October 8, 2019

Inferno na terra: Altamira, no Pará

Vista aérea da Reserva Biológica de Serra do Cachimbo, em Altamira: indígenas relatam que Polícia Federal não atende suas denúncias Foto: Victor Moriyama / Greenpeace

Fumaça provoca problemas de saúde na população; cidade conta com apenas três fiscais do Ibama

ALTAMIRA e RIO — À medida que as horas passavam e os bombeiros lutavam para controlar o incêndio em uma mata próxima à sua casa, no bairro Mutirão, periferia de Altamira (PA), a dona de casa Luzilene Araújo se preocupava com a aproximação das chamas. “Olha só o fogo que está aqui. Meu Deus do céu, tenha misericórdia, Senhor. O fogo está enorme”, disse ela no vídeo em que registrou as labaredas cercando seu muro.
Aquele foi um dos 2.223 focos de fogo que Altamira registrou em agosto. O município paraense é o que mais teve esse problema no país neste mês e neste ano, segundo dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Leia mais: 'Vi até boi em reserva biológica', diz ambientalista
 
— Ficamos todos apavorados, pensando no pior, mas, graças a Deus, conseguiram conter o fogo — diz ela ao GLOBO. —Tudo aqui em casa ficou com cheiro de fumaça, sem falar na tosse e dor nos olhos depois. Fui no postinho de saúde duas vezes colocar colírio. Virou rotina (queimadas) aqui em Altamira, mas esse ano está muito pior.


Está mesmo. Desde 2005, a maior cidade do país em área (o equivalente a 133 vezes o município do Rio de Janeiro) não registra tantos incêndios quanto agora — no ano passado, foram 306. E a tendência é que ainda vá piorar muito, segundo o ecólogo e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) em Altamira Rodolfo Salm.
— A verdadeira época das queimadas em Altamira não começou. A situação se torna dramática em outubro, novembro. Neste ano, a coisa vai chegar num nível apocalíptico — diz ele. — Isso afeta não só a natureza mas também a vida das pessoas que têm problemas de saúde.
Os casos diários de fogo em pastagem ou matas colocam em alerta moradores, bombeiros, autoridades de saúde pública e promotores de Justiça.

Sem fiscalização

Apesar da grandeza do território e de sua proximidade a um complexo de unidades de conservação, Altamira conta com um efetivo ínfimo da Polícia Federal e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
A autarquia do Ministério do Meio Ambiente tem apenas três fiscais e uma viatura em sua sede em Altamira. Não há telefone fixo. Os servidores não têm autonomia para ir a campo sozinhos. Caso recebam uma denúncia, precisam avisar a base de Santarém , que decidirá se uma fiscalização será orquestrada ou, então, enviará o caso a Brasília.
— Uma das possibilidades é que a denúncia seja anexada a um relatório de operações que serão realizadas apenas no ano seguinte — explica a procuradora da República Thais Santi. — Diante da desestruturação do Ibama, a capacidade de reação ao desmatamento é cada vez menor.
Procurado pela reportagem, o Ibama não se pronunciou até o fechamento da edição.
Thais integra o grupo de procuradores do Ministério Público Federal (MPF) no Pará que, na semana passada, anunciou o início das investigações sobre o aumento do desmatamento e de queimadas . Serão apurados os casos ocorridos em Altamira, Belém, Santarém e Itaituba.
Segundo Thais, ao menos oito das 14 terras indígenas ao redor de Altamira sofrem gravemente por invasão, garimpo e loteamento de sua área. Na falta de fiscalizações, os indígenas já agiram por conta própria para defender sua região. Em pelo menos duas ocasiões, índios assurinis da Terra Indígena Koatinemo, em Altamira, capturaram madeireiros que preparavam a derrubada de árvores. Foram levados para aldeia e resgatados aproximadamente uma semana depois pela Polícia Federal (PF).
Em denúncia ao MPF , Adje Assurini, líder do Koatinemo, revelou que anda 15 quilômetros vendo terras devastadas e detalhou como a aldeia escurece “com as cinzas da queima da roça”: “Tiramos fotos, fizemos filmagem, a Polícia Federal levou tudo e não fez nada. A gente vai acabar fazendo um concurso de qual índio tira a melhor foto de madeireiro”.
A Delegacia da Polícia Federal de Altamira tem apenas oito agentes, três delegados e dois escrivães para administrar os casos locais e de seis municípios vizinhos.
Para o delegado Carlos Castelo Paes, Altamira é “uma das regiões mais tensas do mundo”.
— Recebemos muitas denúncias, mas é muito difícil investigar, estamos prejudicados pela falta de efetivo — admite.
A PF acompanha o Ibama em fiscalizações. Mesmo assim, o trabalho não é sempre bem-sucedido. Não raro as equipes se deparam com pontos de difícil acesso, e chegam nos locais onde havia desmatamento com até dois dias de atraso.
* Especial para O GLOBO



October 7, 2019

Ódio acima de tudo, Deus acima de todos




DO MEDO E DELÍRIO EM BRASILIA: 
 
Belo texto do Estadão:
“O Palácio do Planalto abriga um núcleo de assessores que tem forte influência sobre o presidente Jair Bolsonaro e é conhecido como “gabinete do ódio”. Defensores da pauta de costumes, eles produzem relatórios diários, com suas interpretações, sobre fatos do Brasil e do mundo e são responsáveis pelas redes sociais da Presidência da República. Essa ala ideológica faz a cabeça de Bolsonaro e o incentiva a adotar um estilo beligerante no governo.
Com a senha das redes do pai, o vereador licenciado Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), o “zero dois” do presidente, dá ordens para os assessores Tércio Arnaud Tomaz, José Matheus Sales Gomes e Mateus Matos Diniz. Os três são da confiança do vereador e também do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) – o filho “zero três”, que Bolsonaro quer emplacar na Embaixada dos Estados Unidos. O senador Flávio Bolsonaro (PSL- RJ), primogênito, tem horror ao trio.
Filipe Martins, o assessor para Assuntos Internacionais de Bolsonaro, também faz parte desse grupo. Tércio, José Matheus, Diniz e Filipe despacham no terceiro andar do Planalto, ao lado do presidente. Outro integrante do núcleo é Célio Faria Júnior, que Bolsonaro trouxe da Marinha e hoje é chefe da Assessoria Especial da Presidência.
Com carta branca para entrar no Planalto, o assessor parlamentar Leonardo Rodrigues de Jesus, o Leo Índio, primo dos filhos de Bolsonaro, virou uma espécie de “espião voluntário” do governo. Léo Índio já produziu dossiês informais de “infiltrados e comunistas” nas estruturas federais, como revelou o Estado. O então ministro da Secretaria de Governo, general Carlos Alberto dos Santos Cruz, comprou briga com Carlos e com ele. Foi demitido.” [Estadão]
Pra quem não sabe, não é de bom tom convidar Tonho da Lua e Flavinho Desmaio para a mesma mesa, e parece que é o Flávio quem tenta controlar os dementes – e não vai aí nenhuma novidade, perto dos irmão a lucidez dele é espantosa:
“Quando Flávio saiu de férias e viajou para a Bahia, em meados de julho, auxiliares de Bolsonaro no Planalto ficaram preocupados. A portas fechadas, no segundo andar daquele prédio erguido com colunas “leves como penas pousando no chão”, como gostava de comparar o arquiteto Oscar Niemeyer, um assessor chegou a dizer que, sem Flávio em Brasília, o “gabinete do ódio” ficaria incontrolável. O comentário reflete a tensão que tomou conta do Planalto.
Nos bastidores, essa “repartição” é vista como responsável pelo afastamento cada vez maior entre Flávio e Carlos, também apelidado de “Carluxo”. Considerado o “pit bull” da família, Carlos cria estratégias para as mídias digitais do pai e sempre defendeu a tática do confronto para administrar, em oposição a Flávio, dono de estilo conciliador. Na prática, mesmo quando não está em Brasília, o vereador comanda o núcleo ideológico, emite opiniões polêmicas, chama a imprensa de “lixo” e lança provocações contra aliados do pai, como o vice-presidente Hamilton Mourão, tido por essa ala como “traidor”.
Flávio, vira e mexe, pede para o pai baixar o tom. Às vezes é ouvido, fato que provoca a ira do “zero dois”. Mesmo investigado no caso de Fabrício Queiroz – o ex-assessor suspeito de comandar um esquema de “rachadinha” para pagar salários de servidores, na Assembleia do Rio –, o senador tem atuado como articulador político do Planalto, ao lado do general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo.”

Foram esses dementes que convenceram Bolsonaro a desmarcar reunião com um importante ministro do Macron para cortar a porra do cabelo:
“A equipe do “gabinete do ódio” não aceita interferências dos profissionais da Secretaria de Comunicação. Segue ordens de Carlos, que atua sob a inspiração do escritor Olavo de Carvalho, e várias vezes já convenceu Bolsonaro a adotar posição mais dura, como no fim de julho, quando ele desistiu de receber o chanceler da França, Jean-Yves Le Drian, em julho, e depois apareceu em uma “live” cortando o cabelo, em um estilo “gente como a gente”.”

Se alguém duvida do que vaia cima, eis a declaração de um insuspeito coronel do PSL:
“Esse núcleo ideológico atrapalha muito nossa vida aqui no Congresso. Desse jeito, o PSL vai acabar sofrendo uma derrota atrás da outra.”

O mais hilário é que Flavinho Desmaio morre de medo de bater de frente publicamente com Tonho da Lua:
“Nos últimos dias, um tuíte de Carlos azedou o clima na Câmara, no Senado e no Supremo Tribunal Federal (STF). O vereador escreveu que “por vias democráticas, a transformação que o Brasil quer não acontecerá no ritmo que almejamos”. Bolsonaro apoiou o filho. Flávio ficou em silêncio. O primogênito disse a um amigo que, se fizesse algum comentário, exporia uma crise.”

Ah, foi a Michelle quem convenceu o presidente a apagar a ofensa à primeira-dama francesa:
“Além do senador, a primeira-dama Michelle também consegue fazer o marido amenizar os tuítes, de vez em quando. Foi ela, por exemplo, quem pediu para o presidente apagar comentário feito por ele em um post de internauta dizendo que a mulher do presidente da França, Emmanuel Macron, era feia. Michelle considerou a mensagem machista e deselegante.”

Dia desses o Frota disse que Tonho da Lua costuma sugerir um suicídio para dobrar o pai, esse é o nível da doideira. Estranho seria se uma pessoa desequilibrada como Tonho da Lua não ficasse ameaçando suicídio.  Vale ver a entrevista completa, é sempre bom ver o relato de alguém que viveu junto com os malucos e pulou fora:
“Eles são adestrados, eles não pensam, eles são reativos…. são três patetas, acéfalos, mal sabem articular o próprio nome. Flávio é o come quieto, testa de ferro, o Dudu Surfistinha é o prata da casa, quer ser o novo estadista da família e Carlinhos é o histério, histriônico, que tem crises de depressão e quer cortar os pulsos, e manipula o pai nesse sentido, olha, se você  não fizer isso eu corto os pulsos.”

“Com digitais na queda de dois ministros de Jair Bolsonaro (PSL), o chamado “gabinete da raiva” do Palácio do Planalto tem perdido protagonismo em um processo de redistribuição de forças das alas que cercam o presidente. A estratégia de radicalização defendida pelo grupo, tutelado pelo vereador licenciado Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), vem sofrendo reveses desde que pesquisas começaram a apontar erosão da popularidade do presidente.
Para integrantes do núcleo moderado, entre eles a cúpula militar, parte do aumento da reprovação para 38%, apontada pelo Datafolha no início deste mês, deve-se à sucessão de declarações polêmicas de Bolsonaro em julho. A avaliação dessa ala palaciana é a de que o mandatário acabou sendo a principal vítima de seus ataques. Naquele mês, dizem, o presidente foi estimulado pelo gabinete a entrar numa escalada de radicalização, com o objetivo de acenar a seus apoiadores mais fiéis. A tese do grupo ideológico é a de que ele não pode abandonar o tom de confronto que dominou a tônica de sua campanha eleitoral.” [Folha]

Segundo a Folha os malucos são influenciados pelo irmão do Abraham, viado!
“Sob a influência de Arthur Weintraub, assessor especial da Presidência e irmão do ministro da Educação, Abraham Weintraub, o trio está na linha de frente do grupo que estimula Bolsonaro a ir para o confronto… Até o dia 29 de julho, no entanto, o setor moderado não valorizava a influência do “gabinete da raiva” sobre o presidente. Os assessores sempre foram tratados com certo menosprezo pelo núcleo duro. Com salários que variam de R$ 10 mil a R$ 13,6 mil, os três eram tidos como jovens e inexperientes demais para influenciar a cabeça de quem ocupou o cargo de deputado federal por sete mandatos.
Desde então, o tratamento dispensado pelo trio do “gabinete da raiva” a auxiliares de Bolsonaro é sempre em tom de ameaça. Funcionários do Planalto relatam que já receberam mensagens como “o Carlos não vai gostar disso”, em referência ao vereador, e “você se lembra o que aconteceu com Santos Cruz e Bebianno”. Desde o início deste mês, com a mudança de postura do presidente, as orientações do “gabinete da raiva” têm passado por uma espécie de filtro antes de atingir Bolsonaro em cheio. A ala moderada brinca que, a partir de agora, o grupo passou a tomar Lexotan, medicamento indicado para tratamento de ansiedade.
Além da queda de popularidade, a pressão de grupos econômicos diante das declarações intempestivas fizeram com que o presidente passasse a ouvir mais atentamente outro trio: os ministros Jorge Oliveira (Secretaria-Geral), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) —este último, dizem palacianos, tem sido o principal contraponto ao grupo. Segundo relatos feitos à Folha, desde a ascensão do novo triunvirato as redes sociais têm sido usadas para atacar Ramos e Oliveira, que se queixam em caráter reservado.  (...)
E Flavinho Desmaio é rancoroso igual o pai:
“A irritação de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) com Wilson Witzel (PSC) tem componente pessoal. A advogada Natália Nicolau, filha do juiz Flávio Nicolau, que quebrou o sigilo bancário e fiscal do senador, é assessora da Casa Civil do governador do Rio. Sua nomeação, no entanto, ocorreu dias antes de o magistrado se tornar responsável pelo caso via sorteio eletrônico. Antes de 15 de abril [data da nomeação da filha] eu ainda não era o juiz da causa”, diz Nicolau. No Palácio Guanabara, cogitou-se até a exoneração da advogada quando chegou a informação de que seu pai assumiria o caso. Mas a ideia foi descartada.” [Folha]

Ah, e o pai já tá arrumando as malas para deixar o PSL:
“Aliados de Jair Bolsonaro iniciaram conversas com o Patriota com o objetivo de reabrir portas caso ele decida deixar o PSL. O presidente quase entrou no partido antes da campanha de 2018.”

A carência do Bolsonaro é um troço constrangedor:
“O governador de São Paulo João Doria (PSDB) disse nesta sexta-feira (20) que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) deveria “trabalhar mais e tuitar menos”. O novo capítulo da escalada retórica entre os dois potenciais adversários nas eleições presidenciais de 2022 tem como pano de fundo o anúncio feito pela montadora Toyota nesta quinta-feira (19) de que vai investir R$ 1 bilhão em sua fábrica de Sorocaba gerando 300 empregos.
Doria viajou ao Japão nesta semana para participar da cerimônia de anúncio ao lado de executivos da Toyota. Na ocasião, Masahiro Inoue, presidente da montadora para as regiões de Caribe e América Latina, disse que estava agradecido ao governo Doria “pelo diálogo aberto” e por construir com a empresa “uma forma de viabilizar o investimento”.
Após a repercussão do anúncio, ainda na quinta-feira, em seus posts e transmissões de vídeo, Bolsonaro queixou-se do comunicado. “Para variar, a notícia não tem meu nome”, disse em vídeo. Bolsonaro também escreveu que o investimento está acontecendo “graças ao programa de valorização dos biocombustíveis do governo federal, o Renovabio”.” [Folha]

 

October 6, 2019

O que pensa a cúpula militar brasileira

O vice Mourão e o presidente Bolsonaro: diferenças de opinião de olho na base das Forças Armadas. Foto: Orlando Brito

Ana Clara Costa

Era junho de 2018, em uma cobertura no bairro da Asa Norte, em Brasília, quando os três generais que desenhavam o programa de governo de Jair Bolsonaro abandonaram suas planilhas e cronogramas sobre a mesa para debater uma situação que os intrigava. Eles, que haviam chegado às mais altas patentes antes de saírem para a reserva, agora trabalhavam para a eleição de um ex-militar que, sem ter ascendido nas Forças Armadas, tinha mais chances de se tornar presidente da República do que qualquer um deles jamais teria.
“Fôssemos nós os candidatos, quantos votos teríamos?”, indagaram entre si. “Não adianta qualquer um de nós ter conhecimento se não atendemos à realidade”, argumentou um deles. Enquanto o outro arrematou, categórico: “Não sei nem se eu votaria em mim”. A conclusão da conversa foi a seguinte: eles não estavam diante de um candidato que era a soma de “Madre Teresa, De Gaule, Churchill e Rui Barbosa”, disse um deles. Mas reconheciam que Bolsonaro atendia às necessidades do momento. “O Brasil estava diante de um precipício, prestes a cair”, avaliou um dos generais, ao se referir à possibilidade de um candidato petista vencer. À época, Fernando Haddad ainda não havia sido oficializado e Lula, mesmo preso, dizia-se candidato.
A cena descrita acima dificilmente teria ocorrido, não fosse o contexto político peculiar em que o Brasil se encontrava em 2018. Jair Bolsonaro era o candidato que entoava o timbre mais forte contra o PT e tudo que o partido representava. Só se tornara o representante da maioria das altas patentes quando as demais candidaturas deram sinais de que não vingariam.
“O GENERAL PUJOL FOI ACONSELHADO A PROMOVER UMA REAPROXIMAÇÃO COM AS TROPAS TÃO LOGO ASSUMIU O POSTO. PUJOL NÃO TEM CONTAS EM REDES SOCIAIS, NÃO DÁ ENTREVISTAS E NÃO SE PRONUNCIA PUBLICAMENTE, EXCETO POR MEIO DE COMUNICADOS OU PORTARIAS”
­
­
No Exército, a rejeição que coronéis e generais desenvolveram em relação ao então candidato tinha origem em um conjunto de condutas intrínsecas à formação militar — e que Bolsonaro, apesar de fazer a defesa irrestrita da classe, por vezes se negou a cumprir. Ao deixar os quartéis, em 1988, o hoje presidente havia golpeado alguns dos principais pilares que sustentam a cartilha da caserna, ao proceder com indisciplina e insubordinação — este último comportamento é considerado crime militar. Em 1987, o então capitão de artilharia e paraquedista foi acusado de planejar ataques a bomba em quartéis do Rio de Janeiro em protesto contra os baixos salários da corporação. Em depoimento prestado à época, reconheceu ter cometido uma “transgressão disciplinar” e “deslealdade”.
A expulsão de Bolsonaro do Exército foi requerida pelo Alto-Comando, mas ele terminou absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM). Saiu da Força para a reserva obrigatória ao se eleger, em 1988, vereador pelo Rio de Janeiro. Como ex-militar, era visto fazendo piquetes frequentes contra as condições de trabalho e os salários pagos às patentes mais baixas, muitas vezes insuflando sargentos e tenentes contra coronéis e generais. Chegou a ser proibido de entrar em quartéis e não se incomodava em fazer críticas públicas ao então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves.
Ao mesmo tempo que os generais reservistas refletiam sobre a candidatura na qual haviam se envolvido, na alta cúpula do Exército, o tucano Geraldo Alckmin era visto como alternativa conveniente. Então comandante-geral da Força, o general Eduardo Villas Bôas havia recomendado ao general João Camilo Pires de Campos, ex-comandante militar do Sudeste e recém-ingressado na reserva, que auxiliasse o candidato paulista em sua campanha. As preferências dos generais da ativa se dividiam entre Ciro Gomes e Alckmin. Mas o pedetista dinamitou pontes com o Exército ao dizer, em sabatina promovida pelo Globo , que uma declaração dada por Villas Bôas — de que a legitimidade do próximo presidente poderia ser questionada por adversários — tinha o intuito de “acalmar cadelas no cio que, embaixo dele, estão se animando”. A frase, que fazia referência aos radicais das Forças, foi recebida com indignação pelos comandos e implodiu os votos que Ciro poderia vir a ter entre os mais graduados.
A indisciplina, no Exército, é falha grave sobretudo para quem está na base, ocupando patentes mais baixas. Acredita-se, entre os generais, que a disciplina seja fundamental não só para organizar a estrutura militar, mas também para reprimir a agressividade das tropas mais jovens, historicamente sujeitas a posturas intempestivas. Conclui-se, portanto, que toda tropa violenta seja indisciplinada. Desde 1951, quando foi criada a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende, no estado do Rio, há ênfase na disciplina como forma de atenuar a impetuosidade entre alguns sargentos e tenentes. Esse conhecido traço de parte da juventude do Exército inspirou o deputado Eduardo Bolsonaro a se referir à hipótese de “um cabo e um soldado” bastarem para fechar o Supremo Tribunal Federal (STF), no ano passado — declaração que causou choque durante o período eleitoral. Também a essa parcela da juventude militar o general Villas Bôas se dirigia ao postar, em uma rede social, na véspera do julgamento do habeas corpus impetrado pela defesa de Lula, em abril de 2018, uma frase que foi entendida como apelo para que o instrumento jurídico fosse negado pela Corte. Villas Bôas havia escrito que compartilhava “o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição”.
Formandos da Academia Militar das Agulhas Negras. Uma pesquisa mostrou que eles querem mais mulheres no comando e são avançados em temas comportamentais. Foto: Marcelo Régua / Agência O Globo
Formandos da Academia Militar das Agulhas Negras. Uma pesquisa mostrou que eles querem mais mulheres no comando e são avançados em temas comportamentais. Foto: Marcelo Régua / Agência O Globo
Há a convicção entre os generais de que a anarquia que pairava sobre o Exército até os anos 50 acabou. Segundo avaliam, desde que as primeiras turmas da Aman chegaram aos comandos militares, não houve um caso grave de indisciplina e nunca mais oficiais do Exército apontaram suas armas para suas próprias tropas, numa referência aos episódios de conflitos entre militares na primeira metade do século XX. Daí o fato de valorizarem a formação na Academia, que os cadetes hoje deixam portando um diploma de bacharelado em ciências militares, antes de partirem para o segundo passo da formação obrigatória, na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO).
Disciplina na Aman é acordar às 5h50 ao toque de corneta, rapidamente fazer a higiene nos dormitórios e estar em forma para o café da manhã às 6h20. É não ser dono do próprio tempo, chegar cinco minutos antes a todas as aulas e se dedicar aos exercícios físicos com afinco, porque obter más notas em atividades esportivas é tão prejudicial para o currículo quanto falhar nas provas acadêmicas. Bebidas alcoólicas são proibidas em qualquer hipótese. Então capitão do Exército, o general Alberto Mendes Cardoso, que foi ministro da Casa Militar de Fernando Henrique Cardoso, chamou Eduardo Villas Bôas, em seu quarto ano de Aman, para uma conversa. Pousou a mão em seu ombro e lhe disse: “VB, estou preocupado. Você sabia que tem gente tomando cachaça aqui?”. “Sério?”, questionou o jovem aspirante. VB, como até hoje é conhecido o ex-comandante-geral do Exército, fazia parte do grupo que eventualmente tomava doses de cachaça contrabandeada para o quartel antes do jantar. Depois da investida discreta do capitão, não foi mais visto na turma de contraventores.
Após sofrer processo no Superior Tribunal Militar, Bolsonaro deixou o Exército e decidiu se candidatar a vereador, em 1988. Foto: Luiz Pinto / Agência O Globo
Após sofrer processo no Superior Tribunal Militar, Bolsonaro deixou o Exército e decidiu se candidatar a vereador, em 1988. Foto: Luiz Pinto / Agência O Globo
Com o avançar dos anos e das condecorações, há militares que passaram a se preocupar menos com a disciplina. Hoje vice-presidente, o general Hamilton Mourão, já detentor de quatro estrelas lustrando a farda, perdeu o Comando Militar do Sul, em 2015, depois de dar declarações que constrangeram a alta cúpula perante o governo do PT. Ao falar a oficiais da reserva, Mourão fez duras críticas à classe política e convocou os presentes para “o despertar de uma luta patriótica”. Em 2017, quando estava na Secretaria de Finanças do Exército, voltou a criticar publicamente a política e insinuar uma intervenção. “Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos de impor isso”, disse Mourão, em uma palestra. A fala motivou nova saída do cargo. Em 2018, ele foi para a reserva. O general havia sido uma liderança importante nas Forças Armadas depois de servir em países em que a situação política era delicada, em especial na Venezuela e em Angola.
Também a indisciplina fez o general Augusto Heleno, atual ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), ser retirado do Comando Militar da Amazônia, o de maior prestígio nas Forças, e enviado ao Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, depois de criticar a política indigenista do governo Lula, chamando-a de “caótica”. De lá, seguiu para a reserva. Ainda durante seu período de Amazônia, o general havia cometido outras gafes. Em uma delas, instigou produtores de arroz a se insurgir contra a demarcação de terras na área de Raposa Serra do Sol, em Roraima. A revolta dos arrozeiros terminou com o sequestro de um grupo de policiais que havia ido ao local para conter o conflito. Então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos preparou o resgate. Heleno não teve nada a ver com o sequestro. Convicto de que a política de demarcações era equivocada, transcendeu seu papel ao estimular a revolta.
Ainda criança, Heleno seguia rotina militar de estudos em casa em obediência a sua mãe, dona Edina, que era diretora de escola e rígida com os deveres. A dedicação aos livros fez com que se tornasse um dos poucos generais “tríplice coroados”, o que significa ter sido condecorado como o primeiro da turma em todas as escolas pelas quais passou. Sua trajetória na caserna foi acima da média. Antes dos 30 anos, já servia no Palácio do Planalto. Foi adido militar em Paris e comandou tropas duas vezes no Haiti antes de ir para a Amazônia. Em sua primeira estada na ilha caribenha, quando um tenente sob seu comando se feriu em batalha e teve de ser deslocado a um hospital na República Dominicana sob o risco de perder o braço, o general tomou um helicóptero para acompanhá-lo e garantir que ele receberia o tratamento devido no país estrangeiro. Atitudes como essa causam admiração nas tropas.
“COM O AVANÇAR DOS ANOS E DAS CONDECORAÇÕES, HÁ MILITARES QUE PASSAM A SE PREOCUPAR MENOS COM A DISCIPLINA. TANTO O VICE, HAMILTON MOURÃO, QUANDO O MINISTRO DO GSI, GENERAL AUGUSTO HELENO, PERDERAM SEUS POSTOS DEPOIS DE DAREM DECLARAÇÕES INDEVIDAS”
­
­
Tantas credenciais detidas pelos dois generais não foram suficientes para mantê-los nos cargos quando transgrediram as regras. E os tipos de transgressão que cometeram foram vistos de diferentes formas dentro do Exército. As alas que se mostravam mais indignadas com o PT (sobretudo as baixas patentes) aplaudiam atitudes como as de Mourão e Heleno — e viram em sua comunicação indisciplinada uma forma de coragem. Outros grupos, mais moderados, enxergavam que os generais haviam ultrapassado a linha e exposto politicamente o Alto-Comando. Outra leitura sobre os episódios é que, cientes de que não ascenderiam ao posto de comandante-geral, ambos já vislumbravam algum futuro político.
O aplauso das baixas patentes a declarações controversas e a necessidade de Villas Bôas vir a público para pacificar os ânimos da caserna são as veias mais expostas de um Exército que nutre divergências acentuadas entre sua base e o alto generalato. Não à toa, o general Edson Leal Pujol, tríplice coroado como Heleno e substituto de Villas Bôas no comando do Exército, foi aconselhado a promover uma reaproximação com as tropas tão logo assumiu o posto. Pujol não tem contas em redes sociais, não dá entrevistas e não se pronuncia publicamente, exceto por meio de comunicados ou portarias. Em uma das últimas, divulgada em junho, recomendou que oficiais e soldados não vinculassem as ações da Força a suas contas pessoais na internet. Nas entrelinhas, a mensagem foi entendida como ordem para que oficiais da ativa deixassem de fazer postagens sobre política. A Constituição veda que militares tenham atividade política.
O general Eduardo Villas Bôas, assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional, no Palácio do Planalto. Ele afirmou que se manter trabalhando após sua grave doença tornou-o popular. Foto: Jorge William / Agência O Globo
O general Eduardo Villas Bôas, assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional, no Palácio do Planalto. Ele afirmou que se manter trabalhando após sua grave doença tornou-o popular. Foto: Jorge William / Agência O Globo
As diferenças entre o que pensam os militares mais jovens e os oficiais graduados são mais visíveis na Academia, em especial na EsAO e na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), que é o último filtro pelo qual passam antes de ascenderem ao posto de general — menos de 5% dos que ingressam na Aman conseguem chegar à última patente. O professor de relações internacionais na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Maurício Santoro deu aulas e seminários na Aman e na Eceme ao longo de uma década e observou mudanças importantes de pensamento — em especial nos últimos dois anos. “Houve uma mudança de mentalidade parecida com a que ocorreu na sociedade brasileira como um todo. Oficiais do Exército que sempre acharam Bolsonaro um fanfarrão, de repente passaram a apoiá-lo, dizendo que ele era uma solução, uma alternativa”, avaliou o professor.
Em termos práticos, Santoro relatou que, ante críticas desferidas contra o governo vindas de professores ou alunos civis nas escolas militares, há uma defesa forte por parte da maioria dos oficiais em relação às ações do presidente. “Eles questionam como é possível criticar se há tantos nomes bons ao lado do presidente. Isso demonstra que, ainda que os generais de Bolsonaro estejam na reserva e o Exército seja uma Força de Estado, há uma grande identificação desses oficiais com o governo. Eles sentem que os militares são parte do governo Bolsonaro, ainda que o próprio presidente tenha feito críticas aos generais de seu entorno”, afirmou. O sentimento percebido nas escolas nos últimos anos, segundo Santoro, vai na contramão de um movimento de abertura das Forças Armadas em relação à sociedade. “Desde a redemocratização, aconteceram avanços expressivos nas relações entre civis e militares, inclusive na própria formação profissional. Nos últimos dois anos, entretanto, vejo que esse legado está em risco”, disse.
Divergências entre patentes no Exército são comuns, ainda que nem sempre oficialmente expostas. Antes do golpe de 1964, quando os ânimos entre militares eram mais acirrados, a Escola Superior de Guerra (ESG) era um depositário de coronéis e majores que tinham poder de liderança entre as tropas e, por isso, incomodavam os governos. Enviá-los para batalhões nos grotões do país seria um desprestígio; dar a eles um importante comando na Vila Militar poderia torná-los fortes demais; então, eram enviados à ESG para estudar — sentiam-se prestigiados e, ao mesmo tempo, eram temporariamente neutralizados. Ali se formou a elite militar, parte da qual governou o país durante a ditadura. Hoje, a ESG, vinculada ao Ministério da Defesa, perdeu a aura de etapa fundamental na formação de um militar. Mas as divergências entre patentes perduram
O general Augusto Heleno (ao centro) comandou no Haiti a primeira tropa de paz da ONU com permissão para atirar. Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
O general Augusto Heleno (ao centro) comandou no Haiti a primeira tropa de paz da ONU com permissão para atirar. Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
As divisões na progressão da carreira são um fator de discórdia. Oficiais que vão para a reserva em patentes mais altas ganham mais vantagens do que aqueles que se aposentam como tenentes ou capitães. Mudanças feitas no sistema de aposentadorias ao longo das últimas duas décadas aprofundaram essa cisão. Mais recentemente, durante a tramitação do projeto de lei que reestrutura a carreira militar, pressões vindas de setores das baixas patentes induziram a criação de uma nova categoria na carreira, a de sargento-mor, no texto elaborado pelo Ministério da Defesa. A mudança não foi bem vista pelas Forças Armadas, em geral, e terminou derrubada. Bolsonaro sentiu o golpe da ira dos praças e chegou a sugerir que as baixas patentes se manifestassem a seus superiores sua insatisfação com o projeto. Tal ato foi visto com reserva pelos generais, que notaram na atitude do presidente uma sinalização de rompimento de hierarquia.
Por sua atuação parlamentar, Bolsonaro manteve ao longo dos anos um contato direto com as baixas patentes, que sempre foram sua principal base eleitoral. Em sete meses como presidente, compareceu mais de 15 vezes a eventos militares relacionados às baixas patentes. Seus grupos de apoiadores virtuais no WhatsApp têm forte presença militar — em alguns deles o próprio presidente participa, conforme contou um de seus amigos mais antigos, Waldir Ferraz, que trabalha para Bolsonaro há cerca de 30 anos e hoje é funcionário do PSL no Rio de Janeiro. “É uma base muito forte. Quando não é militar, é da reserva. Mas a grande maioria é sim ( militar )”, disse. Ferraz também ajuda a manter a base virtual do presidente azeitada. Em suas mais de 1.000 conversas mantidas pelo WhatsApp, em que Ferraz divulga assuntos de interesse de Bolsonaro, misturam-se desde mensagens de apoio enviadas pelo juiz Marcelo Bretas, da Lava Jato do Rio, até elogios vindos do ator Humberto Martins. Na lista de transmissão, dezenas de sargentos, capitães e coronéis.
A identificação da base do Exército com todos os temas caros ao governo, contudo, não é unanimidade. Uma pesquisa feita pelo núcleo de estudos militares da PUC-Rio com mais de 2.700 membros das mais diversas patentes mostra viés progressista na relação do Exército com temas comportamentais, em muitos casos sensíveis aos ouvidos do presidente Jair Bolsonaro. Mais de 70% dos entrevistados mostraram ser favoráveis à presença de mulheres nos postos de comando da carreira e também acreditar que cabe às mulheres, e não ao Estado, a decisão sobre interromper uma gravidez. Mais de 60%, em média, também se manifestaram favoravelmente à presença de professores homossexuais em escolas públicas. Tal resultado coincide com a visão mais moderada de coronéis e generais — e essa ambiguidade interna se apresenta como explicação possível dos constantes “contrapontos” feitos pelo vice-presidente, o general Hamilton Mourão, às opiniões de Jair Bolsonaro sobre temas como aborto e religião. Depois de ser atacado nas redes sociais pelos filhos do presidente, Mourão recuou, mas conseguiu imprimir junto à opinião pública e às próprias Forças traços de moderação que faltam ao presidente.
Ainda que a hierarquia seja um princípio fundamental da formação militar, seu funcionamento é intrínseco a outro pilar — a liderança. Há consenso entre praças e generais sobre isso: em combates, não há como conduzir uma tropa apenas com disciplina e autoridade. “Se você é autoritário e não respeita subordinado, você logo sofre uma denúncia. Só com autoridade você não consegue conduzir. Por exemplo, o sujeito vai ser denunciado no Ministério Público por um desvio no refeitório. E, mesmo que não seja verdade, isso cria um problema enorme para o comandante. Na verdade, aquele indivíduo não está preocupado com o desvio, e sim em atingir aquele comandante que está faltando com a liderança”, contou o general Villas Bôas, que, antes de ser comandante-geral do Exército entre 2015 e 2018, chefiou o Comando Militar da Amazônia e a EsAO.
“PESQUISA ENTRE MILITARES DE DIVERSAS PATENTES MOSTROU QUE 70% SÃO FAVORÁVEIS A MULHERES NO COMANDO E DIZEM QUE CABE A ELAS, NÃO AO ESTADO, A DECISÃO DE INTERROMPER OU NÃO GRAVIDEZ. A BASE MILITAR ESTÁ DESCOLADA DE RADICALISMO EM TEMAS COMPORTAMENTAIS”
­
­
Entre os mais de dez generais da ativa e da reserva, além de ministros e ex-ministros ouvidos por ÉPOCA, Villas Bôas foi apontado por todos como uma das principais lideranças militares que já surgiram nas Forças Armadas, apesar das limitações recentes impostas por sua doença, a esclerose lateral amiotrófica. “Ele é um ícone para nós. Por seu poder de articulação, de liderança”, disse o general da reserva Eduardo Barbosa, presidente do Clube Militar do Rio de Janeiro. Villas Bôas atribuiu os elogios a uma “aura” que disse ter se formado em torno dele depois que decidiu continuar trabalhando, apesar da doença e da cadeira de rodas que usa para se locomover. Também contribuiu para isso o fato de ter estado no comando do Exército em períodos delicados da história recente, como o impeachment de Dilma Rousseff e o governo Temer. “Mas não sou melhor que ninguém. Todos os oficiais que chegam ao Alto-Comando passaram por muitos filtros, os mesmos filtros”, disse o general, que hoje, na reserva, exerce a função de assessor especial no GSI.
Diferentemente de Villas Bôas, que é considerado um líder estratégico, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, demitido por Bolsonaro da Secretaria de Governo em junho, é um exemplo de liderança direta, atributo necessário para ser um bom comandante em combate. Chefe da primeira missão ofensiva da história da ONU, com autorização para atirar, Santos Cruz tinha uma característica específica para exercer liderança sobre as tropas — em grande maioria composta de estrangeiros. Em vez de ficar na retaguarda, com seu Estado-Maior, acompanhava as manobras na linha de frente, com os mais jovens. A quem lhe perguntasse a razão, Santos Cruz respondia que “a rapaziada mais jovem era mais afoita” e que, por consequência, ele também “ficava mais corajoso”.
São poucos os militares brasileiros que puderam gozar de tal experiência fora do país. A grande maioria fica no Brasil e tem como principal função ajudar a colocar em prática a estratégia da “presença”, que leva esse nome porque em muitos locais remotos o Exército é a única possibilidade de atendimento do Estado às necessidades básicas da população. Dentro dessa estratégia está a proteção da Amazônia — território que os militares conhecem bem e cuja opinião sobre a preservação do bioma coincide com a do presidente Jair Bolsonaro. Há consenso dentro das Forças Armadas, em que persiste certo viés conspiratório, de que os ataques estrangeiros à política ambiental nacional escondem interesses econômicos que podem ferir a soberania do Brasil. Tal percepção é acentuada pelo arraigado sentimento territorialista dos militares, que atinge seu ápice em sua relação com a Amazônia. Em evento em Brasília, em 6 de agosto, o general Villas Bôas criticou países que têm se mostrado em desacordo com a política ambiental do governo, como é o caso da Alemanha e da Noruega. “É curioso que países como a Noruega se considerem com autoridade moral de apontar o dedo para o Brasil. A Noruega está entre os três países do mundo que pescam baleia. É o único país do mundo que explora petróleo dentro do Círculo Polar Ártico. É dona de 30% daquela empresa que provocou criminosamente o derramamento de metais pesados no Pará”, afirmou o general.
A questão ambiental tem se mostrado um dos poucos pontos de intersecção entre o que pensam as altas patentes militares e o governo Bolsonaro hoje. Há discordâncias no campo da diplomacia, que vão desde o alinhamento automático aos Estados Unidos até a indicação de Eduardo Bolsonaro como embaixador. Eles divergem também na estratégia de não formar uma base de apoio político e na ideia de privatizar estatais, como a Petrobras.
Se, no início do governo, havia uma intenção dos militares em incorporar o papel de servidores do alto escalão do Estado depois de estarem por 30 anos relegados à condição de coadjuvantes do poder, hoje há uma preocupação patente em fazer com que, à luz da história, a gestão de Bolsonaro não seja lembrada como um governo militar. Para reforçar essa ideia, militares recorrem ao expediente de que os generais presentes no Executivo são todos da reserva — com exceção do general Luiz Eduardo Ramos, que se licenciou do Comando Militar do Sudeste para assumir o cargo de Santos Cruz na Secretaria de Governo. O Exército, em si, permanece silencioso, cabendo apenas ao ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, o respaldo político da instituição.
Segundo o vice-presidente, o general Hamilton Mourão, a grande contribuição dos militares é sua visão de Estado. “Nós sabemos que é preciso planejamento de Estado, políticas que perdurem independentemente do governo que entrar. Um vai um pouquinho mais para cá, outro um pouquinho mais para lá, mas o rumo é um só”, afirmou.
Isso não quer dizer que militares estejam imunes a erro, conforme apontaram todos os que foram ouvidos pela reportagem. Episódios recentes, como a prisão do sargento da Aeronáutica que carregava 39 quilos de cocaína em um voo que acompanhou a comitiva presidencial ao G20, no Japão, e o assassinato de dois civis com mais de 62 tiros em uma comunidade no Rio de Janeiro, são emblemas de que eles estão muito longe de ser os guardiões da perfeição. Quando se entra na Aman, a primeira lição a ser aprendida é que não se cola nas avaliações — e que quem cola não prospera. Todos os militares ouvidos pela reportagem repetiram essa regra fundamental para a convivência meritocrática no Exército. Supor, num universo tão grande, que ninguém cola é jogar com uma improbabilidade. Alguns generais nunca esqueceram que Aurélio de Lira Tavares, quando estava na escola militar, colara de seu colega Orlando Geisel. Ambos, contudo, chegaram ao generalato e ao posto de ministro do Exército.
(Atualização às 15h40 de 16 de agosto de 2019. Após a publicação da reportagem, o Centro de Comunicação Social do Exército enviou a seguinte nota, em que dá sua visão sobre dois episódios citados na reportagem. Segue a íntegra da manifestação da Força)
Sobre o trecho “Alguns generais nunca esqueceram... ao posto de ministro do Exército”, cabe esclarecer :
A matéria termina com a afirmação que “quando se entra na AMAN, a primeira lição a ser aprendida é que não se cola nas avaliações...”. Até este ponto do texto, o Centro de Comunicação Social do Exército não tem o que observar.
Mas, relacionado ao comentário sobre Aurélio de Lira Tavares, o Centro esclarece que se trata de um General de Exército Brasileiro, graduado na Escola Militar do Realengo, em 1925, e falecido em 1998, que prestou relevantes serviços ao País, além de ser reconhecido pela sua alta capacidade intelectual.
O referido oficial general formou-se também em Direito e em Engenharia. Foi Comandante da Escola Superior de Guerra e membro da Academia Brasileira de Letras.
Comentários sobre sua conduta como aluno há cerca de um século, desprovidos de fontes que possam ser refutadas, em nada contribuem para o entendimento do código de ética do cadete. “Ser cadete é cultivar a verdade, a lealdade, a probidade e a responsabilidade!” (valores transmitidos pela AMAN).
Sobre o trecho “Desde 1951, quando a formação na Academia Militar das Agulhas Negras... se tornou obrigatória”, cabe corrigir e esclarecer.  
O Centro de Comunicação Social do Exército solicita corrigir a informação.
A formação do oficial combatente de carreira do Exército Brasileiro iniciou-se em 1810, na Real Academia Militar. Desde então, com diversas denominações e mudanças de sede, consolidou-se a instituição de Ensino Superior Militar como estabelecimento de formação do chefe militar.
No ano de 1951, apenas se alterou a denominação de Escola Militar de Resende para Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN).
É preciso esclarecer que a AMAN dedica especial atenção à formação ética e moral dos Cadetes, no intuito de entregar ao Exército oficiais que se destaquem pela integridade, honradez, honestidade, lealdade, senso de justiça, disciplina, patriotismo e camaradagem.
A AMAN fundamenta a formação dos futuros oficiais no integral desenvolvimento da pessoa, atuando nos domínios afetivos, psicomotores e cognitivos. Merece atenção especial dos Cadetes a aquisição de competências profissionais e o desenvolvimento de sólidos atributos de liderança.

Os danos colaterais da política de confronto de Wilson Witzel

Witzel gosta de tocar trompete no Palácio Laranjeiras. Entre suas músicas preferidas, a lacrimosa “My way

Com declarações e ações policiais truculentas, o governador do Rio acha que pode conter a violência e sonha em se cacifar para a disputa presidencial 

 


O flagrante do sobrevoo de dois helicópteros na última terça-feira é simbólico do Rio de Janeiro de 2019. O primeiro transportava o governador Wilson Witzel (PSC) depois de um atirador de elite matar o sequestrador que mantivera 39 reféns — com arma de brinquedo — por três horas e meia em um ônibus na ponte Rio-Niterói. Eufórico com a ação da polícia (a ponto de mandar um secretário filmar seus movimentos com um celular), Witzel desembarcou no meio da via e saiu vibrando para as câmeras que ali estavam como se comemorasse um gol. “Projeção mundial”, celebrou naquela noite com ÉPOCA, satisfeito com seu desempenho diante da imprensa: “Minha entrevista hoje certamente foi a melhor de todas”, empavonou-se.
Naquela mesma manhã, a 40 quilômetros dali, outra aeronave do governo do estado sobrevoava a Cidade de Deus, um dos principais entrepostos da maior facção criminosa do Rio, mas também uma favela na Zona Oeste onde moram cerca de 100 mil cariocas. Sob a justificativa de uma operação policial para prender criminosos, um explosivo foi arremessado aleatoriamente numa rua residencial. Não há notícia de benefício causado pelo ataque aéreo além de um estrondo assustador para os moradores da região. “O helicóptero é o terror dos narcoterroristas”, engalanou-se o governador, sem mostrar maiores preocupações com os efeitos colaterais desse tipo de ação.
Horas depois de o sequestrador do ônibus ser morto por um atirador de elite, Witzel vibrou com policiais que participaram da operação. Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Horas depois de o sequestrador do ônibus ser morto por um atirador de elite, Witzel vibrou com policiais que participaram da operação. Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
“‘Não há como combater crime com livros e com flores. A polícia tem de chegar para prender. Se não houver rendição, tem de eliminar, tem de matar’”
­
­
Aos 51 anos, o ex-fuzileiro naval e ex-juiz trabalha como garoto-propaganda sem pudores da política de segurança em vigor desde janeiro. Em quase oito meses, abusa das frases truculentas tanto quanto a polícia que comanda abusa da força. O número de civis mortos em operações policiais aumentou em todo o estado 15% em relação ao ano passado. De janeiro a julho, 1.075 pessoas foram mortas pela polícia, recorde na série histórica, sendo 194 apenas no mês passado, o maior número em 21 anos.



Witzel inaugurou o governo com a pregação de que a polícia deveria mirar na “cabecinha de criminosos”. Chegou ao limite do delírio ao flertar com a possibilidade de jogar mísseis em favelas. O governador falastrão e truculento tem se sentido cada vez mais à vontade no papel. Cita que, no geral, a taxa de homicídios caiu 23% nos sete primeiros meses de 2019 (2.392 mortos) na comparação com o mesmo período do ano passado. Ressalvando-se áreas específicas do Norte-Nordeste, a redução da letalidade é um fenômeno nacional desde 2017. Witzel, entretanto, alardeia que sua opção pelo confronto tem apresentado resultados claros. Recebeu críticas pela brutalidade da polícia até na reunião de pais do colégio do filho. Chegou a ser chamado de “fascista e assassino” quando passeava no centro do Rio. “Assassino de quê? De traficante?”, respondeu à senhora que o questionou.
O sequestro reforçou sua estratégia de se mostrar integrado às forças de segurança, como quando se fantasiou na entrega de carros para a Polícia Ambiental. Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo
O sequestro reforçou sua estratégia de se mostrar integrado às forças de segurança, como quando se fantasiou na entrega de carros para a Polícia Ambiental. Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo
Também não incomodam o governador as mais recentes vítimas de balas perdidas no Rio. O caso da jovem Margareth Teixeira, de 17 anos, morta durante uma operação da Polícia Militar em Bangu, no último dia 14, com cerca de dez perfurações causadas por arma de fogo, é um exemplo trágico. “A sociedade ainda não entendeu que estamos numa guerra contra o terrorismo. Sempre escondemos, de certa forma, da população que o terrorismo está no Brasil. A sociedade quando vê as mortes só vê as consequências, não vê a causa. Não há como combater crime com livros e com flores. As pessoas que estão no crime não querem saber de escolas nem de livros. A polícia tem de chegar para prender, se não houver rendição, tem de eliminar, tem de matar”, disse, para duvidar logo em seguida de sua responsabilidade nas mortes de inocentes. “Não sei se as balas perdidas são um efeito colateral da minha política, não. O que imagino é que os traficantes causam essas mortes para impedir o trabalho da polícia”, especula num grau elevado até para quem vive a escala Bolsonaro de deslocamento da realidade.
Witzel também já demonstrou sua integração às forças de segurança quando visitou o Batalhão de Operações Especiais. Foto: Carlos Magno
Witzel também já demonstrou sua integração às forças de segurança quando visitou o Batalhão de Operações Especiais. Foto: Carlos Magno
A mesa de trabalho no Palácio Guanabara é decorada com helicópteros e carros de polícia em miniatura — um deles com seu nome gravado. Witzel se empolga e desloca do nada o eixo da conversa para a ofensiva europeia contra a Alemanha de Adolf Hitler. É a forma que encontra para justificar suas frases sobre mísseis e afins: “Se não tivéssemos combatido o nazismo, como estaríamos hoje? Ninguém questiona hoje em dia a ação dos países aliados de jogar mísseis contra os países do Eixo. Quando falei certa vez sobre usar essa estratégia na favela, falei em sentido figurativo. É fato, contudo, que numa situação de combate teríamos eliminado os problemas de imediato”, disse. O governador é lembrado de que, ainda que as principais facções criminosas se encastelem em favelas, há milhões de moradores que ali habitam por falta de opção melhor. “Sim, sei que as polícias não têm autorização para usar esse tipo de armamento”, recua, quase em tom de lamentação.
“Witzel anuncia seus planos sem acanhamento. Fala abertamente em ser candidato a presidente da República e, sem ironia, já disse que almeja encerrar a carreira pública como secretário-geral da ONU”
­
­
Diante de uma das mais belas vistas do Palácio Guanabara, um jardim que lembra os tempos imperiais, Wiltzel cultiva, todas as quintas-feiras, às 18h30, o hábito de receber visitas — amigos do Judiciário e do Ministério Público em especial. Em quatro sofás em modelo Luiz XV, os convidados debatem com o anfitrião os assuntos mais polêmicos do dia. As conversas, que duram cerca de quatro horas, são estimuladas pelo consumo livre de vinho, charuto e cachimbo. Em um desses encontros recentes, Witzel exibiu o repertório de figurinhas em seu WhatsApp (conhecidas como stickers). Entre as favoritas uma imagem dele próprio com uma faixa presidencial e outra do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), seu desafeto público, com um nariz de pinóquio.
Política nos tempos do WhatsApp. Witzel dispara de seu próprio celular figurinha de seu desafeto João Doria com nariz de Pinóquio. Foto: Reprodução
Política nos tempos do WhatsApp. Witzel dispara de seu próprio celular figurinha de seu desafeto João Doria com nariz de Pinóquio. Foto: Reprodução
Nos últimos meses, Doria, também em campanha presidencial antecipada, fez troça de Witzel ao batizá-lo de Rambo. “Ele estava tentando me ridicularizar. Achei absolutamente desrespeitoso. O Doria já demonstrou que não é pessoa confiável. Disse que ia cumprir o mandato e na primeira oportunidade disputou a eleição”, afirma, para em seguida emendar com um clássico witzeliano (ser otimista ao extremo como fez na campanha de 2018, quando jurava que ganharia a disputa mesmo tendo 1% nas pesquisas). “O Doria de amanhã é o Eduardo Paes de ontem. Será derrotado com larga margem. O povo não perdoa. Fui eleito com um discurso duro pela segurança. E o Doria já está mudando. Na cabeça dele, quer ir para o centro. Ele está querendo ser mais moderado. Eu não!”, rivaliza.


Desde que tomou posse, em janeiro, Witzel começou a falar abertamente sobre sua vontade de ser candidato a presidente da República em um futuro próximo. Numa conversa sem nenhum sinal de ironia, chegou a afirmar que almeja encerrar a carreira pública como secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU).
Witzel também dispara figurinhas que enaltecem sua imagem. Foto: Reprodução
Witzel também dispara figurinhas que enaltecem sua imagem. Foto: Reprodução
Tamanha confiança faz Witzel assaz na crítica ao presidente Jair Bolsonaro, a quem colou sua imagem em 2018 para decolar na reta final da campanha. “O que o Bolsonaro fala, eu não falaria. Sou um pouco mais preocupado com aquilo que tenho de expressar. Meio ambiente, por exemplo. Eu não falaria em fazer cocô dia sim, dia não, como o presidente fez. Até porque isso é simplesmente inexequível. É como editar uma medida provisória sobre o uso diário de banheiro. Bolsonaro anima as redes, e o Brasil não sai do lugar.”
­ Foto: Reprodução
­ Foto: Reprodução
O governador também reclama do foco excessivo do governo federal na reforma da Previdência e da pouca importância dada à retomada do crescimento econômico. “Estou de mãos amarradas. Aqui no estado do Rio, nada aconteceu. E agora o ministro Guedes disse que os resultados não vão aparecer tão rápido. Nada foi apresentado para aquecer a economia, e essa lentidão deveria ser corrigida”, reclama.
Witzel gosta de tocar trompete no Palácio Laranjeiras. Entre suas músicas preferidas, a lacrimosa “My way
Witzel gosta de tocar trompete no Palácio Laranjeiras. Entre suas músicas preferidas, a lacrimosa “My way", eternizada por Frank Sinatra. Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Imagem de Witzel é o que não falta no Palácio Guanabara. Sua foto oficial com a faixa — replicando as cores azul e branca da bandeira do Rio de Janeiro — está espalhada pelos corredores e decora as paredes dos gabinetes dos secretários. A criação do símbolo foi pedida por ele, antes da posse, ao então governador em exercício, Francisco Dornelles. Sua adoração pelo adorno chega a ponto de ter feito minirréplicas das faixas para os filhos usarem no Carnaval.
A história recente prova que, no estado do Rio, as liturgias por vezes se tornam irônicas. Desde 1992 foi adicionado à bandeira do estado, abaixo da estrela Delta cor prata que representa o Rio no pavilhão nacional, o lema escrito em latim: Recte Rempublicam Gerere (gerir a coisa pública com retidão). Dos nove governadores que juraram servir a essa bandeira de lá para cá, quatro foram presos.


Na entrada do Palácio Guanabara, visitantes e funcionários são recebidos por um vídeo do governador, espécie de tutorial sobre como usar o crachá. “Não sou vaidoso. Mas gosto de ter uma boa imagem. Fui militar, fui juiz. Não sei despachar de qualquer jeito”, justifica.
“Witzel gosta de se exibir paramentado — a faixa oficial foi criada a seu pedido. ‘Não sou vaidoso. Mas gosto de ter uma boa imagem. Fui militar, fui juiz. Não sei despachar de qualquer jeito’”
­
­
O governador optou por morar com a família no Palácio Laranjeiras — residência oficial do Estado — por questão de segurança. Todos os dias, por volta de 5h30, toma café da manhã com a primeira-dama, Helena Witzel, e três de seus quatro filhos. A marca de Helena, aliás, está por todos os lados. Conversam sobre política. Ela tem ingerência sobre a comunicação e as redes sociais e atua, acima de tudo, nos bastidores do governo. Trata de cada detalhe da aparência do marido. Até o brilho de suor na testa de Witzel a preocupa. Em uma das mesas do gabinete do governador, a inclusão de 40 imagens de Nossa Senhora Aparecida foi obra da primeira-dama.

Helena Witzel cuida da imagem do marido, mas também é preocupada com a própria. Desde o início do governo, já clareou o cabelo, colocou silicone e fez outras cirurgias para retocar o rosto, como uma no nariz. Ciumenta, ela comanda com mão firme quem acessa os camarotes do governo no Sambódromo e no Maracanã. Quanto menos mulheres perto do marido, melhor. É atribuída a ela uma ordem extraoficial para que as funcionárias não usem decotes nem blusas de alcinha. A advogada de 37 anos foi aluna de Witzel em Vila Velha.
Flagrante dos tempos de estudante. Depois de fazer um curso técnico de topografia, Witzel entrou, aos 18 anos, na Escola de Formação de Oficiais da Marinha. Foto: Reprodução
Flagrante dos tempos de estudante. Depois de fazer um curso técnico de topografia, Witzel entrou, aos 18 anos, na Escola de Formação de Oficiais da Marinha. Foto: Reprodução
Na quarta-feira, a primeira-dama reclamou ao perceber que um fotógrafo de ÉPOCA estava registrando o governador tocando trompete de manhã cedo no Palácio Laranjeiras. Quis saber a razão da presença do profissional e disse que não havia necessidade da foto. Witzel gracejou: “Não tem problema. Tá vendo? Quem manda aqui sou eu!”. No último dia 23, Witzel tocara trompete para alunos de uma escola na Zona Oeste. No palácio, esmerou-se em interpretar a chorosa “My way”, clássico eternizado por Frank Sinatra.

As decisões e falas do governador por vezes refletem em sua vida de pai. O filho Vicenzo, de 13 anos, conta que em alguns momentos é pressionado por opiniões controvertidas do pai, como a relação conflituosa com as universidades estaduais. Witzel chegou a propor uma lista tríplice para a reitoria das instituições, mas o debate foi adiado na Assembleia Legislativa. O filho disse ter ouvido no Colégio São José — escola particular da Tijuca: “Seu pai vai acabar com a Uerj”.
O outro filho do governador, Erick, de 24 anos, tornou-se notícia ao ser nomeado para um cargo na gestão de Marcelo Crivella na prefeitura do Rio. Interpretou-se tal medida como uma dupla reaproximação — entre pai e filho e entre governador e prefeito. Transexual, Erick reclamara no passado de que o pai não o aceitara. Já Crivella trocara críticas públicas com Witzel e agora discutem até alianças para 2020.

Depois do encontro matinal com a família, Witzel define quem quer receber, diz. Marca diretamente cafés e almoços, este com um cardápio pesado — arroz, feijão e costela estão na base da alimentação, que o governador garante adorar. Na tarde da entrevista, o escolhido tinha sido um procurador do estado.
A família durante o desfile das escolas do Grupo Especial. Ciumenta, Helena Witzel controlou o acesso ao camarote do governo no Sambódromo. Foto: Carlos Magno
A família durante o desfile das escolas do Grupo Especial. Ciumenta, Helena Witzel controlou o acesso ao camarote do governo no Sambódromo. Foto: Carlos Magno
Depois de 20 anos de poder no Rio de Janeiro, o PMDB esfacelou-se. Os ex-governadores Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão e o ex-deputados Eduardo Cunha e Jorge Picciani, que comandaram a máquina do partido, estão presos. O grande grupo de deputados estaduais que frequentaram os gabinetes de Cabral, Pezão, Cunha e Picciani foi publicamente rejeitado na campanha eleitoral de Witzel. Após um início de relacionamento atribulado com a base parlamentar, já compartilha os tais charutos, vinhos e jantares com deputados estaduais mais graduados no Palácio Laranjeiras.
Em 27 de junho passado, uma cena emblemática marcou o início de uma acomodação entre os Poderes. De um jeito um tanto inusitado. Acontecia na Assembleia a votação de um projeto de lei do deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSDB) que exigia metas de desempenho às empresas que recebem concessão do estado. O governo havia vetado. Mas havia chance de derrubada da decisão, porque a maioria de Witzel na Assembleia é eventual. Numa solenidade no plenário em homenagem à maçonaria, Witzel pegou duas espadas decorativas e brincou com o presidente da Casa: “Um petista de carteirinha! Vamos então ao duelo!”.

O filho Erick, de 24 anos, ganhou um cargo na gestão de Marcelo Crivella, um sinal da reaproximação entre o governador e o prefeito do Rio. Foto: Reprodução
O filho Erick, de 24 anos, ganhou um cargo na gestão de Marcelo Crivella, um sinal da reaproximação entre o governador e o prefeito do Rio. Foto: Reprodução


André Ceciliano, do PT, é hoje o presidente da Assembleia Legislativa do “racional” Witzel. É assim que o governador se define: “Não sou direita nem esquerda, sou racional”. Uma intensa engenharia se formou para que o experiente petista e o governador se afinassem. Atualmente, os encontros entre os dois acontecem também regados a vinho em jantares no Laranjeiras. A repulsa às antigas formas de governabilidade sumiu do discurso do governador e a distribuição de cargos a apaniguados segue a cartilha de sempre.

Witzel se elegeu como o novo na política, mas vem se aproximando da velha política para conseguir tocar o estado. Colocou como seu secretário de Governo Cleiton Rodrigues, ex-homem forte de campanhas de Cesar Maia e Anthony Garotinho.
Witzel se aproxima sem pudor da velha política. O Pastor Everaldo (na foto, em um culto ao lado de Eduardo Cunha) fez várias indicações para cargos importantes e não reclama de nada. “Tenho espaço total. Tenho o governador”, disse. Foto: Marcos Arcoverde / Estadão Conteúdo / AE
Witzel se aproxima sem pudor da velha política. O Pastor Everaldo (na foto, em um culto ao lado de Eduardo Cunha) fez várias indicações para cargos importantes e não reclama de nada. “Tenho espaço total. Tenho o governador”, disse. Foto: Marcos Arcoverde / Estadão Conteúdo / AE
O Pastor Everaldo, presidente nacional do PSC do governador e personagem conhecido da política do Rio por integrar gestões como a de Anthony Garotinho, conseguiu indicações na empresa de águas e esgotos, na companhia de habitação, no Departamento Estadual de Trânsito e na Secretaria de Estado das Cidades. Está mais do que satisfeito. “Tenho espaço total. Tenho o governador. Meu filho é assessor especial do governo”, disse Everaldo, sem ruborizar-se, em referência a Filipe Pereira. Seu aliado, o ex-deputado federal André Moura, também unha e carne com Eduardo Cunha, ganhou uma representação do governo em Brasília. “Se analisar bem, a política de segurança está agradando a população do Rio. A questão de ser evangélico é se pautar pela ética, é pagar imposto. A política é acertada, porque não adianta ir com florzinha na mão. Tá todo mundo cansado de enxugar gelo. Esse negócio de direitos humanos não dá mais. Quando um bandido morre, todo mundo se comove. Quando é um policial, ninguém liga”, defende Everaldo, como se nunca tivesse lido a Bíblia.
A política e a aliança com Everaldo forraram os bolsos de Witzel. Durante o ano passado, um salário de R$ 21.500 mensais foi pago para o então candidato a governador para ser advogado do PSC — ao todo foram desembolsados R$ 216 mil do Fundo Partidário para Witzel. Pouco mais de 15 dias após a rescisão do contrato do governador, quem assumiu como advogada do partido foi a primeira-dama, Helena Witzel.

Com Everaldo, Witzel irá no próximo dia 30 ao Maranhão participar da filiação de 15 deputados federais ao PSC. Indícios do olhar já declarado para a sucessão de Bolsonaro, em 2022. Witzel não diz que quer ser presidente. Afirma que será presidente, com a mesma certeza com que falava que seria governador quando ainda era traço nas pesquisas, relatam ao menos seis pessoas próximas ouvidas por ÉPOCA, entre políticos e colegas do meio jurídico. Esse sonho de voo de Witzel pode ser tão blefe quanto o curso em Harvard que contrabandeou no currículo sem nunca ter sido aluno da universidade americana.

Em resposta, o núcleo de imprensa do governo do estado do Rio de Janeiro elaborou uma nota de posicionamento sobre a matéria, que é reproduzida na íntegra abaixo:
1 – No intuito de sustentar uma versão sobre a política de segurança do governo, que priorizaria o confronto e seria ineficiente, a reportagem divulgou timidamente os índices de homicídio doloso no estado. Os dados do ISP são inequívocos e comprovam que os índices vêm caindo mês a mês e são os menores do período de janeiro a julho desde 1991, quando começou a série histórica. No acumulado deste ano, foram registrados 2.392 casos. Na comparação com o mesmo período do ano passado, foram 709 vidas preservadas no estado. Além disso, o mês de julho deste ano foi o que registrou menos vítimas desde agosto de 2015. Foram 309, uma redução de 25% em relação ao mesmo período do ano passado.
2 - Essa expressiva redução no número de mortes demonstra o acerto da política de segurança do Governo do Estado do Rio de Janeiro, que tem o objetivo de preservar vidas e é baseada em inteligência, investigação e aparelhamento das polícias Civil e Militar. Para isso, o governo vem investindo esforços e recursos. E os resultados já aparecem de forma objetiva:
- O Departamento de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e Lavagem de Dinheiro foi ampliado, aumentando o número de investigações em mais de 700% neste ano, se comparado ao mesmo período do ano passado. Mais de R$ 50 milhões em bens de investigados já foram sequestrados.
- A Secretaria de Polícia Civil vem intensificando as investigações que apuram a atuação das milícias. Só em julho, mais de 60 milicianos foram presos em ações da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas (DRACO) e de outras unidades.
- As polícias apreenderam 5.077 armas, sendo 349 fuzis. O número já é maior do que o total apreendido em 2018, que foi de 330.
3 – Época também foi incorreta ao destacar que o número de homicídios vem caindo nos últimos anos. Dados apontam que, em plena intervenção federal, em 2018, foi verificada uma queda de 7%, em relação ao ano passado, num total de 4.950 homicídios. Foi a partir de 2019, que aconteceu uma redução significativa no número de assassinatos (23%). Vale destacar que antes disso, em 2016, foram registrados 5.042 casos, um aumento de 20% em relação a 2015. Em 2017, houve 5.346 mortes, um crescimento de 6% em comparação com 2016.
4 - Ao contrário do que Época erroneamente salientou em sua reportagem, o número de mortos por intervenção do estado registrado em julho não é o maior da história do Rio de Janeiro, e sim desde 1998.
5 - É totalmente inverídico afirmar que o governador "não se importa" com as mortes. Foi por determinação de Witzel que a Secretaria de Vitimização e Amparo à Pessoa com Deficiência, a única do tipo no país, fez contato com todas as famílias de vítimas da guerra do narcoterrorismo, assim como a do jovem que sequestrou o ônibus na Ponte Rio-Niterói. A secretaria, inclusive, recebeu e está prestando toda a assistência aos familiares da jovem Margareth Teixeira, citada na reportagem. Se houvesse apuração, não haveria mais este erro por parte da revista.
6 – No afã de construir uma imagem estereotipada, Época faltou com a verdade ao dizer que o governador encomendou faixas para seus filhos. Na verdade, as faixas foram dadas por um amigo à família, para serem usadas dentro do espírito de brincadeira do Carnaval, tradicional nos festejos do Rio de Janeiro. A Época também faltou com a verdade ao publicar que um dos filhos do governador reclamou do pai o ter rejeitado. Em recente carta à Revista Veja, Erick Witzel disse exatamente o contrário.