July 18, 2021

O “REVERENDO”

 

 


O CAPÍTULO BÍBLICO DO VACINOGATE É MAIS DO QUE UMA
HISTÓRIA DE LOBBY NO GOVERNO. AMILTON DE PAULA FAZ
NEGÓCIOS TRAVESTIDOS DE AJUDA HUMANITÁRIA


p or A N DRÉ BA R RO C A L 

Jair Bolsonaro foi ao Supremo
Tribunal Federal na segun-
da-feira 12, chamado pelo
comandante da Corte, Luiz
Fux. Marco Aurélio Mello
pendurava a toga naquele
dia, e para a vaga o ex-capi-
tão indicou o “terrivelmente
evangélico” André Mendonça, advogado-
-geral da União. Não era disso, porém, que
Fux queria tratar. Diante dos últimos dis-
parates presidenciais sobre fraude eleito-
ral, o juiz desejava reunir os chefes dos Po-
deres. Seria dali a dois dias. A reunião aca-
bou cancelada, devido à obstrução intes-
tinal que levou Bolsonaro ao hospital. Na
saída do encontro com Fux, o ex-capitão
foi perguntado por jornalistas sobre cer-
to evangélico, e não era Mendonça. “Se eu
vir a cara dele, pode ser que eu lembre de
algum lugar, mas num tô lembrado no mo-
mento aqui, num tô lembrado.”


Em 16 de março, o evan-
gélico em questão, reveren-
do Amilton Gomes de Pau-
la, havia escrito cedo no
Whats App: “Ontem falei
com quem manda! Tudo cer-
to! Estão fazendo uma cor-
rida compliance da infor-
mação da grande quantida-
de de vacinas!” A mensagem
do fundador da Igreja Batis-
ta Ministério Vida Nova di-
rigia-se ao PM mineiro Luiz
Paulo Dominguetti, cujo ce-
lular foi apreendido pela CPI
da Covid. Uma interlocutora
do pastor, a misteriosa Ma-
ria Helena, deu a informa-
ção igual ao policial: “On-
tem o rev esteve com o pre-
sidente”. Idem um empresá-
rio de Santa Catarina, Re-
nato Gabbi, parceiro do re-
ligioso na tentativa de ven-
der imunizantes a estados e
prefeituras: “Ontem o Amil-
ton falou com Bolsonaro, ele
falou que vai comprar tudo”.


“MICHELE ESTÁ NO
CIRCUITO AGORA.
JUNTO AO
REVERENDO.
MISERICÓRDIA”,
ESCREVEU O PM
DOMINGUETTI


Na véspera das três mensagens, o pre-
sidente sentara-se das 16 às 18 horas com
nove pastores, no Palácio do Planalto.
Uma conversa sobre a proibição paulis-
ta de abrir templos na pandemia e a de-
volução dos direitos políticos, na semana
anterior, a Lula. Uma pesquisa Datafolha
do início de julho mostrou Bolsonaro com
38% de intenção de voto entre os crentes e
o petista com 37%. Na lista divulgada pe-
lo Planalto dos presentes à reunião, Go-
mes não aparecia. Às 17h02 de 15 de mar-
ço, outro colaborador dele, “Amauri”, di-
zia a Dominguetti, no WhatsApp: “O re-
verendo nesse momento está com o 01”.


Gomes havia jogado alto para ir ao “01”.
“Michele está no circuito agora. Junto
ao reverendo. Misericórdia”, escrevera
Dominguetti em 3 de março a um inter-
locutor apresentado em sua agenda telefô-
nica como “Rafael Compra Deskartpak”.
Provavelmente, a Descarpack, com sede
em São Paulo e filial catarinense, investi-
gada pelo Ministério Público Federal por
vender máscaras médicas superfaturadas
ao governo. “Quem é? Michele Bolsona-
ro?”, pergunta Rafael. Resposta: “Esposa
sim”. E o PM reforça em seguida, através
de uma mensagem de áudio: “O reveren-
do chegou na Presidência da República”.


Por ter chegado, protagoniza o capítu-
lo bíblico do “vacinogate”.
Ao lado de Dominguetti, fi-
gurou em uma tentativa mi-
rabolante de vender 400 mi-
lhões de doses ao governo.
Foi nessa negociação que,
segundo o PM, houve co-
brança de propina por um
sujeito ligado ao líder do go-
verno na Câmara, Ricardo
Barros. O cobrador, que ne-
ga, seria Roberto Dias, dire-
tor de Logística do Ministé-
rio da Saúde até 29 de junho.
O reverendo foi convocado a
depor pela CPI e deveria tê-
-lo feito na quarta-feira 14.
Seus advogados mandaram
para lá um atestado médico,
a apontar problemas renais
do cliente e a necessidade de
15 dias de cuidados. O pre-
sidente da comissão, Omar
Aziz, requereu uma perícia
e confirmou a alegação. Os
advogados pediram ainda
um habeas corpus ao Supre-
mo, para Gomes poder ficar

quieto e não ser preso na CPI. Fux permi-
tiu o silêncio em hipótese de autoincrimi-
nação, mas sem impedir a prisão.


O depoimento ficou para agosto e no Se-
nado há quem ache bom. Até lá, a comissão
deverá quebrar os sigilos bancário, fiscal e
comunicacional do reverendo e ouvir ou-
tras testemunhas, a fim de juntar dados e
aí tentar elucidar a ligação do pastor com
Jair e Michele. Na quinta-feira 15, dia da
conclusão desta reportagem, depôs à co-
missão um empresário, Cristiano Alberto
Hossri Carvalho, parceiro do reverendo na
representação da empresa texana Davati,
a ofertadora de 400 milhões de vacinas.
Carvalho é dono de uma firma aberta em
2017, a 2C Overseas Comércio e Represen-
tação, cujo nome de fantasia tem ar religio-
so, Graça Divina, inapta, segundo a Recei-
ta Federal, por “omissão de documentos”.
Dois anos antes de montar o negócio, Car-
valho fora demitido por justa causa de uma
empresa, a BTS Butler, por pedir reembol-
so duplicado, informou a Folha.


 

Em 13 de março, em meio a tra-
tativas do reverendo para falar
com o “01”, Carvalho escrevera a
Dominguetti: “Verifica pra mim
se o presidente vai atender hoje
ou amanhã ou até na terça, por-
que aí eu preciso mudar o voo e preciso re-
servar o hotel, tá bom?” O PM, via áudio:
“Para falar com ele em agenda, eles conse-
guem marcar segunda, terça, quarta, que
aí entra na agenda oficial. O que eles estão
tentando é que o presidente te receba de
forma extraoficial, entendeu?” E o empre-
sário, via áudio: “O reverendo está falan-
do que está marcando um café da manhã
com o presidente amanhã, às 10h, 9h, sei
lá, que vai ter um café com os líderes re-
ligiosos e a gente vai entrar no vácuo, tá?
Agora tem que fazê-lo confirmar isso aí
para a gente colocar uma pulguinha atrás
da orelha do presidente, tá?”


Pulga é pouco diante da trajetória e das
conexões do reverendo Gomes. Uma pulga
gigantesca. E não se trata apenas das sus-
peitas quanto a tráfico de influência den-
tro do Planalto. O pastor parece peça de
um submundo, de um porão que (acredite,
leitor) usa a fachada bíblica e humanitá-
ria para atingir objetivos políticos conser-
vadores e prestar serviços à inteligência
de Israel e dos Estados Unidos. Uma fa-
chada que o bilionário bolsonarista Car-
los Wizard, outro na mira da CPI, parece
ter usado também.


Gomes foi do Ministério do Exército
nos anos 1990. Em 17 de julho de 2002,
registrou na Receita Federal a Secretaria
Nacional de Assuntos Religiosos, entida-
de nada governamental, apesar do nome
e da sede em Brasília. Informava que sua
atividade principal era “ensino médio”.
Naquele dia nascia com um CNPJ igual
uma faculdade de filosofia em Uberlân-
dia, aberta por José Marcelino da Silva,
sujeito que pesquisas na web mostram ter
alguma relação com a Escola Superior de
Guerra. O reverendo fez e ministra cur-

sos de psicologia e psicanálise. Em um
site de divulgação profissional, o Contact
Out, diz sobre si: “A maior conquista foi
minha adesão ao programa da Polícia Fe-
deral também como Psicólogo”. Em 23 de
setembro de 2020, seu nome e CPF apa-
reciam em uma lista de “Agentes de Se-
gurança Ferroviária” publicada no Diário
Oficial da União pelo Sindicato dos Poli-
ciais Ferroviários Federais de Goiás.

O SENHOR COHEN
É UM TENENTE-
-CORONEL DE
ISRAEL, TAMBÉM
MÉDICO, QUE
MOROU (E TALVEZ
AINDA MORE) EM
LAURO DE FREITAS

No início da pandemia, a entidade de
Gomes foi rebatizada de Secretaria Nacio-
nal de Assuntos Humanitários. Essa Se-
nah tem um nome de fantasia, Embaixada
Humanitária Mundial pela Paz, cuja sede
em Brasília foi inaugurada em outubro de
2019 com a presença do então embaixador
de Israel aqui, Yossi Shelley. Um mês an-
tes da inauguração, nascera a Frente Par-
lamentar Mista Humanitária em Defesa
da Paz Mundial, articulada por Gomes
com deputados. O objetivo da Frente, in-
forma seu estatuto, é intensificar o con-
tato “político, econômico, comercial, cul-
tural e técnico-científico”, oferecer ajuda
humanitária a áreas em guerra e com re-
fugiados e, através da secretaria, “fomen-
tar e financiar cursos de proteção à liber-

dade religiosa e a refugiados”, com inter-
câmbio nacional e internacional.


Foi com a credencial de líder da Senah
que o reverendo entrou na negociação de
vacinas com o governo. Em 23 de feverei-
ro passado, o então diretor de Imunização
e Doenças Transmissíveis do Ministério
da Saúde, Lauricio Monteiro Cruz, en-
viou-lhe um e-mail, revelado pelo Jornal
Nacional, no qual agradecia à Secretaria
pela proposta de 400 milhões de doses e
dizia que o assunto era com o então secre-
tário-executivo da pasta, o coronel da re-
serva Élcio Franco. Cruz é desde 2017 fi-
liado ao PL, partido chegado aos evangé-
licos, e, com Gomes, discutiu vacinas no
ministério em 4 de março. O diretor foi
demitido em 8 de julho, por razões pouco
claras, exceto por seus contatos com o re-
verendo e a Davati, que prometia conse-
guir imunizantes da AstraZeneca. Em 9
de março, Cruz tinha escrito diretamen-
te ao chefe da Davati no Texas, Herman
Cárdenas, que a CPI quer convocar.


 

No dia seguinte, Gomes tam-
bém mandou um e-mail a
Cárdenas. Requisitava o
“SGS” das doses, documen-
to que atesta a conformida-
de de produtos, e a FCO, sigla
em inglês que significa oferta completa
de venda. Os papéis (e, portanto, as vaci-
nas) existiam? A AstraZeneca esclarece
só vender a governos. A expectativa, di-
zia o reverendo, era fechar o negócio com
o Brasil em 12 de março. Nesse dia, reu-
niu-se com Élcio Franco, mas este escon-
deu o encontro. Fez constar na agenda que
receberia Helcio Bruno de Almeida, presi-
dente do Instituto Força Brasil. Almeida
é coronel, colega de turma de Franco nas
forças especiais. Seu instituto surgiu em 6
de outubro de 2020, para, entre outras ta-
refas, “oferecer subsídios para o fortaleci-
mento dos movimentos ativistas conser-
vadores” e ser um “celeiro de inteligência”.
O vice-presidente é o empresário bolsona-
rista Otávio Fakhoury. O reverendo par-
ticipou da reunião com os coronéis, três
dias antes do papo com o “01”.


Um coronel da Aeronáutica foi a pon-
te de Cárdenas, da Davati, com o Institu-
to Força Brasil. Trata-se de Glaucio Octa-
viano Guerra, citado por Dominguetti na
CPI. Guerra, conforme a Agência Pública,
abriu uma empresa nos Estados Unidos
em novembro de 2020, a Guerra Interna-
tional Consultants. Sua família prima pe-
la presença de militares bolsonaristas. O
irmão mais velho, Cláudio, é um policial
federal acusado de integrar milícias do
Rio. À CPI Carvalho contou ter conhecido
Guerra em 2020 e que o militar tinha sido

da embaixada brasileira em Washington.
“Ele que me apresentou o Cárdenas”, afir-
mou. Contou mais: que o reverendo Go-
mes informou a Cárdenas que negociava
a venda de vacinas ao Paraguai e à Ará-
bia Saudita. Ao que consta, o pastor que-
ria em troca, inclusive no caso brasileiro,
doações no exterior.


No e-mail enviado a Cárdenas em 10 de
março, o reverendo dizia que o preço em
negociação com o governo era de 17,5 dó-
lares por vacina. Um contrato potencial de
7 bilhões de dólares, 35 bilhões de reais,
quase o dobro dos 20 bilhões de reais re-
servados pelo governo para comprar va-
cinas. Compare-se: o Ministério da Saú-
de fez dois contratos com a Pfizer, ambos
de 100 milhões de doses. No primeiro, de
março, o preço era de 10 dólares por uni-
dade. No segundo, de maio, de 12 dólares.

PARA A CPI DA
COVID, OS 90 DIAS
DE PRORROGAÇÃO
DOS TRABALHOS
NÃO SERÃO
SUFICIENTES PARA
DESVENDAR
TANTOS ROLOS


Após passar meses a ignorar
ofertas da Pfizer, que não ti-
nha atravessadores como o re-
verendo, Bolsonaro fez uma
videoconferência com o che-
fe mundial do laboratório,
Albert Bourla, em 8 de março. Nesse
dia, o pastor Gomes mandou uma car-
ta a Cárdenas, da Davati, obtida pela
CPI no celular de Dominguetti. O docu-
mento tinha um logotipo no alto à direi-
ta de uma entidade chamada American
Diplomatic Mission of International
Relations – Intergovernmental
Organization, a Admir. Em tradução li-
teral, é a Missão Diplomática Americana
de Relações Internacionais – Organização
Intergovernamental. E aqui nossa história
começa a juntar bíblia, política, causas hu-
manitárias, militares, PMs, órgãos de in-
teligência, Brasil, EUA, Israel.


A Admir diz defender causas huma-
nitárias, democracia e segurança. Foi
criada em 2013 por um sujeito que ora
se apresenta como Roberto Cohen, ora
como Zigmund Ziegler Cohen. É um te-
nente-coronel de Israel, médico tam-
bém, que morou, talvez ainda more, em
Lauro de Freitas, na Bahia. Um poliglo-
ta (fala português) com estudos de psico-
logia e psicanálise iguais aos de Amilton
Gomes. Quando do registro da Admir na
Flórida, apurou CartaCapital, os ende-
reços comercial e para cartas informa-
dos eram em Jerusalém. No ano seguin-
te, Cohen registrou na Flórida a Missão
Diplomática Americana de Relações In-
ternacionais, em português. Os endere-
ços também eram em Jerusalém. Em ja-
neiro de 2016, a Admir original informa-
va no Facebook: para usar o logotipo da
organização, só com autorização. O pri-
meiro post dessa página é de novembro de
2015. No mês seguinte, críticas pesadas ao

então governo Dilma Rousseff, em razão
das posições brasileiras a favor dos árabes.


Em fevereiro de 2016, Cohen, na quali-
dade de presidente, alterou o registro da
Admir original (a de nome em inglês) pa-
ra acrescentar “organização intergover-
namental”. No mês seguinte, modificou os
registros da Admir Brasil, para incluir co-
mo endereço dele, Cohen, uma avenida em
Goiânia. É a cidade, recorde-se, do sindica-
to que apontou o reverendo Gomes como
“agente de segurança ferroviária”. Uma
postagem de maio de 2017 da Admir no Fa-
cebook indicava outro endereço de Goiâ-
nia como sede da Admir Brasil: o prédio do

Sindicato dos Policiais Federais de Goiás.
Em 2018, Donald Trump, então na Ca-
sa Branca, tornou-se presidente de honra
da Admir. Em 2019, um brasileiro é no-
meado vice-presidente, Flavio Borotti.
Trata-se de um PM paulista, médico,
com cursos na Swat americana e de pa-
ramédico no Texas, o estado da firma
Davati. Borotti entrara na organização
em fevereiro de 2016, época de avanço do
impeachment de Dilma. Outra recorda-
ção: em maio de 2016, Bolsonaro estava
em Israel, para ser batizado no Rio Jor-
dão, no dia que o Senado afastou a petista
provisoriamente. No último dia 5 de ju-
lho, Cohen mudou novamente os regis-
tros da Admir original (nome em inglês).
O endereço comercial passou a ser no Te-
xas e o de cartas, em Lauro de Freitas.


Admir tem uma divisão de inte-
ligência, o International Center
for Criminal Intelligence (Cen-
tro Internacional para Inteli-
gência Criminal), que se pro-
põe a combater terrorismo,
corrupção e tráfico de pessoas, drogas e
armas. Sua página na web diz que o centro
abastece o Mossad, o serviço secreto isra-
elense. O centro foi registrado na Flórida
em fevereiro de 2015 por Cohen, seu pre-
sidente. Outros três dirigentes registra-
dos eram brasileiros. Entre os atuais re-
presentantes oficiais do centro está o che-
fe do Mossad de 2016 a 2021, Yossi Cohen.
E estão dois brasileiros. Alexandre Apare-
cido dos Santos, instrutor do Bope, o bata-
lhão especial da PM no Rio, denunciado e
preso por organização criminosa no Para-
ná no passado. E Gilmar Matias de Souza,
ex-oficial de inteligência da PM de Goiás
e ex-membro do SNI, o serviço secreto da
ditadura brasileira.


Roberto Cohen é também coordena-
dor de uma “Missão Brasileira das For-
ças Internacionais de Paz da ONU”. As
missões lideradas pelo Brasil no Haiti e
na República Democrática do Congo, nos
governos petistas, aproximaram milita-
res daqui do Exército e serviços de inteli-
gência de outros países (hoje há ainda 80
militares brasileiros nesse tipo de mis-
são). São contatos que reforçaram laços
político-ideológicos.


Em fevereiro de 2018, o Exército bra-
sileiro promoveu a Operação Acolhida,
em Roraima, para refugiados venezuela-
nos. Era no governo Temer, que resistia à
intenção de Trump de derrubar Nicolás
Maduro. O chefe da operação era o gene-
ral Eduardo Pazuello, ministro da Saúde
de Bolsonaro até março deste ano. Em de-
zembro de 2018, Temer decretou interven-
ção em Roraima. Pazuello comandou as fi-
nanças estaduais. O coronel Élcio Franco,
vice de Pazuello na Saúde, foi da Casa Civil
e da secretaria de Saúde de Roraima. Em
fevereiro de 2019, EUA, Brasil e Colômbia
levaram adiante uma ajuda humanitária
que era fachada para criar distúrbios que
conduzissem à queda de Maduro. Rorai-
ma era a base brasileira da trama.


Em agosto de 2018, seis meses após o
início da Acolhida, Carlos Wizard mudou-
-se para Roraima. Na CPI da Covid, o em-
presário silenciou na maior parte do tem-
po, graças a um habeas corpus do Supre-
mo, mas uma das coisas que falou foi so-
bre sua ida a Roraima. Uma ida “missioná-
ria”, em apoio a venezuelanos. Lá estrei-
tou vínculos com Pazuello e Franco. O ge-
neral, quando se tornou ministro da Saú-
de, queria Wizard no time. O bilionário
preferiu agir através de um “gabinete pa-
ralelo” que promovia cloroquina e sabo-
tava vacinas. Quando Bolsonaro rendeu-
-se às injeções e separou 20 bilhões pa-
ra comprá-las, Wizard articulou o aval
legislativo para o setor privado comprar
doses. Segundo a CPI, meteu-se com um
atravessador de vacinas, a Belcher, empre-
sa de amigos do deputado Ricardo Barros,
líder bolsonarista. Atravessador como era
a Precisa, no caso Covaxin, e o reveren-
do Gomes. Personagens que abriam por-
tas no governo por pertencerem ao sub-
mundo das bíblias e dos fuzis.


É tanto rolo, que a prorrogação da CPI
da Covid por mais 90 dias, até outubro, é
pouco para esclarecer tudo. •

carta capital 








July 4, 2021

Morte de Ecko fortaleceu a expansão política miliciana

 

WALLACE SILVA/FOTOARENA/FOLHAPRESS  

Por trás da morte midiática do homem mais procurado pela polícia do Brasil está uma construção política de consolidação da milícia, ao invés do seu enfraquecimento

José Cláudio Souza Alves*

O assassinato de Wellington da Silva Braga, o Ecko, em uma operação da Polícia Civil, no dia 12 de junho de 2021, representa mais um capítulo de uma guinada política da atuação policial pelo governo do estado do Rio de Janeiro em direção ao fortalecimento da estrutura miliciana que vem se expandindo de forma acelerada nos últimos anos. Por trás da morte midiática daquele que seria o homem mais procurado pela polícia do Brasil, e o líder da maior milícia do estado, está uma construção política de consolidação da milícia, ao invés do seu enfraquecimento, como afirmado pelas autoridades policiais e pela mídia. Para entender isso, é preciso relacionar essa morte a uma sequência de eventos que se iniciaram em outubro de 2020.

Naquele momento, a um mês das eleições municipais, uma operação conjunta da Polícia Civil e Polícia Rodoviária Federal assassinou 17 pessoas, sob a justificativa de serem “narcomilicianos”. Esse termo passava a dar a tônica da atuação policial. Com ele, desvincula-se a atuação miliciana da ligação com os agentes de segurança pública, dentro do Estado, atribuindo-a às práticas de traficantes. A consequência seria a liberação para matar tais indivíduos, já que não passavam de bandidos. O marketing da ação policial “antimilícia”, ocultando o engajamento crescente dos policiais ao empreendimento miliciano, soma-se à lógica do “bandido bom é bandido morto”, tão cara à extrema direita, naquele momento, em plena campanha eleitoral.

O segundo evento foi a implantação de um destacamento do 39º Batalhão da Polícia Militar no Complexo do Roseiral, na cidade de Belford Roxo, em janeiro de 2021, a partir das articulações entre o prefeito reeleito, Wagner dos Santos Carneiro, e o governador Cláudio Castro. As mais de 20 mortes produzidas por operações policiais nessa área vitimando membros do Comando Vermelho (CV) se incluem na geopolítica de expansão das milícias, que há décadas dominam os bairros do São Bento e Pilar, na cidade vizinha de Duque de Caxias, seguindo o eixo da Avenida Leonel Brizola.

O terceiro momento surge na operação da Polícia Civil que assassinou 28 pessoas em uma operação na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro. Tal desproporcionalidade de mortes, quando comparadas ao histórico mais recente das operações na capital, relaciona-se tanto ao confronto com o STF e a ADPF que restringe operações policiais nas favelas, em decorrência dos efeitos da pandemia de Covid-19, como à disputa geopolítica miliciana que vem isolando o Jacarezinho a partir dos conflitos com o CV em três favelas próximas: Arará, Mandela 2 e Bandeira 2, as duas últimas, do Complexo de Manguinhos.

A morte de Ecko, a aproximadamente um mês da chacina do Jacarezinho, dá prosseguimento ao projeto em curso. A aliança entre milícia e Terceiro Comando Puro (TCP), tendo o aparato policial como fiador, perpetua-se, a despeito dos assassinatos de “narcomilicianos”, ligados ao TCP, presentes na Liga da Justiça ou ex-bonde do Ecko, numa espécie de “preço a ser pago” pela manutenção dos negócios e marketing “antimilícia” que tenta ocultar a expansão miliciana.

Há, igualmente, uma intensificação do controle territorial, econômico e político eleitoral feito pela milícia em cima das áreas do CV. Projeta-se um alinhamento midiático com o discurso do extermínio, praticado pela política de segurança pública, com destaque para as redes de televisão, notadamente o SBT, com sua penetração popular. Essa correlação de acontecimentos deixa nítida a estratégia política voltada para as eleições de 2022, nas quais os candidatos ao governo do estado, Câmara estadual e federal, Senado e Presidência da República, com projetos de extrema direita, visam aprofundar seus ganhos a partir das disputas entre si, engalfinhados para ocupar o palanque bolsonarista.

O cenário de aprofundamento do fosso social e crescimento do mundo do crime, como alternativa real frente à crise multidimensional que se estabelece, projeta a área de segurança pública como grande palco de operações psicológicas, sociais, midiáticas e assassinas cujo objetivo é consolidar uma hegemonia inconteste da extrema direita sob a batuta bolsonarista. A morte de Ecko, apenas mais um soldado transformado em chefão para justificar a lógica do extermínio como solução, tem, igualmente, uma outra dimensão, que não se pode desprezar. Ela abre um cenário de disputas, internas e externas à milícia, quanto à liderança e condução do legado miliciano na Zona Oeste e Baixada Fluminense que juntas congregam quase 50% do eleitorado do estado.

Danilo Dias Lima, o Tandera, emerge como novo “Lampião” a ser degolado, mas provoca instabilidade na disputa interna à milícia ao ser alçado, pela morte de Ecko, à categoria de novo “chefão” que enfrenta a resistência dos herdeiros familiares de Ecko, como é o caso de Luís Antônio da Silva Braga, seu irmão. Essa instabilidade da disputa interna miliciana se junta, por sua vez, ao risco da retomada, pelo CV, de áreas perdidas para a milícia, produzindo uma intensificação do terror nas comunidades em disputa, que são muitas. Esse agigantamento da onda de instabilidade e medo reforça o pano de fundo para a manutenção do extermínio como prática da segurança pública, retroalimentando mais operações e chacinas enquanto cortina de fumaça que oculta a expansão miliciana como projeto de controle de amplo espectro e, principalmente, político eleitoral.

Todos esses eventos projetam a milícia como grande palanque para 2022. Quem tiver mais milicianos ao seu lado, com controle territorial, econômico e político de áreas, sai na vantagem. Quem mais matar os “narcomilicianos”, troféus criados para as prateleiras da extrema direita, também ganha pontos. Quem soma as duas estratégias tem mais pontos ainda. Desse modo, o a região metropolitana do Rio de Janeiro mantém o seu papel de grande laboratório, repercutindo para o resto do país, dentro do projeto bolsonarista hegemônico, as novas etapas da “milicialização” da segurança pública.

 

*Professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e autor do livro “Dos barões ao extermínio: uma história da violência na Baixada Fluminense”.

FACES DA VIOLENCIA

 

 

 

June 30, 2021

Governo Bolsonaro pediu propina de US$ 1 por dose, diz vendedor de vacina

 

  O diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias

Constança Rezende


O representante de uma vendedora de vacinas afirmou em entrevista à Folha que recebeu pedido de propina de US$ 1 por dose em troca de fechar contrato com o Ministério da Saúde.

Luiz Paulo Dominguetti Pereira, que se apresenta como representante da empresa Davati Medical Supply, disse que o diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, cobrou a propina em um jantar no restaurante Vasto, no Brasília Shopping, região central da capital federal, no dia 25 de fevereiro.

Roberto Dias foi indicado ao cargo pelo líder do governo de Jair Bolsonaro na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). Sua nomeação ocorreu em 8 de janeiro de 2019, na gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM). A Folha tentou, sem sucesso, contato com Dias na noite desta terça-feira (29). Ele não atendeu as ligações.

A empresa Davati buscou a pasta para negociar 400 milhões de doses da vacina da AstraZeneca com uma proposta feita de US$ 3,5 por cada (depois disso passou a US$ 15,5). "O caminho do que aconteceu nesses bastidores com o Roberto Dias foi uma coisa muito tenebrosa, muito asquerosa", disse Dominguetti.

A Folha chegou a Dominguetti por meio de Cristiano Alberto Carvalho, que se apresenta como procurador da empresa no Brasil e também aparece nas negociações com o ministério. Segundo Cristiano, Dominguetti representa a empresa desde janeiro.

"Eu falei que nós tínhamos a vacina, que a empresa era uma empresa forte, a Davati. E aí ele falou: 'Olha, para trabalhar dentro do ministério, tem que compor com o grupo'. E eu falei: 'Mas como compor com o grupo? Que composição que seria essa?'", contou Dominguetti.

"Aí ele me disse que não avançava dentro do ministério se a gente não compusesse com o grupo, que existe um grupo que só trabalhava dentro do ministério, se a gente conseguisse algo a mais tinha que majorar o valor da vacina, que a vacina teria que ter um valor diferente do que a proposta que a gente estava propondo", afirmou à Folha o representante da empresa.

Dominguetti deu mais detalhes: ​"Aí eu falei que não tinha como, não fazia, mesmo porque a vacina vinha lá de fora e que eles não faziam, não operavam daquela forma. Ele me disse: 'Pensa direitinho, se você quiser vender vacina no ministério tem que ser dessa forma".

A Folha perguntou então qual seria essa "forma". "Acrescentar 1 dólar", respondeu. Segundo ele, US$ 1 por dose. "Dariam 200 milhões de doses de propina que eles queriam, com R$ 1 bilhão."

"E, olha, foi uma coisa estranha porque não estava só eu, estavam ele [Dias] e mais dois. Era um militar do Exército e um empresário lá de Brasília", ressaltou Dominguetti.

Questionado se teria certeza que o encontro foi com o diretor de Logística do ministério, Dominguetti respondeu: "Claro, tenho certeza. Se pegar a telemetria do meu celular, as câmeras do shopping, do restaurante, qualquer coisa, vai ver que eu estava lá com ele e era ele mesmo".

"Ele [Dias] ainda pegou uma taça de chope e falou: 'Vamos aos negócios'. Desse jeito. Aí eu olhei aquilo, era surreal, né, o que estava acontecendo."

"Eu estive no ministério, com Elcio [Franco, ex-secretário-executivo do ministério], com o Roberto, ofertando uma oferta legítima de vacinas, não comprou porque não quis. Eles validaram que a vacina estava disponível."

Segundo Dominguetti, o jantar ocorreu na noite do dia 25 de fevereiro, na véspera de uma agenda oficial com Roberto Dias no Ministério da Saúde e um dia após o país ter atingido a marca de 250 mil mortos pela pandemia do coronavírus.

"Fui levado com a proposta para o ministério e chegando lá, faltando um dia antes de eu vir embora, recebi o contato de que o Roberto Dias tinha interesse em conversar comigo sobre aquisição de vacinas", disse.

"Quando foi umas 17h, 18h [do dia 25], meu telefone tocou. Me surpreendi que a gente ia jantar. Fui surpreendido com a ligação de que iríamos encontrar no Vasto, no shopping. Cheguei lá, foi onde conheci pessoalmente o Roberto Dias", afirmou.

Dominguetti ​disse que recusou o pedido de propina feito pelo diretor da Saúde.

"Aí eu falei que não fazia, que não tinha como, que a vacina teria que ser daquela forma mesmo, pelo preço que estava sendo ofertado, que era aquele e que a gente não fazia, que não tinha como. Aí ele falou que era para pensar direitinho e que ia colocar meu nome na agenda do ministério, que naquela noite que eu pensasse e que no outro dia iria me chamar."

Dominguetti continuou então o relato daqueles dois dias. "Aí eu cheguei no ministério para encontrar com ele [Dias], ele me pediu as documentações. Eu disse para ele que teriam que colocar uma proposta de compra do ministério para enviar as documentações, as certificações da vacina, mas que algumas documentações da vacina eu conseguiria adiantar", afirmou.

Segundo ele, o encontro na Saúde não evoluiu. "Aí ele [Dias] me disse: 'Fica numa sala ali'. E me colocou numa sala do lado ali. Ele me falou que tinha uma reunião. Disso, eu recebi uma ligação perguntando se ia ter o acerto. Aí eu falei que não, que não tinha como."

"Isso, dentro do ministério. Aí me chamaram, disseram que ia entrar em contato com a Davati para tentar fazer a vacina e depois nunca mais. Aí depois nós tentamos por outras vias, tentamos conversar com o Élcio Franco, explicamos para ele a situação também, não adiantou nada. Ninguém queria vacina", afirmou.

Segundo ele, Roberto Dias afirmou que "tinha um grupo, que tinha que atender a um grupo, que esse grupo operava dentro do ministério, e que se não agradasse esse grupo a gente não conseguiria vender".

Questionado pela Folha sobre que "grupo" seria esse, ele respondeu: "Não sei. Não sei quem que eram os personagens. Quando ele começou com essa conversa, eu já não dei mais seguimento porque eu já sabia que o trem não era bom".

"A Davati começou a operar nessas vendas de insumos pro Covid. A Davati era uma empresa muito séria e aí me ofereceram a parceria de trabalhar com ela, de apresentar os produtos. E quando a Davati teve acesso a vacina, né, que realmente se concretizou que tinha acesso aos donos da vacina, aos investidores, me veio a proposta no sentido de tentar colocar a vacina no Brasil", afirmou Dominguetti.

"Era um sonho, na verdade era um sonho nosso. É uma realização até pessoal porque se a gente pegar um valor da vacina que ela tá sendo vendida lá fora e que ia ser colocado no Brasil era o mesmo. Não existia aquele negócio de majorar, de ganhar, era mais um sonho, a gente sonhava com isso. Fazia parte do processo, entrar na história como alguém que ajudou", disse.

O deputado Ricardo Barros negou, em rede social, ter indicado Roberto Dias para o cargo no Ministério da Saúde.

“Em relação à matéria da Folha, reitero que Roberto Ferreira Dias teve sua nomeação no Ministério da Saúde no início da atual gestão presidencial, em 2019, quando não estava alinhado ao governo. Assim, repito, não é minha indicação. Desconheço totalmente a denúncia da Davati.”

A suspeita sobre a compra de vacinas veio à tona em torno da compra da vacina indiana Covaxin, quando a Folha revelou no último dia 18 o teor do depoimento sigiloso do servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda ao Ministério Público Federal, que relatou pressão "atípica" para liberar a importação da Covaxin.

Desde então, o caso virou prioridade da CPI da Covid no Senado. A comissão suspeita do contrato para a aquisição da imunização, por ter sido fechado em tempo recorde, em um momento em que o imunizante ainda não tinha tido todos os dados divulgados, e prever o maior valor por dose, em torno de R$ 80 (ou US$ 15 a dose).

Meses antes, o ministério já tinha negado propostas de vacinas mais baratas do que a Covaxin e já aprovadas em outros países, como a Pfizer (que custava US$ 10).

A crise chegou ao Palácio do Planalto após o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF), irmão do servidor da Saúde, relatar que o presidente havia sido alertado por eles em março sobre as irregularidades. Bolsonaro teria respondido, segundo o parlamentar, que iria acionar a Polícia Federal para que abrisse uma investigação.

A CPI, no entanto, averiguou e constatou que não houve solicitações nesse sentido para a PF. Ao se manifestar sobre o assunto, Bolsonaro primeiro disse que a Polícia Federal agora vai abrir inquérito para apurar as suspeitas e depois afirmou que não tem “como saber o que acontece nos ministérios”.

Nesta terça, o Ministério da Saúde decidiu suspender o contrato com a Precisa Medicamentos para obter 20 milhões de doses da Covaxin. Segundo membros da pasta, a decisão atual é pela suspensão até que haja novo parecer sobre o caso. A pasta, porém, já avalia a possibilidade de cancelar o contrato.

á nesta segunda-feira (28) a Folha também revelou que o advogado do deputado Ricardo Barros atuou como representante legal da vacina chinesa Convidecia no Brasil, participando inclusive de reunião com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Sócio do genro de Barros até março deste ano, o advogado Flávio Pansieri participou de reunião com a Anvisa no último dia 30 de abril. Segundo o site da agência, a pauta da reunião referia-se às “atualizações sobre a desenvolvimento da vacina do IVB [Instituto Vital Brazil] & Belcher & CanSinoBio a ser submetida a uso emergencial para a Anvisa”.

Integrantes da CPI da Covid querem apurar a negociação da Convidecia com o Ministério da Saúde. A empresa Belcher Farmacêutica, com sede em Maringá (PR), atuou como representante no país do laboratório CanSino Biologics no Brasil, responsável pelo imunizante.

No último domingo (27), Barros divulgou nota por ter sido citado pelo deputado Luis Miranda (DEM-DF) em depoimento à CPI da Covid como parlamentar que atuou em favor da aquisição de vacinas superfaturadas. Para se defender, o líder do governo apresentou a íntegra da defesa preliminar enviada à Justiça Federal. O documento é assinado por Pansieri.

O advogado também assumiu a defesa de Barros no STF (Supremo Tribunal Federal), após o deputado ter sido delatado por executivos da construtora Galvão Engenharia.

Além de atuar na defesa de Barros, Pansieri acompanhou o líder do governo durante encontro com o presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto no dia 24 de fevereiro, durante a posse do deputado do centrão João Roma (Republicanos-BA) como ministro da Cidadania.

 

FOLHA

 

 

 

 

 

June 29, 2021

Levantamento revela ligação de 80 agentes de forças de segurança com a milícia de Ecko

 Na casa onde Ecko estava escondido, policiais encontraram farda da PM, que ele usava para andar pela Zona Oeste sem ser reconhecido Foto: Reprodução / TV Globo

São pelo menos 51 PMs, 16 ex-PMs, sete policiais civis, cinco agentes penitenciários e um ex-policial civil; miliciano, que nunca foi policial, foi morto durante operação no último dia 12 

 Carolina Heringer e Rafael Soares

 Apesar de nunca ter sido policial, Wellington da Silva Braga, o Ecko, chefe da maior milícia do Rio morto durante operação da Polícia Civil no último dia 12, tinha uma farda da PM. A vestimenta " que ostentava a patente de capitão na manga e a inscrição Braga, com o tipo sanguíneo A+ no peito " foi apreendida por policiais civis num armário da casa onde o miliciano foi encontrado, em Paciência, na Zona Oeste do Rio. Segundo a polícia, Ecko usava a farda para se locomover sem ser reconhecido. O "capitão Braga" tinha uma tropa sob seu comando: um levantamento feito pelo GLOBO em processos judiciais, inquéritos policiais e boletins internos da Polícia Militar identificou 80 agentes egressos de forças de segurança acusados ou investigados por integrarem ou se associarem à milícia de Ecko.


Ao todo, 51 PMs " 45 da ativa e outros seis reformados " são investigados ou foram acusados, ao longo dos últimos cinco anos, por ligação com o Bonde do Ecko. Outros 16 agentes que já foram expulsos da PM também aparecem no levantamento. Pelo menos dois policiais egressos da corporação ocupavam cargos de destaque na hierarquia da quadrilha: o ex-PM Carlos Eduardo Benevides Gomes, o Benê, e o sargento Antonio Carlos de Lima. Os dois são apontados como lugares-tenentes de Ecko em Itaguaí, na Baixada Fluminense, para onde a milícia se expandiu e fundou uma espécie de franquia em 2018.
Benê foi expulso da PM após ser preso portando uma arma em situação irregular num bar, em 2008. A partir de então, passou a trabalhar em tempo integral para o grupo paramilitar. Já o sargento Lima era um agente duplo: de serviço, dava expediente no 27º BPM (Santa Cruz), responsável por patrulhar a região que virou a base da milícia de Ecko; na folga, ajudou a quadrilha a invadir Itaguaí. Lá, Benê e Lima replicaram o modelo que garantiu o domínio da maior parte da Zona Oeste por Ecko: cobranças de taxas a moradores, assassinatos de adversários e exploração da venda de gás, gatonet e transporte alternativo.


A investigação da Polícia Civil e do Ministério Público que culminou na denúncia de Benê e Lima à Justiça, em 2018, também identificou outros integrantes das forças de segurança dentro do grupo. O agente penitenciário Adenilson Santos de Trindade é apontado como o antigo chefe da milícia local que perdeu o comando ao se aliar ao grupo de Ecko após sua chegada a Itaguaí. Já oito PMs do 24º BPM (Queimados), batalhão responsável pela área de Itaguaí, são citados ao longo do inquérito como responsáveis por intimidar as vítimas de extorsão do grupo. A denúncia do MP contra o grupo aponta que a "aliança com forças policiais" permitia que a milícia atuasse com "liberdade e desenvoltura". Segundo o documento, entre o fim de 2014 e o de 2018 a PM não realizou qualquer prisão em flagrante de integrantes da milícia em Itaguaí.


Lima e Trindade foram condenados e estão presos " o segundo, em regime domiciliar. Ambos ainda não foram expulsos de suas corporações e continuam recebendo salário. Já Benê morreu em uma troca de tiros com policiais civis na Rodovia Rio-Santos, em outubro do ano passado. Ao fim da investigação, os oito agentes do 24º BPM não chegaram a ser denunciados e seguem trabalhando normalmente.


Outra investigação revelou a participação de PMs em outra franquia da milícia de Ecko, a que atua nos bairros Ouro Verde e Jardim Canaã, em Nova Iguaçu, também na Baixada. Segundo um inquérito da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense que levou às prisões de seis PMs, o chefe do bando é o soldado Igor Ramalho Martins, lotado na UPP São João. Uma mensagem enviada por Igor a um comparsa revela que a milícia de Ecko fornece munição à filial.


Numa discussão sobre a quantidade de cartuchos que o bando tem à disposição, em janeiro de 2020, Igor afirma que "de 9mm, temos 12 caixas aqui, 6 mil munições que pegamos com o Tandera" " referência a Danilo Dias Lima, ex-braço direito de Ecko. O PM está preso desde o ano passado, mas segue na corporação.


Cinco dos agentes identificados no levantamento tinham como função prover segurança aos chefes da milícia. Um deles é o ex-sargento PM Fabiano da Cunha Lamarca, preso em flagrante, em outubro de 2015, atuando como guarda-costas de Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, irmão de Ecko, hoje cotado para assumir a chefia da milícia.
pm como segurança


Na ocasião, Lamarca foi capturado por policiais civis do lado de fora de uma barbearia em Paciência, onde o chefe era atendido. O sargento, na época ainda na ativa, admitiu que fazia segurança do miliciano. Zinho também confirmou a versão, mas negou sua participação na milícia: afirmou ser empresário e disse ter resolvido andar com seguranças por ter medo de ser roubado.


Em 2017, Lamarca foi condenado a 15 anos de prisão por porte ilegal de arma de fogo de uso restrito e por integrar organização criminosa. Ele chegou a ficar preso, mas hoje recorre da sentença em liberdade.


Há também policiais civis na lista. Em 2018, um delator contou ao MP que agentes da 36ª DP (Santa Cruz), cobraram propina de Zinho, para não prendê-lo em flagrante por desmatamento ilegal de um terreno. Zinho argumentou que a milícia pagava propina semanalmente à delegacia. Os agentes foram presos na Operação Quarto Elemento.


Procurada, a PM alegou que os agentes citados que ainda seguem na corporação respondem a Conselho de Disciplina e podem ser expulsos. A Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) afirma que o agente Adenilson Santos de Trindade responde a processo administrativo disciplinar. A Polícia Civil informou que os policiais citados respondem a processos administrativos disciplinares.

 

June 26, 2021

Ao flertar com tragédia e glória, Dinamarca mostra seu DNA imponderável no futebol

 


Alex Sabino

São Paulo

Em pouco mais de uma semana, a Dinamarca viveu extremos em sua jornada na Eurocopa. Foi do drama ao êxtase. Agora pode fazer história outra vez.

Em 12 de junho, durante a estreia da seleção contra a Finlândia, o meia Christian Eriksen sofreu parada cardíaca em campo e teve de ser ressucitado pela equipe médica. Na última segunda (21), o time fez 4 a 1 na Rússia e conseguiu o que parecia ser uma improvável classificação para as oitavas de final.

A quase tragédia e reviravolta fizeram a Dinamarca se transformar na preferida do torcedor neutro na competição europeia. O que não é novidade.

"Nós ousamos sonhar grande, mas sabemos que há equipes maiores com melhores chances de vencer. É futebol, e em 90 minutos tudo pode acontecer", diz o técnico Kasper Hjulmand.

Neste sábado (26), às 13 horas (de Brasília), o rival será o País de Gales, em Amsterdã, com transmissão do SporTV. É uma campanha que pode reviver os anos em que a Dinamarca era a seleção mais cult do planeta.

Cada jogo na Copa do Mundo do México era como se fosse carnaval", afirma o jornalista Mike Gibbons, um dos autores do livro Danish Dynamite: The Story of the Football Greatest Cult Team (Dinamite Dinamarquesa: A História do Maior Time Cult da História, em inglês), sobre aquela equipe dos anos 1980.

Na primeira vez em que se classificaram para o torneio europeu, em 1984, chegaram à semifinal. Seus jogadores não foram as únicas atrações. A Eurocopa nunca tinham visto torcedores como aqueles, dispostos a festejar por 24 horas, sem arrumar brigas e a trocarem souvenirs com gente de outras nações.

Dois anos mais tarde, no Mundial de 1986, enquanto algumas seleções se encastelaram em concentrações, a Dinamarca passou o torneio em hotel na Cidade do México que era aberto a torcedores, imprensa e cidadãos locais.

"Eles se tornaram tão populares que no dia em que foram embora, após a eliminação, os funcionários do hotel choraram", lembra o jornalista do país Lars Eriksen, outro autor da obra.

A imagem de alegria não a Dinamarca ser detestada nem pelo maior rival. Quando foi a improvável campeã europeia de 1992, em Gotemburgo, seus torcedores festejaram com os suecos, anfitriões do torneio.

"Fomos azarões a campanha inteira. Nem deveríamos estar lá e jogamos a semifinal contra a Holanda e a final contra a Alemanha. Sempre tivemos a torcida de quem não era holandês ou alemão", constatou o atacante Brian Laudrup após a maior zebra da história da Eurocopa.

O país não havia se classificado para o torneio. Pouco mais de uma semana antes da abertura, foi convidado a participar na vaga da Iugoslávia, suspensa por causa da guerra nos Balcãs. A maioria dos jogadores estava de férias e teve de voltar às pressas.

Tratou-se apenas de mais um imponderável de quem se se habituou a não ser comum no futebol.

Até 1971, o esporte na Dinamarca era amador, apesar de ter uma das federações fundadoras da Fifa. Isso significava que se o atleta fosse para um clube do exterior e passasse a viver financeiramente do futebol, não seria mais convocado. O profissionalismo fez a qualidade local crescer. O meia Allan Simonsen ganhou a Bola de Ouro de melhor jogador da temporada em 1977.

A condição de time cult apareceu com a chegada do alemão Sepp Piontek, em 1979. Ele mesmo um técnico difícil de se achar. Aceitou o convite do ditador Jean-Claude Baby Doc Duvalier para dirigir a seleção do Haiti em 1976 e tinha de visitá-lo regularmente para falar sobre táticas. Claro que a experiência não deu certo. Em parte também, ele afirma, porque os jogadores se trancavam nos quartos nas noites anteriores aos jogos para beber e praticar sessões de vodu.

Piontek os viu ficarem em estado alucinógeno tão grande que passavam dias como zumbis. A gota d'água para ele foi quando reclamou da qualidade da comida na concentração e o cozinheiro sacou uma metralhadora.

Ele era o nome certo para transformar a seleção da Dinamarca. Era preciso saber administrar um elenco tão talentoso quanto improvável. Michael Laudrup foi para a Copa de 1986 como o menino prodígio do time. Para o volante Xavi, do Barcelona, o dinamarquês é o maior jogador da história.

Seu companheiro de ataque era Elkjaer-Larsen, campeão italiano com a Hellas Verona em 1985. Artilheiro e colunista de revista pornográfica em seu país, o jogador instituiu um bordel de Copenhagen como concentração informal da equipe.

"Para muitos de nós, não era informal, não. Era a oficial mesmo", se recorda o líbero Morten Olsen.

Foi essa a equipe que conquistou torcedores neutros na Eurocopa de 1984, na França, e no Mundial de 1986, no México, iniciou a trajetória improvável da Dinamarca em torneios internacionais. O time que naquele mundial foi capaz de fazer 6 a 1 no Uruguai e ser eliminado após perder por 5 a 1 para a Espanha.

A Dinamarca há muito tempo produz gente peculiar no futebol. Como Niels Bohr, nome amador de clubes locais que ficou tão frustrado por não conseguir chegar à seleção que abandonou a carreira e prometeu fazer algo para ficar marcado na história.

le ganhou o Prêmio Nobel de Física em 1922. Depois trabalhou no Projeto Manhattan, que inventou a bomba atômica, fundou a CERN, entidade que criaria a internet e tem um elemento da tabela periódica batizado em sua homenagem.

"Nós gostamos de contrariar o que é lógico. E também gostamos de sonhar alto", define o atacante Mikkel Damsgaard, autor do primeiro gol na goleada sobre a Rússia que classificou o time para enfrentar o País de Gales neste sábado.

June 20, 2021

Vacinação em Paquetá: os bastidores do experimento científico que imunizará um bairro inteiro pela primeira vez

 O bebê André Dimopoulos é testado para Covid-19 no colo da mae, que cantarolava Cazuza para acalmar o filho Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Rodrigo de Souza

 O sol ainda brota na Baía de Guanabara, mas para eles o dia já começou há muito tempo. Embora o evento longamente aguardado só aconteça no domingo, a barca com destino a Paquetá que saiu do Centro do Rio nesta sexta-feira, às 6h20 da manhã, já estava lotada de voluntários da Secretaria municipal de Saúde. Eles vão atuar no projeto "PaqueTá Vacinada", que pretende imunizar toda a população adulta da ilha e, assim, averiguar os efeitos da vacinação contra a Covid-19 em larga escala. São 230 jovens estudantes de diferentes áreas, como medicina, enfermagem e até estatística — todos vindos "do continente", como dizem os moradores da ilha. Jovens que não receberão nada por seu trabalho exceto o dinheiro da passagem da barca, movidos por nenhum outro incentivo além de seu compromisso com a ciência e com a vida.

Um deles é Lígia Wanderley, de 20 anos, aluna do 5° período de medicina da Unigranrio. Moradora de Laranjeiras, na Zona Sul, ela desembarcou em Paquetá acompanhada de outros cinco colegas de faculdade, provenientes de lugares como Sulacap e Taquara, na Zona Oeste, e Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

 

— Já estávamos envolvidos nesse processo de vacinação no Rio, atuando em alguns postos na Zona Oeste, e por isso resolvemos ajudar aqui também. Não ganhamos nada além de hora complementar na faculdade, mas a experiência vale mais do que qualquer outro tipo de recompensa. É clichê, mas é verdade. A troca que a gente tem com a população é o que importa — diz Lígia.

Veja: Carnaval fora de época em Paquetá após conclusão de experimento sobre vacinação divide moradores, que temem turistas

De quinta a sábado, os voluntários trabalharão no inquérito epidemiológico do Instituto Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que tem como objetivo monitorar o perfil imunológico da população de Paquetá após a vacinação. Coordenados pelo infectologista José Cerbino Neto, os pesquisadores também querem saber se a vacina de Oxford/Astrazeneca, o imunizante em estudo, já garante proteção após a primeira dose ou se só após a segunda. Uma outra força-tarefa de testagem, ainda sem data definida, acontecerá depois que os vacinados no domingo já tiverem tomado a injeção de reforço. E, na etapa seguinte, Paquetá sediará o primeiro evento-teste da cidade, que o prefeito Eduardo Paes já chegou a chamar de “carnaval fora de época”. Segundo a SMS, a comemoração terá lugar num local aberto, o Parque Darke de Mattos, e receberá cerca de 600 pessoas, todas elas habitantes de Paquetá ou vacinados.

— O objetivo do projeto é antecipar, em Paquetá, uma situação de proteção coletiva que a gente vai alcançar na cidade daqui a alguns meses. Assim, vamos poder antecipar também uma série de medidas de controle e de vigilância de casos quando alcançarmos o mesmo nível de cobertura vacinal na capital — diz Cerbino.

Covid-19: Rio vacina esta semana todos os moradores acima de 50 anos; confira o calendário

Com a ajuda dos estudantes, a Prefeitura do Rio espera testar, em três dias, 3 dos 4,1 mil moradores do bairro. Em consonância com o espírito de colaboração que arrebatou a ilha, o processo seletivo do voluntariado teve quase 600 inscrições num só dia, segundo Luiz Felipe Pinto, assessor especial da Secretaria de Saúde.

— Tivemos que encerrar o processo antes da hora, senão haveria aglomeração de voluntários aqui. Nosso critério foi dar preferência a quem já tinha experiência prévia de pesquisa ou estava mais avançado na faculdade — afirma.

Calendário: Rio acelera vacinação e prevê primeira dose para todos os adultos até o fim de agosto

Nos testes, a população da ilha foi dividida em três grupos: maiores de 18 anos que já tomaram a vacina, cerca de 1800 pessoas; menores de 18 anos, cerca de 700 pessoas; e maiores de 18 que não se vacinaram ainda, cerca de 1600 pessoas. Além do exame sorológico, cada pessoa examinada também teve de dizer, por meio de um questionário, se já teve sintomas de Covid-19, com que frequência costuma sair da ilha e se está em home office, entre outras perguntas. Depois de cada turno de trabalho, as amostras de sangue são levadas por helicóptero à sede da Fiocruz, em Manguinhos. Os resultados devem ser divulgados no dia 20 de junho de 2022.

Lígia e seus amigos foram designados para trabalhar no Paquetá Iate Club, que recebeu o grupo 2, composto por crianças e adolescentes, todos acompanhados pelos pais. Fernanda Cardoso, de 6 anos, foi a primeira a receber o teste rápido na manhã desta sexta-feira. Tímida, foi sucinta ao descrever como se sentia por poder participar do estudo: “Feliz”. Já a segunda da fila, Maria Isabel, de 7 anos, foi tagarela. Vestida com o uniforme da rede municipal de Educação, repetia: “Quero ser médica”.

As crianças também foram testadas: a menina Maria Isabel Quintino é testada para Covid-19 Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Corrida da vacina: Cláudio Castro fica 'parado', e calendário estadual não tem previsão de antecipação

Durante a coleta, a técnica de enfermagem Andreia dos Santos, de 47 anos, cantava baixinho versos de “Exagerado”, de Cazuza, para acalmar o pequeno André Dimopoulos, de 11 meses, que esperneava com o furo no pezinho. Enquanto o filho chorava, Andréia chorou junto, mas sabia que tudo aquilo valeria a pena.

— Ele não sabe nada do que está acontecendo, não sabe o quanto está sendo importante — diz. — A gente viu tanta gente morrendo, tanto terror. Só de sabermos que, da noite para o dia, a cidade vai estar toda vacinada… É o medo que vai embora.

O bebê André Dimopoulos é testado para Covid-19 no colo da mae, que cantarolava Cazuza para acalmar o filho Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Prefeito: Eduardo Paes é vacinado na Portela e pode acelerar o calendário em reunião com Queiroga nesta sexta-feira

Por outro lado, há quem já esteja vacinado faz algum tempo e que, mesmo com todos os motivos para ficar em casa, resolveu colaborar como pôde. Foi o caso de Dinah Proença, de 85 anos.

— Eu particularmente não viria, porque minha veia é horrível para colher sangue, é sempre um sacrifício. Mas, como soube que era para fazer pesquisa, achei necessário vir. Meu recado para a população de Paquetá é: venham e contribuam — afirma a dona de casa.

Covid-19:Projeção aponta que vacinação na cidade do Rio já salvou a vida de mais de 1.500 idosos

Segundo o vendedor Gustavo Pjader, de 24 anos, que também realizou exame de sangue ontem no posto Manoel Arthur Villaboim, toda a ilha foi tomada por um desejo de fazer o projeto dar certo:

— Vejo uma mobilização de pessoas, inclusive das que já se vacinaram, para fazer a coleta. Uma mobilização importante para a pesquisa. É muito legal ver o pessoal querendo ajudar, querendo fazer o bem para o outro. Isso é humanidade, é assim que a gente evolui.

A polêmica do ‘carnaval’


Como tantos outros paquetaenses, Dinah se opõe ao “carnaval” que Eduardo Paes anunciou, por achar que “ainda não é hora de comemorar”.

Segundo a SMS, o evento só deve ocorrer em meados de setembro, ou quando já não houver mais casos de doença na cidade. Mesmo assim, o assunto dá pano para manga. Entre os jovens da ilha, a ideia foi recebida de um jeito diferente.

Turismo da vacina: Cidade do Rio já aplicou 85 mil doses em pessoas de outros estados

— O pessoal está muito alegre, porque seremos o primeiro bairro completamente vacinado contra a Covid-19. E, com essa notícia de que talvez haja um carnaval adiantado aqui, os jovens estão querendo essa vacina o mais rápido possível. Estou ansioso para poder passear no continente de novo, ir a praia, shopping… — afirma o vendedor Márcio Martins, de 26 anos.

Os jovens de Paquetá serão os primeiros a se vacinar em todo o Rio. Mas, em muitos casos, a ansiedade não se deve só à possibilidade de diversão.

— Trabalho como vendedor no Centro do Rio, e por isso me exponho muito. Também vi muita gente querida morrendo, por isso a vacina me dá mais segurança — diz Gustavo Pjader.

Segundo a Secretaria municipal de Saúde, Paquetá tem uma população de 4.180 moradores, dos quais 3.530 são maiores de 18 anos cadastrados. Até a manhã de 17 de junho, 1.946 moradores da ilha já tinham recebido a primeira dose e 1.132 já tinham tomado a segunda.

Às 9h desta quinta-feira, 2 mil doses da vacina de Oxford/Astrazeneca saíram do Rio de Janeiro rumo a Paquetá, onde serão distribuídas neste domingo após uma cerimônia que contará a participação do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e pela presidente da Fiocruz, Nisia Trindade.

Os voluntários e servidores da prefeitura embarcarão na Praça XV rumo a Paquetá amanhã às 7h. Já as comitivas das autoridades partirão da Ilha do Governador numa lancha em horário próximo. A vacinação só deve começar quando todos chegarem. Serão quatro postos: o Parque Darke de Mattos, o Paquetá Iate Clube, o posto Manoel Arthur Villaboim e a Casa de Artes Paquetá. Para evitar aglomerações, a população comparecerá aos postos em horários escalonados, seguindo o critério de idade.

O Globo

Temor por turistas: Carnaval fora de época em Paquetá após conclusão de experimento sobre vacinação divide moradores

 

Estudantes voluntários de universidades são orientados a lidar com o público Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Estudantes voluntários de universidades são orientados a lidar com o público Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Voluntarios da Fiocruz tiram sangue de paquetaenses no experimento de vacinaçao em massa na Ilha Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Voluntarios da Fiocruz tiram sangue de paquetaenses no experimento de vacinaçao em massa na Ilha Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

 

June 18, 2021

As marcas da pandemia

 

 

POR ANA FLÁVIA GUSSEN

Dez meses depois de vencer
a Covid-19, Jéssica Laís
sente cheiro de sangue.
Sentar-se à mesa com a
família tornou-se uma
tortura, por causa do enjoo incontrolá-
vel que temperos básicos lhe provocam.
Gabriel Ribeiro evita sair às ruas. Sete
meses depois de testar positivo, ele não
consegue ter a mesma mobilidade nas
pernas. O medo de tropeçar e cair faz
com que evite sair de casa para fazer as
coisas mais básicas. Clarissa Ymasuda
é médica e desde que foi infectada viu
suas funções neurológicas mudarem.
As sequelas cognitivas a deixam triste:
“Parece que estou mais lenta para tu-
do”. Luiza viu mais da metade dos fios
de cabelo caírem.


Jéssica, Gabriel, Clarissa e Luiza in-
tegram o universo de 1,7 milhão de bra-
sileiros que desenvolveram a chamada
“síndrome pós-Covid” até 12 semanas
após o contágio, segundo projeções da
Organização Mundial da Saúde. Outros
3,25 milhões apresentam sintomas por
até quatro semanas depois de testarem
positivo. Os dados não deixam dúvidas,
há uma segunda crise sanitária, total-
mente silenciosa, em meio ao colapso pú-
blico causado pela pandemia no Brasil.

Em 22 de abril, a revista científica
Nature divulgou o maior estudo publi-
cado a respeito do tema até agora. Con-
duzida por pesquisadores da Escola de
Medicina da Universidade de Washing-
ton, a pesquisa envolveu 87 mil diag-
nosticados com Covid-19 e 5 milhões
de indivíduos saudáveis. De acordo com
a publicação, o risco de morte entre os
infectados é 59% maior, mesmo entre
aqueles que haviam sido diagnostica-
dos seis meses antes. Além das sequelas
pulmonares, descobriram os pesquisa-
dores, foram desenvolvidos distúrbios
neurocognitivos, de saúde mental, me-
tabólicos, cardiovasculares, gastroin-
testinais, mal-estar, fadiga, dores mus-
coesqueléticas e anemia. Casos de in-
fartos e arritmias são inúmeros. Es-
pecialistas afirmam que 80% dos pa-
cientes de Covid-19 relataram sentir ao
menos um desses sintomas. “Estou há
dez meses com olfato e paladar distor-
cidos. Não posso comer perto de nin-
guém, porque temperos como alho e ce-
bola têm um cheiro horrível para mim.
Tenho sentido cheiro de carne crua. Se
meu marido chega suado do trabalho,
eu sinto cheiro de sangue. Tenho me-
do de prejudicar a educação alimentar
de meus filhos de 5 e 7 anos”, desabafa
Laís, de 29 anos, moradora de Joinvil-
le, que não chegou a ser hospitalizada.


Luiza, que tem 30 anos e prefere não
se identificar, perdeu metade dos cabe-
los. Ela buscou tratamento com dife-
rentes médicos, seus exames estão to-
dos sob controle, mas o problema não 

cessa desde que se curou do vírus, em
fevereiro. “É desesperador. Não para de
cair e ninguém consegue me ajudar.”
Ribeiro, de 38 anos, ficou 42 dias inter-
nado e dez dias entubado. Hoje, convi-
ve com as sequelas da internação e tam-
bém com novos distúrbios que surgi-
ram depois de ter deixado um hospital
na capital paulista. “Eu tinha uma es-
cara de 8 centímetros de profundidade
e quase 8 de largura. Cinco meses de-
pois ela está com 1 centímetro, mas ain-
da preciso trabalhar de bruços, pois sin-
to muita dor se fico sentado muito tem-
po. Um médico também me diagnosti-
cou com ‘pé equino’. Fiz fisioterapia
pra voltar a andar, mas disseram que
posso ficar com sequelas. Tenho medo
de andar na rua e cair. Ainda não acho
que venci a Covid”, afirma. Ele também
relata lentidão no raciocínio, sintoma
muito comum entre os infectados, ao
lado de depressão e ansiedade.


Ribeiro passou pelo terror que muitos
jovens vivem com a P1, conhecida como
“variante brasileira”. Após três testes
negativos, a doença só foi confirmada
depois da internação. No hospital, ele
teve de optar pela entubação. Ribeiro
conta que ligou para a mãe, a tia e um
amigo e colega de trabalho, que viria a
falecer de Coronavírus quatro meses
depois, para avisar da decisão. “Minha
mãe ficou desesperada. Fiz uma cha-
mada de vídeo com eles e avisei que se-
ria entubado. Os piores dias foram os
cinco primeiros, quando minha con-
dição respiratória piorou, meus rins
também e precisei até fazer diálise.”

No fim, ele escapou das estatísticas.
No ano passado, 80% dos entubados
não sobreviveram.


Um estudo brasileiro apresenta
conclusão alarmante sobre a síndro-
me pós-Covid: diferentemente do que
se pensa, 89% daqueles que desenvol-
veram sequelas nem sequer chega-
ram a ser internados. Dos 8 mil ava-
liados, quase 52% apresentaram fadi-
ga e cansaço, 43% problemas de memó-
ria, 32,9% dores de cabeça e quase 20%
problemas com atividades motoras ou
dificuldade de coordenação, segundo a
pesquisa NeuroCovid, coordenada pela
neurologista Clarissa Yasuda, profes-
sora assistente de Neurologia da Facul-
dade de Ciências Médicas da Unicamp.
Vale ressaltar que a maior parte dos pa-
cientes que desenvolveram sequelas,
segundo a pesquisa da Unicamp, teve
sintomas semelhantes a uma “gripezi-
nha”, nas palavras de Jair Bolsonaro.


“Temos de considerar que a maioria
dos pacientes avaliados ficou isolada em
casa durante a doença. Temos de pen-
sar que, quando um paciente é entubado
ou internado devido à baixa saturação,
ele tem um quadro de hipoxia, então há,
na maior parte das vezes, uma pau-
sa respiratória e chances maiores
de lesão. Mas, neste caso, estamos
falando de quem nem sequer preci-
sou ser internado”, alertou a neuro-
logista, igualmente afetada por sequelas
da Covid-19. “Sinto na pele o que muitos
relatam. Fiquei em casa isolada e agora

sinto mudanças neurológicas, como se
fosse mais lenta. É triste”, conta a médi-
ca, que apresentou sua pesquisa em um
encontro organizado pela Organização
Mundial da Saúde em 20 de abril.


Os casos relatados a CartaCapi-
tal têm em comum a dificuldade de
encontrar respostas para os problemas
surgidos após a doença. “Me sinto com-
pletamente sozinha”, afirma Laís. O es-
tudo da Nature sugere que organizações
sanitárias e governos criem protocolos
e orientem as redes pública e privada
para enfrentar a síndrome pós-Covid,
que tende a se intensificar nos próxi-
mos meses e afetar a economia. Muitos
pacientes relatam dificuldade para tra-
balhar. No Brasil, passado mais de um
ano do início da pandemia, o Ministério
da Saúde foi, no entanto, incapaz de pre-
parar um protocolo nacional para o tra-
tamento da doença, nem se fale de pla-
nejar medidas que atenuem a síndrome.


“Estamos experimentando não só um
impacto na economia, com trabalha-
dores com dificuldade de exercer suas
funções, mas estamos vendo resultados
de um nó no sistema de saúde, com atra-
sos em diagnósticos de doenças como
câncer, HIV, pois temos falta de ofer-
ta de vários serviços”, afirma Wla-
dimir Queiroz, consultor da Socie-
dade Brasileira de Infectologia. Se-
gundo Yasuda, a “variante brasilei-
ra” amplia consideravelmente a so-
brecarga do sistema de saúde. “Pre-
cisamos que o governo ajude. Não vejo
iniciativas para lidar com essa deman-
da de retorno dos pacientes. Há luga-
res que tentam organizar a reabilita-
ção que envolve o pós-Covid, mas não
vejo isso como política nacional.” En-
quanto uma CPI se desenrola no Con-
gresso e os números de óbitos não sensi-
bilizam Bolsonaro, muitos, como Laís,
se sentem sozinhos em busca de respos-
tas que parecem longe de ser prioridade
no país que caminha para 500 mil mor-
tos pelo vírus. • 

CARTA CAPITAL



June 15, 2021

Série 'Meu amigo Bussunda' reconstrói trajetória e morte do humorista

  Bussunda: os pais do homorista achavam que ele

Maria Fortuna

 A série “Meu amigo Bussunda” é recheada de histórias hilárias sobre o mais carismático integrante da turma do Casseta & Planeta. Mas a passagem mais forte do documentário, que estreia no Globoplay quinta-feira, data dos 15 anos de sua morte, vai fazer muita gente chorar. Com direção geral do parceiro de grupo Claudio Manoel, o programa reconstrói o dia da súbita partida do humorista Cláudio Besserman Vianna durante a cobertura da Copa do Mundo da Alemanha, em 2006.

 Em depoimentos emocionados, amigos e equipe de trabalho relembram as gravações do programa na cidade de Parsdorf e a pelada no campo de futebol do hotel, que Bussunda encarou após traçar um joelho de porco regado a tulipas de cerveja. Também relatam o instante em que ele sofreu uma parada cardíaca.

— Não é que vi o Bussunda, o cara que eu mais gostava na vida, morrer metaforicamente. Foi literalmente mesmo — lamenta Claudio Manoel. — Enfrentar a dor esmagadora não foi possível. Então, durante muito tempo, tentei fugir ou me fazer de invisível diante dela.

Júlia Besserman: 'Quando meu pai morreu, eu fiquei míope', diz filha de Bussunda

Na série, Claudio, que é ao mesmo tempo entrevistador e testemunha, conta que sequer conseguia tocar no assunto. Carregava a culpa por ter sido o autor da ideia da tal partida de futebol. Se o tempo não cura tudo, ameniza. E, agora, ele não só fala sobre o tema como rodou um documentário, produzido por Emoções Baratas e Kromaki, que funciona como catarse. Claudio joga ali toda a carga sentimental de suas perdas nos últimos 15 anos. Seis meses depois da morte de Bussunda, ele perdeu o irmão. Em seguida, o pai. Um dia antes de começar a gravar programa, ano passado, foi a vez de sua mãe. O diretor dedica o trabalho aos três.

Fora as dores, a série é, sobretudo, uma bonita celebração da existência de Bussunda, dividida em quatro episódios. Os três primeiros, com direção e roteiro de Claudio e Micael Langer, lançam mão de imagens inéditas e de arquivo, entrevistas com parentes e amigos, colegas e integrantes do Casseta para narrar a trajetória do humorista, da infância à juventude. É quando surge o famoso apelido, resultado da aglutinação dos nomes Besserman e sujismundo. Por causa da falta de banho na colônia de férias que frequentava, acabou virando o “Besserman Sujismundo”. Depois, a alcunha evoluiu para “Bessermundo” e, por fim, “Bussunda”.

Parceria: Micael Langer e Claudio Manoel dirigem
Parceria: Micael Langer e Claudio Manoel dirigem 'Meu amigo Bussunda' Foto: Lucas Seixas

Pouco antes do sucesso do “Casseta & Planeta Urgente” na TV Globo, os pais do humorista reuniram os outros dois filhos (o economista Sergio e o médico Marcos) para pedir que sustentassem o irmão que “não daria em nada”. Mal sabiam que o estudante de Comunicação da UFRJ, que fora jubilado da faculdade, se tornaria o mais famoso dos três. E continuaria nem aí para dinheiro. Chegou até a esquecer o cheque de seu primeiro salário na Globo por meses na mesa de cabeceira. “Só lembrou quando recebeu o segundo pagamento. Aí comprou uma fatiadora, porque queria comer mortadela”, lembra a viúva, Angélica Nascimento.

Bussunda com a filha, Júlia Foto: arquivo / Arquivo pessoal
Bussunda com a filha, Júlia Foto: arquivo / Arquivo pessoal

O quarto episódio tem direção da filha de Bussunda, Júlia Besserman (leia entrevista exclusiva com ela) de 27 anos. Incomodada com o tom de certas graças do pai, Júlia problematiza piadas convidando humoristas da nova geração a debaterem o assunto. Desta forma, ela traz um olhar e reflexões atuais para a série. O público fica sabendo que mesmo naqueles tempos de humor politicamente incorreto, os Cassetas tiveram que lidar com críticas por batizarem de “preto com um buraco no meio” o vinil lançado com composições do grupo. O próprio Bussunda lembra a madrugada em que teve que dar explicações à feminista Lélia Gonzalez sobre a letra “mãe é mãe, paca é paca.../ mulher é tudo vaca”.

Júlia Besserman, filha de Bussunda, dirigiu um episódio do documentário sobre o pai Foto: Lucas Seixas
Júlia Besserman, filha de Bussunda, dirigiu um episódio do documentário sobre o pai Foto: Lucas Seixas

Além de saber da influência do Casseta na comédia atual e testemunhar debate sobre mudanças no humor ao longo do tempo, o espectador se diverte com “causos” de Bussunda, “verdadeiro isca de polícia”. Um dia, barbado, cabeludo e vestindo Havaianas, como sempre, foi parado em blitz na estrada. O policial encontrou papel de seda no porta-luvas e o perguntou: “Cadê a maconha?”. Resposta: “Vou comprar lá em Teresópolis”. E o guarda: “Mas não sabe que é proibido?”. No que Bussunda encerrou: “Ah, então, pode deixar que não vou comprar, não”.

Teve a vez em que encarnou Tim Maia no “Faustão”. O cantor deu o cano no programa, e Bussunda entrou em cena com enchimentos que aumentavam suas já generosas medidas. Foi o bastante para provocar a ira de Tim, que o ameaçou com uma surra. “Só não tenho medo porque sei que, na hora da porrada, ele não vai aparecer”, divertiu-se o humorista, ao comentar o episódio em uma entrevista.

Fingir-se de cego no ônibus para arrecadar dinheiro e depois torrar no bar era uma de suas gaiatices. Em outro golpe, fazia de conta que era péssimo na sinuca. Assim que um desavisado se aproximava, dizia que só jogava a dinheiro. Pensando estar diante de uma barbada, o inocente apostava e... tomava uma coça.

Por trás dessas gaiatices, havia uma pessoa doce, que ficava possesso com exemplos de falta de civilidade, como o tráfego em acostamentos. Única mulher do Casseta, Maria Paula define Bussunda como “um ursinho de pelúcia que cuidava de mim”. Hélio de La Peña destaca o otimismo (“sempre achava que tudo ia dar certo”), reforçado por Beto Silva: “Quando todo mundo ficava nervoso, a gente olhava para ele para saber se estava tudo bem assim como olha a aeromoça na hora que avião começa a balançar”.

— Quem assistir à série vai se apaixonar pelo ser humano encantador, justo, equilibrado, sarcástico, companheiro. Um cara que gostaríamos de ter como amigo, de quem ninguém fala mal — diz Micael Langer. — Quando li a biografia do Bussunda, só pensava em como minha vida era sem graça.

O GLOBO

 

 

June 5, 2021

Cova América

 

 


ESCÁRNIO Bolsonaro ignorou por meses as ofertas de vacinas,
mas deu aval ao torneio de futebol em tempo recorde


POR VICTOR CALCAGNO 

Em agosto de 2020, a Pfizer
encaminhou ao Ministério
da Saúde três ofertas para
fornecimento de 70 milhões
de doses de vacina. Todas
elas previam entregas ainda no ano
passado, mas foram ignoradas pelo gover-
no. Em 12 de setembro, quando o CEO do
laboratório, Abert Bourla, encaminhou
carta ao presidente Jair Bolsonaro e seus
principais ministros, a indústria farma-
cêutica colecionava dez e-mails não
respondidos. Em depoimento à CPI da
Pandemia, o ex-secretário de Comunica-
ção da Presidência, Fábio Wajngarten,
confirmou que a missiva ficou sem res-
posta por outros dois meses. Apenas em
novembro a equipe de Jair Bolsonaro

começou a negociar com a Pfizer, e o acor-
do só foi celebrado em março deste ano. 

Aparentemente, o governo tinha – e
ainda tem – outras prioridades em meio
a uma pandemia que matou 460 mil bra-
sileiros. Para realizar uma competição
esportiva rejeitada por outros dois pa-
íses, a Conmebol não precisou de mais
que dois ou três telefonemas para obter
o aval presidencial. Na segunda-feira 31,
a entidade comunicou que o Brasil­ vai se-
diar a Copa América, com início previs-
to para 13 de junho. O anúncio foi feito
dois dias após dezenas de milhares de ci-
dadãos ocuparem as ruas das principais
capitais do ­País por mais vacinas e pelo­
impeachment de Bolsonaro, “mais pe-
rigoso que o vírus”, como bradavam os
Sem ter a quem recorrer e com ape-
nas duas semanas para organizar um
campeo­nato com patrocinadores e con-
tratos estabelecidos, a entidade pergun-
tou à CBF, na manhã da segunda-feira 31,
se o Brasil não poderia receber o torneio.

Originalmente planejada para ter jogos
divididos entre Argentina e Colômbia, a
Copa América foi descartada pelos gover-
nos de ambos os países, que alegaram ra-
zões diferentes. O governo colombiano pe-
diu que o torneio fosse adiado em decor-
rência dos violentos protestos que deixa-
ram ao menos 17 mortos desde as primei-
ras mobilizações contra as reformas do
presidente Iván Duque. Diante do pedido,
a Conmebol preferiu excluir de vez o país-
-sede e realizar todos os jogos em estádios
argentinos. No domingo 30, o governo de
Alberto Fernández anunciou, porém, que
não mais levaria a ideia adiante. O moti-
vo alegado é o aumento recente no núme-
ro de infecções e mortes por Covid entre
os argentinos – o país tem 80 mil óbitos
acumulados desde o início da pandemia.
começou a negociar com a Pfizer, e o acor-
do só foi celebrado em março deste ano.

Sem ter a quem recorrer e com ape-
nas duas semanas para organizar um
campeo­nato com patrocinadores e con-
tratos estabelecidos, a entidade pergun-
tou à CBF, na manhã da segunda-feira 31,
se o Brasil não poderia receber o torneio.
O presidente da confederação brasileira,
Rogério Caboclo, falou diretamente com
Bolsonaro. Com relação amistosa, a dupla 

aproximou-se quando o ex-capitão defen-
deu a retomada das partidas de futebol no
ano passado, mesmo com a pandemia fo-
ra de controle. Com a resposta positiva
em mãos, a Conmebol celebrou a decisão

“O Brasil receberá a Copa América 2021!
A Conmebol agradece ao presidente Jair
Bolsonaro e sua equipe”.

 A reação veio de imediato. O governo

de Pernambuco, que administra uma das
arenas que abrigaram partidas da Copa de
2014, foi enfático ao dizer em comunicado
que “o atual cenário epidemiológico não
permite a realização de eventos do porte
da Copa América”. Da mesma forma, o go-
verno do Rio Grande do Norte, onde está a
Arena das Dunas, disse que o estado não
tem “segurança epidemiológica” para os
jogos. No Rio Grande do Sul, a opção de
sediar a competição foi considerada “ino-
portuna e inconsequente” pelo governa-
dor Eduardo Leite, do PSDB. Parlamen-
tares da CPI da Pandemia também criti-
caram a decisão. O relator Renan Calhei-
ros, do MDB, chamou o torneio de “cam-
peonato da morte”, e o vice-presidente da
comissão, Randolfe Rodrigues, da Rede,
classificou a iniciativa como “afronta às
mais de 450 mil vidas perdidas”.


Argentina e Colômbia
rejeitaram o certame
que o ex-capitão
topa abrigar


Diante das exaltadas reações, o mi-
nistro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ra-
mos, foi rápido em afirmar, ainda na
noite da segunda-feira 31, que a realiza-
ção do evento não estava completamen-
te garantida. Destacou, ainda, que os jo-
gos não teriam torcidas e todas as dele-
gações deveriam ser vacinadas. Segun-
do a pasta, as negociações ainda estavam
em estágio inicial e a CBF nem havia en-
viado um pedido oficial para o governo,
solicitando a execução do torneio. Mas,
no dia seguinte, Bolsonaro bateu o mar-
telo e confirmou que quatro estados to-
param receber os jogos: Distrito Fede-
ral, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Goiás 

Com dez seleções a desembarcar no
País, a realização da competição também
preocupa pela adoção de protocolos sa-
nitários que mantenham esses profissio-
nais seguros em seus deslocamentos, ao
mesmo tempo que protejam os cidadãos
brasileiros. Com anúncio a toque de cai-
xa, não houve detalhamento de como es-
se planejamento sanitário será feito, ou
mesmo se seria realizado. O presiden-
te da Comissão de Esportes da Câmara­
dos ­Deputados, Felipe Carreras, protoco-
lou requerimento para que o ministro da
Saúde, Marcelo Queiroga, seja convoca-
do para prestar esclarecimentos sobre as
medidas sanitárias para o evento.


“É a medalha de ouro do desprezo à vi-
da que tem Bolsonaro, é mais um capítu-
lo no campeonato genocida do governo, a
continuação dessa gincana negacionista
em que vive o País”, afirma o deputado e
ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha,
do PT. Ainda na segunda-feira, o partido
apresentou ao ministro Ricardo Lewan-
dowski, do Supremo Tribunal Federal, pe-
dido para suspender a realização da Copa
América no Brasil, por meio de um aden-
do à Ação por Descumprimento de Precei-
to Fundamental (ADPF) das Va-
cinas contra a Covid. Segundo o
PT, a decisão de sediar o evento
foi “sem transparência”, “irres-
ponsável” e “põe em risco a saú-
de da população do País e das de-
legações estrangeiras”.


O documento ainda requer
a intimação de Bolsonaro e
dos ministros da Saúde, Ca-
sa Civil e Relações Exterio-
res, além do secretário nacio-
nal do Esporte, citados em co-
municado oficial da Conme-
bol. A mesma estratégia foi
adotada com os governado-
res, em ofícios que pedem pa-
ra os estados não receberem
o evento. O PSB também in-
gressou com um mandado de
segurança preventivo encaminhado ao
presidente do STF, Luiz Fux.


“Bolsonaro ignorou ofertas de deze-
nas de milhões de doses de vacinas en-
tre junho e novembro, mas aceitou a Co-
pa América em menos de 12 horas”, in-
digna-se Padilha. Segundo ele, a inten-
ção do governo ao aceitar a competição
é “a mesma desde o início da pandemia”:
deixar o vírus correr solto até que o País­
alcance a suposta imunidade de rebanho.
Além disso, “a atitude defensiva” do Pla-
nalto viria para “provocar mais divisão”
no momento em que se vê acuado pela
CPI e pelas ruas. “A Argentina desistiu
do evento pela grave situação sanitária
e a Colômbia pela instabilidade política:
o Brasil reúne as duas coisas.”


No sábado 29, atos contra o presidente
foram registrados em mais de 200 cidades

brasileiras, incluindo grandes mobiliza-
ções nas 26 capitais e no Distrito Federal,
além de protestos no exterior. Apesar da
tímida cobertura da mídia nativa, os pro-
testos tiveram ampla repercussão inter-
nacional. Além do Le Monde, mencionado
no iníciodo do texto, o britânico The Guar-
dian destacou que “dezenas de milhares”
foram às ruas para pedir o impeachment
de Bolsonaro, por sua “catastrófica res-
posta” ao vírus. O New York Times, por
sua vez, enfatizou que foram “os maiores
protestos desde o início da pandemia”. A
CNN Internacional, a rede árabe Al Jaze-
era, o jornal italiano Corriere Della Sera, o
espanhol La ­Vanguardia, a revista alemã
Der Spiegel e várias outras publicações es-
trangeiras deram destaque aos atos.
No Recife, a repressão policial aos
manifestantes foi responsável por ferir
permanentemente duas pessoas sem re-
lação com os protestos. Daniel Campelo e
Jonas Correia foram atingidos nos olhos
por balas de borracha e perderam parte da
visão. A Polícia Militar de Pernambuco­ se-
rá alvo de dois inquéritos, um para apon-
tar os responsáveis pela lesão corporal
gravíssima e outro para apurar a violen-
ta conduta dos agentes nos pro-
testos. Durante os atos, poli-
ciais também dispararam spray
de pimenta contra a vereadora
Liana Cirne, do PT, arrastaram
e prenderam o cantor Afroito e
atingiram Roberto Rocha, ad-
vogado e presidente da Comis-
são de Direito Parlamentar da
OAB de Pernambuco, com qua-
tro tiros de bala de borracha.
De forma previsível, Bolsona-
ro minimizou os atos. Segundo
o ex-capitão, eles tiveram “baixa
adesão” porque a Polícia Fede-
ral tem feito grandes operações
Recife. Dois atingidos por balas 

de borracha perderam a visão

De forma previsível, Bolsona-
ro minimizou os atos. Segundo
o ex-capitão, eles tiveram “baixa
adesão” porque a Polícia Fede-
ral tem feito grandes operações
para conter o tráfico de drogas.
“Faltou erva”, disse para apoia-
dores na porta do Palácio da Al-
vorada em tom jocoso. •

CARTA CAPITAL