April 28, 2026

Um pornô nada soft

 

 

 

Pornografia de plataformas digitais banaliza e estimula violência contra as mulheres

 

“Disse ao meu filho de 14 anos que não pode gozar na cara. Não pode bater o pau na cara. Aliás, não pode bater!”.

O comentário feito por uma promotora de Justiça, durante um evento do Ministério Público, em meados de março, ilustra o dilema de uma mãe cujo trabalho passa por compreender como a pornografia digital molda o comportamento de uma geração.

Enquanto mães, a preocupação dela e das colegas estava em dialogar com adolescentes cujo privilégio começa em ter por perto responsáveis dispostas a trocas saudáveis sobre sexo. Como representantes da alta cúpula do MP, que atuam no enfrentamento a diferentes tipos de violência, o grupo trocava impressões sobre um pornô nada soft. Um enredo perverso, que não se restringe aos mais jovens.

Não se trata aqui de condenar fetiches ou impor regras morais. Se combinado, vale tudo o que a dupla (o trio, o quarteto…) quiser. O que ocorre, no entanto, é o condicionamento do desejo a um impulso de infligir violência às mulheres no contexto sexual, cultura que se popularizou junto à explosão de plataformas digitais dedicadas à pornografia.

Autora de Garota Sobre Garota – Como a Cultura Pop Colocou Uma Geração de Mulheres Contra Si Mesma (ed. Todavia), a jornalista Sophie Gilbert, da revista The Atlantic, dedica um dos capítulos do livro a analisar como o “pornô gonzo” – “gênero que imita o pornô amador por dispensar narrativas e focar a ação, tentando deixar a pessoa que assiste imersa na cena” –  influenciou um tratamento violento e misógino de mulheres. Isso se tornou predominante na segunda metade dos anos 2000, quando o lançamento dos sites gratuitos de vídeo como PornHub, RedTube e YouPorn consolidaram a pornografia online.

Escritora e jornalista Sophie Gilbert, autora de 'Garota Sobre Garota', em retrato frontal. O artigo aborda como o "pornô gonzo", variedade estudada por Gilbert, e a pornografia digital influenciaram o tratamento violento e misógino de mulheres na sociedade contemporânea.
A escritora e jornalista Sophie Gilbert, autora de Garota Sobre Garota (Foto: Divulgação)

Psicodramas de raiva

O cenário concebido por Sophie nada tem a ver com o pornô chique retratado no clássico Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson, diretor que venceu o Oscar de Melhor Filme neste ano por Uma Batalha Após a Outra. O ponto de partida da jornalista são os atentados do 11 de Setembro de 2001 em Nova York, que, entre outros efeitos, criou um ambiente de “guerras e alienação”, levando à ascensão do torture porn, gênero que abrange produções marcadas por “violência chocante” e “uma sede impulsiva por vingança”, cujo marco é a estreia de O Albergue (2005), de Eli Roth.

Coproduzido por Quentin Tarantino, o filme de terror, que, aliás, inspirou o crítico de cinema estadunidense David Edelstein a cunhar o termo torture porn, acompanha dois universitários dos Estados Unidos que viajam à Europa. Em busca de “experiências que entorpeçam os sentidos e a memória”, a dupla acaba num hostel, onde são submetidos a todo tipo de tortura, num ambiente de sexo e sadismo.

O impacto de O Albergue – que teve uma sequência assinada pelo mesmo diretor – não se restringiu ao terror, sendo incorporado pela pornografia num momento em que, de acordo com Sophie, a estética e os valores dessa indústria haviam sido integrados à cultura mainstream.

“À medida que o cinema de arte no final dos anos 1990 começou a apresentar imagens sexuais explícitas, em filmes como O Romance, de Catherine Breillat, e Os Idiotas, de Lars von Trier, a indústria do pornô respondia com sua própria mudança de direção”, escreve a jornalista.

O novo elemento dessa transformação foi a violência, tendo como principal representante o produtor Max Hardcore. Conhecido por abusar de mulheres com instrumentos ginecológicos, simular estupros, entre outras bizarrices que Sophie descreve no livro, Hardcore, segundo o ex-editor da revista Hustler Evan Wright, criou “psicodramas de raiva dirigida contra a beleza feminina”.

É nesse contexto que os novos modelos do pornô se infiltram na cultura mais ampla, banalizando padrões sexuais brutais contra mulheres. Entre os episódios que demonstram essa influência, a autora de Garota Sobre Garota menciona uma performance de stand-up comedy do humorista Russell Brand, na qual ele brinca sobre gostar “daqueles boquetes em que vai parar um pouquinho na garganta […], aqueles em que o rímel escorre de leve”. Pouco tempo depois, Brand foi acusado de abuso por várias mulheres. Uma delas, afirmou que tinha 16 anos quando o comediante tentou asfixiá-la com o pênis, “uma técnica conhecida no pornô como cockgagging”.

Pornografia da vingança

Essa mesma brutalidade irá pautar a explosão do pornô digital, com o lançamento de plataformas como o PornHub (2007), responsáveis pela ruína do modelo de negócios dessa indústria, ao eliminar a necessidade de pagar por pornografia.

“Praticamente qualquer coisa que você quisesse ver estava disponível na mesma plataforma: vídeos fetichistas e cenas de estupro publicados juntos de vídeos de revenge porn [pornografia da vingança] e fragmentos nostálgicos [da atriz pornô estadunidense] Jenna Jameson. Em 2013, se estimou que os sites associados ao PornHub chegavam a atrair 1 bilhão de visitantes por mês”, descreve a jornalista.

À disposição dessa multidão de espectadores, episódios que mostram tapas, enforcamento ou bofetadas, como revelou uma pesquisa realizada em 2010 por Ana Bridges, professora do departamento de psicologia da Universidade de Arkansas. De acordo com o estudo, 88% de mais de 300 cenas pornográficas populares contavam com algum tipo de agressão física, em sua grande maioria de homens contra mulheres

Inevitavelmente, essas condutas provocaram mudanças perceptíveis em como as pessoas transam na vida real. No livro, Sophie menciona um levantamento de 2019, feito por uma instituição de combate à violência de gênero no Reino Unido, mostrando que 38% das mulheres britânicas com menos de quarenta anos relataram terem sido estapeadas, enforcadas, sufocadas ou cuspidas sem consentimento durante o sexo.

É desse tipo de tratamento que se alimenta o ecossistema da chamada machosfera, adestrando homens a performarem virilidade e violência e mulheres, submissão.

LIBERTA 

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