Fotógrafo
e colunista social, ele também criou a expressão 'esquerda festiva' e
ganhou Prêmio Esso por foto do astronauta russo Yuri Gagarin no Alto da
Boa Vista
Morreu na manhã desta quinta-feira (25) o jornalista, fotógrafo e
colunista carioca Carlos Leonam, aos 84 anos. A informação foi
confirmada pela família. Ele estava internado desde o último dia 13, na
Casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro, por causa de uma pneumonia
bacteriana.
O velório e o enterro devem acontecer no próximo sábado (27), em local
ainda a ser confirmado. Leonam deixa três filhos, Manoela, Caetano e
Elisa, e dois netos, Cecilia e Oliver.
Carlos Leonam trabalhou, entre outros, nas revistas O Cruzeiro e Veja, e
nos jornais Última Hora, Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil e O
GLOBO. Neste último, assinou de 1974 a 1984 a Coluna de Carlos Swann. No
Jornal do Brasil escreveu, no Caderno B, a página "Carioca (Quase
Sempre)". Também escreveu para a revista Carta Capital.
Foi ainda diretor de arte, cineasta, publicitário e autor de fotos
emblemáticas, como alguns retratos de Leila Diniz e Chico Buarque.
Foto de Leila Diniz feita pelo jornalista Carlos Leonam — Foto: Carlos Leonam / Arquivo
A capa do disco "Construção", de Chico Buarque é de sua autoria.
Capa de "Construção", de Chico Buarque — Foto: Reprodução
Também tem um Prêmio Esso por uma foto do astronauta russo Yuri Gagarin, no Alto da Boa Vista.
Publicou o livro "Os degraus de Ipanema", que reúne uma seleção de seus
textos em grandes jornais e revistas do país no período entre 1960 e
1990.
Leonam, reza a lenda, foi o "inventor" do célebre ritual de aplaudir o
pôr do sol na Praia de Ipanema, conforme relatou o jornalista Zuenir
Ventura certa vez:
"A cerimônia se repete todo dia. Quando o sol acaba de cumprir o seu
trajeto habitual e desaparece lá pelos lados do Vidigal, os banhistas da
Zona Sul se levantam da areia e aplaudem de pé. Os moradores já estão
acostumados com o ritual. De casa ouço o barulho das palmas, dos
assovios, de gritos e exclamações que se espalham pela Praia de Ipanema
entre 19h30m e 19h45m. São jovens que não eram nascidos no verão de
68/69, quando o costume foi lançado num 'dia de exportação', como se
dizia. Diante de um pôr do sol como esses de agora, o jornalista Carlos
Leonam não se conformou: 'Essa tarde merece uma salva de palmas!'.
Imediatamente, o grupo em que estava na altura do Posto 9 — Glauber
Rocha, Jô Soares, João Saldanha, entre outros — deu início aos aplausos.
Depois, o publicitário Roberto Duailib consagrou a cena, recriando-a
num comercial de bronzeador para a televisão. A cidade que, segundo
Nélson Rodrigues, vaiava até minuto de silêncio era capaz, também, de
aplaudir o entardecer", contou Zuenir.
Ventura conta ainda, em seu livro "1968: o ano que não terminou", que a
expressão "esquerda festiva" foi cunhada por Leonam, em 1963. Uma
descrição de como a expressão surgiu é encontrada em "Os degraus de
Ipanema".
Edney Silvestre disse que, "em suas colunas sociais, Leonam foi o
inventor dos/das socialites e o maior propagador do mito de Ipanema;
também, entre outras façanhas, circulou pelo Rio de Janeiro dos anos
1960, em seu Fusca tendo a bordo a segunda italiana mais sexy e mais
bela da história: Claudia Cardinale".
Para o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos (colunista de OGLOBO),
que destaca a atuação de Leonam no colunismo social, ele "foi um desses
homens que fizeram Ipanema nos anos 1960".
— Sempre teve texto muito bom e era muito bem informado — diz Joaquim.
Filho do botânico e naturalista mineiro Leonam de Azeredo Penna e da
professora Dorcelina Rosário Penna, Carlos Leonam nasceu no bairro do
Catete, no Rio de Janeiro. Viveu até os 29 anos em Botafogo, onde aos 10
anos criou o jornal "A Voz da Rua", já dando mostras da própria
vocação. De 1968 a 1977 morou em Ipanema, para onde retornou em 1990.
Torcedor "saudável" do Fluminense, como se definia, Leonam foi um dos
criadores da torcida Jovem Flu, ao lado do jornalista Nelson Motta, do
compositor Chico Buarque, do ator Hugo Carvana, da cantora Elis Regina,
entre outros.
Foi editor-executivo do cine-jornal Canal 100, especializado em
futebol, co-diretor do documentário "Futebol total" (na Copa do Mundo de
1974, na Alemanha) e co-roteirista de "Brasil bom de bola 78" (1978).
Foi também assistente de direção em "O fabuloso Fittipaldi" (1973),
filme de Hector Babenco e Roberto Farias sobre o piloto Emerson
Fittipaldi. No cinema, fez ainda duas pontas como ator: no filme de Leon
Hirszman "Garota de Ipanema" (1967) e no longa de Hugo Carvana "Bar
Esperança", ambos no papel de si mesmo.
O Palácio do Planalto anunciará na quarta-feira 24 o resultado de uma
licitação destinada a selecionar quatro empresas de comunicação
digital. Os escolhidos terão duas missões, e no fim das contas o
objetivo é fazer a posição do governo a respeito de certos temas chegar à
maior quantidade de cidadãos. Uma das tarefas será preparar, a partir
do monitoramento das redes sociais, um diagnóstico acurado e rápido
sobre o humor da população em assuntos que afetem a imagem de Lula
e sua equipe, para que o Executivo possa reagir em momentos quentes no
debate público. Uma forma de reação será pagar pelo aumento da
circulação de conteúdos oficiais, o chamado impulsionamento.
A outra missão será proporcionar um canal direto com grupos
específicos. O presidente Lula tem feito, neste ano, lances de
comunicação segmentada. Em eventos, usou e mostrou meias com o símbolo
do Corinthians, o time do coração, e com o rosto de Frida Kahlo,
falecida pintora mexicana ícone do feminismo. Com o futuro serviço
digital, o governo poderá, entre outras iniciativas, enviar mensagens de
celular (via WhatsApp ou SMS) a beneficiários do Bolsa Família para informá-los sobre direitos. Entre estes, a possibilidade de
retirar de graça 40 remédios em farmácias populares e o de que seus
filhos matriculados no ensino médio recebam um “pé-de-meia” (uma bolsa)
para não largarem a escola.
Nossa marca este anovai ser o salto na comunicação digital”, diz o ministro Paulo Pimenta
O novo serviço consumirá cerca de um terço do orçamento anual da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, sinal do tamanho da aposta na ferramenta. Se- rão 197 milhões de reais em 12 meses. Uma pesquisa divulgada na terça-feira 16 pelo Comitê Gestor da Internet apontou: 84% dos brasileiros utilizam aweb, bem acima do que acontecia na passagem anterior de Lula pelo Planalto (34%, em 2008). As redes sociais praticamente empatam com as tevês como meios de informação sobre política, conforme levantamento Genial/ Quaest de março (32% e 34%, respectiva- mente). Pelo levantamento, quanto mais lulista, mais se assiste à tevê e quanto mais bolsonarista, mais se navega nas redes. “O novo serviço vai preencher uma lacuna que temos. Nossa marca este ano vai ser o salto na comunicação digital”, diz o mi- nistro Paulo Pimenta, da Secom.
Lacuna que vai além do uso das ferra-
mentas. A popularidade de Lula e seu go- verno caiu ao longo de 2023, e o patamar atual assemelha-se ao cenário da eleição contra Jair Bolsonaro. É um quadro com- plicador das relações com o Congresso. Desde a eleição, há petistas a enxergar o Parlamento de predomínio patronal e di- reitista como obstáculo e ameaça ao presi- dente. Estão aí novos capítulos da “guer- ra fria” com o comandante da Câmara, o deputado Arthur Lira, do PP de Alagoas, para confirmar os prognósticos
O motivo de fundo do recrudescimen- to da animosidade é o de sempre: a incer- teza de Lira quanto à própria capacidade de fazer o sucessor em fevereiro. O depu- tado está decidido a instalar várias CPIs paradas na gaveta, algo preocupante pa- ra o governo (qualquer um), e a botar para andar uma mudança constitucional que tira parte do poder dos juízes do Supremo Tribunal Federal, proposta aprovada no Senado em 2023. A Corte tem sido uma espécie de aliada do governo. Atacá-la é atingir Lula indiretamente.
Lira age como fígado. Um primo do deputado foi demitido da chefia do Incra em Alagoas na segunda-feira 15, dia em que o ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, lançou um plano de refor- ma agrária para assentar 240 mil famílias até 2026. Desde o início da gestão Lula, o MST queria a cabeça de Wilson César de Lira Santos, nomeado nos tempos de Michel Temer. Lira e Teixeira haviam feito um acordo, segundo apurou CartaCapital. Santos permaneceria até março, quando sairia para disputar a eleição municipal de outubro. Ele desistiu de concorrer e dese- java manter o cargo. Além do gesto sobre CPIs, Lira facilitou o avanço de uma lei que pune ocupações de terra, pronta para vota- ção definitiva. Um soco no MST.
O episódio do primo veio no emba- lo de uma troca pública de farpas entre Lira, Lula e o responsável pela articula- ção política presidencial, o ministro Ale- xandre Padilha. O deputado tinha ficado uma fera com o fato de correr na mídia a conclusão de que havia demonstrado fra- queza política no episódio da confirma- ção pelo plenário, em 10 de abril, da pri- são do deputado Domingos Brazão, acu- mentas. A popularidade de Lula e seu go- verno caiu ao longo de 2023, e o patamar atual assemelha-se ao cenário da eleição contra Jair Bolsonaro. É um quadro com- plicador das relações com o Congresso. Desde a eleição, há petistas a enxergar o Parlamento de predomínio patronal e di- reitista como obstáculo e ameaça ao presi- dente. Estão aí novos capítulos da “guer- ra fria” com o comandante da Câmara, o deputado Arthur Lira, do PP de Alagoas, para confirmar os prognósticos.
Para o alagoano, a conclusão emanou de Padilha, a quem chamou publicamente de “desafeto” e “incompetente”. Lira recusa- -se a falar com o ministro faz tempo. En- xerga (e está certo na percepção) alguém que trabalha para miná-lo. “Só de teimo- sia, o Padilha vai ficar muito tempo” no cargo, declarou Lula também em público.
Ficará mesmo?CartaCapitaltem ou- vido de conselheiros presidenciais que o Planalto vive sérios problemas de coor- denação política. Um ministro admite: “O governo está à deriva”. Visão idênti- ca à exposta a portas fechadas a Lula pe- lo presidente do Sindicato dos Metalúr- gicos do ABC, Moisés Selerges: “O barco está à deriva”. Segundo um colaborador presidencial, a situação de Padilha é de- licada. O presidente da Câmara não fala com ele e o Senado não tem tradição de se deixar influenciar pela pasta de Padilha, a Secretaria de Relações Institucionais. A propósito do Senado, aliás, no PT há quem defenda trocar o ministro do Desenvolvi- mento Social, Wellington Dias, para que este assuma o mandato e reforce a base governista por lá. Lula, além disso, esta- ria decepcionado com o trabalho de Dias na equipe ministerial. “O Senado desan- dou”, afirma um conselheiro presidencial.
Na área política do Planalto, há quem acredite que as negociações do PT com vistas às eleições de prefeito e vereador precisam levar em conta a necessidade de reforçar candidaturas lulistas ao Se- nado em 2026. Na terça-feira 16, o jornal O Estado de S. Paulorelatou que Davi Al- columbre, do União Brasil do Amapá, ex- -presidente do Senado e candidato a reo- cupar o cargo em fevereiro, teria feito che- gar ao Supremo a avaliação de que, pelo andar da carruagem, há chances de a opo- sição aumentar o número de representan- tes na Casa em 2026 e viabilizar a cassa- ção de juízes.Impeachmentde togado do STF é atribuição do Senado.
Alcolumbre aliou-se à extrema-direita para tentar voltar ao comando do Senado. Como Lira na Câmara, não sabe qual se- rá a posição do governo. Nos bastidores, o líder de Lula no Senado, Jaques Wagner, do PT da Bahia, nunca se compromete com a candidatura de Alcolumbre. Es- te é chamado por um senador petista de “verdadeiro pai do orçamento secreto”.
O secretismo acabou, mas deixou o lega- do de uma explosão de recursos a emen- das parlamentares, obras inseridas no orçamento por congressistas. O gigan- tismo das emendas, 45 bilhões de reais neste ano, contribui para dificultar a vi- da legislativa de Lula. Wagner concorda: há um parlamentarismo disfarçado. Pa- ra um colaborador presidencial, a explo- são de emendas causou uma mudança sistêmica nas relações de poder em Bra- sília, e o petista ainda não sabe como con-
tornar a situação (tem estado a matutar). Segundo Wagner, o Congresso ganhou poder e manda muito, mas quem paga o pato do mau humor popular é o gover- no. Lula é aprovado por 50% dos brasi- leiros e reprovado por 45%, conforme a média de duas pesquisas de março, a Genial/Quaest e a Ipec, ex-Ibope. Um ano atrás, dava 52% a 39%. O pico de aprova- ção foi no terceiro trimestre, 58% a 37%.
Em dezembro, dava 52% a 43%. Com a avaliação do governo, o movimento foi se- melhante: após um pico no terceiro tri- mestre, recuo em dezembro e 2024. Nes- te ano, 34% da população considera o go- verno ótimo ou bom, 30% regular e 34%, ruim ou péssimo, na média das pesquisas Datafolha, Genial/Quaest e Ipec.
A queda da popularidadecoincide com a desaceleração da economia. O Bra- sil cresceu 2,9% no ano passado, e a ex- pansão concentrou-se no primeiro semes- tre (foi de 1,3% entre janeiro e março e de 0,8% de abril a junho). O início do governo teve a retomada dos reajustes reais do sa- lário mínimo e a ampliação da isenção do Imposto de Renda dos trabalhadores com rendimento de até 1,9 mil reais mensais,
valor que vigorava desde 2015, para 2,6 mil. Para o ano que vem, a equipe econô- mica propôs subir o mínimo de 1,412 mil para 1,502 mil, ganho real de 2,9%.
Na metade final do ano passado, o PIB parou. Ficou em zero nos dois últimos tri- mestres. Não à toa, agora em março, 38% dos brasileiros diziam sentir que a eco- nomia havia piorado de um ano para cá, enquanto 34% viam tudo na mesma e só 26% acreditavam em melhora, de acor- do com a pesquisa Genial/Quaest. Nos dois estados mais populosos, São Paulo e Minas Gerais, lar de 30% da população, o sentimento era mais negativo: 42% dos paulistas e 45% dos mineiros viam pio- ra econômica em 12 meses, e só 23% (nos dois estados), melhora. Menos mal para
Lula que ainda predomine a esperan- ça quanto aos próximos 12 meses (46% apostem em melhora e 31%, no contrário).
As previsões do Ministério da Fazen- da e do FMI indicam que neste ano o PIB avançará menos do que em 2023. A esti- mativa atual de ambos é de 2,2%. No di- to “mercado”, aquele que o Banco Cen- tral consulta toda semana, a projeção é de 1,9%. Lula, afirma um conselheiro, empe- nha-se por provar ao País que a economia vai surpreender. Por trás do verbo, ação.
O governo decidiu aceitar que em 2025 as contas públicas fiquem no zero a zero. O plano inicial do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, era um saldo positivo. Caso o Congresso aprove uma meta fis- cal “zero”, o governo terá mais verba pa- ra investir e tentar estimular a economia.
Com menos dinheiro no bolso dos brasileiros, reconhece um ministro, fi- ca mais fácil para a oposição bolsonaris- ta ser bem-sucedida na disputa por co- rações e mentes, especialmente via re- des sociais. Sem esse fator econômico, a declaração de Lula que juntou Israel, Hitler e nazismo em um mesmo comen- tário a respeito da guerra em Gaza, não teria trazido tanta dor de cabeça.
A tragédia humanitária em Gaza intensifica-se e a falta de alimentos destrói famílias e esperanças
P O R P E T E R B E AU M O N T
E K A A M I L A H M E D
Duzentas e cinquenta calorias representam duas fatias de um pão
integral comum vendido em supermercados: 12% da ingestão nutricional
diária recomendada. Hoje, no norte de Gaza, dominado por um nível “catastrófico” de fome, como definiu a ONU, representa a ingestão calórica de um dia inteiro. Seis meses após o início da resposta militar de Israel,
na sequência do brutal ataque do Hamas às comunidades fronteiriças do
sul de Israel em 7 de outubro do ano passado, no qual 1,2 mil judeus
foram mortos, na maioria civis, e quase 250 foram sequestrados como
reféns, a fome aguda domina a faixa costeira
Para quem tem dinheiro, a comida é perigosamente escassa. Para
aqueles que não têm nenhum – e depois de Israel obstruir a entrega de
ajuda humanitária durante meses, segundo funcionários da ONU e de outras
agências –, encontrar sustento é uma questão de vida ou morte. De
acordo com o IPC, o mecanismo de monitoração da fome
apoiado pela ONU, 1,1 milhão de palestinos, metade da população de
Gaza, viverá numa penúria catastrófica dentro de três meses, se as
coisas permanecerem no estado atual e a violência não aumentar. “Antes
da guerra, tínhamos boa saúde e corpos fortes”, disse recentemente uma
mãe à agência humanitária britânica Oxfam. “Agora, quando olho para meus
filhos e para mim, perdemos muito peso. Tentamos comer tudo o que
encontramos, plantas ou ervas comestíveis, apenas para sobreviver.”
Outra mãe de seis filhos repetiu esse relato à Organização Mundial da Saúde e explicou que nos mercados as plantas sil- vestres estão principalmente disponíveis a altos preços, “sem legumes, frutas, su- co... sem lentilhas, sem arroz, batatas ou berinjelas, nada”, levando muitos a sobre
viver à base de malva, uma erva daninha comum. Numa Gaza arruinada e sitiada, constantemente sob a ameaça de bombas, artilharia e drones, a vida é definida por um refrão repetido por muitos: “Ainda es- tou vivo. Continuo a respirar”.
“Não sei se ainda sintooutra coisa além de medo, tristeza e frustração”, afir- ma Mohammed Mortaja, um entre as cen- tenas de milhares de deslocados para a ci- dade de Rafah, no sul do país, ainda hoje sob a ameaça de uma nova ofensiva israe- lense. “Todas as manhãs o sol nasce e vo- cê está vivo. Sua jornada diária é perma- necer vivo, na busca por água e comida e a fugir dos bombardeios e da ocupação.” Mortaja diz estar totalmente foca- do na sobrevivência e não presta mais atenção nas notícias. Depois de seis lon- gos meses, a esperança também foi pos- ta de lado, substituída por uma sensação entorpecida de deslocamento. “Não sou mais iludido por palavras como ‘trégua’ ou ‘cessar-fogo’. Não me importo com na- da, apenas procuro o que pode saciar mi- nha fome e minha sede e espero ansiosa- mente por minha morte.”
Mais de 33 mil palestinos foram mor- tos no enclave, incluídas mais de 13 mil crianças, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. Em seis meses de conflito vio- lento, após anos de bloqueio israelense à faixa costeira, que serviu mais para for- talecer o Hamas do que para prejudicá- -lo, Gaza hoje é definida mais pelo que foi perdido do que pelo que resta de uma so- ciedade outrora vibrante. Blocos de apar- tamentos e bairros inteiros foram arra- sados. Os hospitais, reduzidos a ruínas, estão cercados por cães e cheiram a esgo- to. As universidades foram explodidas e a agricultura destruída. A eletricidade e, com ela, a capacidade de processar água potável e residual, foram fatalmente in- terrompidas, contribuindo para a propa- gação descontrolada de doenças.
No mês passado, imagens analisadas pelo Centro de Satélites das Nações Uni- das indicaram que 35% dos edifícios da Faixa de Gaza foram destruídos ou dani- ficados na ofensiva. A vida foi atomizada, pois a guerra levou mais de 80% da po- pulação de 2,3 milhões a abandonar suas casas e procurar abrigo, principalmente no sul, em condições insalubres de super- lotação. As entregas de ajuda humanitá- ria foram estranguladas por Israel, que fechou as passagens terrestres, enquan- to as recentes operações de lançamento aéreo são em escala limitada e muitas ve- zes causam mortes por problemas com falhas nos paraquedas e a queda de ali- mentos e remédios no mar.
A questão em Gaza é para onde irá a guerra agora. Uma avalanche de con- denações internacionais de Israel pe- la morte recente de sete trabalhadores humanitários da instituição beneficen- te World Central Kitchen, num ataque prolongado de drones que atingiu seus carros, um após o outro, segue-se à re- volta pelo elevado número de mortos e a fome crescente. Embora Tel-Aviv, sob pressão dos Estados Unidos depois da morte dos trabalhadores humanitários, tenha concordado em abrir mais pas- sagens fronteiriças para permitir mais ajuda humanitária, algumas autorida- des internacionais como o alto repre- sentante de política externa da União Europeia, Josep Borrell, acreditam ser insuficiente, e tarde demais para evi- tar a inanição. “Israel e seus aliados de- vem garantir que a ajuda possa fluir li- vremente para evitar a fome, e que ha- ja um sistema de proteção para os tra- balhadores humanitários que garanta nossa segurança. Acima de tudo, preci- samos de proteção para os civis pales- tinos, que foram mortos indiscrimina- damente nos últimos seis meses”, afir- mou o norueguês Jan Egeland, secretá- rio-geral do Conselho para Refugiados.
Juntamente coma ameaça de fome, a maior questão é o que acontecerá em Rafah, onde vivem 1,5 milhão de cida- dãos. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, reafirmou a in- tenção de atacar a cidade, apesar das objeções de Washington e de outros alia- dos. Ahmed Masoud, ativista dos direi- tos humanos atualmente em Rafah, de- pois de ter sido deslocado seis vezes nos últimos seis meses, experiência típica, afirma ter perdido 40 amigos, sua ca- sa e seu emprego. Agora, teme perder a saúde mental. “Tudo o que pensamos é como permanecer vivos, lutando para conseguir água e comida. Quando che- ga a noite, pensamos mais em ser mor- tos, especialmente porque ouvimos 24 horas por dia, sete dias por semana, o som dos aviões de guerra israelenses, especialmente dos drones”, descreve Masoud. “Tenho muita sorte de ainda ter a cabeça e não a ter perdido ainda.”
Rafah deixou, no entanto, de ser uma zona segura, embora nunca tenha esta- do isenta de ataques aéreos, e a popula- ção diz haver rumores de uma iminente invasão israelense. “Tudo está destruí- do ao nosso redor. Sentimos que a qual- quer momento eles entrarão”, afirmou outro palestino morador da cidade, que não quis ser identificado. “Esperamos pela evacuação de Rafah a qualquer mo- mento. Provavelmente, iremos em dire- ção ao mar, à praia.” Segundo Masoud, todos esperam uma invasão, mas não sa- bem para onde ir.
O sentimento de medo corrosivo e generalizado levou aqueles que têm contatos no estrangeiro a fazer apelos desesperados, pedindo dinheiro em- prestado para pagar as propinas exigi- das pelos “intermediários” egípcios, às
ezes dezenas de milhares de dólares por família, para atravessar a fronteira.
“O governo norte-americano quer um plano claro para evacuar os retidos pa- ra locais seguros. Para ser sincero, não sei de que ‘área segura’ estão falando”, diz Masoud. “É um medo muito grande, mas estamos acostumados a ser mor- tos, a ouvir notícias tristes, não temos nada a perder. Então aqui estamos, à es- pera do nosso destino.”
Apesar da crescente pressão interna- cional a favor da interrupção dos com- bates, entre elas a recente aprovação de uma resolução do Conselho de Segu- rança da ONU, as negociações de ces- sar-fogo se concentraram na libertação de dezenas de reféns israelenses detidos pelo Hamas, muitos dos quais teriam
morrido em cativeiro, que permanecem presos, apesar do enorme sofrimento. O Hamas diz que as forças de Israel devem deixar Gaza. Israel diz que deve concluir a destruição do Hamas.
Apesar das alegações por Israel de que matou cerca de 13 mil combaten- tes inimigos e desmantelou as capa- cidades militares do grupo na maior parte de Gaza, não há, porém, sinais de que o Hamas esteja acabado, e seus integrantes se reagrupam em áreas onde Israel havia declarado vitória.
Michael Milshtein, ex-oficial de alto escalão da inteligência militar israe- lense e especialista em estudos pales- tinos na Universidade de Tel-Aviv, diz que Israel enfrenta duas opções desa- gradáveis: aceitar um acordo de reféns e cessar-fogo que reconheça a sobrevi- vência do Hamas, ou intensificar a cam- panha militar e conquistar Gaza na es- perança de que o inimigo seja destruí- do. A expectativa de que a abordagem atual dos militares israelenses possa destruir o Hamas ou forçá-lo a se ren- der, afirma, é “excesso de otimismo”.
Amos Harel, do jornalisraelense Haaretz, foi ainda mais contundente e descreveu uma guerra estagnada, tro- pas esgotadas e uma insensibilidade ca- da vez maior em relação às vidas palesti- nas, onde “a ideia de que ‘não há inocen- tes em Gaza’” é comum entre os solda- dos. “Hoje está claro para todos, exceto para os seguidores cegos, que as promes- sas de ‘vitória total’ que o primeiro-mi- nistro Benjamin Netanyahu fazia todos os dias são totalmente inúteis.”
Por enquanto, tudo o que se pode di- zer com alguma certeza é que uma guer- ra lançada com expectativas irreais vai arrastar-se ainda por mais tempo em meio ao crescente isolamento internacional de Israel. E que aqueles que pagam o preço mais alto são os civis palestinos de Gaza. “