December 27, 2017

O medo do nu


José Eduardo Agualusa

Há alguns anos, viajando na Malásia, reparei num cartoon publicado num jornal local. O primeiro quadrinho mostrava um grupo de navegadores europeus desembarcando das caravelas, há 500 anos, e protestando horrorizados contra a sem vergonhice dos indígenas que os acolhiam nus. O segundo quadrinho mostrava esses mesmos indígenas, 500 anos depois, vestidos dos pés à cabeça, e gritando muito zangados com duas ou três mulheres europeias, turistas, na praia, em topless.

Passei um ano em Berlim, na virada do século, com uma bolsa de criação literária. Muito próximo ao apartamento onde vivíamos, havia um parque bonito, muito verde, com um grande lago. Não sei como se chamava. Sempre lhe chamamos a Praia Verde. No verão, muito de vez em quando, fazia sol e o dia esquentava. Então largávamos o que quer que estivéssemos fazendo e descíamos até à Praia Verde. Nesses milagrosos instantes de luz, o extenso relvado enchia-se de gente. Eram famílias inteiras, avós, pais e crianças pequenas; jovens casais de namorados; doces velhinhas, que chegavam em passos minúsculos, por vezes em grupo, e nos ofereciam água e biscoitos; o senegalês que nos vendia fruta; o escritor romeno que vivia no andar de cima; os russos marombados que conhecíamos da academia. Todos eles nus.

Levei amigos brasileiros, de passagem por Berlim, a banharem-se no lago. Nos primeiros minutos estranhavam a nudez alheia. Alguns não escondiam o desconforto. Contudo, depressa se esqueciam. Vários terminavam despindo toda a roupa e curtindo o sol e a liberdade.

Volta e meia surge nas redes sociais uma fotografia de três jovens mulheres nuas, supostamente nalguma praia da antiga Alemanha Democrática. Uma delas tem grandes semelhanças com a chanceler alemã, Angela Merkel. A imagem costuma vir acompanhada de frases trocistas, de portugueses ou brasileiros, como se o fato de Merkel ter praticado nudismo, na adolescência e juventude, à semelhança de milhões de compatriotas seus, pudesse comprometer as suas qualidades humanas e de liderança política.

Creio que todos os meus leitores, de direita e de esquerda, concordarão comigo se disser que a maioria dos dirigentes alemães, já para não falar nos suecos ou dinamarqueses (povos que também apreciam conviver nus, nas praias e nas saunas), são, regra geral, infinitamente mais confiáveis do que os políticos brasileiros.

A nudez é uma manifestação de confiança. Confiança no outro e confiança em si mesmo. Quem está nu não tem onde esconder armas, nem dinheiro, nem gravadores. A minha confiança nos políticos aumentaria se estes começassem a se apresentar pelados em público. Os debates nas televisões não seriam um espetáculo bonito, bem sei, mas o país ganharia em transparência.

Nus, os políticos seriam forçados a pensar, a defender ideias, ao invés de simplesmente discursarem. Os que não se mostrassem capazes de pensar, e os canalhas explícitos, cujo pensamento assenta por inteiro no ódio e no rancor, esses ficariam então verdadeiramente nus.

No fundo, a gimnofobia de certos setores da sociedade brasileira, e de alguns dos seus políticos mais notórios, tem muito a ver com o pavor de que os outros os vejam como são.

Há alguns anos escrevi um conto baseado na história autêntica de um amigo meu, que certa madrugada se achou nu no corredor de um grande hotel londrino. Num acesso de sonambulismo ergueu-se a meio da noite, saiu para o corredor pelado e deitou-se numa poltrona. Acordou com a primeira luz da manhã. Aflito, tentou retornar ao quarto, mas a porta estava fechada. Então lembrou-se da avó. A avó desse meu amigo nasceu e cresceu numa pequena localidade do interior de Angola, sem luz elétrica. Ela achava que a luz artificial, nas grandes cidades, ao impedir-nos de ver as estrelas nos tornou demasiado arrogantes. Sob a luz das estrelas, confrontado com a vastidão do universo, o Homem compreende como é insignificante e passa a relativizar tudo. Tendo percebido a tremenda irrelevância do seu estado e condição, o meu amigo desceu para o hall, explicou o que lhe sucedera, e pediu uma cópia da chave do quarto. O recepcionista nem percebeu que ele estava nu. Viu apenas um homem digno, e deu-lhe a chave.

Também na Praia Verde, em Berlim, não havia pessoas nuas. Havia pessoas curtindo a natureza. O mesmo se pode dizer do ator Wagner Schwartz, interagindo com o público, no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Era apenas um ator interagindo com o público.

Saber que esta polêmica tem lugar num país no qual, à semelhança da Malásia, as pessoas andavam nuas antes da chegada dos primeiros colonizadores, é muito irônico. Falta, talvez, descolonizar o Brasil.
O GLOBO

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