April 28, 2026

Flávio Bolsonaro dançou

 

 

 

Reflexões sobre a capitalização e a descapitalização política do “macho limítrofe”


 

Flávio Bolsonaro protagonizou uma cena que o aproximou mais do aloprado presidente argentino Javier Milei do que dos eleitores do seu pai, eleitores que ele, sem dificuldades, herdará se mantiver a compostura do homem que chegou ao mais alto cargo da nação mais por sua falta de qualidades do que por seus méritos, considerando os afetos que mobilizou, a saber, pânico e ódio numa combinação de sucesso político ímpar na história do Brasil.

Esse é o DNA de Bolsonaro, no qual a família deveria insistir para voltar ao poder. De fato, é possível que seus membros não venham a se tornar presidentes da República. O povo pode estar vacinado – exceto os antivax –, além do que votos para presidenciáveis mudam ao sabor de ondas emocionais de massa, sempre difíceis de prever. De qualquer modo, a parte da população que segue surfando no ódio, certamente, reelegerá os Bolsonaro como deputados, vereadores e outros cargos mais acessíveis.

Seja como for, é preciso olhar para a tecnologia da dancinha. E a que acometeu Bolsonaro Filho foi estranha e, por muitos caminhos, leva a pensar no antigo doidivanas da política, o outrora incensado Aécio Neves. Aécio, que não fez dancinha, mas dançou faz lembrar o Bolsonaro filhinho do papai, talvez por ser o netinho de vovô. Aos mais jovens, sugiro pesquisar sobre Tancredo Neves, avô de Aécio.

Para quem não lembra, Aécio foi o político mineiro que jurou se vingar de Dilma Rousseff, depois de ter perdido a eleição para a petista em 2014. Quase ninguém lembra que ele foi um dos primeiros a acionar o ódio misógino como capital político, o qual, depois, levou ao golpismo capitaneado pelo decrépito Eduardo Cunha, que teve um época de errância entre prisões até se tornar uma figura obscura.

Atualmente, Aécio Neves está no fim da fila para o Senado em Minas. Lembrar de Aécio gritando contra Dilma leva à memoria mais recente sobre a imagem do homem que gritou em nome de Ustra como o “pavor de Dilma Rousseff”, naquele fatídico dia 17 de abril de 2016. Esse homem, pai do personagem da dancinha, está preso e, provavelmente, não terá mais forças para voltar à política. De fato, é curioso que golpistas que agiram contra aquela presidenta, atualmente presidenta do banco do BRICS, sigam de mal a pior.

Aécio Neves ao lado de Tancredo Neves em imagem histórica familiar. A comparação reforça o debate sobre herança política e capital simbólico no caso de Flávio Bolsonaro.
Aécio com o avô Tancredo Neves, na década de 1980 (Foto: Reprodução)

Filhinho de papai

Bolsonaro Filho sacolejou as carnes de um modo meio desarticulado, ao som do “Funk do 01”, uma música de pré-campanha, na intenção de demonstrar que é um sujeito jovial, alegre, que é um cara espontâneo e que, gostando da musicalidade popular como é o funk, as populações que o cantam e dançam, que o criam ou o consomem podem confiar nele.

Todo mundo leu a cena da dancinha a partir da ideia de que Flávio Bolsonaro está tentando se distanciar do pai, algo válido, mas não tão válido assim, pois o pai também tinha suas brincadeiras e fazia cenas que visavam aproximá-lo do povo, fosse andando de jet-ski, fosse comendo farofa grotescamente, fosse bancando o macho predador. Bolsonaro queria parecer um sujeito do povo e, de fato, o era. Já Bolsonaro Filho não tem a mesma história, nem o mesmo apelo e nem o mesmo carisma. Ele tem apenas o nome do pai.

De fato, Bolsonaro pai sempre apostou no grotesco como capital, no qual se inclui o machismo. Gritaria, destempero, agressividade eram parte da cena e produziam profundos efeitos de poder, a ponto de cooptar eleitores fascinados com o carisma, a coragem antissistema ou o simples e puro absurdo que comove pessoas a votar apenas para ver a democracia e a vida do povo em escombros.

Se Flávio quiser ir longe, considerando que se tornar presidente foi o mais longe – ou o longe demais – que seu pai pôde ir, ele deveria se tornar mais parecido com o pai. Nesse caso, a dancinha tem um papel bem especifico. Ela serve no contexto de um jogo retórico em que é preciso criar confusão, principalmente a mental, pois o eleitor não pode entender nada, sob pena de, raciocinando, votar em algo sério e não em Bolsonaro.

É preciso impedir que se vote em algo sério: essa é a tarefa da dancinha hipnótica. Confundir faz parte disso. Trata-se de um método essencial à extrema direita, que só consegue se eleger mobilizando o caos, do qual afetos tristes como o ódio, a inveja, a maldade, a vingança e preconceitos em geral (misoginia, racismo, LGBTfobia etc.) são expressão óbvia.

Contudo, Flávio ganha mais quando lança mão de Trump, quando faz guerra ao Pix, quando consegue tocar o pânico como seu pai fez durante as eleições e durante seu mandato. Ou seja, Bolsonaro Filho teria que investir na imagem e no discurso para se assemelhar ao pai e não para se afastar dele, como alguns acreditam que ele vem tentando fazer.

O valor da desqualificação

Assemelhar-se ao pai, nesse caso, significaria aproveitar-se do capital principal do pai, a saber, o que chamei em livros e outros artigos de “ridículo político”. Um método de capitalização política que vem fazendo muito sucesso desde as eleições de 2016, pelo menos. É esse método, que envolve o grotesco e a infâmia, que vem levando hoje trapaceiros de todo tipo a altos cargos do Congresso Nacional.

Bizarríssimos deputados e senadores compõem o reconhecido “Congresso inimigo do povo”. Seguem sendo muito bem votados sem projeto, sem construir nada pelo Brasil. Quem se pergunta como é possível que cidadãos e cidadãs votem em candidatos tão desqualificados, corruptos, estupradores, assassinos, religiosos visivelmente embusteiros, homens cheios de ódio contra meninas e mulheres, gente sem escrúpulos, capaz de tudo por dinheiro e poder, em geral fica sem resposta. Mas quem analisa o valor da performance da desqualificação na política e da violência que dela faz parte começa a entender o que se passa.

Venho insistindo há anos que análises psicopolíticas e esteticopolíticas que levem em conta aspectos “cênicos” do campo político podem explicar tanto ou mais sobre cenários eleitorais do que pesquisas tradicionais sobre opinião. O que está em questão é o elo entre o performer político em sua cena “ridícula”, “grotesca” ou “infame” e o eleitor, que tudo vê sem saber o que fazer com isso. Nesse caso, o efeito do “Funk do 01” não parece ter sido muito comovente, pois o que se espera de um Bolsonaro é que ele apele para a força, a gritaria e o pavor como fazia o pai.

Outros candidatos

Apesar da vantagem de ser filho do ex-presidente, e estar sendo incensado nesse momento inicial em que a mídia precisa combater Lula, há vários candidatos que podem atrapalhar os votos de Flávio Bolsonaro no desenrolar da campanha. Apostaria, nesse estágio da fascistização da política, na figura de Ronaldo Caiado, que pode atrapalhar com força os planos do filhinho de papai. Caiado é um Bolsonaro melhorado, que sabe usar garfo e faca, que é “doutor”.

Misturando autoridade de médico e autoritarismo de chefe de polícia, Caiado é um político experiente, um representante do agronegócio, algo que tem poder no Brasil e, inclusive, poder cênico. O cênico é o âmbito da identificação, o lugar onde as pessoas se reconhecem e no qual elas se mimetizam com os outros com quem se identificam.

Caiado comoveu em sua campanha para a presidência em 1989 usando um cavalo branco e fazendo a cena do “príncipe”. É um personagem adequado no imaginário político da força bruta desejável para simular a sensação de segurança entre as massas. Talvez o inconsciente nacional saiba que as milícias do Rio de Janeiro não são nada perto dos ruralistas do velho oeste brasileiro.

A campanha presidencial de Caiado vai apelar para um sentimento identificatório. Quem não tem como possuir terras e gado, caminhonetes e casarões greco-goianos, pode sempre se contentar em ligar o rádio no sertanejo universitário e, por fim, votar no Caiado. Assim o pobre imitará o rico e se sentirá menos mal. Quando não tem nada de parecido com os ricos, pode-se, pelo menos, se identificar com ele pelo voto. O circuito da cafonice estética e política está fechado.

O simples fato de o PSD de Kassab ter escolhido Caiado, em vez do sulista Eduardo leite, sinaliza para algo importante. Nesse momento, ninguém quer apostar em nenhum tipo de “terceira via”. A polarização ainda não esgotou seu potencial. Ninguém quer “conciliações” em momento decisivo como o que se avizinha. O que as pessoas querem é segurança e o discurso de força traz a ilusão dessa garantia.

Ronaldo Caiado durante campanha presidencial. A imagem ilustra o uso de símbolos visuais e estética de poder na construção de narrativas políticas no Brasil.
Caiado em campanha para a Presidência, em 1989 (Foto: Reprodução)

A chance do bailarino

Sabemos que, no Brasil, o voto se decide por aspectos passionais e não racionais. A alta intenção de voto em Bolsonaro Filho ainda existe porque Bolsonaro pai está vivo e ainda não se tornou mais um Aécio Esquecido das Neves. Essa intenção depende única e exclusivamente da devoção das massas ao pai e da falta de outros candidatos que possam animar mais a extrema direita.

A promessa de Flávio teria que ser a de ressuscitar o pai Bolsonaro. Não o contrário. Ninguém votaria no Flávio que está sendo construído pelas narrativas, inclusive midiáticas, sem que ele fosse um Bolsonaro. A eleição de 2026 vai explicar quanto realmente vale esse nome. Certamente, há a hipótese de que não valha nada, como o “Neves” também já não vale.

Flávio Bolsonaro se elegeu sempre às custas do nome do pai Bolsonaro, que ele agora escamoteia, sem poder negar. Flávio se elegeu, de vereador a senador, em nome do papai e nada oferece de importante, em termos políticos, sem esse nome. De fato, setores do poder econômico e midiático esperam que Flávio seja um nada, como esperavam de Bolsonaro pai, mas não imaginavam que seria tão ruim, que um presidente de verdade faria tanta falta ao Brasil.

É que Jair Bolsonaro foi incompetente demais, até mesmo para os que desejavam que ele fosse apenas uma marionete e, como tal, manipulável pela direita econômica e midiática, que o colocou no cargo de presidente. A sua desqualificação para o cargo extrapolou todos os limites, indo além de todo o compreensível. Além disso, ninguém soube ensinar Bolsonaro a ser presidente, por se tratar de um aprendizado impossível e por ele mesmo ter sido uma surpresa para os que, odiando a normalidade democrática, preferiam ver o circo pegar fogo, até que eles mesmos saíram queimados.

A fragilidade de Flávio Bolsonaro é parte de sua cena. Se a esquerda usar uma tática um pouco mais “brutal”, ou seja, se em vez de segurar o fraquejador como fez Jandira Feghali, deputada, médica e humanista, decidir assoprar um pouco, o filhote do abusador da democracia não ficará em pé. A imagem do playboy desmaiando, como na campanha para prefeito do Rio em 2016, precisa voltar a circular. A imagem do homem fraco desmaiando e sendo segurado por uma médica de esquerda acaba com qualquer tentativa de melhorar a imagem com uma dancinha.

LIBERTA 


 

 

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