Box resgata crônicas de Nelson Rodrigues publicadas entre as Copas de 1958 e 1970: combate ao 'derrotismo' e futebol como símbolo maior da nacionalidade
Nelson Rodrigues não perdia a oportunidade de desancar os “idiotas da objetividade”: cidadãos que “nada enxergavam para além dos fatos”, negavam o milagre, só falavam “em técnica”, “em tática”, e não tinham amor à camisa (“um simples trapo colorido”). No entanto, em 3 de junho de 1970, data da estreia do Brasil na Copa de 1970 (contra a Tchecoslováquia), ele escreveu no GLOBO que “há um momento em que o idiota da subjetividade tem seu papel”: antes do torneio e “durante a formação do escrete”. Na hora de “escolher o melhor time”, “cada um de nós pode assumir, e deve assumir, uma posição estritamente crítica”, afirmou.
Mas essa postura objetiva tinha data de validade: “quando começa a guerra, e o Brasil começa a dar suas rútilas botinadas, é (preciso) que o brasileiro seja apenas torcedor”. “Em vez de imparcialidade, o que o Brasil espera de todos nós é amor”, bradou o cronista. E ainda esculhambou seus colegas da imprensa esportiva que “diante da guerra” assumiam “uma distância emocional, como se fossem críticos e não brasileiros”, repetindo que “os outros têm toda as facilidades e o Brasil nenhuma”. Por fim, profetizou: “E, com tudo isso, vamos trazer o caneco de ouro”.
“O idiota da subjetividade” é uma das 150 crônicas rodriguianas (142 delas inéditas em livro) recuperadas em “As copas de Nelson Rodrigues”, obra em três volumes que reúne colunas esportivas escritas entre 1958 e 1970. Destas, 120 foram publicadas no GLOBO e agora saem em livro com as ilustrações originais de Marcelo Monteiro, funcionário mais antigo do jornal, que segue na prancheta, aos 91 anos. O lançamento de “As copas de Nelson Rodrigues” será dia 9, às 19h, no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista. O projeto foi idealizado pela neta do autor, Crica Rodrigues.
Os textos voltam a circular em boa hora: a Copa do Mundo começa na próxima quinta-feira (11), e no sábado (13) a seleção brasileira faz sua estreia (contra o Marrocos) sob o olhar cheio de objetividade dos torcedores. Com sua verve inigualável, o “anjo pornográfico” comentava jogos, exaltava o futebol-arte como expressão mais bem-acabada da nacionalidade e combatia ferozmente “o velho e sinistro derrotismo brasileiro” (outra manifestação do que ele chamou de “complexo de vira-lata”).
Nelson começou a escrever sobre futebol em “A vida como ela é”, sua coluna no Última Hora dedicada ao drama humano, depois da traumática derrota do Brasil na Copa da Suíça em 1954 (nas quartas de final, a seleção perdeu de 4 x 2 para a Hungria, num jogo violentíssimo que ficou conhecido como “Batalha de Berna”). No ano seguinte, ele lançou, na Manchete Esportiva, a coluna “Meu personagem da semana”, que depois migrou para o Última Hora e, por fim, para o GLOBO.
O pesquisador Caco Coelho, organizador de “As Copas de Nelson Rodrigues”, afirma que foi nesse espaço que o escritor melhor exercitou seu “olhar poético”. O cronista não enxergava bem à distância e às vezes tinha dificuldade de acompanhar o que se passava no gramado. Restava, portanto, depurar a “visão de poeta”, diz Coelho, autor de uma dezena de livros sobre o dramaturgo, como “Dossiê Rodrigues” (Oi Nóis na Memória), que investiga a influência familiar no desenvolvimento da linguagem rodriguiana.
Marcelo Monteiro, o ilustrador, lembra de às vezes emprestar seus olhos ao colunista quando assistiam a jogos juntos na tribuna da imprensa do Maracanã:
— Uma vez o Jacinto de Thormes (pseudônimo do jornalista Maneco Müller), para atacar o Nelson, disse que ele não entendia nada de futebol porque nem enxergava o campo, que todo mundo sabia que quem narrava o jogo para ele era o Marcelo, ilustrador do GLOBO — conta o desenhista, que, assim como o escritor, é torcedor do Fluminense. — Às vezes, na redação, eu ia perguntar ao Nelson o que ele achava de uma ilustração e, sem tirar os olhos da máquina de escrever, ele respondia sempre a mesma coisa: “continuas brilhando intensamente” (risos).
Monteiro tinha o desafio de dar forma aos personagens que vez ou outra surgiam nas crônicas, como o Sobrenatural de Almeida, alma penada que recorria a todo um “arsenal de sortilégios” para zicar o Fluminense, e o Gravatinha, “venerando tricolor falecido em 1918”, de Gripe Espanhola, “que acompanha os nossos jogos pelo seu radinho de pilha” e desce do além para festejar as goleadas do clube. “Nota-se que há entre os dois uma dessemelhança total”, alertou o cronista num texto de 1967 que elegeu fantasminha camarada como personagem da semana. “O ‘Gravatinha’ é um doce, um otimista e uma alma de nobilíssimas paixões. De mais a mais, não há ‘pó de arroz’ mais fiel e mais estremecido. Ao passo que o Sobrenatural de Almeida é um neurótico irrecuperável”, explicou.
O personagem da semana podia ser um time, um jogador, uma partida ou os inimigos do cronista (como o “execrável pessimismo”). Nelson aproveitava a coluna para corrigir injustiças e comentar hábitos nacionais, como se vê nos trechos destacados nesta página. Em dezembro de 1962, ele reclamou que não admiramos Garrincha “com a efusão necessária” e atacou comentaristas que acusavam o craque de prender a bola e atrasar o jogo. “O brasileiro é, antes de tudo, um impotente da admiração”, pontificou o cronista. Para destacar o ímpeto justiceiro do escritor, Caco Coelho fez questão de incluir em “As Copas de Nelson Rodrigues” textos sobre craques pouco lembrados, como Roberto (artilheiro do Botafogo) e Paulo Borges (goleador do Bangu).
Às vezes, Nelson também falava de outros esportes, como o boxe de Éder Jofre e o tênis de Maria Esther Bueno. Mesmo nos textos dedicados a modalidades diversas, ele dava suas botinadas no vira-latismo e reafirmava que “o brasileiro é o maior”. Para o cronista, o sucesso de Maria Esther nas quadras era índice do “fabuloso despertar da pátria”. “É o triunfo do Brasil como um todo harmonioso e irresistível”, celebrou.
— Nelson teimava em defender um sentimento maior de brasilidade, que já estava presente na obra do pai dele, o jornalista Mário Rodrigues — afirma Caco Coelho. — Ele não tinha nenhum recato, nenhuma vergonha de estufar o peito e dizer que o brasileiro era o maior e compreendia como positivos a nossa incoerência e o colorido da nossa diversidade. Ele usava o vigor da brasilidade como instrumento de crítica ao derrotismo.
Sentimento de brasilidade
O pesquisador acredita que, de início, Nelson talvez reprovasse a escolha de um técnico estrangeiro para a seleção. Porém, terminaria por aprovar o italiano Carlo Ancelotti.
— Mesmo sendo estrangeiro, o Ancelotti conseguiu entender o sentimento de brasilidade. Dá para ver pelas atitudes dele. Ele quis aprender português! E não é verdade que ele cedeu ao convocar o Neymar. O que ele fez foi ouvir a torcida. Ele sabe que o que importa no futebol não é o patrocinador, mas a torcida, que daria um pau nele na saída do Museu do Amanhã se o Neymar tivesse ficado de fora — diz o pesquisador, gaúcho que torce para o Internacional e para o Fluminense (por influência de Nelson, é claro).
Coelho não tem dúvidas de que, se pudesse voltar ao nosso mundo para acompanhar a Copa (como fazia o nobilíssimo Gravatinha quando havia jogo do Fluminense), Nelson estaria convencido que o hexa vem aí.
— Para o Nelson, futebol é paixão. Claro que ele fazia análises criteriosas, mas o que importava mesmo era a paixão que mobilizava o país. O resto eram detalhes diante da magnitude do significado da seleção como símbolo da brasilidade.
Em 22 de junho de 1970, no dia seguinte à conquista do tricampeonato, Nelson fez questão de cutucar os “entendidos” que, antes e durante o torneio, insinuavam que nossos craques “ pernas de pau” e “cabeças de bagre” em comparação com os europeus. Mas, como bom torcedor, não deixou de festejar: “glória eterna aos tricampeões mundiais”. “Desde o Paraíso, jamais houve um futebol como o nosso”, bradou o camisa 10 da crônica brasileira.
'As Copas de Nelson Rodrigues': leia trechos das colunas do camisa 10 da crônica brasileira
Nelson Rodrigues começou a escrever sobre futebol em “A vida como ela é”, sua coluna no jornal Última Hora dedicada ao drama humano, depois da traumática derrota do Brasil na Copa da Suíça em 1954 (nas quartas de final, a seleção perdeu de 4 x 2 para a Hungria, num jogo violentíssimo que ficou conhecido como “Batalha de Berna”). No ano seguinte, ele lançou, na Manchete Esportiva, a coluna “Meu personagem da semana”, que depois migrou para o Última Hora e, por fim, para o GLOBO
Com sua verve inigualável, o “anjo pornográfico” comentava jogos, exaltava o futebol-arte como expressão mais bem-acabada da nacionalidade e combatia ferozmente “o velho e sinistro derrotismo brasileiro” (outra manifestação do que ele chamou de “complexo de vira-lata”). O pesquisador Caco Coelho resgatou 150 desses textos em “As copas de Nelson Rodrigues”, obra em três volumes que reúne colunas esportivas escritas entre 1958 e 1970. Destas, 120 foram publicadas no GLOBO e agora saem em livro com as ilustrações originais de Marcelo Monteiro, funcionário mais antigo do jornal, que segue na prancheta, aos 91 anos.
O lançamento de “As copas de Nelson Rodrigues” será dia 9, às 19h, no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista. Leia abaixo trechos das colunas do camisa 10 da crônica brasileira:
O novo brasileiro
“A derrota! Através de quase quinhentos anos, o brasileiro acordou derrotado e dormiu derrotado. Mesmo na vida pessoal, era um borra-botas que se torcia de frustrações como de cólicas. Vergava os ombros para a namorada, a esposa, a amante, numa lívida pusilanimidade. E, súbito, algo mudou. Justiça se lhe faça: — foi o esporte o profeta do novo Brasil e do novo brasileiro.” (“Maria Esther Bueno”, Última Hora, 6/7/1959)
Roedor de rapadura
“Amigos, o que o Brasil fez, na clara Suécia, foi pior que xingar a mãe. Papado o título, cada brasileiro lavou-se numa banheira de Cleópatra, em água de rosa, com pétalas boiando. Ninguém entendeu, lá fora, que um povo como o nosso, roedor de rapadura, fosse capaz de uma tal afirmação atlética. E, desde então, os títulos esportivos foram a nossa compensação de feios e de fracos.” (“O meu personagem do ano 1960: Eder Jofre”, Última Hora, 26/12/1960)
O gol pornográfico
“E, no fim de certo tempo, ocorreu um fenômeno óptico único: — só víamos Pelés em campo. Era o prodigioso craque multiplicado. Se o zagueiro santista apanhava a bola, todo o mundo gritava: — “Olha Pelé!” Ninguém mais existia. Atribuíamos tudo a Pelé. Mas o segundo gol, amigos, chegou a ser pornográfico! Pelé recebe a bola no meio do campo, no meio da rua. O que ele fez, em seguida, na sua deslumbrante penetração, parece piada. Passou por um, por dois, por três, passou por todo o mundo. E fez o gol. Amigos, foi uma obra-prima tão perfeita, irretocável, que o estádio veio abaixo.” (“Pelé”, Última Hora, 6/3/1961)
Vitória da burrice
“E oitenta milhões de sujeitos estão aí, pagando pela burrice alheia. Não apareceu ninguém para amarrar a Comissão num pé de mesa, dizendo-lhe: — “Bebe água numa cuia de queijo Palmira!” Amigos, na catástrofe de ontem comprovamos mais uma vez esta verdade inapelável e eterna: — na batalha entre o gênio e a burrice, ganha esta e o gênio fica rosnando de impotência e frustração. Venceu a burrice imortal da Comissão Técnica.” (“Derrota para Portugal”, O GLOBO, 20/7/1966)
Afrodisíaco
“Lenine, se visse a paixão flamenga, havia de anotar no seu caderninho: — ‘O Flamengo é o ópio do povo.’ Mas seria um equívoco. Ópio, não. Afrodisíaco, desses que fazem o sujeito subir pelas paredes e se pendurar no lustre, de cabeça para baixo.” (“Bangu”, O GLOBO, 19/12/1966)
Torcedor de ninguém
“Também no futebol, nada descreve e nada se compara ao amor infeliz. Que coisa doce e que coisa linda é insistir no clube que sofre cinco, seis, sete der- rotas consecutivas. A desgraça só favorece a verdadeira paixão. E o torcedor só da vitória não é torcedor de nada, não é torcedor de ninguém.” (“Marco Aurélio”, O GLOBO, 4/09/1967)
Onipotência
“Em 62, os Andes se prostraram diante do seu gênio. Pelé saiu no segundo jogo e não voltou mais. Garrincha ganhou sozinho o Bicam- peonato. E, súbito, aquele rapaz da Raiz da Serra compensou- nos de todas as nossas humi- lhações pessoais e coletivas. Vocês sabem que, do nosso lábio, sempre pendeu a baba elástica e bovina da humildade. Em 58, ou 62, o mais indigente dos brasileiros pôde tecer a sua fantasia de onipotência.” (“Mané”, O GLOBO, 2/12/1968)
Pelé
“Mil goals! Parece impossível que um só homem faça tanto! Ponham toda uma população a chutar em goal, inclusive as senhoras. E, talvez, não chegue ao milheiro. O que ninguém fez antes dele, o que ninguém fará depois dele, Pelé conseguiu no seu esforço solitário e formidável.” (“Pelé”, O GLOBO, 29/12/1969)
Vício
“O pessimismo, na maioria da crônica esportiva, mais que um sentimento é um hábito ou, mais do que isso, um vício. O subdesenvolvido se realiza na autoflagelação.” (“Execrável pessimismo”, O GLOBO, 12/1/1970)
Patriotas
“Amigos, glória eterna aos tricampeões mundiais. Graças a esse escrete, o brasileiro não tem mais vergonha de ser patriota. Somos noventa milhões de brasileiros, de esporas e penacho, como os Dragões de Pedro Américo.” (“Entendidos”, O GLOBO, 22/6/1970)
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