O
professor de história entra, sorridente, na sala de aula, deposita uma
pasta sobre a mesa e vai direto para o que no seu tempo de estudante
chamavam de quadro-negro e agora é verde. Sem hífen, quadro negro são
duas palavras separadas, um substantivo e um adjetivo, usadas para
qualificar uma situação ruim, que tanto pode ser a saúde periclitante de
alguém, a economia do Brasil ou apenas uma pintura de Romero Britto.
Na também chamada lousa o professor escreve, com um toco de giz, oito
números, verticalmente enfileirados: 1538, 1551, 1580, 1586, 1621,
1678, 1721 e 1723.
“Estes números são datas, anos”, explica. “Em cada um desses anos,
criou-se uma universidade na América Latina. Às vezes, duas, como
ocorreu em 1551, quando surgiram as primeiras universidades de Lima, no
Peru, e da Cidade do México, e em 1721, quando foram fundadas as
universidades de Havana, em Cuba, e Caracas, na Venezuela.” Apontando
para o ano de 1538, o professor ensina: “A primeira de todo o continente
foi construída na ilha de São Domingos, no Caribe, ao lado de Cuba”.
Aí deu uma pausa, logo retomando a lição: “Dez capitais da América
Espanhola tiveram universidades antes do Brasil. Além das citadas,
Bogotá, Quito, Santiago, Guatemala e Assunção. Quase um século depois da
última desta lista, a paraguaia, é que ganhamos nossa primeira
organização de ensino superior, a Academia Real Militar, dois anos após a
chegada da corte portuguesa ao Rio, em 1808. Ou seja, precisamos da
ajuda de Napoleão para nos livrarmos da obrigação de estudar em
Coimbra”.
Antes que algum aluno lhe perguntasse se Bonaparte financiara a
construção do pioneiro estabelecimento acadêmico real e militar, o
professor explicou: “Como vocês sabem ou deveriam saber, d. João VI e
sua corte fugiram para o Brasil por medo da invasão de Portugal pelas
tropas napoleônicas. Foi nessas circunstâncias que ganhamos nossos
primeiros cursos superiores. Mas antes de uma universidade igual às das
capitais latino-americanas vizinhas, tivemos uma academia militar e uma
escola de cirurgia, na Bahia.”
Algum aluno mais perspicaz poderia ter argumentado que, apesar da
demora no aprimoramento do ensino nestas paragens, afinal criamos
universidades de reconhecida excelência, como a USP, por exemplo, e
nenhum país do sul do continente tornou-se uma potência cultural e
científica por ter construído universidades antes de nós.
Mas como ninguém na turma levantou essas questões, ficou no ar a
impressão, não de todo equivocada, de que nossa educação nunca se
recuperou direito do atraso com que foi implantada sem a canga
jesuítica.
“Nosso atraso não se restringe ao campo do ensino”, prosseguiu o
professor. “Demoramos a tomar providências necessárias num bocado de
coisas. Somos uma nação com vocação para o atraso, uma nação atrasada.”
De volta ao quadro, o professor apagou as dez datas ali arroladas e,
no mesmo espaço, acrescentou duas: 1794 e 1888. E, já de frente para os
alunos, falou: “Poderia acrescentar mais uma dúzia de datas, pois entre
estas duas aqui quase 20 países americanos aboliram a escravidão, alguns
quase simultaneamente. Haiti deu a partida, em 1794, no bojo de uma
revolução anticolonialista e antiescravocrata deflagrada e vencida por
sua população negra. Ou seja, os haitianos não se livraram da escravidão
por um decreto lavrado pela elite branca da ilha, mas lutando por sua
independência do domínio francês”.
Enquanto dirigia o olhar de volta ao quadro, acrescentou: “A última
data se refere à nossa Lei Áurea e identifica o último país do Novo
Mundo a libertar seus escravos. Outro atraso em relação a todas as
repúblicas ao redor de nosso solitário império”.
Apagando a lousa, o professor começou a explicar por que juntara os
dois atrasos, o da educação e o do fim da escravidão. Ambos, segundo
ele, explicariam o Brasil, nosso passado e nosso presente, nosso
arraigado racismo e tantas outras mazelas.
“Um sujeito nascido na Espanha, depois naturalizado americano, George
Santayana, disse, há mais de um século, uma das frases mais bonitas e
verdadeiras que já li: ‘Um povo que não conhece sua história está
condenado a repeti-la’, frase que eu, aliás, não me canso de repetir.”
Tirando de sua pasta um livro de quase 300 páginas, continuou: “Por
acaso reencontrei essa frase do Santayana numa das epígrafes deste livro
aqui. Anotem seu título: Sobre o Autoritarismo Brasileiro. Foi
escrito pela historiadora Lilia Moritz Schwarcz e acaba de ser lançado.
Adotei-o como nossa leitura do mês, quem sabe do semestre, pois se
encaixa à perfeição nos objetivos do nosso curso”.
Com uma rápida folheada até a página 223, o professor detém-se na
epígrafe que abre o último capítulo, dedicado aos nossos fantasmas do
presente, e a lê, sem disfarçar seu deleite: “O Brasil tem um enorme
passado pela frente’. Esta é do Millôr Fernandes e resume tão bem as
intenções do livro quanto a do Santayana”.
As raízes de nosso racismo, de nosso mandonismo, de nosso
patrimonialismo, da corrupção, desigualdade social, violência e
intolerância que diariamente testemunhamos – enumera o professor,
percorrendo com o dedo o sumário – “estão todas neste livro, examinadas e
historiadas pela autora. Embora ela faça frequentes e procedentes
alusões ao tenebroso tempo presente, os nomes dos poderosos do momento
permanecem escrupulosamente ocultos por elipse em suas páginas”.
Ao vislumbrar um aluno de celular em punho, no fundo da sala, o
professor suspirou com ar de enfado e, dirigindo-se ao pupilo, disse:
“Não se esqueça de me enviar uma cópia por e-mail”.
Ninguém está livre de proferir uma piada de mau gosto. Não é porque o
sujeito virou prefeito ou ministro que uma dádiva dos céus faz com que
ele só diga coisas certas e relevantes. Se bem que prefeitos e ministros
têm o dever de pensar duas vezes antes de falar qualquer coisa. Mas,
pelo jeito, os prefeitos, ministros e presidentes que nos cercam não
pensam nem uma vez inteira antes de falar. É o que ficou demonstrado
esta semana.
Começou na terça-feira, num evento da prefeitura, quando Marcelo
Crivella achou apropriado descontrair o ambiente com uma piada sem
graça: “O pessoal está sugerindo aqui de colocar o nome da ciclovia de
Vasco da Gama”, disse ele, para completar: “Está caindo muito”. Como é
que é? O sujeito é responsável por uma ciclovia que já despencou quatro
vezes, matou duas pessoas, e ele ainda acha que pode fazer chiste com
isso? Pior, quando foi cobrado, três dias depois, pela inconveniência,
pôs um sorriso nos lábios e disparou: “Quem vê o vídeo vai ver que teve
um flamenguista que fez a proposta. Eu coloquei em votação exatamente
para fazer a brincadeira e depois fui claro quando disse ‘a proposta foi
rejeitada’. Isso é brincadeira que todo carioca faz.”
Não é não, prefeito. O carioca, geralmente, é sensível e sabe que brincadeira tem hora. Mas há exceções, é claro.
Crivella parecia ter o direito de ganhar o troféu Mico da Semana, mas
aí, na quinta-feira, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, postou
um vídeo na sua conta no Twitter. Aparentemente gravado em seu gabinete,
o vídeo mostra o ministro entrando pelo canto esquerdo da tela,
portando um guarda-chuva aberto e cantarolando “Singin’ in the rain”, de
Arthur Freed e Nacio Herb Brown. Mas o que é isso? Weintraub quer fazer
teste para algum musical? Não! Quer denunciar fake news. “Essa última
fake news, fresquinha pra vocês, alega que a paralisação da recuperação
do Museu Nacional, aquele que o reitor da UFRJ não conseguiu
explicar...” Peraí, como é que é? O que o ministro quis dizer? Que o
reitor não soube explicar o museu? Como assim? O museu precisa de
explicação? Bem, deixa o vídeo rodar. O ministro continua: “O que
acontece? Haviam emendas parlamentares...” Para de novo. O sujeito é
ministro da Educação e não conhece uma regra básica de concordância
verbal?
Geralmente, esse erro é cometido por quem não sabe português
direito, mas quer falar difícil. Aí surge o “houveram erros” ou o
“haviam emendas”. No post, o ministro apresenta o vídeo com o seguinte
texto: “Mais uma #FakeNews. Agora, sobre o contingenciamento de verbas
no Museu Nacional, do Rio de Janeiro. Descubra a verdade”. Pois
descobri. A verdade é que o ministro não sabe que o verbo haver, no
sentido de existir, não varia. Nunca! É fácil, ministro. Não varia
nunca!
Nos anos 60 do século passado, o genial cronista Sergio Porto, na pele
de seu heterônimo, Stanislaw Ponte Preta, inventou o Febeapá — o
Festival de Besteira que Assola o País. Nele, colecionava burrices,
bobagens, idiotices, cretinices, enfim, besteiras proferidas por
políticos e autoridades do Brasil. Nos dias de hoje, ele realizaria um
Febeapá e tanto.
Bill de Blasio, prefeito de Nova York, não estava na festa. Semanas
antes, mandara avisar a Bolsonaro que “seu ódio não é bem-vindo”. Por
considerar que a declaração caracterizava a “ideologização da
atividade”, o presidente brasileiro cancelou a visita. Jair acha
ideológico o que não é espelho. Desconfia que sua sombra também conspira
contra ele. O prefeito nova-iorquino aproveitou para cutucar a
masculinidade do capitão: “Valentões geralmente não aguentam um tranco”.
Ernesto Araújo não avisou que, na diplomacia, presidente não passa
recibo para prefeito.
O evento de homenagem a Bolsonaro foi mantido, e João Doria farejou a
oportunidade. Avisou que falaria em inglês para que o prefeito não
pudesse se fazer de desentendido: “Da próxima vez, seja gentil com o
presidente do Brasil. (...) Você pode não gostar de Jair Bolsonaro, mas
ele é o presidente eleito e merece respeito em qualquer parte do mundo,
sobretudo aqui na América”. Lembrou que aprendeu a respeitar “a América”
por “seu respeito a liberdade, pluralidade e direitos universais”.
Encerrou com um grito de “Viva o Brasil!”.
Qual Brasil, João? O Brasil do “não vou combater nem discriminar, mas,
se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater”? Do “filho gayzinho
leva um coro e muda seu comportamento”? Ou aquele do “erro da ditadura
foi torturar e não matar” e do “Polícia Militar do Brasil tinha que
matar é mais”? Por essas rasteiras da história, esse Brasil assumiu a
Presidência.
Por falar em polícia que mata e tortura, João, lembro-me também do
estado brasileiro em que, “a partir de janeiro, polícia vai atirar para
matar”, do, “se forem bandidos, estão indo para o lugar que merecem” ou
do que dá “parabéns aos policiais por colocarem bandidos no cemitério”.
Por essas surpresas da história, esse virou governador de São Paulo.
Desculpe tirar suas frases do contexto, João, corrija-me por favor se
elas queriam dizer algo diverso de sua literalidade. Alguém precisa lhe
dizer que este Brasil não é nem o da Constituição brasileira, nem o da
Constituição da “América”, como prefere. Goste-se ou não do gesto de
Bill de Blasio, a provocação estava em total sintonia com os ideais de
“liberdade, pluralidade e direitos universais”. Combater o ódio ao qual
ele se referia representa mais brasileiros do que imagina (pelo menos os
quase 60% do eleitorado brasileiro que não votou em Jair Bolsonaro).
“A afinidade ideológica entre Jair e João não deve ser subestimada”
No campo da segurança, a linhagem de Doria é apenas um pouco mais polida
e envernizada. Quando a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo,
após o trabalhoso concerto entre vários partidos espalhados pelo
espectro ideológico e o intenso diálogo com a sociedade civil, aprovou a
lei de criação do Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura, Doria
disse que, embora reconhecesse “os nobres propósitos do legislador”,
viu-se “compelido a negar assentimento ao projeto”. O veto foi uma
pérola do que José Carlos Dias chamou de “Brasil declaratório”, aquele
que “brada sua civilidade enquanto corrói os pilares da democracia por
dentro”.
As razões jurídicas do veto desprezaram as especificidades do órgão e
recorreram a generalidades sobre separação de Poderes e simetria
federativa para impedir a inovação institucional. Argumento para
bacharel nenhum botar defeito. Notas de repúdio ao veto foram emitidas
por todos os órgãos congêneres pelo país, pelo Ministério Público
Federal e por mais de 50 organizações da sociedade civil. O Mecanismo de
Prevenção e Combate à Tortura, que integraria a estrutura do próprio
Legislativo paulista, teria função de monitorar práticas de violência em
prisões e delegacias, inspirado em órgãos parecidos de diversas partes
do mundo e também de outros estados brasileiros e do governo federal.
Se sincera a motivação do veto, um governador preocupado com a tortura
no estado que mais encarcera no país teria apresentado alternativa
institucional que sanasse as alegadas ilegalidades. A sociedade paulista
permanece à espera de mais do que isso: que ofereça soluções para a
segurança baseadas em ciência e que comece por investir na dignidade de
policiais, como prometeu em campanha. Em nome dos “direitos universais
da América”, João.
Ministro do Meio Ambiente dá sinais antagônicos à pasta ao ir na direção
de licenciamentos flexíveis, menor controle de agrotóxicos e leniência
com punições
Vinicius Sassine e Thiago Herdy
No começo de abril, fiscais do Ibama entraram na Floresta Nacional do
Jamari, em Rondônia, para pôr um fim momentâneo na exploração ilegal de
madeira empreendida por um grupo de produtores da região. Feito o
flagrante, constatada a necessidade de evitar a retirada de outras toras
da floresta e diante das dificuldades inerentes a uma mata de difícil
acesso, os agentes fizeram aquilo que a lei determina: atearam fogo a
dois caminhões e a um trator usados no crime ambiental. Assim é feito há
quase 11 anos, desde julho de 2008, quando entrou em vigor um decreto
presidencial que ampara a prática de destruir bens usados em crimes
ambientais.
A ação dos fiscais provocou uma reação em cascata. Produtores da região
passaram a trocar mensagens indignadas. “Parece que teve uns caminhões
queimados em Cujubim, e o secretário aqui de Rondônia, o Elias, entrou
em contato com o ministro do Meio Ambiente”, disse um deles, celebrando o
respaldo ministerial franqueado pelo governo de Jair Bolsonaro. Cujubim
está a pouco mais de 200 quilômetros de Porto Velho. A floresta se
localiza entre as duas cidades. “Vamos prejudicar os caras que queimaram
esses caminhões. Não vamos deixar esse trem barato, não”, respondeu um
segundo produtor. “Acho que vai dar problema pra eles. O que a gente
puder fazer para prejudicar esse povo, a gente vai fazer. Tá na hora.
Chega.”
Elias Rezende, secretário de Desenvolvimento Ambiental de Rondônia,
queixou-se ao governador, Coronel Marcos Rocha, do PSL, o mesmo partido
do presidente. Rocha ligou para o ministro do Meio Ambiente, Ricardo
Salles. Na conversa, disse que a destruição de equipamentos usados em
crimes ambientais causava revolta e não deveria ser feita. O governador
ouviu de Salles que a situação mudaria em breve. “O ministro se
comprometeu a apresentar uma minuta para alterar esse decreto”, disse
Rezende. O próprio presidente Bolsonaro gravou um vídeo em que
desautorizava a ação do Ibama — e que viralizou nas redes sociais.
“A estrutura de políticas públicas voltadas para os efeitos das
mudanças climáticas foi esvaziada com o fim da secretaria que tratava do
tema e o orçamento para a área reduzido praticamente a zero”
A ideia de que agora é possível “prejudicar esses caras”, ou seja, os
agentes de fiscalização ambiental, e a promessa feita no dia seguinte
por Salles, de viabilizar o afrouxamento desse trabalho, mimetizam o que
foram até aqui os quatro meses do advogado de 43 anos no posto de
ministro do Meio Ambiente. No fim do ano passado, a pasta quase foi
extinta pelo presidente. A ideia de Bolsonaro era transformá-la em uma
secretaria ligada ao Ministério da Agricultura. Contudo, a ministra
Tereza Cristina e a bancada ruralista foram contra: avaliaram que a
mudança traria dores de cabeça e cobranças extras para a pasta do
agronegócio. Indicaram, então, que ela fosse comandada por Salles, que
chefiara a Secretaria de Meio Ambiente do governo de Geraldo Alckmin, em
São Paulo, em 2016 e 2017. Bolsonaro acatou a indicação. No cargo,
Salles tem colocado em prática um plano de desmonte de políticas
ambientais cujo norte é claro: adequar o meio ambiente aos interesses do
agronegócio, de setores da indústria e outros interesses privados.
Tal convicção é tão patente no governo que Jair Bolsonaro não demonstrou
constrangimento quando, ao discursar no Fórum Econômico Mundial, em
Davos, na Suíça, em janeiro, afirmou que sua gestão teria como premissa a
aliança entre os dois setores, chamados pelo presidente de
“indissociáveis”. Para justificar sua fala, o presidente recorreu a um
sofisma que induz à ideia de que o Brasil avançou demasiado na
preservação ambiental, deixando o agronegócio, que traz muito mais
recursos ao Produto Interno Bruto (PIB) do que florestas, comendo poeira
na estrada. Disse ele: “Somos o país que mais preserva o meio ambiente.
Nenhum outro país do mundo tem tantas florestas como nós. A agricultura
se faz presente em apenas 9% do nosso território e cresce graças a sua
tecnologia e à competência do produtor rural. Menos de 20% de nosso solo
é dedicado à pecuária. Essas commodities, em grande parte, garantem
superávit em nossa balança comercial e alimentam boa parte do mundo”.
A fala do presidente resume o que pensa a bancada ruralista e a função
do ministro Salles em seu governo. Mais que um funcionário de alto
escalão do Executivo, Salles é a personificação de um conjunto de ideias
que encontrou solo fértil em setores conservadores no Brasil e no mundo
— e que vai além do mero pragmatismo econômico. São grupos que, em
alguns casos, mostram-se céticos sobre os efeitos das mudanças
climáticas (alguns acreditam que o aquecimento global é um fenômeno
natural que ocorre de tempos em tempos na atmosfera, sem qualquer
relação com o impacto humano), defendem o afrouxamento do Código
Florestal e são entusiastas da tese de que povos indígenas são
beneficiados por políticas de demarcação, muitas vezes à custa de
prejuízos aos agricultores. A ideia que norteia esses grupos é que a
preservação ambiental criou um ambiente de injustiça contra
proprietários de terra.
O presidente do Instituto
Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Adalberto Eberhard, pediu
exoneração após o ministro Ricardo Salles ameaçar punir agentes. Foto:
Antonio Augusto / Câmara dos Deputados
Os efeitos da nova agenda podem ser percebidos na administração federal.
Documentos obtidos por ÉPOCA mostram um afrouxamento de regras para o
descarte de resíduos decorrentes da perfuração de poços de petróleo,
contrariando recomendações dos próprios técnicos do governo. Ofícios
também apontam gestos no sentido de flexibilizar licenciamentos
ambientais. Atos tornaram o controle de agrotóxicos menos efetivo.
Discussões sobre pagamentos de serviços ambientais e sobre o Cadastro
Ambiental Rural (CAR) foram paralisadas. O sistema de punição e
aplicação de multas foi afrouxado. E áreas centrais do ministério seguem
acéfalas. Pela visão dos críticos, a gestão ideológica no Ministério do
Meio Ambiente produz efeitos imediatos. Além disso, ataques virtuais
vindos do presidente e do ministro a fiscais a serviço do Ibama e do
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão
que cuida das Unidades de Conservação federais, têm estimulado
produtores a resistir a qualquer tipo de controle.
No início dos anos 2000, Salles era um jovem advogado que integrava o
solitário grupo de paulistanos que organizavam eventos para levantar a
bandeira do livre mercado, da defesa da propriedade privada e do Estado
mínimo, reunidos em torno do movimento Endireita Brasil. O país vivia o
auge do lulismo, que perduraria até a segunda eleição de Dilma Rousseff
(PT), e não havia grande espaço para a direita no espectro político. O
grupo, no entanto, não abandonou a causa. E escolheu o jovem advogado
como representante para tentar uma vaga no Legislativo. Salles tentou
ser vereador, deputado estadual e federal por São Paulo. Fracassou em
todas tentativas. As críticas ao PT o levaram a se aproximar do
governador Geraldo Alckmin (PSDB), de quem virou secretário particular e
depois secretário de Meio Ambiente. Durante esse período, colecionou
inimizades ao criticar publicamente o que via nos bastidores do Palácio
dos Bandeirantes: a força da aliança “de políticos picaretas que se
ajudam, se conhecem e se acobertam”, independentemente da filiação
partidária.
Afinado com Bolsonaro,
Salles cercou-se de militares no ministério: cinco dos nove assessores
têm origem no Exército. Foto: Reprodução
Filho de um casal de advogados paulistanos, Salles não tem como origem o
campo. Aproximou-se de lideranças da Sociedade Rural Brasileira e da
União Democrática Ruralista (UDR) graças ao Endireita Brasil. Em 2018,
candidatou-se pelo Novo a uma vaga na Câmara dos Deputados, defendendo
medidas como a mudança da sede da capital do país de Brasília para São
Paulo, o fim das visitas íntimas em presídios e o uso de munição de
fuzil contra a esquerda e o MST. Fiou a candidatura à Presidência de
João Amoedo (Novo) e por isso teve de avisar ao antigo chefe, Alckmin,
também candidato ao Planalto, que seria fiel à nova legenda e infiel ao
tucano. Percebeu no meio da campanha que a candidatura Amoedo
naufragaria e aderiu discretamente a Bolsonaro, depois de participar de
um encontro dele com militares e empresários, em São Paulo.
Ao chegar a Brasília, o ministro trocou quase todos os superintendentes
do Ibama nos estados. Cercou-se de militares. Dos nove assessores em seu
gabinete, cinco vêm do Exército, assim como o chefe de gabinete, o
ouvidor do órgão e o assessor de imprensa. Sob sua gestão, a diretoria
do ICMBio também foi militarizada — e uma ação na Justiça contesta a
nomeação de um coronel, um major e um tenente-coronel da PM de São Paulo
na diretoria do órgão.
Há convergência de ideias entre o ministro e setores das Forças Armadas,
em especial na questão das reservas indígenas. Por serem alguns dos
poucos grupos a ter permissão legal para circular em regiões
preservadas, militares dizem ver de perto a pobreza das regiões e
defendem que haja políticas de desenvolvimento em áreas preservadas —
ideia criticada por ambientalistas.
Entre os técnicos, é dado como certo que Salles proporá a alteração do
decreto que permite a destruição de bens flagrados em crimes ambientais.
É um pleito antigo de políticos da bancada ruralista. “Em Rondônia, a
orientação é para que não ocorra a destruição. O governador conversou
com o ministro e pediu para que ele repita o que ocorre aqui. O
posicionamento do ministro é que o decreto seja reformulado. E isso não
significa um incentivo ao desmatamento, mas ao amplo contraditório”,
disse o secretário de Desenvolvimento Ambiental de Rondônia.
Salles fracassou como
candidato em diversas esferas do Legislativo, depois de ter se engajado
em grupos de direita que protestaram contra o PT. Foto: Reprodução
Salles também prepara a flexibilização dos licenciamentos ambientais,
que prevê até a dispensa deles para determinados setores. Indicado pelo
ministro para presidir o Ibama, Eduardo Bim assinou uma instrução
normativa há menos de um mês estabelecendo os procedimentos para a
delegação de licenças da União para estados e municípios. Uma semana
depois, o Ibama delegou ao governo da Paraíba as atribuições de
licenciamento para as atividades econômicas de uma grande empresa no
estado.
Nos últimos dias de abril, Bim enviou um ofício ao Ministério da
Economia dizendo ter interesse em seis servidores que trabalhavam na
Valec em Tocantins, a estatal responsável por construir ferrovias. Ele
não viu impedimento no fato de os funcionários terem atuado no outro
lado do balcão. Pelo contrário: o presidente do Ibama pediu que os
servidores trabalhem no órgão especificamente no “licenciamento
ambiental de grandes obras de infraestrutura”.
Salles também nomeou para a chefia da assessoria de relações
interministeriais do Meio Ambiente o criador das peças gráficas de sua
própria campanha, de acordo com os registros do TSE. Trata-se do
linguista, publicitário e criador de memes paulista David Boutsiavaras,
que atende por diferentes pseudônimos no ringue virtual pró-Bolsonaro.
Na terça-feira 7, ÉPOCA perguntou a Boutsiavaras que atividades executa
no ministério e como sua experiência na internet poderia ser útil ao
novo trabalho. Ele preferiu não se manifestar.
“Com quatro meses no cargo, Salles ainda deixa em aberto postos-chave
do ministério. Ele levou um grupo de militares para agradar o
presidente”
Passados mais de quatro meses na cadeira de ministro do Meio Ambiente,
Salles ainda não conseguiu preencher os cargos mais importantes do
ministério. Permaneciam vagos até o último dia 7, por exemplo, a
Secretaria de Florestas e Biodiversidade, a Coordenação de Concessão de
Florestas, a Coordenação de Políticas de Desenvolvimento Sustentável, a
Coordenação de Repartição de Benefícios e o Departamento de Conservação.
Esvaziar áreas que não considerava prioritárias era uma estratégia na
época em que era titular da pasta de Meio Ambiente de São Paulo.
Centralizador, o então secretário causou polêmica ao cancelar pagamentos
de contratos já assinados, medida semelhante à que tentou adotar ao
deparar-se com o custo de aluguel de veículos no Ibama. Depois de
anunciar o cancelamento do contrato com estardalhaço e retuíte do
presidente, voltou atrás ao ser alertado sobre a necessidade de
manutenção do aluguel. Bolsonaro teve de apagar a postagem.
No ministério, Salles esvaziou o desenho de políticas públicas voltadas
para os efeitos das mudanças climáticas e quase zerou o orçamento para a
área. Acabou com a Secretaria de Mudanças do Clima e Florestas, ainda
nos primeiros dias de janeiro. Depois, alocou integrantes da extinta
secretaria — os que permaneceram no ministério — numa assessoria
especial. Até agora, a única posição do ministro a favor dessas
políticas foi a defesa de que o Brasil continue fazendo parte do Acordo
de Paris, um compromisso de 195 países para a redução da emissão de
gases de efeito estufa. No fim do ano, por decisão de Bolsonaro, o país
desistira de sediar a Conferência do Clima da ONU.
Salles na posse com
Bolsonaro. Ele começou fazendo campanha para o tucano Alckmin, mas logo
embarcou na candidatura que se tornaria vitoriosa. Foto: Daniel Marenco /
Agência O Globo
O impacto internacional das novas políticas faz técnicos do governo
prever dificuldades para que o Brasil acesse dinheiro do Fundo do Clima,
que recebe aportes de diversos países. O mesmo temor existe em relação a
recuos de investidores do Fundo da Amazônia. A Noruega, por exemplo, já
aportou US$ 1,2 bilhão ao fundo. Ambos são operacionalizados pelo
BNDES.
No fim de abril, mais de 600 pesquisadores e integrantes da comunidade
científica internacional pediram à União Europeia que condicione
parcerias com o Brasil a novas garantias de proteção ambiental. O
manifesto foi publicado na revista
Science
e leva em conta o reconhecimento, pela comunidade internacional, do Brasil como o país mais biodiverso do mundo.
O ministro do Meio Ambiente não se opôs à transferência do Serviço
Florestal Brasileiro (SFB) de seu ministério para o Ministério da
Agricultura. Nem à nomeação do principal opositor do Código Florestal, o
ex-deputado e ex-líder da bancada ruralista Valdir Colatto, como
diretor-geral do SFB. É ele quem cuida agora, por exemplo, das
concessões de florestas. Trata-se de decidir que empresas e comunidades
receberão do governo o direito de manejar florestas públicas para
extrair madeira, produtos não madeireiros e oferecer serviços de
turismo. Em contrapartida ao uso sustentável, os concessionários pagam
ao governo quantias que variam conforme o valor de licitação das áreas.
Salles vem seguindo à risca a orientação de Bolsonaro — ele próprio
multado e desmultado pelo Ibama por pesca ilegal — para derrubar o que
entende por “indústria da multa” ambiental. Um decreto estabeleceu uma
nova fase processual, com possibilidades amplas de conciliação e
conversão da multa em serviços ambientais.
Na primeira viagem à
Amazônia Legal, Salles visitou a Terra Indígena Utiariti, no noroeste de
Mato Grosso, onde produtores rurais brancos plantam soja e milho
transgênicos mediante o pagamento de porcentagem da safra à etnia
pareci. Foto: Reprodução
Procuradores da República avaliam se as mudanças são legais. “Quando se
adota discurso muito crítico em relação aos órgãos de fiscalização,
fragilizam-se esses órgãos. Crimes ambientais, muitas vezes, envolvem
grande movimentação de recursos, lavagem de dinheiro, falsificação
tributária”, afirma o procurador da República Daniel Azeredo, com
atuação na Câmara de Meio Ambiente da Procuradoria-Geral da República
(PGR). Ele diz que o ministro do Meio Ambiente pode ser alvo de ação em
caso de aumento do desmatamento na Amazônia. “Se o desmatamento subir,
não há dúvida de que a culpa é do ministro.”
Na ponta do sistema, fiscais do Ibama passaram a ter de requerer reforço
policial para conseguir entrar em áreas com suspeita de crime
ambiental, especialmente na Amazônia. Outros têm recebido mensagens
ameaçadoras. “Bolsonaro venceu prometendo acabar com a fiscalização, e o
Ibama não é bem-vindo”, dizem produtores nessas mensagens. A cúpula do
órgão já foi alertada sobre o acirramento dos ânimos.
“Salles não tem como origem o campo. Juntou-se à Sociedade Rural
Brasileira e à União Democrática Ruralista (UDR) graças ao Endireita
Brasil, movimento que ajudou a fundar”
O primeiro dado oficial de desmatamento da Amazônia sob Bolsonaro deverá
ser divulgado só no segundo semestre. O monitoramento atual mostra um
aumento do desmatamento desde 2012. O instituto de pesquisa Imazon faz
um acompanhamento mensal que costuma antecipar o movimento dos dados
oficiais. Entre agosto de 2018 e março de 2019, foram desmatados 1.974
quilômetros quadrados de vegetação amazônica. Em todo o ano anterior, o
desmatamento foi de 1.590 quilômetros quadrados. “O desmonte pode gerar
uma aceleração do desmatamento, embora seja difícil estabelecer uma
relação precisa de causa e efeito”, disse Carlos Souza Jr., pesquisador
associado do Imazon e coordenador do programa de monitoramento da
Amazônia.
Os pontos mais preocupantes, disse Souza Jr., são a proposta de extinção
de reservas legais, o desmonte de políticas de gestão de Unidades de
Conservação, a inibição da fiscalização e a liberação de atividades
econômicas — em especial a mineração — em terras indígenas. Os meses
críticos de desmatamento batem na porta: maio, junho e julho. “Não
consigo me lembrar de intervenções desse tipo do governo. Pode-se perder
o total controle do desmatamento”, afirmou o pesquisador. Ele disse que
os dados vêm apontando um crescimento do “desmatamento especulativo”,
quando se desmata para garantir a apropriação de uma terra pública — a
grilagem, em outras palavras. Novas fronteiras de grilagem vêm sendo
abertas no norte do Pará e no sul e sudeste do Amazonas.
A proatividade de Salles em beneficiar empresas em detrimento da
preservação já o fez se tornar alvo do Ministério Público (MP) paulista
quando era secretário de Meio Ambiente. Foi condenado por improbidade
administrativa e sofreu penas de suspensão de três anos dos direitos
políticos, além de multa correspondente a dez vezes o valor de seu
salário, por adulterar mapas de zoneamento da Área de Proteção (APA) do
Tietê para permitir a ampliação da atividade mineratória na região do
rio. A investigação do MP concluiu que a alteração no mapa foi feita a
pedido de representantes da Fiesp. Salles é alvo, também, de um um
inquérito policial que versa sobre os mesmos fatos, que deverá embasar
um processo criminal. A investigação, sigilosa, se arrasta desde 2017 e
está no gabinete do Procurador-Geral de Justiça.
Na gestão como secretário do Meio Ambiente em São Paulo, Salles aproximou-se das lideranças ruralistas. Foto: Reprodução
Em janeiro de 2018, o Ibama editou uma norma estabelecendo regras claras
para o descarte de resíduos decorrentes da perfuração de poços
marítimos e produção de petróleo. Entre essas regras, estava a proibição
de descartar no mar o cascalho e os fluidos usados nas fases de
reservatório dos poços. Não demorou para as empresas do setor,
representadas pelo Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), contestarem
as novas normas. As empresas pediram — e a Agência Nacional do Petróleo
(ANP) concordou — que houvesse a suspensão exatamente dos itens que
tratam do descarte de cascalho e fluidos. O IBP argumentou que houve
excesso por parte do Ibama e que as regras não encontravam paralelo em
nenhuma parte do mundo. Teve início, então, uma batalha por parte dos
técnicos do Ibama para manter a norma editada no começo de 2018. Em
março, o presidente do Ibama decidiu suspender a norma — apesar de os
pareceres dos técnicos defenderem a vigência das novas regras.
O Ibama também afrouxou regras para o uso de agrotóxicos, permitindo
registros para uso emergencial na Bacia do Rio São Francisco e
prorrogando prazos para regularização. No Conselho Nacional do Meio
Ambiente (Conama), presidido por Salles, a primeira decisão tomada, num
processo com efeitos práticos, foi favorável à indústria. Em reunião em
24 de abril, o Conama aprovou, por 36 a 35, uma emenda da Confederação
Nacional da Indústria (CNI) que flexibiliza regras na fabricação para o
controle de emissão de poluentes por motocicletas. Salles encampou a
proposta, e o Ministério do Meio Ambiente votou a favor dela, a exemplo
de quase todos os representantes do governo. O Ministério da Saúde foi
exceção: votou contra.
“Em sua gestão como secretário em SP, o atual ministro foi condenado
por improbidade administrativa, com multa e penas de suspensão de três
anos dos direitos políticos por adulterar mapas de zoneamento de área de
proteção”
No início da noite da última terça-feira, dia 7, Salles recebeu a
reportagem ÉPOCA em seu gabinete no Ministério do Meio Ambiente. O
ministro demonstrou irritação com parte das perguntas feitas e deu
respostas lacônicas.
Segundo ele, o ministério vai detalhar melhor quais são as hipóteses em
que se podem destruir bens flagrados em crimes ambientais. Uma instrução
normativa em vigor já diz que isso só deve ocorrer em caráter
excepcional, conforme o ministro. “Quem está em campo precisa de
autorização da supervisão da fiscalização (
para destruir os bens
)”, disse. O ministro afirmou ainda que existe um “sentimento de
injustiça” entre produtores rurais, um sentimento de que “existe abuso”
na fiscalização.
Por isso, segundo ele, foi editado o decreto para permitir a conciliação
ambiental. “É um bom instrumento para restabelecer o diálogo.” Sobre
licenciamentos ambientais, Salles disse que uma lei complementar já
permite as delegações a estados e municípios. “Quanto mais, melhor. O
Ibama precisa ficar com o que é de sua competência.” O ministro defendeu
que ocorra o chamado “licenciamento autodeclarado”, em que o próprio
produtor declara a licença, em casos de substituição de cultura — “Da
soja para o milho, da pecuária para a agricultura” — e de atividades com
baixo impacto ambiental.
Na quarta-feira 8, José
Sarney Filho, Carlos Minc, Izabella Teixeira, Marina Silva, Rubens
Ricupero e José Carlos de Carvalho (da esq. para a dir.), todos os
ex-ministros do Meio Ambiente vivos desde que a pasta foi criada, em
1992, assinaram um comunicado contra a política de Salles. Foto: Edilson
Dantas / Agência O Globo
Salles disse ainda que as discussões sobre pagamento de serviço
ambiental não estão paradas, que o assunto agrotóxicos é
preferencialmente do Ministério da Agricultura e que desconhece a
suspensão da norma sobre descarte de resíduos na exploração de petróleo.
Sobre a decisão do Conama a respeito de emissão de poluentes por
motocicletas, o ministro afirmou que o problema da poluição existe, mas
“o remédio era inadequado”.
Salles também afirmou defender a exploração de mineração e arrendamentos
em terras indígenas, desde que se analise “caso a caso”. “O Brasil está
sendo muito injustiçado internacionalmente. O país preserva muito. Os
problemas ambientais estão nas cidades. Não houve cancelamento de
agendas, como as associadas ao campo e a mudanças climáticas. Mas as
cidades são o problema mais premente e urgente”, disse.
Na manhã da quarta-feira 8, oito ex-ministros do Meio Ambiente chamaram a
imprensa na Universidade de São Paulo (USP) para anunciar uma frente de
mobilização contra o que chamaram de “desmonte da governança
socioambiental” no Brasil. Por mais de três horas, relataram ações que
entendem esvaziar a capacidade de implementação de políticas públicas no
ministério. A Salles, endereçaram carta em defesa do desenvolvimento
com atenção ao sistema de proteção ambiental. Ele respondeu na tarde do
mesmo dia, em nota que terminou por atacar gestões anteriores, alegando
“sucateamento” da pasta. Marina Silva ponderou, durante a reunião, que
“só a sociedade poderá criar o espaço para uma outra agenda”,
referindo-se à nova política ambiental. Salles respondeu, em sua nota,
que está cumprindo a missão dada pelo Presidente da República. Sempre
houve dúvida sobre até que ponto a eleição de Jair Bolsonaro foi
motivada pelas ideias que defende ou pelo antipetismo. A aprovação
popular — se houver — das rápidas medidas tomadas por Salles no Meio
Ambiente pode começar a dirimir esse enigma.
Instituída por um decreto presidencial nesta semana, a redução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) de cem para 21 integrantes provocou protestos entre ex-ministros , acadêmicos e membros da sociedade civil, que questionam se o colegiado conseguirá conduzir seus trabalhos diante de seu enxugamento. Com a reforma, órgãos com ligação estreita com o meio ambiente, como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade ( ICMBio ) e aAgência Nacional de Águas , perderam seus lugares. Também não há mais assentos para o Ministério da Saúde e entidades ligadas a questões indígenas. Os estados deixaram de ter um representante cada — agora, serão apenas cinco vagas, uma por região geográfica. Os municípios, que contavam com oito assentos, terão dois, e sempre de capitais — uma medida criticada, já que desconsidera o interior.
Antes com oito vagas, as confederações de atividades econômicas terão apenas duas. E a representação da sociedade civil passou de 21 pessoas para quatro.
— A nova estrutura do Conama reduz a representação de segmentos da sociedade, sua capilaridade e transparência — critica José Sarney Filho, ministro do Meio Ambiente nos governos de FHC e Michel Temer.
O ex-ministro avalia que o colegiado é uma “caixa de ressonância, um Parlamento ambiental do país”.
— Nunca foi um órgão radical, porque tinha representantes da indústria, pecuária, estados, municípios, sociedade civil.
Criado em 1981, durante a presidência de João Figueiredo, o Conama esteve à frente de pontos cruciais da política ambiental do país. Por seu plenário passaram assuntos como o controle das emissões de poluentes de automóveis e orientações sobre a presença de substâncias químicas no solo.
O colegiado também definiu modos de recuperação das áreas de preservação permanente, determinou o licenciamento ambiental para setores econômicos, como a aquicultura, e também para empreendimentos que usam energia eólica. Estabeleceu critérios para uso e manejo da fauna silvestre e, também, o modo de inspeção de indústrias que utilizam produtos madeireiros.
Interferência ideológica
Antes mesmo da posse de Jair Bolsonaro , seu grupo de transição afirmou, em um documento, que o colegiado delibera suas pautas “emocionalmente, sem a devida técnica, sujeitando-se a interferências de ordem ideológica e corporativista pouco afetas à política de Estado”.
No entanto, a justificativa apresentada nesta semana para alterar a estrutura do Conama foi “garantir o princípio da eficiência administrativa para tornar mais objetivos e com melhor foco de atuação os trabalhos desenvolvidos em plenário, bem como nos grupos temáticos”.
O Ministério do Meio Ambiente (MMA) alega que a redução do conselho implicará em uma economia de 80% nos gastos com passagens e diárias dos membros que precisam se deslocar para as reuniões. A pasta banca as despesas de 19 integrantes do Conama. O valor absoluto economizado não foi divulgado porque, segundo a assessoria de imprensa do MMA, “varia em função da época do evento”.
O ex-ministro Carlos Minc , que esteve à frente do Meio Ambiente no governo Lula, considera que, ao contrário do apregoado pelo governo, a nova configuração do Conama não mantém a proporcionalidade de cada setor:
— Os órgãos ambientais eram uma minoria representativa, que não podia ser ignorada. Agora, no entanto, serão um fragmento simbólico, servirão apenas como carimbadores das decisões antiecológicas do governo — lamenta. — Em dois anos no ministério, fui pelo menos 20 vezes ao Conama para debater diversas questões, do Fundo Amazônia a bacias hidrográficas.
Ex-presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Cláudio Maretti pondera que, se o problema do conselho era a falta de eficiência, o governo poderia ter debatido alternativas dentro do próprio colegiado.
— O ICMBio administra unidades de conservação que equivalem a 15% do território nacional. É um órgão fundamental para a discussão da política de meio ambiente — defende. — Nele estão centrados temas como a água que abastece as cidades e a sobrevivência de pelo menos 70 mil famílias de comunidades tradicionais.
Presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência — órgão excluído na nova configuração do Conama —, Helena Nader avalia que a saída de membros da academia é um sinal de negligência à “excelência científica”.
Helena lembra que o Brasil foi sede da Rio 92, que foi o berço das convenções sobre biodiversidade e mudanças climáticas, e da Rio+20, onde foram estabelecidos os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Somados, eles estabelecem cerca de 500 metas, em que o meio ambiente interage com diversos setores.
— O Brasil passou a ser respeitado internacionalmente porque aprendeu a conciliar a atividade agropecuária com a sustentabilidade. O Conama é uma instituição-chave para a economia. É onde se estabelece um diálogo entre pessoas de alto conhecimento. E, sem diálogo, ninguém governa.
A Medida Provisória 867/2018 aprovada pela
Câmara dos Deputados
desmantela a estrutura do
Código Florestal
brasileiro (Lei 12.651/2012), com implicações comerciais, ambientais e
jurídicas. O cerne da questão está nos destaques (jabutis, no jargão da
política) incorporados pelo texto do relator, o deputado ruralista
Sergio Souza (MDB-PR).
A MP representa menos floresta para recuperar, insegurança jurídica
sobre o uso da terra, potenciais dificuldades para o agronegócio
exportar e para o Brasil cumprir suas metas voluntárias no
Acordo de Paris
.
Sua aprovação carrega, sobretudo, a mensagem de que cumprir a lei não é
um bom negócio no Brasil, onde a legislação foi agora modificada para
perdoar dívidas e crime ambiental. Serão os 4% dos proprietários
rurais do país que não se adequaram ao Código Florestal os beneficiários
da anistia a desmatadores concedida pela MP.
O Código Florestal (Lei 12.651/2012) é uma das legislações mais
negociadas da História do país, aprovada após 11 anos de discussões no
Congresso. Ele teve a constitucionalidade validada em 2018 pelo
Supremo Tribunal Federal
(STF). É resultado de um pacto entre governo, agronegócio, academia e
ambientalistas — e todos cederam. A MP descombina o acertado e trouxe
regras novas para perdoar quem não cumpriu o que mandava a lei.
Na visão de especialistas em legislação ambiental, a chamada função
socioambiental da propriedade prevista pela Constituição (artigos 5, 170
e 225), por exemplo, é violada, o que dá margem a ações de
inconstitucionalidade. Além disso, quem cumpriu a lei pode se sentir
prejudicado e recorrer à Justiça, bem como quem não concordar com os
parâmetros adotados para estabelecer as datas de proteção de biomas.
A insegurança jurídica traz problemas para exportações do
agronegócio
, diz Luiz Cornacchioni, diretor-executivo da Associação Brasileira do
Agronegócio (Abag) e representante da Coalizão Brasil Clima, Florestas e
Agricultura. Segundo ele, passa um sinal para o mercado internacional
de que as regras do jogo podem mudar a qualquer momento. Também
prejudica quem se adequou à lei.
Outro problema à vista são mecanismos de financiamento internacional, já
que os grandes bancos têm instrumentos de responsabilidade solidária
com acordos ambientais.
O Observatório do Código Florestal estima que a MP consolida o
desmatamento de uma área entre 4 e 5 milhões de hectares vegetação
nativa, que não mais precisarão ser restaurados. Isso põe em risco o
cumprimento da meta voluntária apresentada pelo Brasil no Acordo de
Paris de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa.
E o Acordo de Paris em risco é outra mensagem negativa para o mercado
consumidor, principalmente o europeu. Países como França e Alemanha já
deixaram claro que não comprarão produtos vindos de áreas desmatadas.
Pela MP, proprietários que desmataram ilegalmente não mais precisarão
recompor as áreas afetadas para se regularizar em imóveis rurais no
Cerrado, no Pampa, na Caatinga e no Pantanal, se derrubaram a vegetação
nativa quando a lei assim o permitia. Porém, a MP usa como referência
para esses biomas leis recentes em vez da legislação original, o
primeiro Código Florestal, de 1934.
Toda a discussão sobre o uso da terra no campo passa longe de cerca de
85% dos habitantes do Brasil, que vivem em cidades. Mas os afeta ainda
assim, ao influenciar a produção de água, a regulação do clima, a
produtividade agrícola e a erosão do solo. Impacta também a economia,
pois o mercado internacional é sensível à questão ambiental.
Como frisa Mercedes Bustamante, professora de ecologia da Universidade
de Brasília e integrante da Coalizão Ciência & Sociedade, está mais
do que na hora de tirar a questão ambiental do gueto e mostrar que o
meio ambiente diz respeito a todos.
Já houve um tempo em que cortar árvores ilegalmente significava perda da
fazenda e condenação à morte no Brasil. Em 1605, era essa a pena
prevista pelo Regimento do Pau Brasil. Agora, muda-se a lei para perdoar
quem a infringiu.
Lula, aos 73 anos, está apaixonado. A notícia, inconfidência cometida
pelo ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira em uma postagem no Facebook
no sábado 18 de maio, após uma visita que o ex-ministro fez à cela da
Polícia Federal, correu o mundo. “Lula está enamorado y si sale de
prisión se casará”, noticiou o jornal argentino
Clarín
. “Lula ‘in love’”, escreveu o canal de notícias internacional France
24. “Lula, ‘amoureux’, veut se remarier s’il sort de prison”, publicou o
francês
Libération
. No entorno de Lula, nada disso era novidade. A socióloga Rosângela da
Silva já é uma figura conhecida do petismo desde antes da prisão do
ex-presidente e mais ainda depois disso, quando Janja, como é conhecida,
passou a fazer a triagem de quem visita ou não o namorado na cadeia
(leia atualização ao fim desta reportagem)
.
Paulista, Rosângela mora em Curitiba e trabalha há 16 anos, desde o
primeiro governo petista, na Itaipu Binacional, com programas de
responsabilidade social envolvendo ocupação urbana, sustentabilidade e
comunidades tradicionais. Neste período, foi cedida por três anos e nove
meses para a Eletrobras, entre 2012 e 2016. Atualmente recebe R$ 17.500
mensais.
Amigos do PT não sabem dizer ao certo quando eles se conheceram, mas
arriscam que foi quando Lula, então presidente, passou por Itaipu.
Rosângela se tornou funcionária na hidrelétrica num período em que os
petistas do Paraná dominavam a estatal. Jorge Samek, amigo antigo de
Lula, era o presidente de Itaipu. A diretoria financeira era ocupada por
Gleisi Hoffmann, ex-senadora, deputada federal e hoje presidente
nacional do PT. Segundo a estatal, não há comissionados por lá. “Não
existe nomeação de empregados em Itaipu. Todos os empregados são
contratados em regime de trabalho da Consolidação das Leis de Trabalho (
CLT
). Apenas diretores e conselheiros são nomeados por decreto, atendendo
prerrogativa da Presidência da República”, disse nota enviada a ÉPOCA
Lula e Janja se reaproximaram no começo de 2018, quando ele a
reencontrou nas caravanas que fez pela Região Sul, nas semanas que
antecederam sua prisão, em abril daquele ano. Ela o visita com
frequência. Os encontros normalmente são nas quintas-feiras, quando Lula
pode receber até duas visitas. Rosângela costuma vê-lo no fim da tarde,
depois que a família dele vai embora. As conversas entre os dois duram
cerca de uma hora. Não há visitas íntimas, contra o que Lula volta e
meia protesta.
O ex-presidente tem usado uma aliança na mão direita, presente de Janja,
num dia em que perguntou a ele se o relacionamento dos dois era sério.
Diante da confirmação de Lula, ela foi implacável: “Então usa isso”. A
paixão foi aos poucos se tornando mais e mais conhecida pelos amigos.
Janja vai toda semana ao acampamento Marisa Letícia, que funciona em
frente à sede da Polícia Federal em Curitiba, do qual é uma das líderes.
Grava vídeos dos apoiadores de Lula para o YouTube e se tornou uma voz
de peso na comunicação do ex-presidente.
No fim de maio de 2018, quando Lula terminava seu segundo mês
encarcerado, ela filmou militantes do MST varrendo o local, tarde da
noite. “Para aqueles que falam que é um bando de desocupados, eles têm
uma organização muito bonita de ver”, disse Janja no vídeo, em tom
orgulhoso. A socióloga se empolgou ao descrever o trabalho de limpeza:
“É de fato uma política social, uma política de inclusão”.
Quando o petista completou um ano preso, no mês passado, o PT montou um
palco na frente da Superintendência da PF em Curitiba. Em um microfone,
estava Lurian, filha de Lula. A música era “Apesar de você”. Em outro
microfone, uma militante pediu: “Vem, Janja!”, ao que Rosângela se
empolgou, cantou e dançou, sorridente. “Água nova brotando e a gente se
amando sem parar!” A militância foi ao delírio.
Os filhos de Lula com Marisa não reagiram muito bem quando souberam do
namoro. Ainda não aprovaram totalmente a relação do pai. No Facebook,
Janja só é amiga de Bia Lula, neta de Lula, filha de Lurian Cordeiro
Lula da Silva, a primeira filha do ex-presidente.
Amigos de Lula acham que, ao delegar a Janja a triagem de quem deve ou
não visitá-lo, ele encontrou uma forma educada de só receber quem quer.
Em vez de ele mesmo vetar alguém, faz parecer que foi decisão dela.
Embora os mais próximos a ele não tenham gostado da inconfidência
cometida por Bresser-Pereira, há quem ache que foi um gesto calculado de
Lula, que quis fazer um carinho público na namorada, ao falar nos
planos de se casar. Há um mês, quando deu entrevista para o
El País
e para a
Folha de S.Paulo
, Lula já havia falado no que seria seu maior sonho. “Vocês acham que eu
não gostaria de estar em casa? Adoraria estar em casa com minha mulher,
adoraria estar em casa com meus filhos.”
A amizade de Lula e Janja era tratada publicamente por ela há anos. Em
2008, no comentário a uma reportagem, ela se referiu a ele de maneira
carinhosa. “Como funcionária pública binacional, sei da importância que
Gleisi tem para nós, mulheres. Sei o que ela fez em Itaipu, sou
testemunha, e sei que meu dileto amigo Lula sabe também”, afirmou, em
defesa de Gleisi Hoffmann.
Lula dá entrevista na PF de
Curitiba. “Adoraria estar em casa com minha mulher ”, disse. Foto:
Ricardo Stuckert / Instituto Lula / Flickr
Para uma funcionária sem cargo de chefia na estrutura federal, ela tinha
um acesso incomum a Lula. Uma notícia de 2010 no site de Itaipu contou
que Rosângela foi a Brasília especialmente para gravar um depoimento de
Lula aos participantes do seminário
Mulheres nos espaços de decisão e poder
, que aconteceria na estatal. A reportagem trazia uma foto dos dois e
uma bandeja de fibra de bananeira, artesanato feito por uma cooperativa
de Foz do Iguaçu e que foi dado de presente a Lula. “De acordo com
Janja, Lula adorou o presente”, informava o texto.
Petistas não sabem dizer se Janja é viúva, a exemplo de Lula, ou se foi
casada. Ela não respondeu ao pedido de entrevista feito por ÉPOCA. Em um
trabalho que a socióloga fez para a Escola Superior de Guerra, em 2011,
sobre as relações de gênero nas instituições de defesa e segurança
nacional, a dedicatória foi para um namorado.
“Ao meu namorado, que apoiou e incentivou a minha vinda para o Rio de
Janeiro, mesmo sabendo das dificuldades da distância que, felizmente,
não atrapalhou. Só nos fortaleceu”, escreveu, sem identificá-lo.
O namoro com Lula ficará um pouco mais difícil. Segundo Itaipu, Janja
está entre os 150 servidores lotados na capital paranaense que, com o
fim do escritório de Curitiba, serão transferidos para Foz do Iguaçu,
sede da binacional. Mais do que nunca, a lua terá um papel importante no
romance dos dois petistas. Recentemente, Janja confidenciou a uma amiga
que é por meio da lua que os dois, um preso e a outra livre, namoram
todas as noites.
(Atualização: A triagem de quem visita Lula é feita
principalmente por Marco Aurélio Ribeiro, assessor direto do
ex-presidente. A intermediação feita por Rosângela foi em casos
excepcionais. O acampamento Marisa Letícia deu lugar, há alguns meses, à
“Vigília Lula Livre”.)
Com Eduardo Barretto e Sérgio Roxo
The story of Game of Thrones wrapped up last night
with the most lavish display of narrative housekeeping in TV history:
Jon Snow betrayed and knifed a power-mad Daenerys to prevent future mass
murders; Tyrion successfully made the case for Bran to take the throne;
Sansa was appointed head of her own kingdom; Arya sailed off on a boat
to uncharted territory; and Jon was sent up North, exiled and neutered
to appease Dany’s supporters.
But the show had already summed itself up a week earlier in “The Bells,”
when the Hound and the Mountain fought to the death in the crumbling
stairwell of the Red Keep, an action scene that doubled as a summary of
all the impossible challenges the show has tried and often failed to
overcome. The Mountain, a.k.a. Gregor Clegane, was poisoned in a duel in
season four but continued to function thanks to Frankenstein-like
medical experiments by Cersei’s adviser Qyburn. He returned to life as a
putrefying goon who wasn’t really alive anymore, in any meaningful
sense, but had to keep guarding Cersei and killing her enemies. The
Mountain’s actions in his final scene — recognizing his brother Sandor,
then disregarding Cersei’s orders by killing Qyburn and entering a
combat to the death — indicated that he still had some agency. But in
every other way, that gray-fleshed, red-eyed creature of obligation was
not the person he’d once been.
Neither
was the show that sent him to such a spectacular end. This image of two
brothers, one living and one nearly undead, fighting to the death
became a metatextual summing-up of Game of Thrones’
final seasons. As it entered its homestretch, David Benioff and D. B.
Weiss’s juggernaut of a fantasy became a gigantic entertainment
revenant, shambling on despite having lost much of its original life
force, along with George R.R. Martin’s source text, somewhere around
season five.
Ironically,
this eighth and final season was absolutely on-brand for the series,
though surely not in the way its creators or its fans would’ve imagined.
Regardless of whether you liked or disliked its individual episodes or
story lines, Game of Thrones constantly set up audiences to expect, even want, a particular outcome, only to deliver the worst-case version of their fears. Game of Thrones
itself got Red Wedding’d or Ned Starked — choose your comparison from
the series; there are dozens of equally good choices available — as its
devotees sat there every Sunday night wishing for something other than
what the show intended to give them. More than a million grew so
disenchanted that they signed a petition
to remake all of season eight. This was a fantasy more ridiculous than
anything in Westeros, a demand contrary to the spirit of popular
storytelling itself (television is not a restaurant where you can send
the food back), and had an almost endearing impotence, like those shots
of the crowd that gathered to watch Ned Stark’s death in season one.
This thing was happening, whether you wanted it or not.
The core of Game of Thrones’ appeal was always its comfort with horror and terror.
In its earlier, stronger seasons, the series often felt more like an
adaptation of an ancient text than anything modern. It ignored
contemporary Western liberal notions of morally and politically
acceptable storytelling (especially when it dealt with gender relations,
racism, colonialism, and the white-savior complex, which approached
Tarzan or Conan levels of cheerful obliviousness), but it was equally
uninterested in giving the audience the neat and life-affirming closure
that it seemed to want from all other fantasy and science-fiction
franchises, whether it was Star Trek or Star Wars, Doctor Who or James Bond, Marvel or DC. On Game of Thrones,
as in life itself, the rain of death fell on the just and unjust alike.
There was an ominousness to the violence that would’ve seemed even more
wanton and sadistic if the show hadn’t channeled that George R.R.
Martin–esque feeling of events’ being subtly finessed by the whims of
unseen gods. It was a 21st-century series in terms of its technology of production and distribution,
but the sensibility was primeval. Watching it from week to week was the
closest that modern Western viewers have gotten to the experience of
reading the original Grimm fairy tales, where Jack the Giant Killer
would cut open a giant’s stomach and replace it with a sack of hasty
pudding, or folktales like the early French version of “Little Red
Riding Hood,” where the girl climbs into bed with the wolf and is eaten.
The end.
Viewers
of the show, like children listening to old fairy tales, got to the
point where, going into each hour, they knew on some level that this
story probably wouldn’t go the way they wanted it to, and that to enter
its narrative space was to accept a certain amount of cruelty. This
freed the writers to deliver massive, often unimaginably horrific
shocks, like the death of Ned, the Red Wedding, the maiming of Jaime
Lannister, the prolonged torture and eventual castration of Theon, and
the innumerable mutilations, eviscerations, immolations, rapes, mass
murders, and other atrocities. The absolute worst thing that could
happen to a character often did happen, and at the worst possible
moment. That was the source of the show’s narrative power and the key to
its viselike hold on audiences, even during the lackluster recent
years.
The
show at its most disturbing was a perfect combination of that horror
and terror, gussied up in the superficial trappings of European-styled
sword-and-sorcery. The difference between horror and terror is subtle
but easy to understand once you know what to look for: If terror is
about fear of a violent physical death or damage to the flesh, horror is
a more psychological or spiritual kind of distress. It’s about fearing
the loss of sanity, of individual autonomy, or (a pre-Freud way of
putting it) of the soul. The Exorcist and Rosemary’s Baby are horror. Jaws is terror. The original Alien,
a stalker movie set in a dark castle of a starship that was also a text
about fear of rape and forced impregnation, was both. So is virtually
the entire filmography of David Cronenberg. Game of Thrones lived
at that intersection, swathed in gloom and gnawing on bones. The
voluminous abuse Sansa suffered at the hands of others was terror, but
the toll it took on her was horror. Ditto the unrelenting misery of
Daenerys, who was abducted and raped in season one, undermined and
betrayed throughout the series, and in the final seasons saw two of her
“children” — who doubled as manifestations of her literally growing rage
— taken from her. (The data trove justifying Dany’s actions in “The
Bells” was filled to the brim over eight seasons; it was only the rushed
and patchy storytelling at the end, with all the crazy-lady shorthand,
that rankled.)
The
entire show was unified, visually, by the reactions of characters who’d
been forced to watch the absolute worst possible thing happen and were
powerless to do anything but absorb it and try not to lose their minds.
This was a recurring feature, practically a dramatic motif, from Sansa
and Arya being physically restrained from trying to help their father as
his head was lowered on the chopping block to Catelyn Stark realizing
at the Red Wedding that there was no reason for a guest to be wearing
chain mail and then screaming warnings after it was too late to warn
anyone. These moments returned audiences to the emotional state of
children watching Old Yeller or E.T. or Avengers: Infinity War, endlessly cycling from hope and trust to betrayal and fear and sorrow, then back again. It worked like a charm. A magic charm.
It
wasn’t just the epic moments and shocking twists that made the series
such a topic of conversation. It was also, perhaps primarily, the
intricate sense of place Martin’s novels brought to the tale, which
anchored the original run of the series and made it special enough to
overcome (usually valid) complaints about misogyny, racial
insensitivity, and other shortcomings. Game of Thrones was often compared in its early years to The Sopranos with dragons, but in totality, those first few seasons were probably closer to something like Mad Men or The Wire,
in that they showed how individuals were shaped by their history and
culture even as they exercised free will. To mangle the famous Casablanca
line, in this crazy world, the problems of two little people, or even a
royal bloodline, didn’t amount to a hill of beans. The definitive
elaboration on this comparison can be found in an article by Zeynep Tufekci in Scientific American. Tufekci theorizes that Game of Thrones
frustrated even devoted fans in its later years not just because it ran
out of George R.R. Martin text to adapt (though that was a problem) but
because it moved away from sociological storytelling, which focuses on
whole institutions or civilizations and their relationship to their own
histories — a thing the show often was brilliant at — to psychological
storytelling that was mainly focused on the individual and treated the
larger society as a mere backdrop for their progress through the world.
The latter was of secondary interest in Martin’s novels.Without
the books, Weiss and Benioff and their actors were still capable of
striking and even deeply moving character moments (this season’s second episode, which was built around quiet conversations, was filled with them). But this wasn’t the dramatic third rail that made Game of Thrones electrifying.
The shift to individual-focused storytelling made the show feel less
assured and less special. Characterization was increasingly subordinated
not just to plot twists but to spectacle and GIF-able moments. It
inflicted great damage on audience goodwill in the final season,
particularly when Game of Thrones sidelined or
undermined many of its female characters (was it necessary to have so
many of them sobbing in close-up over men, and in Brienne’s case,
devoting her final scene to writing Jaime’s biography?) and staged
moments that were viscerally exciting (Jaime’s duel with Euron Greyjoy)
but seemed bizarre if you thought about them for more than a few
seconds. There were still remnants of its sociological storytelling — the big battle scenes
became even more important than they’d been originally, fireworks
displays built into every season. But not necessarily because they
flowed inevitably from the politics and personalities of Westeros —
because, like the various flavors of ultraviolence, they were what Game of Thrones was known for doing, and therefore had to be done.
The
one constant that kept the show vital (and controversial) was its
interest in horror and terror. This is key to the logic of fairy tales
and so-called “moral tales,” where people’s worst fears are realized and
their most egregious missteps punished, seemingly by the cosmos, either
out of a sense of cosmic or supernatural justice or merely because the
universe is indifferent to what individuals want. It was displayed on a
grand scale two times this season: first andrather unsteadily in “The Long Night,” and with terrifying assurance in “The Bells,”
a spectacle of civic ruin and mass murder that variously evoked
Hiroshima, 9/11, the Holocaust, and the conventional aerial firebombings
that have been characteristic of post–World War II life from Dresden
and Cambodia to Kosovo and Aleppo.
These
jolts of horror, whether focused on individual or collective agony,
were an artistic through-line linking the post-Martin version of the
series to its original incarnation. But the narrative infrastructure
that used to grow organically out of Martin’s concern with societies and
their leaders fell away, and what was left was a bottom-line-driven
imperative to be Game of Thrones™, with the
characters serving as pegs around which pyrotechnic and melodramatic
flights of fancy could be woven. A Hiroshima- or 9/11-level atrocity was
well within the narrative bandwidth of this series, where rulers
regularly did awful things for ignoble, often irrational reasons and
civilians suffered and died as a result. Dany repeatedly said that she
wanted the throne, was perfectly willing to burn her enemies and their
societies to the ground to get it, and would settle for being feared if
love was not an option. When viewers argued about whether this was
something Dany would or could do — and whether her rapid descent into
genocidal rage affirmed the series’ arguable misogyny and played into
stereotypes that critic Mo Ryan summed up as “bitches are crazy” — it spoke to a failure of process that had affected the structural integrity of the art.
When the aftershocks of the finale fade and we get a bit of distance from the whole thing, it will become apparent that Game of Thrones itself unwittingly became the victim of an ironic and agonizingly protracted Game of Thrones
ending. The show had all the money in the world and could’ve taken a
lot more time in production — and demanded a lot more of the audience’s
time — than it did, and that might’ve corrected some of the problems
that plagued it during its second half. Even at the end, the series
still had its moments — in spite of all its problems, “The Bells” is
astounding at the level of filmmaking and acting. But like The West Wing after Aaron Sorkin’s departure and Seinfeld
after Larry David’s, something was off so profoundly that you could see
how hard the series was trying to pretend it hadn’t really lost
anything. You could feel the struggle, and the insecurity emanating from
that struggle, even if you still enjoyed the series as a spectacle of
horror and terror, a war film, or a soap opera. It had become the kind
of show that felt comfortable retroactively explaining everything about
Dany’s decision to roast King’s Landing by having two men recap her life
story and argue about whether her actions were defensible (a
sensitively acted scene, but essentially a Reddit thread come to life).
The kind of show that would have a dragon make like the supercomputer at
the end of WarGames (“The only winning move is not to play”). The kind of show that would haveSamwell Tarly presentwhat looked suspiciously like a tell-all memoir written in quill pen, titled A Song of Ice and Fire.
The
upshot is a meta-death as disturbing as any the series has given us.
Ned Stark is losing his head again, there’s blood on the floor of the
reception hall, Jaime’s hand is coming off. But it’s sadder somehow,
because it’s more like a real-world death, where the person you love
gradually turns into something you no longer recognize, and nothing —
not rationalizations, not petitions, not science, not faith — can stop
it. But we had to watch.