[resumo] Professor brasileiro
voluntário na campanha do pré-candidato democrata explica como o
político de 78 anos mobilizou multidão de jovens e fez do termo
socialista, antes quase palavrão nos EUA, uma plataforma possível
“E o Oscar vai para… elegibilidade!” Na sala repleta de laptops e
celulares em que nos reunimos em mutirões de telefonemas pela
candidatura de Bernie Sanders, a voluntária repete a piada interna, já
clássica entre nós, sobre a preocupação do eleitor. Mais de 60% dos
democratas têm como prioridade a escolha de um candidato, qualquer que
seja ele,
que derrote o presidente Donald Trump na eleição deste ano.
Desmontar o argumento sobre a suposta inelegibilidade de Sanders
tornou-se o pão nosso de cada dia. Digo aos colegas que no meu país de
origem o argumento é reiterado, porque como lente para entender os EUA
de 2020 muitos só têm o Brasil de 2018. Olho ao meu redor e noto que o
voluntário mais velho terá, no máximo, metade dos meus 50 anos.
Com intensidade rara nos EUA, um aluvião de jovens de 16 a 25
identificou-se com um político de 78 anos que defende as mesmas
políticas antes de que muitos de seus pais tivessem nascido. O tsunami
Sanders é uma temporalidade insólita, que reúne o velhinho a garotos que
o defendem com devoção.
Bernie impulsionou os mais novos a abraçar políticas públicas que há
dez anos eram impensáveis, desqualificadas como extremas. Elas são hoje
factíveis porque os muitos jovens reconheceram em Sanders a longevidade
da consistência (na linda expressão cunhada pelo escritor Cornel West).
Esse reconhecimento começou na histórica rebelião
Occupy Wall Street, em 2011, brutalmente reprimida pela polícia de Nova York, que chegou a ter dias cariocas.
Ainda há muito o que se fazer na análise dos movimentos progressistas
deste século, mas sabemos de uma singularidade dos EUA. As relações
entre Sanders e o Occupy Wall Street não têm paralelo. Ele surgiu como
líder que capitalizou a revolta e traduziu-a em plataforma de governo (o
que Marina Silva poderia ter feito em junho de 2013), mas há outra
volta do parafuso.
As revoltas só aconteceram porque Sanders havia estado lá durante
décadas, dizendo as mesmas coisas, solitário, incógnito, com a paciente
convicção de estar insistindo em uma promessa para o futuro. Quando os
manifestantes se reuniram em Zucotti Park no outono de 2011, muitos já
eram inspirados por ele. E ele não era ninguém nacionalmente antes de os
inspirar.
Essa retroalimentação entre Sanders e o Occupy Wall Street se
desdobra em um populismo que rompe com o foco personalista na figura do
líder. A consigna mais reiterada do movimento que se congrega em torno
dele é “não eu, nós”.
Analistas do discurso político hão de convir que a experiência do
movimento Sanders é notável. Não conheço paralelo de uma transformação
como a que ele impõe ao vocábulo socialista, que em menos de dez anos,
na maioria das variações dialetais do inglês falado nos EUA, foi de
palavrão-espantalho a plataforma possível à mesa de cozinha.
Sanders reivindica a palavra há mais de 50 anos, mas o deslocamento
de sua pragmática nos EUA é coisa de 10, especialmente quando modificada
pelo adjetivo democrático, que é o contexto em que ele sempre usa o
substantivo. O sujeito da enunciação se articula na primeira pessoa do
plural: mesmo na onda Obama de participação jovem em 2008, os
voluntários se submetiam a uma hierarquia, com chefes que se reportavam
ao comando geral. Agora, o aplicativo BERN permite aos voluntários que
se auto-organizem e dirijam seus próprios mutirões de telefonemas e
visitas a domicílio.
O
entusiasmo dos jovens com Barack Obama em 2008 foi
uma irrupção centrada na figura do político; a mobilização em torno a
Sanders em 2016-20 se conforma em outra temporalidade, cozinhada ao
longo de anos na revolta contra precariedade, dívidas, guerras. Essa
diferença se expressa em uma campanha tentacular, com reiteradas
experiências de autogestão em suas bases.
Sanders tem comitês autogestionados dando telefonemas em espanhol, português, mandarim, árabe e o que mais você imaginar.
Depois de sua estrondosa goleada nas prévias de Nevada
(22/2), boa parte do establishment descobriu que 140 mil filipinos
vivem naquele estado e que há cinco anos a campanha de Sanders dá
telefonemas e faz visitas a domicílio em tagalo —a quarta língua mais
falada nos EUA.
Não seria incorreto caracterizar Sanders como populista, e assim ele
tem sido nomeado (“progressista” ou “de esquerda” são outros rótulos
comuns). Nas teorias sobre o populismo, em geral aponta-se a presença de
um antagonismo que opõe o povo a algo exterior a ele.
Esse antagonismo existe no discurso de Sanders: trata-se do 1%, os
bilionários que terão que pagar seu quinhão de impostos para que se
realizem o sistema universal de saúde, o ensino superior público sem
pagamento de mensalidade e o cancelamento da trilionária dívida
estudantil.
Sabe-se que a operação que possibilita o slogan do 1% é eufêmica. A
social-democracia sanderseana só pode ser paga com aumentos de impostos
sobre uma faixa bem mais ampla, e isso é sabido pelo setor da classe
média que o apoia e é dito pelo candidato.
Ao ouvir “aumento de impostos para a classe média”, os voluntários
temos a resposta na ponta da língua: jamais foram contestados os números
da campanha; para a classe média, o aumento de impostos será menor do
que a economia com mensalidades, copagamentos e remédios. Xeque-mate, e
ao levá-lo o interlocutor volta à … elegibilidade!
É uma espiral infinita, porque o legítimo debate sobre elegibilidade
foi prejudicado pela fixação do partido Democrata e de parte da imprensa
na “
interferência russa”,
muleta com que se mascarou o desastre de Hillary Clinton na eleição de
2016, quando ela se referiu a metade do eleitorado como “cesto de
deploráveis” e nem sequer lembrou-se de viajar a estados-pêndulo como
Michigan, ocupada em visitar estados republicanos como a Geórgia, para
transformar a suposta vitória em goleada.
É como perder de virada aos 44 e 46 porque você decidiu que era
necessário humilhar o adversário com um gol de cabeça de seu goleiro aos
43. Mesmo assim, há um senso comum pontificando que se a candidata
centrista fracassou contra a extrema-direita, fracassará também o
esquerdista. No caso de observadores brasileiros, a suposição inclui uma
analogia com o Brasil de 2018.
Como o antipetismo elegeu Bolsonaro, como o petismo é a força mais à
esquerda entre as grandes, e como Ciro, Alckmin ou Marina teriam tido
mais chances contra Bolsonaro no segundo turno que o petismo, o
palpitólogo imagina que Joe Biden, Michael Bloomberg e Pete Buttigieg
têm mais chances que Sanders contra Trump, afinal são “mais moderados”. É
um erro elementar.
Tanto os mapas eleitorais como a bibliografia sugerem que a clivagem
que vai se conformando nos EUA não acontece em um contínuo
direita-esquerda, mas em um plano ortogonal a essa linha, entre (usemos
caricaturas alegóricas) “elites globalizadas que fazem Nafta e guerras” e
“populistas com foco nas dores do povo”.
Essa não é uma clivagem idêntica à dicotomia direita-esquerda, tanto
porque as elites globalizadas podem ser republicanas ou democratas como
porque a dor do povo pode se traduzir em políticas igualitárias, como no
populismo de esquerda de Sanders, ou em ressentimento racializado e
isolacionista, como no
populismo de direita de Trump.
Mas o fato decisivo sobre as eleições de 2016 é que o eleitor de
Oshkosh (estado de Wisconsin) ou Flint (Michigan), que era operário de
fábrica e orgulhoso pai de família com salário de US$ 75 mil anuais,
agora se escraviza no Walmart por US$ 15 mil, sem plano de saúde. Esse
pauperizado olha Hillary e vê a coautora do Nafta que lhe ceifou o
emprego.
Foi esse eleitor que caiu na
lábia racializada e xenófoba de Trump
e decidiu 2016. O mapa da ascensão do trumpismo nos EUA é o mapa dos
condados que votaram Obama em 2008 e 2012 e mudaram o voto para Trump em
2016. Isso é o básico a se saber nesta campanha eleitoral.
Apesar de estar à esquerda do americano médio dos cafundós de Iowa ou
Wisconsin, Sanders sempre teve um canal com o trabalhador do miolão da
América, porque há 40 anos se opõe a acordos de livre comércio que
incluem desregulamentação trabalhista. E opõe-se a guerras.
Que Sanders transita melhor que Hillary ou Biden nesse eleitorado é
sabido pelas pesquisas, contudo quem se preocupa em lê-las se já se têm à
mão o automatismo “elas erraram em 2016?”.
O argumento, tão comum na boca dos que falam de fake news russas, é
escandalosamente falso. As pesquisas presidenciais americanas de 2016
cravaram o resultado final com exatidão: vitória de 2-3 pontos de
Hillary no voto popular e curva ascendente pró-Trump nos estados
decisivos do Meio Oeste, curva que o clintonismo não leu, inebriado na
euforia da lacração que só fala consigo mesma.
Que Sanders tem um potencial mais alto que Hillary ou Biden entre o
eleitorado trabalhador do Meio Oeste não é, portanto, um segredo
guardado a sete chaves. É fato conhecido, mas há um outro dado sem o
qual é impossível entender o tema. O comitê nacional e a coalizão do
establishment Democrata preferiam uma Presidência Trump a uma
Presidência Sanders, preferiam perder com Hillary a vencer com Sanders.
E eis que aqui uma analogia com o Brasil se impõe. A estratégia do
establishment Democrata repetiu-se na estratégia petista de 2018, de
inflar Bolsonaro, dinamitar alternativas de centro e insistir no
hegemonismo, na esperança de que ficar quietinho sem confrontar
Bolsonaro ajudaria a levá-lo ao segundo turno e garantiria outra
vitória.
É um conhecido jogo petista, jogado com particular virulência contra
Marina Silva em 2014, para garantir um segundo turno contra o candidato
mais rotulável como direita, Aécio Neves (PSDB) naquela ocasião.
Funcionou em 2014, por um fio, mas de tanto usarem “direita” como
espantalho,
a direita de verdade apareceu.
E quando do outro lado está Bolsonaro, a estratégia deixa de ser
funcionamento do sistema político e se transforma em molecagem
irresponsável, cúmplice da possibilidade de destruição da democracia.
O equivalente do petismo no jogo político dos EUA, portanto, não é
Sanders, que nunca governou os EUA, e sim o establishment Democrata,
cuja líder, Hillary Clinton, estimulou seus correligionários a
fortalecer Trump nas primárias republicanas, já que contra a caricatura
extremista a vitória seria mais fácil. Em inglês temos até uma
palavrinha para o jogo, triangulation. Invenção patenteada dos Clinton.
A aposta do movimento que se reúne em torno a Sanders é um populismo
com outro tipo de enunciação, longe da incessante produção de
antagonismos (o registro em que funciona um movimento como o chavismo) e
longe das triangulações do oxímoro lulista (oxímoro é a afirmação
simultânea de opostos: “círculo quadrado” ou “água seca”; lulismo é o
movimento que de manhã insufla sua base contra a Rede Globo e à tarde
nomeia Hélio Costa ministro das Comunicações, um dos exemplos de uma
sinfonia de oxímoros que funcionou bem de 2005 a 2013).
No caso de Sanders, o antagonismo ao 1% bilionário está sempre
presente, então mantenhamos o termo populista. Mas também está presente o
lembrete da modéstia da concessão que se planeja impor, uma alíquota de
impostos sobre super ricos ainda bem inferior à média europeia. E nunca
se dissipa a ênfase na expressão de Sanders por excelência, bring
people together [juntar gente], em uma retórica da qual não está ausente
a utopia do anonimato na multidão.
Lembremos que Sanders sempre teve ótimas relações com a tradição
anarquista, incluído seu grande representante nos EUA, Noam Chomsky, o
primeiro palestrante que convidou quando era prefeito de Burlington, nos
anos 1980.
Populista sem ser personalista, coletivista sem ser centralizada, a
retórica do movimento que se reuniu em torno ao pré-candidato tem primos
em movimentos progressistas de outros países, mas não tem nenhum irmão
genuíno. Solitário, inclusive porque oriundo da estável
plutocracia-democracia (valha o oxímoro) do país mais rico do mundo e
mais desigual entre os ricos, onde até outro dia “liberal” era um
palavrão à esquerda, esse movimento só diz que não é pouco o que se joga
nas eleições americanas de 2020, para a nossa espécie e para as demais.
E que “Sanders é inelegível” é argumento de quem não leu nada sobre o
assunto.
Ele entra nesta Super Terça (3/3), principal dia das prévias
partidárias, com a liderança no número de delegados, grande vantagem na
arrecadação e o embalo gerado pela base mobilizada. Sanders pode impor
uma distância quase intransponível aos concorrentes democratas,
especialmente se o campo do establishment centrista continuar
fragmentado.
Na Super Terça, votam 14 estados e decide-se um terço dos delegados
da convenção democrata. Sanders já venceu com maioria estrondosa entre
os latinos em Nevada. As pesquisas mostram as linhas de Sanders e Biden
em trajetórias opostas, com o primeiro à frente 13 pontos na Califórnia e
7 pontos no Texas.
Não há dúvidas de que, nas eleições gerais, tudo será montanha acima:
apesar da precariedade, medo e endividamento em que vive boa parte da
população, a economia dos EUA roda hoje a taxas de quase pleno emprego, e
o
impeachment de Trump ruiu.
No entanto, a experiência no ativismo, os mapas eleitorais e a
bibliografia me dizem que, se há alguém que possa derrotar Trump, esse
alguém é o velhinho que reuniu, como nenhum outro presidenciável na
história dos EUA, a longevidade da consistência.
O leitor não deve excluir a possibilidade de que a cintilante imagem
de Jair Bolsonaro assistindo à TV anunciar Sanders eleito presidente dos
EUA esteja nublando meu raciocínio com indevido otimismo. Mas Sanders
pode ganhar, sim, disso ninguém que importa duvida mais.