June 5, 2019

Aula de história



SERGIO AUGUSTO

O professor de história entra, sorridente, na sala de aula, deposita uma pasta sobre a mesa e vai direto para o que no seu tempo de estudante chamavam de quadro-negro e agora é verde. Sem hífen, quadro negro são duas palavras separadas, um substantivo e um adjetivo, usadas para qualificar uma situação ruim, que tanto pode ser a saúde periclitante de alguém, a economia do Brasil ou apenas uma pintura de Romero Britto.
Na também chamada lousa o professor escreve, com um toco de giz, oito números, verticalmente enfileirados: 1538, 1551, 1580, 1586, 1621, 1678, 1721 e 1723.
“Estes números são datas, anos”, explica. “Em cada um desses anos, criou-se uma universidade na América Latina. Às vezes, duas, como ocorreu em 1551, quando surgiram as primeiras universidades de Lima, no Peru, e da Cidade do México, e em 1721, quando foram fundadas as universidades de Havana, em Cuba, e Caracas, na Venezuela.” Apontando para o ano de 1538, o professor ensina: “A primeira de todo o continente foi construída na ilha de São Domingos, no Caribe, ao lado de Cuba”.
Aí deu uma pausa, logo retomando a lição: “Dez capitais da América Espanhola tiveram universidades antes do Brasil. Além das citadas, Bogotá, Quito, Santiago, Guatemala e Assunção. Quase um século depois da última desta lista, a paraguaia, é que ganhamos nossa primeira organização de ensino superior, a Academia Real Militar, dois anos após a chegada da corte portuguesa ao Rio, em 1808. Ou seja, precisamos da ajuda de Napoleão para nos livrarmos da obrigação de estudar em Coimbra”.
Antes que algum aluno lhe perguntasse se Bonaparte financiara a construção do pioneiro estabelecimento acadêmico real e militar, o professor explicou: “Como vocês sabem ou deveriam saber, d. João VI e sua corte fugiram para o Brasil por medo da invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas. Foi nessas circunstâncias que ganhamos nossos primeiros cursos superiores. Mas antes de uma universidade igual às das capitais latino-americanas vizinhas, tivemos uma academia militar e uma escola de cirurgia, na Bahia.”
Algum aluno mais perspicaz poderia ter argumentado que, apesar da demora no aprimoramento do ensino nestas paragens, afinal criamos universidades de reconhecida excelência, como a USP, por exemplo, e nenhum país do sul do continente tornou-se uma potência cultural e científica por ter construído universidades antes de nós.
Mas como ninguém na turma levantou essas questões, ficou no ar a impressão, não de todo equivocada, de que nossa educação nunca se recuperou direito do atraso com que foi implantada sem a canga jesuítica.
“Nosso atraso não se restringe ao campo do ensino”, prosseguiu o professor. “Demoramos a tomar providências necessárias num bocado de coisas. Somos uma nação com vocação para o atraso, uma nação atrasada.”
De volta ao quadro, o professor apagou as dez datas ali arroladas e, no mesmo espaço, acrescentou duas: 1794 e 1888. E, já de frente para os alunos, falou: “Poderia acrescentar mais uma dúzia de datas, pois entre estas duas aqui quase 20 países americanos aboliram a escravidão, alguns quase simultaneamente. Haiti deu a partida, em 1794, no bojo de uma revolução anticolonialista e antiescravocrata deflagrada e vencida por sua população negra. Ou seja, os haitianos não se livraram da escravidão por um decreto lavrado pela elite branca da ilha, mas lutando por sua independência do domínio francês”.
Enquanto dirigia o olhar de volta ao quadro, acrescentou: “A última data se refere à nossa Lei Áurea e identifica o último país do Novo Mundo a libertar seus escravos. Outro atraso em relação a todas as repúblicas ao redor de nosso solitário império”.
Apagando a lousa, o professor começou a explicar por que juntara os dois atrasos, o da educação e o do fim da escravidão. Ambos, segundo ele, explicariam o Brasil, nosso passado e nosso presente, nosso arraigado racismo e tantas outras mazelas.
“Um sujeito nascido na Espanha, depois naturalizado americano, George Santayana, disse, há mais de um século, uma das frases mais bonitas e verdadeiras que já li: ‘Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la’, frase que eu, aliás, não me canso de repetir.”
Tirando de sua pasta um livro de quase 300 páginas, continuou: “Por acaso reencontrei essa frase do Santayana numa das epígrafes deste livro aqui. Anotem seu título: Sobre o Autoritarismo Brasileiro. Foi escrito pela historiadora Lilia Moritz Schwarcz e acaba de ser lançado. Adotei-o como nossa leitura do mês, quem sabe do semestre, pois se encaixa à perfeição nos objetivos do nosso curso”.
Com uma rápida folheada até a página 223, o professor detém-se na epígrafe que abre o último capítulo, dedicado aos nossos fantasmas do presente, e a lê, sem disfarçar seu deleite: “O Brasil tem um enorme passado pela frente’. Esta é do Millôr Fernandes e resume tão bem as intenções do livro quanto a do Santayana”.
As raízes de nosso racismo, de nosso mandonismo, de nosso patrimonialismo, da corrupção, desigualdade social, violência e intolerância que diariamente testemunhamos – enumera o professor, percorrendo com o dedo o sumário – “estão todas neste livro, examinadas e historiadas pela autora. Embora ela faça frequentes e procedentes alusões ao tenebroso tempo presente, os nomes dos poderosos do momento permanecem escrupulosamente ocultos por elipse em suas páginas”.
Ao vislumbrar um aluno de celular em punho, no fundo da sala, o professor suspirou com ar de enfado e, dirigindo-se ao pupilo, disse: “Não se esqueça de me enviar uma cópia por e-mail”.

June 2, 2019

O novo Febeapá

Xexeo Foto: OGlobo
Ninguém está livre de proferir uma piada de mau gosto. Não é porque o sujeito virou prefeito ou ministro que uma dádiva dos céus faz com que ele só diga coisas certas e relevantes. Se bem que prefeitos e ministros têm o dever de pensar duas vezes antes de falar qualquer coisa. Mas, pelo jeito, os prefeitos, ministros e presidentes que nos cercam não pensam nem uma vez inteira antes de falar. É o que ficou demonstrado esta semana. 

Começou na terça-feira, num evento da prefeitura, quando Marcelo Crivella achou apropriado descontrair o ambiente com uma piada sem graça: “O pessoal está sugerindo aqui de colocar o nome da ciclovia de Vasco da Gama”, disse ele, para completar: “Está caindo muito”. Como é que é? O sujeito é responsável por uma ciclovia que já despencou quatro vezes, matou duas pessoas, e ele ainda acha que pode fazer chiste com isso? Pior, quando foi cobrado, três dias depois, pela inconveniência, pôs um sorriso nos lábios e disparou: “Quem vê o vídeo vai ver que teve um flamenguista que fez a proposta. Eu coloquei em votação exatamente para fazer a brincadeira e depois fui claro quando disse ‘a proposta foi rejeitada’. Isso é brincadeira que todo carioca faz.”
Não é não, prefeito. O carioca, geralmente, é sensível e sabe que brincadeira tem hora. Mas há exceções, é claro. 

Crivella parecia ter o direito de ganhar o troféu Mico da Semana, mas aí, na quinta-feira, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, postou um vídeo na sua conta no Twitter. Aparentemente gravado em seu gabinete, o vídeo mostra o ministro entrando pelo canto esquerdo da tela, portando um guarda-chuva aberto e cantarolando “Singin’ in the rain”, de Arthur Freed e Nacio Herb Brown. Mas o que é isso? Weintraub quer fazer teste para algum musical? Não! Quer denunciar fake news. “Essa última fake news, fresquinha pra vocês, alega que a paralisação da recuperação do Museu Nacional, aquele que o reitor da UFRJ não conseguiu explicar...” Peraí, como é que é? O que o ministro quis dizer? Que o reitor não soube explicar o museu? Como assim? O museu precisa de explicação? Bem, deixa o vídeo rodar. O ministro continua: “O que acontece? Haviam emendas parlamentares...” Para de novo. O sujeito é ministro da Educação e não conhece uma regra básica de concordância verbal?

Geralmente, esse erro é cometido por quem não sabe português direito, mas quer falar difícil. Aí surge o “houveram erros” ou o “haviam emendas”. No post, o ministro apresenta o vídeo com o seguinte texto: “Mais uma #FakeNews. Agora, sobre o contingenciamento de verbas no Museu Nacional, do Rio de Janeiro. Descubra a verdade”. Pois descobri. A verdade é que o ministro não sabe que o verbo haver, no sentido de existir, não varia. Nunca! É fácil, ministro. Não varia nunca! 
Nos anos 60 do século passado, o genial cronista Sergio Porto, na pele de seu heterônimo, Stanislaw Ponte Preta, inventou o Febeapá — o Festival de Besteira que Assola o País. Nele, colecionava burrices, bobagens, idiotices, cretinices, enfim, besteiras proferidas por políticos e autoridades do Brasil. Nos dias de hoje, ele realizaria um Febeapá e tanto.

Gentil com Jair, João?

Conrado Hübner Mendes

 

Bill de Blasio, prefeito de Nova York, não estava na festa. Semanas antes, mandara avisar a Bolsonaro que “seu ódio não é bem-vindo”. Por considerar que a declaração caracterizava a “ideologização da atividade”, o presidente brasileiro cancelou a visita. Jair acha ideológico o que não é espelho. Desconfia que sua sombra também conspira contra ele. O prefeito nova-iorquino aproveitou para cutucar a masculinidade do capitão: “Valentões geralmente não aguentam um tranco”. Ernesto Araújo não avisou que, na diplomacia, presidente não passa recibo para prefeito.
O evento de homenagem a Bolsonaro foi mantido, e João Doria farejou a oportunidade. Avisou que falaria em inglês para que o prefeito não pudesse se fazer de desentendido: “Da próxima vez, seja gentil com o presidente do Brasil. (...) Você pode não gostar de Jair Bolsonaro, mas ele é o presidente eleito e merece respeito em qualquer parte do mundo, sobretudo aqui na América”. Lembrou que aprendeu a respeitar “a América” por “seu respeito a liberdade, pluralidade e direitos universais”. Encerrou com um grito de “Viva o Brasil!”.
Qual Brasil, João? O Brasil do “não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater”? Do “filho gayzinho leva um coro e muda seu comportamento”? Ou aquele do “erro da ditadura foi torturar e não matar” e do “Polícia Militar do Brasil tinha que matar é mais”? Por essas rasteiras da história, esse Brasil assumiu a Presidência.
Por falar em polícia que mata e tortura, João, lembro-me também do estado brasileiro em que, “a partir de janeiro, polícia vai atirar para matar”, do, “se forem bandidos, estão indo para o lugar que merecem” ou do que dá “parabéns aos policiais por colocarem bandidos no cemitério”. Por essas surpresas da história, esse virou governador de São Paulo.
Desculpe tirar suas frases do contexto, João, corrija-me por favor se elas queriam dizer algo diverso de sua literalidade. Alguém precisa lhe dizer que este Brasil não é nem o da Constituição brasileira, nem o da Constituição da “América”, como prefere. Goste-se ou não do gesto de Bill de Blasio, a provocação estava em total sintonia com os ideais de “liberdade, pluralidade e direitos universais”. Combater o ódio ao qual ele se referia representa mais brasileiros do que imagina (pelo menos os quase 60% do eleitorado brasileiro que não votou em Jair Bolsonaro).
“A afinidade ideológica entre Jair e João não deve ser subestimada”
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No campo da segurança, a linhagem de Doria é apenas um pouco mais polida e envernizada. Quando a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, após o trabalhoso concerto entre vários partidos espalhados pelo espectro ideológico e o intenso diálogo com a sociedade civil, aprovou a lei de criação do Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura, Doria disse que, embora reconhecesse “os nobres propósitos do legislador”, viu-se “compelido a negar assentimento ao projeto”. O veto foi uma pérola do que José Carlos Dias chamou de “Brasil declaratório”, aquele que “brada sua civilidade enquanto corrói os pilares da democracia por dentro”.
As razões jurídicas do veto desprezaram as especificidades do órgão e recorreram a generalidades sobre separação de Poderes e simetria federativa para impedir a inovação institucional. Argumento para bacharel nenhum botar defeito. Notas de repúdio ao veto foram emitidas por todos os órgãos congêneres pelo país, pelo Ministério Público Federal e por mais de 50 organizações da sociedade civil. O Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura, que integraria a estrutura do próprio Legislativo paulista, teria função de monitorar práticas de violência em prisões e delegacias, inspirado em órgãos parecidos de diversas partes do mundo e também de outros estados brasileiros e do governo federal.
Se sincera a motivação do veto, um governador preocupado com a tortura no estado que mais encarcera no país teria apresentado alternativa institucional que sanasse as alegadas ilegalidades. A sociedade paulista permanece à espera de mais do que isso: que ofereça soluções para a segurança baseadas em ciência e que comece por investir na dignidade de policiais, como prometeu em campanha. Em nome dos “direitos universais da América”, João.

Como Ricardo Salles tem desmontado a agenda verde em favor do agronegócio

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, reclama que recebeu a pasta sucateada, afirma que há “abusos” na fiscalização do Ibama e reconhece que há motivos para que agropecuaristas se sintam injustiçados. Foto: Tratamento sobre foto de Nacho Doce / Reuters

Ministro do Meio Ambiente dá sinais antagônicos à pasta ao ir na direção de licenciamentos flexíveis, menor controle de agrotóxicos e leniência com punições 
 

June 1, 2019

Ex-ministros e órgãos ligados a ciência e meio ambiente questionam redução do Conama

Conama discutiu resoluções como o licenciamento ambiental para empreendimentos que usam energia eólica Foto: Carlos Barria/Reuters/15-9-2013


Renato Grandelle

Instituída por um decreto presidencial nesta semana, a redução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) de cem para 21 integrantes provocou protestos entre ex-ministros , acadêmicos e membros da sociedade civil, que questionam se o colegiado conseguirá conduzir seus trabalhos diante de seu enxugamento.

Com a reforma, órgãos com ligação estreita com o meio ambiente, como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade ( ICMBio ) e aAgência Nacional de Águas , perderam seus lugares. Também não há mais assentos para o Ministério da Saúde e entidades ligadas a questões indígenas. Os estados deixaram de ter um representante cada — agora, serão apenas cinco vagas, uma por região geográfica. Os municípios, que contavam com oito assentos, terão dois, e sempre de capitais — uma medida criticada, já que desconsidera o interior.

Antes com oito vagas, as confederações de atividades econômicas terão apenas duas. E a representação da sociedade civil passou de 21 pessoas para quatro.
— A nova estrutura do Conama reduz a representação de segmentos da sociedade, sua capilaridade e transparência — critica José Sarney Filho, ministro do Meio Ambiente nos governos de FHC e Michel Temer.
O ex-ministro avalia que o colegiado é uma “caixa de ressonância, um Parlamento ambiental do país”.
— Nunca foi um órgão radical, porque tinha representantes da indústria, pecuária, estados, municípios, sociedade civil.
Criado em 1981, durante a presidência de João Figueiredo, o Conama esteve à frente de pontos cruciais da política ambiental do país. Por seu plenário passaram assuntos como o controle das emissões de poluentes de automóveis e orientações sobre a presença de substâncias químicas no solo.
O colegiado também definiu modos de recuperação das áreas de preservação permanente, determinou o licenciamento ambiental para setores econômicos, como a aquicultura, e também para empreendimentos que usam energia eólica. Estabeleceu critérios para uso e manejo da fauna silvestre e, também, o modo de inspeção de indústrias que utilizam produtos madeireiros.

Interferência ideológica

Antes mesmo da posse de Jair Bolsonaro , seu grupo de transição afirmou, em um documento, que o colegiado delibera suas pautas “emocionalmente, sem a devida técnica, sujeitando-se a interferências de ordem ideológica e corporativista pouco afetas à política de Estado”.
No entanto, a justificativa apresentada nesta semana para alterar a estrutura do Conama foi “garantir o princípio da eficiência administrativa para tornar mais objetivos e com melhor foco de atuação os trabalhos desenvolvidos em plenário, bem como nos grupos temáticos”.

O Ministério do Meio Ambiente (MMA) alega que a redução do conselho implicará em uma economia de 80% nos gastos com passagens e diárias dos membros que precisam se deslocar para as reuniões. A pasta banca as despesas de 19 integrantes do Conama. O valor absoluto economizado não foi divulgado porque, segundo a assessoria de imprensa do MMA, “varia em função da época do evento”.
O ex-ministro Carlos Minc , que esteve à frente do Meio Ambiente no governo Lula, considera que, ao contrário do apregoado pelo governo, a nova configuração do Conama não mantém a proporcionalidade de cada setor:
— Os órgãos ambientais eram uma minoria representativa, que não podia ser ignorada. Agora, no entanto, serão um fragmento simbólico, servirão apenas como carimbadores das decisões antiecológicas do governo — lamenta. — Em dois anos no ministério, fui pelo menos 20 vezes ao Conama para debater diversas questões, do Fundo Amazônia a bacias hidrográficas.
Ex-presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Cláudio Maretti pondera que, se o problema do conselho era a falta de eficiência, o governo poderia ter debatido alternativas dentro do próprio colegiado.
— O ICMBio administra unidades de conservação que equivalem a 15% do território nacional. É um órgão fundamental para a discussão da política de meio ambiente — defende. — Nele estão centrados temas como a água que abastece as cidades e a sobrevivência de pelo menos 70 mil famílias de comunidades tradicionais.
Presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência — órgão excluído na nova configuração do Conama —, Helena Nader avalia que a saída de membros da academia é um sinal de negligência à “excelência científica”.
Helena lembra que o Brasil foi sede da Rio 92, que foi o berço das convenções sobre biodiversidade e mudanças climáticas, e da Rio+20, onde foram estabelecidos os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Somados, eles estabelecem cerca de 500 metas, em que o meio ambiente interage com diversos setores.
— O Brasil passou a ser respeitado internacionalmente porque aprendeu a conciliar a atividade agropecuária com a sustentabilidade. O Conama é uma instituição-chave para a economia. É onde se estabelece um diálogo entre pessoas de alto conhecimento. E, sem diálogo, ninguém governa.

May 31, 2019

Muda-se a lei para perdoar quem a violou

O Cerrado é um biomas mais frágeis do país e palco do avanço da agropecuária e da indústria da soja Foto: Catarina Alencastro/11-9-2009

Ana Lucia Azevedo

A Medida Provisória 867/2018 aprovada pela Câmara dos Deputados desmantela a estrutura do  Código Florestal brasileiro (Lei 12.651/2012), com implicações  comerciais, ambientais e jurídicas. O cerne da questão está nos destaques (jabutis, no jargão da política) incorporados pelo texto do relator, o deputado ruralista Sergio Souza (MDB-PR).

A MP representa menos floresta para recuperar, insegurança jurídica sobre o uso da terra, potenciais dificuldades para o agronegócio exportar e para o Brasil cumprir suas metas voluntárias no Acordo de Paris .


Sua aprovação carrega, sobretudo, a mensagem de que cumprir a lei não é um bom negócio no Brasil, onde a legislação foi agora modificada para perdoar dívidas e crime ambiental.  Serão os  4% dos proprietários rurais do país que não se adequaram ao Código Florestal os beneficiários da anistia a desmatadores concedida pela MP.
O Código Florestal (Lei 12.651/2012) é uma das legislações mais negociadas da História do país, aprovada após 11 anos de discussões no Congresso. Ele teve a constitucionalidade validada em 2018 pelo Supremo Tribunal Federal (STF). É resultado de um pacto entre governo, agronegócio, academia e ambientalistas — e todos cederam. A MP descombina o acertado e trouxe regras novas para perdoar quem não cumpriu o que mandava a lei.
Na visão de especialistas em legislação ambiental, a chamada função socioambiental da propriedade prevista pela Constituição (artigos 5, 170 e 225), por exemplo, é violada, o que dá margem a ações de inconstitucionalidade.  Além disso, quem cumpriu a lei pode se sentir prejudicado e recorrer à Justiça, bem como quem não concordar com os parâmetros  adotados para estabelecer as datas de proteção de biomas.

A insegurança jurídica traz problemas para exportações do agronegócio , diz Luiz Cornacchioni, diretor-executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e representante da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Segundo ele, passa um sinal para o mercado internacional de que as regras do jogo podem mudar a qualquer momento. Também prejudica quem se adequou à lei.
Outro problema à vista são mecanismos de financiamento internacional, já que os grandes bancos têm instrumentos de responsabilidade solidária com acordos ambientais.
O Observatório do Código Florestal estima que a MP consolida o desmatamento de uma área entre 4 e 5 milhões de hectares vegetação nativa, que não mais precisarão ser restaurados. Isso põe em risco o cumprimento da meta voluntária apresentada pelo Brasil no Acordo de Paris de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa.
E o Acordo de Paris em risco é outra mensagem negativa para o mercado consumidor, principalmente o europeu. Países como França e Alemanha já deixaram claro que não comprarão produtos vindos de áreas desmatadas.
Pela MP, proprietários que desmataram ilegalmente não mais precisarão recompor as áreas afetadas para se regularizar em imóveis rurais no Cerrado, no Pampa, na Caatinga e no Pantanal, se derrubaram a vegetação nativa quando a lei assim o permitia. Porém, a MP usa como referência para esses biomas leis recentes em vez da legislação original, o primeiro Código Florestal, de 1934.

Toda a discussão sobre o uso da terra no campo passa longe de cerca de 85% dos habitantes do Brasil, que vivem em cidades. Mas os afeta ainda assim, ao influenciar a produção de água, a regulação do clima, a produtividade agrícola e a erosão do solo. Impacta também a economia, pois o mercado internacional é sensível à questão ambiental.
Como frisa Mercedes Bustamante, professora de ecologia da Universidade de Brasília e integrante da Coalizão Ciência & Sociedade, está mais do que na hora de tirar a questão ambiental do gueto e mostrar que o meio ambiente diz respeito a todos.
Já houve um tempo em que cortar árvores ilegalmente significava perda da fazenda e condenação à morte no Brasil. Em 1605, era essa a pena prevista pelo Regimento do Pau Brasil. Agora, muda-se a lei para perdoar quem a infringiu.

May 28, 2019

Rosângela Silva, a namorada de Lula

Rosângela Silva é ativa nos movimentos sociais e apareceu cantando “Apesar de você” com filha de Lula. Foto: Reprodução / Facebook


Guilherme Amado 

Lula, aos 73 anos, está apaixonado. A notícia, inconfidência cometida pelo ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira em uma postagem no Facebook no sábado 18 de maio, após uma visita que o ex-ministro fez à cela da Polícia Federal, correu o mundo. “Lula está enamorado y si sale de prisión se casará”, noticiou o jornal argentino Clarín . “Lula ‘in love’”, escreveu o canal de notícias internacional France 24. “Lula, ‘amoureux’, veut se remarier s’il sort de prison”, publicou o francês Libération . No entorno de Lula, nada disso era novidade. A socióloga Rosângela da Silva já é uma figura conhecida do petismo desde antes da prisão do ex-presidente e mais ainda depois disso, quando Janja, como é conhecida, passou a fazer a triagem de quem visita ou não o namorado na cadeia (leia atualização ao fim desta reportagem) .
Paulista, Rosângela mora em Curitiba e trabalha há 16 anos, desde o primeiro governo petista, na Itaipu Binacional, com programas de responsabilidade social envolvendo ocupação urbana, sustentabilidade e comunidades tradicionais. Neste período, foi cedida por três anos e nove meses para a Eletrobras, entre 2012 e 2016. Atualmente recebe R$ 17.500 mensais.
Amigos do PT não sabem dizer ao certo quando eles se conheceram, mas arriscam que foi quando Lula, então presidente, passou por Itaipu. Rosângela se tornou funcionária na hidrelétrica num período em que os petistas do Paraná dominavam a estatal. Jorge Samek, amigo antigo de Lula, era o presidente de Itaipu. A diretoria financeira era ocupada por Gleisi Hoffmann, ex-senadora, deputada federal e hoje presidente nacional do PT. Segundo a estatal, não há comissionados por lá. “Não existe nomeação de empregados em Itaipu. Todos os empregados são contratados em regime de trabalho da Consolidação das Leis de Trabalho ( CLT ). Apenas diretores e conselheiros são nomeados por decreto, atendendo prerrogativa da Presidência da República”, disse nota enviada a ÉPOCA

Lula e Janja se reaproximaram no começo de 2018, quando ele a reencontrou nas caravanas que fez pela Região Sul, nas semanas que antecederam sua prisão, em abril daquele ano. Ela o visita com frequência. Os encontros normalmente são nas quintas-feiras, quando Lula pode receber até duas visitas. Rosângela costuma vê-lo no fim da tarde, depois que a família dele vai embora. As conversas entre os dois duram cerca de uma hora. Não há visitas íntimas, contra o que Lula volta e meia protesta.





 

O ex-presidente tem usado uma aliança na mão direita, presente de Janja, num dia em que perguntou a ele se o relacionamento dos dois era sério. Diante da confirmação de Lula, ela foi implacável: “Então usa isso”. A paixão foi aos poucos se tornando mais e mais conhecida pelos amigos. Janja vai toda semana ao acampamento Marisa Letícia, que funciona em frente à sede da Polícia Federal em Curitiba, do qual é uma das líderes. Grava vídeos dos apoiadores de Lula para o YouTube e se tornou uma voz de peso na comunicação do ex-presidente.
No fim de maio de 2018, quando Lula terminava seu segundo mês encarcerado, ela filmou militantes do MST varrendo o local, tarde da noite. “Para aqueles que falam que é um bando de desocupados, eles têm uma organização muito bonita de ver”, disse Janja no vídeo, em tom orgulhoso. A socióloga se empolgou ao descrever o trabalho de limpeza: “É de fato uma política social, uma política de inclusão”.
Quando o petista completou um ano preso, no mês passado, o PT montou um palco na frente da Superintendência da PF em Curitiba. Em um microfone, estava Lurian, filha de Lula. A música era “Apesar de você”. Em outro microfone, uma militante pediu: “Vem, Janja!”, ao que Rosângela se empolgou, cantou e dançou, sorridente. “Água nova brotando e a gente se amando sem parar!” A militância foi ao delírio.

Os filhos de Lula com Marisa não reagiram muito bem quando souberam do namoro. Ainda não aprovaram totalmente a relação do pai. No Facebook, Janja só é amiga de Bia Lula, neta de Lula, filha de Lurian Cordeiro Lula da Silva, a primeira filha do ex-presidente.
Amigos de Lula acham que, ao delegar a Janja a triagem de quem deve ou não visitá-lo, ele encontrou uma forma educada de só receber quem quer. Em vez de ele mesmo vetar alguém, faz parecer que foi decisão dela.
Embora os mais próximos a ele não tenham gostado da inconfidência cometida por Bresser-Pereira, há quem ache que foi um gesto calculado de Lula, que quis fazer um carinho público na namorada, ao falar nos planos de se casar. Há um mês, quando deu entrevista para o El País e para a Folha de S.Paulo , Lula já havia falado no que seria seu maior sonho. “Vocês acham que eu não gostaria de estar em casa? Adoraria estar em casa com minha mulher, adoraria estar em casa com meus filhos.”
A amizade de Lula e Janja era tratada publicamente por ela há anos. Em 2008, no comentário a uma reportagem, ela se referiu a ele de maneira carinhosa. “Como funcionária pública binacional, sei da importância que Gleisi tem para nós, mulheres. Sei o que ela fez em Itaipu, sou testemunha, e sei que meu dileto amigo Lula sabe também”, afirmou, em defesa de Gleisi Hoffmann.
Lula dá entrevista na PF de Curitiba. “Adoraria estar em casa com minha mulher ”, disse. Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula / Flickr
Lula dá entrevista na PF de Curitiba. “Adoraria estar em casa com minha mulher ”, disse. Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula / Flickr
Para uma funcionária sem cargo de chefia na estrutura federal, ela tinha um acesso incomum a Lula. Uma notícia de 2010 no site de Itaipu contou que Rosângela foi a Brasília especialmente para gravar um depoimento de Lula aos participantes do seminário Mulheres nos espaços de decisão e poder , que aconteceria na estatal. A reportagem trazia uma foto dos dois e uma bandeja de fibra de bananeira, artesanato feito por uma cooperativa de Foz do Iguaçu e que foi dado de presente a Lula. “De acordo com Janja, Lula adorou o presente”, informava o texto.
Petistas não sabem dizer se Janja é viúva, a exemplo de Lula, ou se foi casada. Ela não respondeu ao pedido de entrevista feito por ÉPOCA. Em um trabalho que a socióloga fez para a Escola Superior de Guerra, em 2011, sobre as relações de gênero nas instituições de defesa e segurança nacional, a dedicatória foi para um namorado.
“Ao meu namorado, que apoiou e incentivou a minha vinda para o Rio de Janeiro, mesmo sabendo das dificuldades da distância que, felizmente, não atrapalhou. Só nos fortaleceu”, escreveu, sem identificá-lo.
O namoro com Lula ficará um pouco mais difícil. Segundo Itaipu, Janja está entre os 150 servidores lotados na capital paranaense que, com o fim do escritório de Curitiba, serão transferidos para Foz do Iguaçu, sede da binacional. Mais do que nunca, a lua terá um papel importante no romance dos dois petistas. Recentemente, Janja confidenciou a uma amiga que é por meio da lua que os dois, um preso e a outra livre, namoram todas as noites.

(Atualização: A triagem de quem visita Lula é feita principalmente por Marco Aurélio Ribeiro, assessor direto do ex-presidente. A intermediação feita por Rosângela foi em casos excepcionais. O acampamento Marisa Letícia deu lugar, há alguns meses, à “Vigília Lula Livre”.)
Com Eduardo Barretto e Sérgio Roxo

May 23, 2019

The Most Upsetting Game of Thrones Death Was the Show Itself

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  • By Matt Zoller Seitz, www.vulture.com
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  • The story of Game of Thrones wrapped up last night with the most lavish display of narrative housekeeping in TV history: Jon Snow betrayed and knifed a power-mad Daenerys to prevent future mass murders; Tyrion successfully made the case for Bran to take the throne; Sansa was appointed head of her own kingdom; Arya sailed off on a boat to uncharted territory; and Jon was sent up North, exiled and neutered to appease Dany’s supporters.
    But the show had already summed itself up a week earlier in “The Bells,” when the Hound and the Mountain fought to the death in the crumbling stairwell of the Red Keep, an action scene that doubled as a summary of all the impossible challenges the show has tried and often failed to overcome. The Mountain, a.k.a. Gregor Clegane, was poisoned in a duel in season four but continued to function thanks to Frankenstein-like medical experiments by Cersei’s adviser Qyburn. He returned to life as a putrefying goon who wasn’t really alive anymore, in any meaningful sense, but had to keep guarding Cersei and killing her enemies. The Mountain’s actions in his final scene — recognizing his brother Sandor, then disregarding Cersei’s orders by killing Qyburn and entering a combat to the death — indicated that he still had some agency. But in every other way, that gray-fleshed, red-eyed creature of obligation was not the person he’d once been.
    Neither was the show that sent him to such a spectacular end. This image of two brothers, one living and one nearly undead, fighting to the death became a metatextual summing-up of Game of Thrones’ final seasons. As it entered its homestretch, David Benioff and D. B. Weiss’s juggernaut of a fantasy became a gigantic entertainment revenant, shambling on despite having lost much of its original life force, along with George R.R. Martin’s source text, somewhere around season five.
    Ironically, this eighth and final season was absolutely on-brand for the series, though surely not in the way its creators or its fans would’ve imagined. Regardless of whether you liked or disliked its individual episodes or story lines, Game of Thrones constantly set up audiences to expect, even want, a particular outcome, only to deliver the worst-case version of their fears. Game of Thrones itself got Red Wedding’d or Ned Starked — choose your comparison from the series; there are dozens of equally good choices available — as its devotees sat there every Sunday night wishing for something other than what the show intended to give them. More than a million grew so disenchanted that they signed a petition to remake all of season eight. This was a fantasy more ridiculous than anything in Westeros, a demand contrary to the spirit of popular storytelling itself (television is not a restaurant where you can send the food back), and had an almost endearing impotence, like those shots of the crowd that gathered to watch Ned Stark’s death in season one. This thing was happening, whether you wanted it or not.
    The core of Game of Thrones’ appeal was always its comfort with horror and terror. In its earlier, stronger seasons, the series often felt more like an adaptation of an ancient text than anything modern. It ignored contemporary Western liberal notions of morally and politically acceptable storytelling (especially when it dealt with gender relations, racism, colonialism, and the white-savior complex, which approached Tarzan or Conan levels of cheerful obliviousness), but it was equally uninterested in giving the audience the neat and life-affirming closure that it seemed to want from all other fantasy and science-fiction franchises, whether it was Star Trek or Star Wars, Doctor Who or James Bond, Marvel or DC. On Game of Thrones, as in life itself, the rain of death fell on the just and unjust alike. There was an ominousness to the violence that would’ve seemed even more wanton and sadistic if the show hadn’t channeled that George R.R. Martin–esque feeling of events’ being subtly finessed by the whims of unseen gods. It was a 21st-century series in terms of its technology of production and distribution, but the sensibility was primeval. Watching it from week to week was the closest that modern Western viewers have gotten to the experience of reading the original Grimm fairy tales, where Jack the Giant Killer would cut open a giant’s stomach and replace it with a sack of hasty pudding, or folktales like the early French version of “Little Red Riding Hood,” where the girl climbs into bed with the wolf and is eaten. The end.
    Viewers of the show, like children listening to old fairy tales, got to the point where, going into each hour, they knew on some level that this story probably wouldn’t go the way they wanted it to, and that to enter its narrative space was to accept a certain amount of cruelty. This freed the writers to deliver massive, often unimaginably horrific shocks, like the death of Ned, the Red Wedding, the maiming of Jaime Lannister, the prolonged torture and eventual castration of Theon, and the innumerable mutilations, eviscerations, immolations, rapes, mass murders, and other atrocities. The absolute worst thing that could happen to a character often did happen, and at the worst possible moment. That was the source of the show’s narrative power and the key to its viselike hold on audiences, even during the lackluster recent years.
    The show at its most disturbing was a perfect combination of that horror and terror, gussied up in the superficial trappings of European-styled sword-and-sorcery. The difference between horror and terror is subtle but easy to understand once you know what to look for: If terror is about fear of a violent physical death or damage to the flesh, horror is a more psychological or spiritual kind of distress. It’s about fearing the loss of sanity, of individual autonomy, or (a pre-Freud way of putting it) of the soul. The Exorcist and Rosemary’s Baby are horror. Jaws is terror. The original Alien, a stalker movie set in a dark castle of a starship that was also a text about fear of rape and forced impregnation, was both. So is virtually the entire filmography of David Cronenberg. Game of Thrones lived at that intersection, swathed in gloom and gnawing on bones. The voluminous abuse Sansa suffered at the hands of others was terror, but the toll it took on her was horror. Ditto the unrelenting misery of Daenerys, who was abducted and raped in season one, undermined and betrayed throughout the series, and in the final seasons saw two of her “children” — who doubled as manifestations of her literally growing rage — taken from her. (The data trove justifying Dany’s actions in “The Bells” was filled to the brim over eight seasons; it was only the rushed and patchy storytelling at the end, with all the crazy-lady shorthand, that rankled.)
    The entire show was unified, visually, by the reactions of characters who’d been forced to watch the absolute worst possible thing happen and were powerless to do anything but absorb it and try not to lose their minds. This was a recurring feature, practically a dramatic motif, from Sansa and Arya being physically restrained from trying to help their father as his head was lowered on the chopping block to Catelyn Stark realizing at the Red Wedding that there was no reason for a guest to be wearing chain mail and then screaming warnings after it was too late to warn anyone. These moments returned audiences to the emotional state of children watching Old Yeller or E.T. or Avengers: Infinity War, endlessly cycling from hope and trust to betrayal and fear and sorrow, then back again. It worked like a charm. A magic charm.
    It wasn’t just the epic moments and shocking twists that made the series such a topic of conversation. It was also, perhaps primarily, the intricate sense of place Martin’s novels brought to the tale, which anchored the original run of the series and made it special enough to overcome (usually valid) complaints about misogyny, racial insensitivity, and other shortcomings. Game of Thrones was often compared in its early years to The Sopranos with dragons, but in totality, those first few seasons were probably closer to something like Mad Men or The Wire, in that they showed how individuals were shaped by their history and culture even as they exercised free will. To mangle the famous Casablanca line, in this crazy world, the problems of two little people, or even a royal bloodline, didn’t amount to a hill of beans. The definitive elaboration on this comparison can be found in an article by Zeynep Tufekci in Scientific American. Tufekci theorizes that Game of Thrones frustrated even devoted fans in its later years not just because it ran out of George R.R. Martin text to adapt (though that was a problem) but because it moved away from sociological storytelling, which focuses on whole institutions or civilizations and their relationship to their own histories — a thing the show often was brilliant at — to psychological storytelling that was mainly focused on the individual and treated the larger society as a mere backdrop for their progress through the world.
    The latter was of secondary interest in Martin’s novels. Without the books, Weiss and Benioff and their actors were still capable of striking and even deeply moving character moments (this season’s second episode, which was built around quiet conversations, was filled with them). But this wasn’t the dramatic third rail that made Game of Thrones electrifying. The shift to individual-focused storytelling made the show feel less assured and less special. Characterization was increasingly subordinated not just to plot twists but to spectacle and GIF-able moments. It inflicted great damage on audience goodwill in the final season, particularly when Game of Thrones sidelined or undermined many of its female characters (was it necessary to have so many of them sobbing in close-up over men, and in Brienne’s case, devoting her final scene to writing Jaime’s biography?) and staged moments that were viscerally exciting (Jaime’s duel with Euron Greyjoy) but seemed bizarre if you thought about them for more than a few seconds. There were still remnants of its sociological storytelling — the big battle scenes became even more important than they’d been originally, fireworks displays built into every season. But not necessarily because they flowed inevitably from the politics and personalities of Westeros — because, like the various flavors of ultraviolence, they were what Game of Thrones was known for doing, and therefore had to be done.
    The one constant that kept the show vital (and controversial) was its interest in horror and terror. This is key to the logic of fairy tales and so-called “moral tales,” where people’s worst fears are realized and their most egregious missteps punished, seemingly by the cosmos, either out of a sense of cosmic or supernatural justice or merely because the universe is indifferent to what individuals want. It was displayed on a grand scale two times this season: first and rather unsteadily in “The Long Night,” and with terrifying assurance in “The Bells,” a spectacle of civic ruin and mass murder that variously evoked Hiroshima, 9/11, the Holocaust, and the conventional aerial firebombings that have been characteristic of post–World War II life from Dresden and Cambodia to Kosovo and Aleppo.
    These jolts of horror, whether focused on individual or collective agony, were an artistic through-line linking the post-Martin version of the series to its original incarnation. But the narrative infrastructure that used to grow organically out of Martin’s concern with societies and their leaders fell away, and what was left was a bottom-line-driven imperative to be Game of Thrones™, with the characters serving as pegs around which pyrotechnic and melodramatic flights of fancy could be woven. A Hiroshima- or 9/11-level atrocity was well within the narrative bandwidth of this series, where rulers regularly did awful things for ignoble, often irrational reasons and civilians suffered and died as a result. Dany repeatedly said that she wanted the throne, was perfectly willing to burn her enemies and their societies to the ground to get it, and would settle for being feared if love was not an option. When viewers argued about whether this was something Dany would or could do — and whether her rapid descent into genocidal rage affirmed the series’ arguable misogyny and played into stereotypes that critic Mo Ryan summed up as “bitches are crazy” — it spoke to a failure of process that had affected the structural integrity of the art.
    When the aftershocks of the finale fade and we get a bit of distance from the whole thing, it will become apparent that Game of Thrones itself unwittingly became the victim of an ironic and agonizingly protracted Game of Thrones ending. The show had all the money in the world and could’ve taken a lot more time in production — and demanded a lot more of the audience’s time — than it did, and that might’ve corrected some of the problems that plagued it during its second half. Even at the end, the series still had its moments — in spite of all its problems, “The Bells” is astounding at the level of filmmaking and acting. But like The West Wing after Aaron Sorkin’s departure and Seinfeld after Larry David’s, something was off so profoundly that you could see how hard the series was trying to pretend it hadn’t really lost anything. You could feel the struggle, and the insecurity emanating from that struggle, even if you still enjoyed the series as a spectacle of horror and terror, a war film, or a soap opera. It had become the kind of show that felt comfortable retroactively explaining everything about Dany’s decision to roast King’s Landing by having two men recap her life story and argue about whether her actions were defensible (a sensitively acted scene, but essentially a Reddit thread come to life). The kind of show that would have a dragon make like the supercomputer at the end of WarGames (“The only winning move is not to play”). The kind of show that would have Samwell Tarly present what looked suspiciously like a tell-all memoir written in quill pen, titled A Song of Ice and Fire.
    The upshot is a meta-death as disturbing as any the series has given us. Ned Stark is losing his head again, there’s blood on the floor of the reception hall, Jaime’s hand is coming off. But it’s sadder somehow, because it’s more like a real-world death, where the person you love gradually turns into something you no longer recognize, and nothing — not rationalizations, not petitions, not science, not faith — can stop it. But we had to watch.