November 25, 2019

Sob pressão, redes sociais disciplinam anúncio político direcionado

 Manifestantes no Facebook, nos EUA: rede social sofre críticas por influência política desde o caso Cambridge Analytica Foto: JUSTIN SULLIVAN / AFP

Sérgio Matsuura
O Globo

Com a aproximação da eleição presidencial americana, em novembro de 2020, plataformas digitais mudam regras para a veiculação de anúncios políticos. O objetivo é minimizar as interferências da internet em votações, como aconteceu em 2016 na eleição de Donald Trump e no Brexit, referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia. O Twitter foi o mais radical, proibindo qualquer anúncio pago de conteúdo político. Na semana passada, o Google engrossou o movimento ao restringir a segmentação das propagandas, aumentando a pressão sobre o Facebook .

A rede liderada por Mark Zuckerberg tem sido criticada por relaxar ainda mais as regras para anúncios políticos segmentados, permitindo até conteúdos mentirosos. Com a pressão da concorrência, o Facebook estuda aumentar o número mínimo de pessoas a serem alcançadas pela publicidade, de cem para milhares, para reduzir a segmentação.

Em discurso na Universidade Georgetown, em Washington, no mês passado, Zuckerberg, defendeu a liberdade de expressão para justificar a permissão de anúncios políticos. Argumentou que uma empresa não deve julgar o que políticos podem ou não dizer.
— Não checamos anúncios políticos — disse Zuckerberg. — Não fazemos isso para ajudá-los, mas porque as pessoas devem poder ver o que os políticos estão dizendo. Sei que muita gente discorda, mas não acho certo uma empresa privada censurar políticos ou notícias numa democracia.

Para especialistas, o debate não é sobre censura, mas sobre microssegmentação e desinformação. Na mídia tradicional, é possível escolher horários de exibição de anúncios na TV ou no rádio para alcançar determinados grupos.
O mesmo acontece com revistas e jornais, direcionados a diferentes públicos. Em outdoors, pode-se selecionar a audiência pela localização. Mas, na internet, dá para mirar num eleitor do Partido Republicano, casado, que mora num vilarejo do Texas, gosta de beisebol e é filiado à Associação Nacional de Rifles, por exemplo.
— É importante distinguir publicidade paga de discurso político em geral — diz Evelyn Douek, pesquisadora do Berkman Klein Center For Internet & Society da Universidade Harvard, nos EUA. — Embora a decisão de não derrubar o discurso de políticos seja defensável, afinal, é a única forma de responsabilizá-los pelo que dizem, isso se desfaz quando o Facebook permite anúncios para fatias incrivelmente pequenas da comunidade que podem ser mais suscetíveis.

Dessa forma, os anúncios microssegmentados ficam fora do debate público, alcançam apenas o segmento selecionado por quem paga e ainda são de difícil detecção se difundirem mentiras. Um político alvo de anúncio calunioso na TV pode se defender. Nas redes sociais, ele nem saberia da propaganda, que circula em grupo restrito, mais propenso a crer na mensagem.
O tema virou preocupação mundial com o escândalo da Cambridge Analytica (consultoria política britânica que teve acesso a dados de usuários do Facebook sem que fossem informados), que revelou como anúncios direcionados a pequenas parcelas do eleitorado americano podem ter influenciado na vitória de Trump em 2016.
— Existe um incentivo para se criarem campanhas coordenadas de desinformação — afirma Dipayan Ghosh, pesquisador do Shorenstein Center on Media, Politics and Public Policy, da Escola de Políticas Públicas de Harvard. — Isso é o que qualquer ator político racional tende a fazer quando há capacidade de disseminar mentiras que o favoreçam.

A pressão sobre o Facebook só cresce. No fim de outubro, o diretor-executivo do Twitter, Jack Dorsey, aproveitou as críticas à rede rival para anunciar a proibição de qualquer anúncio com conteúdo político, impedindo que candidatos e partidos políticos comprem publicidade na rede social. E mandou uma indireta para o rival Zuckerberg.
“Não é sobre liberdade de expressão. É sobre pagar por alcance. E pagar para aumentar o alcance do discurso político tem ramificações significativas que a infraestrutura democrática de hoje talvez não esteja preparada para lidar”, escreveu Dorsey, em seu perfil no Twitter.
Na última quarta-feira, foi a vez do Google anunciar novas regras para a propaganda política. A partir de janeiro, os anúncios terão restrições na segmentação, com filtros apenas por idade, gênero e localização. No Reino Unido, que tem eleições no mês que vem, as regras já estão valendo.
— Acho que essa pressão vai fazer o Facebook adotar alguma medida — prevê Ghosh. — A decisão do Twitter pôs enorme pressão sobre Zuckerberg, que deve fazer a coisa certa, suspendendo temporariamente a propaganda política até que possamos compreender o fenômeno da desinformação e garantir que não seja um problema na plataforma.

Decisão envolve negócios

Na semana passada, segundo o Wall Street Journal, o Facebook procurou potenciais compradores de anúncios ligados aos partidos Democrata e Republicano, para discutir mudanças nas regras, num esforço para limitar a disseminação da desinformação.
—Estamos buscando formas para refinar nossa abordagem sobre anúncios políticos — afirmou um porta-voz da companhia na quinta-feira.
Mas essa decisão não é tão simples. Nos últimos anos, o Facebook começou a ser visto por apoiadores do Partido Republicano como anticonservador, por ter excluído contas consideradas disseminadoras de fake news . A rede social também tem sido alvo dos democratas. A senadora Elizabeth Warren, uma das principais concorrentes à candidatura democrata à Casa Branca, defende dividir gigantes da tecnologia como o Facebook.

E existe a questão financeira. Nas eleições legislativas de 2018 nos EUA, anúncios políticos renderam menos de US$ 3 milhões ao Twitter. O relatório do Google informa que, desde abril de 2018, a propaganda política rendeu US$ 129 milhões. No Facebook, estima-se que esse tipo de propaganda responderá por até 0,5% do faturamento da empresa em 2020. Algo em torno de US$ 420 milhões.
— É fácil para o Twitter dizer que não vai mais exibir anúncios políticos, porque não é um grande player nesse mercado — pondera Jessica Alter, cofundadora da organização Tech for Campaigns.
Ela também avalia que banir anúncios políticos vai atingir candidatos menos populares:
—Meios analógicos são mais caros, só candidatos com muito dinheiro ou tempo para cultivar seguidores nas redes continuarão dominando. Candidatos estabelecidos, ricos e celebridades terão vantagem enorme.

Como são anúncios políticos em cada plataforma

  • Google: A partir de 6 de janeiro de 2020, políticos poderão segmentar anúncios só por idade, gênero e localização. Não será possível focar em eleitores inclinados para a esquerda ou para a direita, ou filiados a determinado partido político. Também não serão permitidos argumentos falsos nem vídeos manipulados.
  • Twitter: Baniu qualquer anúncio pago de conteúdo político. Isso inclui qualquer conteúdo pago com referência a “candidato, partido, políticos com mandato, eleições, referendos, apuração, legislação, regulação, diretiva ou resultado judicial”.
  • Facebook: Decidiu se abster de qualquer ação que restrinja anúncios políticos, cujo conteúdo não passa por checadores. Mas já estuda fazer alguma restrição à segmentação, como aumentar o alcance do anúncio.





November 24, 2019

As reinações de Eduardo Bolsonaro

­ Foto: Renato Costa / FramePhoto / Folhapress

NATÁLIA PORTINARI

A indicação de Eduardo Bolsonaro para a Embaixada do Brasil em Washington, enterrada nesta semana, sempre fez parte de um plano mais amplo do presidente Jair Bolsonaro. Sem consultar os limites da Constituição, o presidente via no filho uma chance de continuidade para 2022, se resolvesse cumprir a promessa feita em campanha de não tentar a reeleição. Ex-ministros e pelo menos dois diplomatas confirmam que a hipótese chegou a ser aventada no primeiro semestre deste ano. A ideia não foi adiante por um conjunto de razões. Há uma trava constitucional que veda a familiares de um presidente se candidatarem imediatamente após o fim do mandato. Além disso, houve a própria mudança de planos do pai, cada vez mais candidato a tentar continuar na cadeira ele mesmo por mais quatro anos. O plano era claro: Eduardo iria para Washington, se beneficiaria do prestígio de estar próximo da família Trump e de Steve Bannon — um ex-assessor do presidente americano com ambições de liderar a extrema-direita global — e voltaria ao país alçado a outro patamar político. A trajetória internacional o transportaria ao posto de sucessor natural do pai. Nesse aspecto, havia uma dificuldade extra: eles não contavam com o alto custo político do apoio de senadores à empreitada diplomática, que terminou por sepultar o plano.
Na tribuna da Câmara dos Deputados, na terça-feira 22, Eduardo protagonizou seu “Dia do Fico”. “Este que vos fala (…) diz que fica no Brasil para defender os princípios conservadores, para fazer do tsunami que foi a eleição de 2018 uma onda permanente”, afirmou, ao reforçar que sua curta trajetória de quase embaixador terminara por decisão própria, e não em razão da falta de apoio político. Derrotado na seara diplomática, foi alçado ao posto de líder do PSL na Câmara à revelia da direção de seu partido, numa sequência enfadonha de disputa de listas contra e a favor de sua nova função. Aos 35 anos, completados em julho, o filho do presidente da República tenta ocupar os espaços disponíveis dentro e fora da esfera pública com um objetivo ambicioso: firmar-se como a principal liderança de direita do Brasil e como sucessor político do pai. “Se fizer um bom trabalho como deputado, talvez, quem sabe um dia, eu seja alçado a voos maiores na política”, admitiu ao jornal O Estado de S. Paulo . Questionado sobre se podia vir a suceder ao pai, colocou-se dentro do jogo. “É uma possibilidade que eu aceitaria se fosse uma missão, como foi para Jair Bolsonaro. Não tendo outro nome ou havendo algum clamor popular, na falta de sucessores, enfim, em qualquer cenário desses.”
Com Onyx Lorenzoni e Steve Bannon
Com Onyx Lorenzoni e Steve Bannon
A autoconfiança necessária para postular os cargos de embaixador, líder partidário, mentor ideológico e até presidente é uma construção recente na vida de Eduardo. Quando ainda atuava à sombra do pai nos corredores da Câmara dos Deputados, em sua primeira legislatura, o zero três tinha um papel bem definido. Apesar do mandato de deputado, fazia as vezes de assessor e gravava as intervenções do pai em plenário, suas entrevistas e suas declarações polêmicas. Também o acompanhava em todas as votações e seguia seus passos nas várias vezes em que o patriarca do clã caminhava os 400 metros que separavam seu gabinete do Salão Verde. Foi apenas durante a campanha de 2018 que Eduardo teve sua primeira chance de protagonismo. Enquanto o pai convalescia no hospital, vítima de uma facada que quase o matou, o zero três viajava pelo país em seu lugar. Terminou como deputado mais votado da história, com 1,8 milhão de votos.
­ Foto: Reprodução
­ Foto: Reprodução
Em agosto de 2018, encontrou-se pela primeira vez com Steve Bannon em Nova York, numa visita organizada pelo hoje assessor especial da Presidência da República Filipe Martins. Considerado um dos mais aplicados alunos do curso de filosofia do ideólogo Olavo de Carvalho, Martins conseguira contato com o ex-estrategista da campanha de Trump por meio de uma das filhas de Bannon. Outro interlocutor foi o investidor de origem brasileira Gerald Brant, que conhecia Eduardo dos tempos de juventude e vivia nos Estados Unidos. A aproximação com Bannon tinha o aval de Olavo de Carvalho, de quem Eduardo já era entusiasta. Idealizador do The Movement, uma aliança internacional da direita contra o chamado “globalismo”, Bannon acusa as grandes empresas multinacionais de serem organizações que visam derrubar a soberania nacional dos países. O mesmo pecado também é imputado por Bannon, hoje rejeitado até por Trump, a organismos internacionais, como a ONU. Eduardo faz coro à ideia. Ao ser anunciado pelo consultor americano, em fevereiro, como o líder do The Movement na América Latina, Eduardo se disse “muito orgulhoso”. “Trabalharemos com Bannon para resgatar a soberania de forças progressistas, globalistas e elitistas e para expandir o nacionalismo de bom senso para todos os cidadãos latino-americanos”, escreveu, à época, em comunicado.
Alçado a presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa da Câmara, Eduardo virou “chanceler informal” do governo do pai. No primeiro semestre, viajou para Estados Unidos, Israel, Argentina, Hungria e Itália representando Bolsonaro. Chamou a atenção com sua visão de política externa, ao dizer, por exemplo, que “são bombas nucleares que garantem a paz” e que havia a chance de guerra com a Venezuela se o governo de Nicolás Maduro, “um maluco associado a terroristas e ao narcotráfico”, evoluísse “para um quadro pior”.
“Sem consultar os limites da Constituição, o presidente via no filho uma chance de continuidade para 2022, se resolvesse cumprir a promessa feita em campanha de não tentar a reeleição. O plano B acabou sendo a embaixada”
­
­
Com Donald Trump e o assessor Filipe Martins, em tentativa de aproximação com a Casa Branca. Foto: Joyce N. Boghosian / Official White House Photo
Com Donald Trump e o assessor Filipe Martins, em tentativa de aproximação com a Casa Branca. Foto: Joyce N. Boghosian / Official White House Photo
O protagonismo recém-conquistado contrasta com o início da carreira política de Eduardo. Escrivão na Polícia Federal, foi o último dos três filhos adultos a ingressar na carreira política. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), concorreu a sua primeira eleição apenas em 2014, aos 30 anos, diante dos apelos do pai de que havia espaço para um candidato com o discurso similar ao de Bolsonaro em São Paulo, sobretudo em corporações como as polícias Militar e Civil. O hoje presidente havia construído sua carreira política no Rio de Janeiro, assim como os filhos Flávio e Carlos. Até ser eleito, a única incursão feita por Eduardo no ambiente político foram os 16 meses em que apareceu como servidor comissionado do gabinete da liderança do PTB na Câmara dos Deputados, partido então comandado por Roberto Jefferson, segundo reportagem publicada pela BBC. Era 2003, e Eduardo tinha 18 anos recém-completados. Havia acabado de ser aprovado no curso de Direito no Rio de Janeiro, apesar de receber rendimentos por um emprego em Brasília.
Eduardo se transformou em pária dentro do PSL, articulando a saída de Delegado Waldir
Eduardo se transformou em pária dentro do PSL, articulando a saída de Delegado Waldir
O ex-deputado Alberto Fraga (DEM), amigo de Bolsonaro desde os tempos do Exército, disse que Eduardo era o mais comedido e “calado” dos três filhos que entraram na política. Sua sede de protagonismo, hoje, surpreende os que o conhecem de outros tempos. Durante a campanha de 2018, já em vias da transformação, Eduardo dizia que, ao ser reeleito, gostaria de ser líder do PSL na Câmara ou mesmo líder de governo, dando como certa a vitória do pai. Um aliado chegou a questionar Jair Bolsonaro, na época, sobre se Eduardo teria mesmo a capacidade de separar a defesa do próprio pai da defesa do presidente da República. Ouviu do presidente que o filho já estava maduro o suficiente para separar essas coisas. Após a eleição, conseguiu segurar-se no cargo de líder por cerca de um mês, mas uma discussão com outros deputados da mesma sigla no grupo de WhatsApp da bancada acabou levando colegas a convencê-lo de que o posto não era para ele. Calado na vida real, Eduardo demonstrava personalidade ferina no meio virtual.
“Um aliado chegou a questionar Bolsonaro sobre se Eduardo teria mesmo a capacidade de separar a defesa do próprio pai da defesa do presidente. Ouviu do patriarca que o filho já estava maduro o suficiente para separar as coisas”
­
­
Os dez meses de mandato do pai, contudo, acabaram selando a metamorfose política do filho, que passou a sentir-se seguro para empreender brigas fora da internet. Um episódio de julho retrata a transformação. Eduardo convocara uma reunião partidária em seu gabinete em Brasília. Estavam presentes os colegas Luciano Bivar (PE), presidente nacional do PSL, e os deputados paulistas Alexandre Frota (hoje do PSDB) e Joice Hasselmann. A deputada — atualmente desafeto de Eduardo — aproveitou o encontro para externar seu plano de concorrer à prefeitura de São Paulo, com o apoio de Bivar, mas recebeu imediatamente uma invertida do filho do presidente: “Não, você não vai ser nossa candidata”, afirmou. Hasselmann, que não é conhecida pelo caráter plácido, se exaltou. Com a face avermelhada, levantou-se da cadeira e disse que, se aquele era o caso, não teria mais por que ficar ali. Eduardo argumentou que seria preciso escolher um candidato que preenchesse requisitos “técnicos”. Frota saiu em defesa da colega, enaltecendo seu desempenho político no governo, mas a situação só piorou. Eduardo se referiu a Frota como “caroneiro” e ameaçou: “Cara, eu tenho pena de você. Com uma tuitada minha, vão arrebentar você na internet”. De perfil conciliador, Bivar colocou panos quentes na discussão antes que ela pudesse escalar.
Eduardo agia como auxiliar do pai enquanto ele era ainda deputado. Foto: Ailton de Freitas / Agência O Globo
Eduardo agia como auxiliar do pai enquanto ele era ainda deputado. Foto: Ailton de Freitas / Agência O Globo
A advogada do PSL Karina Kufa, aliada de Eduardo, contou que a ideia era fazer um “processo seletivo”. Um dos nomes mais levantados era o do apresentador de TV José Luiz Datena. “A gente recebeu o Datena, ele se mostrou interessado em participar desse processo”, contou. Outro nome na jogada seria o deputado estadual Gil Diniz (PSL-SP), conhecido na internet como “Carteiro Reaça”. Aluno de Olavo de Carvalho, o “carteiro” ganhou notoriedade ao propor que alunos de universidades públicas passassem por exames toxicológicos, depois de Carvalho ter afirmado que “estudante está na universidade só para fumar maconha e fazer suruba”. Hoje, Diniz é acusado de operar um esquema de “rachadinha” em seu gabinete na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Já Eduardo, apesar de ter crescido em ambição, continua sendo criticado como articulador político. “Eduardo não senta para conversar com ninguém. Político, jornalista. Se alguém pede para tirar uma foto, ele trata a pessoa mal. Dá para ser político assim?”, provocou o hoje desafeto Delegado Waldir (PSL-GO), que perdeu o cargo de líder para o zero três. Na Câmara, Eduardo tem poucos amigos. Os parlamentares mais próximos a ele são Bia Kicis (PSL-DF) e Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP). Os três se encontram para jantar de vez em quando.
Entusiasta do torturador Brilhante Ustra, Eduardo o entrevistou para seu canal na internet. Foto: Gustavo Basso / NurPhoto / Getty Images
Entusiasta do torturador Brilhante Ustra, Eduardo o entrevistou para seu canal na internet. Foto: Gustavo Basso / NurPhoto / Getty Images
Os atritos não se restringem ao PSL. Em sua primeira reunião de líderes depois da disputa dentro do partido, na terça-feira, causou estranheza o tom agressivo das intervenções de Eduardo. O evento, que reúne os comandantes dos partidos na Câmara e o presidente da Casa, Rodrigo Maia, ocorre a portas fechadas, e a cordialidade é praxe mesmo entre opositores. Naquela manhã, era discutido um acordo com a oposição para atrasar a votação do projeto de lei que autoriza o porte e a posse de armas, mas com a garantia de que ele seria votado ainda naquela semana. Eduardo debochou da negociação, dizendo que “o PT é assim mesmo”. Como diversos partidos de centro participaram do acordo, e não apenas o PT, o momento causou constrangimento e a sensação de que o parlamentar não entendia como funcionava a pauta.
“Na primeira reunião de líderes após a disputa do PSL, causou estranheza o tom agressivo das intervenções de Eduardo. No evento, que reúne os chefes dos partidos na Câmara e o presidente da Casa, Rodrigo Maia, a cordialidade é praxe até entre opositores”
­
­
Eduardo também aproveitou a reunião para dizer que o óleo derramado nas praias do Nordeste era fruto de uma conspiração da esquerda com a participação da Venezuela — outro episódio incomum. Apesar das divergências ideológicas patentes no Congresso, nesse tipo de reunião, de caráter burocrático, o habitual é que líderes encontrem pontos de negociação entre partidos. Expoentes do centrão interpretaram a “estreia” de Eduardo como sinal de que ele será um parlamentar isolado, o que poderá abrir margem para derrotas maiores do que as que o governo já sofre. “É um cara extremamente mimado, que não aceita opinião contrária. Começou a usar o fato de ser filho do presidente para crescer aqui. Levou metade dos cargos do PSL”, acusou Alexandre Frota. “Eduardo não tem personalidade de líder. Quero ver ele sentar a bunda na cadeira aqui, como fazia o ( Delegado ) Waldir, e atender deputados, falar com o presidente, ir e voltar do Palácio do Planalto.” Kufa, a advogada, discorda. Disse que ele é um rapaz dedicado. “Quando tem uma reunião mais técnica, ele gosta de anotar coisas. Tem um caderninho em que ele gosta de anotar até decisões judiciais. É uma pessoa que gosta de se qualificar”, afirmou.
Da esquerda para a direita, Eduardo e os irmãos Flávio e Carlos com a mãe, Rogéria. Foto: Reprodução
Da esquerda para a direita, Eduardo e os irmãos Flávio e Carlos com a mãe, Rogéria. Foto: Reprodução
Em seu primeiro discurso como líder, na tribuna da Câmara dos Deputados, Eduardo repetiu o que dissera em privado e insinuou que o óleo nas praias do Nordeste tem relação com as manifestações no Chile e que tudo seria parte de uma “conspiração da esquerda” para deslegitimar os governos “de direita” na América Latina. “O Brasil, durante muito tempo, engordou o Foro de São Paulo. Agora, eles estão colocando as garras deles de fora. Não fiquem surpresos se mais instabilidade vier por aí. Eles vão usar qualquer tipo de argumento para tentar fazer essa instabilidade acontecer, porque o que eles menos são é democratas”, disparou.
“Jair Bolsonaro disse que os filhos deram uma ‘mergulhada’. Mas há dúvidas sobre o real ímpeto de Eduardo, que hoje se diz líder de direita, em submergir”
­
­
Jair Bolsonaro tem demonstrado apoio ao ímpeto do filho. Defendeu sua postulação a Washington afirmando que, se quisesse, poderia nomeá-lo até mesmo chanceler, para que Eduardo tivesse sob seu comando “mais de uma centena de embaixadas”. Também disse, em outra ocasião, que não via problemas em colocar o filho em um cargo de maior prestígio. “Pretendo beneficiar um filho meu, sim”, disse Bolsonaro, em uma de suas transmissões ao vivo nas redes sociais. “Se eu puder dar um filé-mignon para meu filho, eu dou, sim”, acrescentou. Na disputa partidária no PSL, áudios de Bolsonaro pedindo que deputados assinassem a lista com o nome de seu filho foram revelados por ÉPOCA. Em uma reunião interna, deputados se queixaram de terem sido pressionados pelo presidente da República para endossar o nome do filho.
Eduardo nos Estados Unidos. Ele tem posse e porte de arma e defende a derrubada do Estatuto do Desarmamento. Foto: Reprodução
Eduardo nos Estados Unidos. Ele tem posse e porte de arma e defende a derrubada do Estatuto do Desarmamento. Foto: Reprodução
Poucos dias depois, ao falar com jornalistas durante a viagem a Tóquio, no Japão, Bolsonaro tentou baixar o tom. Disse que seus filhos deram uma “mergulhada”, referindo-se ao fato de eles terem adotado uma postura mais discreta, mas sem mencionar os problemas que os afligem, como o caso Fabrício Queiroz. “O Flávio está mergulhado há muito tempo. O Eduardo está na dele, de vez em quando dá uma alfinetada, é do DNA dele, e o Carlos, pelo que estou vendo, resolveu comprar uma briga com a Joice ali. Eu falei para ele dar uma mergulhada também. Todo mundo perde em qualquer alfinetada”, afirmou. A serenidade da fala do presidente, contudo, tem encontrado pouco eco na realidade. Pelo menos em relação ao zero três — que não dá qualquer sinal de que deseja submergir.

November 22, 2019

Boicote :Ela estava cansada das pessoas que torciam contra o seu presidente


Ilustração de mulher sentada com fogo atrás dela e outros diversos elementos ao seu redor: um arco-íris, um carro, a estátua da liberdade, uma foice e um martelo, uma garrafa e a bandeira do Brasil.

Flávia Boggio

Ela saiu de casa determinada a prestar um serviço ao país. Estava cansada das pessoas que torciam contra o seu presidente. Das instituições que iam contra os valores da família brasileira. Da imprensa que atacava o governo.

Foi até um supermercado e procurou por produtos com qualquer relação com empresas antipatriotas.
Ligou a câmera do celular e apontou para um sabonete. Aquela marca, disse a seus seguidores, anunciava na Foice de S.Paulo, que vivia de difamar seu presidente. Deveria ser boicotada.

Aquela marca de enxaguante bucal? Patrocinadora da Globo Lixo. Boi-co-te! Iria comprar o produto concorrente, para aprenderem a não torcer contra o presidente.

O mesmo deveria ser feito com a marca francesa de canetas. Aquele tal do Macron só criticava seu presidente. No lugar, ela compraria a caneta alemã.

Mal postou o vídeo e comentários pipocaram. A Alemanha, produtora da caneta escolhida, também criticou Bolsonaro. A fabricante do outro sabonete anunciava na Foice de S.Paulo. E todas a empresas de higiene pessoal patrocinavam a Globo Lixo.

Ela voltou para casa decidida a eliminar todos os produtos que iam contra seu presidente. Xampus, sabonetes, alimentos processados. Se livrou até da bandeira do Brasil, que descobriu ser fabricada na China comunista.

Pegou a bicicleta —lembrou que a marca do seu carro também patrocinava a mídia mentirosa— e pedalou até seu sítio em Jundiaí. Capinou a terra, comprou sementes e umas galinhas. Iria produzir seu próprio alimento, livre de inimigos do seu presidente.

Logo descobriu que a vida do pequeno produtor era muito difícil. O custo de sementes e de matéria-prima era alto. As pragas e as chuvas intensas arruinaram sua horta.

Seus vizinhos de terra contaram que, com a liberação de mais agrotóxicos e o desmatamento, eles seriam asfixiados pelos grandes produtores. Tudo culpa daquele maldito governo.

Sentada na cooperativa de orgânicos, que ela ajudou a fundar, pegou uma dose da cachaça, que ela mesma produziu, acendeu seu cigarro de palha, com o tabaco que ela mesma plantou, e praguejou: “Vocês estão torcendo contra”.




November 15, 2019

Paquetá, uma ilha cercada por diversão


Caminhadas, trilhas, mirantes, rodas de samba, restaurantes e feira literária estão entre as opções de diversão 

 


—Amanhece nublado no Rio, ninguém vem. O pessoal gosta de vir no sol e no calor, mas a ilha pode ser curtida mesmo em dias amenos — observa Elizabeth Viana, dona do Orquidário Bistrô, uma simpática casa na Praia das Gaivotas que desde o ano passado abriga no amplo quintal arborizado rodas de choro e de samba acompanhadas de uma feijoada que ela mesma prepara.

Hoje tem Samba do Domênico a partir das 11h. O programa é “família”: além de casa na árvore para as crianças, tem, com uma taxa de R$ 10, o chuveirão e a piscina. E é bom aproveitar: depois de edições que lotaram o Orquidário, como as em que se apresentaram o Choro da Glória e o grupo Moça Prosa, as rodas ficaram mais raras.

— A gente estava com uma agenda frenética, todo sábado e domingo, muito cansativo. Vamos diminuir o número de shows e investir em festas de aniversário e casamento. Aqui é para quem gosta de pé no chão, de crianças correndo... Cada um vai ao bar e pega a sua cerveja, não somos casa de espetáculo — diz Beth, que se mudou do Flamengo para a ilha com o marido e a filha de 11 anos há cinco anos e avisa: “Paquetá não é para amadores".
Carros proibidos: o deslocamento pela ilha é feito a pé, de bicicletas ou charretes elétricas Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
Carros proibidos: o deslocamento pela ilha é feito a pé, de bicicletas ou charretes elétricas Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
Não é para “amadores”, mas é para os amantes. Se o lugar é programa perfeito para famílias, com direito a praias (no último fim de semana, todas estavam próprias para banho), passeios contemplativos a pé, de bicicleta, de carrinhos elétricos (alugados na saída das barcas), ou mesmo em pedalinhos coloridos, embarcar na atmosfera e nos silêncios da ilha é inspirador para casais apaixonados. Não por acaso, a ilha que já foi conhecida como Pérola da Guanabara é também a “Ilha dos Amores” ou o “Jardim dos Namorados”.




O cenário para o beijo pode ser um coreto (o Coreto Renato Antunes, onde acontece em agosto a Festa de São Roque, padroeiro local, e, em torno do qual, rolam animadas festas juninas e blocos de carnaval). Ou os banquinhos de frente para as águas calmas que cercam os quase oito quilômetros de perímetro da ilha, o pôr do sol visto da Pedra da Moreninha, ou um mirante com visual espetacular para a Baía de Guanabara, como o Mirante Boa Vista, no Parque Natural Municipal Darke de Mattos. Uma visita ao parque, aliás, é imperdível, com seus jardins e árvores centenárias e ponto de partida de uma pequena trilha que leva a outro mirante.
O Parque Darke de Mattos tem mirantes voltados para a Baía Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
O Parque Darke de Mattos tem mirantes voltados para a Baía Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
— Há lendas que dizem respeito a esta vocação romântica da ilha. Em frente à Pedra dos Namorados , na Praia José Bonifácio, os enamorados têm que ficar de costas e jogar três pedrinhas em direção à pedra. Se pelo menos uma delas ficar lá em cima, é porque o amor é correspondido — conta José Lavrador, que administra um dos principais centros culturais locais, a Casa de Artes Paquetá. — Acreditamos na revitalização da ilha com um turismo de base comunitária, respeitando suas particularidades. Paquetá é uma Apac (Área de Preservação do Ambiente Cultural) com concentração enorme de bens tombados e arrolados em projetos de preservação.




A Casa de Artes, uma chácara (em Paquetá, são muitas) de frente para a Praia de São Roque que há alguns anos foi a residência de Zé Lavrador — e, há muitos, da escritora e musicista Ormy Toledo, que reunia ali músicos como Lamartine Babo, Radamés Gnatalli, Silvio Caldas e Orestes Barbosa —, hoje abriga acervo documental e exposições sobre a história da ilha e uma série de eventos, de formação musical para crianças a rodas de choro (todo primeiro domingo de cada mês é dia).
Este domingo, é lá que acontece O Samba de Paquetá, uma roda com Cristina Buarque, Pedro Amorim, Magno Julio e Oscar Bolão que vai homenagear João Nogueira e Paulinho da Viola. A roda acontece no jardim, com mesinhas espalhadas para sentar e saborear, junto com o som, o famoso pastel de “jiló etc.” (R$ 24, quatro unidades), que, além do vegetal, leva bacon e gorgonzola.

De hoje a domingo, a Casa de Artes será um dos pontos de encontro da 3ª Festa Literária de Paquetá — Flipa 2019, que reúne lançamentos de livros, palestras, oficinas e rodas de conversa com mais de 50 autores em espaços culturais, clubes, restaurantes e até casas de moradores. A abertura será às 10h, na Casa José Bonifácio, uma espécie de QG da festa.

— É um evento comunitário. Cada espaço tem autonomia de decidir sua programação — diz Marcelo Ficher, um dos organizadores.

Este ano, a Flipa privilegiou a literatura infantojuvenil. Uma das autoras é Duda Macieira, de 8 anos, que contará histórias baseadas em seu segundo livro. Outros que estarão presentes são Anielle Franco, irmã de Marielle, que lança o livro “Cartas para Marielle”, e Raphael Vidal, com “Algum lugar para cair e poder fechar os olhos de vez”.

O fim de semana tem outra boa atração: hoje, no Paquetá Iate Clube, o grupo Jequitibá do Samba celebra seus dez anos com uma roda com Anderson Balbueno (percurssão), Bidu Campeche (percussão), Iuri Bitar (violão), Julião Pinheiro (violão de 7 cordas), Ronaldo Gonçalves (cavaquinho) e Pedro Amorim (cavaquinho).
No Solar dos Limoeiros, Eveli Ficher oferece um café da manhã orgânico para hóspedes e não hóspedes Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
No Solar dos Limoeiros, Eveli Ficher oferece um café da manhã orgânico para hóspedes e não hóspedes Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
Se o fim de semana é recheado de eventos, uma pedida é se demorar na ilha... e até ficar por lá. Para comer, do café da manhã ao jantar, passando pelo docinho pós-almoço e o lanche da tarde, há boas opções: o café da manhã pode ser orgânico, como o que a dona do bed & breakfast Solar dos Limoeiros, Eveli Ficher, prepara aos sábados para não hóspedes (com agendamento) com sucos, geleias, pães e bolos artesanais. 
— Só os laticínios não são orgânicos — informa Eveli.

Para almoçar, a charmosa Casinha Amarela, do lado da Casa de Artes, oferece ao visitante uma sensação de se estar “em casa”. A inspiração das irmãs Andréa e Márcia Kevorkian, donas e cozinheiras do espaço, são as receitas que aprenderam em casa com a mãe e as avós, uma espanhola, outra italiana...

— Crescemos vendo a mesa sempre cheia e trazemos estas memórias para cá. É uma comida com sabor da nossa infância — diz Márcia, que com Andréa fez da casa que foi da família o bistrô, há quatro anos. Há dois anos, o espaço também virou um “cama e café”. — Mas o que a gente curte é fazer comida.
Marcia e Andréa Kevorkian comandam a cozinha da casa Amarela, com pratos que lembram a sua infância Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
Marcia e Andréa Kevorkian comandam a cozinha da casa Amarela, com pratos que lembram a sua infância Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
O cardápio muda toda semana, e são três opções de pratos por dia. Entre as opções do fim de semana, costela de boi assada com molho de alho e ervas (R$ 38, amanhã) e camarão com molho de tamarindo e coco (R$ 39, domingo).

Para a sobremesa, vale visitar a confeitaria Bodega Paquetá, uma lojinha discreta na Rua Pinheiro Freire, com chocolates e tortas produzidos pelo casal Elias Júnior e Marcela Matos. Prove o éclair de chocolate (R$ 7,50), uma receita que Elias guarda a sete chaves. No lanche da tarde, enquanto você está circulando pela ilha, dê uma paradinha para comer um pastel enorme numa mesinha em frente à praia. A boa é fazer o pit-stop no balcão externo ao Hotel do Lido, na Praia José Bonifácio (também chamada Praia da Guarda ou dos Pedalinhos) e experimentar o de lagostim ao queijo ou o de camarão ao curry (R$ 10).




À noite, se horário da barca da volta for mais tarde, a opção pode ser curtir o som da Casa de Noca, um “cama e café” que, há poucas semanas, abriu seu jardim para happy hours às sextas, a partir das 17h. Logo mais, tem o baile Bossa Nova é pra Dançar, com o grupo de Nana Kovak e Edson Barbosa.
 
Bem perto dali, uma dica de jantar às sextas —incluso na diária de quem é hóspede — é a charmosa Hospedaria Santa Bárbara, em parceria com o projeto Gastrolar, do casal Vander e Valéria Borges, que oferecem uma sucessão de comidas típicas de um Izakaya, bar japonês (o jantar custa R$ 35). Tudo servido de forma informal.

A Hospedaria Santa Bárbara é uma boa opção para quem quer prolongar a estada em Paquetá Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

A Hospedaria Santa Bárbara é uma boa opção para quem quer prolongar a estada em Paquetá Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

A hospedaria já inspira, por si só, o alongamento da estada, com os donos, o casal Ricardo Cintra e Leandro Ribas, garantindo a boa conversa e o clima caseiro.

—Fizemos do cama e café um negócio intimista, um lugar afetuoso como o bairro. Aqui [ele é de São Paulo] , conheci o oi, o tchau, o boa tarde, o boa noite. Isso apaixona. Paquetá foi o lugar em que mais me senti abraçado na vida. Aqui, tem a vida — conclui Ricardo Cintra.

 

 

 Um rolê por Paquetá



1. Estação das Barcas. As barcas e os catamarãs fazem a travessia entre a Praça Quinze e Paquetá em cerca de uma hora. Dias úteis: primeira partida do Rio: 5h30; última partida de Paquetá: 23h10. Fins de semana e feriados: primeira partida do Rio: 4h30, última partida de Paquetá: 23h30. R$ 6,30.

Transporte

2. Bicicletas podem ser levadas na barca. E, junto à estação, há aluguel de bicicleta e quadriciclo e pontos de ecotáxi e charrete elétrica .
- No pedal. Bicicletas: R$ 5 (hora) e R$ 25 (diária). Quadriciclos: R$ 20 (hora) e R$ 75 (diária).
- Ecotáxi (triciclo). R$ 5 (por pessoa, ponto a ponto), R$ 50 (passeio de 40 minutos).
-Carrinho elétrico. Substitutos das charretes, funcionam das 8 às 17h. R$ 5 (mínimo de 3 pessoas, ponto a ponto) , R$ 50 (passeio de 40 minutos), R$ 100 (passeio de 1 hora).
3. Pedalinhos, canoas e caiaques. Praia José Bonifácio (Praia da Guarda). R$ 20 (40 minutos, duas pessoas).

Atrações

4. Praça de São Roque. Onde ficam o Coreto Renato Antunes e a Capela de São Roque.
5. Casa de Artes Paquetá. Praça de São Roque 31 — 3397-0517. Samba de Paquetá: roda com Cristina Buarque, Pedro Amorim, Magno Julio e Oscar Bolão, homenageando João Nogueira e Paulinho da Viola. Dom, às 13h. R$ 15. Livre.
6. Pedra da Moreninha
7. Casa José Bonifácio. Praia José Bonifácio. Sede da aberturada 3ª Festa Literária de Paquetá . Evento: Sex a dom, horários e locais diversos (programação completa na página do evento no Facebook, flipa01).
8. Paquetá Iate Clube. Praia das Gaivotas— 3397-0113. Jequitibá do Samba: Sex, às 14h. R$ 10 (só dinheiro). Livre.
9. Cais e Relógio da Mesbla. Praia dos Tamoios. A réplica do relógio da Mesbla no farol da Marinha é bom ponto para selfies.
10. Parque Darke de Mattos . Praia José Bonifácio 255. Diariamente, das 8h às 17h. Grátis.Livre. Proibidos bicicleta, bola, cachorro e churrasco.
11. Orquidário Bistrô. Praia Das Gaivotas 670. Samba do Domênico: Sex, às 11h. R$ 15 (entrada) e R$ 30 (feijoada).

Onde comer

12. Casinha Amarela. Praça de São Roque 25 — 2570-1455. Sáb e dom, das 12h30 às 18h.
13. Zeca's Restaurante. Praça Bom Jesus 12 — 3397-0322. Seg a qui, das 11h às 17h. Sex e sáb, das 11h às 23h. Dom, das 11h às 21h30. Petiscos , pizzas (sex a dom, a partir das 18h) e bufê a quilo: seg a sex, R$ 4,49 ( 100g); sáb, dom e feriados, R$ 5,49 (100g). No fim de semana, há música ao vivo (voz e violão) à noite.
14. Confeitaria Bodega Paquetá. Rua Pinheiro Freire 59, loja C — 99792-1590. Ter a dom, das 13h às 18h. Doces e chocolates.
15. Pastel do Hotel e Restaurante Lido. Praia José Bonifácio 59— 3397-0280. Sáb e dom, das 9h às 21h. O balcão é externo, de frente para a praia. Os pastéis variam entre R$ 5 a R$ 10 . Entre estes últimos, estão o de lagostim ao queijo e o de camarão ao curry.

Onde se hospedar

16. Casa de Noca. Rua Pinheiro Freire, 20 — 99996-6410. Bistrô: sex a dom, das 11h às 19h; sáb, das 11 às 21h. Às sextas, happy hour das 17h às 23h (R$ 15). Cama e café: diária para casal de R$ 230 (com banheiro compartilhado) a R$ 280 (suíte). Com café da manhã e piscina.
17. Hospedaria Santa Bárbara. Rua Coelho Rodrigues 82 — 3397-2305. Diária para casal (com café): R$ 240. Às sextas, jantar incluso no valor da diária. Para não hóspedes, o jantar é R$ 35. No domingo, o horário de check-out é liberado.
18. Solar dos Limoeiros. Rua Coelho Rodrigues, 108. Diária de casal: R$ 280 (suíte com café da manhã orgânico e piscina). Aos sábados, café da manhã para não hóspedes por R$ 40 (reservas até a véspera).



November 10, 2019

Como a expansão de uma facção de traficantes evangélicos faz explodir ataques a outras religiões em favelas do Rio

O traficante Noventinha posta louvores a Deus e ameaças a outros criminosos na mesma conta na internet. Foto: Reprodução


POR RAFAEL SOARES

Aos 23 anos, Wendel Rodrigues Oliveira é um homem de fé. Em 27 de junho, postou no Instagram uma foto da Bíblia em seu colo, com a legenda: “Indo à casa do pai agradecer por cada dia de vida e pela paz que ele vem concedendo à comunidade do Parque ( Paulista ) e pelo seu povo”. No mês passado, publicou por seis dias, bem cedo pela manhã, a frase “Bom dia com Jesus, povão”, com duas mãos espalmadas em oração. Mas ele é também um homem do crime, e o relógio de ouro na foto com o livro sagrado é só um indicativo de seu poder. Na comunidade que cita em suas preces, o Parque Paulista, um bairro em que moram mais de 30 mil pessoas de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, o jovem é conhecido como Noventinha e comanda o tráfico de drogas. Foragido da polícia, tem mandados de prisão em seu nome por isso e por assassinato.
Em meio às postagens de louvor a Deus, há ameaças aos rivais. “Nunca duvide do poder de Deus. Se Ele transformou água em vinho, pode transformar sua vida em bênçãos e vitórias”, publicou o evangélico em 4 de setembro. Em duas oportunidades, compartilhou vídeos de clipes de cantoras gospel. No dia seguinte, o tom era outro: “Alemão nunca mais coloca o pé aqui e se tentar colocar é bala neles firme. Depois, eles que se preparem que já sabem bem a resposta. Tamo junto até a última bala do pente”, escreveu o traficante, em resposta a uma homenagem feita por um comparsa no dia de seu aniversário, 5 de setembro. Duas semanas depois, postou outro recado aos inimigos: “Se tentar contra a tropa do Parque Paulista, vai entrar no metal”. Noventinha também faz, eventualmente, propaganda de sua mercadoria, com fotos de drogas prontas para a venda — “maconha hidropônica, qualquer violação, reclamar na boca”, diz a embalagem —, roupas camufladas e armas.
A bandeira de Israel foi içada em Vigário Geral, Rio de Janeiro por causa da fixação do líder da facção com o Estado judeu, comum em algumas vertentes neopentecostais. Foto: Reprodução
A bandeira de Israel foi içada em Vigário Geral, Rio de Janeiro por causa da fixação do líder da facção com o Estado judeu, comum em algumas vertentes neopentecostais. Foto: Reprodução
Apesar de procurado pela polícia, o criminoso frequenta religiosamente igrejas evangélicas da comunidade ao menos uma vez por semana e não deixa de contribuir com o dízimo. Esse fenômeno paradoxal dos traficantes evangélicos não é novo no Rio, mas vem se alastrando rapidamente nos últimos dois anos, em razão da ascendência de uma das principais facções criminosas do estado. Desde 2017, dobrou o número de favelas que o grupo de Noventinha domina no Rio, na esteira da derrocada de uma das facções rivais. Antes concentrada na Zona Norte do Rio, a facção se espraiou por outras regiões e chegou à Baixada Fluminense. Um estudo da Secretaria de Segurança, do ano passado, estima que mais de 300 mil pessoas vivam em áreas sob o jugo do grupo, quase o dobro de uma década atrás.
A trajetória de Noventinha ilustra bem essa expansão. Ele saiu de Parada de Lucas, uma favela a cerca de 40 quilômetros de Parque Paulista, onde era mais um “soldado na hierarquia do tráfico”. Escolhido para invadir a comunidade em Duque de Caxias, até hoje envia ao quartel-general da facção, em Vigário Geral, na Zona Norte do Rio, o lucro da venda de drogas. “Sigo em silêncio e concluindo os objetivos que os BTB ( sigla para Bonde dos Taca Bala, nome usado para se referir à facção ) têm na Baixada”, afirma em uma postagem nas redes sociais.
A bandeira também foi pintada num muro. Foto: Reprodução
A bandeira também foi pintada num muro. Foto: Reprodução
O crescimento desses “narcopentecostais” acrescentou uma chaga a mais nas favelas que essa facção domina. Além do tráfico de drogas e da violência cotidiana, a devoção torta aos Evangelhos se reflete na intolerância em relação às religiões de matriz africana — o que, vale sempre ressaltar, não encontra respaldo entre os verdadeiros evangélicos, que pregam a convivência pacífica e a tolerância.
Embora sempre tenha havido episódios pontuais não só nas comunidades, mas também no asfalto, de agressões a seguidores de religiões de matriz africana, elas se tornaram a regra nessas áreas. Impulsionados por uma visão deturpada dos Evangelhos, esses criminosos perseguem e oprimem umbandistas e candomblecistas, entre outros — muito presentes na Baixada, aonde a facção chegou com força nos últimos tempos.
O baile funk na favela tomada por ele agora se chama Baile de Israel. Foto: Reprodução
O baile funk na favela tomada por ele agora se chama Baile de Israel. Foto: Reprodução
Um episódio do dia 11 de julho, no Parque Paulista, ilustra bem o terror que se instalou. Passava das 11 horas quando batidas no portão assustaram a mãe de santo de um terreiro de candomblé que funcionava ali havia mais de 50 anos — o mais antigo da região. Assim que a senhora de 86 anos abriu a porta, um homem apontou uma pistola para seu rosto e ordenou que destruísse todas as imagens e objetos do terreiro: “Não pode mais macumba aqui. Ordem do patrão”, disse.
­ Foto: Reprodução
­ Foto: Reprodução
Os homens nem sequer encostaram nos objetos. Sem conseguir mover as esculturas mais pesadas, a mulher precisou da ajuda de dois filhos de santo que estavam no local para levantar e arremessar no chão cerca de 20 imagens de orixás e esculturas de barro e ferro. Em seguida, os bandidos entraram nos vestiários, onde os seguidores se trocavam antes das cerimônias, e mandaram que todas as roupas brancas fossem jogadas no meio da rua, em frente ao terreiro. A pilha foi incendiada. “E agora? Seu orixá vai te proteger?”, zombou um dos invasores.
Assustados com a fogueira, vizinhos ligaram para a Polícia Militar. Um carro da polícia chegou uma hora depois, quando os homens já tinham partido. O que sobrou do terreiro foi levado em um caminhão. Antes do final da tarde, a mãe de santo partiu de lá, para não mais voltar. “Ela morou naquela casa por 50 anos. Está traumatizada até hoje, não consegue falar sobre o que aconteceu. Agora, estamos arrumando um outro espaço para retomar a rotina do terreiro”, contou uma filha de santo.
“Apenas neste ano, 176 terreiros foram fechados no Rio após ataques ou ameaças de traficantes”
­
­
A invasão é um dos episódios mais recentes de uma escalada de casos de ataques de traficantes a templos de religiões de matriz africana no Rio. Só em 2019, até setembro, a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, organização que reúne membros de várias religiões e representantes do Tribunal de Justiça e do Ministério Público, contabilizou 176 terreiros fechados após ataques ou ameaças de traficantes — mais da metade dos casos na Baixada Fluminense. No ano passado, a comissão não recebeu nem 100 denúncias.
As investigações da Polícia Civil revelam que o aumento dos casos está diretamente ligado a um plano expansionista da facção. Quem está por trás das ordens para os ataques são os traficantes que se dizem evangélicos e se apresentam nas redes sociais como o “Exército do Deus Vivo”, como os pastores evangélicos costumam se referir aos fiéis. Ao longo das últimas semanas, ÉPOCA entrevistou pais, mães e filhos de santo, policiais civis e militares, promotores, defensores públicos, pastores e pesquisadores e analisou processos judiciais e inquéritos em andamento para mostrar como a intolerância religiosa e o crime organizado andam cada vez mais de mãos dadas no Rio.
Antes de continuar, uma explicação se faz necessária. Embora professem a fé evangélica, esses bandidos não têm respaldo das igrejas para suas atividades criminosas e tampouco para a perseguição a outras religiões. O bispo Robson Rodovalho, líder da igreja Sara Nossa Terra e presidente da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil, afirmou: “Pessoas com esse comportamento são bandidos. Eles combatem terreiros com vandalismo e ameaças. Essas são as armas que eles têm contra locais que consideram demoníacos. Mas isso está errado, porque o Brasil é um país laico e de liberdade religiosa para todas as fés. É possível dizer que não concordo com religiões diferentes da minha, mas jamais terei o direito de destruir símbolos de outras denominações”. Para ele, que considera inaceitáveis os ataques aos centros, os traficantes evangélicos podem estar tentando se “legitimar com suas consciências”.
“Pastores e líderes evangélicos afirmam que esses criminosos não podem ser considerados seguidores da religião”
­
­
Em Vigário Geral, onde fica o comando do grupo criminoso, quem manda é Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, outro devoto traficante. O discurso religioso se confunde com práticas bárbaras. Seu bando cria porcos dentro da favela de Vigário Geral para desaparecer com cadáveres de vítimas da quadrilha. Nos últimos dois anos, pelo menos nove vítimas — moradores de favelas dominadas por grupos rivais ou pessoas que desobedeceram a alguma regra interna da comunidade — foram jogadas aos animais pelos criminosos. Sua quadrilha também é acusada de pagar R$ 300 mil por mês à polícia para ter informações antecipadas sobre operações.
Lá, tremula uma bandeira de Israel, possível de avistar da Avenida Brasil, a principal via do Rio. Uma teoria prevalente em algumas correntes evangélicas, particularmente as neopentecostais, prega que a criação do Estado de Israel foi o prenúncio da volta de Jesus Cristo, que se daria após um período de grande turbulência e da conversão dos judeus ao cristianismo.
Uma mãe de santo teve de deixar às pressas seu terreiro, para não mais voltar, após ameaças dos criminosos. Na foto, um local de culto destruído a mando dos bandidos. Foto: Reprodução
Uma mãe de santo teve de deixar às pressas seu terreiro, para não mais voltar, após ameaças dos criminosos. Na foto, um local de culto destruído a mando dos bandidos. Foto: Reprodução
O símbolo do Estado judeu é onipresente. Dentro da favela, a bandeira aparece num muro. Uma foto, ostentada nas redes sociais, mostra 14 fuzis enfileirados pelos criminosos com a imagem ao fundo. A estrela de Davi também enfeita a camisa de um time de futebol de Vigário Geral, financiado pelo traficante. No Parque Paulista, o baile funk realizado todo sábado passou a ser chamado de Baile de Israel. A festa — anunciada na internet com bandeirinhas da nação judaica — começa com músicas gospel, tocadas ainda no início da noite. Depois, a vodca é liberada por toda a madrugada.
A obsessão de Peixão pela fé judaica já foi testemunhada durante uma operação da Polícia Civil em um de seus domínios, Parada de Lucas. Num esconderijo subterrâneo usado pelo traficante para se esconder durante incursões policiais, agentes da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC) encontraram — além de munição para uma metralhadora antiaérea e coletes balísticos — um exemplar de luxo da Torá , o livro sagrado do judaísmo. A obra estava acondicionada em um receptáculo de metal, parecido com um baú.
Um dos desenhos mais recentes feitos nos muros de Vigário Geral, grafitados com salmos e frases religiosas, traz a inscrição “12 anos, até aqui nos ajudou o Senhor”, em referência ao tempo que o grupo domina a comunidade. Sempre que uma nova favela é controlada pela facção, a primeira providência é escrever a frase “Jesus é o dono do lugar”. Na vizinha Cidade Alta, tomada há três anos, logo circulou um aviso, colocado nas portas dos moradores da comunidade: “Não sujar, esculachar nem ficar fazendo essas macumbadas, servindo a deuses estranhos, pois vocês nunca poderão esquecer que a gente só colhe do fruto que planta”. Junto, veio uma explicação “divina”: “Só estamos na luta porque foi ordenação do senhor Jesus que a comunidade da Cidade Alta se liberte desse mal e viva dias melhores”, diz a carta. De lá para cá, barracões foram depredados e mães de santo foram expulsas da favela. Atualmente, não há mais terreiros de candomblé na região.
­ Foto: Leo Martins / Agência O Globo
­ Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Até meados dos anos 2000, o Parque Paulista era um bairro predominantemente rural. O acesso ao local se dava somente por uma estrada de terra que saía da Rodovia Rio-Magé. Devido ao isolamento, à tranquilidade e ao contato com a natureza, a região era um ponto muito procurado por candomblecistas para cultuar os orixás. Segundo moradores, desde a década de 1970, seis terreiros foram abertos ali numa área de poucos quarteirões. Em finais de semana de festas importantes, milhares de filhos de santo iam ao local. Era comum ver pessoas com roupas brancas dos pés à cabeça circulando por ali.
A partir de 2010, a paisagem começou a se modificar. Dois condomínios do programa Minha Casa Minha Vida foram inaugurados no bairro para abrigar moradores de áreas de Duque de Caxias ameaçadas de deslizamento. Junto, chegaram também comércios, serviços e até o asfalto: em 2014, as obras da principal via do bairro foram concluídas.
A favela de Vigário Geral, quartel-general da facção que persegue religiões africanas. Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo
A favela de Vigário Geral, quartel-general da facção que persegue religiões africanas. Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo
O progresso atraiu também o tráfico de drogas. Moradores mais antigos contam que homens armados com pistolas passaram a circular pelas ruas vendendo pequenas quantidades de droga. A opressão do crime chegou, mas a vida dos religiosos de matriz africana seguiu imperturbada. “Nós conhecíamos as famílias dos traficantes, muitas deles cresceram ali, nunca havia tido caso nenhum, nem sequer de xingamento”, contou um religioso que mora na região.
A situação mudou em 2016, quando o local, até então sob a influência da maior facção do estado, foi tomada pelo outro grupo criminoso. A tomada das bocas de fumo foi seguida pela expansão do domínio do território e pela imposição das novas leis. Mas foi neste ano que a intolerância se acentuou. O primeiro aviso do tráfico aos pais e filhos de santo chegou de bicicleta, logo no início de 2019. Um traficante, desarmado, passou pelos barracões comunicando as determinações da “nova gestão”. A partir daquele momento, o uso de roupas brancas — vestimenta dos candomblecistas para cultuar os orixás — pelas ruas da favela estava proibido. Se quisessem continuar a usar a indumentária, os frequentadores teriam de se trocar após a entrada nos barracões. O toque dos atabaques só seria tolerado até as 20 horas, mesmo nos finais de semana. Os avisos foram somente o prelúdio do que estava por vir.
“A relação bizarra entre o tráfico e a religião evangélica começou com a conversão de um traficante no início dos anos 2000”
­
­
Em maio, três adolescentes armados com pistolas bateram num dos terreiros na região em meio a uma festa. A casa estava cheia. “Ninguém quer mais macumba aqui. Tem uma semana para acabar com isso tudo!”, disse um dos jovens, segundo uma testemunha. Os três saíram dali dando tiros para o alto. No mesmo dia, o barracão fechou as portas. O pai de santo, que morava numa casa anexa, seguiu vivendo no local, mas não há mais nenhuma atividade religiosa no lugar. “Orientei os membros a deixarem de vir para consultas ou jogo de búzios, não havia mais condição. Tirei todos os objetos sagrados e roupas de lá. Passei a frequentar outro terreiro, num lugar seguro, como um refugiado”, contou o sacerdote.
Atualmente, todos os seis terreiros do Parque Paulista estão fechados por determinação do tráfico. Quinze igrejas evangélicas funcionam no bairro — 11 delas são da Assembleia de Deus.
Fernandinho Guarabu
Fernandinho Guarabu
A relação bizarra entre o tráfico e a religião evangélica no Rio começou no início dos anos 2000, com a conversão de Fernando Gomes Freitas, o Fernandinho Guarabu, influenciado por um pastor local. Então chefe do tráfico em uma favela na Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio, tornou-se evangélico fervoroso, tatuou “Jesus Cristo” no braço e passou a dedicar um dia por semana ao jejum e à oração. Durante quase 20 anos, foi o maior chefe da facção fora da cadeia, até ser morto em uma operação policial, em junho deste ano. Tanto Peixão quanto Noventinha, e centenas de outros, são discípulos diretos de Guarabu.
Pastores e líderes evangélicos ouvidos por ÉPOCA são unânimes em apontar a incompatibilidade entre a fé evangélica e o tráfico de drogas. Neil Barreto, da Igreja Batista Betânia, afirmou que esses criminosos não podem ser considerados religiosos: “Eles ouvem a palavra de Jesus, simpatizam com ela, mas não a praticam. Ela é só um discurso, não uma prática. Esse uso da religião, como símbolo de destruição, é perverso”.
A dinâmica de crescimento desse exército da fé e do pó está condicionada a causas muito terrenas, como a luta com outras facções pelo território das favelas do Rio e um combate eficiente das forças de segurança ao narcoterrorismo, seja ele laico ou com notas religiosas. Enquanto isso, às vítimas, resta rezar, seja para que Deus for.
 

November 8, 2019

Marco Feliciano, o ‘neoqueridinho’ do Planalto

Feliciano apresentou Bolsonaro a lideranças evangélicas que ele antes não conhecia. Em troca, ganhou prioridade na agenda presidencial. Foto: Andre Coelho / Agência O Globo

por Thiago Prado


Sentado no gabinete 254 do anexo IV da Câmara dos Deputados, o deputado e vice-líder do governo na Câmara, Marco Feliciano (Podemos-SP), tem prazer em se lembrar das vezes em que mostrou ter influência sobre o presidente Jair Bolsonaro. Ele risca em um bloco em cima de sua mesa de trabalho palavras soltas sobre a última delas — uma reunião ocorrida há 20 dias entre a Frente Parlamentar Evangélica e integrantes do primeiro escalão. Perto do fim do encontro, um irritado Feliciano pediu a palavra para reclamar por não ter sido atendido em duas demandas pelo general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo, responsável pela articulação política com o Congresso Nacional.
“O senhor não me responde e ainda por cima me bloqueou no WhatsApp”, cobrou o parlamentar. “Atendi a mais de 200 deputados desde que assumi”, retrucou Ramos, para em seguida ouvir a tréplica: “Receber não é atender”. O clima só se desanuviou depois de um café da manhã entre Feliciano e o presidente Bolsonaro no dia 2 de outubro, uma quarta-feira. Entre mordidas em pães e goles de café e suco, o estresse foi resolvido no Planalto. Naquele mesmo dia, Ramos desbloqueou o deputado no aplicativo de mensagens e prometeu-lhe cumprir as tais duas demandas: o ex-deputado Pastor Takayama e um ex-auxiliar do chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, demitido da pasta em março, serão alocados em breve em postos da administração federal. “Não sou queridinho, apenas um amigo”, disse Feliciano, sorrindo, depois do desfecho do episódio.
Aos 46 anos, o deputado eleito para o terceiro mandato por São Paulo tem prestígio junto a Bolsonaro. O futuro da amizade ainda é incerto em razão de acontecimentos pregressos: em menos de um ano, o presidente já rifou de seu núcleo duro aliados de primeira ordem, como o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência Gustavo Bebianno e o ex-senador Magno Malta. Mas, enquanto o fim não se aproxima, Feliciano cumpre seu papel. Além de cuidar da satisfação de aliados com a distribuição de cargos, é um dos responsáveis por azeitar um jogo que hoje é de “ganha-ganha” entre o presidente e o segmento evangélico.
Enquanto Bolsonaro transita entre as principais lideranças de um portentoso grupo religioso que já engloba 30% da população, a agenda das igrejas em questões envolvendo a Receita Federal avança a passos largos em Brasília. O Fisco está revendo autuações milionárias feitas no passado contra templos que tiveram problemas com prestações de contas. Há figuras, como o missionário R.R. Soares, dono da Igreja Internacional da Graça de Deus, com débitos na casa dos R$ 100 milhões.
Feliciano e Bolsonaro viajam juntos no avião presidencial e discutem os rumos da política. A aproximação ocorreu no início de 2018. Foto: Carolina Antunes / PR
Feliciano e Bolsonaro viajam juntos no avião presidencial e discutem os rumos da política. A aproximação ocorreu no início de 2018. Foto: Carolina Antunes / PR
Feliciano se ajeita na cadeira de seu gabinete enquanto enumera, orgulhoso, exemplos concretos de seu poder. Sua camisa social não exibe o monograma com suas iniciais, como é usual, mas a grafia extensa de seu sobrenome. O farto topete está milimetricamente arrumado — afinal, qualquer instante pode ser propício para tirar uma selfie para as redes sociais. Ele diz ter levado Bolsonaro a vários eventos para ser visto por milhares de fiéis. Entre eles, o aniversário de 108 anos da Assembleia de Deus em Belém, no Pará, o Congresso Internacional das Missões dos Gideões Missionários, em Camboriú, Santa Catarina, e a Marcha para Jesus, em São Paulo. “Só depois que conversei com o Marcos Pereira, presidente do PRB, é que Bolsonaro esteve no Templo de Salomão com Edir Macedo ( líder da Igreja Universal do Reino de Deus ). Já tenho pedidos de dez igrejas para novos encontros. E vou levá-lo em outubro à Expo Cristã”, afirmou o deputado, em referência ao maior evento de negócios cristãos do Brasil. A relação vai de vento em popa — a ponto de o deputado ter sido convidado a acompanhar a comitiva presidencial na viagem ao Oriente Médio e à China neste mês.
“‘Sim, subi ao palanque da Dilma Rousseff em 2010. A política é dinâmica, e eu era um ignorante político. Ainda bem que o professor Olavo de Carvalho me abriu os olhos’, disse o deputado, fã dos cursos on-line do ideólogo do bolsonarismo”
­
­
Entre interlocutores mais próximos, Bolsonaro admite que Feliciano foi mesmo importante ao colocá-lo diante de lideranças evangélicas que antes não eram de seu convívio. Até o início do ano passado, o único chefão pentecostal que realmente se relacionava com o então candidato a presidente era o pastor Silas Malafaia, fundador da igreja Vitória em Cristo. Durante anos, a primeira-dama Michelle Bolsonaro foi seguidora de Malafaia, mas acabou migrando para a Igreja Batista Atitude, na Barra da Tijuca, após um entrevero entre o pastor e o marido. Em 2016, Malafaia ficou incomodado porque Bolsonaro não o defendeu publicamente depois de uma condução coercitiva que sofreu da Polícia Federal para apurar se estava lavando dinheiro. As pazes coincidiram com o crescimento da expectativa de poder que passou a rondar Bolsonaro no início de 2018.
A conversão de Feliciano ao bolsonarismo também é recente. Assim como os argumentos malabaristas de Malafaia — que já esteve ao lado de Lula, Marina Silva e Aécio Neves —, o vice-líder do governo também tem discurso pronto para o fato de ter apoiado o PT no passado. “Sim, subi ao palanque da Dilma Rousseff em 2010. A política é dinâmica, e eu era um ignorante político. Ainda bem que o professor Olavo de Carvalho me abriu os olhos”, disse o deputado, fã dos cursos on-line do ideólogo do bolsonarismo. “Em três meses de aulas, me desamarrei da esquerda”, comemorou. Feliciano, ressalte-se, só entrou de cabeça na campanha de Bolsonaro após o atentado a faca em Juiz de Fora. Seu partido tinha um candidato ao Planalto, o senador Alvaro Dias (Podemos-PR), que jamais engrenou na disputa.
Em 2010, Feliciano apoiou Dilma
Em 2010, Feliciano apoiou Dilma
Teólogo de formação, o deputado também se arrisca, vez ou outra, a teorizar sobre sociologia ao analisar a guinada conservadora do eleitorado nos últimos anos. O senso comum da ciência política brasileira coloca nas manifestações de junho de 2013 a gênese da mudança ideológica no país, quando movimentos de direita sentiram-se mais à vontade para quebrar o monopólio da esquerda nos protestos. “Discordo”, ponderou o deputado, riscando em um papel as palavras “março de 2013” e “Comissão de Direitos Humanos”.
Foi como presidente do colegiado que Feliciano saiu do anonimato e apareceu para o Brasil. Ali, fez barulho ao deixar tramitar um projeto de lei que autorizava psicólogos a “tratar” a homossexualidade, o que se convencionou chamar de “cura gay”. Foi apoiado pelo então deputado Jair Bolsonaro, na época filiado ao PP e suplente da comissão. “Como capitão do Exército, sou um soldado do Feliciano”, disse Bolsonaro em março daquele ano. “Ali nasceu o conservadorismo brasileiro”, afirmou Feliciano, atribuindo a si papel de destaque no movimento. “A igreja acordou naquele ano. Depois, em junho, um evento evangélico colocou mais de 100 mil pessoas em Brasília para defender os valores da família”, disse o deputado, sobre um ato em frente ao Congresso Nacional comandado por Malafaia.
Além da Comissão de Direitos Humanos, o PSC, comandado pelo pastor Everaldo Pereira, é outro ponto em comum entre a trajetória de Feliciano e a de Bolsonaro. Os dois foram filiados ao partido até o início do ano passado, mas acabaram migrando para o Podemos e o PSL, respectivamente. Na opinião do deputado, falta ao Brasil um partido de “direita de verdade”. “Não temos uma universidade de direita nem um pensamento organizado nesse campo. Olhe meu partido, por exemplo: o deputado João Carlos Bacelar sempre foi vermelho de carteirinha”, disse, sobre o companheiro de sigla que votou contra o impeachment de Dilma Rousseff e as reformas da Previdência e trabalhista.
“‘Mourão está paz e amor, quase convertido’, afirmou Feliciano, entre risos. ‘Quando ele entrou no Planalto, achou que era melhor que o presidente, sentiu o gostinho do poder. Mas as coisas voltaram aos eixos. O Palácio não é uma caserna’, disse”
­
­
No ímpeto por uma sigla que represente os valores que diz defender, Feliciano não se privou de analisar a possibilidade de saída de Bolsonaro do PSL. “O Brasil inteiro sabe que ele ( Bolsonaro ) está muito desconfortável. Foi um partido que cresceu às pressas para uma eleição. O PSL tem quatro facções que permanecem em guerra entre si o tempo todo. Veja a disputa em São Paulo, toda hora entre as deputadas Joice ( Hasselmann ) e Carla ( Zambelli ). Por outro lado, é muito difícil sair do PSL a esta altura”, admitiu.
Feliciano contou que o presidente jamais o autorizou a falar por ele sobre qualquer tema, mas, quando não o desautoriza, ele acaba se sentindo legitimado a se posicionar. Foi o que aconteceu no caso das críticas que elaborou contra os militares do governo, em especial o vice-presidente Hamilton Mourão. Em maio, o deputado começou a dar declarações públicas dizendo que Mourão minava a autoridade de Bolsonaro ao se posicionar contra determinadas opiniões do presidente, como a transferência da embaixada de Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Sua ofensiva, considera, teve efeito: “Agora Mourão está paz e amor, quase convertido”, afirmou, entre risos. “Quando ele entrou no Planalto achou que era melhor que o presidente, sentiu o gostinho do poder. Mas as coisas voltaram aos eixos. O Palácio não é uma caserna”, disse.
O deputado se disse responsável por levar o presidente a eventos evangélicos e ao Templo de Salomão, de Edir Macedo. Foto: Reprodução
O deputado se disse responsável por levar o presidente a eventos evangélicos e ao Templo de Salomão, de Edir Macedo. Foto: Reprodução
Somados os perfis de Facebook, Instagram e Twitter, Feliciano alcança a marca de 6 milhões de seguidores nas redes sociais, o que o torna um dos mais influentes parlamentares da bancada evangélica. Entre os mais de 90 deputados da frente, há incômodo com a maneira como ele tem demonstrado influência em um governo tão difícil de ser acessado. No último mês, por exemplo, Feliciano foi o responsável por levar jornalistas da Folha de S.Paulo para uma entrevista com Bolsonaro. Outros veículos de imprensa têm buscado a mesma ponte. “Sei que desperto ciúmes. É natural que eu consiga reverberar sozinho tendo essa mídia própria nas redes sociais”, afirmou, lembrando, contudo, que há prós e contras no fato de ser uma figura pop no Congresso. Em agosto, o jornal O Estado de S. Paulo revelou que a Câmara dos Deputados pagou R$ 157 mil por um tratamento odontológico de Feliciano. “Foi sacanagem isso comigo, fui constrangido. Sofria de bruxismo ( hábito de ranger os dentes durante o sono ) e tive de fazer um tratamento no maxilar. Teve deputado que gastou R$ 2 milhões com saúde e ninguém fala nada. O próprio tratamento do presidente Bolsonaro ficou em R$ 400 mil depois da facada”, disse.
A agenda para colocar um ministro “terrivelmente evangélico” no Supremo Tribunal Federal (STF) após as aposentadorias de Celso de Mello e Marco Aurélio Mello também está na pauta de Feliciano — que, como toda bancada evangélica, é a favor da ideia. “Precisamos colocar pessoas que tenham nosso pensamento lá. Hoje, o STF é extremamente progressista e pouco conservador. Há um desequilíbrio se observarmos nosso tamanho no país”, disse, descartando o nome do ministro da Justiça, Sergio Moro, para um dos cargos. “O nome dele teria muitas dificuldades de passar no Senado. Uma pessoa certa é o André Luiz de Almeida Mendonça, da Advocacia-Geral da União. Outro que pode surpreender é o novo procurador-geral da República, Augusto Aras”, previu, sempre com aquele ar de quem tem informações privilegiadas vindas do Planalto.

November 5, 2019

‘Joker’ Stairs Become a Bronx Tourist Draw.



By
Julia Jacobs
nytimes.com

The director Todd Phillips was looking last year for a particular grimy outdoor staircase in New York City.
He was interested in one that had appeared in the film “American Gangster,” a long set of steps that would convey the hopeless, 1980s urban feel he wanted for his new movie, “Joker.” The movie’s protagonist, Arthur Fleck, would trudge up them on his way home from work.
So a location scout, Aaron Hurvitz, 41, did his research and tracked down the “American Gangster” stairs in a South Bronx neighborhood.
But when he got there, he found the steps weren’t quite right. New York wasn’t Gotham City anymore.
“As with many stairs in the city, they’re getting a makeover,” Hurvitz said. “They’re getting repaved, they’re getting beautified. It wasn’t going to work for the aesthetic.”
So, he drove around looking at various staircases, sometimes called “step streets,” that Bronx residents use to get from higher-altitude roads and sidewalks to lower ones. The right staircase would be a little bit dramatic, but also unmistakably gritty, the kind that no one would confuse with a tourist destination.
That is how a humble staircase rising up from Shakespeare and Jerome Avenues became the city’s newest tourist destination.
Almost every day since the movie’s release in early October, dozens, sometimes hundreds, of visitors have traveled to the staircase Hurvitz found to visit and take selfies on the same steps Joaquin Phoenix’s character hikes up, and later descends in one of the movie’s memorable scenes as he celebrates his transformation into the Joker.
By Wednesday, Instagram had more than 2,000 posts associated with “#JokerStairs,” many of those photos of people prancing on the steps in Joker attire and makeup, mimicking Phoenix’s extravagant dance moves. There are so many posts that it’s getting hard to tell them apart, but fans are trying to make their shots stand out: In one Instagram video, two Jokers played table tennis on a landing.
Even on a weekday afternoon, with a constant drizzle making the 132 steps slick and a bit precarious, a steady stream of visitors took turns this week posing and playing photographer.
A young woman wearing a Joker-esque red jacket and black shorts improvised some jazzy dance moves for a video camera. She paused to empty some water from a bottle onto her head for effect, then she kicked and twirled and gyrated as the cameraman followed her.
A group of tourists from Moscow sang romantic Russian songs with guitar accompaniment partway up the stairs. (“Our friend told us this was an atmospheric place,” one musician said.)
In less than a month since the film’s release, the Bronx site has joined a list of iconic stairs from movies and television. Its company includes the “Exorcist” stairs in the Georgetown neighborhood of Washington; the Rocky Steps at the Philadelphia Museum of Art; and the “Law & Order” stairs at the State Supreme Court in Manhattan, which the show’s attorneys often climb.
To the people who live in the Highbridge neighborhood and see the steps as simply the quickest way to get up the steep hill from the 4 train stop, it has all been a little amusing, and occasionally irritating.
“Excuse me!” said a woman wearing a backpack as she pushed through a gaggle of tourists crowding the bottom of the stairs.
Habib Thiam, 48, a chef who lives on the fifth floor of an apartment building overlooking the staircase, said he remembers peering out of his bathroom window to see a film crew, and Phoenix as the Joker. Now, while he brushes his teeth, he can watch Joker wannabes and Instagram influencers in the same spot.

Frankie Rivera, who has lived there for about 30 years, watched the loose crowd of picture-takers and performers from across the street, where a deli, tax preparation service, and beauty salon were relatively isolated from the frenzy.
When Rivera ran marathons, he said, he trained by running up the seven-and-a-half-foot-wide steps, which come in groups of 12 before leveling out into a landing. “Those were my stairs — that was my exercise,” he said. “I used to go up and down, up and down, 25 times.”
The step street is one of dozens in the city, primarily in the jagged terrain of Upper Manhattan and the Bronx, that were created for pedestrian use because they were deemed too steep for cars. In theory, anyway: Rivera, who does maintenance work and lives just across the street, said about a year and a half ago, someone drove a car from top to bottom.
“I thought that was going to make the stairs famous,” Rivera said. “But nobody said nothing about it.”
There have been upsides to all the attention. A few months ago, Rivera said, the stairs had been littered with garbage. So much so that he felt that some walked around the block to avoid it. “Containers of milk, all kinds of garbage — house garbage,” he said. Now, Rivera said, he’s noticed they’ve been much cleaner.
In fact, about a block south, on Jerome Avenue, there’s another staircase largely identical to the now-famous one. It was littered with items including an orange juice carton, a Goldfish bag, a dog food can and a blue Anthora coffee cup.
(Asked about the relative cleanliness of the staircases, a spokeswoman from the city’s Department of Sanitation said that some step streets may be cleaned more often because of heavier pedestrian traffic.)
And despite some sentiments, expressed in the Instagram comments sections, that the neighborhood was being invaded by interlopers, most residents did not seem too perturbed. Walking by the scene, some chuckled, then pulled out their phones to take pictures of the tourists taking pictures.
Jhonathan Valencia and Dangelyn Vargas, two 25-year-old actors who both live nearby, stopped at the base of the steps to take in the scene of chattering tourists. They liked that travelers were flocking to the neighborhood where they grew up.
“You know how people say the Bronx is a bad area?” Valencia said. “Now people from all over the world are coming here to look at the stairs, the famous stairs!”
Vargas said it was strange to see tourists as far north as West 167th Street, which connects to the top of the staircase: “Before, they would never go past 161, which is Yankee Stadium. At 167 and Shakespeare? That’s unheard-of.”
Still, most said the stairs’ newfound fame wasn’t something they were going to let get into their heads. It was still, under all that Hollywood and Instagram hype, just a long set of stairs.
“Murder on your legs,” said Tyrell Black, a neighborhood resident who walked his children down the stairs on Tuesday afternoon, warning them to be careful not to slip.
The Bronx staircases are so formidable that when Hurvitz, the location scout, found the one that would ultimately show up in “Joker,” he only walked halfway down. He had been touring staircases all afternoon, and a person can only take so many steps in a day.
© 2019 The New York Times Company.