August 22, 2020

Neuroses de Lovecraft impulsionaram horror inovador de sua ficção

Montagem com o escritor H.P. Lovecraft cercado por tentáculos, referência central em sua obra

[resumo] Nos 130 anos de seu nascimento, o escritor H.P. Lovecraft tem explosão de lançamentos no Brasil, incluindo ensaio do francês Michel Houellebecq sobre seu trabalho, e é inspiração para as mais variadas obras de arte. Pouco celebrado em vida, tornou-se um nome central da literatura de horror ao fazer de suas neuroses o impulso de uma obra inovadora e pessimista, na qual o ser humano é insignificante diante da natureza.


 Marcelo Miranda

Dificilmente Howard Phillips Lovecraft acreditaria que o palavreado impronunciável de nomes criados por ele —como Cthulhu, Azathoth, Shoggoth, Shub-Niggurath e Yog-Sothoth— se tornaria cultuado em todo o mundo e fonte de inspiração para variadas manifestações artísticas.

Morto em 1937, aos 46 anos, Lovecraft teve pouco reconhecimento em vida. Quase um século depois —nos 130 anos de seu nascimento, completados na última quinta-feira (20)—, é um dos autores mais estudados e referenciados da literatura norte-americana. Não só pelas obras que escreveu (cerca de 70 ficções, entre contos e novelas), mas também por sua presença constante como fonte basilar em filmes, videogames, quadrinhos, RPGs, livros e um conjunto inesgotável de derivações.

A mais recente é a nova série da HBO “Lovecraft Country”, adaptação do romance de Matt Ruff que se utiliza do imaginário de Lovecraft para falar da segregação racial nos EUA dos anos 1950. Escritores como Neil Gaiman, Stephen King e Joyce Carol Oates ou cineastas como Guillermo del Toro e John Carpenter constantemente assumem inspiração em Lovecraft.


Tendo entrado em domínio público em janeiro de 2008, a obra do escritor nascido em Providence (Rhode Island) ganha atenção crescente de editoras, produtoras e artistas interessados em se enveredar pelos tentáculos de um criador que inventou muitos dos conceitos consagrados de horror e ficção científica.

Ao menos sete casas editoriais brasileiras, entre grupos expressivos e outros nem tanto, estão com livros de Lovecraft circulando, para além da quantidade incalculável de trabalhos realizados a partir do imaginário do autor.

A pioneira a explorar com atenção e cuidado a obra do escritor por aqui foi a Hedra, em um projeto capitaneado pelo editor Bruno Costa a partir de 2009. Com tradução do pesquisador Guilherme da Silva Braga, as edições da Hedra apresentaram os contos do norte-americano a toda uma nova geração de leitores.

“Elas foram as primeiras, no Brasil, a trabalhar não apenas com tradução de alto nível, mas também com critérios editoriais claros e aparato crítico do qual éramos tão carentes: introduções, notas, cartas, esboços e artes de capa exclusivas, criadas por Tulio Caetano”, destaca Costa.

Histórias como “Um Sussurro nas Trevas” (1930), “Nas Montanhas da Loucura” (1931), “A Sombra de Innsmouth” (1931), “A Cor que Caiu do Espaço” (1927) e o incontornável “O Chamado de Cthulhu” (1926), entre várias outras, conquistaram centenas de leitores e chamaram a atenção para o potencial de Lovecraft.


Em 2017, pela editora Ex Machina, o mesmo Bruno Costa promoveu um financiamento coletivo para a edição de “Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico”, mais portentosa edição dedicada ao escritor no Brasil. São 612 páginas contendo 61 contos (tradução de Francisco Innocêncio), além de apêndice com artigos, ensaios, iconografia, bibliografia, filmografia e um “bestiário” sobre as principais entidades lovecraftianas.

Uma segunda edição, revista e ampliada, está com nova campanha aberta no Catarse, em uma parceria da Ex Machina com a editora Clepsidra, que relançará também o ensaio “Mitologia Lovecraftiana: A Totalidade pelo Horror”, de Caio Bezarias.

Outras editoras embarcaram no apelo de Lovecraft, como a DarkSide, que o inseriu no selo Medo Clássico e lançou, no final de 2017, uma antologia com duas capas à escolha do leitor, com tradução de Ramon Mapa.

Em 2019, dois lançamentos de peso se somaram no mesmo mês de novembro: o box em dois volumes “Os Mitos de Cthulhu” (Nova Fronteira, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, Regiane Winarsrki e Bruno Gambarotto) e o primeiro volume da “Biblioteca H.P. Lovecraft” (Companhia das Letras, tradução de Guilherme da Silva Braga), a ser composta, no futuro, por outros três livros.

O escritor Oscar Nestarez, pesquisador de Lovecraft, exalta a efervescência de títulos disponíveis de um ficcionista tão fundador, mas aponta cautela. “A redundância pode levar à saturação, já que vários lançamentos trazem os mesmos textos ou edições precipitadas, sem contextualização adequada. Para quem não conhece a obra de Lovecraft, contexto é indispensável.”

Bruno Costa também detecta um círculo vicioso de publicações e defende que outros materiais sejam disponibilizados ao leitor brasileiro. “As editoras poderiam explorar as cartas, os ensaios e a poesia do Lovecraft, mas preferem ad infinitum a mesma fórmula ou seleção de contos em traduções e edições muitas vezes bastante discutíveis. Publicar uma dezena de histórias com capinha bonitinha é fácil, duro é ter coerência editorial.”

Em boas ou más edições, Lovecraft é cada vez mais inevitável. O fascínio por sua literatura, os enigmas em torno de sua mitologia e as controversas questões de sua vida pessoal são praxe em círculos não só de leitores, mas de uma gama imensa de admiradores de outras mídias.

“Ele criou um universo habitado por monstros e horrores que mexem com a imaginação. Essa obra deixou de pertencer ao nicho da literatura de horror e de ficção científica para adentrar, de forma definitiva, na cultura pop”, aponta Guilherme Braga.

Para a pesquisadora Nathalia Sorgon Scotuzzi, autora de “Relances Vertiginosos do Desconhecido: A Desolação da Ciência em H.P. Lovecraft” (ed. Diário Macabro), um elemento intrigante é a ambientação das narrativas em um mundo em tudo como o nosso, acrescido de criaturas ancestrais e da detalhada mitologia de acontecimentos do passado, que fazem do ser humano mero detalhe insignificante.
“Sua proposta era criar uma realidade que preenchesse lacunas na nossa própria, oferecendo possibilidades monstruosas nas camadas desconhecidas da natureza”, diz Scotuzzi.

“Ao entrar em contato com isso, a humanidade estaria perdida, mas a natureza ainda seria a mesma. Somado a tudo está o conceito de que Cthulhu, Azathoth, Yog-Sothoth ou qualquer outra entidade criada pelo autor não são deuses e sim seres poderosos que desconhecem ou pouco se importam com nossa existência.”

Esse é, afinal, o conceito de horror cósmico, vertente ficcional notabilizada por Lovecraft. Apesar de admirador do gótico e sobrenatural Edgar Allan Poe (1809-1849), ele expandiu suas próprias referências, que passavam também por Algernon Blackwood (1869-1951) e Ambrose Bierce (1842-1914), para arquitetar cuidadosamente um mundo singular.

“O embasamento filosófico do horror cósmico está ligado ao conceito de sublime que encontramos no filósofo irlandês Edmund Burke e segue muito alinhado a pensamentos e fatos científicos atuais”, diz Oscar Nestarez. “Todos os contos de Lovecraft nos lembram do quão impotentes e insignificantes somos diante da natureza —e, em última instância, diante do universo.”

Neste ano, quando o mundo enfrenta o surto de coronavírus, Lovecraft soa bastante atual. Cthulhu, afinal, é o “alto sacerdote” que um dia caminhou pela Terra, foi banido para “a grandiosa cidade submersa de R’lyeh” e estaria às vésperas de caminhar novamente para “impor seu jugo” por meio de destruição, morte e desolação. Em suma: é um apocalipse abafado por milênios, no aguardo de ascender “quando as estrelas estivessem alinhadas”.

A descrição de Lovecraft para horrores além da compreensão humana e da capacidade de qualquer enfrentamento —elementos magistralmente trabalhados na mais recente adaptação do autor para os cinemas, “A Cor que Caiu do Espaço”, de Richard Stanley, disponível no Telecine Play— está intimamente relacionada ao seu modo de viver e pensar.

Filho de um comerciante com a filha de um aristocrata descendente dos primeiros colonizadores dos EUA, Lovecraft cresceu abastado e isolado em meio a crises mentais dos pais. Adulto, defendia a tradição e a cultura anglo-saxã contra a modernidade e a intersecção entre povos.

Lovecraft tinha pensamentos racistas, xenófobos e eugenistas, expostos em várias dos milhares de cartas que trocou com interlocutores. Algo disso resvalou na sua ficção, especialmente depois da curta e desastrosa temporada em Nova York ao lado da esposa, Sonia Greene, com quem se casou em 1924.

Após algumas semanas de tranquilidade e empolgação com a nova vida no Brooklyn, Lovecraft passou a ter dificuldades financeiras. Recebia muito pouco pelas histórias que publicava em revistas “pulp”, disputava e perdia empregos para imigrantes e foi incapaz de se sustentar financeiramente após Greene buscar trabalho em outra cidade. Em 1926, ele retornou a Providence. Pouco tempo depois, ele e Greene, que já viviam distantes, se separaram.

“Em relação às culturas de outros países que chegavam aos EUA, Lovecraft não só se sentia invadido, mas também tinha medo daquilo que não conhecia —algo que é um dos elementos-chave em sua obra, o medo do desconhecido”, afirma Nathalia Scotuzzi.

A esse medo, somaram-se o ódio e a neurose, conforme analisa o francês Michel Houellebecq no ensaio “H.P. Lovecraft: contra o Mundo, contra a Vida”, originalmente lançado na França em 1991 e recentemente publicado no Brasil pela Nova Fronteira.

Para o controverso romancista de “O Mapa e o Território” e “Submissão”, o caldo cultural que caracterizou a América no começo do século 20 amplificou os sentimentos ruins de Lovecraft, que os canalizou em uma escrita raivosa e profundamente inventiva.

Escreve Houellebecq: “Toda grande paixão, seja ela amor ou ódio, acaba por produzir uma obra autêntica. Podemos deplorá-lo, mas é preciso reconhecê-lo: Lovecraft está mais do lado do ódio”.
Do período pós-Nova York até sua morte, segundo o francês, o escritor produziu seus grandes textos, justamente os mais influentes até hoje.

Houellebecq lança afirmações provocativas, como ao refletir que a “visão alucinada” de Lovecraft em relação ao indivíduo diferente dele “está diretamente na origem das descrições de entidades pesadelares que povoam o ciclo de Cthulhu”, o que culminava em um “estado de transe poético em que ele supera a si mesmo no batimento rítmico e louco das frases malditas”.

O reacionarismo de Lovecraft, nesse sentido, virava impulso ao turbilhão imaginativo que ele desenvolveu em um período de dez anos. Guilherme Braga acredita que “enfrentar sentimentos destrutivos no plano da criação é o que fazem quase todos os artistas com os quais vale a pena se envolver”.

Na opinião de Scotuzzi, a constatação do racismo de Lovecraft não deve suplantar outras questões de sua produção literária, que se baseava principalmente na impotência. “Ele nunca se deu ao trabalho de desenvolver profundamente personagens, sejam eles protagonistas ou antagonistas. No desfecho de suas obras, etnias, classes sociais, preconceitos ou qualquer outro elemento ligado especificamente ao humano não têm importância alguma, já que Lovecraft coloca toda a humanidade no mesmo barco ao apresentar ameaças alienígenas que acabariam, se quisessem, com sua soberania em poucos instantes.”

Lovecraft transfigurou seus horrores pessoais em horrores de ficção. Não viveu para ver no que isso iria dar. Pessimista e autocomplacente como era, ficaria surpreso ao descobrir que seus escritos delirantes interessariam a mais gente além dele mesmo e de amigos próximos.

Conforme Houellebecq, “esse homem que não conseguiu viver conseguiu, finalmente, escrever”, para enfim se tornar “um iniciador essencial a um universo diferente, situado muito além dos limites da experiência humana e, contudo, de um impacto emocional terrivelmente preciso”.




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