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Por Bolívar Torres
Um dos autores mais estudados do país, o médico e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967) teve a vida esmiuçada em diversos livros. Ainda assim, sete décadas após a publicação de “Grande sertão: veredas” e quase 60 anos depois de sua morte, o escritor mineiro ganha, pela primeira vez, uma edição que assume explicitamente o gênero “biografia” estampado na capa.
Fruto de duas décadas de investigação sobre Rosa, que foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963 mas só tomou posse dois dias antes de falecer, o livro de Leonencio Nossa, com lançamento oficial marcado para o próximo dia 7, reúne pesquisa em arquivos públicos e privados, além de depoimentos de familiares e amigos, para recompor uma trajetória romanesca, que atravessa alguns dos momentos mais turbulentos do século XX.
— Rosa viveu a Revolução de 1932, a Alemanha nazista, Bogotazo na Colômbia, testemunhou o início da Guerra Fria e viveu sob a ditadura militar — lembra Nossa, que já publicou dois dos três volumes de uma biografia do jornalista Roberto Marinho, além de livros-reportagens sobre temas brasileiros. — Tudo isso enquanto construía uma obra inovadora. Mesmo morrendo jovem, é um homem que parece ter vivido várias vidas numa só.
Urbano e rural
O livro de Leonencio Nossa desmonta uma das imagens mais enganadoras de Guimarães Rosa, a do autor “menino do mato”, como lhe chamou certa vez João Cabral de Melo Neto. Em entrevistas, Rosa dizia vir de uma família de fazendeiros, o que é uma meia-verdade. Quando ele nasceu, a família já não vivia mais da pecuária, e sim do comércio. Sua Cordisburgo natal era um lugar de confluências, ponto de circulação para viajantes, mercadorias, ideias e histórias. Desde cedo, a formação do jovem Rosa acontece na intersecção entre o Brasil rural e urbano, que se industrializava desde o século XIX. Essa infância híbrida ajuda a explicar por que sua obra nunca se encaixa totalmente nem no regionalismo clássico nem na literatura urbana moderna.
— A palavra “sertão” na obra dele confunde, porque de certa forma encobriu o que foi a vida dele em Cordisburgo — diz Nossa. — Rosa não nasce em um Brasil absolutamente rural, mas num período de transição. Na casa dele tinha revistas estrangeiras, que o deixava conectado com o mundo. Belo Horizonte, que está presente desde a sua criação, é uma cidade pujante de muita informação.
Rosa também não era um homem “do lombo do cavalo”, como se esperaria de um autor tão associado ao universo rural. Mariano Valério, personagem de uma reportagem do escritor publicada em 1947, disse que se surpreendeu ao ver retratos de Rosa “guapo em riba do cavalo”. “Não sei como tiraram aqueles retratos (...) Ora, seu Guima montava de mal a mal, segurando no arcão da sela o tempo todo, com medo de cair.”
Sertão dinâmico
Rosa nunca retratou o sertão como um mundo fechado, mas como um lugar de passagem, atravessado por viajantes, ciganos, vaqueiros e disputas políticas.
— O Sertão de Rosa é um mundo com seu dinamismo próprio, suas redes, suas interações, suas relações econômicas e políticas — diz Nossa. — Ele nunca disse que o sertão dele é rural. Foram os estudos, as camadas ao longo do tempo que sempre colocaram aquilo como um lugar fechado, isolado do mundo, como se fosse só o mundo da pecuária.
Obra viva
A originalidade de Rosa não estaria, segundo Nossa, em uma reinvenção radical da linguagem (no estilo de James Joyce), mas em um esforço de reunir e potencializar as oralidades brasileiras. O escritor teria buscado incorporar não apenas o português sertanejo, mas também vocábulos africanos, indígenas e até os sons dos animais, criando uma língua que fosse capaz de expressar a complexidade do mundo que queria narrar.
Essa linguagem é construída a partir da convivência de diferentes tradições, mas também de uma pesquisa incansável. O autor estava sempre anotando em um caderninho as suas descobertas.
— Sua obra é uma tentativa de criar criar uma situação em que todas as linguagens brasileiras possam ser utilizadas — diz o biógrafo. —Há certas tentativas de capturar a obra dele como se fosse de laboratório e não como uma obra viva, que trabalha as palavras do dia a dia.
A bisavó negra
Leonêncio Nossa resgata uma figura pouco explorada nos estudos sobre Rosa, a sua bisavó Graciana Teixeira Lomba. Possivelmente ex-escravizada, ela viveu um amor proibido com o bisavô Francisco de Assis Guimarães, que acabou se casando com uma mulher branca por imposição da mãe. Essa ancestralidade africana de Rosa nunca havia sido colocada antes, segundo o biógrafo.
Geração após geração, a figura de Graciana nunca foi esquecida dentro da família. Ela era venerada quase como uma divindade, tendo o seu nome sempre citado quando um neto ou bisneto estava em perigo. Em seu discurso de posse na ABL, o escritor citou o nome das duas bisavós maternas, a branca e a negra.
— Graciana não é apenas uma figura da infância, é uma figura que vai acompanhar Rosa a vida inteira — diz Nossa. — Há várias referências a mulheres negras na obra dele, embora, como outros autores de seu tempo, ele não fugisse de certos estereótipos.
Diplomata rebelde
A trajetória diplomática de Rosa o colocou no centro de tensões políticas internacionais. Durante sua passagem pela Alemanha nazista, suas cartas com ironias a Hitler chamaram a atenção da polícia secreta, que o monitorava. “Tutu, covinha, lombinho, pimenta-malagueta, dois limõezinhos. Se o Hitler provasse veria que há coisa melhor do que ‘Die Wacht am Rhein’”, escreveu o autor, zombando o empenho do ditador ao cantar o hino.
A ajuda a judeus durante a Segunda Guerra envolveu tanto Rosa quanto sua então companheira, Aracy de Carvalho. Enquanto ela se arriscava de forma mais explícita, disposta até a esconder refugiados no porta-malas do carro, Rosa era mais contido. Ainda assim, tomou riscos consideráveis ao assinar vistos que permitiam a saída de judeus da Alemanha, facilitar trâmites burocráticos e dar respaldo institucional às ações de Aracy dentro do consulado brasileiro em Hamburgo, mesmo sabendo que isso poderia comprometer sua carreira diplomática.
— Rosa comete atitudes muito rebeldes e que o colocaram em risco — diz Nossa. — Como autor, ele já foi muito criticado por não ser engajado, algo que o incomodava muito. Ele argumentava lembrando que seus personagens são sertanejos, boiadeiros, vaqueiros, gente atravessada por conflitos reais, por violência, por questões sociais profundas. Ou seja, há um engajamento ali, mas que não passa pelo discurso explícito, e sim pela forma como ele constrói esse Brasil.
Refúgio no GLOBO
Nos anos 1960, enquanto a cena cultural consagrava a vanguarda e a Bossa Nova, Guimarães Rosa passou a ser percebido como um escritor “folclórico”, “ultrapassado” e “arcaico”.
Era a época em que o Jornal do Brasil promovia uma série de provocações contra o autor de “Grande sertão: veredas”. Liderado por nomes da poesia concreta como Ferreira Gullar e Amilcar de Castro e visto como uma espécie de voz da elite cultural daquela era, o revolucionário suplemento dominical do matutino criou uma coluna só para atacar o escritor mineiro. “Acredita em Guimarães Rosa?”, perguntava o jornal em entrevistas curtas a escritores estrategicamente escolhidos, que quase sempre respondiam “não”.
— Naquele ambiente cultural do Rio, não havia espaço para ele — diz Leonencio Nossa. — Isso o incomodava, porque ele sabia que estava fazendo algo profundamente inovador, mas que não era reconhecido como tal.
Nesse período de descompasso, o autor mineiro encontrou nas páginas do GLOBO uma espécie de refúgio entre janeiro de agosto de 1961. Ele passou a publicar textos no caderno de cultura, que já contava com outros colaboradores de luxo como Paulo Rónai, Antônio Olinto e Luís Viana Filho.
O veículo abrigou sua coluna “Guimarães Rosa conta…”, que era publicada aos sábados. Alguns de seus contos mais famosos apareceram primeiro por lá, como “A terceira margem do rio”. Este e outros 11 textos seriam mais tarde incluídos no livro “Primeiras estórias” (1962).
Outro exercício literário dessa fase é o uso de heterônimos. No jornal, Rosa experimentou vozes diversas, assinando textos com outros nomes e explorando registros distintos, como se testasse possibilidades narrativas fora do peso de sua própria assinatura.
— O GLOBO foi muito importante nesse momento — diz Nossa. — Foi um espaço onde ele pôde continuar publicando, experimentando, sendo lido. Enquanto parte da crítica tentava enquadrá-lo como um autor do passado, ele estava ali, produzindo uma literatura que hoje a gente reconhece como absolutamente à frente do seu tempo.
O GLOBO
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