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August 7, 2019
Elzita teve saga de 45 anos em busca de filho alvo de sarcasmo de Bolsonaro
João Valadares
Uma saga de 45 anos que envolve pistas falsas,
visitas a quartéis, cemitérios, manicômio judicial, súplicas a
presidentes e pedidos de ajuda a organizações internacionais. Ao seu
lado, a companhia angustiante de uma mãe em busca de um filho: o
silêncio oficial.
Até a morte, aos 105 anos, há pouco mais de um mês,
Elzita Ramos de Oliveira Santa Cruz carregou como bandeira e razão de
vida a pergunta sem resposta sobre o paradeiro do filho que repetiu
enquanto tinha voz.
Morreu sem conseguir enterrar Fernando Santa Cruz,
desaparecido em fevereiro de 1974, após ser preso em um sábado de
Carnaval por órgãos de repressão da ditadura militar, numa esquina de
Copacabana, no Rio de Janeiro.
No início da semana passada, o caso voltou à tona,
quando o presidente Jair Bolsonaro (PSL) cutucou uma ferida que nunca
sarou na família. De forma irônica, disse que poderia contar
ao presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa
Cruz, filho de Fernando, como seu pai havia desaparecido nos tempos de
repressão.
Bolsonaro relatou, na contramão do que evidenciam documentos históricos, que o militante político teria sido morto por integrantes da Ação Popular, grupo de esquerda contrário ao regime militar.
Um dia depois, o presidente ainda chamou de "balela"
os documentos da Comissão Nacional da Verdade (CNV), o único e pequeno
alento que o Estado brasileiro conseguiu oferecer a Elzita na tentativa
de reconstruir minimamente as circunstâncias do assassinato de Fernando.
Pernambucana de Água Preta, interior do
estado, mãe de dez filhos, com 28 netos e 32 bisnetos, Elzita morreu sem
ter em mãos o atestado de óbito retificado no fim de julho pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, vinculada ao governo federal.
Na última quinta-feira (1º), o cartório liberou o documento para a família no qual aponta que Fernando foi vítima de “morte não natural, violenta, causada pelo estado brasileiro.”
O sofrimento de Elzita, que serviu de adubo para sua
conscientização política, começou em 1967, quando Fernando foi preso
pela primeira vez, no Recife, após ter queimado uma bandeira dos EUA
durante um protesto.
Foi levado a um juizado para menores e liberado em
uma semana, após Elzita conseguir declaração de médicos do IML
(Instituto de Medicina Legal) atestando que seu filho ainda iria
completar 18.
Três anos depois, Marcelo Santa Cruz, o seu segundo
filho, foi expulso da Faculdade de Direito do Recife. Por sua atuação
política, teve os direitos estudantis cassados e foi estudar em Lisboa,
Portugal. No Brasil, Elzita, casada com o médico sanitarista Lincoln de
Santa Cruz Oliveira, fazia contas para ajudar o filho a se manter no
exterior.
Em 1971, logo após o retorno de Marcelo ao
Brasil, sentiu o braço mais forte da repressão. Rosalina Santa Cruz, a
filha mais velha, hoje professora da PUC-SP, foi presa no Rio de Janeiro
ao lado do marido, o engenheiro agrônomo Geraldo Leite.
O episódio é retratado no livro “Onde Está
Meu Filho?”, de Chico de Assis, Cristina Tavares, Gilvandro Filho,
Glória Brandão, Jodeval Duarte e Nagib Jorge Neto. Rosalina integrava o
grupo de extrema esquerda VAR-Palmares, que participou da luta armada
contra o regime militar.
Após 55 dias sem nenhuma notícia, Elzita recebeu a
ligação de um oficial do Exército dizendo que passaria às 6h em um carro
descaracterizado para levá-la até a filha. “Vou sozinha. Estou disposta
a correr todos os riscos”, disse na ocasião ao filho Marcelo.
Pouco tempo depois, encontrou a filha cheia
de curativos e manchas roxas pelo corpo. Ela estava na sede do 1º
Exército, no Rio de Janeiro.
Diante dos agentes da repressão, perguntou a
ela se eles haviam a torturado. A filha desconversou. Por causa das
pancadas nos ouvidos, chutes e choques elétricos, teve um aborto na
prisão.
Um oficial informou a Elzita que ela estava
lá para convencê-la a colaborar. Retrucou e disse que não educou a filha
para entregar ninguém. Na saída, recusou-se a assinar um termo para
atestar que Rosalina estava bem fisicamente.
A filha só foi solta um ano depois, em 1972. E o pesadelo de Elzita que a acompanharia até a morte chegou dois anos depois.
O pesadelo
Militante da Ação Popular Marxista-Leninista,
Fernando foi visto pela última vez por seus familiares no 23 de
fevereiro de 1974. Desapareceu junto com o amigo de infância Eduardo
Collier Filho.
A partir daí, teve início a busca que iria
durar a vida inteira. Sem derramar lágrimas públicas, desafiou generais,
questionou torturadores e escreveu cartas para autoridades.
Fazia peregrinações no Congresso para
entregar pessoalmente cartas a deputados. No mercado, no açougue e nas
filas de banco, falava abertamente que a ditadura militar havia sumido
com seu filho.
A Armando Falcão,
então ministro da Justiça de Ernesto Geisel (1974-1979), rebateu a
informação recebida de que Fernando estava na clandestinidade.
“Que clandestinidade seria esta, que transformaria um
filho respeitoso, carinhoso e digno em um ser cruel e desumano, que
desprezaria a dor de sua velha mãe, a aflição de sua jovem esposa e o
carinho do seu filho muito amado?”, questionou.
Antes, por intermédio de dom Paulo Evaristo Arns,
havia estado pessoalmente, junto com mais 12 famílias de desaparecidos,
com então ministro-chefe do Gabinete Civil Golbery do Couto e Silva.
Quando começou a falar do seu filho, foi
interrompida de imediato. Golbery afirmou que, sobre aquele caso, tinha
mais informações. A resposta que, num primeiro momento deu ânimo e
esperança, nunca veio.
Em outubro de 1974, enviou cartas
a Ernesto Geisel e à primeira-dama Lucy Geisel. "Por que, senhor
presidente, se nega em um país democrata o direito de defesa, o respeito
à vida de uma pessoa? Por quê?", escreveu.
Foi recebida no terraço da casa do conhecido general do Exército Antônio Bandeira, que comandou as tropas empregadas na Guerrilha do Araguaia. Voltou sem resposta. Escutou apenas que ele não poderia fazer nada.
Em 2012, no livro escrito pelo jornalista
Marcelo Netto “Memórias de uma Guerra Suja”, o ex-delegado Cláudio
Guerra disse que os corpos de Fernando, Collier e outros dez
desaparecidos foram incinerados em fornos numa usina de açúcar de Campos
de Goytacazes (RJ).
Para familiares, Elzita reagiu como ainda quem
guardava esperança de enterrar o filho. “Vocês vão acreditar na palavra
de um torturador?”, disse.
Por meio do então arcebispo do Recife e Olinda dom Helder Câmara,
com quem sempre se encontrava, fez chegar a Rosalynn Carter,
ex-primeira dama dos EUA, casada com Jimmy Carter, uma correspondência
em que pedia ajuda.
Marcelo Santa Cruz relembra que dom Helder
dizia para Elzita: “A senhora tome cuidado. Eu sou como fogo. As pessoas
quando chegam aqui saem todas queimadas”, num alerta sobre a repressão.
Ela respondia: “Eu já estou no inferno faz muito tempo”.
A cada pista nova, surgia uma esperança.
Meses depois do desaparecimento, chegou a informação de que Eduardo
Collier estaria na França. Logo em seguida, verificou-se que não era
verdade.
Em seguida, Elzita foi atrás de uma pista que dava conta de que Fernando estaria no Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo.
Levou fotografias, distribuiu com os
funcionários e voltou ao Recife sem encontrar o filho. Há 12 anos,
esteve no IML (Instituto Médico-Legal) do Rio de Janeiro porque ficou
sabendo que um homem muito parecido com Fernando foi enterrado como
indigente. Olhou as fotografias e viu que não era seu filho.
Perdeu as contas de quantos quartéis visitou no
Recife, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Também esteve em inúmeros
cemitérios na tentativa de achar as ossadas do filho.
Até morrer, Elzita mantinha o mesmo número do
telefone fixo, na esperança de que o filho desaparecido pudesse ligar
para casa ou que qualquer pista pudesse chegar a ela. Em um dos quartos
de sua casa, guardava fotos, documentos e roupas de Fernando.
No aniversário de 102 anos, já bastante debilitada de
saúde em razão da idade avançada, conseguiu completar, estimulada pelos
filhos, o poema de autor desconhecido que repetiu a vida inteira.
“Hei de vê-lo voltar, ela dizia, o meu doce
consolo, o meu filhinho. Passam-se anos, e o véu do esquecimento
baixando sobre as coisas tudo apaga. Menos da mãe, no triste isolamento,
a saudade que o coração esmaga."
Quem era Fernando Santa Cruz de Oliveira
Fernando desapareceu em fevereiro de 1974, após ser
preso por agentes do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar,
no Rio de Janeiro. Ele era pai do atual presidente da OAB, Felipe Santa
Cruz, na época um bebê de dois anos.
Nascido no Recife, se juntou no fim dos anos 1960 à
Ação Popular Marxista Leninista, grupo dissidente da Ação Popular, da
juventude católica.
Nenhum documento escrito sobre ele pela própria
ditadura o vincula a qualquer ato violento ou da esquerda armada.
Fernando não era processado quando desapareceu, aos 26 anos. Ele usava
seu nome e sobrenome reais e era funcionário público de uma empresa de
água e energia de São Paulo.
No Carnaval de 1974, foi visitar seu amigo Collier, que morava no Rio. Desapareceu quando se dirigia ao encontro, em Copacabana.
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