A crise política brasileira tem lá seu apelo subliterário. Não se pode negar que os diálogos vazados ou interceptados, de parte a parte, e as tantas reviravoltas na trama rendem a história pastosa e inverossímil que só um roteirista de série televisiva poderia oferecer. Poucos diálogos foram tão indicativos da ruína pública do Supremo Tribunal Federal (STF) quanto aquele travado entre o ex-ministro Romero Jucá e um empresário. Jucá dizia em 2015 ter conversado com ministros do STF e que a solução contra o avanço da Lava Jato, àquela altura, seria “um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”. Ficou por isso mesmo. No redemoinho da autocorrosão institucional por que passam as instituições de controle, os diálogos vão se apagando da memória sem maior consequência.
A Constituição brasileira de 1988 também apostou que, “com o Supremo”, as turbulências democráticas seriam reconduzidas ao trilho constitucional. A aposta não tinha o cinismo de Jucá, mas o otimismo de uma refundação política. Ulysses Guimarães prometia a “Constituição do homem, pelo homem e para o homem. A Constituição da mudança e não do statu quo , a Constituição do amanhã, com cheiro de amanhã e não com cheiro de mofo”. Não percebia que o STF, naquele dia, já entrava na nova ordem constitucional com cheiro de mofo. Os ministros da época, que a ditadura deixou de herança à democracia, agiram durante a Constituinte para que o STF apenas acumulasse novos poderes e competências, não para que concentrasse sua energia no crucial e fosse redimensionado. Não foi pensando em eficiência e funcionalidade que nasceu aquele STF. Nasceu mofado, e bem mais pesado. Mesmo assim, esperava-se que fosse um lastro dinâmico da democracia. Um ator acima de qualquer suspeita, que orientasse a política constitucional com inteligência e autonomia.
Esse mastodonte do “pode tudo ao mesmo tempo agora”, nas décadas seguintes, acumulou ainda mais competências (por meio das Emendas Constitucionais número 3, de 1993, e número 45, de 2004, e também de inovações jurisprudenciais e procedimentais). Trocou “destruição criativa”, que poderia reformar e racionalizar seu modus operandi , por “criatividade destrutiva”, que afeta cada vez mais a reputação da Corte.
“ALGUNS MINISTROS, PARA COMPLETAR, AINDA EMBARCARAM NA LIBERTINAGEM ÉTICA”
A hipertrofia de casos tentou ser administrada pela divisão de trabalho interno e multiplicação de sua capacidade de trabalho por 11. Cada ministro foi dotado de imenso poder monocrático e de obstrução. Não foi só uma preocupação em dar conta da imensidão de demandas, como gostam de dizer (“dar conta” da quantidade, de fato, o STF nunca deu). Foi um movimento de concentração de poder no ministro individual, em prejuízo da Corte. Perdeu o plenário, ganharam os 11 gabinetes. Construiu-se um tribunal de solistas, fragmentado, sem coordenação. Um tribunal mais suscetível à captura externa. Decide o que quiser, quando quiser, conforme a vontade de cada ministro e as condições de temperatura e pressão. Anomalia única no mundo.
Todo esse quadro já foi bem diagnosticado. É sabido também que o STF permanece surdo às críticas honestas e empiricamente demonstradas que a ele se dirigem. Foram críticas de estudiosos preocupados com o desempenho da Corte, que não deixam de reconhecer algumas decisões importantes tomadas nesse caminho. Enquanto se ignoravam as críticas dos parceiros, o mais perigoso adversário do tribunal ascendeu ao poder, sem nenhuma vontade construtiva, mas “desconstrutiva”. Quando Bolsonaro disse “vamos desconstruir muita coisa”, o STF fazia parte do pacote.
Do ciclo eleitoral de 2014 para cá, o STF enredou-se em muitas “histórias mal contadas”. Quer dizer, em decisões contraditórias e mal explicadas que tinham muito em jogo para passar despercebidas.
“COM O ACIRRAMENTO DO ANTAGONISMO POLÍTICO BRASILEIRO, DO QUAL O STF, ANTES DE SER VÍTIMA, É COAUTOR, AS DECISÕES, CONTRADECISÕES E NÃO DECISÕES DO TRIBUNAL PASSARAM A CUSTAR MUITO MAIS CARO”
E, ao ter recebido os casos da grande corrupção e os submetido à dieta arbitrária de seus procedimentos, o STF entrou no epicentro da crise não só como gestor, mas como alvo.
Foto: Michel Filho / Agência O Globo
A pauta bolsonarista
Em julho de 2019, completados seis meses do novo governo, acumulou-se na mesa (e nas gavetas) do STF a “pauta bolsonarista”. Essa pauta se define menos por complexidade jurídica fora do comum e mais por sua alta octanagem política diante de um governo que opera por ataque a instituições e à legalidade. O governo Bolsonaro conhece os limites institucionais do STF e a fragilidade de sua autoridade. Já no primeiro semestre, adotou a estratégia da “Blitzkrieg desconstituinte”, a produção numerosa de atos de inconstitucionalidade evidente. Tão numerosa que inunda e sufoca a energia institucional do STF e de outros órgãos de controle.
A pauta bolsonarista reúne três tipos de agenda: 1) os casos de direitos e liberdades públicas que tocam na veia conservadora do bolsonarismo; 2) os casos da Lava Jato, que tocam na veia messiânica da “nova era”; 3) os casos que analisam atos do governo Bolsonaro. Ainda que as agendas 1 e 2 não tenham sido produzidas no contexto do novo governo, as tensões que despertam são turbinadas pelo bolsonarismo e cumprem papel central na política do “pânico e circo”, na gritaria pública e na chuva de notícias falsas nas redes. Cada caso dentro das três agendas merecerá análise específica em texto futuro, mas vale agrupá-los, de forma não exaustiva, para ter a dimensão do conjuntoE
1) DIREITOS E LIBERDADE
No campo das liberdades, neste semestre o STF considerou crime a homofobia e recebeu em troca a promessa bolsonara de um ministro “terrivelmente evangélico”. Em diferentes estágios de julgamento, estão pendentes temas como: descriminalização do aborto para grávidas com vírus zika e para grávidas em geral; uso de banheiro público por transexuais de acordo com identidade de gênero; direito de homossexuais de doarem sangue; dever de escolas combaterem o bullying contra estudantes LGBT; cumprimento de pena em presídios femininos por mulheres transexuais e travestis; restrições à liberdade pedagógica; descriminalização do porte de drogas para uso pessoal.
2) LAVA JATO E “NOVA ERA”
Na rubrica da Lava Jato, pendem os mais explosivos casos na história do STF: as múltiplas ações que podem resultar na libertação do ex-presidente Lula; o julgamento da suspeição de Sergio Moro; acusação contra Flávio Bolsonaro; criação de uma fundação anticorrupção pela Lava Jato; inquérito para apuração de notícias falsas contra o STF. Entre muitos outros.
3) MEDIDAS DO GOVERNO BOLSONARO
A única medida já julgada pelo STF foi a extinção dos conselhos de participação na Administração Pública Federal, que impôs uma primeira derrota ao governo. Ao mesmo tempo, o julgamento do decreto liberatório das armas representa a grande refugada do semestre. Ao revogar o decreto que estava para ser julgado e, em poucas horas, reeditá-lo com conteúdo praticamente idêntico ao anterior, o presidente cometeu fraude à separação de Poderes. O presidente do STF aceitou a manobra, tirou de pauta e ficou em silêncio. Em diferentes estágios de julgamento, estão pendentes os casos sobre: competência para demarcação de terras indígenas; extinção do Ministério do Trabalho; contingenciamento de recursos de universidades federais; reedição da medida provisória sobre o Código Florestal; liberação de emendas parlamentares para votação favorável à reforma da Previdência.
“A PAUTA BOLSONARISTA DEVERÁ CONTINUAR A CRESCER. FAZ PARTE DA BLITZKRIEG”
Em breve, o STF deverá receber o questionamento da indicação do filho do presidente para a embaixada dos EUA; a reconfiguração das questões do Censo; a extinção do Mecanismo de Combate à Tortura; a interpelação de Bolsonaro pelo presidente da OAB por ter se referido aos mortos pela ditadura; e a ação criminal, contra Bolsonaro, dos acusados no mesmo episódio de assassinato durante a ditadura.
Foto: Carlos Moura / SCO / STF
O manejo da pauta bolsonarista
Como reagir à Blitzkrieg que inunda e sufoca? O presidente do STF, que tem o monopólio da pauta de julgamento, escolhe o caso que entra, o que não entra e o que sai depois de entrar, sem maiores satisfações. Toffoli anunciou, como grande inovação de sua gestão, a publicidade semestral da pauta. Divulgou a pauta do primeiro semestre de 2019 em dezembro de 2018. Chegamos ao final do semestre, e o que se pode dizer?
Toffoli declarou: “Desafio a apresentarem uma Suprema Corte no mundo que tenha no primeiro semestre julgado tantos feitos”. Eu também desafio. Mas o ponto nunca foi a quantidade. Como mostraram Felipe Recondo e Luís Gomes Esteves, a eficiência e a transparência propagandeadas escondem mais problemas. A começar pelos casos que estavam na pauta semestral e saíram sem maiores motivações. Não foram poucos e não foram desimportantes: por exemplo, o já longevo caso sobre porte de drogas e o da prisão após decisão em segunda instância. Segundo Recondo e Esteves, o semestre do plenário tinha em pauta 295 casos, dos quais 126 foram apreciados, 60 com julgamento definitivo. No dia em que estava em pauta o porte de drogas, discutia-se se cartórios civis poderiam ser remunerados. Quando estava em pauta o tema da prisão após decisão em segunda instância, discutia-se a lei das estatais. Os casos na fila não foram para a sessão seguinte, simplesmente sumiram da pauta. Uma questão de prioridades. Na pauta do segundo semestre, lemos uma lista que, à luz da experiência, sabemos ser apenas uma carta de intenções que poderá ser solenemente ignorada.
Por que o STF está sob ataque?
Luís Roberto Barroso, em palestra recente, contou que tem se perguntado “por que o STF está sob ataque?”. Respondeu que há uma percepção “em grande parte da sociedade brasileira de que o STF é um obstáculo na luta contra a corrupção”. Ensaiou também hipótese mais abrangente: “Uma Corte que repetidas vezes toma decisões com as quais a sociedade não concorda e que não entende, aí se tem um problema”. Acho que estava pensando em corrupção de novo. O tema é uma de suas obsessões atuais. Não só sua, mas de muita gente. Parece haver algo promissor nisso. À luz desse tema, porém, faz grandes generalizações sobre os desejos éticos dessa entidade abstrata e homogênea chamada “sociedade brasileira”.
“O APELO À CRUZADA REDENTORA DE COMBATE À CORRUPÇÃO PARA JUSTIFICAR HETERODOXIAS JURÍDICAS, NO LUGAR DE DEBATER OBJETIVAMENTE, CASO A CASO, INTERPRETAÇÃO DA LEI E CONDUTAS DO STF, É UM CAMINHO CHEIO DE PERIGOS”
Primeiro, porque supõe que aqueles que discordam são aliados da corrupção. Ou pelo menos lança a desconfiança. A partir dessa disfarçada presunção de superioridade moral, despreza a divergência dentro e fora da Corte e lança sobre o interlocutor o dever de provar que não é corrupto. Segundo, porque é autocomplacente e reducionista: a razão do descrédito do STF se resumiria ao fato de não embarcar, em peso, na filosofia jurídica da Lava Jato. Depois da Vaza Jato, esse discurso perdeu músculo. O apelo ao combate à corrupção serve como uma sirene censora para inibir quem levanta dúvidas, pondera e pede mais análise. Cria um embate entre retórica e argumento, entre a política da exclamação e a da interrogação. E induz uma perversa assimetria moral entre os que conversam. Nesse tipo de conversa, o vencedor vem predefinido.
Mas Barroso tem razão ao apontar um problema quando a sociedade “não concorda e não entende” a Corte. O problema, entretanto, não está ligado ao fato de que pessoas discordam da decisão no caso y ou no caso z. A incompreensão mais relevante está no “conjunto da obra”, individual e institucional, mais do que nas oscilações em casos específicos da Lava Jato (que apenas jogaram luz na ingovernabilidade do tribunal). O comportamento da Corte “faz parecer” que há algo estranho ocorrendo nas entrelinhas, concordemos ou não com a decisão. O “fazer parecer” é fundamental. É a isso, e não a hipóteses impressionistas sobre o que pensa a “sociedade brasileira”, que deveríamos dar mais atenção. Nem seria pertinente fazer uma pesquisa de opinião popular. Para esse fim, o Ibope pouco importa. Que a população está indignada com a corrupção, já sabemos. Você e eu também estamos.
“ASSISTIMOS NESTE SEMESTRE ÀS MAIS SISTEMÁTICAS AGRESSÕES AO STF NOS ÚLTIMOS 30 ANOS. O ATAQUE TAMBÉM SE DIRIGE AO EDIFÍCIO INSTITUCIONAL DAS POLÍTICAS PÚBLICAS. SÃO INÉDITAS EM VOLUME, QUANTIDADE E MALIGNIDADE”
Cobrar do tribunal refinamento jurídico, coragem política e presteza decisória é o dever cívico de sempre. Mas sem inocência ou autoengano.
Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
“NÃO HÁ, NA HISTÓRIA RECENTE DO STF, NADA QUE NOS AUTORIZE O OTIMISMO. A FRUSTRAÇÃO COM A TIBIEZA DA CORTE É TÃO CERTA QUANTO O PLANO DE BOLSONARO DE SUJEITÁ-LA AO PROJETO, EM SUAS PALAVRAS, DE ‘DESCONSTRUÇÃO’”
Não fosse trágico o bastante, o Executivo bolsonarista ainda tem a sorte de contar com a dupla Toffux na presidência da Corte.
A dupla Toffux forjou em coautoria esta invenção tão brasileira: a negociação de constitucionalidade. O governo encomenda uma interpretação constitucional sob medida ou uma obstrução processual qualquer. A Corte entrega e recebe em contrapartida algum regalo. Foi assim com o auxílio-moradia, foi assim com as investigações sobre Flávio Bolsonaro (que se beneficiou em janeiro de uma decisão de Fux e em julho de uma decisão de Toffoli, ambas coincidentemente no recesso, ambas ilegais). A dupla Toffux tem a vocação da sobrevivência. Individual, não institucional.
Cortes constitucionais, como o STF, precisam pairar acima da guerra partidária e do choque de interesses para realizar o interesse geral na democracia. Ou, na tradução jurídica, proteger a Constituição. Seus ministros não são eleitos. Esse é seu grande trunfo, e seu grande ônus. A história política oferece exemplos de como instituições pensadas para desempenhar papel semelhante, mas compostas por meio da eleição de seus membros, foram diluídas no conflito partidário que o mecanismo eleitoral desperta. A legitimidade eleitoral serve para certas funções, não para outras. Instituições não eleitas, mais do que as eleitas, têm uma responsabilidade especial de “demonstrar suas qualidades”, como afirma o filósofo Pierre Rosanvallon. Ele observa como o recente declínio da confiança da sociedade americana em sua Suprema Corte, por exemplo, tem menos a ver com o fato de ela ser, supostamente, uma “instituição aristocrática” e mais com a percepção de que se tornou menos objetiva, mais partidária, mais irracional.
O trunfo de não ser eleito vem sendo renunciado por ministros do STF. A renúncia, combinada com a pauta bolsonarista, é um dos caminhos certos de corrosão democrática. Ministros não observam, afinal, o ônus que vem junto daquele trunfo. Um bom Supremo não depende apenas de uma arquitetura bem planejada na prancheta do constituinte, mas de bons ministros. Importa quem eles são e como se comportam dentro e fora da Praça dos Três Poderes. Importam os espaços que frequentam, as pessoas que frequentam e os protocolos que se dispõem a cumprir ou a quebrar. Disso depende a estatura do tribunal e a relevância que terá no resgate de uma ordem constitucional que não seja só fachada. Pois, de fachada, ela já tem muito.
Peter Fonda, who died on Friday at age 79, would have been famous even if he’d never made a movie. As the son of the actor Henry Fonda, the sister of the actress Jane Fonda and the father of the actress Bridget Fonda, he was part of an accomplished Hollywood family. But he made his own profound contributions to the Fonda legacy as director, producer and performer. In the late 1960s and early ’70s in particular, thanks to movies like “Easy Rider” and “Dirty Mary Crazy Larry,” Fonda accrued a kind of outlaw mystique, putting his own countercultural spin on the lanky, laconic western characters his father once played.
Later in his career, in acclaimed performances in films like “Ulee’s Gold” and “The Limey,” Fonda traded on that persona, playing a grizzled, fading version of the hippies he embodied decades earlier. With his deep, even-toned voice, his angular face and his soulful blue eyes, he had a one-of-a-kind screen presence, which he put to use in many classic films throughout his life.
The online database IMDB credits Fonda with 116 roles. Here are seven of the best,
‘The Wild Angels’ (1966)
After getting his start in theater and television in New York in the early 1960s, Fonda caught the attention of Hollywood producers, who tried to package him as a dashing lead in soapy romances like “Tammy and the Doctor.” But the actor was more interested in drugs, rebellion and rock ’n’ roll. He found a vehicle for his values in “The Wild Angels,” a motorcycle filled “youthsploitation” picture directed by the indie film entrepreneur Roger Corman. The movie’s story about a rampaging gang resembles the moralistic juvenile delinquent melodramas of the previous decade; but Corman adopts a less judgmental tone. Fonda’s intense, no-frills depiction of a hard-living biker helped popularize a new kind of screen antihero
‘Easy Rider’ (1969)
Corman and Fonda followed up “The Wild Angels” with the 1967 LSD drama “The Trip,” in which Fonda worked alongside Dennis Hopper. Hopper and Fonda then decided to capitalize on American moviegoers’ growing fascination with dopers and bikers by collaborating as actors and as filmmakers on what they conceived as the ultimate motorcycle movie. In “Easy Rider,” the two replace a lot of the genre’s violence with psychedelic interludes, along with docu-realistic dispatches from the country’s widening generation gap. Fonda’s poised, dignified character, Wyatt, adds an element of spiritual yearning to the film that even non-hippies at the time could relate to.
‘Dirty Mary Crazy Larry’ (1974)
Fonda settled into a career as a drive-in movie star in the 1970s, bringing his low-key charisma and famous name to a lot of low-ambition car-chase movies and revenge thrillers. “Dirty Mary, Crazy Larry” is one of the most fun of the bunch, with Fonda playing a racecar driver who robs a supermarket with his buddy (Adam Roarke) and an ex-lover (Susan George), and then speeds through rural California with cop cars and helicopters on his tail. With his big sunglasses and beatific grin, Fonda cuts a figure as memorably cool as his ’60s biker characters.
Warren Oates and Peter Fonda in “Race With the Devil.”Credit20th Century-Fox, via Getty Images
‘Race With the Devil’ (1975)
Just as “Easy Rider” offered an elevated, artier version of the illicit thrills in “The Wild Angels,” so “Race with the Devil” is like “Dirty Mary, Crazy Larry” but with a sublimely devilish twist. This time out, Fonda plays a dirt bike enthusiast, who along with his business partner (Warren Oates) and their wives (Loretta SwitandLara Parker) accidentally discovers a satanic conspiracy out in the sticks. Soon the couples are driving for their lives in a souped-up R.V. that keeps them one step ahead of the occultists. It’s a dynamic like the one in “Easy Rider,” but the bikers are the respectable types and the country folk are the freaks.
‘Ulee’s Gold’ (1997)
Fonda received his only best actor Oscar nomination for this fine character drama, written and directed by the Florida filmmaker Victor Nuñez. In it, Fonda plays an aging beekeeper who is already overwhelmed with his family and work responsibilities when the story begins, and he gets even deeper in over his head when his son’s criminal past puts his household in danger. It’s a remarkably nuanced performance from Fonda, whose Ulee spends a lot of time quietly thinking through his problems and pondering his mistakes, in scenes as gripping as any shootout.
‘The Limey’ (1999)
Several filmmakers have made use of Fonda’s stature and reputation as a beloved ’60s survivor — often for parodic purposes — but none did it better thanSteven Soderbergh, who cast Fonda as a venerable Los Angeles music-industry honcho with a lucrative sideline as a drug smuggler.Terence Stampplays the British ex-con with a score to settle, in an impressionistic crime picture that doubles as a moody meditation on the glories of the past and the squandered potential of the Love Generation.
Fonda often played rugged individuals. Here, he plays a Pinkerton agent in James Mangold’s remake of “3:10 to Yuma.” CreditRichard Foreman/Lionsgate
‘3:10 to Yuma’ (2007)
Fonda didn’t make as many westerns as his father did, but he did direct and star in the excellent 1971 cowboy picture “The Hired Hand” (not available to stream at the moment). Late in his career, he added some earthy authenticity to the directorJames Mangold’s remake of “3:10 to Yuma.” As a Pinkerton agent trying to help bring a train robber to justice, he calls back to the lived-in grit and gravitas of the old western character actors. The movie is like something from an alternate Hollywood history, in which Fonda spent more time on horses than on motorcycles.
Não sei quais crimes cometeram os 16 seres humanos decapitados em uma
rebelião em Altamira, no Pará, que deixou 57 mortos. Difícil saber,
dado o elevado número de presos no Brasil ainda sem julgamento e
esquecidos nas celas sem acesso a advogados de defesa. E, mesmo que
fossem assassinos e estupradores, não haviam sido condenados à morte.
Esta pena não está prevista na Constituição brasileira.
A indignação no Brasil, no entanto, foi morna. É o fenômeno da
normalização. O impacto talvez tenha ficado aquém até mesmo de episódios
similares em séries de TV. A decapitação da personagem Missandei por
ordem de Cersei nas muralhas de King’s Landing, capital de Westeros, o
continente fictício da série “Game of Thrones”, causou enorme comoção
entre brasileiros no dia 5 de maio. A forma como ela foi morta provocou
indignação nas redes sociais, algo pouco visto após Altamira.
Sei que alguns dirão que, no Pará, eram bandidos matando bandidos.
Ainda assim, a decapitação de 16 prisioneiros seria algo impensável em
democracias europeias, no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia e nos
Estados Unidos. Autoridades precisariam prestar esclarecimentos. Estes
prisioneiros estão sob responsabilidade do Estado, e este deve garantir
sua segurança. O Estado brasileiro simplesmente fracassou, e não pela
primeira vez. Nossa sociedade, infelizmente, parece anestesiada. Parte,
sim, demonstrou indignação. Outros seguem indiferentes por estarem
distante dos acontecimentos. Alguns defendem as mortes por terem sido
“bandidos” e chegam a citar que os EUA têm pena de morte.
Este último grupo de pessoas, que celebra a morte dos bandidos,
comete um grave equívoco. Em primeiro lugar, não existe pena capital em
todo o território americano: 21 estados proíbem, e outros decretaram
moratória. Em segundo lugar, o processo para a implementação da execução
demora anos ou décadas. O réu tem condições de apelar sucessivas vezes.
Terceiro, o número de pessoas condenadas à morte nos EUA diminuiu nos
últimos anos. Quarto, já comprovaram a inocência de alguns condenados depois da execução, o que demonstra o risco de
inocentes serem mortos por equívoco pelo Estado. Por último, não há
execução por decapitação nos Estados Unidos.
A Arábia Saudita é dos raros países que decapita pessoas sentenciadas
à morte. Apenas em 2018, foram 150 decapitados pela Justiça saudita.
Condenados por assassinato, terrorismo, estupro, roubo, tráfico ou posse
de drogas, adultério, renegação do islamismo, traição e espionagem
integram a lista de alguns dos crimes com pena capital no país. Muitos,
no entanto, seriam apenas inocentes que se opõem ao sanguinário regime.
Vale lembrar que estes dados refletem apenas número de decapitados, mas
crucificação, apedrejamento e enforcamento são outros métodos usados
pelos sauditas. E, se não contarmos a China, 4 em cada 5 execuções no
mundo ocorreram em Arábia Saudita, Irã, Iraque e Vietnã. Isso pela
Justiça. Execuções extraestatais são mais comuns em Brasil, México e
América Central.
Portanto, um defensor da decapitação de criminosos estaria mais em
sintonia com a Arábia Saudita do que com o Canadá. Estaria ainda em
sintonia com os terroristas do Estado Islâmico, que cortavam a cabeça
dos inimigos e penduravam em praça pública. Caso a pessoa seja
entusiasta da pena, recomendo buscar na internet o vídeo da decapitação
do jornalista James Foley ou cenas das cabeças em postes em Raqqa.
Como em outras eleições recentes pelo mundo, as
redes sociais têm sido muito usadas nas campanhas dos principais
candidatos à Presidência na Argentina.
Enquanto propagandas via WhatsApp são mais utilizadas pela equipe de Mauricio Macri, que disputa a reeleição, redes sociais como Facebook, Instagram e YouTube são os meios favoritos dos kirchneristas Alberto Fernández e sua candidata a vice, Cristina Kirchner.
No domingo (11) ocorrem as primárias obrigatórias. Como não há
disputas internas nos partidos, o pleito servirá para medir como o
eleitorado pretende votar no primeiro turno, em 27 de outubro.
Quem assistiu ao documentário “Privacidade Hackeada” (Netflix) deve se lembrar que a Argentina é citada como um dos países que teria contratado os serviços da Cambridge Analytica, consultoria que acessou ilegalmente dados de milhões de cidadãos para serem usados nas campanhas de Donald Trump e do brexit.
O filme mostra a equipe de Macri celebrando a vitória em 2015.
Depois, numa audiência na Câmara dos Comuns, no Reino Unido, Alexander
Nix, então executivo-chefe da Cambridge Analytica, confirmou ter
trabalhado numa campanha “anti-Kirchner” naquele ano, mas se negou a
afirmar quem o contratou.
Como aquela foi uma campanha muito polarizada
entre Macri e o kirchnerista Daniel Scioli, e os partidos do terceiro
lugar para baixo não tinham o capital para pagar por esses serviços, a
imprensa passou a insistir na versão de que a equipe do atual presidente
contratou a empresa, o que macristas sempre negaram.
Depois, porém, vieram à luz evidências de encontros de Nix com Macri e
pessoas de seu entorno, e uma associação de ambos para ajudar uma
organização de caridade.
Questionado pela Folha, o governo argentino voltou a afirmar que Macri e sua equipe nunca contrataram serviços da Cambridge Analytica.
A equipe do atual presidente tem 350 mil colaboradores, os Defensores
del Cambio (defensores da mudança), que trabalham na produção de
mensagens para grupos de WhatsApp de empresas, esportistas e
acadêmicos.
Por dia, os Defensores del Cambio mandam cerca de 30 mensagens com a
voz do presidente dirigidas a um público segmentado. A um grupo de
empresários, ele encorajou a “continuar apostando em suas reformas”, m
encionando números de vendas ou objetivos alcançados por empresas específicas e chamando seus donos pelo primeiro nome.
Também há mensagens endereçadas a membros de equipes de rúgbi ou de
futebol e a pequenos empresários que buscam soluções para seus problemas
em meio à crise.
A saudação é sempre cordial e direta: “Olá, [fulano], aqui fala
Mauricio”. E logo vem a mensagem, que inclui um “obrigado por seu
apoio”, “sei que a situação está difícil, mas estamos no caminho certo”.
Também há um aplicativo dos Defensores del Cambio, com dezenas de
mensagens pré-gravadas do presidente. Elas podem ser baixadas para que
apoiadores divulguem em suas próprias redes ou grupos.
Do lado kirchnerista, a campanha oficial é mais modesta, e membros do
partido têm divulgado notícias falsas, que se espalham rapidamente.
O ex-chefe de governo de Cristina, Aníbal Fernández —não confundir com o candidato, Alberto Fernández—, por exemplo, difundiu um vídeo em que Macri aparecia ao lado do chanceler Jorge Faurie cumprimentando soldados.
O presidente então teria escutado uma ofensa de um oficial. Mentira.
Mesmo assim, o vídeo teve mais de 37 mil republicações no Twitter.
Do lado de Macri também há apoiadores que divulgam fake news, como a
de que Cristina teria uma filha com síndrome de Down. Mais: a
ex-presidente teria escondido a garota durante toda a vida.
Também é mentira, mas nas ruas é possível escutar a história como se fosse verdade
—publicações em blogs e sites duvidosos sobre a suposta filha fazem sucesso nas redes.
Para combater a divulgação de notícias falsas, o site Chequeado (verificado) lançou um programa chamado Reverso.
Trata-se de um serviço voltado para as eleições. “É muito difícil
ganhar a luta contra as notícias falsas, porque a mentira tende a se
espalhar mais fácil e rapidamente do que a verdade”, diz a fundadora do
site, Laura Zommer. “Mas vale a pena. Esse tipo de problema só se
resolve combatendo a desinformação.”
O Chequeado é financiado por colaborações online e não é vinculado a
partido. Se uma pessoa tem dúvidas de uma notícia sobre um candidato,
pode enviá-la ao site (chequeado.com) para verificação.
Nas últimas semanas, o Reverso desmentiu algumas notícias falsas que
haviam viralizado. Uma delas dizia que o candidato Alberto Fernández
tinha câncer de pulmão. Mentira. Outra afirmava que nas escolas do país
estaria proibido usar os termos “papai” e “mamãe”. Mentira também.
Algumas notícias que parecem falsas, porém, depois se confirmam como
verdade, como um vídeo em que Alberto Fernández agride um sujeito num
bar após ser ofendido.
“Somos um país fraco no que diz respeito à proteção de dados
pessoais, por isso é preciso muito cuidado com a informação pessoal que
colocamos nas redes”, diz Zommer sobre uma possível manipulação de dados
para propaganda específica, como aconteceu no caso das eleições em que a
Cambridge Analytica atuou.
Ela acrescenta que, “numa eleição tão polarizada, a propaganda
negativa tem muita força, e as pessoas infelizmente estão mal
informadas. Vídeos ou notícias escabrosas sobre um ou outro candidato
espalham-se rapidamente, e muitas vezes são mentiras.”
O Reverso se associou, nesta eleição, a 180 meios de comunicação de toda a Argentina.
Para um grupo específico de eleitores, um detalhe de Jair Bolsonaro
ganha destaque: seu nome do meio, Messias. Grande parte dos evangélicos
vê o político do Partido Social Liberal (PSL) como um “predestinado” e o
segue fielmente. Bolsonaro, por sua vez, retribui com inúmeros acenos a
sua base — o mais recente foi a histórica participação na 27ª Marcha
para Jesus, na segunda quinzena de junho em São Paulo, a primeira de um
presidente da República. Bolsonaro, como era esperado, foi recebido com
gritos de “mito” e aplausos. Mas também se ouviram algumas vaias quando
ele apareceu nos telões espalhados pela Praça Heróis da FEB, na Zona
Norte de São Paulo. Esses sinais de apoio e de crítica são indícios de
uma divisão entre os evangélicos passados seis meses de governo.
Alegando desacordos ideológicos, desavenças políticas e até perseguição,
uma ala identificada como antiarmas e conservadores que não querem o
envolvimento de pastores com política começam a ampliar a voz contra
Bolsonaro — além dos que não votaram no candidato do PSL no ano passado.
Uma pesquisa feita pelo instituto Ideia Big Data para ÉPOCA entre os
dias 13 e 17 de junho com 800 evangélicos em todo o país mostra que 69%
deles votaram em Bolsonaro no segundo turno. Desse grupo, um em cada
seis não repetiria o voto se a eleição fosse hoje. Entre todos os
entrevistados, 88% são contra a ideia de que meninos devem usar azul e
meninas rosa, defendida pela ministra da pasta da Mulher, da Família e
dos Direitos Humanos, Damares Alves, também ela evangélica. Menos de 15%
defendem a política ambiental do ministro do Meio Ambiente, Ricardo
Salles. Acima de tudo, a visão geral do governo não entusiasma. Para
25%, a administração é ruim ou péssima. Quarenta por cento dizem que é
regular.
O pastor João Paulo Berlofa
com os fiéis da “Igreja da Garagem”, de Mogi das Cruzes, na Região
Metropolitana de São Paulo. Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
O microempreendedor Junior Ribeiro, de São José dos Campos, no interior
paulista, votou em Bolsonaro no segundo turno. Evangélico há 20 anos,
diz que resolveu dar um voto de confiança ao hoje presidente. “Achei que
poderia ser diferente. Mas ele adotou posturas como a de querer liberar
as armas, incitando o ódio. Isso não condiz com alguém que se diz
cristão, que segue Jesus, que veio para trazer paz”, afirmou. Em
conversas na igreja batista que frequenta, Ribeiro vê outros fiéis
comentarem que esperavam mais de Bolsonaro. “Me arrependi profundamente
de ter votado nele. Até agora não me representou”, disse. Ivaniella
Batista de Carvalho, professora de Cubatão, São Paulo, afirmou que votou
em João Amoêdo no primeiro turno e que, no segundo, votou em Bolsonaro,
pois a outra opção — o PT — era muito pior, em sua opinião. Contou que
ela e sua família votaram no candidato do PSL pois a mulher dele “era
evangélica”. Mas hoje se dizem decepcionados. “O pior para mim é que
ele, na reforma da Previdência, quer manter os privilégios da categoria
dele, os militares.”
Caio César Souza Marçal, um dos fundadores da Rede Fale, grupo
evangélico de Belo Horizonte, disse que os rachas no mundo evangélico
sempre foram por teologia. “Este é o primeiro por ideologia”, afirmou
Marçal, pastor e mestrando em teologia na Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG). Ele acredita que a atuação mais ativa de pastores na
política desagrada a parte dos evangélicos conservadores, que não querem
que seu templo vire um movimento político. Esse sentimento não é de
hoje, mas está se intensificando.
“Evangélicos contrários ao que descrevem como excesso de política nos
cultos estão abandonando seus pastores e aumentando os números do
movimento dos ‘desigrejados’”
Um dos primeiros sinais aconteceu em plena reta final do impeachment,
quando, em 16 de agosto de 2016, o procurador Deltan Dallagnol,
coordenador da Lava Jato, foi dar uma palestra na Igreja Batista da
Lagoinha, em Belo Horizonte — a mesma frequentada por Damares Alves. Na
visita, gravada em vídeo, Dallagnol referiu-se a si mesmo em terceira
pessoa, afirmou ser cristão, integrante da “República de Curitiba” e
surfista — no momento em que apareciam fotos dele sobre as ondas.
Em seguida, uma leva de fiéis abandonou a igreja por causa da presença
do procurador. Uma semana depois, o pastor local, André Valadão, chamou
os que saíram da igreja de “tolos”, “sem educação”, e disse ter
“vergonha” deles. “No dia em que sua igreja recebeu a pessoa mais
importante que lá esteve, eles viraram as costas, justo ao homem que
Deus pode ter escolhido para mudar o país”, afirmou na ocasião. O pastor
disse, ainda, que Evangelho não é ficar “contando anjinhos”, mas sim
atuar na política. Procurado, Valadão não respondeu ao pedido de
entrevista de ÉPOCA.
Entre os evangélicos, há vários tons de insatisfação. Um desses grupos
se autodenomina “os desigrejados”. O termo, que já era conhecido no meio
evangélico, tornou-se mais popular depois da eleição. São, em sua
maioria, fiéis que começaram a sair de suas denominações de origem na
época da campanha por acharem que seus pastores estavam falando de
política muito mais do que o aceitável ou que eram contra a campanha
pró-Bolsonaro. Esses movimentos independentes e desalinhados ao atual
governo estão presentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre,
Curitiba e Campinas. Um dos mais recentes se reúne desde maio em Mogi
das Cruzes, na Região Metropolitana de São Paulo. As reuniões acontecem
aos domingos de manhã em um bairro residencial. Na garagem da casa de um
dos membros do grupo, há uma roda de cadeiras brancas de plástico e
alguns banquinhos. Quem chega traz pão, bolo, suco, pão de queijo,
biscoitos. Começa um café da manhã compartilhado, ou “ceia”, como o
grupo prefere chamar. Às 10h30, com comida ainda sobre a toalha de mesa
com estampa de frutas, todos tomam seus assentos. Eles cantam, agradecem
por alguma bênção, pedem orações para parentes e amigos. É a hora do
culto na chamada “Igreja da Garagem”.
“A política do governo sobre armas é um dos pontos que mais causam desconforto entre os evangélicos”
O nome pegou aos poucos, em referência ao lugar que abriga as reuniões. É
no espaço pequeno e reservado, com algumas frestas por onde entra luz,
que o pastor João Paulo Berlofa, também um “desigrejado”, comanda o novo
grupo. Ele se desligou em dezembro da igreja presbiteriana em que era
pastor. Nos primeiros meses deste ano, começou, com outros fiéis, o
“Inadequados”, um coletivo que surgiu na internet com o slogan “Para
quem se sente meio inadequado dentro do movimento religioso
tradicional”. A rede é formada por pastores e fiéis que saíram de suas
igrejas e criaram um movimento que “defende uma teologia prática de amor
ao próximo”. “Quando a campanha eleitoral começou a ganhar corpo, e
pastores começaram a usar o púlpito como palanque, muitos fiéis se
rebelaram e falaram: ‘Não aceitamos isso’. Recebi muitas mensagens de
pessoas abaladas, de outras ameaçadas e até expulsas porque não
aceitaram fazer campanha”, conta Berlofa.
A psicóloga Bruna Barreiros, de 30 anos, começou a frequentar a Igreja
da Garagem há poucas semanas, pouco depois de acompanhar o Inadequados
na internet. Evangélica há nove anos, conta que já havia percebido como
se colocava “a política na espiritualidade” desde a eleição de Dilma
Rousseff, mas se afastou da igreja de vez com as eleições de 2018. “Na
campanha da Dilma, os pastores já falavam para pessoas mais próximas
votarem no PSDB, chegaram a convidar o Geraldo Alckmin. No ano passado,
já em outra igreja, senti que o clima entre os próprios fiéis era de
ansiedade e não senti vontade de continuar. Acho que não tem como
separar a discussão política, mas eu tinha uma visão social do Evangelho
e não sentia esse propósito na minha igreja”, contou ela. O que
incomodou a bancária Érika Piassa, de 34 anos, foi a falta de crítica ao
que dizia o então candidato do PSL durante a campanha. “Quando chegaram
as eleições, que eram um momento de se posicionar contra as atrocidades
que Bolsonaro falava, a igreja calou”, disse Piassa. Fabio Bezerril,
pastor há nove anos em São Paulo e “desigrejado” desde janeiro, foi
outro que se opôs ao candidato do PSL desde o começo. “As igrejas
evangélicas tradicionais militam muito em causa própria. E o problema
não é falar sobre política. Ela faz parte da nossa vida. Mas não dá para
criar essa esfera de bem e de mal, como foi na campanha. Quando falava
de justiça, de paz, de pão, as pessoas diziam que se estava falando em
‘linguagem petista’”, disse Bezerril.
A jornalista evangélica
Débora Diniz ora por conta própria. “Muitos sobreviveram quando a igreja
virou uma empresa, mas agora não estão suportando ela ter virado um
partido político. É a primeira vez que não me considero pertencente a
uma igreja. Não me identifico mais”, disse ela. Foto: Leo Martins /
Agência O Globo
A “dissidência” e o trânsito de pessoas entre igrejas sempre existiram
no mundo evangélico, que é extremamente segmentado, mas fiéis, pastores e
pesquisadores que acompanham o tema confirmam não só um aumento desse
movimento desde a última campanha eleitoral, como também um acirramento
do fenômeno com o desenrolar do governo Bolsonaro. “Desde o impeachment,
existe uma necessidade de tentar organizar melhor essa segmentação
evangélica. Mas a eleição do Bolsonaro, principalmente, fez com que
algumas comunidades e lideranças sentissem a necessidade de declarar seu
voto, o que tem produzido uma reacomodação do segmento evangélico”,
disse a antropóloga Jacqueline Teixeira, pesquisadora da Universidade de
São Paulo (USP). Hoje, segundo a antropóloga, passou-se a um “segundo
momento” dessa declaração de voto da campanha — o de decisão sobre a
continuidade do apoio de evangélicos a Bolsonaro. “Quando foi anunciado,
o decreto sobre armamento produziu uma nova cisão, até mesmo dentro da
chamada bancada evangélica. Bolsonaro sentiu isso. Quando ele disse que
era hora de ter um evangélico no Supremo Tribunal Federal (STF), por
exemplo, foi porque percebeu que a aliança entrou em conflito, que não
está consolidada. Foi uma sinalização de ‘Vamos fortalecer essa aliança,
não desistam do governo’”, afirmou a pesquisadora da USP.
A presença de Bolsonaro na Marcha para Jesus agradou a líderes
evangélicos da esfera mais tradicional, mas não gerou consenso. Criada
na Assembleia de Deus, a fluminense Débora Diniz, de 48 anos, migrou
para a Sara Nossa Terra e para a Igreja Batista Lagoinha de Niterói. No
ano passado, durante as eleições, a jornalista decidiu que era hora de
partir para uma vida religiosa fora das igrejas. “Muitos sobreviveram
quando a igreja virou uma empresa, mas agora não estão suportando ela
ter virado um partido político. É a primeira vez que não me considero
pertencente a uma igreja. Não me identifico mais”, afirmou. Diniz disse
que mantém sua fé, mas critica que, em nome de um alinhamento político,
pastores defendam temas como o decreto do armamento. Ela contou que foi
“demonizada” ao defender pontos como o feminismo. Segundo ela, os
ataques contra ela e outras pessoas de mesma visão ficaram violentos com
a proximidade das eleições. “Não é simples romper com a igreja. Temos
mais que uma ligação espiritual, é uma ligação afetiva, pois para muitos
a igreja é o centro da vida social”, disse Diniz. “Evangélico
tradicionalmente não concorda com discurso de ódio e de armas, e de que
‘bandido bom é bandido morto’”, completou. Para ela, chegou a ser uma
“hipocrisia” líderes evangélicos rirem enquanto Bolsonaro fazia o
característico símbolo das armas com as mãos, em plena Marcha para
Jesus. No mesmo evento, diante de cerca de 3 milhões de pessoas, segundo
a organização, Bolsonaro admitiu pela primeira vez que tentará a
reeleição “se o povo quiser”. “Bolsonaro sabe que fala para seu público
mais fiel, que pode ser sua base para a reeleição”, afirmou Maurício
Moura, professor da George Washington University, em Washington, e
fundador do instituto de pesquisas Ideia Big Data. “O presidente pode
ter sentido esses movimentos de ruptura de parte do eleitorado e começou
a acenar ainda mais para os cristãos.”
Encontro de fiéis na Grande São Paulo. Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Nos últimos três meses, redes de apoio a coletivos evangélicos foram
criadas, na esteira da polarização dos templos. Uma delas é o Liberta.
Criado em março, em Porto Alegre, pelo teólogo Tiago Santos, de 31 anos,
o movimento já apoia 300 grupos familiares por todo o país. No espectro
político evangélico, Santos está à esquerda. Durante as eleições, ele
criou a página “Cristãos contra o fascismo”, que chegou a contar com 25
mil participantes no Facebook. “Durante as eleições, muitos cristãos
deixaram suas igrejas por causa do apoio institucional ao Bolsonaro”,
disse. Para ele, o apoio de muitas lideranças evangélicas a Bolsonaro é
acrítico. “Muitos o colocam como um enviado de Deus. E não se pode
criticar um enviado de Deus”, disse ele, lembrando que o próprio
presidente incentiva isso, como fez ao postar em uma rede social um
vídeo de um pastor africano que dizia que o presidente era um
“escolhido” pelo divino.
Os evangélicos são um grupo grande e heterogêneo, disse Magali do
Nascimento Cunha, pesquisadora de temas relacionados à religião. Segundo
ela, desde o movimento reformista liderado por Martinho Lutero, no
século XVI, as igrejas evangélicas se caracterizam por não ter uma
hierarquia única, e sim uma diversidade, ao contrário da Igreja
Católica, unificada na figura do papa e centralizada no Vaticano. “Os
evangélicos têm essa fragmentação porque são grupos orientados pela
livre interpretação da
Bíblia
. É uma questão que vem da Reforma. Incluem-se imigrantes da Alemanha,
luteranos, anglicanos da Inglaterra, missionários dos Estados Unidos e
até protestantes da França e da Holanda, ainda na época do Brasil
Colônia. Mas o movimento evangélico se consolidou mesmo no Brasil nos
séculos XIX e XX, quando os grupos se multiplicaram pelo país e passaram
por renovações”, afirmou. Hoje, existem as chamadas igrejas mais
tradicionais e antigas, como a metodista, a batista e a presbiteriana.
Além dessas, há as pentecostais clássicas, como a Assembleia de Deus e a
Evangelho Quadrangular, e as neopentecostais, entre elas a Igreja
Universal do Reino de Deus e a Renascer em Cristo. A lista é enorme, e a
divisão não é objetiva, reforçou Cunha. “Quem fala em um grupo único de
evangélicos tende a se referir à fatia conservadora”, completou.
“O pastor deputado Marco Feliciano defende que um evangélico seja vice de Bolsonaro em 2022. Quem poderia ser? Ele mesmo”
A relação entre lideranças religiosas e o poder político no Brasil
começou no início do século passado, e só se intensificou de lá para cá
em um Estado que se diz laico. “O primeiro deputado evangélico surgiu
nos anos 30, eleito para a Constituinte. Era pastor de uma igreja
metodista. Por muitos anos, foi o único caso. Nos anos 70, começaram a
aparecer outros, principalmente batistas e pentecostais da Assembleia de
Deus. E, depois da Constituição de 1988, o número cresceu, até ser
formada pela primeira vez a chamada bancada evangélica, que tem seus
altos e baixos”, explicou a pesquisadora Cunha. Segundo ela, a bancada
evangélica se aproximou do governo federal em 2002, no governo Lula, e
se fortaleceu ao longo dos anos, principalmente as igrejas Universal e
Assembleia de Deus, “que têm projeto político”. “Na campanha do atual
governo, quando Bolsonaro, que se dizia católico, resolve ser batizado
como evangélico, se consolida a jogada de aproximação com essa bancada”,
disse a especialista. O papel fundamental dos evangélicos na eleição de
2018 é reconhecido até pelo lado perdedor. Em entrevista ao jornal
Folha de S.Paulo
em novembro do ano passado, Fernando Haddad, candidato derrotado do PT,
disse que “há estudos mostrando que, se eu tivesse no mundo evangélico o
mesmo percentual de votos que tive no mundo não evangélico, eu teria
ganho a eleição”. Parte do problema, segundo os petistas, foi a
quantidade de fake news distribuídas a essa fatia do eleitorado no
período eleitoral contra Haddad.
Eduardo Carpenter, pastor de igrejas itinerantes no estado do Rio de
Janeiro, afirmou que as igrejas sempre procuraram influenciar eleições e
governos. Com Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, o motivo
foram concessões de rádio e TV. Com Luiz Inácio Lula da Silva, foi a Lei
de Liberdade Religiosa, “assinada pelo petista junto a todos os
pastores que hoje estão com Bolsonaro”. Com Dilma Rousseff, o objetivo
era continuarem próximas ao poder, o que repetiram com Michel Temer.
“Mas com Bolsonaro é diferente: ele absorveu a agenda dos principais
líderes evangélicos”, disse Carpenter. E isso desagradou a muita gente. É
um descontentamento diferente dos antes comuns e mais vistos entre
evangélicos. No passado, disse a pesquisadora Cunha, havia uma
frustração com as igrejas por promessas de prosperidade que não se
realizavam. Depois, deu-se um afastamento pela repressão pregada por
algumas igrejas sobre o corpo e costumes. A desvinculação pela
discordância de posturas das lideranças é a mais recente. “A questão da
política é muito forte porque as igrejas não só assumiram um discurso
ideológico-político, como também estão servindo de escudos de alguns
personagens da política”, disse a pesquisadora.
Membro do grupo Liberta, de Porto Alegre, que se autodenomina um grupo evangélico de esquerda. Foto: Reprodução
Líderes evangélicos tradicionais, por outro lado, minimizam o movimento
contrário à politização ou a Bolsonaro. “Temos cerca de 60 milhões de
evangélicos no país. Cerca de 50 milhões, 55 milhões, estão em igrejas
que apoiam Bolsonaro. As igrejas amam Jair Messias Bolsonaro”, afirmou o
deputado Pastor Marco Feliciano (PODE-SP). Ele se tornou vice-líder do
governo no Congresso, tem participado de viagens e “lives” em redes
sociais com o presidente e se diz responsável pela participação de
Bolsonaro em eventos religiosos em Santa Catarina, Amazonas, Pará, Goiás
e na Marcha para Jesus. Segundo Feliciano, o que aproxima Bolsonaro dos
evangélicos são as pautas de costumes. “Não pedimos nada, só queremos a
valorização da família”, disse. O deputado minimiza o descontentamento
de alguns grupos religiosos com a política de armas defendida pelo
presidente, afirmando que, no que importa, “os grupos seguem unidos”.
E, falando claramente sobre política, fez uma previsão: “Todos sabemos que o vice-presidente (
Hamilton
) Mourão se indispôs com o presidente. Pois digo que, em 2022, Bolsonaro
terá um vice-presidente evangélico”, disse ele, lembrando que o
presidente chegou a ensaiar ter o então senador Magno Malta (PR-ES),
evangélico e cantor gospel, como companheiro de chapa, mas que o
processo foi abortado e o escolhido foi um militar.
“A dificuldade é obter um nome que una todas as correntes, como
Assembleia de Deus, Universal, Batista, Quadrangular”, disse Feliciano,
que imediatamente se colocou como nome mais indicado para a “tarefa” de
tentar ser vice-presidente na eventual chapa de reeleição de Bolsonaro.
“Se não temos um nome que converge todas as igrejas evangélicas, não
tenho dúvidas de que tem de ser um nome que transite em todas elas. E
não vejo quem faz isso hoje melhor do que eu.”
O deputado Pastor Marco
Feliciano (PODE-SP) é uma das lideranças políticas evangélicas
contestadas pelos “desigrejados”. Foto: Jorge William / Agência O Globo
O deputado Silas Câmara (PRB-AM), presidente da Frente Parlamentar
Evangélica — que reúne 195 deputados e oito senadores e realiza cultos
todas as quartas-feiras no Congresso —, afirma que, se houver um
movimento de dissidência de evangélicos de suas igrejas por causa do
apoio a Bolsonaro, é algo “ínfimo”. Em sua opinião, o evangélico de
verdade não abandonará sua fé e sua igreja por um eventual apoio a um
político. Ele afirmou, inclusive, que “não existem no Brasil” líderes
evangélicos que pedem voto nos templos. “O melhor exemplo sou eu. Sou da
Assembleia de Deus, que tem 360 mil fiéis no Amazonas, e fui eleito com
117 mil votos. Se existisse orientação, eu teria tido muito mais
votos”, disse. Câmara afirmou que a ida de Bolsonaro à Marcha para Jesus
foi um “gesto de gratidão” do presidente, mas que é cedo para definir o
apoio dos evangélicos a uma eventual reeleição. “Temos a mesma simpatia
à proteção à família, à vida, aos mesmos princípios, mas é cedo para
fechar compromissos”, disse ele. Câmara lembrou que a “maioria
esmagadora” dos deputados da frente evangélica é contra as armas. Para
ele, isso não gera necessariamente um problema na relação com o
presidente, pois “em uma relação pode-se discordar de alguns pontos”. O
deputado também minimizou o gesto de armas feito por Bolsonaro na
marcha: “Isso não quer dizer mais que ele quer armar todo mundo. É mais
uma marca dele”.
Desde que o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro quebrou o sigilo
fiscal e bancário de 86 pessoas, entre elas assessores de Flávio
Bolsonaro (PSL-RJ) no período em que ele ocupava uma vaga na Assembleia
Legislativa fluminense, a advogada Ana Cristina Siqueira Valle, de 52
anos, vê impotente e calada a
investigação avançar sobre nove de seus familiares incluídos nesse grupo
. O Ministério Público apura se os funcionários devolviam parte de seus
salários ou seu valor integral para os parlamentares, a chamada
“rachadinha”, uma suspeita que surgiu depois de constatada a
movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de
Fabrício Queiroz, o ex-chefe de segurança do hoje senador
.
Ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro, Ana Cristina Valle conheceu o
então deputado federal em Brasília, no início dos anos 90, quando ambos
participavam de uma manifestação de mulheres de militares que pediam
aumento nos salários da caserna. Tempos depois se envolveram e, em 1998,
passaram a viver juntos, o que durou uma década. Desde o ano em que Ana
Cristina Valle e Bolsonaro se tornaram marido e mulher, os parentes
dela começaram a aparecer nas listas de funcionários do gabinete do
deputado federal — então o único da família com mandato. Ao todo, seis
familiares de Ana Cristina Valle foram nomeados por Bolsonaro para seu
gabinete até 2008. A lista inclui seus ex-sogros (José Procópio Valle e
Henriqueta Siqueira Valle), dois irmãos (Andrea Siqueira Valle e André
Siqueira Valle) e dois primos (André Siqueira Hudson e Juliana Siqueira
Vargas).
A partir de 2003, Flávio Bolsonaro assumiu mandato na Assembleia
Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e também preencheu
as vagas de seus assessores com nove familiares da madrasta.
José Procópio Valle, Juliana Siqueira Vargas e Andrea Siqueira Valle
deixaram formalmente seus cargos na Câmara dos Deputados e passaram a
surgir nas listas de funcionários da Alerj. Também integravam o grupo de
nomeados, até o ano passado, os primos Francisco Diniz e Daniela Gomes e
os tios Guilherme dos Santos Hudson, Ana Maria Siqueira Hudson, Maria
José de Siqueira e Silva e Marina Siqueira Diniz.
O que não se sabia até agora é que Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), o vereador
mais jovem a ser eleito na história do Rio, foi igualmente generoso com
a madrasta e sua família na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Eleito
aos 17 anos, Carlos — ou 02, como o presidente Jair Bolsonaro costuma
chamá-lo — transformou Ana Cristina Valle em assessora-chefe de seu
gabinete em 2001. Ela trouxe consigo outros sete familiares para as
listas de assessores no Palácio Pedro Ernesto, sede do Legislativo
carioca. Assim, ao todo, nos três gabinetes do clã Bolsonaro, 17
parentes de Ana Cristina Valle, além de ela própria, ganharam cargos
comissionados nos últimos 20 anos. ÉPOCA constatou, porém, que alguns
deles jamais moraram no Rio ou pisaram no prédio histórico onde
trabalham os vereadores, localizado na Cinelândia.
Carlos Bolsonaro conquistou uma cadeira no Legislativo carioca em 2000,
disputando uma vaga contra a própria mãe, Rogéria Braga, então vereadora
e em busca da reeleição. Mais do que a corrida eleitoral, a disputa
simbolizava o racha entre os pais, após a separação e a união de
Bolsonaro com Ana Cristina Valle. Uma vez eleito para a Câmara
Municipal, um neófito na política, Carlos amparou-se na experiência que a
madrasta tinha em assessoria legislativa e deu a ela o cargo principal —
chefe de gabinete —, com um contracheque que, atualizado pela inflação,
agora alcança o equivalente a R$ 22.900, entre o salário bruto e os
penduricalhos pagos, como dedicação legislativa, auxílio-alimentação,
transporte, entre outros. Lá, ela reinou até sua separação de Jair
Bolsonaro, em 2008. Além do parentesco com Ana Cristina Valle, o grupo
lotado na Câmara Municipal tem em comum com os assessores de Flávio
Bolsonaro enormes dificuldades para provar que, de fato, trabalhavam no
cargo enquanto mantinham outras atividades profissionais em cidades
distantes dos gabinetes.
Moradores de Minas Gerais, mas nomeados na Câmara Municipal do Rio
Marta Valle é professora e foi lotada sete anos na capital mesmo morando em Juiz de Fora
Marta Valle é casada com Alexandre Valle, ex-cunhado de Bolsonaro. Foto: Reprodução
A movimentada praça da Cinelândia, onde fica o Palácio Pedro Ernesto,
fica a 185 quilômetros de uma pacata ladeira do bairro Paineiras, em
Juiz de Fora, Minas Gerais. Essa era a distância que Marta da Silva
Valle, em teoria, teria de percorrer entre sua casa e o trabalho — se
ela realmente desse expediente no local para o qual foi nomeada. Isso
nunca aconteceu.
Hoje com 45 anos, Marta Valle é professora de educação infantil e
cunhada de Ana Cristina Valle. Passou sete anos e quatro meses lotada no
gabinete de Carlos Bolsonaro na Câmara dos Vereadores do Rio, mesmo
morando em outro estado e tendo de, em teoria, percorrer o trajeto em
duas horas e meia. À época em que foi nomeada, em 1º de novembro de
2001, tinha uma filha de 1 ano e 5 meses, o que também dificultaria
percorrer tamanha distância todos os dias. Mas, como ela própria admite,
nunca trabalhou na Câmara de Vereadores.
ÉPOCA esteve em Juiz de Fora na semana passada. Passava pouco das 18
horas da segunda-feira 10 e a noite acabara de cair quando a reportagem
abordou Marta Valle saindo do trabalho, em uma escola infantil perto de
sua casa. Vestia uma camisa branca, com um casaco cinza sobreposto e
calças jeans justas com as barras dobradas, tendência de moda recente.
No antebraço, carregava uma bolsa preta.
Ao lado de uma amiga, caminhava tranquilamente quando foi questionada
pela reportagem sobre seu trabalho para a família Bolsonaro e, de
pronto, refutou. “Não trabalhei em nenhum gabinete, não. Minha família
lá que trabalhou, mas eu não”, disse ela, em forte sotaque mineiro.
Quando foi advertida de que, sim, havia sido lotada, ela enfatizou a
negativa: “Não fui eu, não. A família de meu marido, que é Valle, que
trabalhou”. Diante da resposta, a reportagem insistiu, perguntando se
ela mesma não havia trabalhado. Pela terceira vez, ela disse que não. Ao
lhe ser perguntado se sabia, então, que havia sido nomeada, Marta Valle
disparou: “Mas logo em seguida já me tiraram do cargo”.
Não foi bem assim. Os registros nos diários oficiais da Câmara Municipal
mostram que Marta Valle só deixou de ser, no papel, funcionária do
gabinete de Carlos em 1º de março de 2009. Quando a reportagem contestou
e disse que ela foi lotada na Câmara durante anos, Marta Valle apertou o
passo, acompanhada de uma colega de trabalho, sem querer falar mais:
“Prefiro não fazer nenhum depoimento”, finalizou. Parou na esquina,
sacou o celular da bolsa e começou a falar com alguém, como se estivesse
contando o que acabara de ocorrer.
Na vizinhança, amigos e conhecidos de Marta Valle esboçavam surpresa ao
ser indagados sobre o emprego da professora em terras fluminenses.
Ninguém nunca ouvira falar. Ao longo desse tempo, ela sempre morou na
cidade mineira com a filha e o marido, Alexandre, irmão da ex-mulher do
presidente Bolsonaro.
Nos registros de papel da Câmara, porém, a história foi apresentada de
modo diferente. No meio do caminho, entre a nomeação e a saída, a
professora teve até aumento salarial em virtude de uma alteração de
cargo. Em fevereiro de 2003, ela passou de DAI-5 para DAS-9. Saiu,
portanto, da função de confiança mais básica e foi alçada à segunda mais
importante e mais bem paga na estrutura dos gabinetes dos vereadores do
Rio, atrás apenas do chefe de gabinete. Tudo sem nunca ter desempenhado
efetivamente nenhum trabalho dentro do Legislativo. Com a correção da
inflação para os dias de hoje, o salário bruto de Marta Valle nesse
último cargo corresponderia atualmente a R$ 9.600, e, somado a
penduricalhos que funcionários podem receber, chegaria a R$ 17 mil.
Marta Valle não foi a única a viver em Minas e ser nomeada para o
gabinete do 02 do presidente Jair Bolsonaro na Câmara Municipal do Rio.
Gilmar Marques, de 60 anos, viveu em Juiz de Fora e, depois, em Rio
Pomba, também em Minas, onde mora até hoje. O município fica a 274
quilômetros do centro do Rio, onde ele deveria dar expediente. Marques é
um pequeno empresário e representante comercial na área farmacêutica.
Ele entrou no caminho da família Bolsonaro por ter sido companheiro de
Andrea Siqueira Valle, de 47 anos, fisiculturista e irmã de Ana Cristina
Valle. Os dois se conheceram em Juiz de Fora, em 1999, passaram a viver
juntos e ela engravidou depois de alguns meses, mas se separaram em
seguida. A filha nasceu em agosto de 2000 já em Resende, no Rio — para
onde Andrea havia retornado. Marques seguiu em Minas.
Mesmo separado de Andrea Valle, ele foi nomeado para o gabinete de
Carlos Bolsonaro na Câmara dos Vereadores em 4 de janeiro de 2001. O
cargo escolhido: DAS-7. Com correção inflacionária do período, o salário
bruto é de R$ 7.900, e com os eventuais adicionais o total chegaria a
R$ 14 mil. A nomeação de Marques perpassa mandatos. A exoneração só
aconteceu sete anos e três meses depois, em 1º de abril de 2008.
ÉPOCA também conseguiu contato com Marques. E a semelhança com Marta
Valle não está apenas no fato de morarem em Minas Gerais durante todo o
período em que estiveram lotados na cidade do Rio. Assim como a
professora, ele demonstrou surpresa ao ser questionado sobre o tempo em
que aparecia lotado na Câmara Municipal carioca.
Numa conversa por telefone, a reportagem indagou a Marques se ele se
recordava do gabinete em que havia trabalhado para o clã Bolsonaro e o
que fazia. Ele disse inicialmente que não se recordava. Depois, outra
vez indagado sobre o assunto, perguntou à reportagem se não havia algum
engano em relação ao nome dele. A conversa seguiu sem que Marques também
se recordasse sobre o salário que recebia. “Meu Deus do céu. Ah, moça,
você está me deixando meio complicado aqui. Eu ganhava? Isso aí você
deve estar enganada”, disse em alentado sotaque mineiro.
Como é possível trabalhar no Rio, no gabinete de um vereador, e morar em
Minas Gerais? Mais uma vez, faltaram palavras a Marques: “Ah, moça,
estou meio por fora disso”. Sobre a possibilidade de ter devolvido
dinheiro do salário para o vereador, ele comentou simplesmente: “Estou
por fora disso”. No momento em que foi questionado sobre se sabia que
havia sido nomeado, Marques desligou o telefone.
Marta Valle e Marques não foram os únicos relacionados como funcionários
que, na prática, não prestaram serviços. É uma situação que se
assemelha aos casos de outros parentes que estavam, ao mesmo tempo, em
diferentes gabinetes do clã bolsonarista.
Ex-cunhada de Bolsonaro passou 20 anos em gabinetes da família
Andrea Siqueira Valle é fisiculturista e passou pela Câmara dos Deputados, Alerj e Câmara Municipal do Rio
Andrea Siqueira Valle é fisiculturista e irmã de Ana Cristina Valle Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal
A história da fisiculturista Andrea Siqueira Valle chama a atenção. Até
poucos dias atrás, ela vivia em Guarapari, no litoral do Espírito Santo.
Não é vista, porém, desde que o jornal O Globo publicou uma reportagem
mostrando que não havia comprovação sobre a década em que constou como
funcionária de Flávio. Na Alerj, ela tinha um salário bruto de R$ 7.300,
além de receber um auxílio-educação de R$ 1.200. Por nove anos, jamais
teve identificação funcional. Apenas em 2017 foi pedido um crachá da
Alerj em seu nome. Durante esse período, sempre viveu em Resende, na
casa dos fundos dos pais.
Andrea Valle, no entanto, não esteve apenas no gabinete de Flávio. Ela
transitou em nomeações nos três mandatos do clã Bolsonaro entre 1998 e
2018 — 20 anos como funcionária comissionada do clã. Entre 30 de
setembro de 1998 e 7 de novembro de 2006, esteve lotada como secretária
parlamentar de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados. Dois dias depois
da exoneração, foi nomeada por Carlos Bolsonaro na Câmara Municipal e lá
ficou até 1º de setembro de 2008 — a vaga antes pertencia a André
Valle, irmão dela e de Ana Cristina Valle. Dos papéis do Palácio Pedro
Ernesto, Andrea Valle passou para os da Alerj, em que foi lotada como
funcionária de Flávio Bolsonaro — e lá constou por dez anos, até agosto
do ano passado.
Do tempo em que esteve lotada na Câmara dos Deputados, fora as listas de
frequência que o próprio Jair Bolsonaro entregava para comprovar o
trabalho de seus funcionários, a casa informou a ÉPOCA não possuir
nenhum registro funcional de Andrea Valle. Com gratificações, o salário
bruto dela chegou a R$ 12 mil, com correção inflacionária. Ao longo
desses oito anos, ela morou em Resende e, por um curto período, em Juiz
de Fora, quando engravidou. Sobre o tempo no gabinete de Carlos, a
Câmara não informou se ela teve crachá ou se sua frequência foi
registrada. Quem a conheceu nas últimas duas décadas sabe que ela sempre
se sustentou com faxinas e outros bicos, além de malhar duas ou três
vezes por dia para os concursos de fisiculturismo. Hoje ela é uma mulher
com medo e sérias dificuldades para se sustentar.
Além de Andrea Valle, três outros parentes também desempenhavam diversas
outras atividades em Resende ou em outras cidades do sul do Rio no
mesmo período em que constavam como servidores de Flávio na Alerj.
Francisco Diniz, primo de Ana Cristina Valle, constou como servidor por
14 anos e chegou a cursar faculdade integral de medicina veterinária em
Barra Mansa ao longo desse tempo.
Ex-mulher de Bolsonaro diz que "não tinha nepotismo"
Ana Cristina Valle trabalha como chefe de gabinete na Câmara Municipal de Resende
Ana Cristina Valle,
ex-mulher de Jair Bolsonaro: nove parentes dela serão investigados pelo
MP em caso que envolve possível esquema de 'rachadinhas' no gabinete do
filho do presidente Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
Após a separação litigiosa entre Ana Cristina Valle e Bolsonaro, em
2008, amplamente noticiada na campanha eleitoral do ano passado, elafoi
morar na Noruega. Há alguns anos, voltou a viver em Resende e tornou-se
chefe de gabinete do vereador Renan Marassi (PPS-RJ) na Câmara de
Vereadores da cidade. O prédio branco, quadrado e espelhado fica de
frente para parte das construções históricas da cidade e ao lado, por
exemplo, da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, construída a
partir de 1812, ainda no período imperial. Foi lá que ÉPOCA localizou
Ana Cristina Valle na semana passada.
Calada desde que viu sua família envolta na investigação, ela jamais
respondeu a qualquer contato da reportagem quando ÉPOCA revelou o caso,
em maio. Ao ser localizada nos corredores da Câmara, foi sucinta.
Maquiada, com cabelo louro ao estilo Chanel, mais longo na frente e
curto atrás, perfeitamente escovado, ela vestia um macacão azul-marinho
talhado em malha e salto alto. Caminhando no corredor, insistiu que não
queria falar sobre o caso. Nem para se defender. Eximiu-se de qualquer
responsabilidade sobre o envolvimento de seus familiares na investigação
sobre Flávio Bolsonaro. Ao ser questionada sobre os familiares listados
no gabinete de Jair, Flávio e Carlos Bolsonaro, disse que não nomeou
ninguém e que, na época, “não tinha nepotismo”.
Ainda andando, Ana Cristina Valle afirmou que não se sente culpada em
ver o pai, José Procópio Valle, e a irmã Andrea Valle, além dos outros
parentes, alvos de um inquérito que apura peculato e lavagem de dinheiro
no gabinete do ex-enteado Flávio. E se os parentes forem acusados
desses crimes? “Eles vão responder”, disse. Quando ÉPOCA lhe perguntou
se os funcionários eram obrigados a devolver os salários, ela abriu um
sorriso e finalizou: “Não tenho nada a declarar”, disse, dando as
costas, ao se despedir.
Quando Jair Bolsonaro e Ana Cristina Valle se separaram, em 2008, houve
mudanças importantes nos gabinetes. A madrasta deixou a chefia de
gabinete de Carlos Bolsonaro — em seu segundo mandato — em 1º de abril
daquele ano. No lugar dela, no mesmo dia, foi nomeado o então estudante
de Direito Guilherme Henrique de Siqueira Hudson, seu primo. Aos 23
anos, Guilherme Hudson só concluiu o curso na Universidade Estácio de Sá
no final de 2008 — o que o obrigaria a conciliar as tarefas no gabinete
com o final do curso.
Em 26 de agosto de 2009, Hudson enviou uma carta ao
Globo
, que foi publicada pelo jornal na seção do leitor. No texto, elogiou o
vereador Carlos Bolsonaro e tocou em um assunto que parece ser um tema
antigo para o clã: multas de trânsito. Hudson citou uma decisão do
Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) de derrubar uma lei
estadual que pretendia manter radares ligados entre 22 horas e 6 horas.
“O cidadão carioca que tiver que trafegar neste horário, entretanto, não
está a descoberto, pois a Lei Municipal 4.636, de autoria do vereador
Carlos Bolsonaro, promulgada pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro em
26/9/2007, encontra-se em pleno vigor e poderá ser utilizada para anular
as multas que porventura venha a sofrer”, dizia a carta assinada por
Guilherme Henrique de Siqueira Hudson, Resende, Rio de Janeiro.
Ele constou como assessor-chefe de Carlos até dezembro de 2017. No
entanto, ao menos desde 2012, possui residência fixa em Resende, onde
casara em 2011 e abrira um escritório de advocacia, além de uma loja de
decoração com a mulher, a professora Ananda de Menezes Hudson, de 31
anos. Desde 2012, o site do TJRJ mostra que ele atuou em 68 processos na
região de Resende e em cinco na capital. Chegou a fazer concurso para a
prefeitura de Barra Mansa, mas foi reprovado. Pessoas que o conhecem em
Resende jamais souberam de seu cargo na Câmara Municipal do Rio, pois
conhecem suas atividades na cidade no sul do estado. ÉPOCA esteve em seu
escritório no sul fluminense e deixou mensagens, mas Hudson não
respondeu. Resende fica a cerca de 170 quilômetros da capital.
No período em que Hudson é relacionado como assessor-chefe, Marta Valle
foi substituída entre as assessoras de Carlos por Ananda Hudson, então
namorada e agora mulher de Guilherme Hudson. Ela foi nomeada no mesmo
cargo e com o mesmo salário de Marta Valle, em 1º de março de 2009. Lá
ficou até agosto de 2010. Só que, em 2009, ela cursava o último ano do
curso de letras na Associação Educacional Dom Bosco, em Resende.
Conhecida por ser alguém que reunia a turma para atividades, marcou
presença em diversos eventos locais. No portal da faculdade, foi
noticiado que ela integrava, como presidente do centro acadêmico do
curso de letras, a organização da campanha do agasalho em maio de 2009.
Ela só concluiu o curso em novembro daquele ano. Procurada para explicar
como estudava em Resende e trabalhava na Câmara, não respondeu.
Ananda Hudson foi exonerada por Carlos Bolsonaro em agosto de 2010. E,
como de costume, outro familiar herdou a vaga. No lugar dela, foi
nomeada Monique Hudson, cunhada de Guilherme Hudson. Ela também mantém
residência fixa em Resende há pelo menos duas décadas com o marido,
André Hudson, irmão de Guilherme Hudson. Ela ficou lotada no gabinete da
Câmara Municipal até dezembro de 2014, mas, nesse período, também
cursou letras na Associação Educacional Dom Bosco, mesma faculdade de
Ananda Hudson. O casal também teve um filho, que nasceu na cidade em
fevereiro de 2012. Monique defendeu o trabalho de conclusão de curso no
final de 2014 sob o título O discurso feminino e a leitura semiótica do
conto “A moça tecelã”, de Marina Colasanti. Jonathan David Truelove,
colega de faculdade, disse que ela frequentava as aulas normalmente e
era uma aluna perfeccionista. Nunca soube sobre seu cargo na Câmara de
Vereadores do Rio.
Antes de Monique Hudson figurar como assessora de Carlos, o marido dela,
André Hudson, também tinha constado como secretário parlamentar de Jair
Bolsonaro desde 6 novembro de 2006. Como as vagas sempre ficavam entre
pessoas da família, ele entrou no mesmo dia em que Andrea Valle foi
exonerada, rumo à Câmara Municipal do Rio. André tem formação acadêmica
em informática.
Formado pela Universidade Estácio de Sá em 2002, ele próprio descreve
uma série de cursos feitos na área e detalha minuciosamente as empresas
onde trabalhou em seu LinkedIn. No período em que consta como assessor
de Jair Bolsonaro, ele informou na rede que trabalhava na empresa Eco
Sistemas, em Resende. André Hudson descreveu suas funções como o
“responsável por toda infraestrutura de TI e controle logístico da
empresa Farmácia Popular de Resende e coordenação da equipe de técnicos
de TI”. Depois, em fevereiro de 2008, tornou-se oficial temporário do
Exército e trabalhou na área de tecnologia da Academia Militar das
Agulhas Negras (Aman), também em Resende. Ex-colega de trabalho na Aman,
Adriana Dabês disse que “ele trabalhava normalmente no Exército” e
jamais soube de outras atividades. Ele só foi exonerado da Câmara dos
Deputados em 9 de março de 2008. Procurados, nem André nem Monique
Hudson responderam. A assessoria de imprensa do vereador Carlos
Bolsonaro não respondeu aos contatos da reportagem. O Palácio do
Planalto disse que não comentaria.