March 30, 2024

O triunfo da Uberização

 

 

 O governo Lula tenta remendar o estrago causado pela reforma de Temer e a uberização, enquanto o STF engessa a Justiça do Trabalho

 Por Maurício Thuswohl


  Criamos uma nova categoria no Brasil, chamada trabalhadores autônomos com direitos”, celebrou o presidente Lula ao enviar ao Congresso Nacional, na segunda-feira 4, o Projeto de Lei elaborado pelo Executivo que estabelece regras para o trabalho de motoristas de aplicativo. O envio do PL, que tramitará em regime de urgência e deve ser votado pela Câmara em um prazo máximo de 45 dias, foi igualmente celebrado por trabalhadores e plataformas que operam no setor, após a conclusão em consenso de um processo de negociação tripartite, que se estendeu desde o início do atual governo. Empolgado, Lula disse ter recomendado ao ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que enviasse o projeto ao presidente dos EUA, Joe Biden, “para mostrar ao mundo o que é possível fazer”.

Embora faça sentido do ponto de vista político, afinal trata-se de fato de uma tentativa de regulação nacional inédita para os chamados “trabalhadores plataformizados”, a festa em torno do PL ofusca o fato de que a propalada “autonomia com direitos” consolida mais um rebaixamento das conquistas que os trabalhadores no Brasil obtiveram desde o governo de Getúlio Vargas. Mesmo ao conceder aos motoristas de aplicativo direitos como o pagamento mínimo por hora trabalhada ou a contribuição ao INSS, entre poucos outros, a regulamentação os deixa fora da alçada da Consolidação das Leis do Trabalho e aprofunda a precarização iniciada com a reforma aprovada em 2017 no governo de Michel Temer.

Em paralelo, o Supremo Tribunal Fe-
deral, a partir do entendimento em plená-
rio virtual de que um caso analisado na-
quela Corte é matéria de repercussão ge-
ral, prepara-se para decidir se existe vín-
culo empregatício entre os motoristas e
as empresas que administram e operam
as plataformas virtuais de transporte. Se-
gundo o IBGE, no fim de 2022 cerca de
1,5 milhão de brasileiros trabalhavam
para aplicativos, dos quais 780 mil atu-
am no transporte de passageiros, núme-
ro que pode ter dobrado no ano passado.
Em decisões recentes, o STF tem seguido
a tendência de não reconhecer esses vín-
culos, posição que vai de encontro à com-
preensão das entidades ligadas à Justiça
do Trabalho, mas que, ao criar jurispru-
dência, provocará efeito cascata que de-
verá atingir de imediato categorias ain-
da não regulamentadas, como os entre-
gadores de aplicativos, e podem até mes-
mo ameaçar conquistas de outras catego-
rias que hoje têm salário regular. Ou se-
ja, desde a criação do salário mínimo, em
1940, na Era Vargas, os trabalhadores bra-
sileiros não se encontram tão fragilizados.

 
A proposta enviada pelo go-
verno para regulamentar
o trabalho de motoris-
tas de aplicativo prevê o
pagamento mínimo de
32,10 reais por hora trabalhada e determi-
na que a jornada de trabalho não ultrapas-
se as 12 horas diárias por plataforma. Para
o recolhimento à Previdência, as platafor-
mas vão contribuir com 20% dos valores
referentes à remuneração, e os motoristas
com 7,5%. “O governo fala em trabalha-
dores autônomos com direitos. Mas, na
verdade, não são os direitos trabalhistas
propriamente ditos, conquistados pela
classe trabalhadora ao longo de décadas,
e sim migalhas que satisfazem o poder
econômico na medida dos seus interes-
ses. Tanto que a Uber aplaude a iniciati-
va”, observa o juiz do trabalho Jorge Luiz
Souto Maior. A empresa divulgou nota na
qual afirma que o PL “amplia a proteção
desse modelo de trabalho sem prejuízo da
flexibilidade e da autonomia”. E também
pediu ao STF a extinção de cerca de 10 mil
processos sobre vínculo empregatício em
trâmite nos tribunais inferiores.

 
“Houve um retrocesso muito grande”,
avalia Souto Maior. “Há uma tendência
agora, e isso vai se verificar nos modelos
semelhantes de contratação de traba-
lhadores, atingindo hospitais, comércio,
veículos de imprensa.” Bastará, segundo
o magistrado, criar um aplicativo que fa-
ça a intermediação da mão de obra, pa-
ra que as obrigações do empregador dei-
xem de existir. “Consequentemente, pas-
sa a ser-lhe possível do ponto de vista le-
gal, o que é muito grave, explorar o tra-
balho sem qualquer limite. Estamos re-
tomando uma fórmula do século XVIII.
E com um discurso enviesado e negacio-
nista num tema que é de crucial interes-
se para a sociedade como um todo, mas,
sobretudo, para a classe trabalhadora.”

 
Em resposta conjunta enviada por
e-mail à reportagem, o presidente da
Associação Nacional dos Procuradores
e Procuradoras do Trabalho, a ANPT, Jo-
sé Antonio Vieira de Freitas Filho, e a vi-
ce-presidente da entidade, Lydiane Ma-
chado e Silva, dizem que o projeto repre-
senta “um pequeno primeiro passo ru-
mo à indispensável, adequada e integral
proteção trabalhista e previdenciária
dos trabalhadores a que se refere”, mas
advertem: “Seja pelo alcance reduzido,
seja pela possibilidade de interpretação
deturpada quanto à exclusão do víncu-
lo empregatício, é bastante preocupante
e pode não atingir sua finalidade social,
não sendo, portanto, suficiente”.

 
Presidente da Associação Nacional
dos Magistrados da Justiça do Trabalho,
a Anamatra, Luciana Conforti afirma
sempre haver preocupação quando se fala
em uma nova categoria, porque isso pode
trazer diminuição de direitos: “Um exem-
plo é essa questão da jornada diária de oi-
to horas, podendo chegar a 12. Se os moto-
ristas de aplicativo não são exclusivos, nos
perguntamos como vai haver o controle
dessas 12 horas diárias se o trabalhador
pode estar vinculado a mais de uma pla-
taforma. Da mesma forma, não se define
se o tempo de espera entre uma corrida e
outra será remunerado. São questões prá-
ticas que só veremos mais para a frente”.

 
As entidades buscam reverter o esva-
ziamento da Justiça do Trabalho provoca-
do pelas sucessivas decisões do STF. “En-
tendemos que qualquer relação de traba-
lho é competência da Justiça do Trabalho,
determinada pela Constituição. O PL não
trata disso, mas dizer de saída que os mo-
toristas de aplicativo são autônomos é
preocupante, porque essa determinação,
se há ou não um vínculo, cabe à Justiça do
Trabalho”, avalia Luciana Conforti. A juí-
za diz temer que, a partir desse exemplo,
se possa dizer que qualquer trabalhador
plataformizado é autônomo. “Muitos ser-
viços hoje são plataformizados, então não
teremos mais trabalho pela CLT?”, indaga.

 
Já os dirigentes da ANPT lamentam
que a competência da Justiça do Traba-
lho, “embora tenha origem constitucio-
nal, está sendo afastada por força de rei-
teradas reclamações que têm sido admi-
tidas pelo STF, a despeito da falta de ade-
rência estrita entre determinada situação
concreta e a tese jurisprudencial vincu-
lante”. Freitas Filho e Lydiane Silva acres-
centam que a Justiça do Trabalho “é fun-
damental à efetivação do Direito do Tra-
balho, que, por sua vez, é imprescindível
à preservação e ao robustecimento de um

Estado Democrático e Social de Direito
capaz de assegurar a dignidade dos tra-
balhadores e das trabalhadoras”.

 
Há um ano, em sua mais recente deci-
são no sentido de permitir formas de re-
lação entre empregadores e empregados
alternativas ao estabelecido pela CLT, o
STF, na figura do ministro Alexandre de
Moraes, anulou um acórdão do Tribunal
Regional do Trabalho do Rio de Janeiro
que reconhecia vínculo empregatício em
uma relação de franquia. Outros seis in-
tegrantes da Suprema Corte também já
se manifestaram contra o reconhecimen-
to de vínculos empregatícios em situações
anteriores. Para José Dari Krein, profes-
sor do Instituto de Economia da Unicamp
e pesquisador do Centro de Estudos Sin-
dicais e Economia do Trabalho (Cesit), “o
Supremo, nos últimos tempos, teve uma
função importante de preservar a demo-
cracia, mas do ponto de vista dos direitos
sociais tem uma visão eminentemente li-
beral-conservadora que joga contra o tra-
balho decente e a perspectiva de proteção
e inclusão dos trabalhadores”.

 
Krein avalia que a gran-
de novidade que o traba-
lho da plataforma trouxe
às relações de trabalho
foi possibilitar às empre-
sas organizar atividades econômicas que
mobilizem um contingente expressivo de
trabalhadores sem nenhuma responsabi-
lidade social, trabalhista e previdenciária.

 
Segundo o especialista, vivemos o ápice
de um processo de reformas laborais na
perspectiva de ampliar as liberdades de
as empresas manejarem a força de tra-
balho de acordo com suas necessidades:
“São empresas que não têm capital fixo
e usam como instrumento de trabalho
quem presta o serviço, que é o trabalha-
dor plataformizado”. Outro fenômeno,
acrescenta, é a ausência de oportunida-
des de trabalho de qualidade: “Tem muito
mais gente disponível para trabalhar do
que ocupações de qualidade sendo ofere-
cidas. A ausência de alternativas cria um
mercado de trabalho em que grande par-
te das pessoas ocupadas está numa con-
dição muito precária e vulnerável, com
baixos salários. Esse mar de precarieda-
de faz com que muitos optem por se in-
serir nesses trabalhos de plataforma”. A
dúvida, emenda Krein, é se a aprovação
do PL “ajuda a proteger os motoristas de
aplicativo ou abre brechas para um rebai-
xamento geral dos direitos trabalhistas”.

 
Realizada há sete anos, a reforma pro-
posta por Temer e seu ministro da Fazen-
da, Henrique Meirelles, é apontada como
um marco na precarização do trabalho: “A
reforma de 2017, como era facilmente pre-
sumível, não cumpriu qualquer das suas
inúmeras promessas. Em verdade, apro-
fundou a precarização das condições de
trabalho, afastou os trabalhadores do
sistema de proteção dos direitos sociais e
permitiu a terceirização irrestrita”, dizem
Freitas Filho e Lydiane Silva. Segundo os
dirigentes da ANPT, “o índice de desem-
prego aumentou, os trabalhadores foram
entregues às drásticas consequências so-
cioeconômicas da informalidade e as en-
tidades sindicais foram enfraquecidas”.

 
Souto Maior diz que o objeti-
vo da reforma nunca foi pro-
piciar a geração de empregos,
e sim aumentar os lucros das
empresas por meio de maior
exploração do trabalho. Nisso, avalia, ela
foi muito bem-sucedida: “Conseguiu re-
dução de salários e do custo de trabalho
graças a mecanismos de flexibilização. O
aumento da participação da classe traba-
lhadora no PIB diminui e a das grandes
empresas cresce enormemente. A refor-
ma retirou da classe trabalhadora o ganho
pelo trabalho”, avalia. Segundo o juiz, o
Brasil vive um processo acelerado de acu-
mulação da renda nas mãos dos mais ri-
cos e o ambiente de trabalho ficou mui-
to mais penoso para a classe trabalhado-
ra como um todo, exatamente por conta
dos direitos que vão deixando de existir.

 
Para Luciana Conforti, da Anamatra,
a promessa de que a reforma trabalhista
iria proporcionar maior liberdade às ne-
gociações coletivas tampouco foi cumpri-
da: “Qual aumento de negociações esta-
mos vendo? Ao contrário, tivemos uma de-
cisão do Supremo dizendo que tinha de ha-
ver uma contribuição para o financiamen-
to das entidades sindicais, mas no dia se-
guinte apresentaram um Projeto de Lei
para impedir a cobrança dos não sindica-
lizados. O Congresso continua na inten-
ção de esvaziar os sindicatos, aniquilando
a possibilidade de um sindicalismo forte,
que realmente negocie”. José Dari Krein
também menciona a fragilização do movi-
mento sindical como consequência direta
da reforma: “A queda da taxa de sindicali-
zação pós-reforma trabalhista é uma coisa
impressionante, atingindo em alguns se-
tores 40% de média, de 2017 a 2022. Têm
de existir sindicatos, assim como é impor-
tante a valorização do salário mínimo”.

 
Aos poucos, o governo tenta criar um
ambiente político propenso à volta da con-
tribuição sindical. Nas últimas semanas,
o ministro Luiz Marinho tem se reuni-
do com parlamentares das frentes de Co-
mércio e Empreendedorismo para pedir
apoio a uma proposta que prevê uma ta-
xa de contribuição extraída de acordos de
reajustes salariais obtidos pelos sindica-
tos junto às empresas. A ideia vem sendo
incorporada às discussões sobre as regras
de trabalho nos feriados – o ministro pror-
rogou por 90 dias a suspensão da portaria
que dificulta o trabalho nesses dias. Não
há sinal, entretanto, de que a proposta ve-
nha a prosperar na atual composição da

 Câmara: “Não há compromisso da nossa

parte com a aprovação do projeto”, resume
o deputado Domingos Sávio, do PL. Procu-
rado por CartaCapital, Marinho não deu
retorno até a conclusão desta reportagem.
Apesar das preocupações generaliza-
das com a perda de direitos trabalhistas,
o sentimento é de vitória entre os traba-
lhadores que participaram do processo de
negociação que culminou na apresentação
do PL dos motoristas de aplicativo: “O Bra-
sil tornou-se um exemplo para o mundo. O
debate da proteção aos trabalhadores por
aplicativos e plataformas é mundial. Este
é o primeiro caso que conheço de um país
que regulamenta por meio de lei a prote-
ção a esses trabalhadores”, avalia Sérgio
Nobre, presidente nacional da CUT. Para
Wagner Menezes, secretário nacional
de Transportes e Logística da central
sindical, o foco agora será na pressão so-
bre o Congresso: “Já estamos nos articu-
lando com lideranças dos trabalhadores e
sindicatos para conversar com os líderes
de bancadas e cobrar a aprovação do pro-
jeto. Mas é preciso que todos os trabalha-
dores se empenhem nessa mobilização”.
Menezes avalia que a
aprovação do PL se-
rá “um avanço im-
portantíssimo para
a classe trabalhado-
ra não só na questão salarial, mas também
na social. A categoria precisava dessa re-
gulamentação”. Segundo o sindicalista, o
próximo passo é regulamentar o trabalho
dos entregadores de comida por aplicativo:
“Sabemos das condições precárias e da ex-
ploração que as plataformas exercem so-
bre esses trabalhadores”. Presidente do
Sindicato dos Motoristas de Aplicativos
do Estado de São Paulo, Leandro Cruz
afirma ter gostado do resultado final das
negociações entre governo, plataformas e
empregados: “O trabalhador queria auto-
nomia com direitos, e isso está contempla-
do no PL. Estamos regulamentando uma
profissão que hoje não existe, isso é impor-
tante para nós”. Sobre o vínculo emprega-
tício, Cruz diz esperar a decisão do STF:
“Está nas mãos do Judiciário”.



Em relação aos entregadores de comi-
da, Lula e Marinho prometeram uma de-
finição “em breve”. Na cerimônia de apre-
sentação do projeto, o presidente disse es-
perar que “agora outros setores sentem à
mesa” e fustigou as empresas: “A iFood
não quer negociar, mas vamos encher o sa-
co deles”. Marinho também mencionou a
Mercado Livre como exemplo de compa-
nhia inflexível: “As empresas dizem que o
padrão de negociação não cabe em seu mo-
delo de negócio”, lamentou o ministro. Em
nota, o iFood afirma “não ser verdadeira
a fala do ministro” e garante “querer ne-
gociar uma proposta digna para os entre-
gadores”. A empresa diz que “participou
ativamente do grupo de trabalho forma-
do para discutir o tema”. Já a Mercado Li-
vre afirma que, “diferentemente do que foi
dito, está aberta ao diálogo e atua de di-
ferentes formas nessa agenda setorial”
 
CARTA CAPITAL 

March 28, 2024

Laurent de Brunhoff, Artist Who Made Babar Famous, Dies at 98

 Laurent de Brunhoff sitting on the front stoop of a white house wearing jeans and a dress shirt while holding a pencil above a sketch pad. A small Babar doll, dressed in green, is sitting next to him.

 

After his father, who created the character, died, he continued the series of books about a modest elephant and his escapades in Paris for seven decades.

 

Laurent de Brunhoff, the French artist who nurtured his father’s creation, a beloved, very Gallic and very civilized elephant named Babar, for nearly seven decades — sending him, among other places, into a haunted castle, to New York City and into outer space — died on Friday at his home in Key West, Fla. He was 98.

The cause was complications of a stroke, said his wife, Phyllis Rose.

Babar was born one night in 1930 in a leafy Paris suburb. Laurent, then 5, and his brother, Mathieu, 4, were having trouble sleeping. Their mother, Cécile de Brunhoff, a pianist and music teacher, began to spin a tale about an orphaned baby elephant who flees the jungle and runs to Paris, which is conveniently located nearby.

The boys were enthralled by the story, and in the morning they raced off to tell their father, Jean de Brunhoff, an artist; he embraced the tale and began to sketch the little elephant, whom he named Babar, and flesh out his adventures.

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A black-and-white photo of two young boys wearing shorts, knee socks and short-sleeved sweaters with matching haircuts posing sheepishly against a wall.
Laurent, right, and Mathieu de Brunhoff at about the time their mother first conjured a story about the baby elephant that became Babar.Credit...via de Brunhoff family

In Paris, Jean imagined, Babar is rescued by a rich woman — simply referred to as the Old Lady — who introduces him to all sorts of modern delights. Armed with the Old Lady’s purse, Babar visits a department store, where he rides the elevator, irritating the operator: “This is not a toy, Mr. Elephant.” He buys a suit in “a becoming shade of green” and, though the year is 1930, a pair of spats, the natty, gaitered footwear of a 19th-century gentleman.

He drives the Old Lady’s automobile, enjoys a bubble bath and receives lessons in arithmetic and other subjects. But he misses his old life and weeps for his mother, and when his young cousins Arthur and Celeste track him down, he returns to the jungle with them — but not before outfitting Arthur and Celeste in fine clothes of their own.

Back home, the old king of the elephants has died after eating a bad mushroom (these things tended to happen) and the rest of the elephants, impressed by Babar’s modernity — his fine green suit, his car and his education — make him their new king. Babar asks Celeste to be his queen.

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A crude drawing of a gray elephant surrounded by green scribbles with the words "Histoire de Babar, le petit Elephant” written in what appears to be crayon.
A sketch of the front cover for the original “Histoire de Babar” (“The Story of Babar”), written and illustrated by Jean de Brunhoff and published in 1931.Credit...Photographed by Schecter Lee for The Morgan Library & Museum
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The cover of "Histoire de Babar," with title crudely written on a yellow placard attached to the back of Babar, who is holding a derby hat with hi trunk.
An early cover of “Histoire de Babar.”Credit...Hachette, Paris

“Histoire de Babar” (“The Story of Babar”), an oversize, gorgeously illustrated picture book in which Babar’s escapade is recounted in Jean de Brunhoff’s looping script, was published in 1931. Six more picture books followed before Jean died of tuberculosis in 1937, when he was 37 and Laurent was just 12.

The last two books were only partly colored at Jean’s death, and Laurent finished the job. Like his father, Laurent trained to be a painter, working in oils and exhibiting his abstract works at a Paris gallery. But when he turned 21, he decided to carry on the adventures of Babar.

“If I became a writer and artist of children’s books,” Mr. de Brunhoff wrote in 1987 for the catalog that accompanied a show of his work at the Mary Ryan Gallery in Manhattan, “it was not because I had in mind to create children’s books; I wanted Babar to live on (or, as some will say, my father to live on). I wanted to stay in his country, the elephant world, which is both a utopia and a gentle satire on the society of men.”

His first effort, “Babar’s Cousin: That Rascal Arthur,” was published in 1946. Mr. de Brunhoff would go on to write and illustrate more than 45 more Babar books. For the first few years, many readers didn’t realize that he was not the original author, so completely had he realized Babar’s world and his essence — his quiet morality and equanimity.

The cover of "Babar's Cousin: That Rascal Arthur," featuring an illustration of a family of elephants at the beach.
Mr. de Brunhoff’s first effort at a Babar book after his father’s death was published in 1946.Credit...Random House

“Babar, c’est moi,” Mr. de Brunhoff often said. By all accounts, artist and elephant shared the same Gallic urbanity and optimistic outlook.

By the 1960s, Babar was a very famous elephant indeed.

Charles de Gaulle was a fan. The Babar books, he said, promoted “a certain idea of France.” So was Maurice Sendak, though Mr. Sendak said that for years he was traumatized by Babar’s origin story: the brutal murder of his mother by a hunter.

“That sublimely happy babyhood lost, after only two full pages,” Mr. Sendak wrote in the introduction to “Babar’s Family Album” (1981), a reissue of six titles, including Jean’s original.

Mr. Sendak and Mr. de Brunhoff became friends, however, and the latter encouraged the former, as Mr. Sendak wrote, to ditch his “frantic Freudian dig.”

“I calmed him down,” Mr. de Brunhoff told The Los Angeles Times in 1989. “I said bluntly that the mother died to leave the little hero to struggle with life on his own.”

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A black-and-white photo of Mr. de Brunhoff sitting at his desk in contemplation, with his right hand resting on his cheek.
Mr. de Brunhoff at his home in Paris in 1969. By that time Babar had become famous, with fans including Charles de Gaulle and Maurice Sendak.Credit...Malcolm Winton/Radio Times, via Getty Images

There were other critiques. Many charged that Babar was an avatar of sexism, colonialism, capitalism and racism. Two early works were particularly offensive: Jean de Brunhoff’s “The Travels of Babar” (1934) and Laurent de Brunhoff’s “Babar’s Picnic” (1949) both depicted “savages” drawn in the cruel style of their times, as cartoon images of Africans. In the late 1960s, when Toni Morrison, then a young editor at Random House, Babar’s publisher, objected to the imagery in “Babar’s Picnic,” Mr. de Brunhoff asked that it be taken out of print. And he made sure to excise the racist scenes from “The Travels of Babar” when that title was included in “Babar’s Family Album.”

“Should We Burn Babar?” the author and educator Herbert Kohl wondered in the title of a 1995 book subtitled “Essays on Children’s Literature and the Power of Stories.” Well, no, he concluded, but he nonetheless argued that Babar’s stories were elitist for glorifying capitalism and unearned wealth. Where did the Old Lady get her money? Mr. Kohl asked, annoyed by the implication “that it is perfectly normal and in fact delightful that some people have wealth they do not have to work for.”

Nonsense, Mr. de Brunhoff told The Los Angeles Times, in response to an earlier Marxist analysis of his stories, “These are stories, not social theory.”

They were also works of art, and critics compared Mr. de Brunhoff’s use of color and his naïve style to painters like Henri Rousseau.

“With Bemelmans’s ‘Madeline’ and Sendak’s ‘Where the Wild Things Are,’” Adam Gopnik of The New Yorker wrote in 2008, when the Morgan Library exhibited the sketches and maquettes of both Jean and Laurent de Brunhoff’s early efforts, “the Babar books have become part of the common language of childhood, the library of the early mind.”

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A black-and-white photo of a young Laurent, standing in front of his mother, Cécile, who is seated in a chair in what appears to be a garden.
A young Laurent de Brunhoff with his mother, Cécile, who chose not to receive credit for developing Babar.Credit...via de Brunhoff family

Like Babar, Laurent de Brunhoff was born in Paris — on Aug. 30, 1925, into a family of artists and publishers. His father’s siblings were all in the magazine business. His brothers, Michel and Jacques, were the editors, respectively, of French Vogue and Le Décor d’Aujourd’hui, a magazine of art and design; his sister, Cosette, a photographer, was married to Lucien Vogel, the publisher of Le Jardin des Modes, a fashion magazine, and it was under that magazine’s imprint that Babar was first published.

Laurent worked differently from his father, who conceived his stories as a whole — narration and pictures in tandem. (Jean had also wanted to include his wife as his co-author, but she adamantly refused. “My mother was absolutely against it,” Laurent said, “because she thought that even if she helped the idea, the whole creation was my father’s.”)

For Laurent, the idea and the images came first — what if Babar were abducted by aliens, or practiced yoga? — and he then began to sketch and paint what that might look like. When he married Ms. Rose, his second wife and a professor emerita of English at Wesleyan University, they often collaborated on the text.

The couple met at a party in Paris in the mid-1980s — Ms. Rose was working on a biography of Josephine Baker — and fell hard for each other. “After dinner we sat down on the sofa together,” Mr. de Brunhoff told an interviewer in 2015. “She said, ‘I love your work.’ I said, ‘I don’t know your work, but I love your eyes.’ And that was the start of it.”

Mr. de Brunhoff joined Ms. Rose in Middletown, Conn., in 1985, and brought Babar with him. The couple married in 1990 and later lived in New York City and Key West.

In 1987, Mr. de Brunhoff sold the rights to license his elephant to a businessman and artist named Clifford Ross, who then sold those rights to a Canadian company, Nelvana Ltd., with the understanding that Mr. Ross would continue to be involved in the conception of future products.

What followed was what The New York Times described as “an elephantine array” of Babar-abilia — including Babar pajamas and slippers, wallpaper and wrapping paper, perfume, fruit drinks, backpacks, blankets and bibs. There was “Babar: The Movie” (1989), which critics said was boring and violent, and, that same year, a television series, which critics said was less boring and less violent.

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A poster for "Babar: The Movie," showing a cartoon elephant with a crown holding a book with the title "Babar the King" and sitting alongside several smaller elephants, with a jungle scene in the background.
“Babar: The Movie,” released in 1989, was just one part of what The New York Times called “an elephantine array” of products.Credit...Nelvana/New Line Cinema

And then there was litigation. Mr. Ross found Nelvana’s creations tacky and degrading to Babar’s wholesome image, as he charged in a lawsuit. Mr. de Brunhoff, with typical equanimity, kept out of the fray.

“Celesteville is a sort of utopian city, a place where there’s no robbery or crime, where everyone has a nice relationship with the other, so there’s really no need for lawyers there,” Mr. de Brunhoff told The New York Times.

Federal District Court Judge Kenneth Conboy agreed.

“In the world of Babar, all colors are pastel, all rainstorms are brief, and all foes are more or less benign,” he wrote in his decision, ruling that Nelvana had unfairly excluded Mr. Ross in the licensing. “The story lines celebrate the persistence of goodness, work, patience and perseverance in the face of ignorance, discouragement, indolence and misfortune. Would that the values of Babar’s world were evident in the papers filed in this lawsuit.”

In addition to his wife, Mr. de Brunhoff is survived by his brothers, Mathieu and Thierry; a daughter, Anne de Brunhoff, and son, Antoine de Brunhoff, from his first marriage, to Marie-Claude Bloch, which ended in divorce; a stepson, Ted Rose; and several grandchildren.

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Mr. de Brunhoff wearing a tan sweater and sitting at a table next to a stuffed doll of Babar, wearing a green outfit and a crown, while holding a cup of tea and smiling. There are croissants, juice and other items on the table.
“Babar, c’est moi,” Mr. de Brunhoff, seen here in 2001, often said. By all accounts, artist and elephant shared the same Gallic urbanity and optimistic outlook. Credit...Yves Forestier/Sygma, via Getty Images

“Babar and I both enjoy a friendly family life,” Mr. de Brunhoff wrote in 1987. “We take the same care to avoid over-dramatization of the events or situations that do arise. If we take the correct, efficient steps, we both believe that a happy end will come. When writing a book, my intention is to entertain, not give a ‘message.’ But still one can, of course, say there is a message in the Babar books, a message of nonviolence.”

Babar’s stories have been translated into 18 languages, including Japanese and Hebrew, and have sold many millions of copies. Mr. de Brunhoff’s last book, “Babar’s Guide to Paris,” was published in 2017.

“Laurent’s idea of a good story,” Ms. Rose said by phone, “is this: Something bad happens, nobody panics, and it all turns out fine.”

THE NEW YORK TIMES

 

 

Sarah Vaughan, 100 anos

 

 

Diva do jazz gravou clássicos da MPB e dividiu estúdios com ícones da nossa música

Dona de uma das vozes mais admiráveis do século XX, ela teve passagens memoráveis pelo país, onde gravou canções de Milton Nascimento, Tom Jobim e Marcos Valle

 A cantora americana Sarah Vaughan, em imagem de 1946: ela faria 100 anos em 27 de março de 2024

 Por

Entre as cantoras do jazz, apenas Ella Fitzgerald e Billie Holiday foram capazes de fazer frente a Sarah Vaughan. Uma das vozes mais impressionantes do século XX, a americana completaria 100 anos nesta quarta-feira (27) — morreu em 1990, aos 66 anos, pouco depois de ter sido diagnosticada com um câncer no pulmão. Sarah deixou em palcos e discos a memória do máximo de intensidade, flexibilidade, alcance e expressão que uma voz pode atingir — era comum se dizer que ela conseguia tirar algo no mínimo aproveitável mesmo das piores canções.

Nascida em 27 de março de 1924 em Newark, Nova Jersey, de pai carpinteiro e músico e de mãe lavadeira e cantora de coro de igreja, Sarah Vaughan percorreu, como cantora e pianista negra, a estrada da evolução do jazz que levaria ao bebop. Trabalhou com alguns dos inventores do estilo, como o trompetista Dizzy Gillespie e o saxofonista Charlie Parker, e o resultado dessa experiência foi a incorporação de fraseados típicos desse novo e intrincado jazz a gravações de sucesso como “If you could see me now”, “Tenderly” e “It’s magic”. Foi uma riqueza que Sarah levou carreira adiante, mesmo quando optava por um repertório mais comercial, adequado ao mercado branco.

Uma noite com Simonal

Com seu vibrato rico e um entendimento sem igual para a estrutura harmônica das canções, era uma questão de tempo que a cantora viesse a descobrir o Brasil, país que acabaria respondendo por uma significativa parte da sua história musical.

Em 2009, o documentário “Simonal — Ninguém sabe o duro que dei”, de Micael Langer, Calvito Leal e Cláudio Manoel, trouxe à tona a memória da apresentação que a cantora e um sedutor Wilson Simonal fizeram em 1970, para a TV Tupi, com duetos em “The shadow of your smile” e “Oh, happy day”. Esse encontro antológico serviu para despertar em Sarah um interesse genuíno pelo Brasil e sua música, demonstrado por seguidas visitas ao país.

Em 1976, quando vivia em Los Angeles, o cantor, pianista e compositor Marcos Valle recebeu uma ligação do arranjador e produtor de jazz Marty Paich com o convite de dividir com Sarah Vaughan uma recriação bossa de “Something”, de George Harrison, gravada originalmente pelos Beatles.

— Sarah ficou feliz com a gravação e pediu que eu fosse à casa dela para mostrar algumas músicas. Levei partituras, entre elas a de “Preciso aprender a ser só” (de Marcos com o irmão, Paulo Sérgio Valle). Na hora em que fui mostrar a música, ela disse: “Pode deixar que eu mesma toco!” Sarah foi para o piano e cantou, lendo a partitura que eu levei, e tocou um piano belíssimo — recorda o brasileiro. — Quando ela disse que queria gravar essa música, sugeri que ela gravasse um disco só com músicas brasileiras. Ela comprou a ideia e, como precisava de um produtor, apresentei-a ao Aloysio de Oliveira, que estava em Los Angeles.

Dito e feito. No ano seguinte, Sarah Vaughan embarcou numa turnê latino-americana, acompanhada do diretor Thomas Guy (que registrou a passagem por vários países no documentário “Listen to the sun”).

Uma vez no Rio de Janeiro, pôs em prática o plano de produzir com Aloysio as faixas que entrariam nos discos “I love Brazil!” e “O som brasileiro de Sarah Vaughan”. As gravações aconteceram em Copacabana, no estúdio da gravadora RCA (hoje, Cia. dos Técnicos). Participaram ídolos da MPB, como Tom Jobim, Dorival Caymmi e Milton Nascimento, em canções como “If you went away” (versão de “Preciso aprender a ser só”) e “Bridges” (a “Travessia” de Milton e Fernando Brant).

— Na hora de gravar, ela não botava cola, não. Eram melodias difíceis, coisas de Milton Nascimento, não era “Cai, cai, balão”. E ela gravava tudo de primeira! — conta Chico Batera, que tocou percussão em boa parte das gravações cariocas da cantora. — Sarah estava na maior alegria, era Rio de Janeiro, com namorado novo... o clima era de festa.

Milton Nascimento, Sarah Vaughan e João Bosco, em 1978: a diva do Jazz estava no Brasil para gravar o disco 'O som brasileiro de Sarah Vaughan' — Foto: Divulgação/Acervo MIS
Milton Nascimento, Sarah Vaughan e João Bosco, em 1978: a diva do Jazz estava no Brasil para gravar o disco 'O som brasileiro de Sarah Vaughan' — Foto: Divulgação/Acervo MIS

Memórias do estúdio

Em 1987, Sarah Vaughan voltaria a gravar um disco de repertório brasileiro, “Brazilian romance”, só que em Los Angeles, com músicos americanos e produção do pianista niteroiense Sérgio Mendes (que fora para a cidade nos anos 1960 e não voltou mais).

Vivendo em Los Angeles na época, Dori Caymmi assumiu os arranjos do disco da cantora — sua ídola, cujos discos ouviu em casa, na infância, tocados pelo pai Dorival, e que no Rio, em 1977, gravaria “Like a lover” (versão em inglês de “O cantador”, parceria de Dori com Nelson Motta).

Hoje em dia, Dori diz não gostar nada do resultado de “Brazilian romance” e de sua sonoridade pop. Mas guarda boas recordações da gravação com Sarah, que voltaria a encontrar uma última vez, no Rio, naquele mesmo ano, num Free Jazz Festival:

— Eu apresentei para a Sarah “Photograph” (versão de Tracy Mann para “Tati, a garota”, canção que ele e Paulo César Pinheiro tinham composto), e ela disse que não queria cantá-la. Eu respondi “o.k.”, e ela: “Você concorda com tudo o que eu falo? Sabe, acho que vou gravar ela, sim!” E cantou maravilhosamente, segurando a minha mão. 

GLOBO