July 3, 2022

O demente e o espertalhão

 Imagem: Estevam Costa/PR  

Por André Barrocal

No início da noite da terça-feira 21, Arthur Lira saiu de sua sala na Presidência da Câmara e foi ao cafezinho do plenário.

 O deputado Julio Delgado, de Minas Ge-
rais, comentou ao vê-lo: “Você vai reele-
ger o Glauber”. O sisudo Lira, para quem
“alagoano é brabo”, ficou quieto. Horas
antes, o Conselho de Ética havia engave-
tado um pedido de cassação de Lira. Pau-
lo Azi, o baiano à frente do conselho, ti -
nha inovado. Arquivara o pedido por con-
ta própria, sem designar alguém do con-
selho para examinar o caso. Agiria assim
se o alvo fosse outro? Naquele dia, os mar-
queteiros do condestável tinham levado
ao ar, em Alagoas, uma espantosa propa-
ganda televisiva segundo a qual “Arthur
Lira é foda”. O pedido de cassação parti-
ra do PSOL, o partido de Glauber Braga,
aquele, segundo Delgado, que o presiden-
te da Câmara reelegerá involuntariamen-
te. Lira e Braga haviam batido boca no ple-
nário em 31 de maio e, no dia seguinte, o
conselho recebia um pedido de cassação
do psolista. Este, Azi não engavetou. Ao
contrário, fez andar com rapidez.

 
O motivo do bate-boca foi a Petrobras,
assunto que acaba de expor mais uma vez
o poder de Lira. O presidente da estatal
demitiu-se em 20 de junho, um dia após o
deputado publicar um artigo com amea-
ças veladas aos dirigentes da companhia
e seus familiares. Na véspera da desaven-
ça com Braga, o alagoano dissera em uma
entrevista que mudar a Constituição pa-
ra privatizar a petroleira era difícil, me-
lhor seria o governo apostar numa lei de
venda de ações da empresa. A ideia da de-
sestatização à Eletrobras surgira no em-
balo dos seguintes fatos do mês de maio:
a Petrobras subira o diesel em 8%, Jair
Bolsonaro degolara o almirante Bento
Albuquerque do Ministério de Minas e
Energia, o sucessor na pasta, o economis-
ta Adolfo Sachsida, indicara outro presi-
dente para a estatal, e a companhia infor-
mara que a substituição teria de esperar
o desenrolar de certas burocracias. José
Mauro Coelho só caiu em 20 de junho,
graças à fúria de Lira.

 
“Senhor Arthur Lira, eu queria saber
se o senhor não tem vergonha”, disse Bra-
ga no plenário da Câmara em 31 de maio,
a propósito da desestatização da Petro-
bras via atalho. O alagoano cortou-lhe o
microfone e tascou: “Pelo que disse aqui,
já responderá no Conselho de Ética. Vai
responder lá”. Dito e feito: no dia seguin-
te, o PL de Bolsonaro, linha auxiliar de

Lira, incitava o Conselho contra Braga,
por quebra de decoro. O revide do PSOL
também apontou quebra de decoro de Li-
ra, em razão de uma ameaça durante o en-
trevero: “Eu usarei de medidas mais du-
ras para retirá-lo do plenário”. “Quero ver.
Vamos ver se o senhor vai me tirar daqui.”
“O senhor vai ver se eu não tiro”, dispa-
rou sinhozinho Lira. Curioso: em março,
quando o deputado Daniel Silveira, do Rio
de Janeiro, escondeu-se no plenário pa-
ra não ser pego pela Polícia Federal e foi
obrigado a usar tornozeleira eletrônica, o
alagoano dizia que a Casa era “inviolável”.
Aameaça de ser retirado por
Lira do plenário não inti-
midou Braga, que em se-
guida, da tribuna, repetiu
a pergunta da discórdia.


“O senhor não tem vergonha, não? É pe-
cado perguntar se o senhor não tem vergo-
nha? Lamentável não é a minha indigna-
ção. Lamentável é o senhor se sentir à von-
tade para, no ano de 2022, utilizar do po-
der que tem como presidente da Câmara
para entregar o patrimônio brasileiro, fin-
gindo que está fazendo um bem para a po-
pulação.” Em 20 de maio de 2021, os dois
haviam protagonizado embate parecido.
Foi na votação da privatização da Eletro-
bras. “A Câmara dos Deputados hoje tenta
deixar o Brasil de joelhos, mas esse ataque
vil, baixo, que os senhores operaram não
vai prevalecer”, dissera Braga. “Não são
dois, três, quatro, cinco ou 100 canalhas
que vão nos parar.” “Determino que reti-
re por completo a fala do deputado Glau-
ber da taquigrafia”, ordenara Lira.

 
A votação sobre a Eletrobras serve pa-
ra entender a razão de Lira ter se meti-
do tanto no tema Petrobras. O interesse
na petroleira não se explica só por seu go-
vernismo, nem pelo abacaxi que o preço
dos combustíveis se tornou para a reelei-
ção de Bolsonaro. Na lei da privatização
da empresa elétrica, a Câmara incluiu a
obrigação de a companhia construir vá-
rias usinas de energia movidas a gás natu-
ral. Obra do relator, o baiano Elmar Nas-
cimento, do União Brasil (ex-DEM). Nas-
cimento é ligadíssimo a Lira. Quando es-
te se elegeu para comandar a Câmara, em
fevereiro de 2021, o baiano liderou a trai-
ção do DEM ao concorrente que o então
presidente da Casa, Rodrigo Maia, ain-
da no partido, apoiava, Baleia Rossi, do
MDB. Um dos primeiros nomes do ex-
-DEM a pular no barco de Lira na época
foi Azi, hoje à frente do Conselho de Ética.


A ampliação da rede de térmicas, pro-
posta na contramão de qualquer preocu-
pação ambiental, foi feita na medida para
Carlos Suarez, o “S” da empreiteira OAS.
O empresário possui interesses na área
de gás. É dono da distribuidoraTermogás
e de autorizações para construir gasodu-
tos. A rede de térmicas dificilmente sai-
rá do papel sem a Petrobras bancar os ga-
sodutos. Quando Bolsonaro decidiu sacar
o general Joaquim Silva e Luna da dire-
ção da estatal, há três meses, Lira quis
emplacar um apadrinhado na vaga. Era
Adriano Pires, lobista do setor de petróleo
e gás que prestara consultoria a Suarez.
Seu passado de lobista e os elos com o em-
presário pesaram na má vontade do con-
selho de administração da petroleira. An-
tes de ver sua indicação vetada pelo co-
legiado, Pires renunciou à candidatura.

 
Lira ficou uma fera com a derrota,
particularmente com os 11 integrantes
do conselho, dos quais seis são designa-
dos pelo governo. “A compliance monta-
da pela Petrobras não vai permitir que
ela trabalhe em prol do povo brasileiro.
Pergunte a eles qual o cheiro do gás”. Na
época, falou pela primeira vez em mexer
na Lei das Estatais. Esta é de 2016, apro-
vada em clima de Operação Lava Jato e
impeachment de Dilma Rousseff. Cria di-
ficuldades para o governo nomear diri-
gentes de estatais, ao exigir comprova-
ção de trabalho ou de estudos no ramo
da empresa. Lira voltou ao tema na cri-
se que culminou na queda de Coelho, o
escolhido para dirigir a empresa após Pi-
res desistir. O deputado sugeriu a Bolso-
naro baixar uma medida provisória para
modificar a Lei das Estatais. De olho nu-

maa volta ao poder com Lula, a presidente
do PT, Gleisi Hoffmann, apoia. Para ela,
a lei “criminaliza a política”.

 
Lira também quer uma MP para co-
brar mais impostos da Petrobras e uma
CPI para emparedar a empresa, ideia
apoiada pelo presidente. É uma reação à
decisão da companhia de elevar em 14%
o preço do diesel e em 5% o da gasolina.
Para um deputado, o alagoano agiu com
o fígado por ter se sentido desmoraliza-
do. A Câmara alterou o ICMS estadual
para atenuar o preço dos combustíveis,
e o esforço foi anulado pelo reajuste da
Petrobras. Logo após o anúncio do no-
vo aumento, em 16 de junho, Lira clas-
sificou em um tuíte a petroleira como
“inimiga do Brasil” e pediu a cabeça de
Coelho, de aviso prévio havia uma sema-
na. Na véspera da demissão, o deputado
escrevera na Folha de S. Paulo que era
preciso conhecer a Petrobras. “Quanto
gastam seus diretores em suas viagens?
Quanto custam suas hospedagens? No
exterior ficam onde? Em que carro an-
dam? Quem paga seus almoços e janta-
res? Alugam carros? Aviões? Helicópte-
ros? Há excessos? De onde vieram? Co-
mo constituíram seus patrimônios? Seus
parentes: investem onde e são ligados a
quem?”. Don Corleone ficaria orgulhoso.
Idem um certo ex-presidente da Câmara.


“Arthur Lira é quase tão truculento
quanto o Eduardo Cunha. A mudança
no regimento da Câmara acabou com o
debate. Ele mudou as regras no meio do
jogo”, afirma o deputado Ivan Valente, do
PSOL paulista. A mudança em questão
é de maio do ano passado, com três me-
ses de gestão Lira, e reduziu as possibili-
dades de a oposição atrapalhar uma vo-
tação. A privatização da Eletrobras foi a
voto na semana posterior. “O viés auto-
ritário do Lira é o mesmo do Cunha. Só
que o Lira é mais perigoso. Sinto que há
um clima geral de medo em relação a ele”,
afirma Braga. “Ele tem um poder que ne-
nhum outro presidente da Câmara teve,
o orçamento secreto.”
Lira é herdeiro e continu-
ador do projeto de poder
de Cunha. Um projeto que
pode ser resumido assim:
mandar no Brasil a partir
da Câmara, sem precisar de milhões de
votos para chegar ao Palácio do Planalto.
Quando Cunha ascendeu ao comando da
Casa, em 2015, colocou Lira à frente da
comissão mais importante, a de Consti-
tuição e Justiça. Na CCJ, o alagoano ten-
tou salvar a pele do aliado, cassado em se-
tembro de 2016 por mentir a colegas so-
bre possuir contas no exterior. Menti-
ra contada, aliás, em uma CPI da Petro-
bras. Antes da queda, Cunha aprovara a
proibição de o governo bloquear dinhei-
ro das emendas parlamentares indivi-
duais e botara para andar a proibição à
suspensão das emendas coletivas, que
viraria norma em 2019. Com essas duas
proibições mais o orçamento secreto, a
Câmara adquiriu força inédita, desfru-
tada por Lira, o chefe do “Centrão”.

 
Cunha vai tentar uma vaga de deputa-
do federal pelo PTB de São Paulo e tem
dito que apoia a reeleição de Lira ao co-
mando da Câmara. No Congresso, co-
menta-se que o alagoano reservou par-
te do orçamento secreto para liberar de-
pois de outubro e usar os recursos para
arrancar dos deputados o compromis-
so de sua reeleição. O orçamento secre-
to é a garantia de que muito parlamen-
 

tar de hoje renovará o mandato. Daí Li-
ra ter dito, em 10 de maio, em Nova York:
“O Congresso que for eleito em outubro,
eu não tenho dúvidas, será um Congres-
so de centro-direita”. “Lira é primeiro-
-ministro. Para escapar doimpeachment,
Bolsonaro entregou o orçamento e a ar-
ticulação política para o Centrão. O (mi-
nistro) Ciro Nogueira faz isso do gover-
no, o Lira faz na Câmara. Por isso, o Lira
defende o semipresidencialismo”, afir-
ma o deputado paulista Paulo Teixeira,
secretário-geral do PT.
Semipresidencialismo é parla-
mentarismo com outro nome.
Lira prepara essa bomba pa-
ra estourar no próximo gover-
no. Em março, criou um gru-
po de trabalho sobre o assunto. Indicou
uma única deputada da oposição, Alice
Portugal, do PCdoB da Bahia. E ela não
aceitou o encargo: “Debate extemporâ-
neo”. “Ele (Lira) já quer tirar o poder do
presidente para que o poder fique na Câ-
mara dos Deputados e ele aja como se fos-
se o imperador do Japão”, disse Lula em
maio, quando o partido Solidariedade de-
clarou-lhe apoio eleitoral. O petista tem
criticado Lira de forma dura. Em março,
comentou: por causa do orçamento secre-
to, o alagoano manda mais do que Ulysses
Guimarães quando este, nos anos 1980,
presidia a Câmara e a Assembleia Cons-
tituinte ao mesmo tempo. Em abril, cha-
mou o orçamento secreto de “excrescên-
cia”. E Lira? “O presidente Lula não tem
o que falar sobre o deputado Arthur Lira
porque ele não me conhece. Nunca con-
versou comigo, nunca tomou um café. Eu
nunca bati um papo, nunca tive o prazer
ou desprazer de estar com ele.”

 
Lula esteve em Alagoas em 17 de ju-
nho, em ato público com o grupo político
de Renan Calheiros, licenciado do Sena-
do desde o início do mês para mergulhar
na campanha local, disputa feroz contra
o grupo de Lira. Ao recepcioná-lo no ae-
roporto, o senador licenciado contou ao
petista que uma pesquisa nas 20 maio-
res cidades alagoanas aponta incríveis
50% de intenção de voto espontâneo no
ex-presidente. Alagoas terá uma das elei-
ções mais nacionalizadas do ano. Lula e
Calheiros de um lado, Bolsonaro e Li-
ra de outro. “O processo político nacio-
nal tem mostrado um número cada vez
maior de afinidades entre eles. O presi-
dente da Câmara tem assumido ares ab-
solutamente autoritários”, diz Calheiros.
“Ele se beneficia muito do orçamento se-
creto e sobrevive na eleição proporcio-
nal, mas é acostumado a perder as elei-
ções majoritárias em Alagoas.”

 
Lira quer tomar de Calheiros o poder
no estado. Em maio, os dois brigaram na
Justiça por causa da eleição indireta pa-
ra govenador. Renan Filho (de Calheiros)
deixara o governo em abril para concor-
rer ao Senado, seu vice fizera o mesmo em
2020 para eleger-se prefeito deArapiraca,
a segunda maior cidade de Alagoas, daí
que o presidente do Tribunal de Justiça
tornou-se governador interino até uma
eleição indireta na Assembleia Legislati-

va. O favorito na indireta era Paulo Dan-
tas, então deputado estadual pelo MDB de
Calheiros. Na briga judicial, Lira valeu-se
do PSB, partido do vice de Lula, Geraldo
Alckmin, e do prefeito de Maceió, João
Henrique Caldas. O prefeito é linha au-
xiliar de Lira. Também ajudou o presiden-
te da Câmara a tentar impedir nos tribu-
nais que Renan Filho conseguisse recur-
sos com leilões de obras de saneamento,
um total de 3,6 bilhões entre 2020 e 2021.


Durante a briga judicial sobre a elei-
ção indireta, Lira trocou agressões pú-
blicas com Calheiros. O impasse termi-
nou com a derrota do deputado e a eleição
indireta de Dantas, graças a uma decisão
de Gilmar Mendes, do Supremo Tribu -
nal Federal. O juiz acaba de completar 20
anos de corte e, na quarta-feira 22, jan-
tou com Bolsonaro na casa de Lira. No
STF, há quem sinta que Lira tornou-se
“bolsonarizado” demais e sem disposi-
ção para defender a corte dos ataques do
capitão, depois de o tribunal tê-lo livra-
do, há quatro meses, de um processo por
corrupção. Ainda há outro processo pe-
la mesma acusação contra Lira no tribu-
nal, parado desde 2019. A propósito: Lira
é ficha suja, condenado em 2016 no Tri-
bunal de Justiça de Alagoas por ter usa-
do verba de deputado estadual para pa-
gar empréstimo no Banco Rural. Só con-
seguiu concorrer na eleição de 2018 gra-
ças a uma liminar do próprio TJ.


“Criminosos como você são imunes
aos remédios das leis alagoanas”, tuitou
sobre Lira a ex-mulher, Jullyene Lins,
em 23 de maio. Às vésperas da eleição
do deputado para o comando da Câma-
ra, Jullyene havia dito à Folha: “Ele me
agrediu, me desferiu murro, soco, ponta-
pé, me esganou”. A agressão teria sido em
2006, um ano antes da separação do ca-
sal. O comentário recente de Jullyene foi
feito após o deputado tuitar que Calhei-
ros deveria ler o livro Mente Criminosa.
Diante da prisão de Milton Ribeiro, ex-
-ministro da Educação, na quarta-fei-
ra 22, Lira foi fustigado pelo rival. Se-
gundo Calheiros, a Polícia Federal sa-
be quem “roubou” o MEC e “chegará ao
kit robótica”. O kit é um rolo que atinge
Lira. Em abril, a mesma Folha noticiou
que a firma de uma família amiga de Lira,
a Megalic, vendia em Alagoas, com ágio
de até 420%, computadores para escolas
públicas, compra bancada com verba do
orçamento secreto, retirada do Fundo
Nacional de Desenvolvimento da Edu-
cação, controlado pelo PP de Lira.
Ribeiro foi preso por suas
relações com pastores
propineiros. Lira se dá
bem com evangélicos.
Em dezembro de 2021, ti-
rou da gaveta um projeto que dava isenção
de IPTU e, numa noite só, aprovou-o duas
vezes em plenário. Em troca, queria apoio
da bancada da bíblia para a lei dos jogos
de azar. Em 26 de maio, foi aGoiânia, pa-
ra uma Convenção Nacional das Assem-
bleias de Deus, ramo Madureira. O pa-
trono da igreja, o bispo Manoel Ferreira,
é natural da alagoana Arapiraca. Um
de seus filhos, Samuel, é o atual líder da
igreja. Em Goiânia, Samuel deu um reca-
do ao chefe da igreja em Alagoas, Jaques
Balbino: “Esse (Lira) é o seu candidato.
Cumprimenta o homem”.


Em 2015, a Procuradoria-Geral da
República acusou o evangélico Eduardo
Cunha de receber 250 mil reais em pro-
pina por meio da Assembleia de Deus
ramo Madureira. “O diretor da referi-
da Igreja perante a Receita Federal é
Samuel Cássio Ferreira, irmão de Abner
Ferreira, pastor da Igreja Assembleia de
Deus Madureira, no Rio de Janeiro, que o
denunciado (Cunha) frequenta”, descre-
via a denúncia. Imagine-se a comunhão
de interesses que haverá caso Cunha
volte a ser deputado e reeencontre Lira
na Câmara. “Presenças deletérias”, diz
Calheiros. Será um deus nos acuda.


CARTA CAPITAL 

 



 

Soberania à prova

 


Jaques Wagner..

A independência do
Brasil foi conquistada,
de fato, em 2 de julho de
1823, quando os baianos
expulsaram o
s portugueses
de Salvador. Em 2 de
outubro, temos a chance
de repetir o feito no voto

Estamos nos aproximando de
mais uma celebração do 2 de Ju-
lho, a maior data da Bahia e o epi-
sódio da nossa história que marca a ver-
dadeira independência do Brasil. Após
dois anos sem celebrações, por conta da
pandemia, este ano finalmente voltare-
mos a realizar o tradicional cortejo, que
além de ser parte fundamental da nossa
cultura, nos permite revisitar a própria
história. Enfim, ocuparemos as ruas, ca-
minhando da Lapinha ao Campo Gran-
de, homenageando heróis e heroínas.

Nada mais oportuno, portanto, do que
contarmos, neste dia tão importante, com
a presença daquele que melhor simboliza a
volta da prosperidade e da esperança. Nes-
te 2 de julho estaremos com Lula na Bahia,
não só comemorando conquistas do pas-
sado, mas também para olhar para o futu-
ro e fortalecer a luta para reconstruir um
País que volte a garantir dignidade à nossa
gente, sobretudo aos que mais precisam.

O 2 de Julho é um episódio que se ca-
racteriza pelo sentimento emancipador
do povo baiano e é também o momen-
to onde consagramos definitivamente
o Brasil como protagonista de seu pró-
prio destino. Se mesmo após dez meses
daquele tão aclamado grito de Dom Pe-
dro às margens do Ipiranga, no 7 de se-
tembro, um pedaço do País ainda lutava
para superar sua condição de colônia, en-
tão, é fato notório que o Brasil ainda não
estava totalmente independente.

É preciso reconhecer que a real
independência da Bahia e do Brasil só foi
assegurada a partir de Cachoeira, em 25
de junho de 1822. Há exatos 200 anos,
enquanto Salvador estava sitiada por
tropas portuguesas e submetida à ditadura
do general Madeira de Melo, o povo e
a Câmara de Cachoeira se insurgiram
contra Portugal, conclamando as vilas
do Recôncavo e, depois, as vilas do Sertão
para formarem o Conselho Interino de
Governo da Província da Bahia.

É fundamental reconhecermos que
sem o 25 de junho não existiria o 2 de
julho. Sem brasileiros dispostos à luta
no Recôncavo Baiano não teríamos um
Brasil unificado hoje. Por esse motivo
que, a partir de 2007, no meu primeiro
ano como governador da Bahia, instituí-
mos uma lei transferindo oficialmente a
sede do governo estadual para Cachoei-
ra todo dia 25 de junho. Um ato simbóli-
co, que passamos a repetir anualmente,
em justo reconhecimento a esta que fi-
cou conhecida como a “Cidade Heroica”.

Nesse mesmo sentido, tenho orgulho
de ter sido o governador que sancionou,
em 2010, a lei que instituiu o Hino ao 2 de
Julho como o oficial da Bahia. Composi-
ção que em sua letra faz alusão às bata-
lhas de Cabrito e de Pirajá as quais, com
o sangue baiano, foram fundamentais pa-
ra que conseguíssemos avançar na con-
solidação da verdadeira independência.
Além disso, temos aqui no nosso es-
tado outro hino igualmente importante
para a população, que é o Hino ao Senhor
do Bonfim. Para além de sua dimensão
religiosa, é curioso o fato de que ele foi
composto justamente para celebrar o
centenário do 2 de Julho, em 1923. Tan-
to é que, numa das suas passagens, a le-
tra diz: “nossos pais conduziste à vitória
pelos mares e campos baianos”.

Tudo isso integra nosso desafio de tor-
nar esta data reconhecida nacionalmen-
te. A história prova e ensina que foi na
Bahia, com a vitória do nosso Exército
e nossa Marinha, que consolidamos em
definitivo a separação política do Brasil
de Portugal. Ainda assim, a verdade é
que, fora da Bahia, a data e os eventos a
ela relacionados, bem como a própria co-
nexão entre o movimento baiano e a li-
bertação definitiva do Brasil, não pos-
suem merecido reconhecimento.

Por isso, quero aqui relembrar e home-
nagear os milhares de cidadãos baianos
e brasileiros, homens e mulheres de to-
das as classes sociais da Bahia, negros,
indígenas e mestiços que fizeram histó-
ria ao lado das Forças Armadas e de he-
róis como João das Botas, Maria Quité-
ria, Joana Angélica e Maria Felipa. Eter-
na gratidão aos irmãos e irmãs que com-
bateram bravamente e nos deixaram co-
mo legado a firme busca por soberania.
Num cenário hoje marcado por um go-
verno que flerta diariamente com o au-
toritarismo, que persegue seus adversá-
rios, que liquida nosso patrimônio para
destruir a soberania nacional e que ataca
sistematicamente a democracia, é funda-
mental resgatarmos a inspiração neces-
sária para seguirmos lutando e resistin-
do. Não há, portanto, exemplo melhor pa-
ra isso do que o próprio Hino ao 2 de Julho,
que num dos seus versos nos diz que “nun-
ca mais o despotismo regerá nossas ações”.

É com este sentimento e com essa
certeza que chegaremos ao dia 2, não o
de julho, mas o de outubro. Dia em que,
com o nosso voto, faremos ecoar um novo
grito de independência. •



Cidade baiana afrontou portugueses, resistiu a canhões e foi 1ª capital da 'Bahia brasileira'




CACHOEIRA (BA)

Uma escuna militar com 26 marinheiros portugueses estava fundeada no rio Paraguaçu, principal rota fluvial entre o Recôncavo baiano e a Baía de Todos os Santos, com os canhões apontados para a Vila de Cachoeira.

As ameaças não dissuadiram os principais líderes políticos da vila, que em junho de 1822 decidiram afrontar os portugueses e a aclamar Dom Pedro de Alcântara como "regente constitucional e defensor perpétuo do Brasil". A retaliação não tardou e a vila foi alvejada por uma saraivada de tiros e balas de canhão.

O episódio, que neste sábado (25) completa 200 anos, marcou o início de uma "Bahia brasileira" e desencadeou a guerra pela Independência no estado, que opôs os portugueses e os nascidos no Brasil em uma série de batalhas que acabaram com a vitória brasileira em 2 de julho de 1823.

"Cachoeira foi a primeira capital brasileira da Bahia. Enquanto Salvador ainda era uma capital portuguesa e submetida a Lisboa, Cachoeira formou um conselho interino que passou a governar a província", afirma o historiador Sérgio Guerra Filho, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

A aclamação de Dom Pedro respondia a uma consulta feita pelos deputados que representavam a Bahia nas cortes de Lisboa. O documento chegou com atraso ao Brasil e, por isso, "estava muitos graus abaixo da temperatura política na Bahia", como aponta historiador Luís Henrique Dias Tavares (1926-2020).

O ponto de ebulição foi atingido em fevereiro, quando o brigadeiro português Inácio Luís Madeira de Melo virou governador em armas da Bahia sob forte resistência. Um levante foi sufocado pelas tropas portuguesas, que assassinaram a abadessa Joana Angélica no Convento da Lapa.

O triunfo português em Salvador fez com que os revoltosos buscassem abrigo no Recôncavo baiano, onde começaram a organizar uma resistência ao comando português na província.

O período entre fevereiro e junho de 1822 foi marcado por articulações políticas, pela defesa de um centro de Poder Executivo no Brasil liderado por D. Pedro e pela compra de armas, munição e pólvora.

Por isso, quando a canhoneira portuguesa aportou no rio Paraguaçu, trancando a entrada e saída de embarcações do porto de Cachoeira, os brasileiros estavam preparados para resistir.

A aclamação a D. Pedro na Câmara Municipal foi comemorada em uma missa em ação de graças na Igreja Matriz de Cachoeira, em celebração conhecida como Te Deum. Ao fim da cerimônia religiosa, foram disparados os primeiros tiros.

Além das balas de canhão que vieram da escuna, portugueses que moravam na cidade também reagiram, entrincheirados, com tiros de armas de fogo contra aqueles que celebravam a insurreição nas ruas e praças de Cachoeira.

Um dos atingidos foi Manoel Soledade, personagem cuja participação na batalha ainda hoje é um mistério. Na versão mítica, eternizada em 1931 no quadro do artista Antônio Parreiras (abaixo), Manoel teria seria o responsável pelo toque do tambor das tropas brasileiras e tombou sob o instrumento.

O historiador cachoeirano Cacau Nascimento diz que não foi bem assim: "Manoel Soledade era um intelectual negro, uma figura influente. Ele recebeu um tiro após sair da missa e ficou ferido, mas não teve participação militar nas batalhas."

Quadro de 1931 do artista plástico Antônio Parreiras retrata os episódios de 25 de junho de 1822 em Cachoeira, na Bahia. No canto inferior direito, está a figura de Manoel Soledade - Rafael Martins / Folhapress

Os brasileiros reagiram para tentar neutralizar o ataque das forças portuguesas e instauraram uma Junta Interina Conciliatória e Defesa, embrião do que a partir de setembro se consolidaria em um governo paralelo da Bahia.

O clima de guerra instaurou-se na vila. A embarcação portuguesa seguiu atacando de forma violenta, atingindo edificações de Cachoeira.

A escuna canhoneira foi tomada apenas em 28 de junho, quando uma bandeira branca subiu na embarcação após ser cercada por uma flotilha improvisada com canoas e saveiros. Capitão e marujos foram presos e enviados à cadeia pública de Inhambupe, vila do sertão baiano.

A Junta de Defesa recebeu adesões de Santo Amaro e São Francisco do Conde e passou a ter pretensões mais amplas: governar a província e preparar a tomada de Salvador, ainda sob jugo português.

A escolha de Cachoeira como centro da resistência foi natural. A vila era estratégica por causa do porto, que escoava a produção de fumo, couro e algodão. Tinha na época cerca de 20 engenhos de cana-de-açúcar que se mantinham com a força de trabalho escravo.

O enfrentamento aos portugueses uniu comerciantes, coronéis, proprietários de terra e donos de engenho, que escalaram escravizados para formar parte das tropas que partiriam para cercar a capital.

"Foram vários grupos que se unificaram para a resistência. Mesmo com interesses conflitantes, eles se uniram em torno de um Brasil livre", afirma Luís Antônio Costa Araújo, historiador e provedor da Santa Casa de Misericórdia de Cachoeira.

O interesse por maior autonomia se transformou em um nacionalismo que levou parte dos líderes a trocar sobrenomes lusitanos por outros com referências nativas, como Baiense, Baitinga, Morici, Baraúna, Pitombo, Tanajura, Gê Acaiaba e Dendê Bus.

Entre junho e outubro de 1822, foram criados em Cachoeira batalhões patrióticos, formados principalmente por brancos pobres, negros libertos e negros escravizados enviados pelos seus senhores.

Entre eles, estavam a Companhia dos Caçadores de Santo Amaro, os Voluntários da Vila de São Francisco e os Voluntários do Príncipe Dom Pedro, cujos soldados ficaram conhecidos como "periquitos" pelo fardamento verde.

Foi deste batalhão que participou uma das principais heroínas da guerra: Maria Quitéria de Jesus, uma jovem e exímia atiradora que se disfarçou de homem para ser aceita no batalhão.

Proibida pelo pai de se alistar no batalhão, ela vestiu um uniforme do cunhado, cortou seus cabelos e se apresentou como um homem sob a alcunha de "soldado Medeiros". Mesmo depois de descoberta mulher, permaneceu no batalhão e lutou nas batalhas em Salvador e na foz do rio Paraguaçu.

O reforço oficial viria nos meses seguintes, quando o Exército Pacificador partiu do Rio de Janeiro com armamentos, 38 oficiais e 260 soldados para reforçar as tropas que conquistariam Salvador em 2 de julho de 1823.

Depois de 200 anos, os filhos da terra lutam para preservar o legado da resistência cachoeirense, seja pela exaltação ao passado de "cidade heroica", seja pelas tradições dos descendentes de quilombos, inviabilizados ao longo dos últimos dois séculos

Neste 25 de junho, como acontece desde 2007, Cachoeira passa a ser a capital da Bahia por um dia. Por mais um ano, a cidade vai exaltar a figura do caboclo, que representa a participação popular nas batalhas contra os portugueses, com desfile cívico, sambas de roda e saudações nos terreiros de Candomblé.

"O desafio é manter a tradição. Houve uma carnavalização da data, que cai em meio aos festejos de São João. A data passou a ser uma coisa mais festiva e menos cívica", explica o escritor e artista plástico Davi Rodrigues, que tem nas tradições populares de Cachoeira o centro de seu trabalho.

Outro desafio é enfrentar a ruína econômica de uma cidade que saiu do apogeu no século 19, quando ganhou uma ponte de ferro sobre o rio Paraguaçu, ao declínio no século 20, com a derrocada do porto, da ferrovia, da indústria do fumo e dos engenhos de açúcar.

Estagnada com cerca de 30 mil habitantes, caiu de 2ª maior cidade baiana para o 83º município em população do estado.

Mitigar as desigualdades sociais e raciais são um desafio ainda maior em uma cidade com mais 80% da população negra, boa parte dela pobre. Foi só em 2020 que a cidade deu um passo na representatividade e elegeu sua primeira prefeita negra em 490 anos de história.

Para Luís Antônio Costa Araújo, a cidade heroica de Cachoeira —que com seu casario histórico é considerada Patrimônio Cultural Brasileiro— deve trabalhar para fazer do seu legado o ponto de partida para transformação econômica e social: "Isso aqui é um lugar sagrado".


FOLHA

 

July 2, 2022

Independência na Bahia eclodiu com levante sufocado e madre assassinada



Os tiros irrompiam contra o Forte de São Pedro, fortificação encravada na região central de Salvador, na madrugada de 19 de fevereiro de 1822.

A cidade amanheceu com o avanço das tropas portuguesas, que também atacaram os quartéis da Palma e da Mouraria, onde estavam os militares nascidos no Brasil, naquela época parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

A ofensiva marcou o início da guerra pela Independência do Brasil na Bahia, que chega aos 200 anos ocupando raras páginas nos livros didáticos, mas com memória viva e marcas profundas em Salvador e em cidades do Recôncavo Baiano, onde as batalhas se desenrolaram.

O conflito armado, que só se encerrou após 16 meses com o triunfo das tropas brasileiras em 2 de julho de 1823, deixou um saldo de centenas de mortos e teve um papel decisivo na manutenção da unidade nacional, junto com as disputas contra portugueses em províncias como Pará, Maranhão e Piauí.

parque com enorme estátua de bronze de homem indígena segurando uma lança
Monumento em homenagem ao 2 de Julho no Parque Campo Grande, em Salvador (BA) - Rafael Martins/Folhapress

As primeiras batalhas na Bahia eclodiram com a escalada das animosidades entre os portugueses e brasileiros. Deliberações das Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa e do governo dom João 6º foram o ponto de partida do conflito.

Além de exigir o retorno do Brasil à condição de colônia, o retorno de dom Pedro 1º a Portugal e a retomada das restrições ao comércio suspensas com a abertura dos portos, nomearam militares portugueses como novos governadores de armas das províncias brasileiras.

Na Bahia, foi indicado para o posto o tenente-coronel português Inácio Luís Madeira de Melo, alçado à patente de brigadeiro, que substituiria o brigadeiro Manuel Pedro de Freitas Guimarães, nascido no Brasil. A Carta Régia com a nomeação chegou ao Brasil no dia 15 de fevereiro de 1822.

"Com essa nomeação, as tropas se dividiram entre os nascidos na Bahia e os nascidos em Portugal. Essas tropas se aquartelaram em fortificações de Salvador e foram às vias de fato nas ruas da cidade", explica o historiador Sérgio Guerra Filho, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Naquela época, os batalhões eram separados de acordo com as origens dos militares. Assim, havia tropas de brancos, de pardos e de pretos, que tomaram caminhos distintos nas batalhas da Independência.

O levante das tropas de militares, milicianos e civis nascidos no Brasil acabou sendo sufocado em fevereiro de 1822 pelos portugueses, que mantinham um grande efetivo militar em Salvador, além de melhores armamentos.

"A Bahia, até por ter sido capital, tinha um grande contingente de tropas portuguesas", diz a historiadora Antonietta D’Aguiar Nunes, associada do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, que diz ver as guerras em 1822 e 1823 na Bahia com um movimento de expulsão dos portugueses em um Brasil independente já consolidado.

Mas entre os primeiros tiros e a rendição, um cenário de guerra tomou as ruas de Salvador, com a ocupação de fortes, quartéis e trocas de tiros.

No amanhecer de 19 de fevereiro, militares portugueses invadiram o Convento Nossa Senhora da Conceição da Lapa, pois suspeitavam que rebeldes brasileiros se escondiam no local, cuja torre proporciona uma visão privilegiada da cidade.

E foi esta invasão que desencadeou um dos episódios mais marcantes da guerra da Independência na Bahia, o assassinato da abadessa Joana Angélica, aos 60 anos.

Joana Angélica entrou para o noviciado aos 20 anos e viveu as quatro décadas seguintes enclausurada no Convento da Lapa, então ligado à Ordem da Imaculada Conceição. Foi escrivã, mestre de noviças, conselheira e vigária, até que chegou ao posto de abadessa.

Na manhã de 19 de fevereiro, os soldados portugueses invadiram o convento e agrediram o capelão Daniel Lisboa, que tombou desmaiado.

Ao forçarem o portão para invadir o claustro, depararam-se com Joana Angélica, que com os braços abertos e segurando um crucifixo tentou impedir a entrada dos militares. Morreu atingida por golpes de baioneta.

"Na fé católica, ela é uma mártir porque deu a vida para manter a sacralidade do convento. Do ponto de vista histórico, sua morte reforçou o apoio dos baianos contra o jugo português", explica José Trindade Lage, diretor da Fundação Dom Avelar, entidade ligada à Arquidiocese de Salvador.

O assassinato de Joana Angélica causou comoção na Bahia e consolidou uma imagem de crueldade em relação às tropas portuguesas. O comandante Inácio Luís Madeira de Melo passou a ser conhecido como "malvado Madeira".

A vitória e a ocupação militar dos portugueses se consolidaram quando os rebeldes brasileiros fugiram para o Recôncavo baiano, onde implantaram um governo paralelo em Cachoeira (120 km de Salvador) e começaram a organizar a resistência e a retomada da capital.

Foi apenas o primeiro passo de uma guerra que durou 16 meses, perpassando o 7 de Setembro, quando a independência foi proclamada por dom Pedro 1º. O que começou como uma disputa em torno do comando militar da província encontrou terreno fértil na sociedade baiana.

A historiadora Patrícia Valim, professora da Universidade Federal da Bahia e que atua em cooperação técnica com a Universidade Federal de Ouro Preto (MG), avalia a época das guerras da Independência nas províncias como um período em que estavam em disputa diferentes projetos de Brasil.

"Tínhamos projetos muito avançados de nação, sobretudo pensado pelas províncias dos chamados atualmente Norte e Nordeste, que foram violentamente derrotados. A Bahia e as demais províncias elaboram projetos extremamente interessantes e vanguardistas para a época", afirma.

O avanço das ideias de vanguarda, contudo, esbarrou na aliança entre os rebeldes brasileiros com os donos de engenhos do Recôncavo, cujo modelo de produção se baseava no trabalho escravo.

Como aponta o historiador Luís Henrique Dias Tavares (1926-2020), proprietários de terras, escravos, engenhos e currais de gado viviam achacados pelos juros de comerciantes portugueses e ficaram ao lado dos brasileiros.

Daí que as primeiras discussões entre os nascidos na Bahia não giravam em torno da Independência, mas sim acerca da manutenção do Brasil na condição de Reino Unido. Para Dias Tavares, era um arranjo que priorizava a manutenção do tráfico negreiro e do sistema de trabalho escravo.

Esse arranjo fez com que os baianos aderissem em 1823 ao projeto de Independência capitaneado por dom Pedro 1º, que ajudou na consolidação da derrota dos portugueses com o envio de reforços às tropas que lutavam na Bahia.

Sérgio Guerra Filho destaca o caráter conservador da Independência, que manteve uma monarquia, a escravidão, o modelo de latifúndio e o exercício da política como um privilégio dos grandes proprietários de terras e escravos.

"A guerra da Bahia tem esse paradoxo. Ela só foi possível com esse grande contingente popular. Mas essas pessoas ficaram a ver navios e não lograram grande parte dos seus anseios de liberdade e melhores condições de vida", afirma.

Mesmo assim, o caráter popular da guerra se manteve vivo por meio da construção da mitologia em torno do 2 de julho. Figuras como o caboclo e cabocla, que simbolizam a presença de negros índios das lutas da Independência, reafirmam o protagonismo popular.

Por meio destes mitos e símbolos, este período histórico ainda hoje mantém marcas profundas na Bahia. O Cortejo do 2 de julho se consolidou como uma das maiores manifestações cívico-populares do país, com a população tomando as ruas do centro histórico de Salvador.

Personagens centrais da guerra como Maria Quitéria, Lord Cochrane e General Labatut dão nomes a ruas, bairros são retratados em monumentos na cidade.

A abadessa Joana Angélica é cultuada tanto por católicos quanto por espíritas. Estes últimos veem a abadessa como uma das reencarnações de mentora espiritual Joanna de Ângelis.

Entre os católicos, Joana Angélica é vista como uma mártir. É cultuada por fiéis que fazem preces e pedidos de fiéis que visitam o seu mausoléu no Convento da Lapa: "As pessoas enxergam uma santidade nela", diz José Trindade Lage.

A Igreja, contudo, ainda não encontrou um patrono para custear os processos que dão início à beatificação Joana Angélica.

Historiadores, por sua vez, trabalham para aprofundar as pesquisas sobre as batalhas da independência e dar maior visibilidade aos conflitos armados que deixaram centenas de mortos nas regiões Norte e Nordeste.

Para a professora Patrícia Valim, diante de todas as lutas que aconteceram nas províncias do Norte e Nordeste, o 7 de Setembro deve ser encarado como a primeira grande derrota do Estado brasileiro.

"Nós perdemos. O Estado que sai daí é um estado autoritário, centralizador, escravista e sudestino, com interesse nas regiões de São Paulo e Rio de Janeiro. E não é por acaso que a gente se debate com isso até hoje. Essa história continua à margem da história nacional".


folha 


 

July 1, 2022

Palaces of Shelter

 

 

 

Stephen Daker

IN EARLY MARCH 2022, anonymous antiwar activists 
flyposted the Moscow Metro with maps of the metro 
systems of Kyiv and Kharkiv, two Ukrainian cities then 
being shelled by the Russian army. The posters featured 
texts below the maps reminding Moscow transit riders 
that, at this precise moment, men, women, and children 
were sleeping in the metros of these two cities in order 
to take shelter from Russian artillery. Beneath that was 
the slogan “NO WAR.” 
 
The gesture of these activists was a reminder of the 
solidarity that once built all three of these metro sys-
tems, each of which was constructed according to the 
same extraordinarily high standards, based on the pre-
cept that public transit architecture should be more 
than just a rudimentary way of helping people get from 
point A to point B, instead serving as “palaces for 
the pZeople.”
 
The Moscow Metro gets all the attention — a Stalinist 
monument loved by many who hate literally everything 
else about Stalinism. From the opening of its first line 
in 1935 to its most recent extensions, the Russian cap-
ital’s subway has been celebrated not just for its 
reliability — in a context where things working properly 
is often hard to find — but for its spectacular architec-
ture. Metro architects like the Kharkiv-born Alexey 
Dushkin combined constructivism, classicism, and the 
architecture of ancient Egypt to create grandiose, 
haunting underground cathedrals. But admiring
Moscow is only scraping the surface 
of the Soviet underground. Sixteen 
metro systems were constructed in the 
USSR, four of them in Ukraine — exten-
sive networks in Kyiv and Kharkiv, with 
mini systems in Dnipro and Kryvyi Rih. 
All four are architecturally flamboyant 
and built incredibly deep under-
ground — so deep that the stations can 
serve as bomb shelters if needed. This 
hadn’t happened to any of these systems 
except Moscow during the Great Patri-
otic War. Until now, that is.
 
The Kyiv Metro was the USSR’s third after Moscow 
and Saint Petersburg, with the first line complete 
in 1960, during the Khrushchev Thaw — it was the 
first system to have been built “clean,” without 
Gulag labor. Its earliest stations combined 
the decorativeness of Moscow with light, 
optimistic, modern ideas. There are grot-
toes like Universytet station, with its red 
marble walls, boasting niches with busts 
of scientific and cultural luminaries like 
Dmitri Mendeleev and Ivan Franko, and 
there are also concrete hangars like Dnipro 
station, on a bridge overlooked by statues 
of a man holding Sputnik aloft and a woman 
letting doves of peace fly free. Kyiv’s sta-
tions were mostly extremely deep, with 
Arsenalna still the deepest in the world at 
105.5 meters below ground; it was com-
pleted, after all, one year before the Cuban 
Missile Crisis. The Kharkiv Metro is the more innovative and 
modernist of the two networks. It was built mostly in the 
1970s, with spacious, vaulted stations decorated with 
futuristic, science-fiction motifs.

Both cities kept up these standards even 
as the Soviet system began to fall apart 
in the 1980s. Kyiv stations of that 
decade, like the Kazimir Malevich–
inspired Palats Ukraina and the 
Byzantine-inspired Zoloti Vorota, are 
every bit as enormous and opulent as 
those in Moscow. Kyiv and Kharkiv have 
both built some fine stations after inde-
pendence, though before the war, the 
capital’s network was increasingly 
overcrowded. 
 
Kyivites and Kharkivites tend to be very 
proud of their metros, regardless of their 
opinions on the system that built them 
and the frustrations of day-to-day travel. 
But that doesn’t mean anybody would 
choose to sleep there — though many 
have been surprised at how well pre-
pared members of the Metro staff were for war. 
 
Extensive toilet facilities and water fountains, 
usually hidden from the public, were opened up 
as people started to bring their sleeping bags, 
pets, and scattered possessions into the Metro. 
A recent estimate at the time of this writing 
states that around fifteen thousand people are 
sleeping in the Kyiv Metro every night, with a 
similar number in Kharkiv. Right now, these 
metro systems aren’t just monuments to what 
transit design can achieve. As city residents 
shelter in these generous, beautiful marble 
halls, they act as a standing reproach to the 
barbarism taking place on the ground’s surface. 

 JACOBIN