O nome da ex-modelo brasileira Amanda Ungaro, de 41 anos, voltou a
movimentar as redes sociais neste sábado, quando foi ao X para fazeruma série de desabafos (e ameaças). Em resposta a um vídeo de Melania Trump em que ela negava ter relação com o criminoso sexualJeffrey Epstein,
Amanda afirma que esteve “ao redor” do casal Trump por 20 anos e que
vai tomar medidas legais contra Melania e “seu marido pedófilo”, o
presidente dos Estados UnidosDonald Trump.Mas quem é Amanda Ungaro ?
Deportada pelo ICE
Amanda chegou ao Brasil em outubro de 2025 deportada pela polícia de imigração americana, o ICE, depois de 23 anos nos EUA. Uma medida que, em entrevista exclusiva ao GLOBO em fevereiro, ela creditou à influência do ex-companheiro, o empresário italiano Paolo Zampolli, nos bastidores do poder em Washington.
Uma reportagem do New York Times confirmou a afirmação da brasileira, apontando que Zampolli de fato procurou um alto funcionário da imigração para que Amanda fosse levada a um centro de detenção do ICE antes que ela fosse libertada da prisão sob fiança. De acordo com a publicação, Zampolli tinha como objetivo recuperar a guarda do filho, Giovanni, de 15 anos, que ele e Amanda disputam na Justiça.
O ex-marido e a proximidade com Trump
Nascido em Milão, Zampolli chegou a Nova York em meados
dos anos 1990, mesma época em que conheceu Donald Trump. Os dois
começaram a trabalhar oficialmente juntos em 2004, mas foi nas eleições
presidenciais de 2016 que a camaradagem virou lealdade. Diante de sua
defesa de políticas migratórias mais duras, Trump viu a imprensa
questionar se sua esposa, Melania, trabalhara como modelo nos EUA com um
visto inadequado antes de conhecê-lo. Zampolli então se apresentou como
o responsável pela documentação da atual primeira-dama, afirmando ter
usado sua posição como agente de modelos na época para garantir o visto
de trabalho dela. Em 1996, ano da emissão do documento, Zampolli atuava
junto à americana Metropolitan Models. No ano seguinte, ele fundou sua
própria agência de modelos, a ID Models.
Amanda descreve Zampolli como a persona ostentatória que agrada a
Trump: almoços diários no restaurante Cipriani, em Nova York, festas de
aniversário extravagantes com direito a filhotes de tigre entre as
atrações e um círculo social composto por modelos, champanhe e a atenção
dos tabloides. Nos 19 anos em que estiveram juntos, ela conta que
Zampolli a levou a noitadas comandadas pelo rapper e produtor americano
Sean “Diddy” Combs, atualmente cumprindo pena de quatro anos por
transportar mulheres para prostituição, e a festas em iates em que a
lista de convidados incluía celebridades e integrantes da realeza
europeia. Nesses eventos, diz ela, Zampolli costumava levar o próprio
garçom para ter certeza de que ninguém colocaria drogas em sua bebida.
No avião de Jeffrey Epstein
Documento indica que o nome de Amanda Ungaro aparece na lista de
passageiros do Lolita Express. A imagem mostra dezenas de nomes no voo
de 27 de junho de 2002, entre Paris e Nova York, incluindo o do próprio
Jeffrey Epstein ("JE"), de Ghislaine Maxwell ("GM") e de Brunel — Foto:
Departamento de Justiça dos EUA
O círculo social de Zampolli e Trump envolvia ainda um terceiro
personagem: Jeffrey Epstein, financista morto em 2019 enquanto aguardava
julgamento por tráfico sexual. A ID Models, agência de Zampolli, era
frequentemente visitada por Epstein em Nova York, e os dois tentaram,
juntos, comprar em 2004 a Elite Models, uma das maiores agências de
modelos do mundo. Zampolli aparece dezenas de vezes nos arquivos do caso
Epstein liberados pelo Departamento de Justiça dos EUA.
A ex-modelo Amanda Ungaro acusa o ex-companheiro, Paolo Zampolli, de abuso sexual e violência doméstica — Foto: Márcia Foletto
Amanda já foi convidada, mas ainda não intimada, a depor perante o
Comitê de Supervisão do Congresso americano que investiga o caso. A
brasileira esteve uma vez com Epstein, em 2002, quando embarcou no
Lolita Express, um dos aviões do financista, de Paris para Nova York,
onde participaria de um casting. Ela viajou acompanhada de seu agente na
época, o francês Jean-Luc Brunel, conhecido como o olheiro de Epstein
no Brasil. No mesmo ano, em 2002, Amanda encontraria com Zampolli também
em Nova York.
— Tinha mais ou menos umas 30 meninas no avião. Achei aquilo muito
estranho. Elas eram mais parecidas com estudantes do que com modelos.
Bonitas e bem novinhas, mas não tinham perfil de modelo — conta Amanda.
Ameaças à Melania
“Eu te conheço há 20 anos. Você sabia que eu estava detida no ICE. Você
esteve presente na minha vida — todos os anos no aniversário do meu
filho, inclusive enviando o Serviço Secreto e sendo a primeira a
parabenizá-lo, lá em 2016. Algo claramente estava errado, mas eu não
faço parte de nenhuma missão maligna envolvendo crianças. Então o que
você fez, Melania? Você tentou me envolver, mas falhou — porque eu tenho
caráter”, acusou Amanda, no X.
Em outro comentário, a ex-modelo
disse que vai “expor tudo” o que sabe sobre o casal e que pretende tomar
medidas legais contra Melania e o presidente americano, quem chamou de
“pedófilo”.
“Eu vou derrubar o seu sistema corrupto, mesmo que
seja a última coisa que eu faça na minha vida. Eu vou até o fim — não
tenho medo. Talvez você devesse ter medo do que eu sei… de quem você é e
de quem é o seu marido (...) Eu não tenho mais nada a perder na minha
vida. Eu vou derrubar todo o sistema — tome cuidado comigo, sua idiota”,
acrescentou.
O GLOBO
Nascido
em Milão, Zampolli chegou a Nova York em meados dos anos 1990, mesma
época em que conheceu Donald Trump. Os dois começaram a trabalhar
oficialmente juntos em 2004, mas foi nas eleições presidenciais de 2016
que a camaradagem virou lealdade. Diante de sua defesa de políticas
migratórias mais duras, Trump viu a imprensa questionar se sua esposa,
Melania, trabalhara como modelo nos EUA com um visto inadequado antes de
conhecê-lo. Zampolli então se apresentou como o responsável pela
documentação da atual primeira-dama, afirmando ter usado sua posição
como agente de modelos na época para garantir o visto de trabalho dela.
Em 1996, ano da emissão do documento, Zampolli atuava junto à americana
Metropolitan Models. No ano seguinte, ele fundou sua própria agência de
modelos, a ID Models.
Amanda
descreve Zampolli como a persona ostentatória que agrada a Trump:
almoços diários no restaurante Cipriani, em Nova York, festas de
aniversário extravagantes com direito a filhotes de tigre entre as
atrações e um círculo social composto por modelos, champanhe e a atenção
dos tabloides. Nos 19 anos em que estiveram juntos, ela conta que
Zampolli a levou a noitadas comandadas pelo rapper e produtor americano
Sean “Diddy” Combs, atualmente cumprindo pena de quatro anos por
transportar mulheres para prostituição, e a festas em iates em que a
lista de convidados incluía celebridades e integrantes da realeza
europeia. Nesses eventos, diz ela, Zampolli costumava levar o próprio
garçom para ter certeza de que ninguém colocaria drogas em sua bebida.
No avião de Jeffrey Epstein
Documento
indica que o nome de Amanda Ungaro aparece na lista de passageiros do
Lolita Express. A imagem mostra dezenas de nomes no voo de 27 de junho
de 2002, entre Paris e Nova York, incluindo o do próprio Jeffrey Epstein
("JE"), de Ghislaine Maxwell ("GM") e de Brunel — Foto: Departamento de
Justiça dos EUA
O
círculo social de Zampolli e Trump envolvia ainda um terceiro
personagem: Jeffrey Epstein, financista morto em 2019 enquanto aguardava
julgamento por tráfico sexual. A ID Models, agência de Zampolli, era
frequentemente visitada por Epstein em Nova York, e os dois tentaram,
juntos, comprar em 2004 a Elite Models, uma das maiores agências de
modelos do mundo. Zampolli aparece dezenas de vezes nos arquivos do caso
Epstein liberados pelo Departamento de Justiça dos EUA.
A ex-modelo Amanda Ungaro acusa o ex-companheiro, Paolo Zampolli, de abuso sexual e violência doméstica — Foto: Márcia Foletto
Amanda
já foi convidada, mas ainda não intimada, a depor perante o Comitê de
Supervisão do Congresso americano que investiga o caso. A brasileira
esteve uma vez com Epstein, em 2002, quando embarcou no Lolita Express,
um dos aviões do financista, de Paris para Nova York, onde participaria
de um casting. Ela viajou acompanhada de seu agente na época, o francês
Jean-Luc Brunel, conhecido como o olheiro de Epstein no Brasil. No mesmo
ano, em 2002, Amanda encontraria com Zampolli também em Nova York.
—
Tinha mais ou menos umas 30 meninas no avião. Achei aquilo muito
estranho. Elas eram mais parecidas com estudantes do que com modelos.
Bonitas e bem novinhas, mas não tinham perfil de modelo — conta Amanda.
Ameaças à Melania
“Eu
te conheço há 20 anos. Você sabia que eu estava detida no ICE. Você
esteve presente na minha vida — todos os anos no aniversário do meu
filho, inclusive enviando o Serviço Secreto e sendo a primeira a
parabenizá-lo, lá em 2016. Algo claramente estava errado, mas eu não
faço parte de nenhuma missão maligna envolvendo crianças. Então o que
você fez, Melania? Você tentou me envolver, mas falhou — porque eu tenho
caráter”, acusou Amanda, no X.
Em
outro comentário, a ex-modelo disse que vai “expor tudo” o que sabe
sobre o casal e que pretende tomar medidas legais contra Melania e o
presidente americano, quem chamou de “pedófilo”.
“Eu
vou derrubar o seu sistema corrupto, mesmo que seja a última coisa que
eu faça na minha vida. Eu vou até o fim — não tenho medo. Talvez você
devesse ter medo do que eu sei… de quem você é e de quem é o seu marido
(...) Eu não tenho mais nada a perder na minha vida. Eu vou derrubar
todo o sistema — tome cuidado comigo, sua idiota”, acrescentou.
Quando o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, 71, apareceu brevemente em público para cumprimentar cidadãos em um recente comício anti-Israel, outro membro de sua família também estava lá.
Yousef Pezeshkian, 44, seu filho e assessor, não via nem falava com o pai desde que Israel e os Estados Unidos iniciaram a guerra em 28 de fevereiro e a liderança iraniana passou a operar na clandestinidade. Ele esperava conseguir vê-lo de relance.
O filho, que tem doutorado em física e é professor universitário, tem mantido um diário da guerra publicado no Telegram com reflexões tanto pessoais quanto políticas. Os textos oferecem um raro vislumbre de como as figuras políticas do Irã estão lidando com a guerra que se intensifica —e se aproxima deles. E talvez inadvertidamente, Yousef às vezes leva seus leitores para dentro das discussões e deliberações internas da cúpula iraniana.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, no aniversário da Revolução Islâmica, em fevereiro de 2026, semanas antes do início da guerra - 11.fev.26/West Asia News Agency via Reuters
Enquanto os líderes iranianos têm projetado desafio em declarações públicas, o filho do presidente escreve sobre o medo por trás da fachada, à medida que múltiplos líderes são alvejados e mortos em bombardeios israelenses.
"Acho que algumas figuras políticas estão em pânico", escreveu no sexto dia da guerra, no início de março. "O povo é mais forte e mais resiliente do que nossos especialistas e líderes políticos. Temos que continuar nos lembrando de que a derrota só virá quando nos sentirmos derrotados."
Ele se preocupa com o pai e disse que ele e seus dois irmãos mal podem esperar pelos dois anos restantes da Presidência para que "todos possamos voltar às nossas vidas normais".
À medida que o Irã entra na quarta semana de guerra, com líder após líder sendo morto, os que restam recuaram para locais que esperam ser seguros. Os ataques aéreos israelenses e americanos já mataram o ex-líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e eliminaram toda a sua cadeia de comando militar: Ali Larijani, o chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional e governante de fato do Irã, e o chefe do Ministério da Inteligência, Esmaeil Khatib, entre outros.
Yousef escreveu em seu diário que proteger a vida das autoridades se tornou a prioridade número um para o país. Parar os assassinatos seletivos, disse ele, "agora é uma questão de honra".
Ele relatou ter participado de uma reunião com autoridades do governo na primeira semana da guerra, na qual surgiram questões sobre estratégia. "A maior divergência séria que temos é: por quanto tempo devemos lutar?", escreveu ele. "Para sempre? Até que Israel seja destruído e a América recue? Até que o Irã esteja em ruínas completas e nos rendamos? Temos que estudar os diferentes cenários."
O filho do presidente não respondeu a um pedido de comentário do New York Times. Dois funcionários iranianos e um ex-alto funcionário que o conhecem e trabalham com ele na administração de seu pai disseram que as páginas de redes sociais eram autênticas e que ele escrevia as entradas e gerenciava as contas. A mídia iraniana às vezes faz referência aos seus escritos.
Nos diários, ele diz que continua recebendo mensagens sobre a guerra não apenas de amigos e conhecidos, mas também de estranhos. Ocasionalmente, disse ele, "as mensagens pedem que nos rendamos e devolvamos o poder ao povo", uma noção que ele descartou como "ignorante e delirante".
Ele disse que se preocupava que os ataques do Irã a países árabes em retaliação aos ataques americanos e israelenses pudessem sair pela culatra. "É tão triste que, para nos defendermos, tenhamos que atacar bases americanas em países amigos", escreveu. "Não sei se eles vão entender nossa situação ou não."
A capacidade de Israel de caçar altos funcionários em seus esconderijos secretos abalou os líderes iranianos e causou ansiedade sobre quem pode ser o próximo e como as perdas podem ser absorvidas, de acordo com três altos funcionários iranianos que pediram anonimato.
Algumas perdas pesam mais do que outras. Larijani, por exemplo, tinha poder e influência singulares em diferentes facções políticas e dentro do aparato de segurança e militar. Ele era visto como uma figura que poderia ser capaz de dialogar com o governo Trump em negociações de cessar-fogo.
Muitos se perguntam quem está agora comandando o país na ausência de Larijani. Mojtaba Khamenei, que sucedeu seu pai, Ali Khamenei, como líder supremo, permanece fora de vista. r
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Os três altos funcionários iranianos disseram que o país estava atualmente sendo governado por um comitê. Comandantes da Guarda Revolucionária estão liderando os esforços, com o general Ahmad Vahidi, seu recém-nomeado comandante-chefe, conduzindo o lado tático da guerra.
Um membro do círculo íntimo de Khamenei, o general Mohammad Bagher Ghalibaf, tem discretamente substituído Larijani. Ex-comandante da Guarda que agora é presidente do Parlamento, ele está encarregado das decisões estratégicas.
Masoud Pezeshkian e seu vice-presidente, Mohammad Reza Aref, estão encarregados da administração cotidiana do Estado para garantir que ele continue funcionando, disseram os funcionários. Eles disseram que generais aposentados, junto com ex-funcionários e gestores, foram chamados de volta ao serviço.
Analistas dizem que o sistema de governo do Irã evoluiu para um ecossistema resiliente de instituições sobrepostas. Uma rede de líderes, funcionários públicos leais, quadros militares e soldados civis e de defesa se mobilizou não apenas para manter o governo da República Islâmica, mas também para continuar travando a guerra.
Eliminar o escalão superior da liderança não levou a um colapso. Mas, em seu diário, Yousef Pezeshkian diz que, a menos que o Irã consiga parar os assassinatos seletivos, "perderemos a guerra".
Ele também compartilhou algumas anedotas sobre sua vida pessoal. Ele fala sobre colorir com seus filhos, levá-los para brincar no parque, comprar balões para eles. Ele escreve sobre encontrar um amigo para uma longa caminhada no parque e sua determinação de se exercitar para manter sua resistência mental.
Uma vez, disse ele, recebeu uma mensagem misteriosa direcionando-o a comparecer a um endereço. Ele entrou em pânico, suspeitando de uma armadilha israelense. Depois de verificar com a segurança, disse ele, percebeu que era apenas um convite de iftar de amigos para quebrar o jejum do Ramadã com eles.
Neville
D'Almeida mesclou como poucos no Brasil, nas últimas seis décadas, a
vanguarda nas artes plásticas, os filmes experimentais e o cinema
popular. Aos 84, sempre provocador, ele fala da formação religiosa e
cinematográfica, relembra as parcerias com Hélio Oiticica, Júlio
Bressane e Rogério Sganzerla, dispara contra o cinema brasileiro atual e
se diz excluído por amarras ideológicas e visões tacanhas do mercado.
No jardim, Pandora mordeu a bola de borracha e correu até Neville D’Almeida.
O cineasta repetiu o arremesso e não tardou a me passar a tarefa. Dando
voltas, a cadela da raça border collie latiu outra vez, à espera da
bolinha, e obrigou o dono a deixar a varanda. "Só vai ficar quieta se a
gente jogar 90 vezes", ele avisou em sua casa na Ilha da Gigoia, onde
reside há 25 anos, no Rio de Janeiro.
Chega-se à ilha depois de uma viagem de três minutos de barco,
partindo da estação Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca. Neville não
estava à minha espera. Às 10h, ainda despertava. Meia hora mais tarde,
num bar, apareceu vestido à perfeição, mas sem o lenço no pescoço,
charme cultivado desde a adolescência.
Há 60 anos, ele estreou com o curta "O Bem Aventurado" (1966), rodado
em Belo Horizonte, sua cidade natal. O título unia as suas duas escolas
da juventude: a cinefilia e a cultura bíblica. "Eu saí de casa para a
igreja, pela primeira vez, aos 15 dias de vida [em 1941], no colo da
minha mãe. Fui criado na Igreja Metodista", ele disse.
O cineasta Neville D’Almeida segura ampliação de uma foto sua nu,
feita por Juliane Chaves, em sua casa na Ilha da Gigoia, na zona
sudoeste do Rio
-
Eduardo Anizelli/Folhapress
"Nos anos 1960, Belo Horizonte era uma capital cultural. Havia a Revista de Cinema,
que competia com os ‘Cahiers du Cinéma’, e o Centro de Estudos
Cinematográficos. Essa foi a minha escola. Cyro Siqueira, Fritz Teixeira
de Salles e Jacques do Prado Brandão eram os críticos mais ativos.
Maurício Gomes Leite apareceu no final".
Protestante, o cineasta mantém as bíblias do pai e da mãe em sua
mesa, além do exemplar pessoal, aberto no Salmo 16: "Guarda-me, ó Deus,
porque em ti me refugio". Em Minas Gerais, Neville presidiu uma
sociedade de jovens metodistas e, por intuição, associou a experiência
religiosa à quebra de tabus sexuais no cinema.
"Jesus foi lá e expulsou os vendilhões do templo. Pegou uma marreta e
quebrou tudo. Esse episódio eu achava muito importante. A igreja, os
salmos, os provérbios, as histórias bíblicas, o pensamento e as cartas
de Paulo abriram a minha mente", disse. "Há uma grande polêmica na
Bíblia. Paulo prega que a fé é o bastante. Se você tem fé, é salvo. Para
Tiago, tem que ter fé e atitude. Não basta ter fé. Eu entro do lado do
Tiago. A formação metodista me levou para o caminho da liberdade."
O celular tocou em seu bolso. "Só atendo se for dinheiro entrando",
sorriu, olhando a tela. "Esse aí é dinheiro saindo. Não vou atender." A
Bíblia permaneceu em sua mão.
"Eu tive uma cultura audiovisual sólida. Quando filmo uma mulher
pelada, não estou pensando na zona, mas em Gustave Courbet, ‘A Origem do
Mundo’. Penso em Jean Renoir, em Gauguin e até em Picasso. Essa é a
minha cultura. Mas, no Brasil, situam tudo na zona. Mulher pelada é
zona, boca do lixo, pecado, Igreja Católica. O negócio é a rejeição ao
talento. O que acontece com o Neville é o problema do talento. Aos 32
anos, fiz a ‘Cosmococa’ com Hélio Oiticica. Tenho um pavilhão no
Instituto Inhotim. O meu talento incomoda."
Os diretores Frank Capra, John Ford, Eisenstein e Jean Cocteau estão entre os seus mestres e inspiraram seu caminho entre as vanguardas e o cinema comercial de Hollywood.
Em 1964, Neville se mudou para Nova York, onde trabalhou como garçom,
frequentou atos políticos e artísticos e reforçou a influência cultural
americana. Os filmes "Jardim de Guerra"
(1968) e o experimental "Mangue-Bangue" (1971), concebidos em seu
retorno ao Brasil, o posicionam entre as grandes realizações do chamado
cinema marginal.
Com fotografia de Dib Lutfi e roteiro de Jorge Mautner,
seu confidente em NY, "Jardim de Guerra" absorveu uma vertigem de
assuntos —racismo, nazismo, tortura, guerrilha, China, Amazônia, urânio,
petróleo, legalização da maconha, feminismo, antimatéria, cocaína, além
do "kaos" e do próprio cinema—, forjando uma poética invadida pelo
imaginário dos anos 1960 e uma crítica à repressão da ditadura militar.
Era o amálgama Neville-Mautner.
"Você também gosta de cinema?", pergunta Maria do Rosário numa cena.
"Gostava. Hoje só assisto a documentários de guerra na televisão. O
resto eu não aguento", diz Edson (Joel Barcelos).
Numa homenagem a Mautner, em março deste ano, na Casa de Rui Barbosa,
no Rio, Neville lembrou ao amigo que também o iniciou no LSD, em NY. "E
como é o sexo com ácido?", quis saber Mautner, à época. "O sexo fica
espetacular", respondeu Neville. "Então eu quero."
Em fevereiro de 1970, a censura da Polícia Federal ordenou 11
cortes em "Jardim" e meteu tesoura nas referências à Amazônia, a Che
Guevara, à revolução na América Latina e à ascensão de uma sociedade sem
classes. Apesar dos entraves, o filme foi exibido na Quinzena dos
Realizadores, mostra paralela do Festival de Cannes de 1969. Décadas
mais tarde, uma cópia integral seria encontrada na Alemanha.
"O filme foi bloqueado, censurado, interditado. Ninguém falou mais
nada. E ninguém mais chamou Mautner pra fazer roteiro. A censura, a
crítica e a classe cinematográfica ficaram contra a modernidade do
filme", disse Neville.
O longa determinou a aproximação com Júlio Bressane e Rogério Sganzerla.
"Júlio era o príncipe herdeiro do cinema novo. Rico, bonito, famoso e
talentoso. E abandonou o cinema novo para o cinema experimental. Eu
trouxe a ideia experimental. Ele ficou impressionado com ‘Jardim’".
Em 1968, Neville atuou em "O Bandido da Luz Vermelha", de Sganzerla,
com quem discutia ideias de diálogos. "Eu e Rogério éramos muito amigos e
combinamos de trocar os roteiros. Ele fez anotações de diálogos que não
aconteceram em ‘Jardim’. Li o roteiro de ‘O Bandido’ e achei que não
precisava mudar nada. Tínhamos uma sintonia de rebeldia."
Neville chegou a morar com Bressane no Leblon e (no autoexílio,
1971-1974) em Londres. "Na Inglaterra, Júlio acordava cedo, e eu
acordava tarde. Então, o Júlio filmava de 8h até meio-dia. E eu filmava
das 14h até as 18h, com o mesmo fotógrafo, Laurie Gane, nosso amigo."
Ambos frequentavam o círculo dos músicos tropicalistas exilados.
A mitologia marginal de Neville envolve o sumiço de filmes, o que
impede uma avaliação completa de seu ciclo experimental. Ele atribui a
perda das cópias de "Piranhas do Asfalto" (1971), "Gatos da Noite"
(1972) e "Surucucu Catiripapo" (1973) à precariedade de sua juventude
sem dinheiro. Parte expressiva de sua obra desapareceu no rastro de
viagens.
"Neville era muito estimulante porque sabia mexer com meus pudores e
fazia tudo parecer viável", disse a atriz e produtora Sônia Dias.
"Filmamos ‘Surucucu Catiripapo’ por Ipanema, em plena ditadura, como se
fosse um happening à luz do dia. Ele regia o grupo pelas ruas.
Recentemente, assistindo ao filme do Jafar Panahi ["Foi Apenas um
Acidente"], lembrei de ‘Surucucu’".
Admirador de Neville, o artista plástico Hélio Oiticica
propôs a realização de um filme conjunto na área do mangue, no Rio.
Pouco depois de levá-lo ao meretrício e esboçar um argumento, Oiticica
ganhou uma bolsa da Guggenheim e abandonou o projeto. Neville persistiu.
"O conceito de ‘Mangue Bangue’ é fazer o que eu nunca tinha visto no
cinema: gente cheirando pó, fumando maconha e tomando o pico na veia.
Decidi fazer um filme doido mesmo", lembrou em nossa conversa. "É a
história de um corretor da bolsa que começa a vomitar no pregão e a vida
dele muda. Ele toma um ácido lisérgico e acaba pelado, cagando no mato e
comendo folhas."
Sua trajetória no circuito comercial viria mais tarde. "A Dama do Lotação" (1978) pontua a transição de seu cinema para o despudor
de "Os 7 Gatinhos" (1980) e de "Rio Babilônia" (1983). Para afirmar sua
nova estilística e seu sucesso popular, enfrentou a reprovação da
crítica que antes celebrava sua cabeça vanguardista.
O crítico João Carlos Rodrigues recorda a seriedade do cineasta na
rotina de escrita do roteiro de "Rio Babilônia", também com as
contribuições do produtor Ezequiel Neves. "A linha geral, claro, era do
Neville, mas houve muita colaboração, a minha mais na decupagem, o
Ezequiel mais nos diálogos, mas todos fizeram de tudo um pouco", lembrou
Rodrigues. "Foi um dos primeiros roteiros brasileiros da época escritos
em duas colunas como em Hollywood, na da esquerda a ação, na da direita
os diálogos."
Mais do que um acordo, "A Dama do Lotação" exigiu a conquista do dramaturgo Nelson Rodrigues, autor do conto extraído da série "A Vida Como Ela É...". Em 1965, Nelson e seu filho Joffre tiveram vasto prejuízo com a produção de "A Falecida", dirigido por Leon Hirszman, e o escritor fugia de outra coprodução cinematográfica.
Sônia Braga em cena de 'A Dama do Lotação' (1978), grande sucesso de Neville D'Almeida
-
Divulgação
Neville venceu essa resistência. Afinal, falava como os
personagens rodriguianos. "Comigo vai ser diferente. Eu vou te falar uma
coisa, Nelson: nunca mais você vai fazer um trabalho se não tiver um
fixo e uma porcentagem. Confie em mim. Comigo vai ter dinheiro."
Nelson reservou os direitos por seis anos. Um dia, Neville regressou
com o dinheiro e exigiu a sua participação no roteiro. Contrariando um
conselho de Arnaldo Jabor,
que já adaptara Nelson para o cinema em "Toda Nudez Será Castigada"
(1973), o diretor convidou o dramaturgo para o set e acolheu seus
diálogos improvisados. Numa cena rodada no cemitério João Batista,
Nelson perguntou se Sônia Braga poderia dizer uma outra frase: "Eu gosto
de ler os túmulos, na esperança de um dia encontrar meu nome".
"Genial!", reagiu Neville.
Com lançamento simultâneo em todo o país, "Dama" conquistou mais de
6,5 milhões de espectadores, encheu o bolso de Nelson e fortaleceu o
mito de Sônia Braga. A canção "Pecado Original", de Caetano Veloso,
norteou a trilha. "Ela se entrega a todos para continuar amando seu
marido", dizia o cartaz.
O filme ocupa hoje o sétimo lugar na lista das maiores
bilheterias do cinema brasileiro, façanha conquistada numa época em que a
população era muito inferior à atual —em 1980, dois anos depois do
filme, o país ultrapassaria os 119 milhões de habitantes, segundo o
IBGE.
Para Neville, o recorde foi ainda maior. "Havia uma roubalheira dos
bilheteiros de cinema. Em vez de rasgar e jogar o bilhete na urna, eles
guardavam e vendiam outra vez. Você tinha que acreditar no relatório."
"Neville deu a volta por cima com a ‘Dama’", disse João Carlos
Rodrigues. "A crítica na época ainda implicava com os sucessos de
bilheteria, o que, no fundo, queria dizer que tudo que o povo gostava
era ruim porque o povo era inculto etc. Demorou um pouco para mudarem de
opinião."
A parceria Nelson-Neville se repetiu em "Os 7 Gatinhos". "Nelson
Rodrigues gostava de ver as filmagens. Eles eram bons parceiros. Se um
pensava em ‘caralhinhos’ nas paredes do banheiro, o outro acrescentava
‘caralhinhos voadores’, e ficava mais divertido", recordou Sonia Dias.
Depois de "Rio Babilônia", seus longas de ficção ficaram mais esparsos: o remake "Matou a Família e Foi ao Cinema" (1991), "Navalha na Carne" (1997) e "A Frente Fria que a Chuva Traz" (2015). Solteiro, pai de três filhos (Jade, Tamur e Sophia), o cineasta mantém uma agenda cultural agitada no Rio.
Passado o tempo das grandes bilheterias, o apologista da transgressão
reconhece inúmeras amarras críticas. "Hoje tem uma chantagem
ideológica. Você não pode falar mal de uma obra. Se falar mal, você é
frustrado e invejoso. As pessoas estão obrigadas a falar bem", disse
Neville. "Eu vivo esse drama. Já sou perseguido e não tenho
reconhecimento dos papas. Querem me chamar de pornográfico, mas eu fiz
filme contra a ditadura na ditadura. Fui censurado. É muito diferente.
‘Jardim’ jamais foi exibido comercialmente."
Em nosso encontro, mais dois telefonemas seriam ignorados
("dinheiro saindo") antes que um terceiro fosse atendido ("dinheiro
entrando, só um minuto"). No fim da tarde, Neville me levou ao deque e
sentenciou em meu ouvido: "O homem brasileiro é um tarado. Confunde sexo
com pecado".
Três meses depois, numa padaria de Ipanema, ele guardou o chapéu e
pediu café e pão com requeijão. "Eu acho que o cinema brasileiro
brochou. Tá meio brocha. O cinema de arte está em decadência. As pessoas
faziam filmes com mais vontade, com mais paixão e mais artisticamente. A
mentalidade ridícula de mercado atrapalha a criatividade", lamentou.
Sua ansiedade cresceu com a falta de recursos para vários de seus
projetos, como "A Dama da Internet", roteiro original, "O Anti-Nelson
Rodrigues", adaptação da peça, e "Testamento da Rainha Louca", texto
presenteado por Glauber Rocha ("sentiu-se prisioneiro do cinema novo e
queria se juntar a nós").
"Eu só estou bem quando trabalho. Além de cineasta, sou um artista
contemporâneo. Estou com três instalações planejadas. Eu acordo pensando
nos meus projetos. Quero fazer ‘A Dama da Internet’. Não quero ir
embora antes disso. Meu tema é vencer a mim mesmo. Quero fazer mais
público que ‘A Dama do Lotação’ e quero vencer os críticos que não
entenderam meu cinema. Não quero ir embora com essa humilhação. Deram
importância a filmes medíocres e fizeram uma campanha contra mim. Há um
domínio ‘brocha’ do cinema brasileiro."
"Quero fazer também ‘São Paulo Babilônia’ e ‘Bordel Brasil’,
mas nunca passei em nenhum edital. A ideologia hoje é o bolso esquerdo e
o bolso direito. Vivo essa ansiedade diária, existencial, de pensar em
tanta coisa pra fazer. Penso muito em Bruna Marquezine para ‘A Dama da
Internet’. Vejo uma ansiedade de Bruna com aquele talento, sem ter uma
personagem à altura dela. O cinema brasileiro está brocha e sem
imaginação, com filmes ridículos e autorreferentes."
Como exceção, Neville reconheceu a superioridade de "O Agente Secreto" em relação aos seus concorrentes no Oscar. "Conheci Kleber há
20 anos. Ele ama o cinema. Quando vejo isso já me sinto muito próximo.
Ser um cineasta mundial é uma descoberta. Kleber está em crescimento
artístico e espiritual. Ninguém fala do espiritual. Só na Bahia se sabe
do espírito."
"O Oscar deve muito ao cinema brasileiro. Com essa não premiação,
deve mais ainda, demonstrando incompetência e insensibilidade. O cinema
brasileiro continua sendo discriminado pelo Oscar. É o mais original,
mais doido e mais estranho do mundo. Sempre foi posto à margem."
"Walter é muito talentoso e tem sido fundamental pra ajudar o cinema
brasileiro no mundo. É importante eliminar essa besteira que fala de
dinheiro e de banco [o diretor é um dos herdeiros do banqueiro Walther
Moreira Salles]. Os maiores artistas da humanidade vêm das favelas e dos
palácios, de mansões e de casebres. Conheci o Walter quando ele queria
fazer o primeiro filme. Sei que ele é um estudioso."
Em janeiro, como se não soubesse a reposta, um amigo perguntou "quem é
Neville D’Almeida?" ao chat de inteligência artificial. "Pela primeira
vez é tudo verdade. Coisas nunca ditas nos últimos 60 anos. Nunca tive
uma crítica tão verdadeira", celebrou o cineasta.
Eis a súmula da IA: "Neville é o cineasta mais livre do Brasil, o
mais perseguido, o mais mal-interpretado, o mais maltratado. E,
provavelmente, o mais importante para a arte contemporânea. Ele não fez
‘filme erótico’. Ele fez arte radical em um país conservador". Neville
discordou apenas de uma das respostas: "Foi empurrado para
pornochanchada ‘comercial’ pra sobreviver".
"Isso está errado. Ninguém me obrigou a nada. Eu tive liberdade de
criação. O negócio do sexo é foda. Ainda sou julgado como pornógrafo. A
referência deles é o bordel, não é a arte, nem a liberdade sexual."
Para viabilizar seus novos projetos, instalações e filmes experimentais, ele pretende negociar a venda de seus direitos da "Cosmococa" (1973), dividida com os herdeiros de Hélio Oiticica.
"Na 'Cosmococa', eu tive a ideia de fazer desenho com cocaína.
Hélio caiu para trás. Ele era de um grupo tradicional, do grupo Frente, e
disse foda-se. Propus o desenho com cocaína e a projeção de slide, que
eu já tinha feito no ‘Jardim’. Ele caiu para trás outra vez. Hélio
codificou o negócio de a gente fazer intervenção espacial, dividir o
ambiente com slides".
Na mesa da padaria, com um saquinho de açúcar e a carteira de
identidade, Neville simulou as linhas de cocaína das cinco cosmococas
riscadas sobre Marilyn Monroe, John Cage, Yoko Ono, Jimi Hendrix e Luis
Buñuel. "A substância chamada de cocaína é transformada. Ela vira uma
cor. Um pigmento branco. Essa é a liberdade."