April 7, 2023

Mais uma tentativa de silenciar o deputado Renato Freitas

 

 

R E N É R U S C H E L

A fogueira da Inquisição reacendeu na República de Curitiba. Em menos de um ano, o deputado estadual Renato Freitas, do PT, foi arrastado duas vezes para sacrifício no cadafalso político. Em 2022, como vereador, chegou a ser cassado pelo Conselho de ­Ética da Câmara Municipal de Curitiba, acusado de “invadir” a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Benedito durante um protesto pela morte do jovem congolês Moïse Kabagambe, no Rio de Janeiro. Voltou à Casa por conta de uma decisão judicial. Agora é o coronel Hudson Teixeira, secretário de Segurança Pública do governo Ratinho Jr., quem ergue novamente a tocha.


Na sessão de 7 de março, Freitas subiu à tribuna da Assembleia Legislativa e fez duras críticas à violenta atuação da Polícia Militar do Paraná. De posse de um documento divulgado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco, uma unidade­ do Ministério Público Estadual, denunciou a morte de 483 “suspeitos” em confrontos com a PM em 2022, crescimento de 17,3% em relação ao ano anterior. Quase 60% das vítimas eram pretas ou pardas, razão pela qual criticou a “seletividade das forças de segurança pública contra os negros”. Relembrou ainda dois casos cujas abordagens resultaram em vítimas fatais.

 No dia seguinte, o coronel, o mesmo
que admitiu descumprir ordens judiciais
para proteger “patriotas” que protesta-
vam contra a eleição do presidente Lula
nas rodovias do Paraná, redigiu um ofício
endereçado ao presidente da Assembleia
Legislativa, Ademar Traiano, do PSD. Na
peça, Teixeira insta os parlamentares da
Casa a aprovar uma “representação em
desfavor” de Freitas. Ele alega que o de-
putado petista fez “ilações infundadas,
descabidas e distorcidas da realidade
proferidas a militares estaduais e à Polí-
cia Militar do Paraná”. Segundo o secre-
tário, as operações da corporação são re-
alizadas com “respeito aos Direitos Hu-
manos, ao Estado Democrático de Di-
reito e à dignidade da pessoa humana”.

 
O documento não chegou à Assembleia
Legislativa. Foi interceptado pela Casa
Civil do governo Ratinho Jr. e só veio à
tona porque circulou em grupos de What-
sApp dos militares da corporação até ser
publicado nas redes sociais. CartaCapital
enviou e-mail à assessoria de comunica-
ção da Secretaria de Segurança Pública
para saber que tipo de punição o coronel
Hudson Teixeira pretendia e se o gover-
nador, em viagem oficial ao Japão e à Co-
reia do Sul, tinha conhecimento da medi-
da. Segundo a pasta, “em momento algum
foi requerida a cassação do parlamentar”,
o objetivo do documento seria apenas de
“esclarecer que a corporação defende os
interesses da população paranaense”. A
Casa Civil, por sua vez, diz ter recebido o
ofício, “mas optou por não encaminhar à
Assembleia Legislativa”.

 
Mestre em Direito Penal pela Univer-
sidade Federal do Paraná, o advogado Re-
nato Freitas, de 39 anos, foi eleito depu-
tado estadual em 2022 com 57.880 votos.
“Carrego na pele as cicatrizes desses cri-
mes”, afirmou em seu recente discurso. A
mãe, uma nordestina nascida na Paraíba,
sempre foi seu ponto de apoio. O pai, pre-
sidiário, veio para o Paraná transferido de
Sorocaba, interior de São Paulo. A família
o acompanhou. “Eu não era nem registra-
do quando cheguei aqui”, relembra. Todos
passaram a viver em Almirante Taman-
daré, na Região Metropolitana de Curiti-
ba, em um bairro “muito pobre, violento,
sem qualquer estrutura”.

 
Aos 12 anos, Renato Freitas começou
a trabalhar. Foi auxiliar de pedreiro, em-
pacotador, vendedor e faxineiro. “Pensa-
va o tempo todo no sofrimento da minha
mãe, que sempre foi empregada domés-
tica”, conta. Amigos de infância se envol-
veram com o tráfico de drogas e acaba-
ram presos ou mortos. Seu irmão mais
velho foi assassinado com um tiro na ca

eça aos 23 anos. “Estava trabalhando e
aconteceu um assalto.” Foi quando con-
cluiu que o único caminho para sair da-
quela miséria eram os estudos.
Em 2005, foi aprovado no processo se-
letivo da UFPR. Foi na universidade que
começou a se interessar por política. Es-
colheu estudar Direito porque queria lu-
tar por mais justiça social. “Vivi e senti
na pele não somente a miséria, mas o ra-
cismo e o preconceito. Sempre quis fazer
alguma coisa pelos meus iguais”, desaba-
fa o hoje deputado.

 
“Freitas é vítima do racismo e do pre-
conceito de classe social”, avalia Andréa
Pires da Rocha, professora do Departa-
mento de Serviço Social da Universidade
Estadual de Londrina. As estruturas so-
ciais no Brasil são enrijecidas e alimenta-
das por opressões que compõem as nos-
sas relações há mais de 500 anos, expli-
ca. “O lugar reservado ao negro era a sen-
zala. Depois, a rua, o trabalho precário, a
miséria, a prisão, os hospitais psiquiátri-
cos e as covas dos cemitérios. A presen-
ça de Freitas no Legislativo paranaense
subverte ‘a ordem das coisas’.”

 

 
Advogado e mestre em Direitos Huma-
nos e Democracia pela UFPR, André Luiz
Nunes da Silva engrossa o coro dos que
acreditam que o parlamentar é vítima de
racismo explícito. “É evidente que suas ori-
gens e sua postura de homem negro na so-
ciedade curitibana têm sido um choque de

ealidade no Parlamento”, observa Silva.
“Como presidente da Comissão de Igual-
dade Racial, ele conhece como poucos os
cenários de miséria e violência. Conhece
os bairros, os bolsões de pobreza.”

 
No Paraná, as pessoas pretas e pardas
representam 27,4% da população. Dian-
te de um quadro de desemprego eleva-
do, evasão escolar em alta e narcotráfi-
co exercendo poder e influência, o apara-
to repressivo estatal atua nas periferias
com rigor e de forma improvisada, identi-
ficando os negros como ameaças, não co-
mo as principais vítimas desse excluden-
te sistema, acrescenta Silva. “Onde o Es-
tado está ausente nas políticas públicas
para a construção da cidadania, a força
policial opera de forma a reprimir e exter-
minar os ‘inimigos’”, lamenta o advogado.
Para o psicólogo Márcio Cesar

 
Ferraciolli, doutor em Sociologia e coor-
denador do Observatório Social de Saú-
de Prisional da UFPR, questionar é um
ato democrático, mas pedir uma “repre-
sentação em desfavor” de alguém é outra
situação. O professor observa que o ofí-
cio encaminhado pelo secretário Hudson
Teixeira deveria rebater com dados e ar-
gumentos as declarações do denuncian-
te. “Pedir uma representação contra a fa-
la de um parlamentar que se expressou
na sessão da Casa, no parlatório à frente
de seus pares, sem fazer o contraditório,
pode ser considerado um ato de repres-
são, um ato antidemocrático.”

 
A ratoeira plantada pelo coronel
Hudson Teixeira acabou fechando em
sua própria mão. Na segunda-feira 13, o
deputado Ademar Traiano, presidente
da Assembleia Legislativa, saiu em de-
fesa do colega. Observou que o petista
não faltou com o decoro e que a crítica
faz parte da atividade parlamentar. “Sua
fala foi focada em algumas questões rela-
cionadas à Polícia Militar, mas não faltou
com decoro. Ele tem o direito de falar.” •

CARTA CAPITAL  

 

April 3, 2023

O menestrel satírico

 



Durante a ditadura, Juca Chaves estava em um programa de tevê quando o apresentador perguntou o que achava do regime militar. “Eu não acho nada. Um amigo meu foi achar e nunca mais acharam ele”, respondeu, com seu humor característico.

Juca, que morreu no sábado 25, em Salvador, aos 84 anos, devido a problemas respiratórios, entrou para o imaginário popular como a figura engraçada que usou a sátira para falar das mazelas e costumes do País e que cantava modinhas ao violão.Na década de 1970, seus discos de piadas, com historietas maliciosas intercaladas a canções, fizeram sucesso. Seu talento ia, porém, muito além da capacidade de fazer rir.... 

“Sou um compositor bom, músico mé-
dio e cantor fraco. Bom humorista por
acaso e faço um espetáculo bom. Um me-
nestrel”, costumava dizer o músico, com-
positor, cantor e comediante

 
Jurandyr Czaczkes Chaves nasceu no
Rio de Janeiro em 1938, fruto da união de
um judeu austríaco – que abrasileirou o
sobrenome assim que aqui chegou – e de
uma judia lituana, mas mudou-se com a
família para São Paulo ainda na infância.
Aos 7 anos, iniciou os estudos de violão.
A facilidade com o instrumento fez
com que, aos 16 anos, passasse a ter au-
las com o maestro Guerra Peixe, no-

me de proa da música clássica brasilei-
ra que, certamente, influenciou seu gos-
to musical. “Os russos são os meus prefe-
ridos: Tchaikovsky, Rimsky-Korsakov e
Mussorgsky não saíam da minha vitrola”,
afirmou, em sua autobiografia. Não é difí-
cil, inclusive, identificar algo da dramati-
cidade russa em Águas de Saquarema, sua
primeira composição de destaque, grava-
da em 1957 pela cantora Lenny Eversong.

 
A união entre erudito e popular o cons-
tituiu. Outro de seus mestres, o maestro
Eleazar de Carvalho, incutiu nele o gos-
to pelo estudo sistemático. No campo da
música popular, algumas de suas maio-
res inspirações foram Dorival Caymmi,
Luiz Gonzaga e Lamartine Babo.

 
Não era raro Juca criar uma balada ro-
mântica e revesti-la com arranjos barro-
cos, como se pode perceber em A Cúmpli-
ce, canção do disco Juca Bom de Câmara
(1977) na qual um singelo acompanha-
mento de cravo abrilhanta os versos
.

 
Eu quero uma mulher/ Que seja diferente/
De todas que eu já tive/ Todas tão iguais/
Que seja minha amiga, amante confiden-
te/ A cúmplice de tudo que eu fizer a mais.

 
Ao mesmo tempo que flertarva com
a música do século XVI, como fez em
Pavana para Per La Contessa Alessandra
(1977), adorava fazer graça. Sono Cornuto,
Mas Sono Felice, faixa de Senza Complessi
(1970), gravado durante o autoexílio na
Itália, rendeu ao artista divertidas sauda-
ções de cornuto! quando andava pela rua.

 
Juca especializou-se na modinha e as-
sumiu a persona do trovador. Mas o fez à
sua maneira: adotou o estilo para fazer sáti-
ra política. A primeira sátira a torná-lo co-
nhecido foi Presidente Bossa Nova (1957),
que ironizava a modernidade deJuscelino
Kubitschek. Voar, voar pra bem distante/
Até Versalhes onde duas mineirinhas, val-
sinhas/ Dançam como debutante, interes-
sante/ Mandar parente a jato pro dentis-
ta/ Almoçar com tenista campeão, cantava.

 
Juca não tinha preferência política.
Achincalhava todos, sem dó. Presidente
Bossa Nova foi apenas uma das 84 can-
ções de seu repertório a ter trechos cen-
surados. Outras 41 foram proibidas.
O País tampouco escapava de seus ver-
sos. O samba Caixinha, Obrigado (1960) ri-
mava a corrupção. Brasil Já Vai à Guerra,
do mesmo ano, fazia troça da compra do
porta-aviões Minas Gerais pela Marinha.
Dona Maria Tereza (1962) usava o no-

 me da então primeira-dama para falar da
precária situação econômica do povo e
do medo do comunismo: Dona Maria Te-
reza/ Assim o Brasil vai pra trás/ Quem
deve falar, fala pouco/ Lacerda já fala de-
mais/ Enquanto feijão dá sumiço/ E o dó-
lar se perde de vista/ O Globo diz que tu-
do isso/ É culpa de comunista.

 
Vinicius de Moraes apelidou-o, por essa
e outras, de menestrel maldito. No período
mais duro da ditadura, sapateou em cima
do ufanismo de País Tropical, canção de
Jorge Ben Jor eternizada na voz deWilson
Simonal. Alô Brasil, alô Simonal/ Moro e
namoro em Paris Tropical/ Tereza é em-
pregadinha, eu sou seu patrão/ Vendi meu
Fusca e o meu violão/ Tenho um Jaguar, só
ouço Bach/ Eu como estrogonofe em lugar
de feijão, dizia, em Paris Tropical (1972).

 
Mas a sátira não foi seu único estilo. Já
no disco de estreia, de 1960, pela gravado-
ra RGE – para a qual fora recomendado pe-
la cantora Aracy de Almeida –, dividia-se
entre provocações e canções românticas.
Para cada Presidente Bossa Nova e Na-
sal Sensual havia uma melodia singela,
como Menina, Aquarela dos Sonhos e Por
Quem Sonha Ana Maria. Nos anos 1970,
ele passou a inserir piadas em suas apre-
sentações musicais.

 
Artista completo, Juca também fez
sempre questão de se posicionar ao lado
dos colegas em demandas mais ou me-
nos específicas. Participou de movimen-
tos contra a censura e lutou, por exemplo,
pela numeração dos discos, a fim de im-
pedir que os artistas fossem lesados pe-
las gravadoras. Sua gravadora, a Sdruws,
era por ele definida como a primeira re-
almente socialista. “O empregado rouba
o patrão e vice-versa”, brincava.

 
Juca Chaves foi casado por quase meio
século com Yara, uma modelo e dançari-
na que se tornou a musa de todas as suas
canções de amor. O casal tinha duas fi-
lhas, Maria Clara e Maria Moreno. •

carta capital

 

 

Esqueleto no armário

 

 

 

  Enfim ouvido pela Justiça
brasileira, Rodrigo Tacla Duran tem tudo
para ser o algoz de Moro e Dallagnol

 
P O R R E N É R U S C H E L

Dois dias antes de prestar de-
poimento por videoconfe-
rência à Justiça brasileira,
o advogado Rodrigo Tacla
Duran, que mora em Madri
desde 2017, permitiu-se uma ironia numa
rede social. “A lei do retorno é infalível”,
anotou. O recado tinha destino certo, Ser-
gio Moro, ex-juiz e agora senador, eDeltan
Dallagnol, deputado federal, especialista
em PowerPoint e antigo coordenador da
força-tarefa da Operação Lava Jato. Por
aquelas coincidências do destino, Tacla
Duran pode, finalmente, contar sua ver-
são dos fatos a um juiz da 13ª Vara Fede-
ral de Curitiba, casamata utilizada por
Moro para persegui-lo e silenciá-lo ao lon-
go dos últimos anos. E não se fez de roga-
do. Em pouco mais de uma hora de depoi-
mento, o advogado, acusado de pagar pro-
pina em nome da Odebrecht, repetiu as
acusações contra integrantes da operação
levadas a público seis anos atrás. Mais:
anexou documentos, áudios e vídeos às
afirmações feitas perante o novo titular
da jurisdição, Eduardo Appio.

 
Recordemos. Segundo Tacla Duran,
Carlos Zucolotto Júnior, amigo do ex-juiz
e sócio de uma banca de advocacia na qual
trabalhava a “conje” Rosângela Moro, o
procurou com uma oferta. Em troca do
pagamento de 5 milhões de dólares, “por
fora”, Tacla Duran assinaria um acordo
de delação camarada. Além da redução da
multa e da garantia de prisão domiciliar,
estava incluída a opção de manter o aces-
so a uma conta bancária de 15 milhões de
dólares. A tramoia funcionaria da seguin-
te forma: a força-tarefa solicitaria a Mo-
ro o bloqueio de uma conta bancária sem
fundos do acusado e “se esqueceria” de
incluir no pedido aquela onde o dinhei-
ro grosso estava depositado. Nas men-
sagens enviadas, Zucolotto teria afirma-
do que o acerto tinha o aval de “DD”, ini-
ciais de Deltan Dallagnol. Não só. No dia
seguinte à conversa, Tacla Duran diz ter
recebido uma minuta do acordo de dela-
ção em papel timbrado do Ministério Pú-
blico Federal e com o nome dos procura-
dores envolvidos na negociação.

 
Ao juiz Appio, o advogado acrescentou
novos detalhes à trama. Em julho de 2016,
diz, chegou a transferir 613 mil dólares ao
colega de profissão Marlus Arns, espécie
de sinal. Outra coincidência. Arns é um ve-
lho amigo e foi parceiro de Rosângela Mo

o na defesa da Associação de Pais e Ami-
gos dos Excepcionais. Tacla Duran afirma
ter refletido após o primeiro pagamento
e desistido de depositar o restante do va-
lor. Em retaliação, Moro decretou sua pri-
são, o que o levou a se refugiar na Espanha
(ele tem dupla cidadania). O juiz tentou al-
cançá-lo de todas as formas e conseguiu,
por algum tempo. Em consequência de um
alerta de prisão emitido pela Interpol, o
advogado ficou detido durante 72 dias na
prisão de Soto del Real, até obter o direito
à liberdade condicional. Tacla Duran ain-
da trouxe à tona outro personagem, Fábio
Aguayo, atual assessor de Moro no Sena-
do. Diz ter sido procurado por Aguayo e
Zucolotto à época em que ocupava o car-
go de vice-presidente jurídico do Sindi-
cato dos Hotéis em São Paulo. O objetivo
da reunião era convencê-lo a contratar os
serviços de Zucolotto. “Apresentou que
era do Moro. Fiquei só observando, né?”,
descreveu na audiência da terça-feira 28.

 
Apesar de Tacla Duran não ter cita-

 do nominalmente Moro ou Dallagnol, o
juiz Appio decidiu encerrar o depoimen-
to de cerca de uma hora e solicitar o envio
do inquérito ao Supremo Tribunal Fede-
ral pelo fato de o senador e o deputado te-
rem foro privilegiado. O magistrado tam-
bém revogou a prisão do advogado e re-
quereu a sua inclusão imediata no progra-
ma de proteção a testemunhas. “O cida-
dão Tacla Duran tem, a meu ver, o direito
de exercer seus direitos de defesa (devido
processo legal substantivo) em liberdade,
até que sobrevenha eventual condenação
(até porque se encontra hoje amparado em
recentíssima decisão do Egrégio Supremo
Tribunal)”. A citação ao STF guarda rela-
ção com decisão da sexta-feira 24 do mi-
nistro Ricardo Lewandowski que suspen-
deu a ação penal contra o ex-defensor da
Odebrecht. O processo será encaminhado
ao próprio Lewandowski, que se aposenta
do tribunal em abril. Ou seja, em princí-
pio, as denúncias de Tacla Duran tendem
a ser analisadas pelo próximo ministro do
Supremo a ser indicado por Lula, que em
recente entrevista lembrou-se de ter ali-
mentado inúmeras vezes o desejo de “fo-
der” Moro nos 580 dias de prisão em Curi-
tiba. O mundo gira e a Lusitana roda.

Ao interromper o depoimento, Appio
justificou a decisão de remeter os autos
ao STF: “Diante da notícia de crime de
extorsão, em tese, pelo interrogado, en-
volvendo parlamentares com prerroga-
tiva de foro, ou seja, Deputado Deltan
Dallagnol e Senador Sergio Moro, (...)
encerro a presente audiência para evitar
futuro impedimento, sendo certa a com-
petência exclusiva do Supremo Tribunal
Federal, na pessoa do Excelentíssimo Mi-
nistro Ricardo Lewandowski, juiz natu-
ral do feito”. Quanto à solicitação da pro-
teção à testemunha, afirmou: “Na medi-
da em que há risco concreto de vida e se-
gurança do requerente, tendo em vista
o poderio econômico e político dos en-
volvidos (futuros investigados)”. A par-
tir de agora, a instrução do inquérito pas-
sa à responsabilidade da Polícia Federal.

 
Em vez de rebater as acusações,
Dallagnol preferiu atacar o juiz. “Advi-
nha quem acreditou num dos acusados
que mais tentou enganar autoridades na
Lava Jato?”, perguntou em uma rede so-
cial. “Ele mesmo, o juiz lulista e midiá-
tico Eduardo Appio (+ conhecido como
LUL22), que nem disfarça a tentativa de
retaliar contra (sic) quem, ao contrário
dele, lutou contra a corrupção.” Por meio
da assessoria, Moro declarou-se vítima de
calúnia e disse não temer a investigação.
“Trata-se de uma pessoa que teve a prisão
preventiva decretada na Lava Jato (...).

 
Desde 2017 faz acusações falsas, sem
qualquer prova, salvo as que ele mesmo fa-
bricou.” Na quarta-feira 29, o senador pôs
em marcha um plano para manter o caso
no Paraná, desde que fora das mãos de Ap-
pio. O ex-juiz mostra ter aprendido os tru-
ques do populismo: no texto, seus advoga-
dos dizem que o agora parlamentar abre
mão da prerrogativa de foro, “privilégio
odioso”, argumentam que os fatos ocor-
reram antes das eleições e colocam em dú-
vida a imparcialidade do atual titular da
13ª Vara. Engana-se quem quer. Moro de-
seja, na verdade, não um julgamento justo,
mas escapar do rigor dos ministros do Su-
premo e, quem sabe, responder a um dos
tantos amigos na primeira instância da
“República de Curitiba”. O Tribunal Re-
gional Federal da 4ª Região, recheado de
lavajatistas, tem, aliás, imposto derrotas
a Appio (derrubou por duas vezes a prisão
do doleiro Alberto Youssef) e o ameaça de
processo disciplinar, caso venha a conce-
der entrevistas. Appio tornou-se, assim,
o único juiz brasileiro obrigado a se ma-
nifestar apenas nos autos do processo. A
regra virou exceção. Após o depoimen-
to de Tacla Duran, o magistrado passou
a receber ameaças e solicitou ao TRF-4
um carro blindado e segurança 24 horas.

 
Para Luiz Carlos da Rocha, um dos in-
tegrantes da banca de defesa do presiden-
te Lula, a decisão de remeter o processo
ao STF está correta. “A conduta foi abso-
lutamente adequada, pois tão logo se de-
parou com a menção dos nomes de am-
bos declinou a competência, que é o que
deve fazer todo juiz isento, quando se de-
para com o instituto da prerrogativa de
foro obstando sua competência.” Rocha

espera, daqui em diante, que o acusador
avance nas denúncias. “Será preciso saber
se estão amparadas em provas. Tudo o
que ele trouxe agora deve ser submetido
ao escrutínio da investigação se o STF de-
liberar assim e, se há presença de crime, o
Ministério Público poderá avaliar e ofe-
recer denúncia, submetendo tudo ao contraditorio
e à ampla defesa.


As acusações jogaram um balde água
fria no entusiasmo de Moro. Uma sema-
na antes, o senador havia sido resgatado
do fundo do poço da insignificância em
decorrência de duas declarações de Lula
e da divulgação de um suposto plano do
PCC para matá-lo ou sequestrá-lo. Não
bastasse a péssima repercussão do dese-
jo de “foder” o ex-juiz, o petista incorreu
novamente no erro ao afirmar, sem pro-
vas, que o plano da facção criminosa, in-
vestigado pela PF, seria uma armação, um
factoide criado pelo senador e seus alia-
dos. Moro ganhou, além dos repentinos 15
minutos de fama, a oportunidade de repi-
sar uma velha mentira sobre a ligação en-
tre o PCC e o PT e acusar o “adversário”
de incitar o ódio. “Se acontecer algo à mi-
nha família, a culpa é do presidente”, cho-
ramingou o parlamentar.

 
Moro, tudo indica, apenas subiu no
bonde que passou à sua porta. Primeiro,
vangloriou-se de uma medida que não é
de sua lavra. A proibição de visitas ínti-
mas nos presídios, suposta causa da ira
do PCC, foi decretada em 2017, ainda no
governo de Michel Temer, pelo então mi-
nistro da Justiça Torquato Jardim. Em
fevereiro de 2019, quando era apresenta-
do ao público como o “superministro” de
Jair Bolsonaro, Moro apenas ratificou a
decisão. Igualmente fajuta é a tese de que
o plano tinha a ver com a transferência de
Marcola, líder da facção, para o presídio
de segurança máxima de Rondônia. Mais
uma vez, o ex-ministro fez caridade com o
chapéu alheio. “Não há nenhuma ingerên-
cia do governo federal, seja do presiden-
te Bolsonaro, seja do ministro Moro nes

sa remoção. Entristece saber que políticos
e até um ex-juiz alterem a verdade para ob-
ter ganhos políticos”, afirmou, em outu-
bro de 2022, mês das eleições, o promotor
Lincoln Gakiya, o verdadeiro alvo do PCC.
O senador não teria, porém, obtido tan-
ta repercussão sem o auxílio luxuoso da
parceira Gabriela Hardt. A juíza, primei-

a substituta de Moro na 13ª Vara, apre-
sentou o despacho de 69 páginas que le-
vantou o sigilo da investigação sobre o
PCC em tempo recorde, em apenas dois
dias úteis depois de o caso ser transferi-
do, de forma pouco transparente, diga-
-se, da 9ª Vara em Brasília para Curitiba.
O despacho de Hardt irritou a PF. No afã
de promover o parceiro, a magistrada ex-
pôs a investigação, iniciada no ano passa-
do. Paulo Pimenta, ministro da Secreta-
ria de Comunicação da Presidência, não
poupou críticas à decisão. “Uma juíza re-
tirar o sigilo de um inquérito sensível e pe-
rigoso, que ainda está em curso, sem com-
binar com a cúpula da PF ajuda em quê?
Tudo para ajudar a narrativa de um ami-
go? Vocês acham normal? Não se indig-
nam?”, escreveu no Twitter 

 CARTA CAPITAL