June 11, 2018

Fino observador da condição humana


Dorrit Harazim

Quatro anos atrás, o júri do Peabody Award, prêmio máximo da indústria da TV, rádio e mídia on-line dos Estados Unidos, justificou assim a honraria concedida ao chef, escritor e apresentador Anthony Bourdain, encontrado morto na sexta-feira:

“Ele expandiu nossos paladares e horizontes em porções iguais. É irreverente, honesto, curioso, sem soberba nem obsequiosidade. Ao conversar com ele, pessoas revelam mais sobre suas cidades ou países do que um repórter convencional consegue captar”.

Na mosca. Seria pouco qualificar Bourdain apenas como o carismático “bad boy” do universo da culinária, de humor aguçado, estilo renegado e um viver sem freios. Ele foi um explorador voraz — da cultura, da culinária e da condição humana, tudo junto e misturado. Encarou sem preconceito receitas que não conhecia, fosse o prato um globo ocular de foca no Ártico, um ânus de javali na Ásia (detestou) ou testículos de carneiro no Marrocos.

Mas não foi a busca do exótico que moveu Bourdain e tornou universais seus livros e programas de TV — foi sua honestidade em relação à própria vida.

Bourdain só não concluiu a aventura maior do gênero humano, que é viver. Suicidou-se aos 61 anos num quarto de hotel de Estrasburgo, França, onde preparava novo aclamado programa “Parts Unknown”, e o mundo perdeu um admirável narrador de histórias sobre nós mesmos. Conseguiu inspirar zilhões de bípedes a se interessar e compreender melhor seus pares distantes. O segredo? Fazendo perguntas simples às gentes de terras estrangeiras, do tipo “O que te faz feliz?”, “O que você come?”, “O que você gosta de cozinhar?”. Fosse no Laos, na África, ou na Faixa de Gaza, as respostas formavam elos, abriam mais portas, permitiam sentar-se à mesa e começar a conversar. Explorou história e política com franqueza e real interesse.

Bourdain nasceu para conhecer o gênero humano através da culinária e conheceu todas as vilezas e belezas do ofício. Ao longo de décadas, trabalhou em turnos de mais de 12 horas diárias em cozinhas pouco nobres de Nova York, e por oito anos foi chef da Brasserie Les Halles de Manhattan. Viveu nas franjas da ruína. Aos 44 anos, contou em entrevista, ele não sabia mais o que era dormir sem se sentir aterrorizado: estava endividado até a alma, não tinha plano médico, não conseguia pagar impostos nem aluguel.

Num belo dia de 1999, teve a audácia de submeter à cultuada revista “New Yorker” um texto sobre a sórdida realidade por trás da vida nas cozinhas da cidade. O artigo foi publicado sob o título de “Não Coma Antes de Ler Isto”, transformado no livro best-seller “Cozinha Confidencial”, e Anthony Bourdain viu-se catapultado para o estrelato e a carreira televisiva.

Mas o chef agora celebridade não deixou de se reexaminar. Tampouco escapulia do tema drogas, nas quais mergulhara de ponta-cabeça nos anos 1980 e delas conseguira emergir. “É simples: eu gosto de heroína, me faz sentir bem. Apenas não posso mais fazê-lo”, explicava. “Amigos meus também a largaram cinco, seis, 10 anos atrás e somos os que deram sorte. Estamos vivos. Ficávamos chapados o tempo todo. Qualquer decisão era tomada sob efeito de drogas — maconha, quaaludes, cocaína, LSD, Seconal, Tuinal, codeína, e sempre mais heroína..”

Bourdain sabia o valor de viver.

Orgulhava-se de ter tido como companheiros de mesa desde simpatizantes do Hezbollah, funcionários comunistas, ativistas anti-Putin, caubóis, drogados, milicianos, feministas, palestinos, colonos israelenses. Nas suas incursões pelo mundo, sentava-se com quem gosta de comida e fosse hospitaleiro. “Racho um pedaço de pão com qualquer um”, dizia. Indagado pela revista “The Nation” se cogitava sentar-se à mesa com Donald Trump, já que fora filmado rachando petiscos em Hanói com o então ainda presidente Barack Obama, Bourdain respondeu: “Não renderia nada, ele só fala dele mesmo, só se interessa por ele. De mais a mais ele come bife bem passado. Isso o elimina de vez”.

Suas posições e comentários políticos sempre se mantiveram na contramão da narrativa convencional. “Basta ir uma só vez ao Camboja para ter vontade de esganar Henry Kissinger com as próprias mãos”, escreveu em “A cooks tour: in search of a perfect meal”, de 2001. “Você nunca mais conseguirá abrir um jornal e ler sobre esse ser desprezível, traiçoeiro, prevaricador, assassino... Enquanto Henry continua a beliscar rolinhos nori e remake em festas vip, o Camboja, nação neutra que ele mandou bombardear em segredo e depois abandonou aos cães, até hoje tenta se reerguer numa única perna”.

Bourdain foi uma voz masculina permanente contra o assédio e abuso sexual, e não poupou o ex-amigo Mario Batali, estrelado chef nova-iorquino atualmente investigado por acusações múltiplas. “O admirava muito, o tinha lá no alto na minha conta, mas não perdoo, simplesmente não consigo fechar os olhos. Sou assim”, explicava. Sua última companheira, Asia Argento, foi uma das primeiras atrizes a denunciar o todo-poderoso predador sexual de Hollywood, Harvey Weinstein. Poucas semanas atrás, Bourdain orgulhou-se de público com a namorada pelo discurso-choque feito por Asia no salão nobre do Festival de Cinema de Cannes, que começava assim: “Em 1997 eu fui estuprada por Harvey Weinstein em Cannes. Eu tinha 21 anos. O festival foi sua área de caça...”.

A morte do intenso observador da vida acontece três dias após o suicídio da estilista Kate Spade, em Nova York. Bourdain carregou uma dor que só a ele pertenceu. Vez por outra transparecia algum cansaço diante da intransigência geral. “Infelizmente vivemos num mundo em que se torna praticamente impossível sequer descrever a realidade, muito menos lidar com ela. É desolador”, escreveu. A morte desse intenso observador da vida deixa o mundo mais insosso.


Vi: LOS AUSENTES (dir & rot Nicolás Pereda, México, 2014)


Os maiores ausentes neste filme são os cortes na edição. Planos longuíssimos, onde a ação transcorre lenta. Como sentar numa praia e assistir a surfistas pegando onda ao longe. Às vezes o plano começa em determinada cena e numa lenta panoramica para o lado passa a mostrar algo distinto correndo em outro ponto (geralmente ao fundo).

Homem morando sozino em casebre na mata é despejado. Parte para as montanhas e para dentro de seu passado. Mas o estllo é vazio, ao contrário dos filmes de Lav Diaz, numa rítmica semelhante.


Caminho que falta



 Faltam quatro meses e três dias para o primeiro turno da eleição mas o governo acabou antes do final do mandato. A saída de Pedro Parente da presidência da Petrobrás ainda não foi o epílogo da crise deflagrada pela greve dos caminhoneiros. As consequências ainda nem começaram e ainda escavarão mais o trecho de caminho que falta. O problema é como percorrê-lo sem tombos e sem fraturas. Temer, dizem aliados ressabiados, devia fazer como Sarney no final de seu governo: manter o básico e garantir a transição, mas ele parece acreditar que ainda tem um papel relevante a cumprir.

A greve, além dos transtornos e da devastação econômica que trouxe, aproximou demais o país do abismo, ameaçando a democracia. Houve risco de convulsão e é preciso reconhecer: se quisessem pretexto para um golpe, os militares o teriam tido. A pregação golpista não foi histeria de ocasião. Segundo apurou a Folha de S. Paulo, as Forças Armadas investigam a participação de militares na agitação pró “intervenção militar”, eufemismo para “golpe”. O inquérito do MPF está em andamento e o Brasil precisa conhecer seus resultados. 

A queda de Parente foi uma consequência política da ambivalência do governo, que alternou a defesa de sua política de preços dolarizados com a discussão de fórmulas para baratear também, para o consumidor, a gasolina e o gás de cozinha. Ao custo de mais subsídios, impossível. Nem raspando o tacho.

Já as consequências econômicas (e sociais) das perdas produtivas com a greve e das concessões aos caminhoneiros ainda nem começaram. Algum repique a inflação terá. Não é provável que os preços fiquem inalterados depois dos danos sofridos por tantos setores. A frustração do crescimento é óbvia. Analistas já falam em menos de 2% este ano, contra expectativas anteriores de mais de 3%. Os cortes no orçamento atingem programas que vão do policiamento de rodovias (castigo para os caminhoneiros?) ao FIES, um dos mais atingidos, com perda de R$ 150 milhões. No meio do caminho só tem pedras.

E na política, a erosão da frente que fez o impeachment e deu a cadeira a Temer. As medidas relacionadas com a greve foram e serão aprovadas mas agendas novas não têm futuro no Congresso. Se vier uma terceira denúncia contra Temer, a Casa conterá o comichão para aprová-la. Até a oposição acha tarde para afastá-lo. Falou-se em antecipação do pleito, mas também não passa, com a direita sem candidato, Lula e Bolsonaro liderando as pesquisas, afora questões constitucionais. A eleição é o porto.

O ex-presidente Sarney teve seu momento de glória com o Plano Cruzado, que deu estrondosa vitória ao PMDB em 1886. O congelamento de preços resultou na falta de produtos, tentou-se até confiscar boi no pasto para garantir a carne. Depois do pleito a inflação voltou com força, outros dois planos vieram, juntamente com a impopularidade. No final, ele optou por levar a cabo sua grande contribuição, a consolidação da transição. Maílson da Nóbrega, no ministério da Fazenda, passou a fazer a chamada “política econômica feijão-com-arroz”: o básico. Na campanha, o governo não teve candidato, apanhou muito mas garantiu a primeira eleição direta. 

Entre aliados, há quem pense sugerir algo parecido a Temer. Que se recolha um pouco, enfrente as emergências, faça o essencial. Que Meirelles seja candidato, se o PMDB quiser. Mas ele parece convencido de que tem papel maior a cumprir. Do contrário, não estaria pensando em alternativas de preço para a gasolina nem em avançar com a privatização da Eletrobrás. O perigo é provocar mais confusão, na reta da eleição. 

O PT agradece

Os petistas ironizam: Estão comovidos. Nunca imaginaram haver tanta gente preocupada com o sucesso eleitoral do PT, sugerindo que o partido decida logo quem substituirá Lula na disputa presidencial, para não ficar isolado nem prejudicar as alianças regionais.

June 10, 2018

A Master Storyteller From 19th-Century Brazil, Heir to the Greats and Entirely Sui Generis



  • By Parul Sehgal, www.nytimes.com
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  • In a famous Hindu parable, three blind men encounter an elephant for the first time and try to describe it, each touching a different part. “An elephant is like a snake,” says one, grasping the trunk. “Nonsense; an elephant is a fan,” says another, who holds an ear. “A tree trunk,” insists a third, feeling his way around a leg.
    In the Anglophone world, a similar kind of confusion surrounds Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), the son and sly chronicler of Rio de Janeiro whom Susan Sontag once called “the greatest writer ever produced in Latin America.”
    To Stefan Zweig, Machado was Brazil’s answer to Dickens. To Allen Ginsberg, he was another Kafka. Harold Bloom called him a descendant of Laurence Sterne, and Philip Roth compared him to Beckett. Others cite Gogol, Poe, Borges and Joyce. In the foreword to “The Collected Stories of Machado de Assis,” published this month, the critic Michael Wood invokes Henry James, Henry Fielding, Chekhov, Sterne, Nabokov and Calvino — all in two paragraphs.
    To further complicate matters, Machado has always reminded me of Alice Munro.
    What’s going on here? What kind of writer induces such rapturous and wildly inconsistent characterizations? What kind of writer can star in so many different fantasies?
    The protean, stubbornly unclassifiable Machado was born into poverty, the mixed-race grandson of freed slaves. He had no formal education or training; like Twain, his contemporary, he got his start as a printer’s apprentice. Out of a regimen of ferocious self-education, he established himself, initially as a writer of slender romances for and about the women of the ruling elite.
    But in 1879, his style changed — or rather, it arrived. Prolonged illness (Machado was epileptic), and the near loss of his sight, snapped him to attention. The gentle romantic blossomed into a wicked ironist whose authorial intrusions, jump cuts and sheer mischief influenced American experimentalists like John Barth and Donald Barthelme.
    Five novels produced in this period — including his masterpiece, “The Posthumous Memoirs of Brás Cubas” (1881) — cemented his reputation. If this collection of 76 stories (culled from more than 200) cannot rise to their ranks, it still offers a different and valuable vantage point — especially for readers who like to keep an eye on the life as well as the art.
    Machado de AssisFoto de: National Library of Brazil
    “The Collected Stories” reveals the arc of Machado’s career, from the straightforward love stories to the cerebral and unpredictable later works. One story is told from the point of view of a needle. Political satire begins to appear. In one tale, a dictator, bald since youth, decrees that all his subjects must also shave their heads, arguing that the “moral unity of the state depended on all heads looking the same.”
    Machado’s stories pulse with life. The endings are frequently murky and strange, often abruptly truncated. The title of an early work characterizes them well: “Much Heat, Little Light.”
    Certain preoccupations persist: alluring widows, naïve young men, a fondness for coincidence. Machado remained fascinated by femininity and the strictures governing the lives of women — it’s why he reminds me of Munro. Like chess pieces, Rio’s well-born ladies could make only a few authorized moves (Machado was a chess fanatic), but everything was theirs to win or lose.
    Above all looms the figure of the bibliomane. “This is my family,” one says, pointing to his bookshelf. These are characters shaped by their reading, sometimes even physically (“his head jutted forward slightly from his long habit”).
    It’s a curious feature of Machado’s stories that Brazil is so absent. There are few landmarks, few mentions of the weather. But there are allusions to Molière and Goethe. Novels and authors are the signposts. Like his characters, Machado was a creature of literature; ink ran in his veins. Though he never roved far from his hometown he read widely, claiming all of culture, all of Europe — giving his work that remarkably open, cosmopolitan feel.
    This creation of a personal cartography — of anchoring himself in the life of the mind — might explain one of the lingering frustrations with Machado’s work: namely, his refusal to write more explicitly about slavery. He might not have dared; slavery ended in Brazil only in 1888. His stories stay trained, sometimes monotonously, on the elite, slaves flitting through in silence.
    Yet Machado is always writing about liberation in his way, which to him begins with the freedom — the obligation — to think. Few fiction writers have written so affectionately about ideas, as if they were real people; he is always describing how ideas emerge and move, the way they can lose their way and get caught in a crush with others. The way they can appear “fully formed and beautiful” at times, or grow “pregnant” with other ideas.
    Ideas and fixations elevate and distort in these stories. In one, a man consumed by his pet bird becomes “pure canary.” In another, a father intent on grooming his son to become “a bigwig” demands he cultivate the necessary vapidity: “I forbid you to arrive at any conclusions that have not already been reached by others. Avoid anything that has about it so much as a whiff of reflection, originality or the like.”
    To Machado, your identity and the contours of your world are formed not just by your circumstances but by what you think about habitually. You are what you contemplate, so choose wisely. These stories are a spectacular place to start.

June 6, 2018

O fantasma do 7 a 1


Maurício Stycer


A ESPN anuncia para o próximo dia 6 de junho a exibição de "A Reinvenção do Futebol Arte". Destinado a investigar as causas e consequências do 7 a 1, esse documentário acaba por falar também, mesmo sem querer, sobre a programação da TV brasileira em tempos de Copa do Mundo.

Para quem se interessa pelo que aconteceu dentro de campo, naquele 8 de julho de 2014, o depoimento mais interessante é o de Manuel Neuer. "Nós estávamos muito motivados. O Brasil também estava, mas eu acho que, ao mesmo tempo, os jogadores (brasileiros) estavam com medo", diz o goleiro da seleção alemã.

Depois do jogo, nós não quisemos comemorar muito, com entusiasmo. Nós vimos os jogadores brasileiros no chão e fomos até lá. Nós sabíamos que eles seriam massacrados. Por isso, tentamos consolar ao invés de festejar", acrescenta.

A goleada histórica, ou o "abismo máximo", como diz o escritor José Roberto Torero, reverbera nos outros 23 depoimentos. Mas em outras direções. Os entrevistados levantam diferentes pautas —com raízes históricas, econômicas, políticas e policiais— que ajudam a explicar o contexto da tragédia no Mineirão.

Um dos pontos centrais, claro, é o da apropriação do futebol brasileiro por uma elite dirigente preocupada exclusivamente com o enriquecimento pessoal. Os depoimentos de Torero, Mariliz Pereira Jorge e Andrew Jennings levam o narrador de "A Reinvenção do Futebol Arte" a observar: "Enquanto a gente se enganava, sempre acreditando na próxima Copa, na próxima eleição, os ratos iam comendo pelas beiradas".

Com direção de Eduardo Rajabally, roteiro de Gui Stockler e produção da Gullane, o documentário que a ESPN exibirá observa: "Esse é o Brasil, o país que ficou pelo caminho, sem projetos, sem sonhos, sem dinheiro, sem líderes, torcendo muito por uma solução milagrosa, bem ao nosso estilo".
Com alguma melancolia, o filme conclui: "O futebol foi essa cola, esse rejunte, que durante décadas uniu o país. Explicou o país. Foi o país. Mas o mundo mudou e o Brasil ficou pra trás".

Mesmo quem enxergar exagero no diagnóstico (não é o meu caso) haverá de ficar chocado com o contraste que "A Reinvenção do Futebol Arte" oferece em relação ao que já estamos vendo na televisão sobre a Copa da Rússia.

A Globo, por exemplo, está exibindo aos sábados uma série na qual as mães de três jogadores visitam a Rússia em um roteiro de turismo —muito distante do país real. Uma delas, a mãe de Gabriel Jesus, é também garota-propaganda de uma das marcas que patrocinam a cobertura esportiva da emissora.

Como o brasileiro não conhece boa parte dos jogadores da seleção, o "Jornal Nacional" está exibindo uma série destinada a apresentá-los. Muitos, como o zagueiro Marquinhos, foram para a Europa com 18 anos. Assim, diariamente, um atleta é objeto de um longo e meloso perfil (sete minutos) no qual passagens de sua vida são encenadas por modelos, à maneira dos programas de auditório dominicais.
Esta será a primeira Copa em que o setor de esportes da Globo atuará de forma autônoma,

desvinculado do jornalismo. Pelo que se anuncia, o otimismo e a boa vontade dedicados à seleção brasileira alcançarão uma nova dimensão nesta cobertura.

Esporte é negócio, claro, e Copa do Mundo é uma oportunidade única para as empresas de mídia. É natural que aproveitem ao máximo. Mas o 7 a 1 está aí para nos lembrar que o jornalismo tem um papel importante nestas grandes coberturas. É preciso ir além do ufanismo e do oba-oba.



June 5, 2018

Amarras


Fred Coelho

1) Murilo Mendes em 1970 escreve o poema “A corda”. Seus versos abrem esta coluna como uma faca abre uma ferida: “O navio amarrado. O pássaro amarrado. A pedra amarrada. O homem”. A poesia ainda será atacada. Esperem para ver. Ela não tarda em ser degenerada. Não tarda em ser assunto de deputados despudorados a exigir que se torture o poeta. Vociferará o Legislativo em coro hidrofóbico: a poesia é como um corpo nu. Tirem as crianças da língua. Vedem a boca de poeta. Amarrem o navio, o pássaro, a pedra e o homem.

2) Querem calar o dissenso, ou o dissenso é formado justamente por aqueles que querem calar os outros? Nesse momento, não se sabe o perfil majoritário de um país espatifado como o nosso. Os planos não se tocam. Todos falam por um povo que falta.

3) Crianças tornaram-se um assunto público abstrato. Inventam infantes vulneráveis em contato com a arte e acusam artistas de crimes hediondos em flagrante distorção das palavras. Acabam com a educação artística nas escolas e contaminam de moral os olhos de quem tem olhos famintos para inventar o mundo. Crianças são seres autônomos na construção de seus valores e não reprodutores passivos de uma tradição. Elas são vidas em expansão. Nós, adultos, é que trucidamos sua liberdade com nossos medos e vícios de linguagem.

4) “Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”.

5) A lei no Brasil e sua cornucópia de contradições e vitórias. Às vezes parece que hábitos norte-americanos arraigam-se em nós. Se no passado éramos uma nação de apaziguadores das contradições sociais pelo signo da conciliação conservadora, hoje parece que somos a pátria dos advogados em litígio permanente. Certamente é melhor que a solução anterior, mas não menos preocupante. Processos jorram como água. Ministérios públicos e supremos tribunais tornaram-se o dia a dia das notícias. Nunca precisamos tanto de um sistema judiciário criterioso, eficiente e justo, e nunca ele foi tão banalizado. Uma pátria de processados, um país de advogados, uma comunidades de justiceiros.

6) uando tantos processos são necessários para impedir atrocidades como difamações graves de biografias, é porque cada vez mais se perdeu o senso de o que é uma opinião emitida em espaço público. Os alucinados das caixas de comentários abusam de retóricas rancorosas e reduzem qualquer contradiscurso crítico a mínimos divisores comuns. Eis que artistas (até mesmo os apolíticos) tornam-se esquerdistas que amam Cuba e querem acabar com a família brasileira. Parece uma reedição tosca — e perversa — do tempo em que comunistas comiam criancinhas. Se o imaginário histérico da Guerra Fria projetava tal imagem com garfos, facas e dentadas marxistas, hoje a metáfora transforma a liberdade estética na arte contemporânea em, pasmem, pedofilia. Defender o direito constitucional da arte e ser contra a exposição midiática de uma criança acompanhada de sua mãe (como o caso da exposição do MAM de SP) faz de você um pedófilo imoral. Basta ver as redes sociais para atestar o ódio que amarra tudo como o poema de Murilo Mendes. A vontade é quase achar que isso é o último gás de um fim dos tempos obscuros. Mas não. Isso é o agora. E é no agora que isso deve ser encarado. Sem melancolias e sem nostalgias. A distorção dos fatos é coisa nossa.

7) É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença”.

8) Quem oprime e quem é oprimido por aqui? Pergunta até pouco tempo óbvia na resposta, tornou-se uma esfinge entre nós. Oprimidos podem tornar-se opressores? Opressores podem se sentir oprimidos? Ou, como tudo na vida, o espaço de coação do outro é complexo, definido por deslocamentos e posicionamentos flutuantes em uma sociedade sem diretrizes fixas? Aliás, fixar diretrizes a priori é uma forma de opressão aos que querem outras formas de vida? Definir o que é vida é uma forma de opressão? Há de se abrir a cabeça e entender a fundo as tragédias e dores brasileiras. De todos. Sem pedagogia e sem medo do abismo. O abismo, aliás, está aí.

9) Algo nefasto está em curso. Aos poucos, se adensa um amálgama de medos estruturais (de ficar sem emprego, de morrer de tiro, de ter de lidar com a diferença), oportunismos políticos maniqueístas e cálculos precisos de tomada de poder. Impressiona que grandes lideranças do país fiquem mudas frente a personagens que pregam lemas como “família, armas de fogo e oração”. Não se posicionar claramente contra a truculência verbal e a violência das mais baixas formas de argumentação como se fossem fenômenos passageiros é um erro que já custa caro para todos nós.

10) Quando o monstro da lagoa crescer, vão entender tarde demais que conversar com defensores de tortura como se fossem candidatos a governar o país é trágico.

11) Desamarrar os navios, os pássaros, as pedras, o corpo nu, a criança, a arte, as ideias, as falas, os poetas. Olhos livres. Para todos, em todas as situações. O tempo é agora.

June 1, 2018

19 fatos que você provavelmente não sabia sobre '2001: uma odisseia no espaço'

'2001: Uma odisseia no espaço' completa 50 anos Foto: Divugação

 Cinquenta anos atrás o épico de Stanley Kubrick "2001: uma odisséia no espaço" foi lançado, primeiro em Washington e depois em Nova York — o filme chegaria ao Brasil no fim do mês de abril de 1968. O influente longa-metragem, que ganhou um Oscar por seus efeitos especiais pioneiros, foi considerado pelo crítico James Verniere um "salto quântico" na capacidade tecnológica do cinema. Steven Spielberg classifica o filme como o "Big Bang" de sua geração cinematográfica.
Lançado esta semana para marcar o aniversário da obra, o livro “2001: Uma Odisseia no Espaço - Stanley Kubrick, Arthur C. Clarke e a criação de uma obra-prima”, de Michael Benson, traz uma série de fatos interessantes sobre o filme. Aqui estão 19 coisas que você provavelmente não sabia sobre "2001", de acordo com Benson e outras fontes:

1- "2001" originalmente mostraria um precursor da internet
O intrépido grupo de futuristas de Kubrick, escreveu Benson, "aparentemente já havia visualizado aspectos importantes das implicações de uma nova tecnologia." Os acessórios do filme incluiriam um "jornal de 2001 para ser lido em algum tipo de tela". Se a peça, com um logotipo do New York Times, tivesse aparecido no filme, teria sido "lida por um astronauta usando tablets do tipo iPad" a bordo da Discovery.
"Se Kubrick tivesse seguido adiante e apresentado o jornal desta forma", escreve o autor, "não há dúvida de que '2001' seria lembrado hoje como um importante precursor da internet".

2. Os cineastas também imaginaram um mundo com carros autônomos
"Nos primeiros rascunhos", escreve Benson, "o personagem que se tornaria David Bowman se chama Bruno" e dirige um "Rolls guiado por computador" ao longo da "auto-estrada" que divide o grande "complexo de Washington-Nova York".

3. Nem Kubrick nem Arthur C. Clarke consideravam já ter visto um grande filme de ficção científica
A carta de apresentação de duas páginas escrita por Kubrick para Clarke sugeria a "possibilidade de fazer um filme de ficção científica 'realmente bom'". A resposta de Clarke: "O filme de ficção científica 'realmente bom' já devia ter sido feito há muitos anos."

4. A criação do icônico monolito foi um processo de anos
No início, Clarke motrou a Kubrick sua história "The Sentinel", na qual uma equipe de pesquisa descobre uma "pirâmide de cristal de origem extraterrestre, presente na superfície lunar por milhões de anos", observa Benson.
Além disso, Kubrick inicialmente queria que o "objeto alienígena" fosse claro, como um "tetraedro transparente". Ele insistiu para que fosse feito de acrílico, mas o material não criou o efeito desejado e o objeto imenso e caro foi destruído e substituído por um monolito preto que refletia cada mancha e falha.

5. Kubrick e a Nasa começaram a conversar com Clarke no mesmo ano
Viajando de sua casa no Sri Lanka, Clarke foi a Washington em maio de 1964 para se reunir com altos funcionários da Nasa. O diretor do projeto Apollo, escreveu Benson, solicitou as ideias do autor sobre o que a agência espacial deveria fazer depois que uma aterrissagem lunar fosse realizada.

6. "2001" teve uma série de títulos temporários
Kubrick e Clarke tinha assistido a "How the west was won" ("A conquista do Oeste", de 1962), secretamente deram ao seu suposto semi-documentário o nome "How the solar system was won". Outros títulos possíveis incluem "Universe: Tunnel to the Stars", "The Star Gate", "Jupiter Window" e "Earth Escape".

7. "2001" ultrapassou o cronograma e o orçamento
Kubrick disse a Clarke em 1964 que ele deveria trabalhar em um filme que levaria "cerca de dois anos para ser concluído", e um contrato posterior previa um lançamento no final de 1966 ou início de 1967 com um orçamento inicial de US $ 5 milhões. Quando o filme foi lançado, em 2 de abril de 1968, o orçamento era de cerca de US $ 12 milhões, de acordo com o Box Office Mojo.

8. Histórias e imagens que influenciaram a imagem do feto
Parte da inspiração para o filme veio do conto de 1959 de Clarke "Fora do berço, infinitamente em órbita", em que um narrador diz que o século XXI não começa em 2000, mas sim em 1º de janeiro de 2001. Como Benson observa, essa história termina com um incrível som: "o choro fino de um bebê recém-nascido". É "o primeiro filho em toda a história da humanidade vindo de fora da Terra ".
O futurismo de Clarke, escreve Benson, foi influenciado pelo visionário russo Konstantin Tsiolkovsky, que escreveu, em 1912, num ensaio: "A terra é o berço da mente, mas a humanidade não pode permanecer em seu berço para sempre."
Benson também comenta sobre uma ilustração de caneta que "mostrava um feto flutuando em um saco amniótico semelhante a uma bolha" que parecia "exatamente como um bebê não nascido no espaço", reproduzido no livro "African Genesis", de Robert Ardrey; e em 1965, a revista Life publicou as famosas imagens de um feto "flutuando na escuridão cósmica", capturadas pelo fotógrafo sueco Lennart Nilsson.

9. Foi ideia de Kubrick criar um romance e um filme ao mesmo tempo
"Não vamos nos sentar e escrever um roteiro", disse Kubrick no verão de 1964, segundo Benson. "Vamos nos sentar e escrever um romance. Vamos ter muito mais profundidade." Como resultado, o roteiro passou por revisões quase diárias durante a filmagem.

10. O 'encontro de mentes brilhantes' com Carl Sagan foi de curta duração
Nos primeiros estágios do planejamento, Clarke apresentou Kubrick ao famoso astrônomo-escritor. Infelizmente, não foi um encontro tão bom. Kubrick descobriu que Sagan era paternalista, escreve Benson, e uma hora depois da reunião, disse a Clarke para "livrar-se de Sagan" porque "não queria vê-lo novamente."

11. HAL foi uma criação pensada aos poucos
Para a "sequência do robô", o esboço inicial de Clarke chamava HAL-9000 de Sócrates. Tratava-se de um robô ambulatorial com um "modo independente". A cada rascunho, diz Benson, o QI dessa Inteligência Artificial foi aumentando. Antes da sigla HAL, o computador falante do Discovery chamava-se Athena.
Quanto à voz de HAL, Kubrick e Clarke foram influenciados por um curta em preto-e-branco indicado ao Oscar, "Universo", produzido pela National Film Board of Canada e dirigido por Colin Low.
Os cineastas de "2001" ficaram impressionados com as técnicas do longa e contrataram o especialista em efeitos especiais Wally Gentleman para ''2001''. No entanto, os dubladores de HAL estavam no ar durante toda a transmissão ao vivo.
Kubrick tentou atores como Nigel Davenport e Martin Balsam antes de contratar Douglas Rain - o narrador que ele havia ouvido pela primeira vez em "Universo".

12. O filme começou em uma fábrica de sutiã
 As primeiras cenas de "2001" foram filmadas no início de 1965, em uma fábrica de sutiãs abandonada, em Nova York. Inspirado por "Universo", Kubrick usou tintas diluentes e luzes de alta intensidade para criar efeitos espaciais surreais.

13. Havia uma lista de possíveis diretores
Quando a MGM estava redigindo um contrato para a produtora de Kubrick, uma cláusula fornecia uma pequena lista com alternativas para a direção que incluía Alfred Hitchcock, David Lean e Billy Wilder. "A MGM aparentemente estava se protegendo para caso Kubrick fosse, por algum motivo, incapaz de dirigir o filme ".

14. O consultor interessado em psicodelia
Durante as filmagens, o consultor científico Fred Ordway, ex-funcionário da NASA, manifestou interesse nos resultados de um experimento acadêmico onde estudantes de pós-graduação de Boston tomaram doses de psilocibina, um alucinógeno extraído de cogumelos. Algumas das teses descreviam um "poderoso regresso cósmico" e "um mar de cor". (Um dos orientadores da tese do experimento, observa Benson, era Timothy Leary.)

15. Kubrick procurou especialistas em tecnologia de ponta
Os idealizadores de "2001" procuraram mais de 40 corporações, incluindo IBM, Hewlett-Packard, Hilton Hotels, Bell Labs, Canetas Bausch & Lomb e Whirlpool e Parker. Durante uma visita ao Bell Labs, por exemplo, Clarke ouviu experimentos com sintetizadores plugados a um computador IBM 7094 que produzia uma versão da canção de 1890 "Daisy Bell" - "a primeira música já cantada por um computador", escreve Benson. HAL, claro, canta em ''2001''.

16. O voo espacial simulado foi menos assustador do que os voos aéreos.
Kubrick e dois de seus astros de "2001", Keir Dullea e Gary Lockwood, tinham medo de voar, segundo Benson.

17. O estúdio era bastante perigoso
O especialista em inteligência artificial do MIT, Marvin Minsky, confessou que "quase foi morto" durante uma visita ao set, quando um mecânico causou um incêndio. Coincidentemente, escreve Benson, foi Minsky quem disse a Kubrick que os computadores de 2001 "poderiam estar avançados o suficiente para sofrer colapsos diante de problemas insolúveis".

18. Mímica foi o segredo da performance da 'Origem do homem'
Kubrick não queria que seus símios parecessem "homens de macacão". Então, ele foi apresentado a Dan Richter, um artista em ascensão em Londres e estrela do American Mime Theatre. (Ele também estudou teatro Kabuki com Yoko Ono).
Richter foi, de certa forma, um precursor de Andy Serkis, astro de "O Senhor dos Aneis" e "Planeta dos Macacos". Sua filosofia de mímica, como escreve Benson, "era começar com os valores da atuação e transformá-los em movimentos físicos puros".
Richter chegou a uma reunião acreditando se tratar de uma consultoria rápida, mas logo se percebeu em um teste, quando suas habilidades deslumbraram Kubrick. Richter não só interpretou o macaco assassino de ''2001'', como também ensinou o resto do elenco a se movimentar e agir de forma convincente.

19. O lançamento do filme em Washington foi 'um desastre'
A premiere de "2001" foi no teatro Uptown, em Cleveland Park, Washington. No intervalo, os convidados "saíram correndo. Foi um desastre. Ninguém gostou", relata Benson em seu livro. Um jornalista britânico escreveu: "Não houve uma única palma. O público apenas se levantou, atordoado e pensativo, seguindo para fora."
Na noite seguinte, após a estreia em Nova York, Clarke supostamente ouviu os chefões da MGM declarando:"Bem, esse é o fim de Stanley Kubrick".
Mas em cinco semanas de exibição em somente oito cinemas, "2001" arrecadou mais de US$ 1 milhão. Aos poucos, alguns críticos começaram a enxergar a luz.

May 31, 2018

O mordomo de câmera na mão



Cacá Diegues


É preciso que se entenda de uma vez que o cinema brasileiro não vive de dinheiro público como, com toda a justiça, as outras artes em geral 

 

Quando fiz meu primeiro longa-metragem, o Brasil produzia seis ou sete filmes por ano. Hoje, são 160 títulos, com alguns sucessos comerciais de respeito e outros repercutindo nos festivais internacionais por sua qualidade. Tenho autoridade para dizer que o Brasil vive o melhor momento da história de seu cinema, com a diversidade que um país do nosso tamanho merece e precisa ter. Mas há sempre os que não querem que ele exista.

Será que agora a bomba vem do Tribunal de Contas da União? O TCU quer interromper a produção de cinema no Brasil por, no mínimo, dois anos, a fim de passar a limpo as contas de uma agência pública, a Ancine, que nós nunca administramos, que nunca foi responsabilidade nossa.

É preciso que se entenda de uma vez que o cinema brasileiro não vive de dinheiro público como, com toda a justiça, as outras artes em geral. O mecanismo que beneficia nossa economia cinematográfica é uma contribuição devida pelas atividades audiovisuais no país, a Condecine. Não só o cinema não está no orçamento do Estado, como também os recursos de que dispomos vêm de nossa própria atividade. E, para cada real que uma produção usa da Condecine, de 3 a 4 reais vão para o Estado, na forma de impostos e outros compromissos cidadãos. Sem contar o grande número de empregos que cada produção cria, do operário que carrega a grua e prepara o travelling aos profissionais especializados em administração, finanças e tecnologias variadas.

O relator do caso no TCU afirma que é um absurdo o cinema ter tanto dinheiro à sua disposição, diante da crise fiscal do país, da falta de recursos para educação, saúde e segurança pública, sobretudo num ano eleitoral. Segundo ele, dá até para desconfiar. Desculpe, doutor, com todo o respeito por seus títulos, se o cinema acabar, acaba também a Condecine e seus recursos desaparecem, não vão legalmente para lugar nenhum, nem mesmo para as atividades citadas que realmente precisam de socorro. Por falar em ano eleitoral, que tal procurar no bolso de certos políticos o dinheiro que falta para os serviços do Estado?

O que complica a nossa vida é que cabe a uma agência pública, a Ancine, a regulação e fiscalização dessa atividade privada.

Toda produção de cinema presta contas à Ancine. Conforme o filme vai sendo feito, os recursos usados vão sendo contabilizados, e suas contas são entregues à Ancine. Quando o filme está pronto, sua prestação de contas já estará encerrada. Mas, como são mais de cem produções anuais, a Ancine não tem gente, nem meios para conferir essas contas em tempo hábil e legal. Com a ajuda da AGU, inventaram então um sistema de algoritmos que, através de sorteio, indica as produções que serão examinadas. Até agora, tiveram poucos problemas no assunto.

Um desses “problemas” é o caso de “O som ao redor”, filme de Kleber Mendonça, o cineasta de “Aquarius”, hoje consagrado em todo o mundo. “O som ao redor” era para ser um filme de baixo orçamento, que não custaria mais que 1,7 milhão de reais. Mas, por contingências naturais do cinema, acabou custando cerca de 300 mil reais a mais. Pois essa diferença está gerando uma multa absurda, mesmo que o cineasta já tenha prestado contas de onde seu filme gastou esse suplemento orçamentário. Os carrascos do cinema se divertem com a multa gigantesca que inclui uma máxima correção monetária e as outras maldades financeiras criadas para acabar com a pessoa.

O Estado nos cobra o que supõe estarmos devendo; mas não se manifesta, muito menos comemora as glórias que um cineasta como Kleber Mendonça traz para o país. Num momento de crise como a que vivemos, em vez de coagir nossos artistas, o Estado devia valorizá-los, numa tentativa de mostrar ao mundo, nesse momento rindo de nós, que também temos do que nos orgulharmos.

Agora mesmo, no Festival de Cannes, o Brasil esteve representado na Quinzena dos Realizadores pelo sucesso do filme “Los silencios”, de Beatriz Seigner; enquanto “Diamantino”, filme de estreia de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, ganhava o prêmio de melhor filme na Semana da Crítica. Na seleção oficial, “O grande circo místico”, além da repercussão de público e crítica, ainda ganhou uma elogiosa menção do ministro da Cultura de Portugal, o professor Luís Castro Mendes, em nota oficial de seu ministério sobre o festival.

No Brasil, quando as coisas vão mal, o cinema é sempre o primeiro suspeito. O mordomo está sempre com a câmera na mão. O país gasta fortunas com incentivos fiscais para indústrias poluentes, destruidoras da economia e do ar do país, e nunca vi um anúncio em painel de automóvel agradecendo qualquer ministério pela colaboração. Já em nossos filmes, temos a obrigação de citar, mais de uma vez, todos os instrumentos do Estado, como se aquilo tudo fosse dinheiro e serviço dele. Um favor do Estado.

Essa onda contra o cinema brasileiro surge exatamente no momento em que a Ancine e o MinC anunciam novos recursos para o programa Audiovisual Gera Futuro. A ação pode não ter sido hábil, mas isso não tem nada a ver com os filmes que fazemos e ainda queremos fazer. Se o cinema brasileiro for vítima do desatino em curso, nossos projetos serão interrompidos, ninguém sabe por quanto tempo. E o Brasil arrastará por aí a sua miséria, sem uma voz e uma alma que o representem. A escuridão será definitiva.

ilustração ANDRÉ MELLO 

May 29, 2018

Truckers’ Strike Paralyzes Brazil as President Courts Investors



By Shasta Darlington and Manuela Andreoni

SÃO PAULO, Brazil — Brazil is roaring back, at least according to President Michel Temer.
That was the message Mr. Temer’s government sought to convey in a series of upbeat statements issued over the past couple of weeks leading up to a foreign investment forum that begins Tuesday in São Paulo.
Yet a weeklong standoff between striking truck drivers and the government has provided a stark counternarrative, illustrating the shaky recovery of Brazil’s economy, Latin America’s largest, and the widespread disdain Brazilians have toward their ruling class.
Hundreds of trucker roadblocks sealed off highways across the country as a protest against rising fuel prices ground Brazil’s economy to a halt in recent days. Gas stations from São Paulo, the financial capital, to Manaus, in the heart of the Amazon, have run out of fuel.
Dozens of flights have been canceled, fresh food supplies in supermarkets have dwindled and millions of chickens and pigs have been culled because of a lack of animal feed. On Monday, many schools and universities suspended classes.
An announcement by Mr. Temer on Thursday that he had struck a deal with the strike leaders proved premature. Roadblocks were maintained through the weekend and oil workers announced that they intended to go on strike this week, raising the prospect of a deepening crisis that has laid bare the weakness of Mr. Temer’s lame-duck government ahead of a presidential election in October.
Over the weekend, Mr. Temer issued an order authorizing the military to clear roads using force, if necessary, a move that drew condemnation from human rights groups.
But after that threat failed to bring the strike to an end, Mr. Temer appeared weary as he announced in a televised statement on Sunday that the government would subsidize the cost of diesel to drop the price at the pump by 12 percent. He also said truck drivers would pay less in tolls and get more government contracts. The measures were striking concessions by a government that has sought to rein in spending as Brazil emerges from a long, crippling recession.
“Our fundamental and correct concern is with the truckers and I understand their difficulties,” said Mr. Temer, the most unpopular president in modern Brazilian history, according to polls. “We all understand the natural difficulties of truckers in their work.”
Fuel costs have soared in Brazil as oil prices have risen globally, and the real, Brazil’s currency, has depreciated. Under the current policy, the price of diesel fuel has fluctuated on an almost daily basis. As part of the latest agreement, diesel price adjustments will occur on a monthly basis.
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Members of Brazil’s security forces gathered outside a fuel distribution center near Rio de Janeiro on Sunday as truckers took part in a protest against high diesel fuel prices.CreditRicardo Moraes/Reuters
Union leaders have urged drivers to accept the latest deal. But on Monday, as fuel tankers escorted by police officers and soldiers began to restock some gas stations, many protesters held firm.
“The government has now met all of the demands in relation to diesel prices, and at a very high cost to public coffers,” said Laura Barbosa de Carvalho, a professor of economics at the University of São Paulo, who pointed out that taxpayers would ultimately pick up the tab. “But the big question is: Is this movement still focused on the price of diesel or does it have a bigger component that wants to destabilize the country?”
Mr. Temer’s speech on Sunday night prompted Brazilians frustrated by what they see as a failed government to honk their horns and bang pots from their windows in protest in many cities across the country. It was a sign of the mistrust and outright hostility many Brazilians feel toward the president.
A poll published by the Globo website on Monday showed that 55 percent of Brazilians disapproved of the strike, but a full 95 percent disapproved of the way Mr. Temer has handled it.
The strike has been the most disruptive period of unrest since Mr. Temer helped lead an effort to impeach his predecessor, Dilma Rousseff, in 2016. Since then, Mr. Temer has spent much of his political capital fending off accusations of corruption and obstruction of justice stemming from the wide-ranging graft scandal known as Lava Jato, or Car Wash.
On Monday morning, roughly one hundred protesters gathered at an oil refinery on the outskirts of Rio de Janeiro, which has been one of the focal points of the strike. Truckers were a minority at the demonstration. But scores of unemployed oil workers, motorcycle couriers and public transportation workers said they wanted their grievances addressed as well.
“This started with the truckers, but it reached millions,” said Alexsandro Faria, 39, an unemployed scaffold builder who worked at the refinery for seven years before being laid off in 2016. “This is the best moment to call attention to our demands. If we only stay on our sofas, complaining about corruption, it won’t work.”
Several strikers have voiced support for a military intervention, arguing that the country was safer and more orderly during the dictatorship that lasted from 1964 to 1985. While support for a step that drastic is by no means widespread among strikers, calls for the military to step in have riled up crowds at protest sites over the past week.
“It isn’t just about the truckers anymore,” said Antonio Marcos Rocha, a proponent of a military intervention who was wearing a Brazilian flag around his waist as he distributed free sandwiches to a crowd outside the refinery. “It’s against corruption.”
As the protests have struck a chord with many Brazilians, politicians across the political spectrum have taken aim at the increasingly isolated and weakened president.
Leftist leaders, who have traditionally championed workers’ rights, and right-wing politicians both sought to portray themselves as champions of the truck drivers as the government threatened to prosecute business leaders who have backed the strike.
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People lined up for fuel in Rio de Janeiro on Monday, the eighth day of the truckers’ strike.CreditCarl De Souza/Agence France-Presse — Getty Images
The far-right presidential candidate Jair Bolsonaro, a federal lawmaker, declared on Twitter that any fines or imprisonment of truckers “would be revoked by a future honest president/patriot.”
Marina Silva, a center-left presidential contender and a former environment minister, criticized the government’s response.
“Once more, the Temer administration uses the military to hide its incompetence,” she wrote on Twitter. “With the increase in fuel prices, society is paying prices that are too high for the mistakes of a government that does everything to save its own skin and keep itself in power.”
The timing could hardly be worse for Mr. Temer as he sets out to promote Brazil’s economic recovery before would-be foreign investors while defending the legacy of his two years in office.
Mr. Temer was recently mocked for unveiling a slogan that suggested that Brazil had advanced 20 years in the span of two. Critics were quick to point out that a slight variation in punctuation made the slogan convey that Brazil had in fact regressed two decades in two years.
But Mr. Temer sought to strike a bullish tone on Monday as investors arrived in São Paulo, where fuel trucks have needed police escorts to resupply airports.
“Brazil is opening to the world and the world is reconnecting with Brazil,” he said in a statement prepared for the event. He noted that on his watch, inflation has dropped and interest rates have fallen to 6.5 percent from 14.25 percent, and investor confidence has begun to grow in his market-friendly policies.
The economy has pulled out of recession, but the recovery has been tenuous. The value of the currency has slumped to a two-year low, in large part because of uncertainty over Brazil’s political future. Voters have turned their backs on the traditional parties mired in the corruption investigation.
Mr. Temer is set to leave office having failed to pass critical structural changes he pushed for, including an overhaul of the bloated pension system.
While truck drivers weigh their options, oil workers unions have announced a three-day strike starting on Wednesday to demand, among other things, a reduction of fuel prices and the firing of Pedro Parente, the president of the state-run oil company, Petrobras.
“The government has tried to sell this idea that it solved the country’s economic problems,” Ms. Carvalho, the economics professor, said. “This crisis is evidence that it was never true.”

Bolsonaro é autor de projeto que pune com até 4 anos de cadeia quem obstrui vias públicas

Ranier Bragon 

 Presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), autor de projeto que pune com prisão quem interditar vias públicas

Autor de um mensagem nas redes sociais prometendo revogar qualquer multa aplicada a caminhoneiros pelo governo de Michel Temer, Jair Bolsonaro (PSL) é autor de projeto que, em sentido contrário, pune com até quatro anos de cadeia aqueles que impedirem ou dificultarem o trânsito de veículos e pedestres nas vias públicas.
O projeto foi apresentado em agosto de 2016 na Câmara dos Deputados.
"A proposição é pautada na necessária preservação dos direitos individuais e coletivos dos cidadãos, vítimas de ações irresponsáveis daqueles que desprezam as liberdades do outro quando da busca de suas demandas sociais", escreveu Bolsonaro na justificativa do projeto.

Pré-candidato à Presidência, o deputado se apressou em ir às redes sociais apoiar a atual greve dos caminhoneiros, mas nas manifestações iniciais criticou a obstrução de vias.

"Caminhoneiros, parabéns, vocês estão fazendo algo muito mais importante até do que uma eleição. Só peço uma coisa, não bloqueiem a estrada. Com toda a certeza, onde por ventura esteja havendo bloqueio tem algum infiltrado do PT, do MST, da CUT", afirmou em vídeo divulgado na sexta (25).
Bolsonaro é crítico recorrente de manifestações em vias públicas promovidas por grupos de esquerda.
Neste domingo, porém, o presidenciável publicou em sua conta no Twitter: "Qualquer multa, confisco ou prisão imposta aos caminhoneiros por Temer/Jungmann será revogada por um futuro presidente honesto/patriota."

A Folha encaminhou perguntas para sua assessoria de imprensa e para o presidente interino
do PSL e advogado de Bolsonaro, Gustavo Bebianno, mas ainda não houve resposta.