June 16, 2026

O mistério do futebol

 

 

· Braulio Tavares

O mundo começa a girar, cada vez mais depressa, no carrossel da Copa do Mundo. Quem um dia já chorou com futebol, quem um dia já foi feliz com futebol, quem um dia já ficou bêbo com futebol, não tem remédio senão girar também, girar, girar, girar.

Eu vejo uma Copa do Mundo com olhos diferentes da maioria das pessoas. Eu não vejo Copa para torcer pelo Brasil. Gosto do Brasil, gosto do jeito que o brasileiro joga futebol, gosto do significado que o futebol tem na vida do povo.

Muita gente não gosta de futebol, assim como muita gente não gosta de música, e muita gente não gosta de poesia. Não há problema. Sejam felizes com as coisas que gostam. O que não falta no mundo são possibilidades de ser feliz com pouco.

Eu gosto. O futebol tem algo de balé, no que fazem os jogadores. E tem algo de xadrez, no que fazem os técnicos.

Como todo esporte competitivo, ele envolve um poderoso elemento “agonístico”, a determinação de superar um adversário. E com isto afirmar a própria superioridade, ainda que seja uma superioridade momentânea, num aspecto totalmente específico. Ou uma superioridade apenas simbólica.

Vencer, vencer, vencer. Se não houvesse um impulso assim, tão poderoso, o futebol (o esporte em geral) não teria o poder que tem. Seria algo como a Arte, por exemplo. Na Arte não existe o conceito de “vencer”, não existe vitória nem derrota. Essa coisa de dinheiro, mercado, prêmios, festivais, etc., são penduricalhos extemporâneos, nada têm a ver com a Arte.

Dias atrás, tive uma breve participação numa “mesa redonda” na Feirinha do Livro do Largo de Santa Rita, centro do Rio de Janeiro, ao lado de colegas que se reuniram para comentar a antologia Era Uma Vez Flamengo (Ed. Faria e Silva, 2025), organizada por André Salviano. Falamos não apenas sobre o nosso clube, mas sobre esse fenômeno curioso que é a paixão futebolística.

No meio do debate, os colegas lembraram o livro de Sérgio Rodrigues (que também participa da antologia), O Drible. Nele, Sérgio sugere que grande parte da grandeza do futebol brasileiro se deve ao rádio.

Num tempo em que não havia televisão, era ao pé do rádio que milhões de brasileiros se reuniam para escutar os jogos dos grandes times, os jogos de Copa do Mundo. E os locutores, tão épicos, tão hiperbólicos, passavam para o Brasil inteiro a imagem de craques absolutos travando embates mitológicos, memoráveis.

Os jogos talvez nem fossem essas cocacolas todas, mas os radialistas transformavam qualquer batalha ganha numa Austerlitz, qualquer batalha perdida numa Waterloo. Qualquer gol era gol de placa, qualquer defesa era uma defesa impossível, qualquer drible era um drible desmoralizante.

Eles se esgoelavam. E a gente precisava agarrar o rádio de pilha com as duas mãos, para não perder nada.

Isso instilava em milhões de meninos, Brasil afora, a noção de que o futebol brasileiro era povoado por craques, e que cabia a eles (que já se exercitavam na bola de meia, na bola de plástico, na bola de couro) superar esses craques.

E era verdade. Entre as noites mais épicas da minha vida pré-televisão estão aquelas em que depois do jantar eu fazia correndo o dever-de-casa porque por volta das nove da noite tinha jogo do Flamengo, ou jogo do Sport, ou jogo de Pelé. (Todo brasileiro acompanhava Pelé, sem necessariamente ser torcedor do Santos.)

Os jogos do Treze, ça va sans dire, eu via roendo unhas na arquibancada.

A maior ficção futebolística do Brasil não está no romance, está na transmissão esportiva, está na crônica, na reportagem, no memorialismo... Está na não-ficção. Que é ficção, em última análise, porque ao contar como foi um jogo contamos o jogo que era para ter sido, nas proporções épicas que nosso desejo e nossa imaginação lhe atribuem. Querem saber os fatos crus, os obstinados fatos? Ora, leiam a ficha técnica do jogo, e boa noite.

O futebol, seus clubes, seus triunfos, suas tragédias, são um universo que atrai um feixe heterogêneo de impulsos primitivos da nossa mente. Impulsos animais, impulsos intelectuais, impulsos espirituais, impulsos simbólicos... Cada pessoa torce de acordo com o que é.

Quem tem uma teoria interessante sobre fenômenos dessa natureza é o grande Kurt Vonnegut Jr. Em seu livro Cat’s Cradle (1963) ele alude a uma religião imaginária, o Bokononismo, cheia de símbolos e rituais. A certa altura ele explica dois dos seus conceitos mais importantes, o “karass” e o “wampeter” (o qual, aliás, não tem relação com o nosso trêfego Vampeta, ex-Corinthians, ex-Seleção).

Diz Vonnegut:

Um wampeter é a base de um karass. Não existe karass sem wampeter, Bokonon diz, assim como não existe uma roda sem eixo. Um wampeter pode ser qualquer coisa: uma árvore, uma pedra, um animal, uma idéia, um livro, uma melodia, o Santo Graal. Seja o que for, os membros do karass giram em torno do seu wampeter no caos majestoso de uma nebulosa espiral. É evidente que as órbitas dos membros do karass que estão em volta do wampeter em comum são órbitas espirituais. São as almas que giram, não os corpos.

(Cama de Gato, São Paulo: Aleph, 2017, trad. Livia Koeppl)

Mais claro do que isto é impossível. Uma torcida é um karass, um clube de futebol é um wampeter. Nossas almas ficam girando em torno do clube amado, no ciclo recorrente dos jogos, dos campeonatos, das infinitas mutações dos times que se sucedem com aquela camisa.

Amamos o time e detestamos o presidente ou o técnico, amamos o time e odiamos o centro-avante ou o goleiro, e nossa alma se aquece nessa fadiga-do-metal ao ser perpetuamente torcida para um lado, para o outro, para a vitória heróica, para a derrota trágica, para os títulos consagradores, para os humilhantes rebaixamentos (quando é o caso).

É só no futebol? Não.

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Nesta semana da Copa do Mundo, acompanhei pela imprensa e pelas web-TVs o delírio de um karass gigantesco, a torcida dos New Yorks Knicks, o mais popular time de basquete novaiorquino.

Os Knicks não ganhavam o campeonato da NBA há exatamente 53 anos. E nesta semana, numa decisão emocionante de cinco partidas, derrotaram por 4x1 os San Antonio Spurs.

Cada karass é diferente de todos os outros. Na Copa do Mundo, a Seleção de Curaçao acaba de jogar sua primeira partida de Copa, e perdeu de 7x1 para a Alemanha. O que sentem os membros do karass dessa Seleção é qualitativamente diferente do que sentem os membros do karass da Turquia, que perdeu de 2x0 para uma Austrália tradicionalmente inferior.

Cada caso é um caso. Tudo é diferente. Na Natureza, podem existir dois átomos iguais, duas moléculas iguais. Daí para cima, tudo é diferente.

(foto: Dave Sanders)

Os New York Knicks fizeram uma jornada histórica. Quando eles venceram as duas primeiras partidas da série decisiva, no começo deste mês, torcedores começaram a chegar do mundo inteiro, desembarcando em Nova York, movidos pela esperança de ver seu time ganhar pela primeira vez. (A última vez que os Knicks chegaram à decisão foi em 1999, perdendo justamente para o mesmo San Antonio Spurs.)

Pais trazendo os filhos, filhos trazendo os pais. “Você não pode perder isto.”

Foi apenas o terceiro título na história do clube. E um clube que representa a cidade de Nova York, talvez a mais autoconfiante e mais arrogante cidade do mundo, a Roma Imperial dos tempos modernos, a cidade-planeta de Trantor, imaginada por Isaac Asimov. A cidade que Frank Sinatra cantou assim: “Se eu conseguir vencer aqui, venço em qualquer lugar”.

(foto: Angelina Kansaris)

Nestes dias eu estava vendo na Netflix uma série-documentário de Martin Scorsese entrevistando uma figura que curto bastante, a jornalista e escritora Fran Leibowitz. É uma novaiorquina típica, uma mulher sarcástica, inteligente, sem-papas-na-língua, desbocada, que falando me lembra às vezes uma mistura de Marília Gabriela com Maria da Conceição Tavares.

(Fran Leibowitz)

A série celebra a cidade de Nova York, descrita e comentada por uma de suas críticas e defensoras mais ferrenhas, e se intitula Pretend It Is a City. “Faça de Conta Que É Uma Cidade”. Porque falta a Nova York (dizem seus críticos) um pouco de humanismo. Não é uma cidade acolhedora, amistosa. A cidade e sua população vivem em guerra. Os novaiorquinos soam às vezes como alguém que está sacrificando a vida para salvar uma coisa que odeia.

A arrogância top de Nova York provavelmente convivia mal com o fato de que seu time de basquete, que é o esporte mais importante dos EUA. não conseguia ser campeão. O título de agora foi apenas o terceiro em toda a sua história. E isso talvez os tornasse (sei lá, estou especulando) mais azedos, mais rudes, mais cactáceos.

(CNN International)

Pode ser que este título de campeão tenha o poder de despertar no karass da própria cidade (que não é exatamente o mesmo karass do time de basquete) um pouco daquele generosidade-sem-cálculo que é privilégio das pessoas felizes com o que têm na vida.

E me emocionei com esta crônica de Matt Flagenheimer (CNN International) ao descrever as comemorações do título, que entraram pela noite de sábado e madrugada de domingo, quando os Knicks cravaram sua quarta vitória (94 x 90) em outra virada espetacular diante dos Spurs.

Então é assim que a gente se sente.

É gente dando risada, gente chorando, rodando na rua, tendo convulsões, saltando do alto nos braços dos outros, buzinando em caminhões, desobedecendo à lei, soprando trompetes, badalando chocalhos, cantando fora do tom, acendendo charutos, virando a noite – e lembrando que é preciso lembrar disso tudo para sempre, como se fosse possível um torcedor do Knicks poder esquecer esta noite.

É gente agarrando estranhos até tirar o fôlego, esmurrando capô de táxi no delírio do trânsito, batendo mão-aberta na mão de crianças nos ombros dos pais, batendo mão-aberta na mão de adultos nos ombros de adultos, trepando em postes e em sinais de trânsito e em andaimes de construção, para levantar mais alto a bandeira do time, pegando cones de trânsito e enfiando na cabeça por causa da cor, que é laranja.

São as lágrimas cobrindo as calçadas em volta do Madison Square Garden, por onde os novaiorquinos de muitas gerações carregaram seus desapontamentos e suas derrotas e seus corações partidos e seus lamentos de desta-vez-doeu-demais.

Diz a crônica que, ao amanhecer do domingo, com a cidade em pandarecos, cheia de bêbados sentados no meio-fio, um vendedor de camisetas comemorativas do título ainda empurrava seu carrinho pela Sexta Avenida, gritando: “Lembrem-se!... Lembrem-se de hoje!...”.

Um grito que me trouxe à memória as cenas apocalípticas de Mad Max: Fury Road (George Miller, 2015), em que guerreiros punk-kamikazes, antes de se atirar para a morte, berram para os demais: “Witness!... Witness!...”

Testemunhem.

Vejam o que vão ver agora, porque nunca mais verão de novo, mas vocês são os privilegiados que viram a História acontecer diante dos seus olhos. Os fatos, os obstinados fatos, irão desaparecer nas águas do tempo, e tudo que restará deles será o testemunho de vocês. Será a crônica.

 

BRAULIO TAVARES SUBSTACK 

 

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