July 10, 2026

Cartão suspenso, sorteios e CIA: como a Copa alimenta teorias da conspiração

 

 

 

Copa do Mundo sempre foi mais do que futebol. Pela dimensão global, pelo peso político e pelo impacto econômico, o torneio costuma transformar decisões de arbitragem, sorteios e bastidores em combustível para teorias da conspiração. Em 2026, não foi diferente.

As suspeitas voltaram a ganhar força após a Fifa suspender a punição de Folarin Balogun, expulso na fase de grupos, permitindo que o atacante defendesse os Estados Unidos nas oitavas de final contra a Bélgica. A decisão já seria incomum por si só. Mas o fato de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, ter telefonado para Gianni Infantino, presidente da Fifa, para reclamar do cartão vermelho fez a especulação crescer imediatamente.

Dias depois, a derrota do Egito para a Argentina, por 3 a 2, nas oitavas de final, também alimentou reclamações. O atacante egípcio Mostafa Ziko afirmou que o troféu parecia “direcionado à Argentina”, em referência à seleção de Lionel Messi.

O ambiente é conhecido. Em Copas do Mundo, cada lance ganha escala planetária. Um erro de arbitragem, uma decisão administrativa ou um sorteio favorável pode ser reinterpretado por torcedores, jogadores e imprensa como parte de algo maior.

Uma das teorias mais recorrentes envolve o sorteio dos grupos. A suspeita costuma reaparecer a cada edição, especialmente quando os anfitriões recebem adversários considerados acessíveis.

Em 2026, México, Canadá e Estados Unidos foram colocados em grupos que rapidamente geraram debates. O Canadá teve um dos caminhos teoricamente mais favoráveis, com Catar, Bósnia e Herzegovina e Suíça. O México também ficou em uma chave vista como administrável. Já os Estados Unidos, ao contrário do que dizem algumas teorias, tiveram uma sequência mais complicada, com Paraguai, Austrália e Turquia.

A discussão, no entanto, mostra como a Copa é terreno fértil para suspeitas. Mesmo quando os números não sustentam completamente a ideia de manipulação, a combinação entre anfitriões, interesses comerciais e desejo de audiência costuma bastar para que a desconfiança apareça.

Entre as histórias mais famosas está a final da Copa de 1998. Ronaldo, principal estrela do Brasil, sofreu uma convulsão horas antes da decisão contra a França, chegou a ficar fora da escalação inicial e depois entrou em campo. Teve atuação apagada na derrota por 3 a 0.

O episódio gerou uma das maiores teorias da história das Copas: a de que Ronaldo teria sido pressionado a jogar por interesses comerciais da Nike, patrocinadora do jogador e da seleção brasileira. Uma CPI foi aberta no Brasil para investigar a relação entre a CBF e a empresa. O próprio Ronaldo negou pressão.

— Só joguei depois que os exames médicos mostraram que eu estava clínica e fisicamente apto. A única coisa que a Nike me pediu foi que eu usasse as chuteiras deles — afirmou o atacante, em depoimento.

Quatro anos depois, a arbitragem virou centro das suspeitas na Copa de 2002. A campanha da Coreia do Sul, uma das anfitriãs, até as semifinais foi marcada por decisões polêmicas nas vitórias contra Itália e Espanha.

O caso mais lembrado envolve Byron Moreno, árbitro equatoriano do jogo entre Coreia do Sul e Itália. Ele expulsou Francesco Totti por simulação, ignorou lances reclamados pelos italianos e viu os sul-coreanos vencerem com gol de ouro. Nenhuma irregularidade foi comprovada, mas Moreno se tornou símbolo de suspeita para torcedores italianos.

Na Copa de 2026, a arbitragem voltou ao centro do debate por outro motivo: a percepção de maior tolerância ao contato físico. Houve quem interpretasse a orientação de deixar o jogo fluir como uma tentativa de tornar as partidas mais atraentes ao público americano.

A entrada de Messi em Aissa Mandi, da Argélia, sem cartão vermelho, foi usada por críticos como exemplo de suposta proteção às estrelas. Especialistas em arbitragem, porém, avaliaram que o lance não tinha intensidade suficiente para expulsão. Ainda assim, em um Mundial, a imagem de um astro poupado costuma falar mais alto que a explicação técnica.

Algumas teorias atravessam décadas. Em 1970, a ausência de Gordon Banks nas quartas de final entre Inglaterra e Alemanha Ocidental gerou uma das histórias mais curiosas. O goleiro inglês, campeão mundial em 1966, ficou fora por gastroenterite. Sem ele, a Inglaterra perdeu por 3 a 2 após abrir 2 a 0.

A versão conspiratória aponta que Banks teria sido envenenado para facilitar uma eventual caminhada do Brasil ao título, em meio ao interesse da ditadura militar brasileira em usar a seleção como instrumento de popularidade. A teoria chegou a envolver até a CIA, embora nunca tenha sido provada.

O Brasil também aparece em outra história famosa. Na Copa de 1990, Branco afirmou ter se sentido mal depois de beber de uma garrafa oferecida durante o jogo contra a Argentina, pelas oitavas de final. Pouco depois, Caniggia marcou o gol da vitória argentina.

A suspeita era de que a bebida teria sido adulterada com tranquilizante. A acusação nunca foi comprovada, mas ganhou força anos depois, quando Carlos Bilardo, técnico argentino daquela equipe, não negou completamente a possibilidade.

A Argentina de 1978 é outro capítulo recorrente. Jogando em casa, a seleção precisava vencer o Peru por quatro gols de diferença para chegar à final. Goleou por 6 a 0. O resultado, em plena ditadura militar argentina, deu origem a acusações de acordo político entre governos, suborno e pressão sobre jogadores peruanos.

Nada foi oficialmente comprovado, mas a partida permanece como uma das mais contestadas da história das Copas.

O padrão se repete porque a Copa do Mundo reúne todos os ingredientes necessários para a desconfiança: paixão nacional, pressão política, grandes marcas, bilhões em jogo e decisões tomadas em frações de segundo. Em muitos casos, as teorias sobrevivem não pela força das provas, mas pela força simbólica dos episódios.

O GLOBO

 

July 3, 2026

Fifa ignorou sindicato de jogadores e painel de cientistas ao criar pausa obrigatória na Copa

 

 Jogadores da seleção uruguaia de futebol reunidos em círculo no campo, ouvindo orientações do técnico. Alguns atletas vestem coletes marrons, outros o uniforme branco com detalhes azuis, em gramado verde.

São Paulo

Em agosto do ano passado, o Fifpro (sindicato internacional de jogadores) apresentou resultados de um estudo feito com seu homólogo português e a federação de futebol do país sobre como o calor extremo afeta os atletas.

Reforçou na ocasião uma recomendação à Fifa já feita anteriormente, de que modificasse suas diretrizes para proteger a saúde e o desempenho dos jogadores.

Em maio, um mês antes do início da Copa do Mundo, um grupo de 21 especialistas de todo o mundo publicou uma carta aberta à Fifa sobre o tema.

Profissionais e pesquisadores nas áreas de medicina do esporte, saúde pública, desempenho e ciência do clima diziam, em suma, que as diretrizes para calor da entidade que rege o futebol mundial eram inadequadas e expunham a risco os atletas do Mundial.

Com o torneio em curso, as duas pausas obrigatórias para hidratação (de três minutos cada uma) viraram uma das grandes controvérsias desta edição, provocando muitas críticas (de treinadores, jogadores e torcedores) e alguns elogios (de técnicos e atletas).

Estimativas indicam que o maior ganho parece ser comercial —ao todo serão 208 novas janelas publicitárias, uma vez que a Copa terá ao todo 104 jogos.

Ao optar pela novidade, a Fifa ignorou tanto os representantes dos atletas quanto os cientistas. Em resumo, ambos alegam que a pausa é necessária, mas não deve ser obrigatória (e sim segundo as circunstâncias de cada jogo); que a entidade deveria mudar seu parâmetro geral (perigoso para os atletas); e que as adotadas na Copa também careciam de alterações.

Jogadores da seleção uruguaia de futebol reunidos em círculo no campo, ouvindo orientações do técnico. Alguns atletas vestem coletes marrons, outros o uniforme branco com detalhes azuis, em gramado verde.
O técnico do Uruguai, Marcelo Bielsa (de costas, de azul escuro), orienta seu time durante pausa obrigatória para hidratação em jogo contra Cabo Verde; crítico da medida, ele diz que as paradas alteram a lógica do jogo - Paul Childs/Reuters

Quando anunciou o "cooling break" obrigatório na Copa, em dezembro, a entidade observou que o calendário de jogos havia sido elaborado para "minimizar deslocamentos de equipes e torcedores, maximizar os dias de descanso entre as partidas para todas as seleções e permitir que o maior público global possível acompanhe seus times em diferentes fusos horários".

Informou que "esse processo complexo" envolveu uma "análise técnica de todas as sedes" (incluindo temperaturas médias e infraestrutura de climatização) e debates entre diversas áreas da entidade, entre as quais "área médica, transmissão e radiodifusão e venda de ingressos".

"Não há necessidade de pausas para hidratação em todos os jogos em locais fechados com controle térmico nem naqueles em que a temperatura não ultrapasse 26°C ou 28°C. Essas pausas alteram o ritmo da partida. Só devem ser adotadas quando estritamente necessárias por questões de segurança e desempenho", disse à Folha o fisiologista americano Douglas Casa, professor emérito do Departamento de Cinesiologia da Universidade de Connecticut e um dos signatários da carta aberta à Fifa.

Para ele, o parâmetro da Fifa (excluindo a obrigatoriedade das duas paradas instituída na Copa) para calor é "totalmente inadequado": pausa de três minutos caso o índice WBGT ultrapasse 32°C. WBGT é a sigla em inglês para Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo, que estima os efeitos combinados de temperatura, umidade, vento e radiação solar sobre o corpo humano.

Desenvolvido originalmente para proteger o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA contra doenças relacionadas ao calor e mortes durante treinamentos, tornou-se referência internacional sobre o tema.

Com adaptações (esportistas não usam roupas militares), os limites de segurança do WBGT são: 25°C para esforço muito intenso, 26°C para esforço intenso, 28°C para esforço moderado, 30°C para trabalho leve e 33°C em repouso.

"O ideal seria algo em torno de 26°C ou 28°C. Além disso, para que a pausa seja realmente eficaz, ela precisa durar um pouco mais que 3 minutos, entre 5 a 6 minutos", diz Casa, que é diretor-executivo do Korey Stringer Institute, centro da Universidade de Connecticut dedicado à saúde no esporte.

Ele sugere ainda garantir que todos os vestiários estejam totalmente equipados com sistemas de resfriamento e não marcar jogos em locais como Miami para as 17h ou 18h, horários em que ainda há uma carga significativa de calor radiante —em vez disso, agendá-los para as 20h ou 21h.

"Não vejo nenhuma ação da Fifa em relação às preocupações levantadas na carta. A pausa para hidratação de três minutos foi introduzida antes da nossa carta e não está em conformidade com o que foi sugerido nela", disse à Folha a climatologista Ivana Cvijanovic, pesquisadora do IRD (Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento, na sigla em francês) e também signatária do documento.

Segundo ela, se a Fifa adotasse um limite mais razoável para o adiamento dos jogos —28°C de WBGT, por exemplo, como faz a União Ciclística Internacional, em vez dos atuais 32°C—, "essas pausas possivelmente poderiam ser evitadas. O ideal seria que tais decisões e recomendações se baseassem em dados reais, permitindo verificar os melhores limites e também a eficácia das pausas".

Cvijanovic toca em outro ponto nevrálgico, também mencionado na carta.

"O ideal seria que o futebol deixasse de contribuir para o problema que enfrenta. Aceitar patrocínio da indústria de combustíveis fósseis torna o esporte conivente com a situação. Em segundo lugar, é preciso encarar a dura realidade de que os limites de segurança atuais são excessivamente altos e precisam ser reduzidos. E, se isso resultar na exclusão de certas localidades durante o verão, esse é o preço a pagar pela saúde dos jogadores mesmo que tais locais sejam justamente aqueles de onde provêm muitos dos patrocínios."

A Fifpro indicou à reportagem um artigo científico de 2023 coassinado pelo diretor médico da entidade, Vincent Gouttebarge —o mesmo que conduziu o estudo em Portugal— sobre a mitigação dos efeitos do calor extremo em jogos de futebol, que inclui 11 recomendações, entre elas as de que um índice WBGT acima de 26°C (ou temperatura ambiente acima de 30°C) deve justificar pausas e índice WBGT acima de 28°C (ou temperatura ambiente acima de 36°C) deve levar ao atraso ou adiamento das partidas até que as condições para jogadores, oficiais e torcedores sejam mais seguras.

Diante das críticas, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, defendeu a medida.

"Até o último segundo da partida os jogadores atacam. Talvez não, mas talvez seja também um pouco graças a essa pequena pausa. Nunca vimos 90 minutos em um torneio como este jogados com tamanha intensidade", afirmou.

"Talvez o técnico possa reavaliar certas situações, corrigir certos erros. Os jogadores descansam um pouco e voltam a todo vapor. Bem, isso é necessariamente ruim? Talvez seja bom."

Sobre a vocação comercial das pausas, Infantino disse que a Fifa não está ganhando dinheiro extra por isso porque os contratos foram assinados antes da decisão de introduzir as pausas para hidratação.

Há, no entanto, possibilidade de que emissoras que detêm os direitos de transmissão escolham que anúncios exibir, e não apenas dos parceiros da Fifa.

FOLHA