava impressões sobre um pornô nada soft. Um enredo perverso, que não se restringe aos mais jovens.

Não se trata aqui de condenar fetiches ou impor regras morais. Se combinado, vale tudo o que a dupla (o trio, o quarteto…) quiser. O que ocorre, no entanto, é o condicionamento do desejo a um impulso de infligir violência às mulheres no contexto sexual, cultura que se popularizou junto à explosão de plataformas digitais dedicadas à pornografia.

Autora de Garota Sobre Garota – Como a Cultura Pop Colocou Uma Geração de Mulheres Contra Si Mesma (ed. Todavia), a jornalista Sophie Gilbert, da revista The Atlantic, dedica um dos capítulos do livro a analisar como o “pornô gonzo” – “gênero que imita o pornô amador por dispensar narrativas e focar a ação, tentando deixar a pessoa que assiste imersa na cena” –  influenciou um tratamento violento e misógino de mulheres. Isso se tornou predominante na segunda metade dos anos 2000, quando o lançamento dos sites gratuitos de vídeo como PornHub, RedTube e YouPorn consolidaram a pornografia online.

Escritora e jornalista Sophie Gilbert, autora de 'Garota Sobre Garota', em retrato frontal. O artigo aborda como o "pornô gonzo", variedade estudada por Gilbert, e a pornografia digital influenciaram o tratamento violento e misógino de mulheres na sociedade contemporânea.
A escritora e jornalista Sophie Gilbert, autora de Garota Sobre Garota (Foto: Divulgação)

Psicodramas de raiva

O cenário concebido por Sophie nada tem a ver com o pornô chique retratado no clássico Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson, diretor que venceu o Oscar de Melhor Filme neste ano por Uma Batalha Após a Outra. O ponto de partida da jornalista são os atentados do 11 de Setembro de 2001 em Nova York, que, entre outros efeitos, criou um ambiente de “guerras e alienação”, levando à ascensão do torture porn, gênero que abrange produções marcadas por “violência chocante” e “uma sede impulsiva por vingança”, cujo marco é a estreia de O Albergue (2005), de Eli Roth.

Coproduzido por Quentin Tarantino, o filme de terror, que, aliás, inspirou o crítico de cinema estadunidense David Edelstein a cunhar o termo torture porn, acompanha dois universitários dos Estados Unidos que viajam à Europa. Em busca de “experiências que entorpeçam os sentidos e a memória”, a dupla acaba num hostel, onde são submetidos a todo tipo de tortura, num ambiente de sexo e sadismo.

O impacto de O Albergue – que teve uma sequência assinada pelo mesmo diretor – não se restringiu ao terror, sendo incorporado pela pornografia num momento em que, de acordo com Sophie, a estética e os valores dessa indústria haviam sido integrados à cultura mainstream.

“À medida que o cinema de arte no final dos anos 1990 começou a apresentar imagens sexuais explícitas, em filmes como O Romance, de Catherine Breillat, e Os Idiotas, de Lars von Trier, a indústria do pornô respondia com sua própria mudança de direção”, escreve a jornalista.

O novo elemento dessa transformação foi a violência, tendo como principal representante o produtor Max Hardcore. Conhecido por abusar de mulheres com instrumentos ginecológicos, simular estupros, entre outras bizarrices que Sophie descreve no livro, Hardcore, segundo o ex-editor da revista Hustler Evan Wright, criou “psicodramas de raiva dirigida contra a beleza feminina”.

É nesse contexto que os novos modelos do pornô se infiltram na cultura mais ampla, banalizando padrões sexuais brutais contra mulheres. Entre os episódios que demonstram essa influência, a autora de Garota Sobre Garota menciona uma performance de stand-up comedy do humorista Russell Brand, na qual ele brinca sobre gostar “daqueles boquetes em que vai parar um pouquinho na garganta […], aqueles em que o rímel escorre de leve”. Pouco tempo depois, Brand foi acusado de abuso por várias mulheres. Uma delas, afirmou que tinha 16 anos quando o comediante tentou asfixiá-la com o pênis, “uma técnica conhecida no pornô como cockgagging”.

Pornografia da vingança

Essa mesma brutalidade irá pautar a explosão do pornô digital, com o lançamento de plataformas como o PornHub (2007), responsáveis pela ruína do modelo de negócios dessa indústria, ao eliminar a necessidade de pagar por pornografia.

“Praticamente qualquer coisa que você quisesse ver estava disponível na mesma plataforma: vídeos fetichistas e cenas de estupro publicados juntos de vídeos de revenge porn [pornografia da vingança] e fragmentos nostálgicos [da atriz pornô estadunidense] Jenna Jameson. Em 2013, se estimou que os sites associados ao PornHub chegavam a atrair 1 bilhão de visitantes por mês”, descreve a jornalista.

À disposição dessa multidão de espectadores, episódios que mostram tapas, enforcamento ou bofetadas, como revelou uma pesquisa realizada em 2010 por Ana Bridges, professora do departamento de psicologia da Universidade de Arkansas. De acordo com o estudo, 88% de mais de 300 cenas pornográficas populares contavam com algum tipo de agressão física, em sua grande maioria de homens contra mulheres

Inevitavelmente, essas condutas provocaram mudanças perceptíveis em como as pessoas transam na vida real. No livro, Sophie menciona um levantamento de 2019, feito por uma instituição de combate à violência de gênero no Reino Unido, mostrando que 38% das mulheres britânicas com menos de quarenta anos relataram terem sido estapeadas, enforcadas, sufocadas ou cuspidas sem consentimento durante o sexo.

É desse tipo de tratamento que se alimenta o ecossistema da chamada machosfera, adestrando homens a performarem virilidade e violência e mulheres, submissão.

LIBERTA 

April 27, 2026

À margem da lei

 À margem da lei

 

Os policiais influencers surfam no vácuo regulatório das corporações, revela estudo do Instituto Sou da Paz


Por Mariana Serafini 

Homens encapuzados, perseguições eletrizantes por vielas mal iluminadas e discursos de guerra típicos de filmes de ação dos anos 1990. Vídeos com essa estética têm grande apelo nas redes sociais, sobretudo quando os protagonistas são policiais fardados que buscam entreter o público com uma amostra da “realidade das ruas” e, claro, ganhar uns bons trocados com isso. Para impulsionar o próprio engajamento, vale quase tudo: de dancinhas da última trend a conselhos amorosos para os seguidores.

Os policiais influencers surfam no vácuo regulatório e, não raro, usam a popularidade alcançada nas redes como trampolim político. Especialistas observam que esse comportamento tem gerado uma crise de legitimidade nas forças de segurança, pois a opinião individual do agente se confunde com a voz do Estado, e alertam para a falta de regulação para conter esses abusos.

Na quarta-feira 8, a deputada estadua­l Ediane Maria, do PSOL de São Paulo, denunciou ao Ministério Público Federal o agente da Polícia Rodoviária Federal Breno Vieira, responsável pelo canal “Café com teu pai”. Ele se apresenta nas redes como conselheiro amoroso e faz o papel de um “pai” para orientar mulheres em relacionamentos. As lições amorosas são temperadas com altas doses de misoginia e machismo. Ainda assim, ele acumula quase 30 milhões de seguidores no YouTube, Instagram e TikTok.

    Dois terços das forças de segurança possuem normas para o uso das redes, mas as regras são frágeis e pouco específicas

“É uma questão problemática: um servidor público concursado, designado para atuar como agente de segurança pública, que, em vez de servir à população, está focado em trabalhos extras”, comenta Ediane Maria. A prática é proibida pela PRF, mas o canal está no ar há mais de um ano sem qualquer repreensão, observa a parlamentar. “Isso é nocivo porque pode induzir a população a acreditar que esse posicionamento é oficial.”

Para dimensionar o problema, o Instituto Sou da Paz analisou as regras internas de 56 corporações policiais no País, incluindo a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e as polícias civis e militares estaduais. O levantamento identificou que apenas 37 instituições contam com algum tipo de regulação, em sua maioria criada às pressas a partir de 2021. A diretora-executiva da ONG, Carolina Ricardo, afirma que a “ausência de contornos nítidos favorece a atuação de agentes em uma zona cinzenta”. Segundo ela, o cenário impõe “desafios disciplinares”, pois, à medida que esses policiais ganham fama, torna-se mais difícil puni-los ou desligá-los das corporações.

Um caso emblemático é o de Gabriel Monteiro, ex-soldado da Polícia Militar do Rio de Janeiro, que usou a exposição nas redes para impulsionar a carreira política. Armado e fardado, publicava no YouTube vídeos de “experimentos sociais” e, amparado pela popularidade, passou a desrespeitar superiores e fazer acusações sem provas – como em 2020, ao atribuir ao coronel Íbis Pereira, ex-comandante da PM fluminense, envolvimento com o tráfico e filmá-lo sem autorização. O episódio resultou em punição disciplinar, mas não houve responsabilização pelo uso das redes, à época sem normas específicas. No mesmo ano, chegou a ser expulso por deserção (decisão revertida), depois deixou a corporação e ingressou na política. Eleito vereador pelo PL no Rio, teve o mandato cassado por má conduta em agosto de 2022. Três meses depois, foi preso preventivamente, acusado de estupro, e permaneceu em Bangu 8 até 2025, quando o Superior Tribunal de Justiça concedeu liberdade com monitoramento eletrônico. Hoje, mantém presença nas redes, onde exibe a tornozeleira e ainda associa sua imagem à polícia, inclusive no nome de usuário no Instagram: @gabrielmonteiropm­.

Trunfo. O canal de Da Cunha no YouTube segue ativo com mais de 3 milhões de inscritos – Imagem: Redes Sociais

Em outubro de 2023, a PM do Rio editou uma instrução normativa com regras para o uso de redes sociais e aplicativos de mensagens, incluindo a proibição expressa de usar símbolos da corporação, como brasões e nomes, em perfis pessoais. Para a gerente de advocacy do Instituto Sou da Paz, Nathalie Drumond, a decisão é bem-vinda, embora um tanto tardia. Ela reconhece, porém, que se trata de um debate complexo, por “esbarrar em liberdades individuais e no direito à manifestação de opinião”.

O estudo do Sou da Paz mostra que o número de deputados federais oriundos das forças policiais saltou de 4, em 2010, para 42, em 2018 – aumento de 950%. Em 2024, ao menos 849 policiais foram eleitos vereadores. Para Carolina Ricardo, o uso das redes gera “desigualdade nas eleições”, pois muitos agentes iniciam a campanha antes do período oficial. Segundo a especialista, a saída não é proibir as plataformas, mas reforçar a fiscalização interna e a aplicação de punições para desestimular a prática.

O uso das redes sociais não traz apenas visibilidade e influência, mas também lucros elevados com a monetização de conteúdo. Em meados de 2020, o delegado Carlos Alberto da Cunha passou a publicar, no YouTube, vídeos sobre a “rotina de um policial civil” na capital paulista, sob a justificativa de incentivar jovens a ingressar na carreira. A exposição rapidamente se converteu em fonte de renda paralela. Dados da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo indicam que ele mantinha uma estrutura profissional de produção, com ­custos superiores ao próprio salário (cerca de 10 mil reais), enquanto os ganhos com o canal ultrapassavam 500 mil reais por ano. Em 2022, Da Cunha elegeu-se deputado federal pelo União Brasil.

    Delegado Da Cunha foi denunciado por encenar nas redes o resgate de uma vítima de sequestro

Especialistas alertam para o risco de subordinar o cumprimento da lei à lógica dos algoritmos. Da Cunha levou esse comportamento ao extremo ao encenar uma operação de resgate de uma vítima de sequestro em seu canal no YouTube. O estudo do Sou da Paz revela que ele não participou do momento real da libertação: ao chegar ao local, após a operação já ter sido concluída, obrigou a vítima e os suspeitos, já detidos, a participar de uma reconstituição forjada para suas câmeras. As irregularidades não param por aí. Instalações da Polícia Civil foram usadas como estúdios pelo influenciador. Além disso, funcionários contratados para sua equipe de filmagem foram flagrados dirigindo viaturas e portando armas da instituição. A conduta resultou em denúncia por crime de peculato.

A Corregedoria da Polícia Civil investigou a conduta do delegado e recomendou sua demissão em 2022. O processo baseia-se em acusações de abuso de autoridade e constrangimento ilegal. A palavra final cabe ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Para Drumond, o caso ganhou complexidade adicional devido à alta exposição do agente. “Quando o delegado Da Cunha sofreu medidas disciplinares, o caso virou um debate público e a discussão, que deveria ser técnica sobre a adequação da conduta de um servidor da segurança pública, passou a ser politizada”, afirma.

Da Cunha foi denunciado criminalmente pelo Ministério Público no caso da encenação do resgate, ainda sem desfecho. Em sua defesa, alegou que a filmagem foi uma “simulação para fins probatórios”. Reconstituições oficiais, no entanto, são atribuição da Polícia Técnico-Científica, e não devem ser usadas como ferramenta de autopromoção em redes sociais, observa o Sou da Paz. A única sanção efetiva até o momento foi um breve afastamento em 2021, quando o delegado teve arma e distintivo recolhidos pela Corregedoria da Polícia Civil. Em 2023, a corporação devolveu sua carteira funcional e uma pistola, por decisão do delegado-geral. O canal no YouTube segue ativo, com mais de 3 milhões de inscritos.

Segundo o Sou da Paz, embora dois terços das polícias tenham algum nível de regulação sobre redes sociais, as normas são pouco específicas. O estudo defende a proibição do uso de elementos de identificação – como fardas, armas e viaturas – em perfis pessoais, além de mecanismos mais ágeis de responsabilização. “As normativas atuais ainda não dão conta desse problema de produção de conteúdo e monetização”, avalia Drumond. “Esse é um problema que precisa ser enfrentado com urgência.” • 

CARTA CAPITAL