January 11, 2026

David Bowie: 10 anos após a morte, o camaleão ainda fascina o mundo

 

 Foi uma daquelas mortes que você — se tem idade suficiente, claro — lembra exatamente onde estava e o que fazia quando ouviu a notícia. Este sábado, completam-se dez anos que o astro inglês David Bowie fez sua passagem para o firmamento após longa (e muito sigilosa) luta contra um câncer de fígado. 

Dois dias antes, em seu aniversário de 69 anos, ele havia lançado, sem aparições públicas (que haviam ficado raras nos anos anteriores), “Blackstar”, um enigmático e sombrio álbum, feito com músicos de jazz, em que lidava com o tema da mortalidade em músicas como “Lazarus” (single lançado em dezembro e acompanhado, em janeiro, de um perturbador videoclipe). Com a morte, de repente, aquele disco começava a fazer todo o sentido.

— Estava em casa, dormindo, e minha filha viu a notícia na internet. Ela pulou da cama, me acordou, e disse: “Pai, pai, o Bowie morreu!” Daí eu não conseguia mais dormir — recorda-se Thedy Corrêa, cantor do grupo gaúcho Nenhum de Nós, que em 1989 teve em uma versão de “Starman”, o “Astronauta de mármore”, a música mais tocada do ano no Brasil. — Foi como um golpe. Estava com a alegria do fã, de alguém que viu um trabalho novo de um cara que admira, e vem essa notícia. Teve gente que falou: “Isso aí é um truque dele para promover o álbum.” Acho que ele foi o único exemplo de alguém que conseguiu fazer (a união de obra e vida) de maneira tão genial.

Capas de jornais e revistas no dia da morte do cantor David Bowie — Foto: Robert Bodman/AFP
Capas de jornais e revistas no dia da morte do cantor David Bowie — Foto: Robert Bodman/AFP

Mais do que conseguir orquestrar como arte a sua saída de cena, David Bowie foi uma das maiores forças criativas do que, a partir da segunda metade do século XX, ficou conhecido como cultura pop. Nascido em 1947, David Jones viu de perto a revolução do rock e logo percebeu que ela não estava calcada somente na música. Ainda em 1969, produziu “Love you till Tuesday”, uma coletânea de filmes promocionais de suas canções — algo que antecipou em pelo menos 12 anos a MTV. E mudou de personagem como quem muda de roupa ou cabelo.

David Jones virou David Bowie, depois Major Tom (o astronauta de “Space oddity”, a faixa que o pôs no mapa do pop em 1969), Ziggy Stardust (o astro de rock alienígena e bissexual do álbum de 1972), Alladin Sane (do rosto varado por um raio), Thin White Duke, o Homem que Caiu na Terra (do longa-metragem de Nicolas Roeg, o primeiro que estrelou, em 1976), o Goblin King do filme “Labirinto” (1987)... Em permanente experimentação com a música, o sexo, as drogas, o cinema, a dança, o teatro e a literatura, Bowie ganhou a alcunha de camaleão. “Sou um ator, interpreto papéis, fragmentos de mim mesmo”, definiu-se em entrevista de 1972.

Programação

Em São Paulo e no Rio, até a quarta-feira da semana que vem, o cinema celebra Bowie com uma mostra de filmes, para lembrar os dez anos de sua morte.

— Enquanto o pop tiver algum significado para o mundo, existirá o legado de David Bowie ecoando. Desde 2021 realizamos uma mostra de filmes dedicada a Bowie no Cine Belas Artes. Este ano ela acontece na Frei Caneca (em São Paulo) e em Botafogo (na Zona Sul do Rio). Todo ano ainda me impressiono com a quantidade de jovens fãs frequentando. É a prova de sua influência e capacidade de conquistar novas gerações, há décadas — diz Marina Castro Alves, curadora da mostra. — Ele sempre foi visualmente impactante, e muito além de beleza, tinha essa atração magnética que transbordava no Bowie cantor e no Bowie ator. Essa atração com a câmera é inegável no cinema. Não consigo imaginar outro intérprete transmitindo sua plasticidade em “O homem que caiu na Terra”, ou um vampiro tão sensual como em “Fome de viver”.

As homenagens a David Bowie seguem mundo afora. Recentemente, foi lançado o livro “Far above the world — The Time & Space of David Bowie”, ensaio definitivo do biógrafo Paul Morley, e foi exibido o documentário “The final act”, documentário do Channel 4 da BBC sobre o disco “Blackstar”. No dia 17, a Biblioteca Britânica, em Londres, promoverá o evento “David Bowie in time”, um encontro de músicos, escritores, cineastas e críticos que refletirão sobre momentos cruciais da carreira multifacetada e sua fascinação pelo tempo.

Em 2026, a memória de David Bowie continua mais viva do que nunca: o ano começou com o encerramento da série “Stranger Things” sonorizada por um de seus clássicos, “Heroes”. O legado passa de geração a geração, a bordo dos produtos culturais ou como influência.

— Existe eco de Bowie em vários artistas, e indicaria uma em que vejo a inquietude dele de uma maneira muito positiva: a Billie Eilish — crava Thedy Corrêa. — Ela inclusive já citou Bowie e acho que, nos últimos dez anos, foi também quem mais buscou caminhos não usuais para a música, e até para as maneiras de se vestir, de ir contra o mainstream. É uma outra pegada, mas acho que Billie é um exemplo de quem seguiu o espírito do Bowie.

O inglês morreu em uma época em que plataformas de streaming por assinatura, como o Spotify, começavam a se consolidar como meio de consumo de música. Nos dez anos que se passaram de lá para cá, elas não só salvaram a indústria da música gravada (que passou anos temendo os meios de distribuição digital, achando que eles poderiam intensificar a pirataria), como contribuíram para reviver muitas carreiras de velhos astros.

É curioso, portanto, lembrar hoje que, em 1999, com “Hours...”, Bowie se tornou o primeiro grande artista de uma grande gravadora a lançar um álbum em formato digital antes de sua distribuição física. Desde cedo, o artista abraçou com entusiasmo a internet e criou seu próprio provedor de serviços de internet, o BowieNet, em 1998.

Em 1999, ele foi entrevistado por Jeremy Paxman para o programa Newsnight, da BBC, e falou de sua paixão pelas possibilidades da rede. “Acho que ainda não vimos nem a ponta do iceberg, o potencial do que a internet fará com a sociedade, para o bem e para o mal, é inimaginável. Acho que estamos na iminência de algo emocionante e aterrorizante”, disse. No que Paxman objetou que ela era apenas “uma ferramenta”, o inglês devolveu, à sua inconfundível maneira: “Não, não é. É uma forma de vida alienígena!”

As múltiplas contribuições artísticas

Imagens de David Bowie, no livro "Speed of life", do fotógrafo japonês Masayoshi Sukita — Foto: Divulgação/Masayoshi Sukita
Imagens de David Bowie, no livro "Speed of life", do fotógrafo japonês Masayoshi Sukita — Foto: Divulgação/Masayoshi Sukita

Música. Do roqueiro sem maiores brilhos do LP de estreia de 1967, “David Bowie”, ao reluzente jazz noir de “Blackstar”, o astro promoveu reviravoltas no mundo pop. Sem o glam rock andrógino do Ziggy Stardust, a releitura branca do r&b em “Young americans” (1975), a assimilação do rock gélido e eletrônico dos alemães do krautrock na trilogia de discos de Berlim (“Low” e “Heroes”, de 1977; e “Lodger”, de 79) e a reinvenção do pop dançante em “Let’s dance” (1983), dificilmente existiriam da forma que existem o new romantic, o synthpop, e astros como Madonna ou Lady Gaga.

Artes cênicas. Estudante de teatro avant-garde e de mímica de Lindsay Kemp, Bowie pautou seu trabalho inicial pelos personagens que imortalizou nos palcos e nas capas de seus discos: Major Tom, Ziggy Stardust, Alladin Sane, Thin White Duke... Em 1976, ele teve seu primeiro papel de protagonista no cinema em “O homem que caiu na Terra”, longa-metragem de Nicolas Roeg. Participaria depois de filmes como “Eu, Christiane F. — 13 anos, drogada e prostituída” (interpretando a si mesmo), “Fome de viver”, “Furyo - Em nome da honra” e “Labirinto — A magia do tempo”. Em 2015, ele retomou a trama de “O homem que caiu na Terra”, para escrever o musical “Lazarus”.

Tecnologia. Homem que vivia no futuro, David Bowie conseguiu vislumbrar as possibilidades do videoclipe em 1969 e reconheceu as possibilidades da música eletrônica quando elas ainda estavam sendo testadas, nos anos 1970, pelos alemães do Kraftwerk. Em 1999, ele ainda fez do seu “Hours…” o primeiro álbum de um artista de uma grande gravadora a ser lançado em formato digital antes de sua distribuição física.

 O GLOBO 

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