July 31, 2017

Prostituição Política


Aldir Blanc

No momento em que escrevo, só 5% dos brasileiros aprovam o presifraude Temer.

Que democracia é essa na qual temos que aturar um criminoso se ninguém o quer?

Continua conspirando e subornando porque corrompe parlamentáveis prostituídos que o sustentarão desde que ele abra o cofre e as pernas para emendas (leia-se roubalheira).

Enquanto isso, Meirelles mantém seu blablá tecnocrata do eixo Boston-Chicago. O “crescimento” anunciado está pertinho de zero e o desemprego beira os 15 milhões.

A quadrilha Temer exibe todo tipo de miragem. Vi um gráfico subindo quase verticalmente na telinha, mas o número não conseguia encobrir a cascata: aumento de 0,09% em um treco otimista...

O desgoverno fracassou em tudo. Deve propor nos próximos dias um plano de suicídio coletivo para o funcionalismo.

Os ministros da Educação, Saúde, Trabalho, Agricultura e outros são o que Vó Noemia chamava de “cavalos vestidos”.

Conforme o terrível documento encaminhado por meu amigo Marcelo Chalreo, guerreiro na área de direitos humanos da OAB-RJ, trocam-se as vidas de índios, quilombolas, populações ribeirinhas e outros bestializados pelo entreguismo ao agronegócio, às formas mais perigosas de mineração, à devastação ambiental.

O nome disso é genocídio.

Bilhões são gastos nesses prostíbulos de corrupção para manter o presifarsa no cargo-descarga, mas não há verbas para fiscalizar trabalho escravo e infantil, para passaportes, para evitar a venda do que é nosso como aeroportos, estradas, material de telefonia... A lista é interminável. Pedro Parente Deles deve tê-la completa. Temeroso é blindado por simulacros como o tribunal eleitoreiro, a comichão de prostituição e justi$$a, o supremo circo federal, com seus parlapatões.

O “assessor especial” Yunes vendeu para o presidrácula um andar inteiro em prédio de luxo, uma casa “doada” para Marcela Temer, e duas salas de escritório para o operoso Michelzinhho! Tudo avaliado abaixo do preço real, mamata de 20 milhões na época e que está valorizada a píncaros geddelianos.

A 12ª Vara Civil/Agrária de MG suspendeu a ação de 155 bilhões contra a Samarco. Nenhum preso. A lama já asfixia o santuário de Abrolhos.

Procurem ver a distância entre a região de Mariana e o arquipélago, e vocês terão a dimensão do crime.

No exterior, o presibesta nos humilha: “Vamos continuar trabalhando para aumentar o desemprego”.

Temer e Maia brigam por “socialistas” que também são ruralistas! Pertencem ao PSB.

E eu pensando que só os socialistas pernambucanos roubavam sob o comando da gangue encabeçada pelo ex-governador que caiu pra subir.

Umberto Eco escreveu que, na modernidade líquida onde todos querem aparecer, vai rolar um concurso planetário para eleger o menor pênis da Terra. Voto no pelego Marun, com a pontinha quase invisível da virilidade perdida no agromatagal paquidérmico.

O desgoverno temeroso será conhecido pela frase que o assassino flamenguista postou da cadeia:

— Nóis é história!

O GLOBO, JULHO DE 2017 

July 27, 2017

Não poder contar com o alento da cultura é querer levar o brasileiro ao esgotamento absoluto


Washington Fajardo

A situação da cultura no país hoje é desesperadora. Curiosamente, após tantos e importantes avanços. Após os bons anos do período Gilberto Gil e Juca Ferreira I, a administração Dilma reduziu não apenas orçamento mas o papel estratégico do Ministério da Cultura. Na teoria da Nova Matriz Econômica, virou item supérfluo. Tentou corrigir o rumo com Juca Ferreira II, mas já era tarde: as crises econômica e política já produziam danos extensos e irrecuperáveis. O governo Temer não tem nem tempo nem lastro para refletir e agir sobre o setor. Em um ambiente de crise sistêmica interminável, não poder contar com o alento que a cultura produz na alma é querer de fato levar o brasileiro ao esgotamento absoluto.

No Rio, a insolvência do governo do estado dissolve também programações, museus existentes e novos, como o MIS, moribundo em gestação. O funcionamento do belo projeto das bibliotecas-parque tem sido constantemente ameaçado. O modelo de gestão por OS não resistiu ao primeiro vento. Há evidente necessidade de auxílio federal ao Rio, oxalá uma intervenção. Mas que venham também recursos para a cultura.

O inverso deveria valer. Quanto maior a crise, maior o orçamento para a área cultural. Quanto maior o desemprego, mais recursos para o setor.

Não se trata de leviandade com recursos públicos ou irresponsabilidade na definição das prioridades, mas clareza de que a cultura é setor importante da economia, gerando empregos e inclusão e alimentando o espírito. O niilismo forçado que estamos experimentando no Brasil e no Rio seria apaziguado pela nossa riqueza criativa.

A cultura é um setor que alia trabalho intelectual ao trabalho braçal, integrando diferentes tipos de qualificações profissionais. Permite desenvolver conteúdos nacionais, alimentando-se e inspirando territórios socialmente diversos, educando, desenvolvendo respeito, encontros, oferecendo um pouco de paz para os momentos mais duros. Tais conteúdos poderiam ser estratégicos para a política externa, promovendo o país, alavancando turismo e interesse comercial por nossas criações.

Cultura está presente na TV, no cinema, nos circos, no rádio, nas festas, nos bailes, nos museus, nos teatros. Está no patrimônio cultural recuperado, em eventos no espaço público. É riqueza que pode ser acessada gratuitamente.
Educação e saúde têm a proporcionalidade de seus orçamentos protegidos constitucionalmente. Cultura também educa, sendo uma das mais belas formas para ampliar o conhecimento sobre si mesmo, sobre o próprio corpo, sobre o corpo do outro e conservação da saúde.

Será que reagiríamos coletivamente da mesma maneira, hoje, se nossos espaços culturais estivessem em pleno funcionamento?

Melhorar o orçamento do setor teria impacto imediato na economia e no bem-estar social. Mas buscar novos modos de sustentabilidade para as finanças da área cultural é estratégico. Os responsáveis pelas políticas públicas não têm o direito de serem letárgicos em função de Estado tão crítica.

No Porto Maravilha foi a primeira vez que uma Operação Urbana Consorciada destinou 3% da receita da venda de títulos imobiliários para a recuperação do patrimônio cultural. Endowment é uma palavra em inglês para “fundo patrimonial perpétuo”, é um modo de garantir que iniciativas essenciais, e não autossustentáveis, possam se viabilizar pela renda das operações financeiras realizadas com o capital aplicado. Esse é um modelo que mantém universidades e instituições culturais pelo mundo.

A França, na crise de 2008, modernizou legislações para não prejudicar seus espaço culturais. Regras mais estáveis para endowments atraíram muitos doadores. O Museu do Louvre foi um dos maiores beneficiados.

No Brasil, fundos patrimoniais perpétuos já operaram na área educacional, como na Politécnica da USP e na escola de Direito da FGV. É necessário ampliar o entendimento sobre tal solução. O BNDES tem liderado esse debate. Se mais doadores fizerem o que fez João Moreira Salles ao destinar recursos em caráter irrevogável para o fomento da ciência, teríamos mais paz social.

Os governos poderiam também desenvolver soluções complementares ao alocar imóveis ociosos em uma carteira patrimonial cujas receitas de locação iriam para a cultura. Assim, por exemplo, o aluguel do edifício A Noite, para fim habitacional, ajudaria nas contas do Museu da República. Entretanto vendem suas propriedades, não garantindo nem moradia nem possível auxílio para o setor cultural. Suprassumo da burrice.

A crise atual poderia ser atenuada se o funcionamento dos espaços de cultura se mantivessem altivos, abetos e acolhedores. Gerando empregos e inspirando desempregados. Ampliando cidadania

O GLOBO, JUNHO 2017

Contra o Rio selvagem


Marcus Faustini

Não surpreende que o Rio esteja passando por um aumento da violência. O esvaziamento de políticas sociais e o abandono de um pensamento estratégico na política de segurança devem estar no centro de qualquer entendimento que encare a questão com seriedade. Negar-se essa perspectiva é se entregar a uma das piores marcas de nossa História: a ideia de Rio selvagem.

Depois de dois anos desempregado, um pai sumiu de casa, deixando esposa e três filhos. A família foi pra fronteira da fome, a quantidade de novas exigências no Bolsa Família impediu o acesso. A solidariedade dos vizinhos os manteve vivos. Seu filho do meio largou a escola, o mais novo vivia em casa; não demorou, o mais velho entrou para o tráfico. Pôs dinheiro em casa, ocupou o lugar do pai. Tudo aconteceu rápido. Logo foi recrutado para uma boca de fumo nova, próxima à escola da região. Buscando maior rentabilidade em tempos de crise, as bocas precisam ficar em pontos mais visíveis. Ser recrutado para participar de seu primeiro assalto não foi surpresa. As conversas com quem dividia a atividade já indicavam que esse dia estava próximo. O tráfico precisava de mais dinheiro — para manter a rede de pessoas que possui e para toda a trama de vínculos e subornos necessários para o negócio existir. Além da necessidade de armas mais potentes para inibir invasão de outros grupos. No assalto, matou e morreu na tentativa de roubar um caminhão.

As manchetes no dia seguinte não perdoaram: Rio de Janeiro selvagem! Os cliques na notícia encorajaram mais uma série de reportagens na mesma linha. Logo a repercussão ganha o embate das redes sociais. Um sociólogo, respeitado no assunto, tentou explicar os acontecimentos a partir da perspectiva de que não é possível encarar mais esse problema apenas pela lógica da repressão. Mas é tarde: a ideia de uma política de segurança que não tenha o confronto como centralidade está desacreditada. Um fanático escreve num post: já tiveram a chance de vocês com as UPPs, agora é do nosso jeito. Bandido tem que ser exterminado do convívio da sociedade! Likes infinitos por dias na postagem foram a senha para políticos que buscam se manter nas esferas de poder surfarem na onda e assumirem a mesma postura.

Essa história acima não é nova, é um perverso clichê que insiste em ser real. Estamos de volta ao Rio selvagem, quem vive e pensa a cidade conhece de perto. Já se fala que estamos de volta aos anos 1990, e desta vez com chances de ser pior pela descrença criada com o fracasso da política de segurança. Outros dizem que o problema é da classe política, e outros se guardam no tranquilo lugar de afirmar que nada cessará sem o fim do sistema capitalista. Desta forma, vai se consolidando o espaço que fortalece a ideia de Rio selvagem como única saída. E o que ele é?

O Rio selvagem é a nossa resposta ao fenômeno da violência apenas com guerra aos seus efeitos, é deixarmos de pensar as desigualdades. O Rio selvagem é voltar a acreditar que, para o subúrbio, as periferias e as favelas, a única opção é a presença da polícia e fechar os olhos para a precarização dos outros serviços públicos que fazem direitos estarem presentes. O aumento da violência num momento de crise é uma das provas de que a dimensão social tem peso grande em sua existência. Além disso, mostra que, desacompanhada de outras políticas, a ocupação policial em regiões populares, mantendo a lógica de confrontos, é ceifadora de vidas de todos os lados e mantém tudo como está.

A chegada de uma ajuda federal em curto prazo para a contenção em áreas centrais e nobres tende a ser apenas mais uma ação que reforçará o Rio selvagem — aquele onde existem regiões que são ilhas da fantasia enquanto outras são sacrificadas. Sem a dimensão social, sem pensar a cidade e sem transparência da política de segurança, teremos o mesmo efeito que já conhecemos em outros momentos. Para não se entregar a essa lógica, é preciso pensar a cidade também a partir de suas regiões, e não se entregar ao discurso que pede reação sem inteligência.

Não faltam instrumentos para isso. Dados do Instituto de Segurança Pública e de aplicativos como o Fogo Cruzado mostram o acompanhamento regional com relatórios diários. Falta cruzamento com dados da educação e das políticas sociais, como afirma Silvia Ramos. Grande parte dos 480.000 empregos que o Estado do Rio de Janeiro perdeu nos últimos 27 meses está concentrada na cidade, como aponta Mauro Osório. Essas duas falas acima são exemplos das dimensões sociais que alimentam a violência. A participação do governo federal na saída do Rio é decisiva, mas ela não pode ser traduzida apenas com a presença da polícia. Sem encarar essas dimensões, nos entregaremos ao Rio selvagem. É duro defender algo mais complexo num momento de medo, mas precisamos ter a coragem de ser contra o Rio selvagem.

O GLOBO, JULHO 2017 

July 26, 2017

Reforma oficializa fraude, diz procurador-geral do Trabalho


LAÍS ALEGRETTI TALITA FERNANDES
DE BRASÍLIA
FOLHA DE SÃO PAULO

A reforma trabalhista sancionada pelo presidente Michel Temer nesta quinta (13) beneficia os maus empregadores e institucionaliza fraudes praticadas hoje, na avaliação do procurador-geral do Trabalho, Ronaldo Fleury.

Ele critica a falta de debate sobre a reforma trabalhista no Congresso Nacional e diz que o Brasil "ainda tem uma cultura escravocrata".

Para ele, a redução de processos trabalhistas deve se dar pela melhoria na fiscalização. Se isso ocorrer, segundo Fleury, "talvez nem precisasse da Justiça do Trabalho".




Folha - Por que o MPT pediu ao presidente Michel Temer o veto total à proposta?
Ronaldo Fleury - A tramitação sem a devida discussão mostra que há um deficit democrático no debate. Além disso, todas as propostas ali estão redigidas para beneficiar o mau empregador, sempre deixando margem para uma precarização das relações de trabalho.

Defensores da reforma dizem que haverá redução no volume de ações trabalhistas.
Hoje, se você entra com ação contra a empresa pedindo três horas extras por dia e ganha uma, quem paga os custos processuais é a empresa. Com a reforma, nesse caso, você tem que pagar dois terços das custas.
Das ações trabalhistas, 50% pedem verbas rescisórias. É a empresa que manda embora e não paga porque vale a pena não pagar, economicamente.
Uma empresa que deve R$ 50 mil por verba rescisória espera a pessoa entrar na Justiça e negocia o parcelamento do valor.

Qual é a melhor forma de reduzir a judicialização?
Nossa fiscalização do trabalho é falha. Temos um deficit de um terço de auditores. Se houvesse mais fiscalização, deixariam de descumprir a lei, e aí talvez nem precisasse da Justiça do trabalho.
Na Escócia, por exemplo, o número de ações é muito pequeno. Mas o que acontece se o empregador não pagar o salário? Ele vai preso.

Algum bom exemplo mais próximo à realidade do Brasil?
O Chile. Não pela legislação, mas por uma questão mais cultural. E tem uma fiscalização muito forte. Há uma cultura empresarial não tão exploradora. O Brasil ainda tem uma cultura escravocrata. Fomos um dos últimos países a abolir a escravidão e até hoje a escravidão é uma realidade. Mesmo nos grandes centros, nas grandes empresas, a mentalidade é escravocrata.

Qual é a principal mudança do contrato intermitente?
Você só vai ganhar o tempo que você efetivamente trabalhar. O tempo que você tiver à disposição do trabalhador, sem trabalhar, você não ganha. Se você chegar ao jornal ao meio-dia e só tiver uma pauta às 17h e as 18h você entregar a reportagem, você vai ganhar só de 17h às 18h, mesmo tendo ficado das 12h às 17h à disposição da empresa.

Defensores da reforma dizem que o contrato intermitente ajusta a lei a práticas que já existem.
É o que essa reforma está fazendo: tudo que era feito como fraude está sendo institucionalizado. Poderia ser contratado a um tempo parcial. Em vez de contratar por 44 horas, eu vou contratar a pessoa por 5 horas por semana. Isso é possível desde o fim dos anos 1990.

No Congresso, um dos pontos de discussão foi a limitação, relacionada ao valor do salário da pessoa, para fixar a indenização.
Não existe essa tarifação em nenhuma outra área do direito. Se um trabalhador queima um dedo no McDonald's, o valor da indenização tem que ser diferente da carrocinha de cachorro-quente. Às vezes, R$ 1.000 para o dono da carrocinha terá um efeito pedagógico muito grande.

O governo faz a reforma sob a perspectiva de modernização. O senhor acha que a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) foi modernizada?
Não. O que está se criando são estruturas legais, fórmulas de trabalho que existiam 200 anos atrás, como a própria jornada intermitente.


O senhor acha que a lei atual precisa ser modernizada?
Acho. Tem coisas que têm que ser modernizadas, como o próprio sistema sindical. A gente precisa fazer uma reforma sindical. Não é só tirar o financiamento do sindicato. O que está sendo feito hoje é o seguinte: agora empresas e sindicatos vão negociar, só que eu tiro o financiamento dos sindicatos.

O senhor é contra retirar o imposto sindical obrigatório?
Dessa forma, sou. É desigualar a relação. Sou contra o imposto sindical, mas eu sou a favor que se tire dentro de uma reforma sindical que, por exemplo, acabe com a unicidade sindical.

O governo fala que a reforma vai servir para gerar emprego. O senhor concorda?
Não gerou em lugar nenhum do mundo onde foi feita, no próprio Brasil, nos anos 1990, foi feita. Não aumentou nenhum emprego. A empregabilidade aumentou nos anos 2000 porque a economia cresceu, houve aumento da demanda chegamos quase ao pleno emprego.

Em vários países foi feita a flexibilização para gerar emprego: Espanha, México. Em todos houve apenas a troca de empregos por alternativos: intermitente, pejotização, terceirização.

O presidente Michel Temer sancionou o projeto de lei que modifica as leis trabalhistas sem nenhum veto. O que o MPT pretende fazer?




Vamos estudar com o procurador-geral da República. Nossa intenção é entrar com uma ação direta de inconstitucionalidade.

July 23, 2017

STF: uma corte de doidos















CARTA CAPITAL, JULHO DE 2017 

July 20, 2017

A pinguela da pinguela


Arnaldo Bloch


Acordo. Mais uma manhã de crise. No estado. Na cidade. No país. Para onde eu olho, vejo crise. Todos foram roubados e estão com os bolsos vazios matutando por aí. Violência urbana é pouco. Violência institucional é o bicho. Roubaram os impostos de toda a gente. Roubaram nas obras. Roubaram as sobras. Roubaram as passagens de ônibus. Roubaram da cultura, das escolas, dos hospitais. E ergueram um inferno à luz do dia.

Os piores, como diz outro ditado, não são os que ladram. São os que, calados, mordem e enfiam as patas nas goelas para roubar até a comida que já se engoliu. E, junto, roubam a coragem, o espírito, a arte e o ímpeto, agora débil, de construção da cidadania. Quem imaginaria que, já vão três décadas da redemocratização, depois de tudo pelo que se lutou, cairíamos, como uns patos depenados, neste fosso?

Fosse ele só econômico, seria justo olhar para a frente e imaginar que reformas, ideias, vontade política, visão, pactos entre poderes e sociedade (ainda existe isso?), lá adiante, seriam capazes de, sob novo leme, nos levar a um porto mais seguro. Mas é só parar para pensar um segundo: o leme, em que mãos? Chegamos a um ponto em que o retrocesso que nos carregou a tantas léguas da terra firme levou, junto, um continente de conquistas que pareciam asseguradas e, de repente, escoam na arrebentação.

Tudo que se balizou nas fundações de nossa nova democracia cada vez mais velha e menos plena está atolado no limbo da catástrofe ética/moral, e seus fios já não se conectam com uma massa crítica suficientemente forte para produzir, como deveria ser, um debate que integre a sociedade como um todo. E alimente, com sua riqueza e sua energia, uma real transformação.

Sob nova direção, as tripulações das naus executiva e legislativa permanecerão as mesmas e, dos passageiros, acorrentados em porões conjunturais, poucos terão alguma voz. A galé está à mercê dos algozes de sempre.

Ou alguém acredita que, se o presidente cair, seu substituto imediato (cansei de escrever nomes) irá se revelar um grande líder unificador e, quem sabe, alçar ao convés um ministério de notáveis para, num lance de bravo capitão, desfazer a lambança e levantar velas de grandeza altaneira?

Quem crê que uma nova aliança político-partidária, imbuída de renovados sentimentos cívicos (talvez com a ajuda de uma anistia geral e irrestrita), sustentará a travessia, abraçando as melhores plataformas e unindo-se a alguns iluminados (aos quais terá restado certa decência) que, como zumbis, erram pelos ralos das rampas e das esplanadas?

Mesmo assim, por falta de opção e por uma questão de sobrevivência, a maioria tenta se segurar à noção de que, se e quando o presidente cair, e o quanto antes isso ocorrer, estaremos em prontas condições de rearrumar a casa. É uma espera perplexa, exausta, envenenada pela sensação de que é inútil, neste momento, se manifestar como se deve: nas ruas.

Para que, se a inflação está baixa? Deixe estar, que “os outros” resolvem. Aí está a força-tarefa a zelar por nós. O procurador-geral está com a faca na boca e o queijo fatiadinho. É só ir servindo que a turma faz o resto. Ninguém perde por esperar: hoje, amanhã, semana que vem, ou até o Natal, todos os presos ainda renitentes delatarão, políticos, empresários, alguns magistrados, talvez até o próprio presidente, e o ex-presidente, e todos os presidentes, os senadores, os coronéis, os encarcerados, delatarão, e todos os mortos ressuscitarão numa espécie de apocalipse travestido em paraíso.

Com o que ficaremos quando acordarmos desse sonho abissal? O que se fará, até 2018, e depois de 2018, para curar a doença que corroeu o corpo da democracia antes de ela atingir a maturidade? Como dissipar esta nuvem, esta massa de ar empedrado que cismou de estacionar na encruzilhada com um jeito de coisa ruim que nunca mais vai sair? Qualquer olhar mais atento, um ligeiro desvio para o que está dentro da casa pode esfacelar, em segundos, os mais sinceros e otimistas vislumbres de esperança.
O que se pode esperar da geração que está no poder, e das novas que estão chegando? Como manter os olhos abertos e vigilantes e tentar separar joio de trigo quando tudo parece entrelaçado numa mesma teia povoada por criaturas soturnas? Como esperar que a pinguela da pinguela se mantenha de pé se, em quase todo espectro, vicejam ainda o sangue e a lama da grande espoliação?


Há quem tente povoar o deserto com um novo sonho: o de que virá algum grande gestor (ou gestora), líder que, através da negação da política (mas, certamente, não da ideologia), empunhando a varinha mágica da eficiência e a vassoura da objetividade, dará um fim a esta velharia.

Um mundo novo, em que cultura é desperdício, carnaval é o mal, indígenas são vagabundos, Amazônia dá um baita estacionamento, armas para todo mundo etc. Afinal, o parlamento vem avançando nessas matérias, e o Brasil... Ah, é uma tendência! Trump. Macri. Macron? Crise de representatividade. Reciclagem. Sei lá, mil coisas. É melhor deixar vir, e não descuidar do estoque de alho.

O GLOBO, julho 2017 


July 19, 2017

Espanto. Pioram os relatos diariamente.




Fred Coelho


1. Cada notícia parece que vai mudar tudo, e nada muda. Ou melhor, lá dentro, onde o peito aperta, as coisas mudam o tempo inteiro. Isso quer dizer que ainda há algo aí, alguma coisa que ainda se machuca e fica ferida com os fatos repetidos. Ficamos o tempo inteiro esperando um equilíbrio que sempre será enviesado. Não há mediana possível em meio aos polos de um país machucado. Existem raivas que apagam fatos necessários, existem fatos que apagam raivas necessárias. A justiça, sentimento legítimo em uma sociedade desigual, pode reduzir tudo a um caldo vingativo. Cada acusação é respondida com outra acusação. E, ainda assim, dói.

2. De fato, estamos com os nervos à flor da pele há tempos. Para alguns, o corte é 2013. Para outros, como vimos na repercussão do indiciamento do ex-presidente Lula, desde 2002. Para muitos, desde a tarde que conduziu o atual presidente a um governo ilegítimo — basta vermos os números de popularidade do senhor que antes era a solução salvadora dos que inflaram patos amarelos pelas ruas e agora virou problema. Quer dizer, os patos pagos pela Fiesp já comemoraram a reforma trabalhista. E o Refis. E a rolagem de dívidas. E a mudança na presidência do BNDES. Pensando bem, os patos da Fiesp não andam tão decepcionados quanto os demais cidadãos.

3. Em sua famosa crônica sobre Brasília, um dos mais belos textos já escritos por estas praias, Clarice Lispector diz que “os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado”. É o espanto ainda o sentimento que nos move nesses tempos em que vivemos, há anos, o dia a dia de Brasília? É espanto ainda a palavra quando sabemos que um governo atua pesado para se manter em um cargo obtido com os mesmos expedientes que agora usam para tentar derrubá-lo? Espanta-nos ainda vermos a sangria pública de um Ministério da Cultura, abandonado em seu já mínimo orçamento, deixado na rua, sem ninguém em seu comando, sem honrar compromissos, fechando suas frentes de ação até seu fim por inanição? Espanta ver esse governo simplesmente não dar nenhuma palavra pública sobre este fato? Espanto inexplicado é pouco. Ou muito, frente à nossa anestesia. Clarice sabia. Brasília é “o perfil imóvel de uma coisa”. E essa coisa suga a força vital daquilo que nem sabemos mais o que é.

4. Mas sempre há uma vontade de superar o espanto. Porque ainda nos espantamos com a forma como a política é feita no Brasil. Não podemos abandonar a política pelo fato de nos decepcionarmos com políticos. Em política, a dose de pragmatismo, às vezes, deve ser forte, de todos os lados. Todos os crimes se acumulam em redes que cada caldo ideológico usa para atacar o outro. A boa luta política, goste ou não, é isso: ouvir, pensar, medir, agir. O que não se pode é desistir dela. Achar que o nome menos “comprometido” com a política é uma saída. Não é. Ainda é preciso se espantar como Clarice. Ainda é preciso mover o que cisma em ser imóvel.

5. Os relatos sobre o dia a dia da máquina pública pioram diariamente. Os relatos sobre a segurança pública pioram diariamente. Os relatos sobre a mistura entre religião e administração pública pioram diariamente. Os relatos sobre o investimento público em cultura pioram diariamente. Os relatos sobre a truculência social de agentes públicos pioram diariamente. Os relatos sobre os retrocessos financeiros pioram diariamente. Os relatos sobre o número de moradores de rua pioram diariamente. Os relatos sobre o número de pessoas sem casa pioram diariamente. Os relatos sobre a quantidade de armas em circulação na cidade pioram diariamente. Os relatos sobre os relatos pioram diariamente.

6. O que nos decepciona nas pessoas? É algo dentro de nós? Ou dentro do outro? A decepção vem porque não se cumpriu o esperado? A decepção é um espanto? O que me decepciona pode ser individual ou é coletivo? Ao nos decepcionar com alguém, ainda podemos mudar, ainda podemos achar que dá para seguir? Nós nos decepcionamos porque não cumpriram o que esperávamos. Na decepção há uma capa de beleza e crença na vida. A tristeza decorre do fato de que algo se rompeu. Ou de que não se entende bem o que esperar do outro, da vida, do mundo. O antídoto? Espere tudo. A decepção será apenas com você mesmo. Pode doer menos, e nos faz entender as coisas para além da superfície histérica dos eventos. Pese na balança o que o outro fez e o que você faria. Ou o que o outro fez por outros e o que você fez pelos outros. Se decepcionar pode ser uma forma de manter para sempre o espanto de Clarice. Ir além, porém, é mover o imóvel.

7. Somos um país cujo atual projeto é a frustração. Sem interesse pela cultura, sem destaque para a vida pulsante dos que criam mundos e mentes, sem reconhecimento dos nossos limites e das conversas profundas e necessárias que devemos ter para seguirmos acreditando na democracia. A frustração é o espanto com nós mesmos. Imóveis.

O GLOBO, junho 2017



July 18, 2017

pela cochlea:: Mama Cass Elliot - Dream a little dream of me



Sweet dreams till sunbeams find you
Sweet dreams that leave all worries far behind you
But in your dreams whatever they be
Dream a little dream of me

July 17, 2017

Temer, o triunfo da manobra



Zuenir Ventura, O Globo

Pior do que a vitória em si, foi a sua comemoração, se fosse o caso de separar as duas coisas.
Temer poderia ter permanecido discreto, recebendo com humildade o resultado, mas, não, preferiu afrontar a opinião pública elogiando o triunfo de uma manobra que garantiu a rejeição do relatório que o acusava na Comissão de Constituição e Justiça, da Câmara.

Ao conseguir a substituição de 13 titulares da comissão pelos que votaram a seu favor, ele obteve o escore de 40 a 25. Celebrar essa operação troca-troca como “vitória da democracia e do Direito”, classificando-a como “coragem cívica dos aliados”, é optar definitivamente pela chamada “razão cínica”, aquele comportamento que mistura no mesmo pacote mentira, hipocrisia e, sobretudo, cinismo.

Escrúpulos éticos à parte, pode ter sido um feito politicamente esperto. Mas para quê, se não vai permitir que ele, chefe da Nação, possa ir a um teatro, a um jogo de futebol ou a um restaurante, sem ouvir aquele grito que o perseguiu até na Noruega, o “Fora Temer”?

Ele já demonstrou preocupação com a posteridade, falando com otimismo das supostas realizações e legado de seu governo.

Lembrei aqui outro dia que o melhor seria inspirar-se no exemplo de Itamar Franco, também ex-vice, que implantou o mais bem-sucedido plano econômico da Nova República. O “presidente do Real” saiu com tanta popularidade do governo (40% de aprovação) que ajudou a eleger um ex-ministro, Fernando Henrique Cardoso.

Já Michel Temer é um dos presidentes brasileiros mais rejeitados da História. Investigado por organização criminosa e obstrução à Justiça, está a caminho de um melancólico fim de governo, em que corre o risco de ser recordado não pelo que gostaria, mas por ter sido o primeiro presidente brasileiro a ser denunciado ao Supremo Tribunal Federal por corrupção passiva no exercício de mandato.