September 18, 2020

Como o mundo enfrentaria o novo coronavírus se a pandemia estourasse em 1990?

 Máscaras, no passado, só para proteger da poluição, fazer um protesto ou conter um resfriado — e olhe lá. Foto: Alain Buu / Gamma-Rapho / Getty Images

O exercício de imaginação ajuda a dimensionar quanto a ciência avançou nestas três décadas e como a vida mudou de lá para cá 

 

Ministério da Agricultura quer retirar de Guia Alimentar da Saúde dados sobre ultraprocessados

 Ministra Tereza Cristina, da Agricultura, volta a descartar risco de desabastecimento Foto: Arquivo

Renata Mariz

O Ministério da Agricultura, comandado por Tereza Cristina, elaborou documento para pleitear, junto ao Ministério da Saúde, a retirada do Guia Alimentar para a População Brasileira para uma "ampla revisão". A pasta rebate menções do guia que relacionam os alimentos ultraprocessados a uma nutrição desbalanceada, e chama de "pseudocientíficos" dados que associam determinadas práticas agrícolas a efeitos ambientais adversos.

Em nota técnica a ser encaminhada a Eduardo Pazuello, à qual o GLOBO teve acesso, a pasta da Agricultura afirma que a classificação de alimentos do guia pelo nível de processamento é "confusa e incoerente" e caracteriza "evidente ataque sem justificativa à industrialização".

Entidades ligadas à nutrição veem a tratativa como uma forma de beneficiar a indústria alimentícia em detrimento da saúde da população.

Lauro Jardim: Ministério da Agricultura critica Guia Alimentar para a População Brasileira e orientação para reduzir consumo de ultraprocessados

A última versão do Guia Alimentar foi elaborado pelo Ministério da Saúde em 2014 e traz, entre outros pontos, a classificação dos alimentos por nível de processamento, desde o "in natura" até o "ultraprocessado". O objetivo é incentivar práticas alimentares saudáveis no âmbito individual e coletivo e também orientar políticas públicas.

Um dos pontos questionados pela pasta de Tereza Cristina na nota técnica é a informação do guia de que os ultraprocessados contém muitos ingredientes, à qual chamou de "algo cômico".

"Em relação a diferenciação de 'alimento ultraprocessado' por meio da contagem do número de ingredientes (frequentemente cinco ou mais) parece ser algo cômico. As receitas domésticas que utilizam vários ingredientes não podem em hipótese alguma serem rotuladas dessa forma, o que demonstra um evidente ataque sem jusficativa à industrialização", critica a Agricultura.

Confira: Brasileiro consome menos arroz e feijão e mais pizza e salgadinho

O guia, no entanto, ao falar da quantidade de ingredientes nos ultraprocessados como uma de suas características, ressalta se tratar de preparações industrializadas. "A fabricação de alimentos ultraprocessados, feita em geral por indústrias de grande porte, envolve diversas etapas e técnicas de processamento e muitos ingredientes, incluindo sal, açúcar, óleos e gorduras e substâncias de uso exclusivamente industrial!", informa o guia.

Em outro trecho, o documento da Agricultura ataca a informação do guia de que, em geral, os nomes dos ingredientes presentes nos alimentos ultraprocessados são desconhecidos. "Em relação ao outro ponto de diferenciação de 'alimento ultraprocessado', a verificação da 'presença de ingredientes com nomes pouco familiares e não usados em preparações culinárias', a mensagem fica mais confusa", diz a nota técnica.

Ao pedir a "retirada" do guia, a Agricultura defende que uma revisão seja feita "com ampla discussão com setores especializados na ciência dos alimentos". "Entendemos que a ciência médica e da nutrição são fundamentais nesse contexto do Guia, entretanto é absolutamente indispensável a participação de outros especialistas como os Engenheiros de Alimentos", pede a pasta de Tereza Cristina.

Sobre prejuízos ambientais de determinadas produções, a Agricultura faz breve menção a outro documento já colocado anteriormente em que rebate tais dados: "os argumentos muitas vezes apresentados são contrastantes com a realidade dos fatos da agricultura quando relacionados a aquecimento global, desmatamento e poluição. Entretanto, assim como mencionado anteriormente, os dados são pseudocientíficos e vem sendo refutados sistematicamente pela Embrapa e demais instituições de pesquisa".

A nota traz como referência dois textos sobre nutrição e alimentos processados e é assinada por Luis Eduardo Pacifi Range, diretor de Análises Econômicas e Políticas Públicas do Ministério da Agricultura, e Eduardo Mello Mazzoleni, coordenador do mesmo setor. Eles apontam que "o Guia brasileiro é considerado um dos piores (do planeta)”.

A afirmação é rebatida pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP), que ajudou o Ministério da Saúde na elaboração da última versão do Guia Alimentar, em 2014. "Assim não pensam organismos técnicos das Nações Unidas, como a FAO, a OMS e o UNICEF, que consideram o Guia brasileiro um exemplo a ser seguido. Assim não pensam os Ministérios da Saúde do Canadá, da França, do Uruguai, do Peru e do Equador, que têm seus guias alimentares e suas políticas de alimentação e nutrição inspirados no Brasil", diz o grupo em nota.

Os pesquisadores apontam ainda "rigoroso estudo publicado em 2019 pela revista Frontiers in Sustainable Food Systems, que elegeu o guia alimentar brasileiro como o que melhor atendia a critérios previamente estipulados quanto à promoção da saúde humana, do meio ambiente, da economia e da vida política e sociocultural".

O grupo da USP aponta que a nota técnica da Agricultura faz confusão ao mencionar um estudo feito nos Estados Unidos que aponta que "existem alimentos processados que contribuem com uma ampla variedade de nutrientes em todos os níveis de processamento", como argumento para se contrapor à recomendação do Guia Alimentar de evitar consumo dos ultraprocessados.

"Além de ignorar o fato de que o Guia Alimentar enfatiza os vários benefícios do processamento de alimentos — como ampliar sua duração e diversificar a dieta — recomendando que se evite apenas o consumo de alimentos ultraprocessados, o estudo de EICHER-MILLER et al., 2012, que avaliou o perfil nutricional de alimentos consumidos nos Estados Unidos, simplesmente não considerou a categoria de alimentos ultraprocessados em sua avaliação", apontam os pesquisadores.

O Nupens/USP diz ainda que a Agricultura "omite a vasta literatura científica nacional e internacional acumulada desde 2009" sobre a classficação dos alimentos em nível de processamento. "Diante da fragilidade e inconsistência dos argumentos apresentados na Nota Técnica do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) e da absurda e desrespeitosa avaliação do Guia Alimentar brasileiro, confiamos que o Ministério da Saúde e a sociedade brasileira saberão responder à altura o que se configura como um descabido ataque à saúde e à segurança alimentar e nutricional do nosso povo", aponta.

Interesses escusos

O Núcleo de Pesquisa e Estudos em Nutrição e Saúde Coletiva da Universidade de Campina Grande (PB) afirmou que os "reais interesses" do Ministério da Agricultura são beneficiar a indústria alimentícia.

"Esta preocupação não é recente e está escancarada na discussão sobre rotulagem de alimentos, sobre marketing da indústria alimentícia (principalmente associada ao público infantil), sobre o aumento de impostos nos refrigerantes e outros temas que são defendidos pelas entidades que visam a garantia da Alimentação Adequada e Saudável e Segurança Alimentar e Nutricional", destacou o grupo em nota.

De acordo o Núcleo de Pesquisa da universidade, a nota técnica traz dados descontextualizados dos textos apontados como referência e argumentos vazios para desqualificar o Guia Alimentar. "Incoerente é, na verdade, comparar um processamento industrial com uma preparação culinária caseira, visto que ambas levam em consideração diversos fatores além da quantidade de ingredientes usados", diz o comunicado.

O Conselho Nacional de Saúde (CNS), instância do SUS ligada ao Ministério da Saúde, divulgou nota para defender a manutenção e implementação efetiva do Guia Alimentar, produzido em 2006 e revisado em 2014. Uma recomendação nesse sentido foi feita em fevereiro deste ano, diante da falta de efetivação das diretrizes do documento.

"A demanda é parte do compromisso assumido pelo poder público diante da Política Nacional de Alimentação e Nutrição e da Política Nacional de Promoção da Saúde. Para o controle social e entidades ligadas à nutrição, modificar o Guia sem discussão pode abrir margem para o incentivo a alimentos industrializados e ultraprocessados", destaca nota do CNS.

Em nota divulgada após a publicação desta reportagem, o Ministério da Agricultura negou que tivesse enviado a solicitação ao Ministério da Saúde — informação que foi corrigida no texto. Segundo o comunicado da pasta, "o assunto está sendo debatido internamente, em Câmaras Setoriais".

"Os textos que circularam nas redes sociais são minutas de documentos internos. Sugerem a revisão do Guia Alimentar, incorporando entre outros temas a participação de engenheiros de alimentos na atualização do documento", completou o ministério.

O GLOBO

September 14, 2020

Marcas deixadas nos livros revelam histórias de leitores e ampliam a experiência literária


 Por Júlia Corrêa

Caetano Veloso já definiu os livros como objetos transcendentes e, ao mesmo tempo, dignos de nosso “amor táctil”. Claro, há quem prefira mantê-los intactos. Por outro lado, tem quem sugira que um verdadeiro leitor é aquele que deixa suas marcas ao longo das páginas. Morto em fevereiro, o crítico literário George Steiner afirmava que a presença de um lápis na mão – para riscar, sublinhar e fazer anotações nas margens do texto – revela um leitor que reage e responde à obra que está lendo.

Para o artista visual Wolney Fernandes, essa relação vem se modificando. “Eu tinha um cuidado muito grande em preservar os livros, achava que tinham um caráter sagrado, mas, ultimamente, tenho sentido uma vontade maior de escrever, rabiscar e fazer uma espécie de troca: o livro me marca, e eu quero deixar uma marca nele também. Quero tirar essa assepsia do modo como me relaciono com a leitura”, explica.

O trabalho de Wolney sempre esteve ligado à literatura. As narrativas lhe servem de inspiração para a concepção das obras – uma vez que, antes de iniciar uma criação, ele se pergunta que história quer contar. “É como se (com a literatura) eu ampliasse a minha experiência”, revela. Assim, foi natural que, ao flexibilizar a sua relação com o objeto livro, isso tenha se refletido em sua produção.

Em seu Instagram, Wolney passou a compartilhar uma série de colagens criadas a partir do impacto que certas leituras têm sobre ele. “São montagens mais efêmeras, em que busco criar uma narrativa em torno do livro para mostrar a minha relação com ele.” Entre as obras mais marcantes que receberam a sua intervenção, está o romance Água Viva, de Clarice Lispector. “Eu não acreditava no que estava lendo; era como se o livro me incitasse a dizer algo sobre ele”, rememora o artista.

É sobretudo em revistas antigas e objetos cotidianos que Wolney procura o material para compor as suas montagens. “Busco uma correspondência com as questões com as quais o livro está me cutucando. Vou fazendo um apanhado e criando relações entre as imagens, com um significado que é muito meu”.

A consciência dessa relação íntima com cada obra acabou despertando em Wolney outra vontade: a de customizar capas de livros. Em uma série de stories no Instagram, o artista mostra como modificou, por exemplo, uma edição de Madame Bovary, clássico de Gustave Flaubert, cuja imagem escolhida para a capa – uma pintura de Picasso – não dialogava com aquilo que o romance lhe transmitia. “Me incomodava ver uma imagem vinculada a um tempo que não era o tempo do livro em si; a partir disso fui atrás de novas imagens”, explica. “Considero duas vias: uma simbólica, daquilo que leio, e outra formal, que influencia diretamente o meu olhar. Tem a ver com o significado, mas também com a experiência estética.”

Antiguidades. A curiosidade em descobrir as marcas deixadas por antigos leitores inspira a iniciativa da cantora e compositora Carol Naine, que criou o perfil do Instagram Quem Sabe Sebo. Movida pela vontade de compartilhar “a história do livro e da vida que o livro teve”, ela mantém a página como um hobby – a ideia original, inclusive, era postar apenas textos despretensiosos, como um exercício de escrita sobre as obras encontradas e lidas por ela.

“Na hora que vou comprar um livro, fico buscando qualquer marca para descobrir uma história”, relata ela, que diz gostar de garimpar obras em sebos da região central de São Paulo. “Acho mais bonito um livro amarelado, que tenha algo sublinhado, uma página dobrada”. Não por acaso, em uma postagem recente, ela brinca que um livro de Marguerite Duras “deixou a desejar no quesito decadência”.

Se, antes, Carol era adepta da ideia de “pecado” envolvendo a marcação de livros, ela conta que começou a sentir essa necessidade quando passou a buscar, nas obras, inspiração para compor. Assim, um de seus hábitos quando encontra um livro é conferir se os grifos do antigo dono coincidem com os seus. “Fico imaginando por que a pessoa sublinhou coisas que me parecem banais e não-sublinháveis”.

Dono do sebo Desculpe a Poeira, o jornalista Ricardo Lombardi diz que esses “aspectos mais físicos que cercam a leitura” sempre lhe interessaram. Desde que passou a comprar livros usados para revender, ele também coleciona objetos que os antigos donos deixam dentro deles. Lombardi os guarda em pastas ordenadas em categorias como “fotografias”, “cartas” e “tíquetes”.

Seus achados incluem, por exemplo, ingressos de ópera do século 19, “nudes” dos anos 1970 e cartões de embarque de avião. A ideia, agora, é transformar tudo isso em um livro, como um “grande gabinete de curiosidades”. Os objetos, segundo Lombardi, “mostram que o livro tem uma vida – uma vida que é muito analógica”. Algo que, como observa ele, não ocorre com e-book.

Por escrito. Esse aspecto analógico fez a mineira Mariana Gogu se encantar pelo universo das dedicatórias. “É algo escrito à mão. Hoje, a gente quase não conhece a caligrafia das pessoas”, avalia. Mariana nem sabia ler quando ganhou a primeira dedicatória, escrita por uma tia. Anos depois, descobriu que ela mesma seria tia por meio das palavras deixadas pelo irmão em um livro de Edgar Allan Poe.

A paixão pelas dedicatórias fez com que passasse a vasculhar sebos em busca de “tesouros”. “Comecei a fotografar e publicar o que eu encontrava, mas, simultaneamente, pensei que poderia ter a contribuição de outras pessoas”. Foi assim que, há cerca de oito anos, ela criou o projeto Eu Te Dedico, presente hoje no Tumblr e no Instagram.

Desde então, ela recebe reproduções de dedicatórias quase todos os dias. “Faço uma curadoria e seleciono pelo tema – algumas mais românticas, outras de amizade, pedidos de desculpas. Grande parte vem com a história por trás da mensagem”, detalha ela, salientando que recebe retornos muito positivos: “as pessoas dizem que se emocionam e se inspiram para escrever as suas”.

Em sua visão, trata-se do “presente mais eterno que se pode dar para alguém”. Aliás, uma lembrança muito valorizada pelos leitores são as dedicatórias dos próprios autores. Na seleção de Mariana, já entraram autógrafos de nomes como Caetano Veloso, Cora Coralina e Lygia Clark.

Escritores e seus autógrafos

Embora afirmem que colecionar autógrafos não seja a sua praia, os escritores Milton Hatoum e Sérgio Augusto guardam dedicatórias de alguns de seus ídolos literários, como Salman Rushdie e Rubem Fonseca. Humberto Werneck, por sua vez, afirma não se iludir: autores distribuem a mesmíssima dedicatória para seus leitores. Confira abaixo alguns desses "tesouros":

Humberto Werneck

“Quando o entrevistei para a IstoÉ, em abril de 1985, Carlos Drummond de Andrade pôs uma quadrinha no meu exemplar das Obras (então) Completas – quadrinha essa que, evidentemente, está em outros incontáveis volumes, e também no livro que reúne, em fac-símiles, seus versos de circunstância. Já encontrei um cidadão que, em lágrimas, me mostrou seu exemplar com a mesmíssima dedicatória, certo de que CDA escrevera na hora para ele. Essa ilusão eu não tive sequer por um segundo, juro.

As dedicatórias de João Cabral estão em vários livros dele, sendo as melhores as do ano de 1987, quando fiz a entrevista para a capa da IstoÉ.

Milton Hatoum

Tenho pouquíssimos autógrafos. Lembro-me de dois , que me orgulham: o de Salman Rushdie, que autografou um romance, depois de uma conversa no apartamento dele, em Nova York. E um de Antonio Candido, quando o visitei há uns seis ou sete anos. Ele sabia que eu admirava a obra de Graciliano, e que tinha feito a conferência de abertura da Flip sobre o velho Graça. Ele me mostrou um volume autografado pelo Graciliano e depois me ofereceu e autografou o livro dele sobre a obra do grande escritor alagoano : Ficção e confissão, uma bela edição da Ouro sobre Azul. Eu tinha uma edição antiga, da 34.

Sérgio Augusto

O autógrafo do Rubem Fonseca, para Os Prisioneiros, me foi mimoseado em nosso primeiro encontro e selou nossa amizade. Os de Andrew Sarris (Confessions of a Cultist) e Pauline Kael (Going Steady), dois desafetos dignos da minha admiração, são uma prova do meu paladar ecumênico. Mas talvez o mais curioso seja o de meu ídolo Newton Santos, no exemplar de uma revista histórica chamada Vida do Craque, dedicada a ele, em 1953, cuja compra foi uma pequena odisseia. João Moreira acha que essa edição de Vida do Craque vale mais que a Bíblia de Mogúncia.

Autógrafo não é bem minha praia. Minha mulher, a escritora Maria Lucia Rangel, persegue há anos a ideia de fazer um livro com autógrafos entre grandes amigos, de amizades que nasceram e cresceram, tornando-se mais íntimas com o passar dos anos e dos livros. O pai dela (Lucio Rangel) tem autógrafos ótimos, pois foi amigo de todos de quem valia a pena ser amigo. As dedicatórias vão num crescendo. Melhor exemplo: as do Bandeira para ele. A própria Maria Lucia tem mais dedicatórias do que eu, já que cresceu e foi muito paparicada por Vinicius, Rubem Braga & Cia.

Depoimento | Ubiratan Brasil, editor de Cultura do Estadão

Sabino tirou sarro de Braga na Bienal

Colecionar autógrafos em livro é mais interessante quando o mimo é assinado pelo autor em seu nome – a busca por outras assinaturas em sebos serve para aumentar o acervo, mas não tem a mesma emoção.

Comecei minha coleção nos anos 1980, quando comecei a frequentar a Bienal do Livro em São Paulo. Servia para unir o útil ao agradável, pois, em uma mesma viagem, era possível conseguir mais de um autógrafo. Fã de Lygia Fagundes Telles de longa data, consegui meu primeiro livro assinado por ela em 1982, quando, em uma tarde tranquila, até consegui pagar um fotógrafo para registrar o abraço carinhoso que ela me deu.

Em outra oportunidade, levei um exemplar de Diário de um Cucaracha que ganhei de aniversário para o Henfil autografar. Quando abriu o livro, ele se deparou com a felicitação deixada pelo meu amigo. Sem perder o rebolado, Henfil reforçou o parabéns e ainda desenhou uma bela barata, um enorme presente.

Um encontro de titãs marcou outra Bienal. Lado a lado, Fernando Sabino e Rubem Braga. A fila de Sabino era enorme; a de Braga, vazia. Ninguém mesmo. Naquele momento, início dos anos 1980, as palavras de Sabino agarravam mais a moçada. Um amigo, por “dó”, comprou um livro de Braga e pediu sua assinatura. Chegando perto, era possível perceber como Sabino provocava o amigo pela falta de ibope.

Tudo mudou em 2003, quando nasceu a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, inspirando diversas outras feiras. Nossos escritores passaram a ter uma agenda mais carregada e autores estrangeiros começaram a vir mais constantemente. Como jornalista, tive o privilégio de conseguir autógrafos exclusivos como de Neil Gaiman, que atraiu uma verdadeira multidão de fãs, e o português António Lobo Antunes, que se encantou com a sonoridade do meu nome. E, depois de uma emocionante conversa com Paul Beatty, ganhei não só um autógrafo, como um aconchegante abraço.

ESTADÃO

A reforma administrativa é mais uma tentativa inconsequente de acelerar a destruição do setor público

 

 




POR CARLOS DRUMMOND

 Proposta de Emenda Cons-
titucional encaminhada
pelo governo ao Congres-
so na quinta-feira 3, da re-
forma administrativa, po-
deria ser chamada também de “ajuste fis-
cal, o retorno”. O motivo dessa dupla
identidade é que a PEC visa quase que ex-
clusivamente reduzir gastos correntes
por meio da quebra da estabilidade fun-
cional para fins de demissão, um expe-
diente para rebaixar as remunerações
dos atuais servidores e os salários das no-
vas contratações, motivo de alguns a con-
siderarem apenas, ou principalmente,
um novo capítulo da política de austeri-
dade fiscal permanente de Paulo Guedes.

 


Além de pôr em risco as condições
fundamentais exigidas para o exercício
das funções dos servidores ao extinguir a
estabilidade, não responde à necessidade
de aprimorar o serviço público, não re-
duz a burocracia nem enfrenta o autori-
tarismo crônico na relação entre os fun-
cionários e o público. Tampouco reduz o
custo da máquina do Estado, segundo es-
pecialistas. Não bastasse, contém mais
uma excrescência governamental, a ou-
torga de poderes arbitrários adicionais
ao presidente da República por meio da
inserção na Constituição de dispositivo
que completa a submissão ao mercado,
conforme se esclarecerá adiante.

 Cardoso Jr., do Ipea:
“A proposta é uma
perfumaria, um
choquezinho liberal
dos anos 1990”

A republicanização e a redemocrati-
zação do Estado deveriam ser os eixos

de qualquer reforma que se pretenda fa-
zer, defende José Celso Cardoso Júnior,
economista do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada e presidente da
Associação Nacional de Funcionários da
instituição. A reforma atual é, no entan-
to, “uma perfumaria, um choquezinho de
gestão da linha gerencialista liberal dos
anos 1990, que obviamente não vai me-
lhorar em nada o desempenho, a relação
do Estado com a sociedade, nem alargar
as possibilidades de cobertura das polí-
ticas sociais, nem diminuir desigualda-
de nenhuma, pelo contrário, vai aumen-
tar. A proposta em essência é retirar o
Estado das políticas públicas e tornar o
servidor mais vulnerável para cumprir
as missões institucionais das organiza-
ções que foram criadas ou fortalecidas
da Constituição de 1988 para cá”, analisa.


O fim da estabilidade é a derrubada da
última muralha de proteção do funcioná-
rio contra o assédio institucional caracte-
rizado, segundo associações profissionais
do setor, por recorrentes ameaças, cercea-
mentos, constrangimentos, desautoriza-
ções, desqualificações e deslegitimações
do trabalho do servidor público e que se
tornou a forma dominante de relaciona-
mento entre distintas instâncias ou or-
ganizações hierárquicas em cada poder
da União e entre chefias e subordinados.


Um comportamento de várias autorida-
des liderado pelo próprio presidente da
República, quando persegue o funcioná-
rio do Ibama que o multou por pesca ile-
gal em 2012 em Angra dos Reis, e provoca
a demissão do presidente do Inpe, Ricardo
Galvão, no ano passado, por ter cumprido
com a sua obrigação funcional de retratar
as queimadas na Amazônia, entre inúme-
ros exemplos. A conduta lamentável ocor-
re também no uso de fiscais municipais
pelo prefeito Marcelo Crivella, do Rio de
Janeiro, para intimidar usuários de ser-
viços de saúde, nas seguidas ofensas lan-
çadas pelo ministro da Economia Paulo
Guedes à categoria, composta, segundo ele,
de parasitas, merecedores de “uma gra-
nada no bolso”, ou na humilhação impos-
ta pelo desembargador Eduardo Siqueira,
do Tribunal de Justiça de São Paulo, a um
guarda civil municipal de Santos que o
multou por não usar a máscara obrigató-
ria para reduzir o risco de transmissão da
Covid-19. Não é difícil imaginar que uma
escalada ainda maior de desmandos seria
a consequência inevitável da pretendida
derrubada da estabilidade dos servidores.

“A imposição de um serviço públi-
co sem estabilidade, sem carreira, sem
vínculo e com retorno ao clientelismo
e ao coronelismo do início do século XX
significará a transformação perfeita de
crime em modelo”, sintetiza o sindicato
dos professores do Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia do Rio
Grande do Sul. Não há dúvida, prosse-
gue a entidade em editorial, quanto ao
interesse de Bolsonaro em extinguir ór-
gãos como Incra, Ibama e ICMBio, os
quais tem criticado por exercerem suas
funções legais.


“Esse projeto não é sério, a não ser
no sentido de que encaminha a destrui-
ção do Estado e de que protege a elite do
funcionalismo”, pondera o economis-
ta Sérgio Mendonça, ex-secretário de
Recursos Humanos do serviço público
federal de 2003 a 2007 e de 2012 a 2016.
Caso seja aprovado como está, diz, pra-
ticamente tira os principais incentivos
para ser servidor que são a estabilidade
e a aposentadoria integral. Com a refor-
ma da Previdência e o fim da estabilida-
de, elimina-se o poder de o Estado atrair
quadros mais qualificados. Se o funcio-
nário pode ser demitido como qualquer
trabalhador do setor privado, relutará
em fazer concurso público, onde a ativi-
dade é mais engessada, burocratizada e
a responsabilização é grande. “É um pro-
jeto confuso, mais voltado para o curto

prazo, para a questão fiscal e o mercado,
mas é evidente que é necessário discu-
tir a avaliação do desempenho, com mais
seriedade, no serviço público”, ressalva
Mendonça. “Isso é importante, e não é
uma questão liberal, acho que a esquer-
da tem de defender isso. Porque é dinhei-
ro público que está ali.”



Os cidadãos precisam de acesso, diz,
aos dados e a defesas céleres em relação
ao serviço público e é necessário aumen-
tar muito a transparência. “A população
não tem uma boa imagem do serviço pú-
blico. Não vamos negar, não vamos tapar
o sol com a peneira. É possível melho-
rar, ter um Estado a serviço do público,
da redução das desigualdades de renda
e regional, com instrumentos para fa-
zer essas políticas públicas.” É dispen-
sável, prossegue, uma estabilidade rígi-
da para todos, como, certamente, audi-
tores fiscais, procuradores, juízes e ou-
tros precisam. Caberia, portanto, uma
gestão mais flexível.


Quanto à questão de em quais áreas
se quer atrair e reter quadros no Estado,
dependeria “da concepção que está por
trás”. Nos governos do PT, houve con-
curso público para 250 mil vagas, dos
quais 60% na área da educação, em
universidades e institutos federais.


“Queríamos fortalecer o Estado por es-
se viés. Então havia uma concepção”, su-
blinha o economista.


Não há garantia de que proposta do
atual governo tenha efeito apenas pa-
ra as próximas contratações e nenhu-
ma repercussão nos funcionários ho-
je na ativa. “A reforma atual pode dimi-
nuir gastos no meio do caminho, nas fa-
ses II e III, propor tabelas salariais, for-
mas de progressão, de avaliação de de-
sempenho, enfim, as questões que ain-
da não apareceram na PEC. Nesse caso,
teria algum efeito sobre o funcionalis-
mo que está aí”, diz Mendonça.


Segundo Francisco Gaetani, coorde-
nador do mestrado profissionalizante

em Administração Pública da Fundação
Getulio Vargas, a reforma administra-
tiva é um desafio permanente em todos
os governos, inclusive em outros países.
“A sociedade muda, os valores mudam,
a tecnologia evolui, o mundo se trans-
forma e é natural que todos os gover-
nos estejam buscando continuamente
se reestruturar”, afirmou Gaetani du-
rante encontro da Frente Parlamentar
Mista da Reforma Administrativa, que
discutiu o engajamento e a valorização
do servidor público.


Um indício da existência de consen-
so quanto à necessidade de aprimora-
mento é a ampla aceitação de pontos

integrantes da atual proposta de refor-
ma como o fim da aposentadoria com-
pulsória de servidores como modalidade
de punição, a proibição de promoções ou
progressões na carreira exclusivamen-
te por tempo de serviço e o veto a mais
de 30 dias de férias por ano. O progres-
so técnico facilita esse aprimoramento.
“Com a digitalização e outros avanços,
não há mais necessidade de grandes ar-
quivos e enormes contingentes de pes-
soal em cargos de níveis auxiliar e mé-
dio. A parte desse serviço que será ne-
cessário manter com funcionários é pos-
sível resolver com jovens. Na nossa ad-
ministração, pensamos em usar o Enem
como porta de entrada. O serviço públi-
co é uma oportunidade para os jovens
entre 18 e 20 anos de famílias de mais
baixa renda, de regi ões menos desen-
volvidas, que ingressariam no Estado
não por meio de concursos ultraeliti-
zados, nos quais só os filhos das classes
média e alta conseguem passar”, desta-
ca Mendonça. Há rumores de que o go-
verno cogita algo semelhante em uma
próxima etapa da reforma.


Um dos pontos mais polêmicos do pro-
jeto é a proposta de introduzir no arti-
go 37 da Constituição, que relaciona os
princípios da administração pública, o
princípio da subsidiariedade, descar-
tado na Constituinte de 1988. Gilberto
Bercovici, professor titular de Direito
Econômico e Economia Política da
Faculdade de Direito da Universidade de
São Paulo, afirma que a ideia nada mais
é que a preponderância do setor priva-
do. “O Estado auxiliaria e supriria a ini-
ciativa privada em suas deficiências e ca-
rências, só as substituindo excepcional-
mente. A atuação do Estado seria a exce-
ção, não a regra.”

O serviço público
é mal avaliado
e uma reforma
administrativa séria
precisa ser discutida


Assim como a reforma administrati-
va tem muito de ajuste fiscal, várias ou-
tras PECs encaminham indiretamen-
te a reforma administrativa pretendida
pelo governo, sublinha Cardoso Júnior

A estratégia de pulverização de mudan-
ças enfraquece ainda mais a presunção
de que a PEC 32 consista em uma pro-
posta merecedora do nome e reforça o
seu caráter de mais um movimento ru-
mo à austeridade. “Veja que a reforma ad-
ministrativa na verdade está em curso.
Há várias PECs e medidas infraconsti-
tucionais em curso que vão dando a ca-
ra do que quer o atual governo sobre is-
so. A PEC 188, que vai ser retomada no
Senado, é terrível, porque ela não só su-
gere o corte dos vencimentos dos servi-
dores em 25%, como extingue o plano
plurianual. É a tal PEC do pacto federati-
vo, que propõe a extinção de municípios,
e contém um detalhe importantíssimo,
que ninguém está olhando com atenção,
uma proposta de mudança do artigo 6º
da Constituição, no qual eles pretendem
incluir um conceito surreal, que é o equi-
líbrio fiscal intergeracional.”


Isso seria, segundo o economista,
uma das mais graves violações de direi-
tos constitucionais fundamentais do
Estado Democrático de Direito no Brasil
desde 1988. O artigo 6º da Constituição
estabelece os direitos a educação, saúde,
alimentação, trabalho, moradia, trans-
porte, lazer, segurança, previdência so-
cial, proteção à maternidade e à infância
e assistência aos desamparados. A mo-
dificação proposta pelo governo repre-
senta uma “relativização ou severa res-
trição dos direitos sociais fundamen-
tais ao condicioná-los ao ‘equilíbrio fis-
cal intergeracional’, mesmo sendo este
um pseudoconceito, teórica e empirica-
mente questionável. Representará uma
petrificação das finanças públicas bra-
sileiras, uma verdadeira normalização
da exceção, que instalará uma ‘situação
de emergência fiscal permanente’, além
do teto de gastos”.


O recurso encontrado pelo governo pa-
ra justificar a presumida necessidade de
arrocho incessante distribuído em inú-
meras PECs é manipular números para

alegar explosão de despesas com o fun-
cionalismo e inchaço do Estado “gasta-
dor”. São manobras primárias, mostra
a Associação Nacional dos Servidores
da Carreira de Especialista em Meio
Ambiente. “Para justificar a reforma,
o governo usou a estratégia cherry pi-
cking, coleta seletiva de dados que con-
firmem uma tese, mas sem considerar o
todo composto de informações que pos-
sam contradizê-las. Como o governo fez
isso? ‘Esquecendo’ de descontar a infla-
ção.” Os dados mostrados pelo governo,
descreve a Ascema, são de gastos com
salários que saltariam de 44,8 bilhões
de reais em 2008 para 109,8 bilhões em
2029, mais que dobrando, portanto, nes-
sa conta da entidade, mas, considerada a
inflação, caem para 58,8 bilhões. “O go-
verno não quer que os cidadãos saibam
que os gastos com servidores aumenta-
ram 31% nos últimos 12 anos, em vez de
145%, uma curva praticamente estável no
aumento das despesas com pessoal ativo
do Executivo Federal.”



Outras alegações econômicas do go-

verno igualmente não se sustentam,
mostra a comparação internacional. A
arrecadação tributária, que alegam ser
elevadíssima, corresponde a 35,6% do
PIB, enquanto na média dos países da
OCDE é de 42,4%, segundo dados de 2015
da própria organização. Ao contrário do
que alegam, o Estado brasileiro não é in-
chado. O total de funcionários públicos
em relação ao conjunto da população
ocupada é de 12%, enquanto nos países
da OCDE é quase o dobro disso, 21,3%,
de acordo com a mesma fonte. Os salários
mais polpudos em relação àqueles da ini-
ciativa privada valem só para um punha-
do de privilegiados nos três poderes, jus-
tamente a parcela poupada pela reforma
de Bolsonaro e Guedes. A grande massa
de funcionários, 60% a 70%, ganha mui-
to mal, tão mal quanto a maior parte dos
trabalhadores do setor privado. •



September 13, 2020

The Whitelash Next Time

 The Black Lives Matter mural in New York City has been vandalized.

By
Kali Holloway
thenation.com

Two months. That’s how long it took for white Americans’ support of Black Lives Matter—which climbed to an unprecedented peak in June after the brutal police murder of George Floyd—to tumble back toward preprotest levels. Over the same period, surveys show, declining numbers of white respondents cited anti-Black racism as a “big problem” in American society. An NPR/Ipsos poll from late August found white people are the racial group least likely to report taking even the most minor “actions to better understand racial issues in America” since protests began sweeping the country. Just half of white Americans concede “racism is built into the American economy, government, and educational systems.” And 49 percent believe America has already done enough “to give Black Americans equal rights with white Americans.”

It’s always true that most white folks are unbothered and unmoved by anti-Black discrimination and violence; the steadfast endurance of American institutional racism proves that. It is also clear from history that white anti-racism has always had a dangerously short shelf life. Ignore the barrels of digital ink spilled lately about white people’s new willingness to reckon with structural racism. When the pendulum swings toward Black equality and full citizenship, white supremacy mounts a counteroffensive.

Cornell University historian Lawrence Glickman notes the word “backlash” gained circulation during the civil rights movement in 1963 as a shorthand for the “topsy-turvy rebellion in which white people with relative societal power perceived themselves as victimized by what they described as overly aggressive African Americans demanding equal rights.” The term summed up the most reliable white reaction to Black rights dating at least to Reconstruction, when the mere facts of Black emancipation and voter enfranchisement were construed as provocations for justifiable white racist terrorism. Between 1865—when six former Confederate soldiers founded the Ku Klux Klan—and 1950, nearly 6,500 Black men, women, and children were lynched for affronts that included bumping into a white woman and not using “Mister” when talking to a white man. “The more I studied the situation,” wrote Ida B. Wells, “the more I was convinced that the [white] Southerner had never gotten over his resentment that the Negro was no longer his plaything, his servant, and his source of income.”

Refugees of the Great Migration, the mass movement of African Americans to the North and West to flee that terror, were subjected to yet more white violence. Enraged by Black folks seeking equal employment and housing, as well as returning Black World War I veterans’ demands for the rights at home they had fought for abroad, white mobs in at least 25 riots around the country—including in Chicago; Syracuse, N.Y.; and Washington, D.C.—killed over 250 African Americans during the Red Summer of 1919. Those murders foreshadowed anti-Black pogroms in the thriving Black enclaves of Tulsa, Okla., in 1921 and Rosewood, Fla., in 1923.

The white backlash is typified by what Glickman identifies as “its smoldering resentment, its belief that the movement [for Black rights is] proceeding ‘too fast,’ its demands for emotional and psychological sympathy, and its displacement of African Americans’ struggles with its own claims of grievance.” Case in point: Just months after passage of the 1964 Civil Rights Act, The New York Times reported pervasive white anger over “inverse discrimination.” Then as now, backlashers maligned Black protests and uprisings, insisting property destruction canceled out Black deservedness of human rights. In one 1963 survey, 73 percent of white Southerners and 65 percent of white Northerners said civil rights demonstrations “hurt the Negro’s cause for racial equality,” and multiple white New York City dwellers told the Times in 1964 that “nonviolent civil rights demonstrations had hurt Negroes’ chances” (my emphasis). Historical revisionism has attempted to erase the fact that 75 percent of white folks disapproved of Martin Luther King Jr. in early 1968. In the 1960s, when he was leading protests, a survey found that just 36 percent of white Americans thought he was helping “the Negro cause of civil rights.”

“The trigger for white rage, inevitably, is black advancement,” Carol Anderson wrote in her 2016 book White Rage. That rage helped ardent segregationist and presidential candidate George Wallace win five Southern states in 1968 and five primaries in 1972, including Michigan and Maryland. Promises to send “welfare bums back to work” and to defend white home sellers’ right to “discriminate against Negroes” propelled Ronald Reagan to California’s governorship in 1966 and later to the Oval Office. It is right to call the 2016 election of Donald Trump a white backlash against the first Black president—one so fervent, it won poorly educated, college-degree-holding, and young white folks alike—but it is also critical to recognize it as just one white backlash among many. Trump’s presidency is no anomaly but a confirmation of America’s pattern of Black political progress and white retaliation.

So here we are again. White vigilantes have attacked Black Lives Matter protesters nearly 500 times this year. In recent incidents, MAGA racists poured into Portland, Ore., and fired pepper spray and paintballs at protesters from moving vehicles. In Kenosha, Wis., a white 17-year-old who is accused of murdering two protesters was treated like a brother-in-arms by cops. Trump labeled the violence a “big backlash,” without realizing what he was admitting about the tradition of white American terrorism. And despite the violence of white actors, protesters are being demonized for stating unequivocally that Black folks have a right to exist. The dwindling white support for that declaration is a reaffirmation that white liberals and moderates, to quote King, are “more devoted to ‘order’ than to justice” and will always opt for “a negative peace which is the absence of tension to a positive peace which is the presence of justice.” White supremacy is again making its resilience known. And the backlash, sadly, is only getting started.

September 9, 2020

Mulheres nos quadrinhos: conheça as artistas que desafiam o machismo no cenário das HQS

 Em sua rotina de trabalho, a quadrinista Ivana Amarante Bombana, que faz ilustrações sobre os desafios da mulher adulta no Dilemas da Ivana Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Quadrinistas se inserem no meio cultural independente ilustrando a política brasileira, relacionamentos LGBT+ e o cotidiano. Para elas, a representação feminina nos quadrinhos ainda é sexista, hipersexualizada e estereotipada 

 

Mario Frias vai controlar editais e até posts de todos os órgãos da Cultura nas redes sociais

 Mario Frias e o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio Foto: Roberto Castro

Nelson Gobbi e Ricardo Calazans

 Assinado pelo secretário Mario Frias na última sexta-feira, um ofício determina que nomeações, exonerações, transferências, publicação de editais e até postagens em sites e redes sociais de todos os órgãos vinculados à Secretaria Especial de Cultura sejam enviados previamente à pasta.

O documento, a qual o GLOBO teve acesso, foi enviado à Agência Nacional do Cinema (Ancine), à Biblioteca Nacional, à Casa de Rui Barbosa, à Fundação Palmares, à Fundação Nacional de Artes (Funarte), ao Instuto Brasileiro de Museus (Ibram) e ao Instuto do Patrimônio Histórico e Artístisco Nacional (Iphan).

Sem autorização: Músico australiano lamenta uso de sua obra em vídeo de Mario Frias

O ofício determina que "nomeações/exonerações para cargos comissionados e funções de confiança" (a partir de DAS 3); "requisições e cessões que envolvam cargos comissionados" (a partir de DAS 3); "substuições de qualquer nível" e " todas as publicações em sítios, perfis, mídias digitais e portais oficiais das endades vinculadas" passam a ser encaminhadas à Secretaria, para que sejam remetidas à "Secretaria-Execuva ou ao Gabinete do ministro" (do Turismo, ao qual a Cultura é vinculada).

'Um povo heroico': Mario Frias se irrita com imitação de Adnet em vídeo: 'bobão'

No caso das publicações em sites e redes, o ofício justifica que a ação visa "uniformizar a comunicação". O documento cita ainda que "não obstante, por força de lei de criação, essas instuições tenham autonomia administrava, financeira e patrimonial, solicita-se que previamente à publicação de Editais de Licitação, Convênios, Termos de Execução Descentralizada, Acordos de Cooperação, Chamamentos Públicos ou outros instrumentos congêneres, esses expedientes sejam encaminhados para ciência desta Secretaria".

A medida foi recebida por parte dos servidores como um ataque à autonomia das entidades vinculadas. A Associacao dos Servidores e Trabalhadores da Funarte (Asserte) informou que está em consulta com o jurídico para averiguar a legalidade da decisão. Um servidor da Fundação, que não quis se identificar, disse que Frias se equivoca ao considerar as vinculadas como órgãos da secretaria: "Chamam as vinculadas de órgãos, mas elas são entidades independentes e autônomas. Não é à toa que cada uma tem seu respectivo presidente".

Presidente do Iphan de 1985 a 1988 e do Ibram em 2013 e 2014, Oswaldo Ângelo define a orientação como uma "medida excepcional na história do serviço público":

— É uma asfixia completa do setor, que visa imobilizar a máquina federal. Essas entidades têm autonomia garantida justamente por serem autárquicas, e agora passam a estar sob um controle rígido do governo.

Leia abaixo a íntegra do ofício:

Ofício Circular nº 3/2020/SECULT

À Agência Nacional do Cinema
À Fundação Biblioteca Nacional
À Fundação Casa de Rui Barbosa
À Fundação Cultural Palmares
À Fundação Nacional de Artes
Ao Instuto Brasileiro de Museus
Ao Instuto do Patrimônio Histórico e Arstístico Nacional

Assunto: Instruções de pessoal e procedimentos administravos

Senhores dirigentes, Cumprimentando-os, refiro-me à publicação do Decreto nº 10.449, de 7 de agosto de 2020, que atribuiu à Secretaria Especial de Cultura a supervisão direta das endades vinculadas ao setor cultural.

Nesse sendo, com amparo no referido decreto e no intuito de, em conjunto, aprimorar os fluxos e ações, solicito a observância das normas legais vigentes, respeitando a autonomia administrava, financeira e patrimonial, e a adoção das seguintes instruções

Mario Frias: Em vídeo sobre heróis brasileiros, secretário aparece diante de retrato de rei belga

a) nomeações/exonerações para cargos comissionados e funções de confiança do Poder Execuvo até o nível 2 (DAS e FCPE) devem ser processadas nas respecvas unidades;

b) requisições e cessões de servidores, abrangendo ou não cargos comissionados e funções de confiança do Poder Execuvo até o nível 2 (DAS e FCPE), e desde que sem ônus à Secretaria Especial e às entidades vinculadas, devem ser processadas nas respectivas unidades;

c) nomeações/exonerações para cargos comissionados e funções de confiança do Poder Executivo a partir do nível 3, inclusive, devem ser encaminhadas a esta Secretaria que remeterá ao Gabinete do Ministro do Turismo.

d) requisições e cessões que envolvam cargos comissionados e funções de confiança a partir do nível 3, inclusive ou que envolvam, outros poderes ou outras esferas de poder, deverão ser remedas a esta Secretaria para anuência e remedas, conforme o caso, à Secretaria-Execuva ou ao Gabinete do ministro.

e) substituições de qualquer nível devem ser encaminhadas a esta Secretaria para anuência e serão remetidas à Secretaria Execuva deste Ministério.

f) todas as publicações em sítios, perfis, mídias digitais e portais oficiais das entidades vinculadas, visando uniformizar a comunicação devem se previamente submetidos à avaliação e autorização desta Secretaria.

Não obstante, por força de lei de criação, essas instuições tenham autonomia administrava, financeira e patrimonial, solicita-se que previamente à publicação de Editais de Licitação, Convênios, Termos de Execução Descentralizada, Acordos de Cooperação, Chamamentos Públicos ou outros instrumentos congêneres, esses expedientes sejam encaminhados para ciência desta Secretaria.

Na certeza de que estas ações irão contribuir para o aprimoramento, articulação e desenvolvimento de ações da cultura, agradeço antecipadamente e coloco esta Secretaria Especial de Cultura à disposição para quaisquer esclarecimentos adicionais.

Atenciosamente,

MARIO LUIS FRIAS

 

September 6, 2020

O abc de Aldir Blanc

 ­ Foto: Mello Menezes

Luiz Fernando Vianna

Aldir Blanc morreu na segunda-feira 4 após 23 noites lutando contra a Covid-19. Fica uma obra de mais de 600 canções, construída, em grande medida, com os pés na rua da realidade e a cabeça na lua da liberdade poética. “O corona não tem como comer a obra dele”, disse seu parceiro Guinga. “Quero cantar nossas canções até onde eu tiver forças”, prometeu outro parceiro, João Bosco.

ÉPOCA montou um ABC inevitavelmente parcial, sem a audácia de propor “o melhor de”. Muitos versos soberbos ficaram de fora. É uma compilação, à guisa de homenagem, para exemplificar a excelência das letras de Blanc.

Amor

O amor é estar no inferno

ao som da Ave Maria

“Nem cais nem barco”, com Guinga

 

O amor é a patada da fera

na cara do domador

“Falso brilhante”, com João Bosco

 

Acho que o amor é a ausência

de engarrafamento

“Transversal do tempo”, com Bosco

 

O amor é meu pastor:

tudo me faltará

“Oração perdida”, com Jayme Vignoli  e Luiz Flavio Alcofra

 

Boemia

Todo boêmio é feliz/Porque quanto mais triste, mais se ilude

“Me dá a penúltima”, com Bosco

 

Eu não resisto aos botequins

mais vagabundos/mas

não pretendia te envergonhar

“Pra que pedir perdão?”, com Moacyr Luz

 

Mas a tarde começa a cair e eu perco o sossego/Sentindo correr

no meu sangue de negro/O chamado do samba e do botequim

“Mãos de aventureiro” (sem parceria)

 

Carnaval

Por um bloco que aumente/o movimento/que sacuda e arrebente/ o cordão de isolamento

“Plataforma”, com Bosco

 

Carnaval, missa campal/

do povo brasileiro/onde a hóstia sagrada é o pandeiro

“Vitória da ilusão”, com Luz

 

Imaginar o Salgueiro,/lua sobre o sangue de linda mulher.../é preciso

o universo inteiro/pra mostrar o que o Salgueiro é

“Lua sobre sangue”, com Cláudio Jorge

 

Delírios

Estrela é só um incêndio na solidão

“Pra que pedir perdão?”, com Luz

 

A terra onde nasceu o Peter Pan/

fica entre a Vila e o Maracanã

“Ramo de delírios”, com Guinga

 

No Rio: mar./Ouço Netuno assoviar/

Um Gershwin Clara Nunes/que faz vibrar feito flauta/os túneis

“Delírio carioca”, com Guinga

 

Elas

Bem que eu queria dar com fé uma cacarecada/Mas minha nega é maior e vacinada

“Feminismo no Estácio”, com Bosco

 

Um mulherão, balangandãs, cerâmica e sisal/Língua assim, a conta certa entre a baunilha e o sal

“Coisa feita”, com Bosco e Paulo Emílio

 

Fascínio tenho eu/por falsas louras/

(ai, a negra lingerie)/Com sardas,/

sobrancelha feitas a lápis/

e perfume da Coty

“Miss Sueter”, com Bosco

 

Família

Mãe,/arranha o vidro da janela/onde a sujeira vela/por nós dois/porque eu não sei/quem anda mais sozinho./ Aí eu perdi o ninho, a casa/o colo, a crença/Só nossa doença não me abandonou

“Choro-réquiem”, com Guinga

 

Ponho a mão na testa do meu neto/

e é meu avô que está estendendo

a mão./Nessa comunhão dos três/ eu sou avô do meu avô

“Acalanto pros netos”, com Cristovão Bastos

 

Galos de briga

O rubro das brigas duras/dos galos de fogo puro/rubro gengivas de ódio/antes das manchas no muro

“Galos de briga”, com Bosco

 

Meu companheiro/tá armado até

os dentes/já não há mais moinhos/

como os de antigamente

“O cavaleiro e os moinhos”, com Bosco

 

Mas, ovelha negra me desgarrei/

o meu pastor não sabe que eu sei/

Da arma oculta na sua mão

“Agnus sei”, com Bosco

 

História negra

Rubras cascatas/jorravam das

costas dos santos/entre cantos

e chibatas/inundando o coração/

do pessoal do porão

“O mestre-sala dos mares”, com Bosco

 

Preso,/marca a rebeldia/traz pra senzala/a luz do amanhã

“Da África à Sapucaí”, com Bosco

 

O escuro do negreiro/O açoite

pardo do feitor/E um clarão enganador/A liberdade sonhada ainda não chegou

“Rainha negra”, com Luz

 

Irmãos

Perder um amigo/Perder o sentido/ Perder a visão/As mãos, os ouvidos

“Perder um amigo”, com Maurício Tapajós

 

Os irmãos Francisco, Herbert, Henrique/são muito engraçados./ São marujos de um navio/várias vezes posto a pique/nem por isso perdem o riso

“Quatro irmãos”, com Leandro Braga

 

Jobim

Toco piano e a Virgem canta,/diz pro Menino: Tio Tom./Senta à vontade

e a coxa santa me dá saudade

do Leblon

“Jobiniana”, com Guinga

 

O Jobim, sabiá, bem-te-vi

“Querelas do Brasil”, com Tapajós

 

Lua

Estrela, no adeus/faz com que/tua luz me proteja,/me beija de leve/azul serenata ao luar Moonlight serenade, versão para música de Glenn Miller

Mulher lunar,/hoje eu te louvo no momento em que te pões

“Mulher lunar”, com Luiz Carlos da Vila

 

Machismo

Ele vai voltar tarde/Cheirando

a cerveja/Se atirar de sapatos

na cama vazia/E dormir na hora murmurando: Dora/E você é Maria

“Bodas de prata”, com Bosco

 

Eu não posso me queixar/

pra Delegacia da Mulher/

ninguém pra testemunhar/

como é a violência em meu lar

“Delegacia da Mulher”, com Luz

 

Noite

Ah, vida noturna/eu sou

a borboleta mais vadia/na doce flor/

da tua hipocrisia

“Vida noturna”, com Bosco

 

Um cuba libre treme na mão fria/ao striptease da agonia/de cada um que deixa o cabaré/lá fora, a luz do dia fere os olhos

“Cabaré”, com Bosco

­ Foto: Aldir Blanc e João Bosco / Acervo pessoal
­ Foto: Aldir Blanc e João Bosco / Acervo pessoal

Oceanos

Eu, teu corsário preso/vou partir

a geleira da solidão/E buscar

a mão do mar

“Corsário”, com Bosco

 

O dom de acariciar/Profundamente feito o mar,/Remexendo o que naufragou/Lentamente na solidão

“Restos de um naufrágio”, com Luz

 

Pares

Sentindo frio em minh’alma/

Te convidei para dançar/

A tua voz me acalmava/

São dois pra lá, dois pra cá

“Dois pra lá, dois pra cá”, com Bosco

 

Nos dissemos/que o começo

é sempre,/sempre inesquecível/

e, no entanto, meu amor,

que coisa incrível,/esqueci nosso começo inesquecível

“Latin lover”, com Bosco

 

Querelas do Brasil

O Brazil não merece o Brasil/O Brazil tá matando o Brasil

“Querelas do Brasil”, com Tapajós

 

Chora a nossa pátria, mãe gentil/

choram Marias e Clarices/

no solo do Brasil

“O bêbado e a equilibrista”, com Bosco

 

Grampearam o menino do corpo fechado/e barbarizaram com mais de cem tiros./Treze anos de vida sem misericórdia/E a misericórdia no último tiro

“Tiro de misericórdia”, com Bosco

 

Se alastra entre os gurus/visões diluvianas/Carmen Miranda teme/

que não haja mais bananas

“Diluvianas”, com Guinga

 

Rio de Janeiro

Brasil, Brasil/tua cara ainda é o Rio de Janeiro/três por quatro na foto

e o teu corpo/precisa se regenerar

“Saudades da Guanabara”, com Luz e Paulo César Pinheiro

 

Um dia vi Iemanjá/cantando num dancing lá.../Me diz aí: que mal há/

em ser da Praça Mauá

“Praça Mauá: que mal há?”, com Luz

 

Samba

Meu samba é casa de marimbondo/ Tem sempre enxame pra quem mexer

“Casa de marimbondo”, com Bosco

 

Ele é um samba de quadra da Mangueira/que Deus letrou,/

dá aula sobre a cidade/e nessa universidade/é o reitor

“Flores em vida para Nelson Sargento”, com Luz

 

Tempo

E o tempo se rói com inveja de mim,/

me vigia querendo aprender/como eu morro de amor/pra tentar reviver

“Resposta ao tempo”, com Cristovão Bastos

 

50 anos são bodas de sangue/casei com a inconstância e o prazer

“50 anos”, com Bastos

 

Uniões estáveis

Se eu tô/Devendo dinheiro e vem um me cobrar/Dotô, a peste abre a porta e ainda manda sentar

“Incompatibilidade de gênios”, com Bosco

 

Eu sou teu acaso/e por acaso tu és minha sina,/somos sorte e azar,/eu sou tua relíquia/tu és minha ruína

“Siameses”, com Bosco

 

As sandálias, e eu batendo em teu rosto/E a queda dos saltos tão altos/

Sobre os nossos filhos

“Altos e baixos”, com Sueli Costa

 

Meu catavento tem dentro o vento escancarado do Arpoador/Teu girassol tem de fora o escondido do Engenho de Dentro da flor

“Catavento e girassol”, com Guinga

 

Vila Isabel

Os netos... o quintal... Vila Isabel.../

Todo o Brasil era sol, quarador

“Tempos do onça e da fera — Quarador”, com Bosco

 

Zune o vento e valsam os oitis/no velho boulevard/bosques de Viena

“Viena fica na 28 de setembro”, com Bosco

 

X do problema

Entre amar e matar não sobra espaço/quanta lâmina rente

ao meu abraço/e cristais

de arsênico em meu beijo/

vão matar o que mais quero

“Canção do lobisomem”, com Guinga

 

Num lance alguém se suicida/

e a marca de uma ferida/

não sai com o apagador

“Tabelas”, com Bosco

 

Zona Norte

Há quem não se importe/mas a

Zona Norte/é feito cigana/lendo a minha sorte

“Só dói quando eu Rio”, com Luz

 

Dirá um dodói que Tolstói era chuva demais pra tão pouca planta./

Ô, trouxa, heroínas sem par

podem brotar na Rússia/

ou lá em Água Santa

“Lupicínica”, com Vignoli

September 3, 2020

Se perder, Trump aceitaria deixar o poder?

 

2010 / Marcelo Min / Fotogarrafa / Foto: Marcelo Min / Reprodução

Helio Gurovitz

No meio da pandemia, as últimas semanas têm trazido um sopro de esperança aos adversários de Donald Trump nos Estados Unidos. Dada a atitude desastrada dele diante do vírus e dos protestos antirracismo, pesquisa após pesquisa tem confirmado uma liderança histórica do democrata Joe Biden. Desde Bill Clinton, em 1992, um desafiante não livra distância tão grande sobre o presidente. Ninguém que chegou à campanha em tal posição perdeu em novembro. Para completar, Biden está à frente nos três estados decisivos que garantiram, por margens estreitas, a vitória de Trump em 2016: Wisconsin, Michigan e Pensilvânia. Verdade que Trump já surpreendeu. Pode surpreender outra vez. Mas será bem mais difícil. Democratas mordem a língua para não celebrar antes da hora. Fazem bem. Desta vez, a surpresa pode ser outra.

“Enquanto a derrota de Trump está longe de certa, não é nada incerto como ele reagiria ao fracasso eleitoral: rejeitaria o resultado”, escreve o jurista Lawrence Douglas em Will he go? (Ele vai?).

“‘A recusa de Trump em aceitar a derrota não é possível nem provável — é quase inevitável.’”

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Trump enche o Twitter de imprecações contra fraude sempre que as urnas lhe desagradam. Jamais reconheceu ter perdido para Hillary Clinton na votação popular em 2016 (ela somou quase 3 milhões de votos a mais, ele só venceu porque conquistou os três estados decisivos numa eleição indireta). “Pela primeira vez na história temos um presidente que insiste rotineiramente que não dá para confiar no processo democrático”, diz Douglas. Diante da reação previsível, a questão realista é: “Quão preparado está o sistema para repelir o ataque?”. A resposta de Douglas é perturbadora: por mais que os Estados Unidos sejam a democracia mais longeva e estável do planeta, não muito.

Douglas traça três cenários para justificar sua inquietação — ou, nas palavras dele, três “catástrofes”. A primeira envolve aquilo que os americanos chamam de “delegados infiéis”: designados por um estado para votar num candidato, acabam votando noutro. Bastaria, numa eleição apertada, que dois representantes da Pensilvânia inventassem de votar no senador Mitt Romney em vez de Trump para haver um impasse. A segunda “catástrofe” supõe um ataque cibernético que corte a luz em Detroit no dia da eleição, tire de Biden uns 300 mil votos e dê a vitória a Trump no Michigan. Estaria então aberta a disputa em torno de um novo escrutínio. Em ambas as hipóteses, o Senado, encarregado de contar os votos do Colégio Eleitoral (sob o comando do vice Mike Pence) se veria obrigado a decidir entre dois vencedores, um apresentado pelo Executivo estadual (democrata), outro pelo Legislativo (republicano). A terceira “catástrofe” envolve a apuração lenta dos votos pelo correio, multiplicados em virtude da pandemia. Trump poderia ser declarado vencedor por redes de TV, para depois Biden virar o jogo nos três estados decisivos ao longo dos dias seguintes, sob as invariáveis invectivas de fraude no Twitter (Douglas tem um talento especial para incorporar Trump quando imagina o texto dos tuítes).

Nenhuma das três hipóteses é fantasia. Todas já aconteceram. A história registra 167 casos de delegados infiéis no Colégio Eleitoral (7 em 2016), e 18 estados não dispõem de leis que obriguem seus representantes a respeitar o resultado das urnas. Russos já promoveram ataques digitais a Estônia, Geórgia, Ucrânia e, claro, aos próprios Estados Unidos em 2016. Há com frequência novos pleitos quando a legitimidade dos votos é posta em questão (como na Carolina do Norte em 2018). As eleições apertadas de 1876 (vencida por Rutherford Hayes) e de 2000 (por George W. Bush) só tiveram desfecho porque os adversários de ambos desistiram de levar às últimas consequências embates custosos à democracia. Na primeira, o Senado foi apresentado a resultados distintos para a apuração em três estados decisivos. Quem garante que Trump, se derrotado, transmitiria o poder sem resistir? “Uma crise na sucessão pacífica representaria um desastre maior que uma vitória de Trump”, diz Douglas. O quadro que ele pinta é assustadoramente convincente.

WILL HE GO? — TRUMP AND THE LOOMING ELECTION MELTDOWN IN 2020
Lawrence Douglas, Twelve
2020 | 160 páginas | US$ 22