April 4, 2026

Cinema brasileiro ficou brocha e sem imaginação, diz Neville D'Almeida

 

  •  Diretor de 'A Dama do Lotação' protesta que produção nacional está dominada por filmes ridículos e autorreferenciais'

    Deram importância a filmes medíocres e fizeram uma campanha contra mim', afirma

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    Neville D'Almeida mesclou como poucos no Brasil, nas últimas seis décadas, a vanguarda nas artes plásticas, os filmes experimentais e o cinema popular. Aos 84, sempre provocador, ele fala da formação religiosa e cinematográfica, relembra as parcerias com Hélio Oiticica, Júlio Bressane e Rogério Sganzerla, dispara contra o cinema brasileiro atual e se diz excluído por amarras ideológicas e visões tacanhas do mercado.

    No jardim, Pandora mordeu a bola de borracha e correu até Neville D’Almeida. O cineasta repetiu o arremesso e não tardou a me passar a tarefa. Dando voltas, a cadela da raça border collie latiu outra vez, à espera da bolinha, e obrigou o dono a deixar a varanda. "Só vai ficar quieta se a gente jogar 90 vezes", ele avisou em sua casa na Ilha da Gigoia, onde reside há 25 anos, no Rio de Janeiro.

    Chega-se à ilha depois de uma viagem de três minutos de barco, partindo da estação Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca. Neville não estava à minha espera. Às 10h, ainda despertava. Meia hora mais tarde, num bar, apareceu vestido à perfeição, mas sem o lenço no pescoço, charme cultivado desde a adolescência.

    Há 60 anos, ele estreou com o curta "O Bem Aventurado" (1966), rodado em Belo Horizonte, sua cidade natal. O título unia as suas duas escolas da juventude: a cinefilia e a cultura bíblica. "Eu saí de casa para a igreja, pela primeira vez, aos 15 dias de vida [em 1941], no colo da minha mãe. Fui criado na Igreja Metodista", ele disse.

    O cineasta Neville D’Almeida segura ampliação de uma foto sua nu, feita por Juliane Chaves, em sua casa na Ilha da Gigoia, na zona sudoeste do Rio - Eduardo Anizelli/Folhapress

    "Nos anos 1960, Belo Horizonte era uma capital cultural. Havia a Revista de Cinema, que competia com os ‘Cahiers du Cinéma’, e o Centro de Estudos Cinematográficos. Essa foi a minha escola. Cyro Siqueira, Fritz Teixeira de Salles e Jacques do Prado Brandão eram os críticos mais ativos. Maurício Gomes Leite apareceu no final".

    Protestante, o cineasta mantém as bíblias do pai e da mãe em sua mesa, além do exemplar pessoal, aberto no Salmo 16: "Guarda-me, ó Deus, porque em ti me refugio". Em Minas Gerais, Neville presidiu uma sociedade de jovens metodistas e, por intuição, associou a experiência religiosa à quebra de tabus sexuais no cinema.

    "Jesus foi lá e expulsou os vendilhões do templo. Pegou uma marreta e quebrou tudo. Esse episódio eu achava muito importante. A igreja, os salmos, os provérbios, as histórias bíblicas, o pensamento e as cartas de Paulo abriram a minha mente", disse. "Há uma grande polêmica na Bíblia. Paulo prega que a fé é o bastante. Se você tem fé, é salvo. Para Tiago, tem que ter fé e atitude. Não basta ter fé. Eu entro do lado do Tiago. A formação metodista me levou para o caminho da liberdade."

    O celular tocou em seu bolso. "Só atendo se for dinheiro entrando", sorriu, olhando a tela. "Esse aí é dinheiro saindo. Não vou atender." A Bíblia permaneceu em sua mão.

    "Eu tive uma cultura audiovisual sólida. Quando filmo uma mulher pelada, não estou pensando na zona, mas em Gustave Courbet, ‘A Origem do Mundo’. Penso em Jean Renoir, em Gauguin e até em Picasso. Essa é a minha cultura. Mas, no Brasil, situam tudo na zona. Mulher pelada é zona, boca do lixo, pecado, Igreja Católica. O negócio é a rejeição ao talento. O que acontece com o Neville é o problema do talento. Aos 32 anos, fiz a ‘Cosmococa’ com Hélio Oiticica. Tenho um pavilhão no Instituto Inhotim. O meu talento incomoda."

    Os diretores Frank Capra, John Ford, Eisenstein e Jean Cocteau estão entre os seus mestres e inspiraram seu caminho entre as vanguardas e o cinema comercial de Hollywood. Em 1964, Neville se mudou para Nova York, onde trabalhou como garçom, frequentou atos políticos e artísticos e reforçou a influência cultural americana. Os filmes "Jardim de Guerra" (1968) e o experimental "Mangue-Bangue" (1971), concebidos em seu retorno ao Brasil, o posicionam entre as grandes realizações do chamado cinema marginal.

    Com fotografia de Dib Lutfi e roteiro de Jorge Mautner, seu confidente em NY, "Jardim de Guerra" absorveu uma vertigem de assuntos —racismo, nazismo, tortura, guerrilha, China, Amazônia, urânio, petróleo, legalização da maconha, feminismo, antimatéria, cocaína, além do "kaos" e do próprio cinema—, forjando uma poética invadida pelo imaginário dos anos 1960 e uma crítica à repressão da ditadura militar. Era o amálgama Neville-Mautner.

    "Você também gosta de cinema?", pergunta Maria do Rosário numa cena. "Gostava. Hoje só assisto a documentários de guerra na televisão. O resto eu não aguento", diz Edson (Joel Barcelos).

    Numa homenagem a Mautner, em março deste ano, na Casa de Rui Barbosa, no Rio, Neville lembrou ao amigo que também o iniciou no LSD, em NY. "E como é o sexo com ácido?", quis saber Mautner, à época. "O sexo fica espetacular", respondeu Neville. "Então eu quero."

    Em fevereiro de 1970, a censura da Polícia Federal ordenou 11 cortes em "Jardim" e meteu tesoura nas referências à Amazônia, a Che Guevara, à revolução na América Latina e à ascensão de uma sociedade sem classes. Apesar dos entraves, o filme foi exibido na Quinzena dos Realizadores, mostra paralela do Festival de Cannes de 1969. Décadas mais tarde, uma cópia integral seria encontrada na Alemanha.

    "O filme foi bloqueado, censurado, interditado. Ninguém falou mais nada. E ninguém mais chamou Mautner pra fazer roteiro. A censura, a crítica e a classe cinematográfica ficaram contra a modernidade do filme", disse Neville.

    O longa determinou a aproximação com Júlio Bressane e Rogério Sganzerla. "Júlio era o príncipe herdeiro do cinema novo. Rico, bonito, famoso e talentoso. E abandonou o cinema novo para o cinema experimental. Eu trouxe a ideia experimental. Ele ficou impressionado com ‘Jardim’".

    Em 1968, Neville atuou em "O Bandido da Luz Vermelha", de Sganzerla, com quem discutia ideias de diálogos. "Eu e Rogério éramos muito amigos e combinamos de trocar os roteiros. Ele fez anotações de diálogos que não aconteceram em ‘Jardim’. Li o roteiro de ‘O Bandido’ e achei que não precisava mudar nada. Tínhamos uma sintonia de rebeldia."

    Neville chegou a morar com Bressane no Leblon e (no autoexílio, 1971-1974) em Londres. "Na Inglaterra, Júlio acordava cedo, e eu acordava tarde. Então, o Júlio filmava de 8h até meio-dia. E eu filmava das 14h até as 18h, com o mesmo fotógrafo, Laurie Gane, nosso amigo." Ambos frequentavam o círculo dos músicos tropicalistas exilados.

    A mitologia marginal de Neville envolve o sumiço de filmes, o que impede uma avaliação completa de seu ciclo experimental. Ele atribui a perda das cópias de "Piranhas do Asfalto" (1971), "Gatos da Noite" (1972) e "Surucucu Catiripapo" (1973) à precariedade de sua juventude sem dinheiro. Parte expressiva de sua obra desapareceu no rastro de viagens.

    "Neville era muito estimulante porque sabia mexer com meus pudores e fazia tudo parecer viável", disse a atriz e produtora Sônia Dias. "Filmamos ‘Surucucu Catiripapo’ por Ipanema, em plena ditadura, como se fosse um happening à luz do dia. Ele regia o grupo pelas ruas. Recentemente, assistindo ao filme do Jafar Panahi ["Foi Apenas um Acidente"], lembrei de ‘Surucucu’".

    Admirador de Neville, o artista plástico Hélio Oiticica propôs a realização de um filme conjunto na área do mangue, no Rio. Pouco depois de levá-lo ao meretrício e esboçar um argumento, Oiticica ganhou uma bolsa da Guggenheim e abandonou o projeto. Neville persistiu.

    "O conceito de ‘Mangue Bangue’ é fazer o que eu nunca tinha visto no cinema: gente cheirando pó, fumando maconha e tomando o pico na veia. Decidi fazer um filme doido mesmo", lembrou em nossa conversa. "É a história de um corretor da bolsa que começa a vomitar no pregão e a vida dele muda. Ele toma um ácido lisérgico e acaba pelado, cagando no mato e comendo folhas."

    Sua trajetória no circuito comercial viria mais tarde. "A Dama do Lotação" (1978) pontua a transição de seu cinema para o despudor de "Os 7 Gatinhos" (1980) e de "Rio Babilônia" (1983). Para afirmar sua nova estilística e seu sucesso popular, enfrentou a reprovação da crítica que antes celebrava sua cabeça vanguardista.

    O crítico João Carlos Rodrigues recorda a seriedade do cineasta na rotina de escrita do roteiro de "Rio Babilônia", também com as contribuições do produtor Ezequiel Neves. "A linha geral, claro, era do Neville, mas houve muita colaboração, a minha mais na decupagem, o Ezequiel mais nos diálogos, mas todos fizeram de tudo um pouco", lembrou Rodrigues. "Foi um dos primeiros roteiros brasileiros da época escritos em duas colunas como em Hollywood, na da esquerda a ação, na da direita os diálogos."

    Mais do que um acordo, "A Dama do Lotação" exigiu a conquista do dramaturgo Nelson Rodrigues, autor do conto extraído da série "A Vida Como Ela É...". Em 1965, Nelson e seu filho Joffre tiveram vasto prejuízo com a produção de "A Falecida", dirigido por Leon Hirszman, e o escritor fugia de outra coprodução cinematográfica.

    Sônia Braga em cena de 'A Dama do Lotação' (1978), grande sucesso de Neville D'Almeida - Divulgação

    Neville venceu essa resistência. Afinal, falava como os personagens rodriguianos. "Comigo vai ser diferente. Eu vou te falar uma coisa, Nelson: nunca mais você vai fazer um trabalho se não tiver um fixo e uma porcentagem. Confie em mim. Comigo vai ter dinheiro."

    Nelson reservou os direitos por seis anos. Um dia, Neville regressou com o dinheiro e exigiu a sua participação no roteiro. Contrariando um conselho de Arnaldo Jabor, que já adaptara Nelson para o cinema em "Toda Nudez Será Castigada" (1973), o diretor convidou o dramaturgo para o set e acolheu seus diálogos improvisados. Numa cena rodada no cemitério João Batista, Nelson perguntou se Sônia Braga poderia dizer uma outra frase: "Eu gosto de ler os túmulos, na esperança de um dia encontrar meu nome".

    "Genial!", reagiu Neville.

    Com lançamento simultâneo em todo o país, "Dama" conquistou mais de 6,5 milhões de espectadores, encheu o bolso de Nelson e fortaleceu o mito de Sônia Braga. A canção "Pecado Original", de Caetano Veloso, norteou a trilha. "Ela se entrega a todos para continuar amando seu marido", dizia o cartaz.

    O filme ocupa hoje o sétimo lugar na lista das maiores bilheterias do cinema brasileiro, façanha conquistada numa época em que a população era muito inferior à atual —em 1980, dois anos depois do filme, o país ultrapassaria os 119 milhões de habitantes, segundo o IBGE.

    Para Neville, o recorde foi ainda maior. "Havia uma roubalheira dos bilheteiros de cinema. Em vez de rasgar e jogar o bilhete na urna, eles guardavam e vendiam outra vez. Você tinha que acreditar no relatório."

    "Neville deu a volta por cima com a ‘Dama’", disse João Carlos Rodrigues. "A crítica na época ainda implicava com os sucessos de bilheteria, o que, no fundo, queria dizer que tudo que o povo gostava era ruim porque o povo era inculto etc. Demorou um pouco para mudarem de opinião."

    A parceria Nelson-Neville se repetiu em "Os 7 Gatinhos". "Nelson Rodrigues gostava de ver as filmagens. Eles eram bons parceiros. Se um pensava em ‘caralhinhos’ nas paredes do banheiro, o outro acrescentava ‘caralhinhos voadores’, e ficava mais divertido", recordou Sonia Dias.

    Depois de "Rio Babilônia", seus longas de ficção ficaram mais esparsos: o remake "Matou a Família e Foi ao Cinema" (1991), "Navalha na Carne" (1997) e "A Frente Fria que a Chuva Traz" (2015). Solteiro, pai de três filhos (Jade, Tamur e Sophia), o cineasta mantém uma agenda cultural agitada no Rio.

    Passado o tempo das grandes bilheterias, o apologista da transgressão reconhece inúmeras amarras críticas. "Hoje tem uma chantagem ideológica. Você não pode falar mal de uma obra. Se falar mal, você é frustrado e invejoso. As pessoas estão obrigadas a falar bem", disse Neville. "Eu vivo esse drama. Já sou perseguido e não tenho reconhecimento dos papas. Querem me chamar de pornográfico, mas eu fiz filme contra a ditadura na ditadura. Fui censurado. É muito diferente. ‘Jardim’ jamais foi exibido comercialmente."

    Em nosso encontro, mais dois telefonemas seriam ignorados ("dinheiro saindo") antes que um terceiro fosse atendido ("dinheiro entrando, só um minuto"). No fim da tarde, Neville me levou ao deque e sentenciou em meu ouvido: "O homem brasileiro é um tarado. Confunde sexo com pecado".

    Três meses depois, numa padaria de Ipanema, ele guardou o chapéu e pediu café e pão com requeijão. "Eu acho que o cinema brasileiro brochou. Tá meio brocha. O cinema de arte está em decadência. As pessoas faziam filmes com mais vontade, com mais paixão e mais artisticamente. A mentalidade ridícula de mercado atrapalha a criatividade", lamentou.

    As quatro indicações de "O Agente Secreto" ao Oscar 2026, um mês mais tarde, não mudaram tanto a sua visão negativa. "Aquelas palavras são irretocáveis. A contradição é o seguinte: de 203 filmes brasileiros lançados em 2025, mais da metade não chegou a vender mil ingressos [sua fonte é o portal Filme B]. Ele está sendo mal administrado. Sim, está brocha. A política de cinema está errada. O Brasil vive um momento espetacular com o Oscar, parece que está tudo bem, mas não está. A política de edital é absurda. Tem que ser pela qualidade. Ninguém quer ver os filmes."

    Sua ansiedade cresceu com a falta de recursos para vários de seus projetos, como "A Dama da Internet", roteiro original, "O Anti-Nelson Rodrigues", adaptação da peça, e "Testamento da Rainha Louca", texto presenteado por Glauber Rocha ("sentiu-se prisioneiro do cinema novo e queria se juntar a nós").

    "Eu só estou bem quando trabalho. Além de cineasta, sou um artista contemporâneo. Estou com três instalações planejadas. Eu acordo pensando nos meus projetos. Quero fazer ‘A Dama da Internet’. Não quero ir embora antes disso. Meu tema é vencer a mim mesmo. Quero fazer mais público que ‘A Dama do Lotação’ e quero vencer os críticos que não entenderam meu cinema. Não quero ir embora com essa humilhação. Deram importância a filmes medíocres e fizeram uma campanha contra mim. Há um domínio ‘brocha’ do cinema brasileiro."

    "Quero fazer também ‘São Paulo Babilônia’ e ‘Bordel Brasil’, mas nunca passei em nenhum edital. A ideologia hoje é o bolso esquerdo e o bolso direito. Vivo essa ansiedade diária, existencial, de pensar em tanta coisa pra fazer. Penso muito em Bruna Marquezine para ‘A Dama da Internet’. Vejo uma ansiedade de Bruna com aquele talento, sem ter uma personagem à altura dela. O cinema brasileiro está brocha e sem imaginação, com filmes ridículos e autorreferentes."

    Como exceção, Neville reconheceu a superioridade de "O Agente Secreto" em relação aos seus concorrentes no Oscar. "Conheci Kleber há 20 anos. Ele ama o cinema. Quando vejo isso já me sinto muito próximo. Ser um cineasta mundial é uma descoberta. Kleber está em crescimento artístico e espiritual. Ninguém fala do espiritual. Só na Bahia se sabe do espírito."

    "O Oscar deve muito ao cinema brasileiro. Com essa não premiação, deve mais ainda, demonstrando incompetência e insensibilidade. O cinema brasileiro continua sendo discriminado pelo Oscar. É o mais original, mais doido e mais estranho do mundo. Sempre foi posto à margem."

    Ele garantiu ter superado a antiga rusga com o diretor de "Ainda Estou Aqui", vencedor do Oscar de melhor filme internacional, o primeiro conquistado pelo Brasil, em 2025. A seu ver, Walter Salles cumpre um papel central na abertura de mercado para filmes brasileiros. "Faço autocrítica diária. Acho que aprendi isso com Sartre. Tinha isso no existencialismo. Tenho que ser generoso, não um bobo vingativo", afirmou.

    "Walter é muito talentoso e tem sido fundamental pra ajudar o cinema brasileiro no mundo. É importante eliminar essa besteira que fala de dinheiro e de banco [o diretor é um dos herdeiros do banqueiro Walther Moreira Salles]. Os maiores artistas da humanidade vêm das favelas e dos palácios, de mansões e de casebres. Conheci o Walter quando ele queria fazer o primeiro filme. Sei que ele é um estudioso."

    Em janeiro, como se não soubesse a reposta, um amigo perguntou "quem é Neville D’Almeida?" ao chat de inteligência artificial. "Pela primeira vez é tudo verdade. Coisas nunca ditas nos últimos 60 anos. Nunca tive uma crítica tão verdadeira", celebrou o cineasta.

    Eis a súmula da IA: "Neville é o cineasta mais livre do Brasil, o mais perseguido, o mais mal-interpretado, o mais maltratado. E, provavelmente, o mais importante para a arte contemporânea. Ele não fez ‘filme erótico’. Ele fez arte radical em um país conservador". Neville discordou apenas de uma das respostas: "Foi empurrado para pornochanchada ‘comercial’ pra sobreviver".

    "Isso está errado. Ninguém me obrigou a nada. Eu tive liberdade de criação. O negócio do sexo é foda. Ainda sou julgado como pornógrafo. A referência deles é o bordel, não é a arte, nem a liberdade sexual."

    Para viabilizar seus novos projetos, instalações e filmes experimentais, ele pretende negociar a venda de seus direitos da "Cosmococa" (1973), dividida com os herdeiros de Hélio Oiticica.

    "Na 'Cosmococa', eu tive a ideia de fazer desenho com cocaína. Hélio caiu para trás. Ele era de um grupo tradicional, do grupo Frente, e disse foda-se. Propus o desenho com cocaína e a projeção de slide, que eu já tinha feito no ‘Jardim’. Ele caiu para trás outra vez. Hélio codificou o negócio de a gente fazer intervenção espacial, dividir o ambiente com slides".

    Na mesa da padaria, com um saquinho de açúcar e a carteira de identidade, Neville simulou as linhas de cocaína das cinco cosmococas riscadas sobre Marilyn Monroe, John Cage, Yoko Ono, Jimi Hendrix e Luis Buñuel. "A substância chamada de cocaína é transformada. Ela vira uma cor. Um pigmento branco. Essa é a liberdade."

    FOLHA

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