March 17, 2019

Vida e trajetória de Marielle inspiram projetos de jovens negras de favelas


Exemplo da vereadora, morta há um ano, impulsiona projetos sociais e políticos de outras mulheres 

 

Ana Luiza Albuquerque Júlia Barbon

Se calaram Marielle Franco (PSOL), falam cada vez mais alto as Blendas, Milenas, Thaises e Rayannes. É uma geração de mulheres jovens, negras e criadas em favelas, a exemplo da vereadora, que foram impulsionadas por sua eleição e por sua morte, ocorrida há exatamente um ano —dois suspeitos de serem responsáveis pelo crime foram presos na terça (12).
São ativistas que viram na parlamentar um estímulo para seus projetos políticos ou sociais. “Não tem como falar da gente sem falar das que vieram antes”, diz Milena Santos, 24, nascida no morro do Borel, na zona norte carioca.
No caso dela e de sua amiga Blenda Paulino, 20, Marielle serviu como semente. Dias depois do assassinato da vereadora, elas fundaram com amigos de outras favelas um coletivo para discutir política.

O grupo de jovens, batizado de Brota na Laje, se reúne quinzenalmente em lajes da zona norte para aproximar o tema de suas comunidades. O próximo passo é implantar um cursinho pré-vestibular no Borel. Foi por meio de um desses cursinhos que Marielle, nascida no Complexo da Maré, chegou à PUC-Rio.
“A Marielle foi a primeira mulher negra em quem votei. E votei com a maior felicidade do mundo, por ser alguém que sabia que abraçaria as causas que me afetam diretamente”, afirma Blenda.
Filha da deputada estadual Mônica Francisco (PSOL), ex-assessora de Marielle, Milena acompanhou de perto o mandato da vereadora. “Ela sempre falava que não tinha vocação para ser mártir, mas foi o que acabou se tornando. A gente não quer nossos heróis mortos”, diz.
Rayanne da Silva, 21, esteve com Marielle na noite de seu assassinato. Também ex-assessora da parlamentar, a jovem participou do evento com mulheres negras em que ela estava momentos antes de ser morta. “Temos que transformar o medo em alguma coisa. Existia uma Marielle, mas olha quantas somos”, afirma.
Quando conheceu a vereadora, Rayanne logo se deu conta das similaridades entre suas histórias de vida. Nascidas na Maré, ambas foram mães aos 18 anos, ingressaram no pré-vestibular comunitário e atuaram em ONGs. “Essa vontade que eu tenho foi personificada numa pessoa que teve uma superpotência. Dá um estímulo.”
Hoje ela promove a articulação com movimentos sociais no gabinete da deputada estadual Renata Souza (PSOL). Às vezes também acompanha a atuação da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do RJ, presidida pela parlamentar.
Rayanne acha que a história de seus familiares poderia ter sido diferente se eles soubessem o que o grupo faz. Isso porque, há dez anos, tiveram dificuldade para enterrar seu pai, dependente químico, assassinado em uma favela de uma facção rival à da comunidade em que morava.
Os traficantes não queriam entregar o corpo, e a família teve que pagar à polícia para ajudar a liberá-lo. A comissão, acredita, poderia ter facilitado a resolução do problema. A situação simboliza a distância entre a política institucional e moradores de comunidades.

Quem também percebeu essa distância foi Thais Ferreira, 30, empreendedora social. Durante o acompanhamento da gravidez em hospital público, com problemas na estrutura e no atendimento, ela notou que mulheres muitas vezes não conheciam seus direitos.
A partir daí, criou o Mãe&Mais, projeto que já levou assistência e informação a grávidas e mães em 21 locais no Rio. Alguns anos depois, em 2018, se candidatou a deputada estadual pelo PSOL, mas não foi eleita e se tornou suplente.
Thais diz que a política sempre fez parte de sua trajetória. “Não é que aconteceu uma coisa na minha vida que me despertou para a luta. Já nasci no meio dela, seria estranho se não a honrasse.”
Ela conta que era muito tímida até a quinta série, quando pediu para mudar da escola privada para a pública. “Na escola particular não me reconhecia em ninguém. Meu irmão contava coisas incríveis sobre a escola pública, dizia que tinha um monte de criança preta igual à gente.”
Dias antes de ser assassinada, Marielle perguntou se Thais iria mesmo se candidatar. Era comum que a vereadora incentivasse outras mulheres negras a dividir com ela o espaço da política institucional. Marielle tinha um lema: “Uma sobe e puxa a outra”.





 


fotos Danilo Verpa e Raquel Cunha 


March 9, 2019

O método Damares



 
Vinicius Sassine e Natália Portinari
 
Em 2010, a vida de Arã, uma jovem indígena sateré-mawé, mudou radicalmente. Nascida em uma aldeia acessível apenas por vias fluviais, no coração da floresta amazônica, ela foi parar na chácara de uma ONG religiosa em Brasília, acompanhada de seus pais adotivos. Lá, a menina, então com 14 anos, buscaria tratamento para problemas mentais, mas acabou engravidando de um jovem de outra etnia que também havia ido parar ali. Arã queria que sua filha se chamasse Mariana, mas não teve a oportunidade de dar o nome à criança. Quatro dias após o parto, o bebê foi retirado de seus braços e entregue ao irmão e à cunhada de uma das dirigentes da ONG.
Narrada em um relatório sigiloso do Ministério Público Federal (MPF) a que ÉPOCA teve acesso, a história de Arã está no centro de uma longa disputa judicial que envolve a organização Atini — a ONG em questão —, criada pela atual ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. Oficialmente, a entidade destinava-se a auxiliar comunidades indígenas. A ONG está sendo processada por separar o bebê da mãe e de sua família indígena e entregá-lo irregularmente a pessoas sem vínculo com a cultura sateré-mawé.
O caso, ainda em tramitação na Justiça do Rio de Janeiro, reproduz o que parece ser um método da Atini para separar crianças indígenas de seus povos. A própria entidade afirma já ter abrigado 51 crianças em sua sede, em Brasília. Ela é alvo de uma série de ações judiciais pela retirada de índios de aldeias. O roteiro é quase sempre o mesmo: uma criança indígena, rejeitada no nascimento e criada por outros índios, que sofre maus-tratos, acaba acolhida pela entidade. O suposto passado de violência levaria inclusive a risco de morte — tratado em vários casos como infanticídio —, o que justificaria o “resgate” feito pela ONG.
Chamadas a prestar esclarecimentos na Justiça, pessoas ligadas à entidade adotaram essa fórmula para justificar a saída da adolescente sateré-mawé da aldeia e a posterior tomada de seu bebê. Segundo a Atini, Arã foi rejeitada pelos pais no nascimento, por apresentar problemas mentais. Em sua aldeia, na Amazônia, a jovem cresceu sob os cuidados de um casal de índios, sofreu maus-tratos e acabou sendo vítima de algo ainda pior. Na história contada pela ONG, Arã, ainda uma criança, foi vítima de constantes rituais de estupro coletivo em sua tribo, sofrendo abuso por 32 índios, incluindo seu pai biológico. Os dirigentes da ONG citam o calvário da índia para justificar problemas psicológicos que a teriam feito rejeitar o próprio bebê.
O relatório do Ministério Público reproduz o relato de integrantes da entidade. “Souberam que a adolescente havia sido rejeitada pelos pais por apresentar problemas mentais. Foi criada por outro casal indígena, mas era maltratada com frequência e usada sexualmente por vários membros da tribo. Antes de ‘E’ (inicial do nome do bebê, dado pelos pais adotivos) , já havia tido outros filhos, mas não sabem o que ocorreu com eles. O infanticídio era cometido quando a criança nascia com algum problema de saúde, era filho ilegítimo (como no caso da adolescente) ou outras características malvistas pela tribo. A gravidez foi descoberta quando os pais adotivos de Arã solicitaram ajuda à ONG para tratamento das convulsões (...) Arã refletiu a cultura de sua tribo e rejeitou sua filha.”
Essa versão é completamente desconstruída no relatório do Ministério Público. O analista em antropologia Walter Coutinho Jr., que assina o documento, chega a destacar que “impressiona o exacerbado preconceito” demonstrado pelos integrantes da ONG ao narrar a história da índia Arã, de sua família e do próprio povo sateré-mawé. Em um laudo citado pelo MPF, um médico afirma “em letras garrafais” que Arã não possui nenhum transtorno mental. Para o MPF, “inexiste qualquer comprovação de que a adolescente ( Arã ) tenha sido rejeitada pelos pais por apresentar problemas mentais”. Essa afirmação, segundo o MPF, “carece de qualquer comprovação etnográfica conhecida”, assim como o suposto infanticídio cometido pelos saterés-mawés “quando a criança nasce com algum problema de saúde ou ‘outras características malvistas pela tribo’ não possui respaldo etnológico”. Segue o relatório: “A afirmativa de que Arã seria ‘maltratada com frequência e usada sexualmente por vários membros da tribo’ não explicita quem era o autor dos maus-tratos”. No curso da elaboração do relatório, o MPF foi até a aldeia de Arã, acompanhou sua rotina com a família e também atestou a normalidade das relações dela com os parentes.
“Qual é, afinal, a fonte ou o fundamento de tantas afirmações peremptórias sobre a jovem, seus familiares e o povo indígena ao qual pertencem?”, questiona o perito Walter Coutinho Júnior, para, na sequência, ele mesmo responder: “O testemunho de integrantes da Atini!”. Um relato de um membro da ONG conta, por exemplo, que Arã foi rejeitada pelos pais adotivos e entregue aos cuidados dos missionários por estar grávida. O MPF refuta a afirmação: “A adolescente não foi rejeitada e entregue aos cuidados da ONG por estar grávida, e sim preservada por eles da viagem a uma região remota (de volta à aldeia) , quando já havia engravidado na chácara da entidade”.
Foto postada pela ministra Damares Alves nas redes sociais com os supostos pais adotivos da índia Kajutiti Lulu, que ela criou Foto: Reprodução
Foto postada pela ministra Damares Alves nas redes sociais com os supostos pais adotivos da índia Kajutiti Lulu, que ela criou Foto: Reprodução
Questionado pelo Ministério Público, o roteiro de “distorções” da Atini sobre a cultura dos índios saterés-mawés foi utilizado recentemente pela ministra Damares Alves para justificar a adoção irregular da jovem Kajutiti Lulu, de 20 anos, tirada de uma aldeia kamayurá, no Parque do Xingu, quando tinha 6 anos de idade. Segundo as alegações da Atini, Lulu teria sido rejeitada por seus pais biológicos e salva de ser enterrada viva, num ato tribal de infanticídio. Assim como Arã, Lulu foi levada para a cidade para um tratamento de saúde. Acabou sendo criada irregularmente como filha por Damares Alves , como contou ÉPOCA no início deste mês. Apesar das acusações da ministra de que a menina sofria maus-tratos entre seus familiares, a própria Damares posou recentemente em uma foto com os pais adotivos de Lulu, de quem se disse amiga, sem fazer qualquer menção ao passado supostamente cruel de Lulu no Xingu.


Documento do Ministério Público assinado pelo analista em antropologia Walter Coutinho Jr

Segundo os habitantes da aldeia ouvidos pela reportagem, Lulu foi levada para a cidade por Márcia Suzuki, dirigente da Atini e braço direito de Damares Alves, para fazer um tratamento dentário e nunca mais voltou. Em entrevista ao UOL após a publicação da reportagem, a própria Lulu confirmou que saiu de casa para cuidar dos dentes em Brasília. Depois de ÉPOCA revelar o caráter irregular da suposta adoção de Lulu, a ministra disse que era apenas “cuidadora” da menina e reconheceu que nunca formalizou a adoção, como pede o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Por causa das revelações de ÉPOCA e por outros atos controversos de Damares, dois advogados de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, entraram na terça-feira com ação popular na Justiça Federal para pedir o afastamento imediato da ministra do cargo.
No caso da ministra, a relação com Lulu atravessou os anos no anonimato e na informalidade. No caso da índia Arã, a situação é ainda mais grave, porque houve tentativa formal de adoção de sua filha, o que comprovaria a intenção da Atini de não devolver a menina a seu povo. Tanto no caso de Lulu quanto no caso do bebê retirado da mãe, a dirigente da Atini, Márcia Suzuki, é personagem central da trama. Depois de levar Lulu do Xingu, Márcia levou o bebê de Arã a seu próprio irmão, Marcos dos Santos, e a sua cunhada, Angélica, que prontamente entraram na Justiça com um processo formal de adoção. O casal, mesmo sabendo que a menina recém-nascida tinha mãe, tratou logo de batizá-la com outro nome. Foi ao saber da adoção envolta em questões suspeitas que a Justiça do Rio de Janeiro abriu uma investigação para apurar os motivos que levaram a criança indígena a ser afastada da família e do povo sateré-mawé.
O afastamento do bebê de sua mãe ocorreu em setembro de 2011. Depois de se recuperar do parto, a adolescente acabou levada pelos integrantes da Atini para um sítio no município de Duque de Caxias, no Rio, pertencente a outra ONG com atuação entre os indígenas, a Jovens com uma Missão (Jocum), também ligada a Márcia e à Atini. O MPF registra que foi apenas meses após o nascimento da criança, já em 2012 — depois de Arã fugir do sítio da Jocum e ser encontrada na rua com “marcas de maus-tratos pelo corpo” —, que autoridades tomaram conhecimento do desejo da jovem de manter a filha consigo e de retornar a sua aldeia no Amazonas. Ela foi encaminhada pela Justiça a um abrigo, também em Duque de Caxias. Em 2013, uma perita do MPF a visitou e constatou “a certeza de que a menor deseja muito voltar para sua comunidade”.
O relatório da visita conta a seguinte história: “Ao ser informada que tinha direito a ficar com a sua filha, ( Arã ) exclamou ‘Eu quero, eu quero! Eu tenho direito? Então eu quero minha filha!’. ( Uma profissional ) mostrou-lhe fotos da filha e ela ficou muito emocionada. Explicamos a manifestação do Ministério Público para que a filha retorne para a genitora e do possível adiamento em razão da espera da bebê e avaliação para que seja autorizado o seu eventual retorno com a bebê para sua comunidade indígena de origem”. O retorno foi autorizado em 2013, mas a Justiça não determinou a reunião com a filha, já há dois anos com o irmão de Márcia e sua esposa. A essa altura, os tios maternos de Arã já haviam retornado à aldeia e enviado um ofício, por meio da Funai, pedindo o retorno da jovem também.
Para além das histórias de Arã e Lulu, a própria ministra Damares Alves já deu declarações que indicam a existência de outras crianças tiradas de aldeias nas mesmas condições. Em 2017, Damares contou a história da criação da Atini em um discurso na Câmara dos Deputados. “Os índios começaram a ouvir que havia um movimento nesta casa falando sobre avançar neste tema e começaram a bater à porta dos gabinetes, pedindo socorro. Foi assim que eu me tornei mãe de uma menina, aqui nesta casa, uma menina kamayurá que corria risco em sua aldeia”, disse. “Foi assim que o deputado Henrique Afonso, do PT do Acre, se tornou pai de um menino xavante”, continuou. “Foi à porta do gabinete dele que foi pedido socorro. E foi assim que eu me tornei mãe de uma segunda menina, também xavante. Quando bateram à porta do gabinete, pedindo socorro.”
ÉPOCA questionou Damares nesta semana sobre quem é essa segunda filha e a circunstância de sua adoção. Por sua assessoria, a ministra disse que teve a guarda provisória da criança enquanto ela fazia um tratamento e que depois a menina foi encaminhada para outra família na cidade, que a adotou formalmente. “A menina visita a aldeia com frequência, e sua mãe biológica faz visitas regulares a seu lar adotivo.”
Além de atuar em casos em que é acusada de subtrair indígenas de suas aldeias, a Atini atende até hoje crianças doentes acompanhadas por seus pais em tratamentos na cidade. Em respostas enviadas à reportagem no início do mês, a Atini afirmou que todas as crianças indígenas em sua propriedade em Brasília estão acompanhadas de familiares. Isso não impede, porém, que quem mora nas aldeias peça o retorno das crianças, como ocorreu no caso de índios kamayurás, saterés-mawés e suruwahás. Nos dois últimos casos, houve registros e investigação.
No caso de Lulu, a ministra se amparou em outros parentes da menina índia, incluindo Piracumã e Kamaiulá, considerados seus pais adotivos, para negar que tenha cortado os contatos com a família. “Lulu não foi arrancada dos braços dos familiares. Ela saiu com total anuência de todos e acompanhada de tios, primos e irmãos para tratamento ortodôntico, de processo de desnutrição e desidratação. Também veio a Brasília estudar.”
Damares Alves intermediou também a adoção de outra criança xavante por um pastor em São Carlos, São Paulo. Procurado, tanto o pastor quanto o deputado Henrique Afonso afirmaram que regularizaram na Justiça a guarda definitiva dos xavantes que adotaram, mas não passaram por um processo de adoção, já que as crianças mantêm seus vínculos com a aldeia Xavante, em Mato Grosso. “Assim o movimento Atini cresceu e se transformou na instituição Atini, porque não havia onde colocar as crianças. A instituição nasceu para acolher as crianças”, contou Damares no discurso de 2017.
Integrantes da ONG Atini rezam agradecendo a aprovação do Projeto da Lei Muwaji na CCJ da Câmara dos Deputados, texto que prevê a punição a agentes de saúde que se omitam em casos de infanticídio em aldeias Foto: Jorge William / Agência O Globo
Integrantes da ONG Atini rezam agradecendo a aprovação do Projeto da Lei Muwaji na CCJ da Câmara dos Deputados, texto que prevê a punição a agentes de saúde que se omitam em casos de infanticídio em aldeias Foto: Jorge William / Agência O Globo
Em 2006, Márcia Suzuki e Edson Suzuki, seu marido, que ainda atuavam na ONG Jocum, foram contratados pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) para atuar como intérpretes da língua suruwahá no atendimento a uma criança chamada Iganani, diagnosticada com retardo de crescimento e de desenvolvimento neuropsicomotor. A partir daí, teria ocorrido a retirada de um grupo de indígenas da comunidade.
Dois extensos relatórios da Funai, elaborados em 2011, registram o que ocorreu. Para a Funai, houve uma “subtração” dos índios. Deixaram a tribo a menina Iganani e sua mãe, Muwaji Suruwahá. Segundo a Atini, Iganani fora condenada à morte por envenenamento por causa de uma paralisia cerebral. Muwaji, então, teria procurado os missionários para “enfrentar” a própria tribo. Mãe e filha foram levadas para São Paulo para tratamento médico.
Os relatórios da Funai apontam que outras duas crianças foram retiradas da comunidade posteriormente: Ahuhari, de 12 anos, e Inikiru, de 9. Os parentes das crianças exigiram o retorno delas à tribo, e em 2008 o MPF foi informado da situação. Em 2009, todos eles foram encontrados na chácara da Atini. Por mais de uma vez, os relatórios da Funai citam que a comunidade não se conformou com a ausência das crianças e que não houve consentimento para a saída do grupo.
A Funai concluiu naquele ano de 2011 ser necessário pedir uma “busca e apreensão de incapazes”, de forma que a guarda fosse devolvida à aldeia. Em 2013, o delegado da Polícia Federal Manoel Vieira da Paz Filho concluiu que não foram confirmadas as informações sobre retiradas de indígenas de suas tribos sem o conhecimento de servidores da Funai e dos líderes das tribos.
Para entender a relação entre a causa do infanticídio indígena e a atuação da Atini, é preciso remeter à origem da ONG. Márcia e seu marido, Edson, eram, já na década de 80, membros da Jocum, organização então recém-chegada ao Brasil. Fizeram parte de um grupo de missionários que testou o método de evangelização na comunidade isolada dos suruwahás, no Oeste Amazônico. Em duas décadas de atuação entre os indígenas, aprenderam a falar sua língua, traduziram a Bíblia, se envolveram para impedir a prática do suicídio, recorrente na aldeia, e retiraram crianças de lá. Tudo culminou em uma investigação do MPF no início dos anos 2000.
Por trás da discussão cultural, estava um vácuo legislativo, segundo um documento produzido pela Procuradoria-Geral da República (PGR) na época. Antes da Constituição de 1988, índios eram considerados inimputáveis. Portanto, não podiam ser culpados por crimes como o infanticídio. Isso mudou, sem que ficasse claro como eles seriam integrados à lei brasileira. “O ordenamento jurídico brasileiro não criou ainda, apesar do que dispõe a Constituição, normas concretas que permitam o reconhecimento efetivo das regras de conduta interna dos diferentes povos indígenas no país”, discorre texto incluído em laudo do MPF sobre os suruwahás. Era preciso, argumentou o perito Walter Coutinho Jr. — o mesmo antropólogo que trabalhou na análise do caso de Arã, em 2013 —, criar soluções legislativas.

Em dezembro de 2005, foi firmado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre MPF, Funai, Funasa e Jocum para que os missionários abandonassem a terra suruwahá. Meses depois, foi oficializada a criação da Atini, com a bandeira da criminalização do “infanticídio indígena”. Mesmo que autoridades afirmem que a prática se reduz a algumas etnias, nos anos seguintes os membros da ONG, incluindo Damares Alves, percorreram o Brasil divulgando o problema no meio evangélico como algo generalizado entre índios. Os membros da Jocum só abandonaram em definitivo o território suruwahá por volta de 2009, após insistentes tentativas do MPF.
Os missionários seguiram outra recomendação do Ministério Público, porém: buscar uma lei para resolver o impasse. O Projeto da Lei Muwaji, que quer punir agentes de saúde por omissão de socorro em casos de infanticídio em aldeias, foi proposto em 2007 na Câmara dos Deputados. Seu nome, segundo a descrição, é “em homenagem a uma mãe da tribo dos suruwahás que se rebelou contra a tradição de sua tribo e salvou a vida da filha, que seria morta por ter nascido deficiente”. O autor é o deputado Henrique Afonso — à época, do PT do Acre —, um dos muitos parlamentares que empregaram a pastora Damares Alves como assessora em seu gabinete e o mesmo que adotou a criança xavante.
O Projeto de Lei abre uma brecha para a atuação de entidades como a Jocum, porque não trata apenas de punição. “Qualquer pessoa que tenha conhecimento de casos em que haja suspeita ou confirmação de gravidez considerada de risco (...), de crianças correndo risco de morte (...) serão obrigatoriamente comunicados (...) à Funasa, à Funai, ao Conselho Tutelar da respectiva localidade ou, na falta deste, à autoridade judiciária e policial, sem prejuízo de outras providências legais”, diz a proposta. A recomendação é que as crianças correndo “risco” sejam retiradas e entregues a organizações governamentais ou não governamentais, devidamente credenciadas. Atini significa “voz” na língua suruwahá.
Em 2013, em um culto evangélico publicado no YouTube, Damares vocifera contra o infanticídio. “Descobrimos, irmãos, que temos em torno de 120 etnias indígenas no Brasil e entre 30 e 40 matam seus filhos. Na verdade, só tivemos prova disso em 2004, e em 2006 começamos a fazer o enfrentamento”, disse. “Nós temos um estudo, que ainda não é oficial, que, por ano, 450 crianças indígenas no Brasil estão sendo enterradas vivas.”
Não há base documental para as alegações da pastora. Duas notas técnicas produzidas em 2015 e em 2016 pela Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde, detalham a extensão da prática do infanticídio — que a pasta prefere chamar de neonaticídio — no Brasil, por etnia. O primeiro documento afirma terem ocorrido 40 mortes em 2014, assim distribuídas: 32 nos ianomâmis, uma nos sanumás e uma nos xirianas, registradas pelo distrito existente nos ianomâmis; duas nos kaingangs, registradas no distrito Interior Sul; duas nos kaiowás, em Mato Grosso do Sul; uma nos barés, registradas no distrito de Manaus; e uma nos guajajaras, no Maranhão.
Indígenas na ONG Atini, a entidade fundada pela ministra Damares Alves em 2006 com o objetivo de combater o infanticídio Foto: Vinicius Sassini
Indígenas na ONG Atini, a entidade fundada pela ministra Damares Alves em 2006 com o objetivo de combater o infanticídio Foto: Vinicius Sassini
Ainda assim, a Atini seguiu como uma organização cujo único objetivo declarado é impedir o infanticídio. Na prática, separou jovens indígenas de suas comunidades. O cacique Kotok Kamayurá, ouvido por ÉPOCA a respeito do caso de Lulu Kamayurá, defendeu que a organização seja fechada. “Não é assim, não (essa história de infanticídio), é o contrário. Tem de fechar a Atini. Porque é para lá que vão esses índios que estão saindo daqui.” Em 2009, líderes dos yawalapitis, de Mato Grosso, e kayapós, do Pará, denunciaram à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados a adoção ilegal de crianças indígenas pela Jocum e pela Atini.
Segundo a página da entidade na internet, hoje “a Atini assiste crianças das etnias kamayurá, kajabi, suruwahá, kuikuro, ikpeng”. Não há registros oficiais de infanticídios recentes nessas populações compilados pelo Ministério da Saúde. No Parque do Xingu, em Mato Grosso, visitado por ÉPOCA, indígenas de diversas etnias negam a perpetuação da prática nos dias de hoje. Em 2013, segundo os documentos produzidos pelo MPF, havia “ao menos 23 autos em curso no MPF (judiciais e/ou extrajudiciais), que têm por objeto a investigação de supostas irregularidades concernentes à atuação das missões evangélicas Jocum e Atini em terras indígenas no Brasil”.
A Funai, no desenho do novo governo Bolsonaro, foi esvaziada de sua principal função, a demarcação de terras, hoje sob o Ministério da Agricultura. Sob protestos de servidores e defensores da causa indígena, o órgão ficou abrigado no Ministério da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos, comandado por Damares Alves. A jornalista Sandra Terena, amiga de Alves e militante contra o infanticídio indígena, hoje é secretária nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
A Atini afirmou, por meio de sua advogada, que “somente foi citada e é parte em três processos promovidos pelo MPF, dos quais só houve sentença em um deles”. A sentença condenatória se refere ao documentário Hakani , que retrata a história de uma índia suruwahá e foi barrado sob a acusação de encenar o ritual do infanticídio em uma aldeia em que ele não existe, difamando os indígenas. A entidade está recorrendo.
“A Atini entende que vem sofrendo perseguições em virtude de sua postura intransigente na defesa dos direitos humanos universais, não admitindo quaisquer tentativas de relativização de tais direitos”, afirmou a nota. “A postura relativista dos direitos humanos, condicionando sua titularidade e abrangência, tem sido defendida por parte do MPF, contrariando os tratados internacionais de Direitos Humanos dos quais o Brasil é signatário, os quais obrigam o Estado brasileiro a combater as práticas tradicionais nocivas, tais como o infanticídio indígena e o estupro coletivo, protegendo as vítimas e dando voz a elas.”

Quem são as crianças levadas para a Ong Atini
 
HARANI
Retirada da área suruwahá em novembro de 2002, entrou em um processo de adoção por um casal não indígena na cidade

LULU
Foi levada da aldeia kamayurá, no Parque do Xingu, Mato Grosso, para a cidade aos 6 anos. A justificativa era fazer um tratamento dentário. Não retornou em definitivo e foi criada por Damares
 
ARÃ
Jovem sateré-mawé, foi levada para a cidade aos 14 anos, com a justificativa de cuidar de sua saúde mental. Engravidou de um jovem na chácara e sua filha foi entregue a outro casal
 
XAGANI
Filho de um líder político do grupo Suruwahá, saiu da aldeia e acompanhou uma viagem de crianças e adolescentes de sua etnia para tratamento em São Paulo, patrocinada pela Atini. O MPF se queixa de que a Funasa não providenciou seu retorno

HAKANI
Levada em 2001 para tratamento médico no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, São Paulo, é uma das indígenas que a Atini alega ter salvado de ser enterrada viva. Foi adotada por Edson e Márcia Suzuki
 
ANUHARI E INIKIRU
Foram levados da aldeia suruwahá aos 12 e 9 anos, respectivamente. Em 2009, quando o MPF investigava a retirada das crianças da aldeia, foram encontrados na chácara da Atini
 
SUMAWANI
Criança levada ao hospital em abril de 2003, foi retirada da aldeia Suruwahá. Passou por uma cirurgia
 
AMALÉ
Segundo Márcia Suzuki, é um menino que foi salvo de ser enterrado vivo da aldeia kamayurá e recebia apoio da entidade








March 8, 2019

The President and the Golden Shower


Why was Brazil’s conservative leader tweeting out kink?


By Cleuci de Oliveira



 
BRASÍLIA — Carnival is one of the most anticipated events on the Brazilian calendar. There’s of course the world-famous show put on by samba schools in Rio de Janeiro, which attracts tourists from around the world, but Brazilian revelers take to the streets in cities across the nation, big and small. And every year, the parties deliver highlights — whether goofy, profound or merely bewildering — that come to define each year’s celebrations.
This year, the most talked-about moment came at the tail end of the multiday festivities, on Tuesday night, and the man who delivered it was none other than President Jair Bolsonaro. Just after 6 p.m., Mr. Bolsonaro tweeted out a 40-second clip showing a sexual act between two men, taking place in the middle of the day before a large crowd. Short on specifics, the president’s missive suggested that the incident happened at some point during the long weekend and that it represented the moral rot at the heart of a beloved national holiday.
“I don’t feel comfortable showing this, but we have to expose the truth,” he wrote. “This is what has become of many block parties during the Brazilian Carnival. Comment and draw your own conclusions.”
The tweet ricocheted around Brazilian Twitter and sent the country’s newsrooms scrambling: How to report on the presidential, er, communiqué with accuracy while still maintaining decorum? “Bolsonaro shares video of man playing with his anus and suggests this is a typical scene during carnival,” was how one newspaper, Folha de S.Paulo, framed it. The headline opted not to mention the most explosive part of the clip, which Mr. Bolsonaro addressed the following morning, again on Twitter, in seemingly faux confusion: “What’s a golden shower?” he asked coyly.
Mr. Bolsonaro’s tweet may have rendered the entire country speechless, but his motives were clear enough. First, he was seeking to demonize Brazil’s L.G.B.T. community, a marginalized population that has occupied his thoughts and rhetoric since he first emerged as a firebrand of the ultraconservative right. (In 2011, he infamously told Playboy magazine he’d rather his son die in an accident than be gay.) Now that he is president, this same community has found itself in his administration’s cross hairs.
But second, Mr. Bolsonaro was clearly smarting at the way this year’s celebrations had morphed into protests against his presidency and what it stands for. Tweeting out the video, which was eventually sourced to a block party that took place in São Paulo on Monday, was, it seems, a mystifying form of retaliation.

Carnival in Brazil isn’t just about partying, though there’s certainly plenty of that (but it should be noted that even by the raucous standards of Carnival, the explicit scene captured on video, and now immortalized by Brazil’s head of state, was aberrant). It is also a time of immense political and civic expression. This year, an unmistakable theme emerged out of all the disparate Carnival celebrations across hundreds of cities: a forceful repudiation of the far-right ideology that Mr. Bolsonaro and his administration represent.
In Rio de Janeiro, the samba school Mangueira won this year’s parade competition by putting on a show that retold Brazilian history from the perspective of its black and indigenous heroes. It also paid tribute to Marielle Franco, a black, gay, progressive councilwoman who was assassinated last year. (While her murder remains unsolved, the police reportedly suspect the involvement of a paramilitary group; recently, links have emerged between the group and the Bolsonaro family, though the latter are not implicated in the murder.) In the historic city of Olinda, revelers threw beer cans on an effigy of the president. Outside Mr. Bolsonaro’s former home in Rio de Janeiro, partygoers dressed up as oranges — a reference to a money-laundering scandal currently plaguing his administration. And a now-ubiquitous chant, which can be most respectfully translated as “Hey! Bolsonaro! Get screwed!” dominated events from the north to the south of Brazil.
By all accounts, Mr. Bolsonaro did not have a great Carnival. He was recovering from major abdominal surgery — the latest phase in a long, delicate recovery from a stabbing last September. But he was able to follow the events from his smartphone. And it soon became clear that the anti-Bolsonaro demonstrations had gotten under his skin.
On Tuesday morning, he lashed out at a music video by two prominent musicians that poked fun at his restrictive views on gender and sexuality. His response was to tweet out a music video of his own, featuring an anonymous singer that called out the two famous artists by name and praised “the captain” Bolsonaro. In a follow-up tweet, the president fired off a warning: “Just as important as the economy is the rescue of our culture, which was destroyed over decades by governments with a socialist bent.”
But the now-infamous tweet from Tuesday evening proved a bridge too far even for many of the president’s conservative allies. “Bolsonaro’s tweet is incompatible with the posture of a president, let alone one on the right,” tweeted Congressman Kim Kataguiri, a leader of the national movement to impeach the former leftist President Dilma Rousseff. “Nothing justifies the president sharing pornography on Twitter.” Shows of support were few and far between, coming only in the president’s Twitter replies from a handful of followers. His allies and cabinet members squirmed to explain why a man who ran on a family values platform had just driven a daylong news cycle that saw red-faced TV presenters explaining the concept of a golden shower. Vice President Hamilton Mourão, currently at loggerheads with the Bolsonaro family, dodged reporters’ questions on Wednesday about what his boss was thinking. “I’m not a ventriloquist,” he said.
The presidential palace, for its part, issued a statement on Wednesday evening. The scene “scandalized not only the president himself, but a significant part of society.” The statement went on to describe the videotaped incident as “a crime” (it didn’t specify which) “violating family values and the cultural traditions of carnival.”
Mr. Bolsonaro is not the first politician in Brazil’s current conservative moment to chafe against the libertine spirit of Carnival. Mayor Marcelo Crivella of Rio de Janeiro, who is a Pentecostal Christian and a bishop (and a popular target of mockery at many a Carnival block party), in recent years slashed government funding for the city’s street parties. “Carnival is a portly baby that needs to be weaned,” he told the news site G1 ahead of this year’s celebrations, adding, for good measure, that women would understand the metaphor.
But Mr. Bolsonaro should heed the lessons of history: Brazilian politicians who take on Carnival rarely triumph. As a journalist noted on Twitter, in 1961 President Janio Quadros “tried to regulate behavior” at Carnival, under the slogan “‘Janio is the certainty of a moralized Brazil.’” Mr. Quadros may have been morally certain; he also resigned after eight months.

Mark Zuckerberg Wants Facebook to Emulate WeChat. Can It?

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By Li Yuan
 
SAN FRANCISCO — As Mark Zuckerberg begins shifting Facebook to private messaging and away from public sharing and open conversations, the vision he has sketched out for the future of social networking already exists — just not in the United States.
Instead, it is a reality in China through a messaging app called WeChat.
Developed by the Chinese internet giant Tencent in 2011, WeChat lets people message each other via one-on-one texts, audio or video calls. Users can also form groups of as many as 500 people on WeChat to discuss and debate the issues of the day.
While Facebook users constantly see ads in their News Feeds, WeChat users only see one or two ads a day in their Moment feeds. That’s because WeChat isn’t dependent on advertising for making money. It has a mobile payments system that has been widely adopted in China, which allows people to shop, play games, pay utility bills and order meal deliveries all from within the app. WeChat gets a commission from many of these services.
“WeChat has shown definitively that private messaging, especially the small groups, is the future,” said Jeffrey Towson, a professor of investment at Peking University. “It is the uber utility of business and life. It has shown the path.”
What is happening in China offers clues to not only how Facebook may carry out its shift, but how the internet more broadly might change. Many of Silicon Valley’s tech giants are dependent today on online advertising to make enough money to keep growing and innovating on new services. Some call online ads the lifeblood of the internet.
But WeChat, which has 1.1 billion monthly active users, shows that other models — particularly those based on payments and commerce — can support massive digital businesses. That has implications for Google, Twitter and many others, as well as Facebook.

People use the WeChat app to shop, play games, pay bills and order meal deliveries.CreditKenneth Tsang for The New York Times
  

WeChat, of course, has its own flaws. The messaging app is heavily censored because of requirements by the Chinese government.

Facebook declined to comment and Tencent did not immediately respond to requests for comment.
Mr. Zuckerberg didn’t elaborate much this week on how the change toward private messaging would affect Facebook’s business, which relies on people publicly sharing posts to be able to serve them targeted advertisements. In a blog post, he said Facebook would build more ways for people to interact on top of messaging, “including calls, video chats, groups, stories, businesses, payments, commerce, and ultimately a platform for many other kinds of private services.”
Yet it’s unclear whether Mr. Zuckerberg can pull all those features off with Facebook. On WeChat, those services are underpinned by its mobile payments system, WeChat Pay. Because payments is already tied into the messaging service, people can easily order meal deliveries, book hotels, hail ride-sharing cars and pay their bills. WeChat Pay itself has 900 million monthly active users.
People also use WeChat Pay to transfer money and to buy personal finance products. More than 100 million customers have purchased WeChat’s personal finance products, which managed over 500 billion yuan, or $74 billion, by the end of last September, Tencent has said. Its users can buy everything from bonds and insurance to money market funds through the app.
Facebook lacks such a payments system. So to be more like WeChat, the Silicon Valley company could have to acquire banking and payment licenses in many countries. One sign that Facebook has been thinking about payments is its work on a new crypto coin that is meant to let people send money to contacts on their messaging systems.
To make Facebook a private messaging product, Mr. Zuckerberg may have a lot else to learn from Allen Zhang, the creator of WeChat. Mr. Zhang is famous for his perfectionist pursuit of a well-designed service.
“He is renowned in China’s tech scene as an artist and philosopher, as well as for his fierce mission against anything that degrades user experience,” Connie Chan, an investor at the venture capital firm Andreessen Horowitz, recently wrote of Mr. Zhang.

Mr. Zhang fought many internal battles when Tencent’s revenue department pushed to put more ads on WeChat. In a four-hour speech earlier this year, he pondered the question of why there were not more ads on the messaging service, especially the opening-page ads that are the norm in many other Chinese mobile apps.
Mr. Zhang’s answer: Many Chinese spent a lot of time — about one third of their online time — on WeChat, he said. “If WeChat were a person, it would have to be your best friend so that you would be willing to spend so much time with it,” he said. “How could I post an ad on the face of your best friend? Every time you see it, you’ll have to watch an ad before you can talk to it.”
Mr. Zhang, who has made restraint his product philosophy, has been lucky because Tencent makes most of its money from online games so that it does not need to sell ads for revenue.
Tencent doesn’t break out its revenues from WeChat, but its financial report for the third quarter of 2018 said that social advertising revenue, which includes WeChat, grew 61 percent from a year earlier, while the category called “other businesses,” which includes payment services, rose by 69 percent.
Mr. Zuckerberg does not have that luxury, given that he is trying to switch from an ad-based business into a different model. It will be far from an easy task to pull off.
“Zuck is clearly trying to address Facebook’s problems of privacy and fake news, but it will greatly affect its monetization capability,” said Ivy Li, a venture capitalist at Seven Seas Partners in Menlo Park, Calif. “How comprehensive the surgery is going to be and whether the implementation will be twisted by all kinds of compromises is a big question.”
She added: “Facebook is trying to seek a balance between a public square and a private space in an increasingly polarizing society. The final result could be it will be abandoned by both.”



 

Na luta, a gente se encontra


Flávia Oliveira

Ao longo de pelo menos quatro décadas de olhar atento aos desfiles, aprendi com o carnaval muitas histórias — contadas ou não — nos livros escolares. Nenhuma delas se relacionou com o vídeo chulo compartilhado por um presidente da República que ainda não aprendeu a liturgia do cargo, e a quem é altamente recomendável a leitura de um código de conduta ou, melhor ainda, um detox das redes sociais. Jair Bolsonaro se elegeu com agenda tão ambiciosa quanto desafiadora. Prometeu dedicar os dias de folia a montar a estratégia de adesão de congressistas e da sociedade à reforma da Previdência elaborada pela equipe econômica. Em vez disso, tuitou conteúdo impróprio e depreciativo à pedagogia da mais importante festa nacional.

O que o carnaval ensina não é pouco nem recente. Décadas antes de Leandro Vieira, o artista catapultado a protagonista do espetáculo das escolas de samba, ter a ideia que levou à maiúscula vitória da Mangueira este ano, os desfiles já presenteavam o grande público com episódios soterrados pela História oficial. Em 1960, Fernando Pamplona, forjado na Escola de Belas Artes (EBA/UFRJ), inaugurou com “Zumbi dos Palmares” no Salgueiro a série de enredos afro que transformariam para sempre a folia. Joãosinho Trinta, outro gênio, reverenciou personalidades negras — de Ganga Zumba a Grande Otelo e Pelé, de Clementina de Jesus a Pinah — em “A grande constelação das estrelas negras” (Beija-Flor, 1983). A Vila Isabel, que neste 2019 deu vivas à princesa de quem tomou emprestado o nome, 31 anos atrás foi campeã com “Kizomba”, enredo de valorização das origens africanas no centenário da Lei Áurea. No mesmo 1988, a Mangueira conseguiu o vice com desfile crítico à Abolição, que não livrou os negros da exclusão social.

Grandes mulheres foram apresentadas ao país pelo carnaval: da ex-escrava e empreendedora Xica da Silva (Salgueiro, 1963) à bailarina negra Mercedes Baptista (Acadêmicos do Cubango, 2008). Foi o então carnavalesco Milton Cunha que, pela Beija-Flor, me revelou a botânica Margaret Mee (1994) e a soprano Bidu Sayão (1995); e pela Unidos da Tijuca (2003), a saga dos agudás, negros que fizeram o caminho de volta do Brasil para o continente de origem.

Necessária e alinhada ao nosso tempo, de cobrança por representatividade e protagonismo feminino, negro, indígena, popular, a narrativa da Mangueira de 2019 não é nem inédita nem suficiente. É o capítulo mais recente e, talvez, contundente de um ativismo que pavimentou longo caminho de reconhecimento a personagens e episódios menosprezados ou invisibilizados pela História. Em 1924, o jornal “Clarim da Alvorada” publicava em São Paulo coluna sobre vultos históricos, como os irmãos engenheiros Antonio e André Rebouças e o advogado Luís Gama.

Na primeira metade do século XX, a Frente Negra Brasileira reivindicava a obrigatoriedade do ensino de História da África e cultura afro-brasileira nas escolas. Nos anos 1940, o Teatro Experimental do Negro, liderado por Abdias Nascimento — que completaria 105  anos neste 14 de março, o do primeiro aniversário da execução brutal da vereadora Marielle Franco, homenageada pela Mangueira —, defendia o mesmo, conta a historiadora Giovana Xavier, da UFRJ. Mas a legislação só foi promulgada em 2003 — e jamais aplicada plenamente.

“A Lei 10.639 é resultado de lutas centenárias para reconhecer o protagonismo negro. Ao longo de 22 anos de carreira como professora, conheci centenas de colegas em todo o Brasil, que, nas condições mais precárias, contam essas histórias que não estão no retrato todos os dias”, resume a historiadora.
Desfiles na Sapucaí ampliam visibilidade, escancaram polêmicas, provocam a opinião pública,
 despertam o interesse. Sozinhos, não transformam. Nem o carnaval nem o Brasil. O que traz mudança é batalha diária, ação incessante. O Rio de Janeiro e o Brasil dormiram mais felizes com a vitória da Mangueira, mas não acordaram diferentes. Como bem ensinou o espetacular samba-enredo de Manu da Cuíca e parceiros: “Na luta é que a gente se encontra”.

 

 



March 3, 2019

O que é o PSL, o partido do presidente


Bruno Góes




Quando a então jornalista Joice Hasselmann (PSL-SP) recebeu o aval do clã Bolsonaro para se candidatar ao Senado pelo partido do presidenciável, mergulhou com apetite na empreitada. Depois de filiada ao PSL, anunciou o astronauta Marcos Pontes como seu possível suplente e partiu para uma ostensiva campanha nas redes. Os planos de Hasselmann esbarraram no latifúndio do então deputado Major Olímpio, presidente do partido em São Paulo à época. Ele decidira que ocuparia a vaga de candidato a senador e escanteou a estreante na política. Ela buscou respaldo em Jair, como a hoje deputada federal costuma se referir ao presidente da República. Não encontrou e acabou se contentando com a disputa por uma vaga à Câmara dos Deputados e uma dobradinha com o governador paulista João Doria. Hasselmann buscou apoio partidário e encontrou solidão.

O deputado estadual Fernando Francischini dividiu com Jair Bolsonaro, por quatro anos, o desprestígio de ter o gabinete no anexo III da Câmara dos Deputados — onde não há sequer um banheiro privado para cada parlamentar. O desabono geográfico e a repulsa pela esquerda os uniram. Francischini trabalhou arduamente na campanha do presidente e foi um dos primeiros filiados ao PSL após a entrada de Bolsonaro. Recebeu a promessa de que emplacaria seu filho, Felipe, como candidato do partido à Câmara dos Deputados e que sairia candidato a uma vaga no Senado. A primeira parte do acordo foi cumprida. A segunda, não. Francischini foi afastado do núcleo duro do presidenciável pelo ex-ministro Gustavo Bebianno, então presidente do partido, e começou 2019 contentando-se com uma cadeira na Assembleia Legislativa do Paraná. Fernando Francischini abraçou o projeto eleitoral da sigla e recebeu, em troca, ingratidão.

Enquanto a redemocratização permitiu o surgimento de partidos que representaram interesses de classes e corporações, o PSL que deu lastro à candidatura de Jair Bolsonaro nasceu de uma empreitada individual do empresário pernambucano Luciano Bivar nos anos 90, permanecendo irrelevante no Congresso Nacional por cerca de 20 anos, até decidir dar guarida ao ímpeto eleitoral do hoje presidente. Sua média de deputados por legislatura não passou de cinco até 2018, e sua fatia do Fundo Partidário somou pouco mais de R$ 9 milhões no ano passado. Hoje, com 54 deputados, tem a maior bancada da Câmara dos Deputados, ao lado do PT, e um caixa de R$ 110 milhões a serem irrigados à sigla somente neste ano.

No dia 22 novembro de 2017, Bivar recebeu representantes do Livres, um movimento de cunho liberal criado na esteira dos protestos de 2013, no hotel Golden Tulip em Brasília. O motivo da conversa era a incorporação do grupo ao partido e as possíveis candidaturas que resultariam dessa união. O vereador de Belo Horizonte Gabriel Azevedo (PHS), do Livres, foi direto ao ponto: havia rumores de que o PSL abrigaria Jair Bolsonaro. “Em determinado momento, perguntei se o Bolsonaro poderia ficar com o partido. O Bivar respondeu: ‘Bolsonaro? Bolsonaro é uma piada. A gente jamais o colocaria no partido’”, contou Azevedo. Foram quase três horas de reunião e muitas conjecturas sobre o futuro. Dois meses depois, Bivar fecharia um acordo com o advogado Gustavo Bebianno, hoje ex-ministro em desgraça nas hostes bolsonaristas. Na esteira da popularidade do presidenciável, anteviu a enxurrada de candidaturas vitoriosas que o partido teria e concedeu a Bebianno a presidência interina da sigla, permitindo que o aliado de Bolsonaro controlasse todos os diretórios do PSL, exceto o do Distrito Federal e de Pernambuco — este último sendo comandado por Bivar. Em contrapartida, Bivar conseguiu direcionar 20% do Fundo Eleitoral à campanha para seu estado. O Patriota, outro partido assediado pelo entorno de Bolsonaro, não havia enxergado vantagem em tamanha concessão e terminou escanteado.
A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), que pretendia disputar uma cadeira no Senado, mas esbarrou na resistência do então deputado Major Olímpio, à época presidente do PSL paulista. Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), que pretendia disputar uma cadeira no Senado, mas esbarrou na resistência do então deputado Major Olímpio, à época presidente do PSL paulista. Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
Se o negócio, à época, foi vantajoso para Bivar e Bebianno, as pontas mal atadas começam a surgir — e causaram a primeira grande crise institucional da gestão Bolsonaro. Hoje, a campanha em Pernambuco é investigada pelo suposto uso de candidata laranja financiada por dinheiro público para beneficiar a campanha de Bivar. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, um grupo ligado ao deputado teria promovido a candidatura de Lourdes Paixão, que ganhou R$ 380 mil do Fundo Eleitoral e obteve apenas 274 votos. Ela declarou ter investido o valor na contratação de uma gráfica cujo endereço era o de uma oficina mecânica — prática corriqueira da velha política que o PSL, sob Bolsonaro, prometeu combater. O episódio culminou na ruidosa queda de Bebianno, que teria chancelado o pagamento — o que o ex-ministro nega.

A reação do PSL à derrocada do ex-homem forte de Bolsonaro foi o primeiro exemplo prático da desarticulação que norteou a chegada do presidente ao partido. O grupo de bolsonaristas mais alinhados ao Palácio do Planalto, e que coincidentemente são entusiastas do filósofo Olavo de Carvalho, como é o caso do príncipe-deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança, aplaudiu a demissão de Bebianno e guardou para si qualquer crítica à forma como o desenlace ocorreu, sob a batuta do filho Carlos Bolsonaro. Os aliados de Bebianno, grupo em que se enquadram nomes como Joice Hasselmann e o também deputado Julian Lemos (PSL-PB), têm dito a interlocutores que discordam da forma como a fritura do ex-ministro foi conduzida. Lemos, nome forte da campanha bolsonarista no Nordeste, afirmou a aliados que se surpreendeu com a atitude do presidente e que desconfia ter se enganado sobre sua índole ao ver a forma como agiu com Bebianno. Nesse núcleo, a animosidade em relação aos filhos de Bolsonaro é patente — sobretudo em relação a Carlos, a quem alguns parlamentares se referem, nos bastidores, como Tonho da Lua, em referência ao personagem da novela Mulheres de areia que aparenta ter problemas psiquiátricos. O apelido maldoso é justificado, na avaliação de alguns nomes do PSL, pela incapacidade de Carlos em manter um diálogo linear e por seus rompantes de raiva. Também nesse núcleo já começa a circular uma análise um tanto pessimista a menos de dois meses do início do governo: diante da desajeitada atuação de Bolsonaro no caso Bebianno, discute-se a hipótese de a instabilidade palaciana inviabilizar o futuro do atual governo.
Carlos: cadeira na Comissão de Direitos Humanos Foto: Marcelo Regua / Agência O Globo
Carlos: cadeira na Comissão de Direitos Humanos Foto: Marcelo Regua / Agência O Globo
O restante da fauna do PSL é heterogênea e não tem liderança clara ou norte político, exceto o apoio a Jair Bolsonaro. São youtubers, policiais, militares, influenciadores digitais, ex-ator pornô e representantes de setores que embarcaram desde o início na candidatura do ex-capitão, como é o caso do agronegócio. Como todo partido nanico, o PSL não tem origem orgânica, lastreada em ideias ou projetos para o país. Mas, por influência de Bolsonaro, predominam em sua composição valores e costumes alinhados aos do capitão. Há até espaço para uma “comunista”, como vem sendo chamada a deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP), uma das autoras do processo de impeachment de Dilma Rousseff, por não poupar críticas aos últimos eventos protagonizados pelo governo Bolsonaro e seu entorno familiar, a exemplo do caso Queiroz e da própria demissão de Bebianno. “É inadequado que o presidente deixe essa situação se estender por tanto tempo. Decidiu demitir, demite, para gerar um pouco mais de estabilidade para o país”, disse Paschoal. Cotada como vice no período eleitoral, ela negou a empreitada por motivos pessoais e abraçou a candidatura estadual. Mas o fato é que, entre os campeões de voto do partido — amealhou 2 milhões —, só Paschoal foi lançada à presidência de uma Casa legislativa. O deputado federal Eduardo Bolsonaro, eleito com 1,8 milhão de votos, atuou apenas nos bastidores na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, apoiando Rodrigo Maia, e o Major Olímpio, que chegou ao Senado com mais de 9 milhões de votos, desistiu de sua candidatura sob o argumento de que o governo Jair Bolsonaro precisava garantir apoio da casa para governar.

Nos primeiros dias de fevereiro, logo após a posse dos deputados e senadores, não era raro encontrar, no fundo do plenário da Câmara, parlamentares do partido que não se conheciam e acabavam de ser apresentados uns aos outros. Conforme as sessões tiveram início, a bancada passou a se aglutinar nas primeiras fileiras da direita, onde poucos meses antes estavam lotados o MDB e partidos aliados de Michel Temer. Como a exposição nas redes sociais tornou-se prerrogativa no PSL de Bolsonaro, muitos de seus expoentes chegaram à conclusão de que, se ficassem mais à frente, em pé, próximos da tribuna, seriam mais facilmente captados pelas câmeras de TV. Portanto, não raro é possível vê-los eretos abaixo do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, com o olhar perdido, em busca de um flash. Outros comportamentos de pesselistas são menos sutis para atrair holofotes, como no caso do ex-ator pornô Alexandre Frota, eleito deputado federal por São Paulo e que, no ápice da crise com Bebianno, esmagou uma laranja ao final de um discurso na tribuna. “Laranja podre, no PSL, será esmagada”, disse.

As nuances internas do PSL extrapolam o perfil diverso dos integrantes da sigla e esbarram em questões concretas. Tramitam, hoje, no Supremo Tribunal Federal (STF), ações movidas pelo PSL em seus primórdios e que contrariam parte do que é defendido pelo presidente e seus aliados. Uma delas questiona uma lei federal de 1989 que prevê a prisão temporária, um dos trunfos da Operação Lava Jato. O partido alega “desatendimento da garantia do devido processo legal”. Em uma ação de 2016 que ainda não tem data para ser julgada, a sigla contesta trecho da lei sobre organização criminosa — que, por sua vez, serviu para enquadrar muitos investigados da Lava Jato. O partido critica a suposta “criminalização” da atividade política e argumenta que a lei quebra a presunção de inocência e o princípio da dignidade humana. “É preciso impor limites aos exageros perpetrados, institucionalizando a proibição de o membro do Ministério Público externar opinião sobre os procedimentos submetidos a sua apreciação que possa causar danos à intimidade, à vida privada, à honra, à imagem e à dignidade das pessoas”, afirma processo, em clara contradição ao entendimento do ministro da Justiça, Sergio Moro, sobre a questão.
O Major Vitor Hugo (PSL-GO), líder do governo na Câmara dos Deputados, vê sua atuação ser contestada pelos próprios colegas de partido. Foto: Jorge William / Agência O Globo
O Major Vitor Hugo (PSL-GO), líder do governo na Câmara dos Deputados, vê sua atuação ser contestada pelos próprios colegas de partido. Foto: Jorge William / Agência O Globo
Incongruências à parte, nada foi tão emblemático da falta de entrosamento do PSL e de sua fraca liderança na Câmara dos Deputados como a derrota na alteração da Lei de Acesso à Informação, sancionada pelo vice, Hamilton Mourão, enquanto Bolsonaro viajava para Davos, no Fórum Econômico Mundial, em janeiro. O maior partido da casa não conseguiu mobilizar uma base para manter a mudança na lei e foi derrotado pelos próprios aliados, como o DEM, que votou maciçamente contra o governo. Observadores do Salão Verde veem nessa derrota a digital da velha política: diante da fraqueza do partido presidencial, Maia quer demonstrar força para barganhar poder junto ao núcleo palaciano. Em seu primeiro intento, teve sucesso. Nas semanas que precederam a votação, pelo menos três deputados relatam o uso de métodos mais rasteiros pelo presidente da Câmara para mostrar poder: ele teria ligado para os líderes partidários sugerindo o esvaziamento da primeira reunião de lideranças convocada pelo líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO). Escolhido por Bolsonaro por sua lealdade durante a campanha, Vitor Hugo ocupa posição solitária — não é encarado por colegas de partido e de casa como elo político com o governo. “Se alguém quiser mandar recado para o governo, fala com quem?”, ironizou o deputado Fernando Bezerra Filho (DEM-PE), cujo pai, Fernando Bezerra, terminou a semana como líder do governo Bolsonaro no Senado. A Casa, agora presidida pelo senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), sob a tutela de Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil, é vista como problema menos grave para o governo do que a Câmara.
Exonerado num episódio burlesco com Bolsonaro, Bebianno pode complicar o atual governo. Foto: Ricardo Moraes / Reuters
Exonerado num episódio burlesco com Bolsonaro, Bebianno pode complicar o atual governo. Foto: Ricardo Moraes / Reuters
O tempo que não foi gasto pelos deputados bolsonaristas para articular uma base de apoio foi dispensado a picuinhas internas de forte impacto nas redes sociais e nenhuma serventia prática. A primeira grande crise do maior partido do Brasil ocorreu em janeiro, quando 12 parlamentares foram à China a convite de autoridades locais para, entre outras coisas, conhecer o sistema de reconhecimento facial da gigante de tecnologia Huawei. Olavo de Carvalho qualificou os deputados que lá estavam de “semianalfabetos”, alegando que eles poderiam “entregar” informações dos brasileiros a Pequim. Até hoje o núcleo mais ideológico da bancada do PSL isola a chamada “bancada da China”. A Eduardo Bolsonaro é atribuída a autoria da postagem de Olavo de Carvalho.
Alguns deputados do PSL veem o comportamento exaltado de membros do partido como atitude contraproducente no momento em que os esforços deveriam se voltar para a aprovação da reforma da Previdência. Outros acham que o segredo do sucesso está justamente na postura agressiva. Carla Zambelli (PSL-SP) ganhou notoriedade ao liderar o estridente movimento Nas Ruas e concorda que é preciso rebater cada questionamento, alto e bom som, pois “é isso o que os eleitores querem”. O Delegado Waldir (PSL-GO), líder do partido na Câmara, vai além e diz que as brigas “na frente de todo mundo” são “um novo modelo a que muita gente não está acostumada”. Ou então, em suas próprias palavras: “Nossos debates não são atrás das portas”. Já Felipe Francischini (PSL-PR), que ocupa o lugar do pai, Fernando Francischini, pensa diferente. Desde que foi eleito, trabalha nos bastidores para estabelecer algum diálogo com os partidos e com Rodrigo Maia.

Como a esmagadora maioria dos deputados do PSL inicia o primeiro mandato, em alguns momentos a inexperiência ganha tons de comédia, como ocorreu na primeira votação da atual legislatura, no início de fevereiro. O plenário votaria uma lei sobre o bloqueio de bens de organizações ligadas ao terrorismo. Havia aval de Sergio Moro. Mesmo assim, o caos perseverou. O Major Vitor Hugo foi pressionado pela bancada da própria sigla e teve de negociar uma alteração do texto no momento em que o tema já era discutido em plenário. Parte da bancada achava que parte do texto feria a soberania do Brasil e seria uma forma de “entreguismo à ONU”. A alteração foi feita contra a orientação do Executivo, e a proposta foi aprovada. Depois do episódio, o governo passou a despachar técnicos para explicar, na Câmara, as pautas que seriam votadas. Como a palavra “China” não sai do anedotário do partido, na primeira ocasião em que os parlamentares receberam os técnicos, Carla Zambelli fez uma pergunta singela e fora do contexto da reunião. Quando esteve na comitiva, um empresário chinês havia dito que ele possuía um porto no Brasil. Ela, então, perguntou se isso não feria a soberania do país. O técnico teve de explicar que tratava-se de uma concessão privada.
Grupo de parlamentares do PSL que visitou a China, viagem contestada por bolsonaristas ligados ao autointitulado filósofo Olavo de Carvalho. Foto: Reprodução Instagram
Grupo de parlamentares do PSL que visitou a China, viagem contestada por bolsonaristas ligados ao autointitulado filósofo Olavo de Carvalho. Foto: Reprodução Instagram
Outro expoente da ala estridente é o policial do Rio de Janeiro Daniel Silveira, que participou do episódio em que uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco foi quebrada. Ele tem alardeado um projeto de lei que, se aprovado, autorizaria a cessão compulsória de órgãos de criminosos mortos em confronto, sem autorização das famílias. “Bandido morto, órgãos cedidos” é a forma sutil de anunciar a proposta em seu Twitter. No dia 7 de fevereiro, Silveira desabafou no grupo de WhatsApp da bancada. Depois de o líder do governo, Vitor Hugo, ser atacado pelo colega Julian Lemos com a ordem “lidere ou saia do posto”, ele resolveu desferir uma saraivada de críticas: “Percebi que uma boa parcela está preocupada em apertar as mãos em acordos que visam seus umbigos egocêntricos (...). Percebi que o presidente está mais sozinho que parece”. As brigas são tantas que Luciano Bivar disse, em uma ocasião, que os insatisfeitos e interessados em sair do partido poderiam valer-se de uma carta por “justa causa”, sem perder o mandato por infidelidade partidária. Ele chegou até mesmo a mandar um modelo de carta no grupo de WhatsApp da bancada.

A pulverização do partido entre ideias heterodoxas e inexperiência política fez emergir rompantes de sensatez de onde menos se esperava. A deputada Joice Hasselmann, que apareceu com algemas na tribuna da Câmara para insinuar intolerância com a corrupção, foi uma das vozes equilibradas em meio às discussões sobre a saída de Bebianno. Enquanto o ex-ministro desferia ataques velados ao Palácio do Planalto, hospedado no hotel Golden Tulip, dias antes de ser exonerado, era Hasselmann, que começou sua empreitada política disputando espaço com Major Olímpio, quem tentava contemporizar. Em uma das investidas para conter a fúria de Bebianno, ficou até a madrugada conversando com ele e a mulher no hotel. O resultado foi um avanço político para os parâmetros ainda rudimentares do PSL: Bebianno caiu atirando somente para não terminar sua breve estada no governo com a pecha de mentiroso, mas desistiu de ir além e mostrar outros áudios que possui. E que talvez não sejam do agrado do governo. Trata-se de sangue-frio digno da velha escola Renan Calheiros.

Com reportagem de Renata Mariz e Cleide Carvalho

March 2, 2019

Mengele, Stroessner e Bolsonaro


MAURO VENTURA

Josef Mengele foi o mais cruel dos médicos nazistas. Conhecido como o “Anjo da morte”, era metódico e pragmático, como mostra reportagem de Maurício Horta na revista "Superinteressante". Por conta de uma epidemia de tifo no campo de concentração Auschwitz-Birkenau, mandou matar todas as 600 mulheres de um bloco. Em outra ocasião, resolveu da seguinte forma uma crise de desabastecimento de comida: em vez de ampliar a oferta, reduziu a procura. Durante dez dias, enviou diariamente para a câmara de gás cerca de 4 mil mulheres.
São apenas dois casos da longa lista de atrocidades de Mengele. Ele tinha especial predileção por cobaias humanas. Praticou em escala industrial experimentos de “higiene racial”, como escreve Horta. Usava crianças, anões, pessoas com deficiências. Numa ocasião, na tentativa de reproduzir olhos azuis, suas injeções deixaram crianças cegas. Seu maior foco de interesse eram os gêmeos. Promovia, por exemplo, amputações e infectava os irmãos com doenças. "Depois, o médico matava os dois e comparava os corpos", escreve o jornalista.
Com a derrota de Hitler, ele conseguiu fugir da Alemanha para a Argentina. Mas os caçadores de nazistas estavam em seu encalço e, quando o governo alemão pediu sua extradição, escapou para o Paraguai do ditador Alfredo Stroessner. Foi acolhido de braços abertos. Stroessner concedeu nacionalidade paraguaia a Mengele. Não foi o único. Como contam os jornalistas Ariel Palacios e Daniel Salgado na revista "Época", o país recebeu nos anos 1950 centenas de outros criminosos de guerra, como Eduard Roschmann, o “Açougueiro de Riga”, que executou 30 mil judeus. Mengele ficou por lá até que, com medo de ser capturado pelos israelenses, fugiu para Brasil.
A receptividade calorosa que os nazistas desfrutavam em solo paraguaio não é o único dos defeitos de Stroessner. Como listou a “Época”, eis alguns outros:
1. Stroessner era um pedófilo em série. Criou um harém para que ele e seus colegas cometessem estupros, em especial de meninas virgens entre 10 e 15 anos. Segundo cálculos dos investigadores, somente ele teria violado mais de 1.600 crianças em 35 anos de ditadura, de 1954 a 1989.
2. Durante o regime totalitário, o Paraguai, sob suas bençãos, tornou-se um paraíso do contrabando de cigarros, bebidas, carros de luxo, eletrônicos e drogas.
3. Como em toda ditadura, a oposição era censurada e silenciada, e ele costumava vencer as “eleições” com 90% dos votos - em 1958 o percentual atingiu 97,3%.
4. Na ditadura militar paraguaia, foram assassinados entre 4 mil e 5 mil civis. E quase 19 mil pessoas foram vítimas de torturas físicas, sexuais e psicológicas. O general chegou a criar um campo de concentração. Durante as sessões, Stroessner gostava de ouvir pelo telefone os gritos dos presos políticos sendo torturados. Como conta a revista, o presidente e o principal torturador do regime, Pastor Coronel, "apreciavam o uso da serra elétrica e do maçarico para torturar. Vários opositores foram cortados ao meio com a serra elétrica. Outros eram queimados lentamente, e de forma localizada, com um maçarico".
5. O ditador enriqueceu com a corrupção. Após ser deposto por um golpe de estado, ele se exilou no Brasil. O juiz que tentou extraditá-lo estimou sua fortuna em US$ 500 milhões. Na mesma reportagem da "Época", o professor Mauricio Santoro, cientista político e professor do departamento de relações internacionais da UERJ, diz: "A ditadura de Stroessner foi bastante corrupta, incluindo propinas que ele cobrou dos brasileiros para a construção de Itaipu.”
Aos olhos do mundo, o ditador paraguaio era narcotraficante, estuprador, pedófilo, corrupto, torturador, sádico, sanguinário, assassino e acolhedor de nazistas. Para Bolsonaro, que fez questão de homenagear "o nosso general Alfredo Stroessner" na posse do novo diretor da hidrelétrica de Itaipu, ele era um "estadista" e um "homem com visão".