November 4, 2018

Populismo autoritário

Em uma semana, o novo regime começou a mostrar a cara. Pelo focinho é que se conhece o bicho. Surpresos, só os que acreditavam que a retórica de campanha não se tornaria forma de governo. No primeiro dia como presidente eleito, Jair Bolsonaro reiterou ameaças aos adversários e ameaçou retaliar veículos que não se portarem bem. Pelo Twitter, confirmou ministros e desmentiu notícias. Está claro que apostará na comunicação pessoal e direta com o povo, através das redes sociais, dispensando a mediação da imprensa, e que no Congresso buscará votos ao largo dos partidos. Focinho de populismo autoritário, em que o líder já é chamado de mito. 
Sendo autoindulgentes, podemos debitar ao torpor do resultado eleitoral a falta de reação à altura de duas coisas graves que ele disse, na segunda-feira, na entrevista ao Jornal Nacional. Sobre a ameaça de “varrer estes bandidos vermelhos”, mandando-os para a prisão ou o exílio, confirmou ter se referido às cúpulas do PT e do PSOL. Na mesma fala, havia dito que faria o ex-presidente Lula apodrecer na cadeia e para lá mandaria o senador Lindbergh e o concorrente Haddad. É aterrador, mas foi assimilado. Atacou violentamente a Folha de S. Paulo e ameaçou cortar verbas publicitárias de veículos críticos. É antirrepublicano, mas passou. Houve registros críticos e solidários, mas também aquém da gravidade da fala. 
Agora está nas redes sociais o empresário Luciano Hang, dono das lojas Havan, apontado pela Folha como um dos empresários que pagou pelos disparos de mensagens antipetistas pelo Whatsapp no primeiro turno, pregando o boicote às maquinas Pagseguro. De propriedade do grupo Folha, elas devem garantir faturamento que blinda seus veículos contra a dependência das verbas governamentais.
Na quinta-feira, a primeira entrevista coletiva foi concedida com os microfones colocados sobre uma prancha de bodyboard, na residência do eleito, numa desorganização que parece proposital, destinada a mostrar como ele é simples e prático, diferente de “tudo que está aí”. Os jornais Folha de S. Paulo, O Globo, Valor Econômico, O Estado de S. Paulo, a EBC e a CBN não puderam entrar. Se a decisão não foi dele, como alegou, foi tomada por quem pensa como ele. A falta de uma assessoria de imprensa profissional não é casual. 
Na sexta-feira, ele voltou as usar a rede social para desmentir notícias sobre a recriação de uma CPMF. “Desautorizo informações prestadas junto à mídia por qualq
uer grupo intitulado 'equipe de Bolsonaro'." E com isso, a informação “off the record” não valerá.
Em entrevista ao jornal O Globo, seu filho Eduardo, deputado federal eleito, confirmou que o pai, no governo, continuará fazendo uso intensivo das redes sociais quando estiver governando: “Com certeza. As nossas redes sociais são grandes porque temos uma conexão com o povo. Quando explicarmos as reformas, os nossos eleitores ficarão cientes. Certamente funcionarão como agentes multiplicadores. Nem vou expor os colegas deputados, mas aqueles que forem contra vão ter que explicar suas posições”. Em miúdos, a articulação política fará uso do terror digital.
Os partidos, especialmente o PT, só entenderam o esquema quando ficou evidente a força da máquina de fake news no primeiro turno. O campo democrático, para além da esquerda que será perseguida, não pode repetir o erro. O esquema digital agora será usado para sustentar um projeto de poder. Isso é assustador, num país como o Brasil, num ambiente social envenenado. Estudo da organização Avaaz concluiu que 98,21% dos eleitores de Bolsonaro foram expostos a uma ou mais notícias falsas na campanha, e que 89,77% deles acreditaram que eram verdadeiras. Do kit gay ao comunismo do PT. Por este caminho, o regime pode ser longevo. Mas como governos não produzem soluções na velocidade das redes, pode sobrevir uma enorme frustração de expectativas, e as reações podem levar ao mergulho total no autoritarismo. Moro, que apitou o jogo e entrou pro time vencedor, terá nas mãos todo o aparato repressivo.

November 2, 2018

Novo administrador de Paquetá retira placas com poemas afixadas em árvores e corre o risco de ser exonerado


DEU NO JB

Poesia numa hora dessas? Pois é, querem acabar com a poesia logo no mais lírico dos bairros da cidade. O novo e polêmico administrador regional de Paquetá, o militar aposentado Edson Moreira Brígido, de 57 anos, determinou ontem a retirada de 104 placas de madeira com poemas que os moradores da ilha, por iniciativa própria, haviam pendurado em árvores da orla. Brígido alegou que a medida faz parte de uma ação de ordenamento urbano da cidade.

Não foi esta a primeira polêmica do novo administrador. Ao tomar posse, Brígido divulgou um vídeo em suas redes sociais avisando aos moradores que tinha “poder de polícia” para pôr ordem na ilha e que havia colocado uma equipe monitorando as redes sociais para processar quem ousasse criticá-lo.
  


"Banco na Praça do Imbuca recuperado por artista plastica: administrador proibiu intervenção(Foto: Reprodução)
 
 
“Não é assim que ninguém chega em lugar algum”, comentou o padre Nixon Bezerra, pároco da Igreja do Bom Jesus do Monte, em Paquetá: “A pessoa não pode assumir um cargo e criar problemas desse tamanho. Espera-se de um administrador a capacidade de construir pontes”. Segundo Bezerra, a tradição de se afixar placas em árvores nas praias de Paquetá é antiga, e teria começado ainda nos tempos do prefeito Pereira Passos, que certa vez colocou uma placa em uma árvore no jardim da igreja.

A medida do administrador regional revoltou os moradores. Muitos deles pediram as placas aos garis que as estavam recolhendo. A ideia é reunir todas elas, no domingo, às 10h, em um protesto contra Edson Brígido na frente da estação das barcas. Um abaixo-assinado começou a correr entre os moradores e, até o fechamento desta edição, quase mil dos 4.500 habitantes já haviam assinado o documento que pede a exoneração de Brígido.

Além das plaquinhas, Brígido notificou também a artista plástica Jhale Jamal, informando que ela não poderia mais reformar os bancos de concreto da Praça do Imbuca. Jhale recuperava banquinhos de concreto quebrados e os pintava com motivos floridos. Em seu perfil no Facebook, Jhale protestou contra as medidas. “Nada fazem por Paquetá e não deixam que ninguém faça algo para revitalizar o bairro. O maior inimigo de Paquetá é o poder público municipal”, afirmou a artista.


"Brígido fez campanha para Jair Bolsonaro(Foto: Reprodução)
 
 
“A gente compara Paquetá com a Sucupira do Dias Gomes, temos até as nossas irmãs Cajazeiras, que são um grupo de senhoras do movimento Endireita Paquetá”, conta Ricky Goodwin, editor do jornal local “A Ilha”. Segundo ele, o movimento estaria tentando implantar uma agenda conservadora no bairro, que passa pela proibição das festas nas ruas e o desfile de blocos no Carnaval. “São medidas que não fazem nenhum sentido, afinal Paquetá sempre foi considerada um endereço de músicos e artistas”, diz Ricky.

No fim da tarde de ontem, o secretário da Casa Civil, Paulo Messina, determinou que o administrador regional de Paquetá, Edson Moreira Brígido, recoloque as placas feitas pelos moradores com poesias e que foram retiradas das árvores na região. Caso contrário o administrador será exonerado.
 
 

October 31, 2018

Parente é serpente: Disputa Bolsonaro x Haddad acirrou ânimos em grupos de família no WhatsApp

 


Eliane Trindade

Ambiente conflagrado é traduzido em mensagens também entre amigos e até em comunidades de ioga 

O produtor Ricardo Souza, 27, resiste bravamente no grupo de WhatsApp da família, enquanto o professor universitário Ademar Bueno, 48, já saiu das duas comunidades formadas por parentes via aplicativo de mensagens instantâneas no celular.

 

Reprodução
A razão do desconforto de ambos é a mesma: o mar de memes e de “fake news” disseminados pela internet e que dão combustível para tretas e mais tretas entre familiares próximos, parentes distantes e amigos em tempos de polarização política.
As eleições passaram a nortear todos os temas dos grupos no WhatsApp em intermináveis trocas de farpas entre “coxinhas e petralhas”, “bolsominions e esquerdopatas”, as turmas mais barulhentas das redes sociais.
O tom das conversas tende a ficar mais pesado diante do segundo turno entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT).

“A primeira vez que saí do grupo de WhatsApp da família foi por causa de memes sobre a morte da Marielle. Meu pai mandou várias mensagens falsas, montagem de fotos”, relata Bueno, que foi candidato a deputado estadual pela Rede em São Paulo, mas não se elegeu.
Militante de grupos que pregam a renovação na política, como o Agora, o professor ainda tentou convencer o pai de que era tudo mentira. “Mandava o contraponto, mas não adiantava. Era uma conversa unidirecional, não um diálogo.”
Ele saiu do grupo oficial, mas foi incluído em um novo há três semanas. O clima continuava tenso, agressivo. Não adiantou apelar para o bom senso, nem pedir para que os parentes lessem e refletissem antes de apertar o encaminhar. “A coisa só foi piorando.” O professor saiu de vez do grupo nesta segunda (8). “Cansei de ler coisas absurdas, que machucam.”


O jovem eleitor de Bolsonaro rebate um tom acima o tio petista: “Você vive em Brasília, a roubalheira está na sua frente e só você não enxerga. Não consigo acreditar que um cara tão inteligente acha que realmente o PT seja bom para nosso país.”
O papo áspero se prolonga sem consenso até o desfecho dado pelo tio em defesa da democracia. “Meu caro, só se é democrata até o limite da democracia. É este o paradoxo da democracia: jamais defender algo que a ponha em risco.”
O produtor audiovisual enfrenta o mesmo dilema diante da troca intensa de mensagens entre os 25 parentes do Amazonas. Após a definição do primeiro turno, Souza se vê o tempo todo trafegando em um campo minado ao alcance da mão.
“Dois primos já saíram do grupo. Ninguém confirma de onde vêm as informações. É muito meme com notícias falsas e preconceitos. Horrível. Dá um desespero, peço que pesquisem e façam o básico, consultar o Google antes de mandar.”
Politicamente de centro-esquerda e homossexual assumido, sente-se pessoalmente atingido pelas mensagens homofóbicas disseminados pelos parentes que votam em Bolsonaro.
Ele conta que um tio postou uma série de notícias sobre o “kit gay”, que levou Souza a ter uma discussão com o próprio pai. “Disse que era uma decepção justamente ele, que me ensinou a pesquisar, a ler, agora compartilhar memes preconceituosos e mentirosos.”
As respostas dos familiares a argumentos e dados deixam o produtor ainda mais desolado: “Eles negam qualquer informação que venha da mídia e criam a própria verdade. Vivem em um mundo paralelo”.
Mal-estar que se desdobra na vida real: o jornalista Maurício* desistiu de férias na praia com 20 familiares. Ele escreveu um longo texto para explicar que, como homossexual assumido, não se sentia confortável entre parentes eleitores de Bolsonaro.
“Saber que alguns de vocês contribuem para esta situação dobra o meu sofrimento e torna impossível que dividamos os próximos dias neste lugar paradisíaco de que tanto gosto”, escreveu. “Simplesmente não seria capaz de cumprimentá-los, abraçá-los ou sentar à mesa sem me lembrar que alguns de vocês tomaram uma decisão que me coloca em grave risco.”
A paisagista Helena*, que votou em Ciro Gomes (PDT) em busca de uma terceira via que não se concretizou, rompeu com a mãe, professora e eleitora de Haddad.
“Ela achou absurdo o meu voto e passou a agir de maneira hostil. Chegou a um ponto em que se recusa a ter um diálogo com quem pensa diferente. A extrema esquerda é também bem pouco democrática”, critica.
 
A tendência é piorar diante de um pleito entre dois extremos do espectro ideológico.
O único remanescente petista no grupo de médicos de São Paulo precisa conviver com uma enxurrada de memes pró-Bolsonaro. O ortopedista foi acordado nesta segunda (8) com um libelo contra o Nordeste, única região do país em que Haddad liderou o pleito.
“Fico triste de ver tantos colegas falando mal de nordestinos e médicos votando em um candidato que defende a tortura”, diz ele, que tem optado pelo silêncio para preservar amigos de longa data, tão solidários em momentos delicados de sua vida.
Causa estupor em um grupo de familiares baianos as mensagens iradas de um primo padre, uma das figuras mais carismáticas e queridas da numerosa família, com parentes espalhados pela Bahia, por Brasília e São Paulo.
Nem um grupo de WhatsApp formado por professoras de ioga de Goiás escapou da pregação de ódio.
Tudo começou quando uma professora resolveu perguntar em quem os colegas iriam votar. Foi o suficiente para o comportamento zen ficar em modo avião.
Um logo declarou voto em Bolsonaro. Imediatamente vieram as reações. “Sério mesmo? Você é a favor do estupro? Do machismo? Do racismo? Da homofobia? Porque é isso que representa o 17”, respondeu uma professora.
“Cantamos Shanti, Shanti, Shanti, no final das aulas, pedindo paz. O Bolsonaro significa violência. O contrário do ioga, que prega união e não violência”, acrescentou outro, sobre um dos princípios básicos da prática milenar.
“Sou capitalista. Quero ganhar muito dinheiro para ajudar as pessoas”, rebateu outro. “Quero um país honesto, com pessoas honestas. Quero alguém que defenda a preservação da moral da família. Quero ver o Brasil no auge.”
A discussão não cessava. “Deus nos salve do fascismo e também do comunismo.” A troca de mensagens continuou, de forma cada vez mais acirrada, até que a turma do “deixa disso” resolveu entrar em campo para apaziguar os ânimos.
“Esse grupo é de ioga, vamos honrar essa ciência sagrada, não vamos nos dividir, vamos respeitar uns aos outros. Queremos o melhor para o Brasil, mas cada um tem suas convicções. O momento pede paz e tranquilidade”, finalizou um professor, tentando reinstalar o comportamento zen no grupo.
Haja ioga e paciência. O jeito é buscar estratégias para sobreviver no WhatsApp, nos almoços de domingo. “Não uso mais o argumento LGBT, não tem empatia”, conforma-se Souza. Bueno também se deu conta de que não adianta gritar mais alto do que o pessoal que não quer consenso. “A gente busca o diálogo, o meio termo. Intolerância causa cegueira e surdez”, é o novo mantra do professor que ainda acredita na política, mas deu um tempo do WhatsApp.
E para aqueles que não enxergam reconciliação com a família no curto prazo, o grupo "Órfãos do WhatsApp" no Facebook oferece consolo e alternativas para a noite de Natal.
 
Eliane Trindade
Editora do prêmio Empreendedor Social, editou a Revista da Folha. É autora de “As Meninas da Esquina”.

 

Quem discorda da eleição de Bolsonaro deve escutar e resistir


Pablo Ortellado

 

O pior aconteceu. Um candidato com posições muito extremas, que fez seguidas declarações desprezando os direitos humanos, defendendo as execuções extrajudiciais, desprezando o Congresso, combatendo a independência dos poderes, atacando a liberdade de imprensa e que, além de tudo, ofendeu mulheres, negros e homossexuais —esse candidato, com a plataforma mais abominável, foi eleito presidente, pelo voto.
Há duas tarefas para aqueles que discordaram da eleição de Bolsonaro: escutar e resistir. Parece contraditório propor simultaneamente escutar e resistir, mas os objetos são diferentes —é preciso escutar os eleitores e é preciso fazer oposição ao governo.
Sem dúvida, a tarefa mais desafiadora é escutar. Aqueles que estão perplexos com essa eleição já se deram conta, a esta altura, de que perderam contato com a base da sociedade.
Muitas vezes, porém, queremos refazer esse vínculo, mas com o intuito exclusivo de que seja a sociedade a nos escutar. Queremos influenciar, mas não queremos ser influenciados de volta.
Para estabelecer esse contato, será preciso começar a falar para um público que não dá atenção aos professores, aos jornalistas, aos artistas e aos ativistas e que nos trata, com alguma razão, como uma elite progressista arrogante.

Se quisermos, com humildade, estabelecer essa interlocução, vai ser preciso, na mesma medida em que buscamos transformá-la, nos deixarmos transformar por ela.
Vamos ter que gastar menos energia nos tornando mais puros e, assim, cada vez mais diferentes e mais destacados da sociedade e atacar os problemas de desigualdade e opressão que nos afligem segundo os modos, as ênfases e as prioridades da maioria das pessoas que os vivem.
Simultaneamente a essa tarefa, é preciso fazer oposição democrática ao governo Bolsonaro a partir do primeiro dia.
Sem dúvida, as declarações de Bolsonaro e de seus colaboradores mais próximos puseram no horizonte que os limites constitucionais podem não ser respeitados. Mas entre colocar no horizonte e fazer há ainda certa distância. E é dever da oposição não colaborar para consolidar o imaginário autoritário.
Neste momento, é preciso como nunca fortalecer a imprensa, o Judiciário, o Ministério Público, as ONGs e a sociedade civil, garantindo sua independência e seu caráter permanentemente vigilante.
Apenas essa combinação de força das instituições e vigor da sociedade podem garantir que Bolsonaro não governe atropelando as regras, como fizeram Duterte, Maduro ou Erdogan, mas seja constrangido e limitado como, de alguma maneira, têm sido Trump e os populistas de direita na Europa.

October 28, 2018

Caetano Veloso: Dark Times Are Coming for My Country





“Brazil is not for beginners,” Antonio Carlos Jobim used to say. Mr. Jobim, who wrote “The Girl From Ipanema,” was one of Brazil’s most important musicians, one whom we can thank for the fact that music lovers everywhere have to think twice before pigeonholing Brazilian pop as “world music.”
When I told an American friend about the maestro’s line, he retorted, “No country is.” My American friend had a point. In some ways, perhaps Brazil isn’t so special.
Right now, my country is proving it’s a nation among others. Like other countries around the world, Brazil is facing a threat from the far right, a storm of populist conservatism. Our new political phenomenon, Jair Bolsonaro, who is expected to win the presidential election on Sunday, is a former army captain who admires Donald Trump but seems more like Rodrigo Duterte, the Philippines’ strongman. Mr. Bolsonaro champions the unrestricted sale of firearms, proposes a presumption of self-defense if a policeman kills a “suspect” and declares that a dead son is preferable to a gay one.
If Mr. Bolsonaro wins the election, Brazilians can expect a wave of fear and hatred. Indeed, we’ve already seen blood. On Oct. 7, a Bolsonaro supporter stabbed my friend Moa do Katendê, a musician and capoeira master, over a political disagreement in the state of Bahia. His death left the city of Salvador in mourning and indignation.


Recently, I’ve found myself thinking about the 1980s. I was making records and playing to sold-out crowds, but I knew what needed to change in my country. Back then, we Brazilians were fighting for free elections after some 20 years of military dictatorship. If someone had told me then that some day we would elect to the presidency people like Fernando Henrique Cardoso and then Luiz Inácio Lula da Silva, it would have sounded like wishful thinking. Then it happened. Mr. Cardoso’s election in 1994 and then Mr. da Silva’s in 2002 carried huge symbolic weight. They showed that we were a democracy, and they changed the shape of our society by helping millions escape poverty. Brazilian society gained more self-respect.
But despite all the progress and the country’s apparent maturity, Brazil, the fourth-largest democracy in the world, is far from solid. Dark forces, from within and from without, now seem to be forcing us backward and down.


Caetano Veloso in 1993.Foto de: Laif/Redux

Political life here has been in decline for a while — starting with an economic slump, then a series of protests in 2013, the impeachment of president Dilma Rousseff in 2016 and a huge corruption scandal that put many politicians, including Mr. da Silva, in jail. Mr. Cardoso’s and Mr. da Silva’s parties were seriously wounded, and the far right found an opportunity.
Many artists, musicians, filmmakers and thinkers saw themselves in an environment where reactionary ideologues, who — through books, websites and news articles — have been denigrating any attempt to overcome inequality by linking socially progressive policies to a Venezuelan-type of nightmare, generating fear that minorities’ rights will erode religious and moral principles, or simply by indoctrinating people in brutality through the systematic use of derogatory language. The rise of Mr. Bolsonaro as a mythical figure fulfills the expectations created by that kind of intellectual attack. It’s not an exchange of arguments: Those who don’t believe in democracy work in insidious ways.

The major news outlets have tended to minimize the dangers, working in fact for Mr. Bolsonaro by describing the situation as a confrontation between two extremes: the Workers’ Party potentially leading us to a Communist authoritarian regime, while Mr. Bolsonaro would fight corruption and make the economy market friendly. Many in the mainstream press willfully ignore the fact that Mr. da Silva respected the democratic rules and that Mr. Bolsonaro has repeatedly defended the military dictatorship of the 1960s and ’70s. In fact, in August 2016, while casting his vote to impeach Ms. Rousseff, Mr. Bolsonaro made a public show of dedicating his action to Carlos Alberto Brilhante Ustra, who ran a torture center in the 1970s.
As a public figure in Brazil, I have a duty to try to clarify these facts. I am an old man now, but I was young in the ’60s and ’70s, and I remember. So I have to speak out.
In the late ’60s, the military junta imprisoned and arrested many artists and intellectuals for their political beliefs. I was one of them, along with my friend and colleague Gilberto Gil.

 
Brazilian Army chiefs meeting in Rio de Janeiro in 1969.Foto de: Associated Press Photo
Gilberto and I spent a week each in a dirty cell. Then, with no explanation, we were transferred to another military prison for two months. After that, four months of house arrest until, finally, exile, where we stayed for two and a half years. Other students, writers and journalists were imprisoned in the cells where we were, but none was tortured. During the night, though, we could hear people’s screams. They were either political prisoners who the military thought were linked to armed resistance groups or poor youngsters who were caught in thefts or drug selling. Those sounds have never left my mind.
Some say that Mr. Bolsonaro’s most brutal statements are just posturing. Indeed, he sounds very much like many ordinary Brazilians; he is openly demonstrating the superficial brutality many men think they have to hide. The number of women who vote for him is, in every poll, far smaller than the number of men. To govern Brazil, he will have to face the Congress, the Supreme Court and the fact that polls show that a greater majority than ever of Brazilians say democracy is the best political system of all.
I quoted Mr. Jobim’s line — “Brazil is not for beginners” — to bring a touch of funny color to my view of our hard times. The great composer was being ironic, but he spoke to a truth and underlined the peculiarities of our country, a gigantic country in the Southern Hemisphere, racially mixed, the only country with Portuguese as its official language in the Americas. I love Brazil and believe it can bring new colors to civilization; I believe most Brazilians love it, too.
Many people here say they are planning to live abroad if the captain wins. I never wanted to live in any country other than Brazil. And I don’t want to now. I was forced into exile once. It won’t happen again. I want my music, my presence, to be a permanent resistance to whatever anti-democratic feature may come out of a probable Bolsonaro government.
Caetano Veloso is a Brazilian composer, singer, writer and political activist.

A Genuine Fascist Is on the Verge of Power in Brazil




  • By Andy Robinson, www.thenation.com
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  • These were true believers, camped outside Jair Bolsonaro’s plush beachside home in the nouveau riche resort of Barra da Tijuca, 25 miles from the center of Rio and a stone’s throw from the Olympic village and the Atlantic surf. “He is the messiah! He was knifed, but rather than stay at home or lie on the beach, he is staying on to fight for his country,” said a woman wearing the jersey of Brazil’s national soccer team with Bolsonaro’s name printed on the back where usually you might see that of Neymar or Marcelo. The far-right candidate, now the clear favorite in Sunday’s presidential runoff election, who was stabbed before the first round of voting, now runs his campaign from his Barra da Tijuca condominium with the help of his three sons, two of whom are members of Congress.
    The Bolsonaristas were ebullient as their hero’s lead over left-wing Workers’ Party (PT) candidate Fernando Haddad widened to 20 points. “I’m seeing the light at the end of the tunnel,” said José Ruiz Barcellos, who wore an Incredible Hulk T-shirt, his Armani shades reflecting the green and yellow Brazilian flags waved frantically by the assembled Bolsonaristas. The flag says “Ordem e Progresso,” but the Bolsonaristas put special emphasis on order.
    “He will fund the police—we can’t go out here for fear of being mugged,” said another woman, who dismissed claims that Bolsonaro is violently misogynistic as fake news, despite abundant evidence to the contrary. A jeep with a “genuinely militarized” sticker was loaded with inflatable dolls of longtime Workers’ Party leader and former Brazilian president Luiz Inácio Lula da Silva in a striped prison uniform.
    The usual rage was vented against the Workers’ Party and its nonexistent plan to turn Brazil into another Venezuela, though a new enemy had entered the rhetoric: The establishment daily Folha de S.Paulo has now been earmarked for attacks after it exposed an avalanche of disinformation by Bolsonaro supporters on Facebook and WhatsApp. “I know you’re from Folha de S.Paulo; you are powerful, but soon you will lose,” said another woman, bizarrely convinced, despite my faltering Portuguese, that I worked for the Brazilian paper. When Bolsonaro drove by in a black SUV with tinted windows, the crowd went wild and a cacophony of car horns filled the avenue. “Mito, Bolsonaro chegou!” they shouted (“The legend, Bolsonaro, has arrived!”)
    Once inside, the candidate made a video for transmission at the Bolsonarista rally that same day in São Paulo, in which he pledged that, once in power, he would “banish the marginal reds [delinquents of the left] from the fatherland; they will leave or be imprisoned,” he threatened, in a “cleansing never seen before in this country.” With a blank expression, his gaze barely connecting with the camera, he then added that former PT president Lula, controversially imprisoned for money laundering, “will rot in jail” and soon be accompanied by Haddad. This is the sort of talk that the Bolsonarista base loves to hear and that has already cost the life of Reginaldo Rosário da Costa, a 63-year-old black capoeira master in Salvador de Bahia, murdered by a Bolsonaro supporter on October 8. That was one of a series of attacks on Afro-Brazilians and members of the LGBT community in recent weeks.
    But the hard-core Bolsonaristas are just the beginning of Brazil’s dangerous flirtation with the ex-captain of the parachute regiment. After more than two decades of insignificance, spouting almost comical rhetoric from his solitary seat in a corrupt Congress, Bolsonaro has moved irresistibly, like Brecht’s Arturo Ui, into the hearts if not the minds of millions of disenchanted Brazilians. His supporters are everywhere in Rio, and not just among those well-paid white males enamored of guns or the evangelicals espousing “family vales,” the traditional base of Bolsonaro, himself a gun-loving Christian fundamentalist, baptized in Israel in 2016.
    In the past month, Bolsonaro has become mainstream. “I’m voting Bolsonaro,” said a young black woman who served pão de queijo in the bakery across the road from Rio’s breathtaking lagoon, though she could not explain why. “We need jobs and investment and the markets like Bolsonaro,” said a parking attendant in Copacabana who supported tough police action against drug traffickers in the favelas above (a gunfight between police and traffickers broke out nearby just hours afterward). There were even Bolsonaro voters in the Afro-Brazilian Umbanda spiritual center in the peripheral Rio district of Oswaldo Cruz, considered a school of Satanism by Bolsonaro evangelicals. “I’ll vote Bolsonaro; the system is corrupt and I want someone different,” said Rodrigo, one of the counselors who induce spiritual possession with the help of Afro-Brazilian Vodum techniques.
    These were not the fanatics of Barra da Tijuca, just ordinary cariocas who have come to believe that the candidate is the last chance to fight a dysfunctional political system and a crime-ridden society. Support for the far-right icon has snowballed in the past three weeks, with millions of Brazilians seduced by what they see as an anti-establishment maverick who offers fast solutions to violent crime, mass unemployment, and endemic political corruption. Most do not approve of Bolsonaro’s violent rhetoric, expressing prejudices so openly that even Donald Trump would blink. But such is the disenchantment with the status quo in Brazil that his outrageous statements appear to make him credible as a politician who will break the system.
    Given that Lula’s position in the polls was dominant until he was forced by the electoral authority to withdraw his candidacy in September, it is clear that a significant number of the ex-president’s supporters will now vote for Bolsonaro, an absurd feature of this election, in which confusion and disinformation have undermined logic. The pro-Bolsonaro wave is strongest in the south and center, which are whiter and wealthier, and in the megalopolis of São Paulo and Rio, while the PT hangs on in the northeast, Lula’s homeland, where Haddad is campaigning in an attempt to stem the Bolsonaro tide in the party’s traditional base.
    How did this happen so quickly? After all, only weeks before the first-round election on October 7, most analysts expected Bolsonaro to be rejected in a second round, with a pro-democratic vote choosing Haddad as the least of the evils. A powerful last-minute surge before the first round, though, which took Bolsonaro’s vote to 46 percent, changed perceptions in the last week of the campaign. The pro-Bolsonaro wave has only strengthened since then, cresting at around 57 percent of the electorate in the latest polling.
    Few expected this level of support for a candidate of such extreme right-wing views—as close to fascism as you will get in the world today, despite a growing number of contenders. To cite a few examples: Bolsonaro’s role model is the Brazilian general Brilhante Ustra, whose army unit tortured dissidents—former president Dilma Rousseff was one victim among hundreds—during the military dictatorship of 1964–85. Bolsonaro’s son Eduardo announced at a meeting in July that was filmed and circulated widely this week that “all you need is a soldier and a corporal to close the Supreme Court.” Bolsonaro’s candidate for vice president, retired general Hamilton Mourão, has also defended military intervention to end corruption in the judicial system. Bolsonaro has stated in the past that 30,000 people would need to be killed in a civil war against communists before democracy is possible in Brazil. His misogyny, homophobia, and racism are so openly expressed that even Marine Le Pen called his rhetoric unpleasant.
    Since 80 percent of the Brazilian public support democracy, according to a recent Folha poll, Haddad was hoping that a broad alliance of political, civic, and business leaders would help to educate a poorly informed electorate—many of them denied basic education by centuries of subjugation to a privileged elite—about Bolsonaro’s true colors. But as the October 28 election approaches, no such alliance has emerged.
    Rather than point out the dangers inherent in a Bolsonaro victory, investors in financial markets have euphorically celebrated Bolsonaro’s meteoric ascent, with bank analysts publicly cheering his commitment to radical privatization, pension “reform,” tax cuts, and the downsizing of the Brazilian state. Bolsonaro’s University of Chicago–trained economic adviser, Paulo Guedes, was eulogized by brokers on Avenida Paulista. The real has strengthened and the stock markets have posted double-digit increases. Instead of rejecting Bolsonaro’s tirades against diversity and freedom of expression, corporate chiefs such as the head of beer-maker Ambev have readily met with Bolsonaro and chosen to warn against the PT’s defense of state-owned companies and plans to rein in the power of private banks.
    According to Folha de S.Paulo, leading bank executives from Bank of America, Goldman Sachs, and Santander are being considered for posts in the Bolsonaro government. This has all helped to give him a more acceptable veneer, even to those who do not sympathize with his extreme views. Markets are watched closely here by an electorate that is punished by every inflationary depreciation of the real and every consequent hike in interest rates.
    The intrepid Harvard-trained attorneys of the Lava Jato (car wash) anti-corruption probe lent a hand to Bolsonaro by re-releasing—months after its initial publication, and just as Haddad was gaining momentum before the first round—old plea-bargain testimony from former Lula finance minister Antonio Palocci that was damaging to the PT. Even leading judges appear more concerned about the PT than about the Bolsonaro family, despite the extremist candidate’s scant respect for Brazil’s Supreme Court. Three examples: The electoral authority banned a PT election ad that showed images of victims of torture ordered by Bolsonaro’s hero, Brilhante Ustra (PT polling showed that this campaign had been effective in countering Bolsonaro’s image as the new messiah). Second, Bolsonaro’s fake-news campaign on WhatsApp has been only mildly criticized by judges. Third, the Supreme Court has turned down a request by Folha de S.Paulo to interview Lula da Silva about the questionable charges of corruption against him.
    Of the candidates defeated in the first round, only Marina Silva—the environmental champion who is understandably appalled by Bolsonaro’s plans to give carte blanche to Amazon deforestation and to withdraw from the Paris climate accord—has declared support for Haddad, although even that came late. Geraldo Alckmin, the establishment candidate for the center-right Brazilian Social Democracy Party (PSDB), who took only 5 percent of the vote in the first round, has refused to take sides. Fernando Henrique Cardoso, the former president and PSDB member who supported Alckmin, has criticized Bolsonaro but has not taken the crucial step of endorsing Haddad. Not even Ciro Gomes, former minister in the first PT government along with Haddad, has actively supported him. After taking 12 percent of the vote on a center-left platform in the first round, he went on vacation to Europe, calling Brazil “a sick country.”
    After Bolsonaro’s incendiary speeches from his Barra da Tijuca home on Sunday and the support of his son for a corporal-led putsch against the Supreme Court, some in the establishment appear to have finally awoken to the dangers. Two Supreme Court judges condemned Bolsonaro Jr.’s remark as a violation of the rule of law (though so far, none have filed suit against Bolsonaro or questioned the legality of his candidacy). Cardoso said the comment “stinks of fascism.” Cardoso and other PSDB leaders have reportedly agreed to draw up a manifesto in defense of democracy, although without explicitly supporting Haddad.
    This is almost certainly too late. And support for Haddad from the discredited political leaders may even strengthen Bolsonaro’s rising wave of support, driven by an effective operation of false news in a country rivaled only by the United States for its addiction to social networks. Anti-PT sentiment is intense among half the electorate, fed constantly over the past five years by politically motivated attorneys who have targeted the PT for corruption, which is endemic across all parties in Brazil.
    The news that Bolsonaro is considering appointing Lava Jato judge Sergio Moro—responsible for Lula’s imprisonment—to the Supreme Court will help the far-right candidate, though Moro’s reputation as superhero (he is a fan of Batman and Superman) has faded in the past year, as more evidence has emerged of his political bias. The PT’s disastrous economic mismanagement in the Dilma Rousseff years—before her impeachment in 2016—combined with the failure of her successor Michel Temer’s subsequent policies, is another factor in Bolsonaro’s rise. The austerity program implemented by Rousseff worsened the recession, while opposition in Congress and the media accused her of fiscal profligacy, a disastrous combination for the PT’s credibility, though Temer continued on the same path. At the same time, the steady growth of conservative evangelicalism among the Brazilian poor has fueled a culture war that has detached working-class voters from the left.
    The Brazilian elite’s failure to support Haddad is another reminder that keeping the PT out of government is now considered by many of them to be a greater priority than democracy itself. After the collapse of the center-right, Bolsonaro seems to be the only option for those in São Paulo—and Wall Street—who support radical liberalization of the Brazilian economy.
    “They will pay the price for this. The PT is the only party fighting fascism. This will give the left the moral advantage in the future, and Lula will be seen increasingly as a Mandela,” said an economist in Rio. Indeed, if Bolsonaro’s pledge to banish “marginal reds” from the country becomes more than empty rhetoric, the coming administration may take the so-far failed strategy to destroy the PT into new, more violent terrain.
     

Um diálogo com Stefan Zweig sobre Jair Bolsonaro


 



 

André Singer


 O escritor Stefan Zweig (1881-1942) me ligou ontem de manhã (ele não usa WhatsApp).

— Bom dia, Stefan, como vai?
— Estou preocupado com a eleição de domingo aí no Brasil.
— Eu também.
— Mas acho que você ainda não percebeu direito o que está acontecendo. Leia “Autobiografia: O Mundo de Ontem”, que escrevi antes de me suicidar em Petrópolis (RJ).
— Deixa passar o pleito.
— O método da extrema direita brasileira é o mesmo do nacional-socialismo: uma dose de cada vez, e, depois de cada dose, uma pequena pausa. Sempre só um comprimido e depois esperar um pouco para verificar se não era forte demais, se a consciência do mundo tolerava essa dose.
— Do que está falando?
— Veja, por exemplo, a reação de Jair Bolsonaro (PSL), esta semana, diante da má repercussão do vídeo em que o seu filho, Eduardo, ameaçava fechar o Supremo Tribunal Federal com “um soldado e um cabo”.
— Sim, o que há com essa reação?
— O candidato, com ar compungido na TV, pediu “desculpas ao Poder Judiciário”, dizendo não ter sido a intenção de Eduardo atacar “quem quer que seja”. A técnica é ir experimentando devagar, para descobrir até onde se pode ir a cada momento.
 — Não serão apenas bravatas?
— Nós na Alemanha e na Áustria não acreditávamos nem um centésimo ou milésimo ser possível o que poucas semanas mais tarde haveria de eclodir. Monstruosidades como queimas de livros, que poucos meses depois seriam um fato, ainda estavam longe de qualquer compreensibilidade mesmo para pessoas de larga visão.
— O pessoal aqui pensa que as instituições estão funcionando e que elas impedirão o arbítrio.
— Engano. O clima de ameaça à liberdade de expressão tomou conta de parte das instituições. Repare nas ações policiais que ocorreram em 12 universidades nos últimos dias. Durante três décadas de democracia o território universitário foi inviolável e, de repente, aulas sobre fascismo são interrompidas à força. Isso se chama Estado policial.
— Você exagera, Stefan, eles possuíam mandados judiciais.
— Você fica lendo em casa e não ouviu o que Bolsonaro disse para os seus apoiadores na Paulista domingo passado. Ele afirmou que os “marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”. A sociedade já foi intimidada. Temendo as “brigadas conservadoras”, Fernanda Torres suspendeu a encenação de uma peça prevista para novembro.
Desliguei apreensivo. Talvez Zweig estivesse apavorado. Por via das dúvidas, saí para virar mais uns votos. Não vale a pena pagar para ver se ele tem razão.

PS - Grato a Elio Gaspari pela inspiração. O texto utiliza trechos, em adaptação livre, do livro citado.

ilustração Loredano

October 23, 2018

Rompendo a violencia enrustida




BRUNO MARON

Há alguns anos, o jurista Fábio Konder Comparato deu uma entrevista brilhante para a revista Caros Amigos onde falava sobre a democracia no Brasil. Ou melhor, a ausência dela.

Como consequência do regime escravista que marcou profundamente a nossa mentalidade coletiva, havia um modelo clássico na distribuição de papéis no organismo social: O senhor de escravos, por exemplo, quando vinha à cidade, estava sempre elegantemente trajado, era afável, sorridente e polido com todo mundo. Bastava, no entanto, voltar ao seu domicílio rural, para que ele logo revelasse a sua natureza grosseira e egoísta. Nós mantivemos essa duplicidade de caráter em toda a nossa vida política até agora. Konder também enfatiza a dissimulação do brasileiro em relação a própria violência.

Pois bem, estamos vivenciando um rompimento com essa violência enrustida. Floresce uma franqueza inédita em relação à faceta mais brutal da população. Identifico sobretudo um triunfo da violência - que desemboca em outros territórios - no campo da linguagem, tão maltratada e surrada desde sempre, sem cerimônia. Considerando o fato de que a linguagem mobiliza uma espécie de corpo social encadeando transformações de ordem política, vejo que a campanha do Bolsonaro não tem nenhum pudor em promover uma orquestração semiótica dos afetos através das táticas mais rasteiras possíveis: entupir as pessoas de palavras, regras e representações genéricas de ordem, manipulação do pânico moral e fustigação de uma reatividade automática, consolidação de uma dualidade pueril amparada pelo mito da corrupção isolada. Tudo isso sendo papagaiado em proporções geométricas por pessoas estourando as varizes num frisson constrangedor de antipetismo. É a commodity do medo.

A prosperidade dessa gestão do afeto triste só mostrou o quanto estamos miseráveis. Na minha perspectiva, violência e miséria estão intimamente conectadas. Entretanto, é necessário assinalar o fenômeno da miséria menos evidente do que a sócioeconômica, sendo esta um problema mais objetivo e passível de procedimentos de cunho político e administrativo. São as misérias cultural, ética e espiritual que estão dando o ar da sua graça. Se existe algo de democrático no Brasil, é a miséria; ela se espalha sem preconceitos de qualquer espécie por todos os setores da sociedade.

Não me surpreende que a menina dos olhos da iconografia Bolsonarista seja o revólver. A arma de fogo me soa como a expressão máxima do reducionismo e portanto, de um pensamento miserável que grassa no Brasil contemporâneo sem fronteiras ou limites de ação. A arma resolve tudo, é imediatista e sacia a ansiedade dos espumantes por 'justiça'. Pra muitos significa a limpeza, uma espécie de corte de pessoal, a intimidação necessária e a extensão falocêntrica de um corpo despótico. Óbvio dizer aqui o quanto a arma de fogo amplifica o nível de covardia de um ser humano. A ideia de que uma pessoa de bem (existe algo mais CRETINO do que esse termo?) não se modifica ao adquirir uma arma de fogo é absolutamente ingênua. Pra mim, esse tesão que as pessoas sentem por arma é a velha sanha pelo pequeno poder, uma das nossas maiores tradições. Mente pequena, pequeno poder.

E por falar em tradição, eu adoraria entender o que Bolsonaro defende quando fala da FAMÍLIA TRADICIONAL BRASILEIRA. Tradição compreende uma série de doutrinas, saberes, ritos e costumes que interagem continuamente com o presente, fecundando o futuro. O que esse cara defende é muito mais um tradicionalismo barato, colocando as tradições numa esfera de impermeabilidade e coagulação histórica. É um passadista dos mais toscos, basta ver quem são os grandes ‘líderes’ que ele admira.

É bizarro imaginar a possibilidade de ver in loco esse Handmaid’s Tale de baixo orçamento no Brasil. E a julgar pelo gosto nostálgico do Bolso, veremos dentro da cela, numa tv de tubo com bombril na antena. Tô fora.

Bolsonarista chega ao poder na Ilha de Paquetá


DA COLUNA DO NOBLAT

Estimada em 4.500 almas, a população fixa da pacata Ilha de Paquetá, a 15 quilômetros do centro do Rio, começa a respirar novos ares. Nem bem ali o deputado Jair Bolsonaro (PSL) havia colhido a maior votação de um candidato a presidente da República, o prefeito Marcelo Crivella apressou-se a agradá-lo com a nomeação de um novo administrador para ilha.

Sai Edson Santos, indicado há dois anos pelo próprio Crivella. Entra Edson Moreira Brígido, militar da reserva da Força Aérea Brasileira, apoiado pelo movimento “Endireita Paquetá” que reúne os mais aplicados ativistas políticos da ilha que suaram as camisas para conferir a Bolsonaro todos os votos possíveis. Moreira Brígido não mora em Paquetá, mas isso é o de menos.

Ele é mais antigo no PSL do que o próprio Bolsonaro, que só este ano entrou no partido, o sétimo de sua carreira política. Moreira Brígido – ou “Barão de Pontinha” como se assina também – foi candidato a deputado estadual pelo PSL em 2002 e perdeu. Em 2010, foi candidato a deputado federal e só conseguiu 510 votos, 0,01% do total de votos em disputa.

Este ano não concorreu. Mas valeu-se de sua página no Facebook para fazer campanha por Bolsonaro. Em vídeo postado no Youtube há dois anos, ele critica a candidatura de Marcelo Freixo (PSOL) à prefeitura do Rio, manda um alô para o ator Alexandre Frota e antecipa seu voto em Bolsonaro para presidente. Não sem antes anunciar que estava no melhor de sua forma física.

No Facebook, além de bater continência para o capitão e lembrar que faltam poucos dias para que o país se livre “da maior facção criminosa” de sua história, Moreira Brígido posta uma foto sua ao lado do general da reserva Augusto Heleno, um dos mentores de Bolsonaro, e outras que sugerem o seu empenho em curtir o melhor que a vida possa lhe oferecer. Mulheres, por exemplo.

Abaixo de uma das fotos, onde posa de calção e com os braços levantados para destacar o pouco volume da barriga, Moreira Brígido anotou a título de comentário: “Vão malhar gente. Pelo menos arranjem alguma coisa para fazer. Transem com suas mulheres. Isso também exercita o corpo e a mente. Sabiam?”. Moreira Brígido ficou mais desinibido desde que se divorciou.

O novo administrador da Ilha de Paquetá já começou a limpeza política que se esperava dele. Funcionários com viés de esquerda estão sendo trocados por bolsonaristas de raiz. Os dispensados e os que negaram o voto a Bolsonaro se articulam para fazer oposição a Moreira Brígido. A paz na ilha está por um fio.

October 22, 2018

1968 não terminou bem para minha tia Zenir



MAURO VENTURA



1968 não terminou bem para minha tia Zenir. Aos 38 anos, ela ficara viúva em abril, quando meu tio Jair morreu de câncer no pulmão, após meses hospitalizado. Mais tarde, em dezembro, logo após o AI-5, foi a vez de seu irmão Zuenir ser preso. Três agentes haviam chegado lá em casa pela manhã. Eram simpáticos, conversaram comigo, mas estranhei quando meu pai foi para o quarto se arrumar e voltou com uma sacola. Eu tinha 5 anos e perguntei: “Ué, pai, você vai viajar com eles?” Ele me tranquilizou: “Vou, mas papai volta logo.” Foi levado para "prestar esclarecimentos" e só retornaria para casa três meses mais tarde.
Um ou dois dias depois que ele foi conduzido pelos agentes para o Sops (Seção de Ordem Política e Social), uma delegacia da PF instalada na Praça XV, minha mãe e meu tio foram levar roupas, escova e pasta de dente. Sem qualquer explicação, também acabaram detidos.
Assim que viu a mulher e o irmão serem presos, meu pai explicou para o delegado Antônio da Costa Sena que sua filha – minha irmã Elisa, à época com 4 anos – estava com coqueluche, tendo acessos de tosse. “Isso é problema seu”, foi a resposta seca.
- Fiquei apavorada, estava sem notícias dos três – lembra minha tia hoje, quando se completam 50 anos daquele período.
Ela, que já cuidava sozinha das duas filhas, teve que passar a tomar conta também de mim e de minha irmã. Um dia, uma amiga nossa da Urca, Claudia, disse a ela, a respeito de outro vizinho, um militar do Exército: “Esse coronel está paquerando você.” Minha tia desconversou: “Para com isso, Claudia!” Mas ela insistiu: “É sim. Quando você passa, ele fica olhando.”
Minha tia não deu bola. Até que, desesperada pela falta de informações, bateu à porta da casa dele e explicou a situação: “Meus irmãos e minha cunhada foram presos, não sei onde estão. Minha sobrinha está doente, estou sem notícias.” Ele prometeu apurar: “Fique tranquila, vou ver o que posso fazer.” À noite, o militar foi lá em casa e contou que os três estavam no Sops.
Minha mãe passava o dia sentada num banco na delegacia e, à noite, dormia numa cama que era armada na sala do delegado. Já meu tio Zé Antônio ficou na carceragem, no porão, dormindo no chão. Após poucos dias, os dois seguiram para o Dops, enquanto meu pai foi transferido para o Regimento Marechal Caetano de Farias.
Minha mãe ficou no presídio São Judas Tadeu, localizado no andar térreo do Dops, num pavilhão com outras 30 mulheres. Assim que chegou, uma das presas ofereceu a ela a opção de ficar na cama de cima ou na de baixo do beliche. “Qual a diferença?”, ela perguntou. “Na de cima tem baratas, na debaixo tem ratos.”
Apesar do pavor de baratas, ela optou pela de cima. Minha mãe dividia espaço com presas comuns. A maioria traficantes, que alegavam: “Eu tava tomando café no botequim, alguém chegou, botou um pacote ali, a polícia veio e achou que era meu.” Mas uma detenta contava, com naturalidade: “Eu pedi dinheiro emprestado pra patroa. Minha filha pequena tava doente e eu precisava comprar remédio. Ela negou. Peguei o fio do aspirador de pó e enforquei.” O crime ficou célebre à época. Entre as presas, havia mães recentes, e tinha bebê que ficava em caixa de papelão
Minha mãe tinha como tarefa limpar a privada. “Tem lacraias, cuidado”, avisaram. Por sorte, ela tinha uma rede de solidariedade que a ajudou. Amigas como Ceres e Maria Clara levavam biscoitos, doces e outros alimentos. Não podiam vê-la, já que estava incomunicável, mas ela recebia os produtos e distribuía entre as colegas de cárcere. Assim, ficou liberada de lavar a privada.
- Eu também comecei a ensinar as presas a fazer tapete - conta hoje.
Quem dirigia o São Judas Tadeu era um casal espírita. Às 5h da manhã, eles batiam palmas e gritavam: “Acordem senhoras!”. Na época, a moda era minissaia e, quando as amigas de minha mãe iam até lá, os dois as repreendiam: “Ponham essa toalhinha, por favor.”
Ceres morava no Leblon, no mesmo prédio do general Costa Cavalcanti. Um dia, foi ao apartamento dele e suplicou: “General, eu tenho uma amiga que está presa. Ela não fez nada. Tem dois filhos pequenos, e a menina está doente.” O militar respondeu: “A senhora garante que ela não fez nada?” Ceres disse: “Garanto. Ela é minha amiga. Não tem inquérito nenhum contra ela.”
Ele confirmou a informação e assim, após cerca de um mês, ela foi liberada e posta em prisão domiciliar:
- Depois de um certo tempo, percebi que não havia ninguém tomando conta e fui à padaria. Não aconteceu nada. E comecei a sair.
Até porque não havia nenhuma acusação contra ela.
Meu tio tinha sido solto dias antes. No Dops, havia um pouco de tudo: presos políticos, bicheiros, travestis.
- O barulho de tranca da cela me marcou muito - relembra.
Após umas três semanas, ele foi chamado e levou um sermão de um militar: “Você é comunista, estamos de olho.” Meu tio ainda hoje se espanta:
- Eu era diretor de fotografia, trabalhava com cinema, não tinha qualquer ligação com política.
E assim pôde ir para casa. Mas ao viajar precisava pedir autorização às autoridades. Pouco depois, seguiu para a Itália a trabalho e ficou cerca de um ano.
Eram tempos difíceis. Eu perguntava muito: "Tia, meus pais não vão voltar?" Não pudemos ver minha mãe na cadeia, mas depois tivemos autorização para visitar meu pai uma vez por semana.
- Eu saía da prisão arrasada – diz minha tia atualmente.
Uma prisão a que meu pai foi submetido, sem culpa e sem provas, por simples e infundadas suspeitas. O ambiente naquele período era de tanto terror e paranoia que, anos depois, ele consultou sua ficha no Dops e viu o tamanho do equívoco. Achavam que era a pessoa encarregada pelo Partido Comunista de controlar a imprensa, decidindo quem seria admitido ou demitido dos jornais. Logo ele, que não tinha militância política, nem era filiado a qualquer partido e muito menos combateu o governo pelas armas. Era professor universitário e jornalista, e participou de assembleias e passeatas contra o regime militar, como tanta gente que queria a volta da democracia. Mas, em tempos de ditadura – qualquer ditadura, de direita ou de esquerda -, pensar diferente dá cadeia.
Meu pai só foi solto em março de 1969, graças a Nelson Rodrigues. O dramaturgo visitava o poeta e psicanalista Helio Pellegrino, colega de cela de meu pai, todo dia, até no carnaval. Os dois eram grandes amigos, apesar das divergências ideológicas. Nelson apoiava o regime militar, enquanto Helio era de esquerda – foi, por exemplo, orador na Passeata dos Cem Mil. Só que Nelson fez parecer maior o papel de Helio na vida pública do país. O escritor, com o exagero caricatural que lhe era comum, costumava ironizar em suas crônicas o engajamento político do amigo. Dizia que “o verbo de Helio movia montanhas”. O resultado foi a prisão do mineiro.
O dramaturgo sentiu-se tão culpado que fez de tudo para libertá-lo. Chegou a interceder junto ao general Henrique de Assunção Cardoso, chefe do Estado Maior do I Exército, alegando que Helio era uma “cotovia, um homem com alma de passarinho, meu amigo de infância!”. Insistia: “Como um homem desses pode ser um perigoso condutor das massas?"
Por fim, o general decidiu soltá-lo. Mas o psicanalista bateu o pé e disse que só saía com meu pai. Nelson respondeu: “Mas Helio, o Zuenir, essa doce figura, será que ele não vai colocar uma bomba aí no quartel?” Helio negou, o dramaturgo se convenceu de que meu pai não era um perigo e assinou um documento se responsabilizando pelos dois.
E assim o psicanalista e o jornalista que anos depois escreveria o clássico “1968 – O ano que não terminou” acabaram enfim libertados.