March 21, 2017

Moro determina condução coercitiva e quebra sigilo de comunicação de blogueiro


mônica bergamo

O juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal do Paraná, determinou a condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães, que edita o Blog da Cidadania. A Polícia Federal cumpriu o mandado na manhã desta terça (21) e levou o profissional para a superintendência do órgão, onde ele deu depoimento.
O juiz ordenou ainda "a apreensão de quaisquer documentos, mídias, HDs, laptops, pen drives, arquivos eletrônicos de qualquer espécie, aquivos eletrônicos pertencentes aos sistemas e endereços eletrônicos utilizados pelos investigados, agendas manuscritas ou eletrônicas, aparelhos celulares, bem como outras provas encontradas relacionadas aos crimes de violação de sigilo funcional e obstrução à investigação policial".

Foram apreendidos dois celulares e um notebook na casa do blogueiro, cuja página na internet se caracteriza por duras críticas ao governo de Michel Temer e às condutas de integrantes da Operação Lava Jato, sendo considerada alinhada com partidos de esquerda, como o PT.

No ano passado, Guimarães antecipou informações sobre a condução coercitiva do ex-presidente Lula, que ocorreu em março. Na época, o Ministério Público Federal reclamou e disse que o fato, que teria atrapalhado a operação, seria investigado, embora vazamentos sejam comuns na operação.
De acordo com o advogado Fernando Hideo Lacerda, que representa Guimarães, a PF perguntou ao blogueiro, no depoimento, quem foi a fonte da informação.

"Foi uma arbitrariedade. Ninguém tem a obrigação de revelar o nome de sua fonte. O sigilo é garantido pela Constituição", afirma Hideo Lacerda.

 Segundo ele, a PF já sabia quem passou a informação a Guimarães e, por isso, ele acabou abrindo o sigilo e confirmando o nome. "Ele falou antes de eu chegar e de orientá-lo quanto à garantia de sigilo", diz o advogado.
 
A condução coercitiva foi objeto de protesto do deputado Paulo Teixeira (PT-SP), que interpelou Moro nesta terça, ao prestar depoimento por videoconferência como testemunha em um inquérito da Lava Jato.

De acordo com Teixeira, ele afirmou a Moro que "ninguém, no Brasil, pode ser preso por delito de opinião". Moro teria respondido que Guimarães não era jornalista. Teixeira disse então que não há exigência de diploma para que uma pessoa mantenha um blog, e que também a ela é garantido o sigilo da fonte.

A Folha enviou o relato de Teixeira ao juiz e também o questionou sobre os protestos do advogado do blogueiro. A assessoria de Moro enviou a seguinte resposta do magistrado: "Sem comentários".
"O que está em jogo é a liberdade de expressão. Moro quer chegar à fonte do Eduardo Guimarães. É um precedente perigosíssimo", disse Teixeira à Folha.

Além da apreensão de aparelhos eletrônicos de Guimarães, o juiz autorizou "o exame e a extração de cópias de mensagens eletrônicas armazenadas nos endereços eletrônicos utilzados pelo investigado".
Permitiu também o acesso dos policiais a arquvos eletrônicos "e mensagens eletrônicas armazenadas em eventuais computadores ou em dispositivos eletrônicos de qualquer natureza, inclusive smartphones, que forem encontrados, com a impressão do que for encontrado e, se for necessário, a apreensão de dispositivos de bancos de dados, disquetes, CDs, DVDs ou discos rígidos".

Guimarães já tinha sido intimado, em fevereiro, para prestar esclarecimentos em outra investigação, sobre supostas ameaças que ele teria feito ao juiz Sergio Moro nas redes sociais. Ele chamou o magistrado de psicopata no Twitter e disse, dirigindo-se aos leitores, que os "delírios" do juiz "vão custar seu emprego, sua vida".

A página que ele edita informou que o depoimento do blogueiro estava marcado para "daqui a várias semanas". E afirmou: "O intimado avisa que só irá dar novas informações após o depoimento. O blogueiro também informa que tem 57 anos e, durante essas quase seis décadas de vida, nunca, jamais foi acusado de qualquer tipo de ilegalidade nem na Justiça e muito menos na polícia".

FOLHA, 21 DE MARÇO DE 2017





March 20, 2017

He’s a Local Pillar in a Trump Town. Now He Could Be Deported.

Elizabeth Hernandez with her sons, from left, Gianluca, 6, Kharloz, 8, and Maximus, 2, at their home in West Frankfort, Ill. Ms. Hernandez’s husband, Juan Carlos Hernandez Pacheco, was taken into custody earlier this month by Immigration and Customs Enforcement. Credit Whitney Curtis for The New York Times Foto de: Whitney Curtis for The New York Times

Elizabeth Hernandez with her sons, from left, Gianluca, 6, Kharloz, 8, and Maximus, 2, at their home in West Frankfort, Ill. Ms. Hernandez’s husband, Juan Carlos Hernandez Pacheco, was taken into custody earlier this month by Immigration and Customs Enforcement. Credit Whitney Curtis for The New York Times Foto de: Whitney Curtis for The New York Times

WEST FRANKFORT, Ill. — Ask residents of this coal-mining crossroads about President Trump’s decision to crack down on undocumented immigrants and most offer no protest. Mr. Trump, who easily won this mostly white southern Illinois county, is doing what he promised, they say. As Terry Chambers, a barber on Main Street, put it, the president simply wants “to get rid of the bad eggs.”
But then they took Carlos.

Juan Carlos Hernandez Pacheco — just Carlos to the people of West Frankfort — has been the manager of La Fiesta, a Mexican restaurant in this city of 8,000, for a decade. Yes, he always greeted people warmly at the cheerfully decorated restaurant, known for its beef and chicken fajitas. And, yes, he knew their children by name. But people here tick off more things they know Carlos for.
How one night last fall, when the Fire Department was battling a two-alarm blaze, Mr. Hernandez suddenly appeared with meals for the firefighters. How he hosted a Law Enforcement Appreciation Day at the restaurant last summer as police officers were facing criticism around the country. How he took part in just about every community committee or charity effort — the Rotary Club, cancer fund-raisers, cleanup days, even scholarships for the Redbirds, the high school sports teams, which are the pride of this city.

“I think people need to do things the right way, follow the rules and obey the laws, and I firmly believe in that,” said Lori Barron, the owner of Lori’s Hair A’Fairs, a beauty salon. “But in the case of Carlos, I think he may have done more for the people here than this place has ever given him. I think it’s absolutely terrible that he could be taken away.”

On Feb. 9, Mr. Hernandez, 38, was arrested by federal immigration agents near his home, not far from La Fiesta, and taken to a detention facility in Missouri. The federal authorities confirmed that he remained in custody, but would not comment on the precise reason for or timing of his arrest.
Immigration officials noted that Mr. Hernandez had two drunken-driving convictions from 2007, a circumstance that could make him a higher priority for deportation. Friends of his say he crossed into the United States from Mexico in the late 1990s and had started but never completed efforts to legalize his status.

What happened when federal immigration agents showed up in a small town that voted overwhelmingly for President Trump, transforming his campaign rhetoric into reality.



As Victor Arana, a lawyer for Mr. Hernandez, began pressing in court to seek release for Mr. Hernandez on bond until his case can be heard, the community has rallied around him, writing pleas for leniency to the officials who will decide his fate.
Tom Jordan, the mayor of West Frankfort, wrote that Mr. Hernandez was a “great asset” to the city who “doesn’t ask for anything in return.” The fire chief described him as “a man of great character.”
The letters have piled up — from the county prosecutor, the former postmaster, the car dealer, the Rotary Club president. In his note, Richard Glodich, the athletic director at Frankfort Community High School, wrote, “As a grandson of immigrants, I am all for immigration reform, but this time you have arrested a GOOD MAN that should be used as a role model for other immigrants.”
This is an uncomfortable stance for a place like West Frankfort. This county, Franklin, backed Mr. Trump with 70 percent of the vote, largely on hopes, people here say, that he could jump-start the coal industry, which has receded painfully here over decades. Illegal immigration was by no means the most pressing issue for this overwhelmingly white area, residents say.
Still, many say they concur in principle with Mr. Trump’s wish to be more aggressive in blocking those who seek to sneak across the border. Things grew more tangled when principle met West Frankfort’s particular reality, in the form of Carlos.
Many people said they had no idea Mr. Hernandez lacked legal status until word of his arrest began spreading.
“I knew he was Mexican, but he’s been here so long, he’s just one of us,” said Debra Johnson, a resident. She said she saw a distinction between “people who come over and use the system and people who actually come and help.”
Mr. Hernandez has been the manager of La Fiesta for a decade. Townspeople say he has done much more than serve them Mexican food. Credit Whitney Curtis for The New York Times Foto de: Whitney Curtis for The New York Times



Not everyone feels Mr. Hernandez should be treated unlike anyone else without permission to be here. As friends have gathered words of support for him through an email address — istandwithcarlos@gmail.com — other messages have arrived there, too. “Carlos is probably a nice man, but he broke our country’s law,” one email read. Some critics point to the two drunken-driving cases. (His friends say he quit drinking after that.)

Asked about Mr. Hernandez, a spokesman for Immigration and Customs Enforcement released a statement that read, in part: “Every day, as part of routine operations, ICE officers target and arrest criminal aliens and other individuals who are in violation of our nation’s immigration laws.”
After a report of his detention appeared in a local newspaper, The Southern Illinoisan, some comments were pointed:
“No U.S. citizen is above the U.S. law! If a U.S. citizen breaks a law they go to jail or prison! No illegal alien is above the U.S. law!”
And: “I get that this man has been here for years and years and has contributed to society, but he isn’t LEGAL, therefore the U.S. has every right to throw him out.”
And: “A couple thousand down, millions to go.”
Around West Frankfort, some people grow quiet when asked whether some undocumented people should be granted exceptions.
“With everything that’s gone on — we’ve had years of unemployment rates that are skyrocketing — I would like to see some of the people that I know go back to work before I worry about people from other countries coming here and making a better life for themselves,” said Audrey Loftus, 38, a bartender at the local Veterans of Foreign Wars post.
But Mr. Hernandez, Ms. Loftus said, has left her “on the fence” about what should happen now. “I hate to use the word rednecks, but this is southern Illinois,” she said. “This is the definition of a good old boys’ club, and you don’t have a lot of people of different ethnicities that are in this area.
Juan Carlos Hernandez Pacheco with his wife, Elizabeth, in a photograph provided by her.

“And then there’s Carlos,” she continued. “You will not find a single person that has anything bad to say about him.”

Mr. Hernandez’s lawyer said that a hearing was expected in his case on Wednesday and that he was hoping Mr. Hernandez might be released on bond as any legal action went forward.

His wife, Elizabeth Hernandez, who attained United States citizenship late last year, according to Mr. Arana, said she was struggling to sleep, since her husband was detained. The couple has three sons, the youngest 2.

“What I’m really worrying about,” she said in a telephone interview, “is what am I going to tell my three boys if he can’t stay here?”

Tim Grigsby, who owns a local printing shop and considers Mr. Hernandez one of his closest friends, has been helping to lead the efforts to bring Mr. Hernandez back to West Frankfort. He said he had always known that Mr. Hernandez did a lot around town. But he said that even he did not grasp the scope of it all until the letters started flowing in.

There was the pastor who described Mr. Hernandez helping at a funeral, the family that remembered him raising hundreds of dollars for its son’s hearing aid, the businessman who said that he was mostly a private person but that Mr. Hernandez was one of the few people he invites over for dinner.

Mr. Grigsby said he still would vote for Mr. Trump. One never agrees with everything a politician does, “but maybe this should all be more on a per-case basis,” he said. “It’s hard to be black and white on this because there may be people like Carlos.”

© 2017 The New York Times Company.

March 19, 2017

Prefeito do Rio proibiu esta matéria e fez com o repórter fosse demitido. E O DIA aceitou.


Febre amarela: população critica filas e falta de informações nos postos

Caio Barbosa

O medo da febre amarela fez o carioca acordar cedo, ontem, para correr aos postos de saúde em busca de vacinas para se proteger da doença. Mas em vez de uma solução, o que se viu foram filas, mau atendimento e falta de informação. Na Tijuca, moradores chegaram antes das 7h ao Centro de Saúde Heitor Beltrão, na Rua Desembargador Isidro, e tiveram de esperar até 13h para serem vacinados. A falta de cuidado, de informação e atenção dos funcionários com quem chegava à unidade de saúde davam o tom do atendimento.
 
"Cheguei aqui às 7h e só vacinaram os 80 primeiros. Eu fui a de número 81. Quando chegou a minha vez, disseram que só havia mais 80 vacinas para a parte da tarde. E que eu deveria ficar aqui até a tarde se quisesse ser vacinada. Uma falta de respeito", reclamou Sônia Penha de Oliveira Nascimento, de 53 anos.

O engenheiro Hugo Blasquez, que estava exatamente atrás de Sônia na fila, se aborreceu pela segunda vez nesta semana no posto de saúde da Tijuca. Na terça-feira, sua esposa, maior de 60 anos, foi ao posto munida de um atestado médico que lhe autorizava a receber a vacina, e ainda assim saiu sem receber a dose.

"Ela ficou na fila e, na vez dela, quem a atendeu se recusou a vacinar porque no atestado estava a palavra "liberada" em vez de "apta". É inacreditável. Hoje, colaram cartaz informando que apenas quem está com viagem marcada seria vacinado. Mas a própria pessoa que colou o cartaz, diretora do posto, disse que a informação estava errada. Como pode uma coisa dessas?" reclamou.

A diretora do posto de saúde, que se apresentou como Patrícia, disse que não poderia dar declarações, e que estas seriam de responsabilidade da secretaria municipal de Saúde. Quem esperava por uma vacina, no entanto, cobrava explicações que não vinham.

"Não era essa a gestão que prometeu cuidar das pessoas? Bem, pelo que a gente está vendo até agora, parece mais humilhar as pessoas", criticou a professora Luiza Souza Gomes.

Na Zona Sul, no Centro de Saúde Píndaro de Carvalho Rodrigues, na Gávea, a falta de vacinas suficientes também provocou filas. Naquela unidade, apenas 100 pessoas foram vacinadas pela manhã, e outras 100 à tarde. Muitas voltaram para casa insatisfeitas. Caso do cantor Leo Jaime, que não conseguiu vacinar o filho Davi, de 9 anos.

"Os funcionários até que nos explicaram a situação. A culpa não é deles. São 100 vacinas, mas a questão é que há um caso de urgência, há muitas pessoas apavoradas. Cinco macacos morreram na região devido à doença. Eu moro em frente ao Parque Lage e todos lá consideram que a questão é urgente, menos a prefeitura. Aumentar a vacinação nas escolas, a informação, tomar medidas que tranquilizem a população, pelo visto, não é com a prefeitura", lamentou Leo Jaime.

A secretaria municipal de Saúde informou que até o dia 28 haverá a ampliação do número de pontos de vacinação – de 34 para 233 unidades da rede de Atenção Primária (Clínicas da Família e Centros Municipais de Saúde), após reforço no estoque da vacina. Ao todo, o Rio receberá 1,5 milhão doses.
Em nota oficial divulgada na segunda-feira, a secretaria informou que o "Rio permanece fora da zona de risco da doença" e "que não há casos de febre amarela urbana no país desde 1942".




 “É muito importante que a população tenha em mente que poderá buscar a vacina na rede durante todo o ano e que é muito importante respeitar as indicações para a vacina, uma vez que este imunizante é feito com vírus vivo atenuado, o que pode gerar efeitos colaterais graves. Todos serão imunizados, não há motivo para alarde ou corrida aos postos”, explicou o secretário municipal de Saúde, Carlos Eduardo, na nota.


A vacina da febre amarela tem contraindicações que serão rigorosamente seguidas pelas equipes técnicas. Não podem tomar a vacina crianças menores de 9 meses e adultos acima de 60 anos; gestantes e mulheres que estejam amamentando crianças menores de 6 meses; pacientes com doença ou em tratamento que cause imunodeficiência, como câncer ou HIV sintomático; pessoas com história de reação anafilática relacionada a substâncias presentes na vacina ou alergia a ovo de galinha e seus derivados.

Os pontos de vacinação abrem diariamente às 7h e distribuem senhas para a vacina da febre amarela, conforme suas capacidades técnicas de segurança dos pacientes e boas práticas de vacinação. As senhas também são distribuídas na parte da tarde. Em abril, todas as unidades de Atenção Primária estarão aptas a aplicá-la e a vacina passará a fazer parte do calendário de imunização do Estado do Rio.

O DIA, MARÇO DE 2017 

March 18, 2017

Philip Roth E-Mails on Trump






In 2004, Philip Roth published “The Plot Against America.” The four main characters of the novel, which takes place between June, 1940, and October, 1942, are a family of American Jews, the Roths, of Newark—Bess, Herman, and their two sons, Philip and Sandy. They are ardent supporters of Franklin Delano Roosevelt, but, in Roth’s reimagining, Roosevelt loses his bid for a third term to a surprise Republican candidate—the aviator Charles Lindbergh—whose victory upends not only politics in America but life itself.

The historical Lindbergh was an isolationist who espoused a catchphrase that Donald Trump borrowed for his Presidential campaign, and for his Inaugural Address: “America First.” The fictional Lindbergh, like the actual Trump, expressed admiration for a murderous European dictator, and his election emboldened xenophobes. In Roth’s novel, a foreign power—Nazi Germany—meddles in an American election, leading to a theory that the President is being blackmailed. In real life, U.S. intelligence agencies are investigating Trump’s ties to Vladimir Putin and the possibility that a dossier of secret information—kompromat—gives Russia leverage with his regime.

Roth wrote in the Times Book Review that “The Plot Against America” was not intended as a political roman à clef. Rather, he wanted to dramatize a series of what-ifs that never came to pass in America but were “somebody else’s reality”—i.e., that of the Jews of Europe. “All I do,” he wrote, “is to defatalize the past—if such a word exists—showing how it might have been different and might have happened here.”

Last week, Roth was asked, via e-mail, if it has happened here. He responded, “It is easier to comprehend the election of an imaginary President like Charles Lindbergh than an actual President like Donald Trump. Lindbergh, despite his Nazi sympathies and racist proclivities, was a great aviation hero who had displayed tremendous physical courage and aeronautical genius in crossing the Atlantic in 1927. He had character and he had substance and, along with Henry Ford, was, worldwide, the most famous American of his day. Trump is just a con artist. The relevant book about Trump’s American forebear is Herman Melville’s ‘The Confidence-Man,’ the darkly pessimistic, daringly inventive novel—Melville’s last—that could just as well have been called ‘The Art of the Scam.’ ”

American reality, the “American berserk,” Roth has noted, makes it harder to write fiction. Does Donald Trump outstrip the novelist’s imagination?

Roth replied, “It isn’t Trump as a character, a human type—the real-estate type, the callow and callous killer capitalist—that outstrips the imagination. It is Trump as President of the United States.
“I was born in 1933,” he continued, “the year that F.D.R. was inaugurated. He was President until I was twelve years old. I’ve been a Roosevelt Democrat ever since. I found much that was alarming about being a citizen during the tenures of Richard Nixon and George W. Bush. But, whatever I may have seen as their limitations of character or intellect, neither was anything like as humanly impoverished as Trump is: ignorant of government, of history, of science, of philosophy, of art, incapable of expressing or recognizing subtlety or nuance, destitute of all decency, and wielding a vocabulary of seventy-seven words that is better called Jerkish than English.”

Roth retired from writing at seventy-seven, but, given Trump’s threats to muzzle journalism that is critical of him, what role does he see for American writers of today?

“Unlike writers in Eastern Europe in the nineteen-seventies, American writers haven’t had their driver’s licenses confiscated and their children forbidden to matriculate in academic schools. Writers here don’t live enslaved in a totalitarian police state, and it would be unwise to act as if we did, unless—or until—there is a genuine assault on our rights and the country is drowning in Trump’s river of lies. In the meantime, I imagine writers will continue robustly to exploit the enormous American freedom that exists to write what they please, to speak out about the political situation, or to organize as they see fit.”

Many passages in “The Plot Against America” echo feelings voiced today by vulnerable Americans—immigrants and minorities as alarmed by Trump’s election as the Jews of Newark are frightened by Lindbergh’s. The book also chronicles their impulse of denial. Lindbergh’s election makes clear to the seven-year-old “Philip Roth” that “the unfolding of the unforeseen was everything. Turned wrong way around, the relentless unforeseen was what we schoolchildren studied as ‘History,’ a harmless history, where everything unexpected in its own time is chronicled on the page as inevitable. The terror of the unforeseen is what the science of history hides, turning a disaster into an epic.”

Asked if this warning has come to pass, Roth e-mailed, “My novel wasn’t written as a warning. I was just trying to imagine what it would have been like for a Jewish family like mine, in a Jewish community like Newark, had something even faintly like Nazi anti-Semitism befallen us in 1940, at the end of the most pointedly anti-Semitic decade in world history. I wanted to imagine how we would have fared, which meant I had first to invent an ominous American government that threatened us. As for how Trump threatens us, I would say that, like the anxious and fear-ridden families in my book, what is most terrifying is that he makes any and everything possible, including, of course, the nuclear catastrophe.” ♦

March 17, 2017

Desigualdade não é detalhe



A reforma da Previdência em tramitação não leva em conta que a situação dos mais pobres


Flávia Oliveira

 O defeito da reforma da Previdência proposta pelo governo de Michel Temer em fins de 2016 — e, agora, assombrada por uma centena e meia de emendas parlamentares — está menos na necessidade que no conteúdo. O debate sobre a mudança de regras na concessão de aposentadorias e pensões divide o país entre os que a consideram essencial, desejável ou dispensável. O que os dois primeiros grupos não conseguiram explicar à sociedade brasileira é por que motivo a conta será paga por quem menos tem. É essa a consequência de, na formulação do projeto, a burocracia ter desprezado as diferentes dimensões da desigualdade brasileira. Assim, ignora exatamente o fator que forjou — e ainda molda — essas terras. Isso não é detalhe.

Vivêssemos na Suécia, onde o Índice de Gini (principal medidor da desigualdade de renda) é metade do brasileiro, este artigo sequer precisaria ser escrito. Mas — aquele abraço à torcida do Flamengo, da qual tomei o bordão — isso aqui é Brasil. Nas bandas de cá, tratar desigualmente os desiguais é que faz diferença. A proposta de reforma ignora assimetrias de gênero, raça, região e acesso ao mercado de trabalho. De quebra, fratura a rede de proteção que livra da pobreza extrema idosos e pessoas portadoras de deficiência.


O Brasil, IBGE à frente, produz informações socioeconômicas suficientes para a equipe econômica desenhar um modelo de previdência e seguridade que, para variar, privilegie quem menos tem. Os arquitetos da reforma, contudo, preferiram, por medo dos enfrentamentos processuais, assegurar direitos adquiridos e despejar a fatura no colo dos mais pobres, deixando para trás tanto o conceito de justiça social quanto os efeitos pró-cíclicos da transferência de renda. Sete em cada dez cidades brasileiras têm nas aposentadorias e pensões um volume de recursos superior ao que recebem do Fundo de Participação dos Municípios, segundo estudo do Anfip-Dieese. Sem a Previdência, portanto, irão a nocaute.


A reforma que está em tramitação no Congresso Nacional não leva em conta que os brasileiros mais pobres, em particular mulheres e negros, começam a trabalhar muito cedo, mas a contribuir mais tarde. Do emprego sem carteira assinada, da ocupação autônoma e da atividade auxiliar em empreendimento familiar 44% das mulheres brasileiras tiram o sustento. Significa que, mais por distorções do mercado que por vontade própria, estão em atividade profissional, mas não recolhem ao INSS. Sem falar na jornada semanal feminina, que supera em sete horas e meia a dos homens, informou o Ipea, em razão das atribuições domésticas e familiares. É mais trabalho sem contribuição, que não vale para a Previdência.


Mulheres, negros e jovens são os três grupos populacionais com as maiores taxas de desemprego e os menores rendimentos. Portanto, além de quase sempre subempregados no começo de carreira, eles passam mais tempo à procura de ocupação e têm baixa remuneração. É a essa gente que o governo brasileiro quer impor dez anos mais de contribuição (de 15 para 25 anos), não de trabalho, e idade mínima de 65 anos. Quem quiser se aposentar pelo teto aos 65 terá de contribuir por 49 anos, a partir dos 16. Regras como essas fazem da aposentadoria um sonho distante.


Mas a reforma também dificulta o acesso aos benefícios dos que estão abaixo da linha da pobreza. O projeto eleva a idade para receber o benefício de prestação continuada. Se não conseguir se aposentar, o idoso com renda domiciliar per capita inferior a um quarto do salário mínimo só fará jus ao repasse governamental ao completar 70 anos, em vez dos atuais 65. O pagamento não mais será vinculado ao piso nacional. Seguirá valor arbitrado pelo governo e corrigido por índice de inflação — ou seja, ficará abaixo do mínimo, hoje de R$ 937.


Por fim, a idade mínima única, sem atenuantes regionais, vai impor injustiça adicional aos brasileiros do Norte, do Nordeste e das periferias e das comunidades populares nos grandes centros. A dispersão na esperança de vida é conhecida: maranhenses vivem 70,3 anos, catarinenses, 78,7. Mas há também diferenças no total de idosos nas unidades da federação. Segundo o IBGE, estados como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul têm hoje 21,7% dos habitantes com 60 anos ou mais de idade. No outro extremo (geográfico e etário) estão Amapá (8,5%), Roraima (10,8%) e Amazonas (11,4%). A proporção de idosos é baixíssima, porque não é tarefa fácil envelhecer por lá. Impor uma idade mínima única ao país limará o extremo Norte dos repasses previdenciários.


Tantas desigualdades deveriam ser consideradas, em vez de ignoradas. É justo.


O GLOBO, 17 DE MARÇO DE 2017

March 15, 2017

Villalobos: Façamos o muro


JUAN PABLO VILLALOBOS

Façamos o muro. Nós, os mexicanos, o pagaremos, de acordo. Mas o faremos nós mesmos e colocaremos um posto de socorro a cada 20 quilômetros. Um albergue com médicos, comida, água, camas para descansar e recuperar as forças, aulas de inglês. E o mais importante: vamos incluir muitas portas ao longo do muro, milhares. Portas que só tenham travas de um lado: o nosso.

Façamos o muro. Nós, os mexicanos, pagaremos por ele, de acordo. Mas primeiro vamos pedir um empréstimo aos Estados Unidos para construí-lo. Ao Banco Mundial. Melhor ainda: ao Fundo Monetário Internacional. Faremos uma licitação para o projeto arquitetônico do muro. Outra licitação para a construção. E outra, quando ele estiver pronto, para a gestão.

Convidaremos apenas nossos amigos para participar das licitações, é claro. E que ganhem as licitações os mais amigos entre todos nossos amigos. Os do projeto arquitetônico atrasarão sua entrega muito, muito mesmo: anos (são arquitetos medíocres, mas são nossos melhores amigos).
A construção só começará com anos de atraso. E em pouco tempo haverá problemas com alvarás de construção. E mais problemas com os fornecedores dos materiais. E greves dos trabalhadores. Depois de dois meses a primeira parte construída apresentará rachaduras e umidade, levando à suspensão temporária da construção do muro.

Assim se passarão os anos e, com um pouco de sorte, também passarão os presidentes dos Estados Unidos, até que chegue um a quem a construção de um muro não interesse. Melhor ainda: até que chegue um que dê ordens de parar com a construção do muro (não devolveremos o dinheiro do empréstimo, é claro.)

Façamos o muro. Nós, mexicanos, pagaremos por ele, de acordo. Um muro verde, ecológico, uma cerca viva. Uma cerca, para sermos específicos, feita de pés de maconha. Primeiro, é claro, legalizemos a maconha para finalidades de construção de muros. E então veremos como mudarão os fluxos migratórios: as pessoas do Norte correndo em debandada rumo ao Sul, para fumar nosso muro.

Contrariamente ao que se poderia esperar, não os deteremos. Pelo contrário. Todos nos encontraremos na fronteira, e uma nova época de amizade e fraternidade surgirá entre os dois povos.
Façamos o muro. Pagaremos por ele nós, os mexicanos, de acordo. Mas façamo-lo como atração turística, como parque de diversões. Vamos chamá-lo de "o Muro da Vergonha" ou algo desse estilo. Ao lado dele instalaremos museus sobre o racismo, o imperialismo, a discriminação. E mirantes para poder ver de longe como são as coisas do outro lado do muro.

Virão turistas japoneses, chineses, alemães, escandinavos, turistas do mundo inteiro. Nosso muro será um grande negócio e criará milhares de postos de trabalho. Que, é claro, serão ocupados pelos migrantes que não possam atravessar o muro.

Façamos o muro. Nós, mexicanos, pagaremos por ele, de acordo. Um muro invisível, como a roupa invisível do imperador. Um muro que apenas as pessoas inteligentes possam ver. Nós, mexicanos, o construiremos com tijolos invisíveis e aço também invisível. Libertos de restrições materiais, o ergueremos altíssimo: mil metros de altura. E muito espesso: dois quilômetros de largura.

No dia da inauguração, diremos ao presidente dos Estados Unidos: cá está seu muro; é muito alto, muito largo, mas apenas os inteligentes podem vê-lo. Tenho certeza de que o presidente dos Estados Unidos ficará muito contente.

JUAN PABLO VILLALOBOS, escritor mexicano, é autor dos livros "Festa no Covil", "Se Vivêssemos em um Lugar Normal" e "Te Vendo um Cachorro"

March 14, 2017

Não há déficit na Previdência Social. É isso mesmo?


Marcello Corrêa
 
Uma tese polêmica circula pela internet: não há déficit na Previdência Social. A ideia tem como principal base um estudo da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Anfip), que sustenta que as contas do Orçamento da Seguridade Social — que engloba os gastos com aposentadorias, pensões, assistência social e saúde — poderiam estar no azul, caso fossem calculadas de forma diferente. Segundo a entidade, o governo deixa de contabilizar receitas e acrescenta despesas a esse orçamento, o que provoca o rombo. A metodologia é contestada pela maioria dos especialistas em contas públicas e pela equipe econômica.

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Considerando o dinheiro que entra, a principal crítica da Anfip é em relação a um mecanismo chamado Desvinculação das Receitas da União (DRU), criado em 1994 para dar mais flexibilidade à forma como o governo pode gastar os recursos arrecadados com impostos e contribuições. Isso porque a Constituição prevê que alguns desses tributos são carimbados — ou seja, devem ser destinados para determinadas áreas. A DRU, criada por emenda constitucional, alterou essas regras, permitindo que o governo mexesse livremente em 20% dessas receitas — no ano passado, esse percentual passou a ser de 30%. As contribuições ao INSS não são afetadas pela DRU.

Mas, para a Anfip, a regra tira dinheiro da Seguridade. Um vídeo, distribuído pelo Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais (Sindifisco), resume o estudo e destaca que o Orçamento da Seguridade Social perdeu R$ 66 bilhões em 2015 por causa da DRU. A legenda diz que “não há rombo na Previdência, e sim um desvínculo anual”, com uso de impostos para outros fins. Nas contas da entidade, haveria superávit de R$ 11,2 bilhões naquele ano, valor suficiente para pagar as despesas da Previdência Social. A Anfip também alega que as desonerações fiscais tiraram dinheiro da seguridade ao longo dos anos.
Os dados do governo estão de acordo com os dos auditores fiscais, mas a equipe econômica nega que seja esse o motivo para o rombo da Previdência. Também em vídeo, criado para rebater a tese de que não há déficit no sistema, o Ministério da Fazenda confirma que as desvinculações chegaram a R$ 61 bilhões em 2015 — número semelhante ao usado pela Anfip —, mas que a Seguridade Social continuaria no vermelho em R$ 106 bilhões naquele ano, mesmo que os recursos não fossem desvinculados. Descontando as receitas usadas na DRU, o déficit calculado pela Fazenda é de R$ 166,5 bilhões.
Déficit da Previdência
A diferença entre os resultados é porque a associação, além de contabilizar volume diferente de receitas, desconsidera algumas despesas em sua metodologia. A principal delas são os gastos com aposentados e pensionistas do serviço público. Na avaliação da Anfip, esses gastos não fazem parte do Orçamento da Seguridade Social, pois são regidos por outro capítulo da Constituição Federal, que detalha o funcionamento dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS).

Criador da DRU, o economista Raul Velloso explica que, na prática, a DRU não faz mais tanta diferença na conta, por causa do déficit na Seguridade, que se intensificou em 2016. Ele conta que a ideia surgiu para flexibilizar o dinheiro dos impostos criados em 1988, muitos com destinação exclusiva. Mas a estratégia só tem sentido quando sobra dinheiro da Seguridade Social — que, então, pode ser movimentado para dar conta de outros gastos.

Como os gastos com Previdência são obrigatórios, o governo até desvincula esse dinheiro, mas tem de devolver o que tirou e complementar para pagar os benefícios. Esse déficit é bancado pelo Tesouro Nacional.

— A DRU hoje é inócua. Minha invenção foi superada pelos fatos. Ela não consegue tirar mais dinheiro, o que adianta?

Para o presidente da Anfip, o mecanismo é prejudicial ao sistema previdenciário.
— A Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL) é destinada exclusivamente para o social. A Cofins é destinada para seguridade social. Como o governo inventa uma DRU que permite retirar 30% dessas receitas, quando o sistema é solidário, e as receitas são de destinação exclusiva? — critica Vilson Romero, presidente da Anfip.
Ele contesta, ainda, a inclusão dos gastos com servidores na conta da Seguridade.
— É uma pedalada na Constituição — resume.

Para o governo, é correto contabilizar os gastos com servidores nessa parte do Orçamento.
— Hoje, o déficit (da Previdência) dos servidores públicos é de R$ 77 bilhões. Eles falam que não é um gasto com seguridade social porque não está no capítulo da seguridade social. Da mesma forma que gasto com professor é de educação, gasto com aposentado, do setor público ou privado, tem que ser Previdência — diz Arnaldo Lima, assessor especial do Ministério do Planejamento.
Benedito Passos, diretor do Núcleo Atuarial de Previdência, concorda com a visão da Anfip.
— A seguridade social poderia ter mais de R$ 1 trilhão de recursos hoje se nos últimos 12 anos não estivéssemos fazendo as transferências — avalia.

A opinião de Passos, porém, não encontra eco entre outros analistas. A maioria dos economistas especializados em contas públicas destaca que a tese do superávit não se sustenta, principalmente porque, no fim das contas, o dinheiro é um só.

— A Previdência Social, e ainda mais a dos servidores, não é uma ilha da fantasia descolada do resto dos Poderes e recursos públicos. Ainda mais porque o seu déficit será sempre pago pelo próprio governo, logo, fica capenga fazer uma análise em que se considera apenas uma parte dos gastos — destaca José Roberto Afonso, economista do Ibre/FGV e professor do IDP.

O economista da FGV Samuel Pessôa destaca que, independentemente da forma de se contabilizar, há déficit, não só no sistema previdenciário, como na Seguridade Social:
— (A tese da Anfip) não pode ser considerada. Há déficit a partir de 2016 (mesmo sem a DRU) e ele será crescente independentemente da forma de contabilizar e de se devolver ou não as desonerações.

O GLOBO, 12 DE MARÇO DE 2017

Belas, libertárias e do mundo



Adriana Carranca

Quando cheguei ao pequeno apartamento em Teerã para entrevistar Shirin Ebadi, ela usava o hijab. Shirin é advogada e a primeira muçulmana a ganhar o Prêmio Nobel da Paz por sua luta em defesa da liberdade e dos direitos civis para as iranianas sob o regime dos aiatolás, instaurado após a Revolução Islâmica de 1979. Perguntei a ela por que se cobria em casa (nas ruas, o uso do véu era imposto mesmo às estrangeiras, avisadas a cobrir-se quando o avião entra no espaço aéreo do Irã, obrigatoriedade contra a qual ela lutava). “Porque não luto para não usar o véu, mas pelo direito de escolha, ainda que seja escolher usá-lo.”

Por muito tempo, muitas mulheres no Oriente rechaçaram a ideia do feminismo por associá-lo a valores ocidentais e demandas como o uso da pílula e da minissaia. Mas o direito á escolha universaliza a bandeira da igualdade.

Fui à casa de Shirin em um táxi dirigido por uma iraniana que fora obrigada a se casar aos 12 anos com alguém que não escolheu, fingiu-se louca para que o marido tomasse a iniciativa do divórcio (por lei, exclusiva aos homens), economizou dinheiro por dez anos, comprou os filhos de volta e, quando a encontrei, sustentava a casa com o trabalho numa cooperativa de taxistas mulheres que fundara e reunia 900 motoristas nas ruas de Teerã.

No Afeganistão, conheci a médica Massouda Jalal, primeira mulher candidata à Presidência; a deputada Fawzia Kofi; a editora da primeira revista feminina, Shukria Barakzai; a comandante do primeiro batalhão feminino do Exército afegão, Fahima Misbaha, que aos 36 anos estava prestes a se casar por amor com um cadete dez anos mais jovem, de outra etnia e patente inferior à sua, quebrando de uma vez todos os tabus da sociedade local.

A inclusão de mulheres no Exército afegão garantiu o acesso às casas onde a tradição impedia a presença de militares homens. A ação feminina reduziu a capacidade de recrutamento e ataques do Talibã, segundo o general aposentado John Allen, ex-comandante da Força Internacional de Assistência à Segurança no país que mais tarde fez parte da coalizão de combate contra o EI. “Nenhuma sociedade conseguiu transitar do conflito para o desenvolvimento sem que as mulheres fizessem parte central dela”, disse ele num simpósio sobre a participação de mulheres em prevenção e resolução de conflitos, promovido pelo Council on Foreign Relations em Washington.

A participação de mulheres em processos de paz aumenta em 35% as chances de um acordo durar pelo menos 15 anos; a de organizações civis que incluem grupos de mulheres reduz em 64% as chances de um acordo de paz falhar. A igualdade de gênero está associada à propensão menor de conflitos entre Estados ou guerras civis. Se incluídas em ações de prevenção e em esforços para combater o radicalismo e o extremismo violento, o resultado tende a ser mais positivo e duradouro.

Não exatamente porque a mulher seja menos propensa a violência ou guerras, para o bem ou para o mal acreditar nisso seria também uma forma de sexismo — 40% das forças curdas de orientação marxista que lutam nas trincheiras do Iraque e da Síria contra o Estado Islâmico são mulheres; na outra ponta, a ascensão da extrema-direita que incita o ódio a imigrantes, refugiados e minorias na Europa tem sido largamente liderada por mulheres como Marine Le Pen, na França. Mas por abarcar as experiências, a visão, as possibilidades e escolhas trazidas por uma parcela da população amplamente ignorada.

Entre 1992 e 2001, período que abarcou conflitos tão sangrentos quanto a primeira Guerra do Golfo e o genocídio em Ruanda, as mulheres somaram menos de 4% entre signatários de acordos de paz e tiveram apenas 9% de representatividade em negociações. Esse período compreendeu ainda o início da segunda guerra civil na Libéria. Quatro anos depois, sete mulheres, entre elas Leymah Gbowee, iniciaram protestos não violentos que evoluíram para uma greve geral de sexo cuja repercussão acabou por convencer o presidente Charles Taylor a recebê-las num encontro do qual saíram com o rascunho de um acordo de paz. A ação abriu caminho para a eleição, mais tarde, de uma mulher como presidente. E inspirou ações semelhantes em Guatemala, Togo e outros países.

“Ponha as mulheres na mesa (de negociações) e notará que mais questões e perspectivas são trazidas à luz”, escreveu esta semana a ministra de Relações Exteriores da Suécia, Margot Wallström, que propõe uma agenda feminista na política externa. “Feminismo é um dos componentes da visão moderna em política global.”

March 11, 2017

Decálogo do rinoceronte


CONRADO HÜBNER MENDES 

1. Não tolerarás a diferença nem respeitarás o desacordo.

2. Não perguntarás nem fraquejarás diante da pergunta. As respostas são evidentes, as soluções são únicas.

3. Expressarás desprezo pela política e por políticos, mas farás política com máscara de apolítica.

4. Opinarás com fé e convicção. Deixar-se convencer pela opinião contrária é derrota.

5. Não escutarás cientistas, especialistas, jornalistas. Ignorarás contra-argumentos, fatos, pesquisas. Não buscarás saber quem, como, onde e por quê.

6. Contra direitos, falarás em nome de uma entidade mística, abstrata, aritmética, imaginária: Deus, povo, maioria, "homem de bem". Contra direitos, invocarás uma missão civilizatória: fazer justiça, combater o crime e a corrupção, desenvolver a economia.

7. Desfilarás superioridade moral e intelectual, em nome da qual justificarás toda sorte de microagressões, linchamentos físicos e reputacionais.

8. Mostrarás o que é certo e como se faz, nem que seja no grito, no braço ou à bala.

9. Abraçarás slogans esvaziados de significado, fáceis de assimilar: politicamente correto, comunismo, feminismo. Atiçarás emoções primárias do seu público por meio dessas sínteses caricatas do mal.

10. Exigirás que sua particular forma de viver e se relacionar seja oficial. Dirás que essa forma é natural e as outras, desviantes.

No bestiário do primitivismo político brasileiro, entre mulas, raposas e serpentes, o rinoceronte tornou-se hegemônico. Acima, os seus dez mandamentos.

Na famosa peça "O Rinoceronte", Eugène Ionesco narra a resistência do personagem Bérenger diante da gradual transformação de concidadãos num animal que simboliza a desumanização da cidade. "Não se vê um único ser humano, a rua é deles", diz Bérenger.

A alegoria antifascista nos inspira a olhar para o embrutecimento do Brasil e nos ajuda a escutar os ecos da caverna que nos aguarda.

O rinoceronte brasileiro é guardião das mais cínicas falácias políticas em que nos enredamos.
Uma pequena lista: quanto mais armados os cidadãos e a polícia, maior a segurança; quanto mais se prende, mais se previne o crime; quanto mais se proíbe as drogas, mais se promove a saúde pública; quanto mais se corta em políticas de bem-estar, mais o Estado economiza; criminalize-se o direito reprodutivo das mulheres e a vida estará protegida; flexibilizemos regras ambientais e a economia crescerá.

Rinocerontes escondem que o estatuto do desarmamento reduziu as mortes por arma de fogo; o sistema prisional alimenta um crime organizado rico e inteligente; a guerra às drogas é uma das causas do encarceramento em massa, reforça o narcotráfico e a violência; há correlação entre cortes em políticas de bem-estar e aumento dos gastos em segurança; nunca se abortou tanto (nas clínicas privadas de bairro nobre e nas precárias de periferia); a mudança climática ameaça a vida de gerações presentes e futuras e o Estado, sequestrado por poderes econômicos arcaicos, permanece avesso a alternativas tecnológicas.

Rinocerontes não estão apenas nas redes sociais destilando racismo e homofobia, nas estações de metrô espancando homossexuais e quem os defende, praticando chacina contra família de ex-mulher e filho, nas TVs insuflando pânico moral.

Povoam ministérios, parlamentos, tribunais, movimentos sociais; estão dentro de casa. Não são loucos ou psicopatas.

"Os bons sujeitos dão bons rinocerontes", disse outro personagem de Ionesco. Estão coordenados, têm repulsa a direitos e liberdades iguais e lutam contra a possibilidade da democracia. Em nome do bem. Já não basta chamá-los para o diálogo.

CONRADO HÜBNER MENDES é professor de direito constitucional da Faculdade de Direito da USP

March 10, 2017

Tentativa de acordo para reparar danos no rio Doce recebe críticas

DANIEL CAMARGOS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM BELO HORIZONTE

 

A tentativa do Ministério Público Federal de elaborar um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com a Samarco, Vale e BHP Billiton para reparar os danos causados às vítimas do rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG), recebeu críticas em encontro nesta sexta-feira (10), em Belo Horizonte, com a presença de 31 entidades.

A falta de participação dos atingidos na definição do termo de ajustamento preliminar, além da inclusão de duas empresas para assessoria técnica (Lactec e Integratio) que já prestaram serviços para Vale (acionista da Samarco) provocou queixas.

O professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Carlos Vainer criticou a premissa do MPF, que adotou a mesma prática de acordo firmado entre a União e os governos de Minas Gerais e Espírito Santo com as empresas, chamado de "acordão", ao deixar de levar em conta a visão dos atingidos.

Em maio do ano passado, o MPF ingressou com uma ação civil pública e conseguiu anular o acordo, que destinava R$ 20,2 bilhões para as reparações. Na ocasião, o órgão estimou como valor preliminar de reparação R$ 155 bilhões.

O objetivo do MPF, agora, é firmar um TAC. Em janeiro, o órgão, após reuniões com as empresas (Samarco, Vale e BHP), elaborou o termo preliminar.

"O MPF, ao analisar o primeiro acordo feito entre os governos, questionou porque a população afetada não foi ouvida. Agora, cometeram exatamente o mesmo erro, porque foi feito à revelia daqueles que o MPF deveria estar atendendo", disse Vainer, especialista em impactos sociais e ambientais de grandes barragens.

O professor entende que o objetivo não pode ser o acordo, pois as empresas se valem do argumento da demora do Judiciário para conseguir vantagens. "Só devemos fazer acordo se os princípios essenciais forem preservados", afirmou.

Um dos coordenadores do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), Joceli Andreoli também criticou a falta de participação dos atingidos na definição do termo preliminar. "Não pode ser um acordo entre os envolvidos no crime que ocorreu em Mariana", disse.

O rompimento da barragem do Fundão, em 5 de novembro de 2015, matou 19 pessoas, destruiu comunidades, atingiu o rio Doce e provocou colapso no abastecimento de água de dezenas de cidades ribeirinhas, além de afetar a fauna, a flora e chegar até o oceano Atlântico.

O promotor André Sperling Prado, da coordenadoria de inclusão e mobilização social do Ministério Público Estadual, disse que a ideia de fazer um acordo objetiva rapidez na solução.

"Para o Ministério Público, é mais fácil propor uma ação e colocar a culpa no juiz", afirmou. Segundo ele, o TAC pode proporcionar os direitos aos atingidos mais rapidamente.

Em dezembro do ano passado, a força-tarefa que tratava do rompimento da barragem de Mariana foi substituída no Ministério Público Estadual. Um dos promotores afastados disse à Folha que o motivo da mudança foi que eles não concordavam com a volta da atividade da Samarco até que todas as licenças ambientais fossem esclarecidas.

Na semana passada, em entrevista ao jornal "Valor Econômico", o governador Fernando Pimentel (PT) disse que a Samarco retomará as atividades no segundo semestre.

O promotor Prado, um dos integrantes da nova força-tarefa, disse que os órgãos estão no início do processo da construção do TAC e que o objetivo é a reparação dos direitos humanos e dos danos causados.

O procurador regional dos direitos do cidadão do Ministério Público Federal, Edmundo Dias, afirmou que o que foi feito até o momento prevê procedimentos de negociação e que o objetivo do encontro foi iniciar o processo de participação. "Eventualmente pode resultar em acordo, mas isso depende das negociações", afirmou.

O MPF informou que uma das empresas apontadas pelas entidades de ter prestado serviço para Vale, a Integratio, não irá participar mais do processo. Já sobre a continuidade da Lactec como consultora do órgão, ainda não foi tomada uma decisão.
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