April 8, 2024

Não é fácil fazer prefácio que faça jus ao Zi

 

Não é fácil
fazer prefácio

que faça jus ao Zi

 

 

 

Para falar sobre o Ziraldo
eu teria que ter a loquacidade do Ziraldo
desenhando palavras em minha mente com a velocidade de um cometa

na rapidez de raciocínios como raios iluminando ideias simultâneas que saem atropelando de tal modo o dizer que ele pronuncia os vocábulos pela metade, para caber mais na fala

 

pulando de pensamento em pensamento como um tarzan de cipó em cipó gritando EEEAAAHHUU atordoando os bichos da mata do fundão com conclusões únicas taxativas desvairadas, como um galileu virando onça num tribunal de inquisição para bradar que no entanto o traço parado se move, se puser umas linhas corridas em torno do personagem ele parece que corre, dispara para entregar mensagens aos leitores como um coelho geraldinho

 

e descobrir que com traços se pode mover tudo, comover pessoas, mudar o mundo, e se dedicar a isso por oito décadas ou mais de devoção

 

e disparando genialidades girando loucamente num redemoinho de saci parere ,como locutor de leilão deixando sem folego os interlocutores, inclusive os que foram ao seu programa na TV onde falava mais do que os entrevistados, dissertando com certezas que dissecam a situação do país,  do povo ou de qualquer problemática para a qual ziraldo sempre tem uma solucionática, mesmo que lunática

talvez eu conseguisse datilografando simbolos numa maquina de escrever como ele insiste em fazer até hoje, o metal das teclas imprimindo pontos pretos num papel em branco ao som de uma batucada tlec tlec como o engatilhamento de fuzis apontados para ele tlec pelos agentes de uma ditadura do qual escarnecia fiau fiau mesmo sabendo que só doia quando ria
ou rindo desbragamente como as hienas as borboletas e os elefantes diante de um bichinho enfiado numa maça e principalmente como os cangurus, que dentro das bolsas estocam infinidades de tesouros, estilingues gravetos pedrinhas como as catadas nas ruas de terra da terra onde ele cresceu, e tirando das bolsas da criatividade os objetos encantados para assombro dos leitores como o de uma criança abrindo o bau de estrelas que um astronauta trouxe do espaço

um espaço profundo e sem limites para a imaginação de um criador siderado, onde moram meninos, muitos meninos, meninos morenos e marrons e dos planetas, virados pra lua
e ser um ser de lua, em zig-zag-zás, revolvendo-se como as marés, ora aqui ora acolá ora em toda parte ora ora, incessantemente irrequieto
e ser um ser de luta embarcando como num trem doido sô em campanhas políticas e sociais e comportamentais e institucionais bolando slogans e cartazes emblemáticos, tomando providencias para fazer os daquela feira por tantos anos (61!), armando barracas e criando casos pelas causas que assumiu nas utopias de desenhar um brasil

ou fazendo de cada letra da minha escrita um logotipo, uma caricatura, uma personalidade, um livro para cada letra do alfabeto onde a forma da letra dá forma a personagens e informa que se juntar as letras em palavras e palavras em sentenças e frases em parágrafos posso ir construindo o que eu quiser, e viajar pra onde for, e pensar as belezas que ousar e fazer da vida a mais bela historia pois afinal ler pode ser mais importante até do que estudar

mas antes mesmo de chegar ao texto eu teria que desenhar, desenhar compulsivamente, o tempo todo, como ziraldo enquanto fala ao telefone enquanto assiste a jogos do flamengo enquanto le as noticias que vão virando charges, teria que ser compulsivo e obssesivo na ansia de retratar tudo que vejo e penso e mesmo o que não se vê mas está nas entrelinhas poderosas do traço de humor

eu teria que me deixar prender para entender, de como me manter inspirado em tempos de chumbo, e não me abater, e em dias confinado numa cela sem caneta lapis papel poder ver os traços de árvores nas paredes onde a ditadura o enjaulou algumas vezes

e teria que me soltar, me lançar ávido à vida num mergulho profundo, onde as mínimas coisas são prazeres intensos, tantos livros para descobrir , tantas mulheres sonhadas, tantas bundas desenhadas (e revistas bundas publicadas) – sim, eu teria que por a cabeça no lugar, entre as pernas de uma mulher, para ter paz e sossego, como o tal mineirinho (alter ego?)

eu teria que ser bom, mais do que bom um craque em tudo que eu faço – sentir na pele como é ser o pelé da seleção brasileira de humor - e bom como um jeremias que deixa entrar o penalti porque é aniversário do batedor, e amar a humanidade deveras, ser carinhoso com pessoas, sentindo a alma das gentes, poço de papos infinitos tratando cada um como seu melhor amigo

e ser uma supermae e um superpai e um superavô e bisavô e tio e reunir as familias nas ilhas grandes dos afetos e criar milhões de leitores-filhos que cresceram lendo ziraldos, e por isso conseguem prosseguir crianças por toda a vida, conservando a magia em si como fez esse menino quadradinho que aos quase 90 se enternece ao tropeçar numa memória de infancia, dos gibis que devorava, dos zeróis que aliviavam a sede por informações

e eu teria que voltar à minha infancia e me banhar nas águas do rio doce onde cresci pois esse doce é o mesmo rio onde ele moleque nadava entre os caramujos, a esquitossomose e as correntezas de aventuras

e as certezas de que o mundo é muito mais do que se ve, muito além do que se vive, o mundo é o que se desenha, com os traços de tudo que um menino maluquinho possa inventar

 

e ao me emocionar, relatar como para mim pessoalmente ele foi um superpai - meu segundo pai – me orientando, impulsionando minhas carreiras – e brigamos também, como em toda família – que sujeito teimoso e turrão!

tantas aventuras vividas juntas no pasquim, viagens malucas, fechamentos tensos, piadas ousadas – e principalmente, em centenas de entrevistas, fazendo uma das coisas que ziraldo mais gosta: conversar


e juntos em diversas publicações, e em funartes e outros templos da arte, porque ziraldo sempre está fundando um jornal criando uma revista abrindo um novo projeto recomeçando e indo em frente pondo em prática utopias impraticáveis

 

que acabam dando certo ou não mas o importante é o fazer, é congregar artistas, é revelar talentos, é reverenciar os mestres e os menestréis desconhecidos, é abrir espaços e picadas nas veredas da cultura

sim, o importante tem sido o fazer, e como então englobar num prefácio os diversos universos – as galáxias – a infinidade de criações que brotaram no jardim do ziraldo, artista dificil de classificar por ter vestido tantos chapeus e profissões e nomes como cartunista jornalista romancista artista gráfico quadrinhista ilustrador autor de livros infantis chargista capista cartazista humorista teatrólogo editor de publicações apresentador de TV publicitário agitador cultural cantor de boleros...

 

Para falar sobre o Ziraldo
eu teria que falar como o Ziraldo
ou então escrever um texto como este.

 

 

Ricky Goodwin 



(

 
prefácio que escrevi 
para o livro de Francisco Ucha
ZIRALDO MEMORIAS



Morre Ziraldo, pai do Menino Maluquinho e ícone da literatura infantojuvenil, aos 91 anos

 

Jornalista do Pasquim e autor de diversos clássicos para os mais jovens, cartunista formou leitores de diversas gerações

 Ziraldo, em 1983

 Qualificações profissionais não faltaram a Ziraldo — cartazista, chargista, cartunista, quadrinista, pintor, desenhista, dramaturgo, caricaturista, escritor, cronista, humorista, jornalista... Mas, para fazer justiça, bastaria dizer: referência das artes gráficas no Brasil. Pai do Menino Maluquinho, o maior sucesso da história da literatura infantil no país. Um dos fundadores do jornal O Pasquim, símbolo da resistência cultural às arbitrariedades do regime militar no fim dos anos 1960. E uma das figuras mais ativas da cultura nacional dos últimos 70 anos. 
 
 Ziraldo Alves Pinto nasceu em Caratinga, Minas Gerais, em 24 de outubro de 1932. Começou a desenhar ainda criança, fazendo caricaturas de personalidades como Getúlio Vargas e Adolf Hitler. Com apenas 6 anos, publicou um desenho no jornal Folha de Minas. Logo desenvolveu uma fascinação por histórias em quadrinhos como “Flash Gordon” e “O Fantasma”, que iriam inspirá-lo para criar as HQs “Teleco e Tim”, “Capitão Tex” e, em 1960, a “Turma do Pererê”, primeira revista em quadrinhos feita por um só autor — e totalmente em cores — produzida no Brasil. Ziraldo se dizia um filho dos comics americanos.

— Eles e o cinema, que têm em comum a narrativa, são as duas grandes artes americanas — disse, em 2002, ao GLOBO. 

No Rio de Janeiro, o artista trabalhou inicialmente para agências de publicidade. Retornou a Minas para servir o Exército e, ao voltar ao Rio, foi trabalhar nas revistas O Cruzeiro e A Cigarra. O golpe militar de 1964 pôs fim à “Turma do Pererê”, com seus animais falantes, índios e fazendeiros (ela foi reeditada, sem tanto sucesso, na década de 1970). Outros personagens de quadrinhos, porém, sairiam da prancheta de Ziraldo para o sucesso: Jeremias, o Bom; a Supermãe e Mineirinho, o Comequieto (este, para a “Revista do Homem”).  

Em 1968, Ziraldo era artista com trabalhos publicados nas revistas Graphis (referência das artes gráficas, da Suíça), Penthouse e Private Eye. Em 1969, ano de fundação do Pasquim, ganhou prêmio de humor no 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas e tornou-se o primeiro latino-americano a ser convidado para fazer o cartaz de Natal da Unicef.

A proximidade com os diretores do Cinema Novo fez com que Ziraldo fosse convidado para criar cartazes de filmes como “Os fuzis” e “Os cafajestes” (ambos de Ruy Guerra), “Assalto ao trem pagador” (Roberto Farias) e “Todas as mulheres do mundo” (Domingos de Oliveira). Também seus são os cartazes clássicos, de traços inconfundíveis, como o do primeiro Festival Internacional da Canção, dos shows de Jô Soares e da Feira da Providência — obras reunidas em 2009 no livro “Ziraldo em cartaz”, organizado por Ricardo Leite.

O Menino Maluquinho, mais famoso personagem de Ziraldo — Foto: Divulgação
O Menino Maluquinho, mais famoso personagem de Ziraldo — Foto: Divulgação

Ainda em 1969, Ziraldo estreou na literatura infantil com “Flicts”, livro em que conta a história de uma cor “diferente”, que não consegue se encaixar no arco-íris, e que não demorou para se tornar um clássico. Onze anos depois lançaria “O Menino Maluquinho”, que em 2020, ao se tornar “quarentão”, já somava 129 edições e quatro milhões de exemplares vendidos apenas no Brasil — a história foi publicada em mais de dez países, e ganhou duas adaptações para o cinema.

— Acredito que o Maluquinho teve esse alcance durante tanto tempo por despertar identificação nos leitores — disse Ziraldo em entrevista ao GLOBO em 2020, ocasião do lançamento da edição comemorativa dos 40 anos do livro. —As crianças olham para o personagem e pensam: “Opa, isso é comigo”, ou “eu sei o que ele está sentindo”. Acho que o principal é fazer as crianças se emocionarem e verem isso como uma coisa boa.

Ziraldo também destacava o cuidado e a dificuldade de se escrever para crianças. “Leva-se muito tempo até encontrarmos a medida certa para elas. Por isso, acho absurdo quando ainda encontro pessoas que consideram a literatura infantil como uma literatura menor”, disse ele, em 2017, na Bienal do Livro do Rio. Nas Bienais, aliás, as sessões de autógrafos do escritor se tornaram famosas pelas filas gigantescas, que duravam horas, formadas por fãs de diversas gerações.

Charges políticas

Um outro lado de Ziraldo era o das charges políticas, que faziam com que os retratados ligassem para sua casa logo de amanhã, elogiando-o ou criticando-o. Algumas das suas últimas foram publicadas em 1982, quando estava no Jornal do Brasil. Em 1999, Ziraldo voltou à carga com o humor crítico do Pasquim e das charges ao lançar a revista Bundas, do lema “Quem mostra a bunda em Caras não mostra a cara em Bundas”. Em 2002, relançou brevemente O Pasquim.

Desde 2013, quando foi fundado o Instituto Ziraldo no estúdio do cartunista, a família se esforça para catalogar e preservar sua obra. A pesquisa rendeu inclusive a exposição “Os planetas de Ziraldo”, de 2018, com curadoria da cineasta e cenógrafa Daniela Thomas, sua filha, e uma edição da “Supermãe”, em 2019 com diversas charges inéditas.

Em 2015, Ziraldo (então com 82 anos), Zuenir Ventura e Luis Fernando Verissimo inspiraram as histórias do musical “BarbarIdade”, sobre a velhice, escrito por por Rodrigo Nogueira. Em entrevista ao GLOBO para divulgar o espetáculo, ele fez piada sobre ter dito, em 1980, em entrevista a Ruy Castro para a revista Playboy, nunca ter brochado na vida.

— Eu mantenho o mito! Vou desmentir? Só Deus sabe do coração humano. Depois que inventaram remédio para isso, parece que prolongou a vida do velho. Mas se a Pfizer (fabricante do Viagra) tivesse inventado um remédio para a libido, venderia muito mais. Minha experiência mostra que 80% dos meus contemporâneos perderam o tesão. Eu, não. Eu penso em sacanagem até hoje!

Nos últimos anos, Ziraldo vinha sofrendo com problemas de saúde. Em 2013, sofreu um infarto leve em Frankfurt, na Alemanha, e foi submetido a um cateterismo. No ano seguinte, foi internado novamente para exames após passar mal. Em 2018, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), que o deixou um mês internado. Na ocasião, um boato sobre sua morte circulou na internet, e foi respondido com bom humor pelo cartunista. Ele postou em seu Instagram uma foto em que aparecia não apenas vivo, como sorridente. “Uma vez Menino Maluquinho sempre Maluquinho. Ziraldo firme e forte!”, escreveu.

GLOBO

 

 

 

Anatomia de uma outra queda

 

 
Mais do que culpa ou inocência, precisamos refletir sobre a dinâmica de poder em um casal heterossexual

O que aconteceu foi que… a minha mulher é artista e eu sou artista e tivemos uma briga sobre eu ser mais, é… exposto ao público do que ela e ela foi pro quarto e eu fui atrás e ela caiu da janela.”

Essa é a gravação de uma chamada de emergência feita pelo escultor americano Carl Andre em setembro de 1985. Ela foi reproduzida no julgamento dele pela morte da esposa, a artista cubano-americana Ana Mendieta. Ela tinha 36 anos. Ele morreu aos 88, em janeiro de 2024.


Fotografias de Ana Mandieta são exibidas em exposição na Galeria Nacional de Arte Moderna em Roma, em 2010 [Franco Origlia/Getty Images]

Ana Mendieta nasceu em Havana, numa família abastada que, ao menos inicialmente, apoiou a revolução de Fidel Castro. Quando as coisas começaram a azedar na ilha, ela e uma irmã foram mandadas sozinhas para os Estados Unidos, num programa do governo americano que recebia adolescentes cubanos. Foram parar em Iowa, estado cuja população é até hoje quase 90% branca. As meninas passaram de uma vida protegida, numa família grande e unida, para uma perambulação entre campo de refugiados, instituição para jovens infratores, casa de acolhimento e colégio interno. Sofreram muito racismo e xenofobia. A mãe e outra irmã só se juntariam a elas cinco anos depois, quando o pai foi preso pelo regime.

Ana cresceu, foi para a faculdade e virou artista plástica, como sempre quis. Trabalhou com fotografia, filme, escultura e performance, explorando os temas do exílio, da imigração, do deslocamento e da violência, especialmente contra a mulher. Em um de seus primeiros trabalhos, recriou a cena de um recente estupro e assassinato de uma aluna da mesma faculdade, tendo como suporte o próprio corpo, manchado de sangue e com as mãos amarradas. Em outro trabalho da mesma época, derramou sangue de boi por baixo da porta de casa e ficou do lado de fora, de onde filmou e fotografou a reação dos passantes àquele fluido viscoso que escorria calçada abaixo.

Quando a polícia chegou, Carl abriu a porta e pediu licença para ir lavar as mãos 

Ao longo de sua curta carreira, Ana Mendieta usou barro, areia, pedra, carvão e sangue como materiais artísticos. Muitas obras foram realizadas diretamente na paisagem: esculpindo na parede de uma caverna como se fossem petroglifos, cavando diretamente no solo ou na areia, ou usando água e fogo; muitas são silhuetas do corpo feminino sendo queimadas. É um trabalho que pode, com tranquilidade e sem medo do clichê, ser chamado de visceral. É muito impressionante, interessante, intrigante e bonito.

Em 1978, Mendieta foi para Nova York buscar seu lugar no mundo da arte. Lá, se juntou à galeria feminista A.I.R. (Artists in Residence) e fez a sua primeira exposição individual, em 1979. Foi aí que, com a carreira em ascensão, conheceu Carl Andre, escultor muito conceituado e poderoso no mundo da arte, com carreira sólida, porém estagnando. Sua última individual tinha sido em 1970, e o movimento minimalista, do qual ele era um dos líderes e fundadores, teve seu apogeu em fins dos anos 50, começo dos 60, e já não era a vanguarda.

Ana tinha um metro e meio, era bem magrinha, bonita e estilosa, cheia de vida, um desses carismas que a gente reconhece até em foto 3×4. Alegre, gostava de dançar e de cantar. Carl era treze anos mais velho, grandão, volta e meia descrito pelos amigos como um urso. Usava uma barba comprida de personagem de Turguêniev e só andava de macacão tipo jardineira, daqueles com alças, fivelas e muitos bolsos — de dia, à noite, no bar da esquina ou em coquetéis. E também durante seu julgamento pela morte de Ana.

Brigas épicas

O contraste se estendia também à arte. Ela fazia performances em que usava o próprio corpo, a terra, a natureza, a paisagem. Ele fazia esculturas minimalistas, tentando reduzir o objeto artístico ao mais simples possível: blocos de madeira e placas de metal simplesmente dispostas no chão, pilhas de tijolos. Não podiam ser trabalhos mais diferentes.

 A paixão foi imediata e intensa. Ambos tinham temperamento forte. Até amigos o descreviam como um sujeito arrogante, que ficava insuportável quando bebia. E beber era praticamente um ofício naquele grupo de artistas da Nova York nos anos 70 e 80. Ela também não era nada fácil.

Os amigos contam de brigas épicas que os dois tinham em público, em geral no fim da noite, já bêbados, para o constrangimento de quem estava em volta. Ele era mulherengo e vinha de dois casamentos anteriores. Ana descobriu casos dele mais de uma vez e se magoou muito. Diziam que ele já tinha sido violento com companheiras anteriores, mas nunca foi denunciado. Eram só boatos.

Ana e Carl ficaram juntos por seis anos, entre muitas idas e vindas. Em janeiro de 1985, depois de uma separação por causa de uma das muitas traições (às vezes simultâneas), Ana e Carl fizeram as pazes. Para surpresa absoluta dos amigos, resolveram se casar. Poucos meses depois, em setembro, ela caiu da janela do apartamento dele, onde não chegou a morar, no 34º andar do número 300 da Mercer Street, no bairro de Greenwich Village, em Nova York.

Quando a polícia chegou, poucos minutos depois da chamada de emergência — “O que aconteceu foi que… a minha mulher é artista e eu sou artista e tivemos uma briga sobre eu ser mais, é… exposto ao público do que ela e ela foi pro quarto e eu fui atrás e ela caiu da janela.” —, Carl abriu a porta e pediu licença para ir lavar as mãos. Os policiais notaram que ele tinha arranhões ainda frescos no nariz e nos braços. Carl então contou aos policiais que ele e Ana estavam vendo um filme que espelhava a vida dos dois, só que ao contrário. Ela ficou irritada, quis ir dormir e queria que ele fosse junto. Ele não quis e continuou vendo TV. Uns quinze minutos depois, foi até o quarto ver como ela estava. Não a encontrou, então voltou para a sala e assistiu aos últimos dez minutos do filme. Voltou de novo para o quarto, e como ela não estava lá, fez a chamada de emergência.

Já era a segunda vez que ele dizia, sem ninguém perguntar, que de certa forma era responsável pela morte dela

Notem que esse relato já é diferente do que se ouve na gravação, feita no calor da hora. Mais tarde ele o modificará novamente: ambos estavam dormindo, houve uma queda repentina da temperatura, Ana se levantou para fechar a janela e caiu acidentalmente. Levando em conta que o parapeito era alto e ela tinha um metro e meio, seria difícil acreditar nessa versão. Ela teria subido no parapeito do 34º andar para fechar a janela? Não faz sentido. Ainda assim, em situações de estresse as pessoas se confundem, não lembram direito o que aconteceu, os dois tinham bebido. Foi dado a ele o benefício da dúvida.

Os policiais perguntaram se ele a tinha visto pular, ele respondeu que não. Se ele tinha olhado pela janela — de novo, não. Então como sabia que ela havia pulado? “Eu só sei.”

Enquanto esperavam a viatura que o buscaria, Carl tirou um livro da estante, um catálogo do seu trabalho, e o mostrou aos policiais, explicando que era um artista importante: “Eu sou um artista muito bem-sucedido, entende, e ela não era. Talvez tenha sido isso o que a perturbou. Então, de certa forma, eu a matei”. Já era a segunda vez que ele dizia, sem ninguém perguntar, que de certa forma era responsável pela morte dela. A primeira fora explicando que talvez devesse ter ido dormir na hora em que ela quis. Como não foi, “de certa forma” ele a teria matado.

Três anos depois, em 1988, Carl André foi julgado e absolvido. Não foi um tribunal do júri: o advogado dele abriu mão desse recurso e escolheu o julgamento apenas por um juiz, o chamado bench trial. O advogado achou que a figura de Carl, de jardineira e barba de mujique, não inspiraria simpatia nos jurados. Um juiz tenderia a se ater às provas e a levar mais a sério a presunção de inocência, sem se perturbar com o acusado o tempo todo lendo o New York Review of Books durante as sessões. Ainda por cima, o juiz designado para o caso perdera a esposa poucos meses antes e poderia ser simpático ao luto de Carl.

A defesa explorou a origem cubana da vítima, seu temperamento latino, considerado inflamado e instável, o uso de sangue em sua arte, o que demonstraria tendências suicidas e atração pela morte. Também demonizaram seu interesse pelas religiões afro-cubanas. Sua morte foi descrita como uma última e desesperada performance artística.

‘Não! Não! Não!’

Muitas evidências foram consideradas inadmissíveis, por serem circunstanciais ou de testemunho indireto, o que significa que o juiz não podia levá-las em conta: os arranhões no rosto, nos braços e nas costas de Carl, que poderiam ser indícios de luta corporal; o medo de altura de Ana, conhecido por todas as suas amigas; o fato de que ela confidenciara na véspera à irmã e a uma amiga que queria o divórcio e que estava reunindo provas da infidelidade de Carl para entrar com o processo. Houve ainda uma voz de mulher gritando “Não! Não! Não!” logo antes da queda, ouvida por um homem que passava na calçada. As muitas brigas públicas do casal também não foram levadas em conta, nem as contradições entre as diferentes versões de Carl para o que se passou naquela noite.

O teor de álcool no organismo dela era relativamente alto (segundo Andre disse aos policiais, naquela noite, ela não estava bêbada). O teor de álcool no organismo dele não foi medido, apesar das muitas garrafas vazias que os policiais encontraram no apartamento. Uma amiga de Ana, advogada, telefonou sem saber que ela tinha morrido e foi atendida pelo advogado de Carl, que lhe deu a notícia. Ela estranhou o advogado estar sozinho no apartamento, enquanto Carl estava na delegacia. O local era, afinal, a cena de uma morte suspeita. Deveria ter sido isolado pela polícia para que as evidências fossem preservadas e pudessem ser investigadas.

O filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes retrata uma situação paralela, com os gêneros invertidos

Naquela noite, só tinha os dois no apartamento. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Carl Andre morreu em janeiro deste ano sem jamais ter tocado no assunto publicamente. Nunca saberemos com certeza se ela pulou, se caiu ou se ele a matou. Ele foi absolvido, mas isso nos basta? E se tivesse sido condenado, nos bastaria? O que nos basta nesses casos?

O filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano passado, Anatomia de uma queda, retrata uma situação paralela à vivida por Mendieta e Andre, porém com os gêneros invertidos. No longa, da diretora e roteirista francesa Justine Triet, uma escritora de sucesso é acusada de matar o marido, um escritor fracassado, empurrando-o da janela do chalé onde moram . [Alerta de spoiler daqui para a frente.]

Na história, não sabemos ao certo o que aconteceu. As evidências da perícia são questionáveis, e todo o resto é circunstancial. Justine Triet disse em várias ocasiões que essa ambiguidade é proposital, e que o tema que a interessa não é culpa ou inocência, mas a relação de poder no casal heterossexual. A busca, segundo ela utópica, por uma igualdade entre homem e mulher no lar, entre pai e mãe, entre dois profissionais. Ela acha que essa tensão sempre existirá, e o que precisamos é aprender a lidar com ela de um jeito novo.

No julgamento do filme, ouvimos a gravação feita pelo marido de uma briga do casal na véspera da morte, justamente sobre isso: sobre Sandra (Sandra Hüller) não abrir mão do tempo de que precisa para escrever, trabalhar. Samuel (Samuel Theis), o marido, se sente injustiçado porque sobra para ele, segundo sua interpretação, o trabalho de cuidados com a casa e com Daniel, o filho de onze anos, cego depois de um acidente. Ela o acusa de usar o filho como desculpa para não escrever e ser um covarde por não ter a coragem de tentar realizar suas ambições, de ter fracassado como escritor. Já ele a acusa de ser egoísta, de sacrificar o casamento e o filho, de ser ambiciosa, de o usar como apoio e de só fazer o que quer, na hora que quer.


Sandra Hüller em cena do filme Anatomia de uma queda, de Justine Triet [Reprodução]

É uma cena incômoda, que nos coloca na posição de voyeurs, como se estivéssemos espiando a briga de um casal de verdade, só que com os papéis de gênero trocados. O homem é quem reclama de ter sacrificado sua vocação e seu talento pela família. E é ela quem não cede, quem diz que sim, é ambiciosa, quer escrever e fazer sucesso, e vai continuar trabalhando para isso. Ele que se adapte, em vez de se sacrificar. Para ela, o sacrifício que ele alega estar fazendo é na verdade uma escolha dele para se furtar ao risco do trabalho criativo. Para ele, é uma escolha dela, à qual a família é obrigada a se submeter.

A ficção de 2023 repete muitos dos temas do caso real de 1985: a dinâmica de gênero em um casal heterosesxual, questões de poder, ambição, inveja, vocação, talento, ciúmes e morte. Mais uma vez, há uma absolvição. E, mais uma vez, isso nos basta?

Certamente não basta para as muitas artistas feministas que passaram a protestar em frente a museus e galerias de arte que exibem obras de Andre. Em 1992, a primeira vez desde a morte de Mendieta em que uma obra dele foi incluída numa grande exposição nos Estados Unidos (ele continuou a circular, expor e vender suas obras na Europa sem dificuldades por décadas), um piquete foi organizado em frente ao Guggenheim SoHo, em Nova York, por um grupo de mulheres manchadas de vermelho segurando faixas com a pergunta “Onde está Ana Mendieta?”. Isso passou a se repetir sempre que se falava em Carl Andre. Em 2014, quando a prestigiosa Dia Art Foundation organizou uma retrospectiva do artista, as manifestantes jogaram vísceras e sangue de galinha em frente à galeria. Depois do #MeToo, protestos do tipo passaram a acontecer também em Londres e Berlim.

O que pensamos dessas duas histórias diz muito mais sobre nós do que sobre as tramas em si

Hoje, a obra de Ana Mendieta é estudada em escolas de arte e admirada por artistas, curadores e colecionadores. Especialmente mulheres, mas não só. Há muitos ensaios e estudos acadêmicos sobre o trabalho dela, e obras suas estão presentes nos principais museus, coleções particulares e galerias do mundo. Para o público leigo, tem um podcast no estilo true crime chamado Death of an Artist, de 2022, produzido pela Pushkin Industries, a produtora do escritor americano Malcolm Gladwell. E também um livro de 1990, Naked by the Window, ou “nua na janela”, do jornalista Robert Katz. O título perturbador foi tirado de versos de um poema de Carl Andre que diz:

& she stood naked by the window, waiting to be struck, perhaps where her white breasts were red

Em tradução livre: “& ela de pé, nua na janela, à espera do golpe, talvez onde seus seios brancos estavam vermelhos”.

Carl Andre também faz parte do cânone. Já era o caso quando conheceu Ana. Seu lugar na história da arte é indiscutível. Mas sua vida nunca mais foi a mesma. Ao menos não no seu país de origem. Por anos, ele foi xingado na rua, no mesmo bairro onde antes era idolatrado. Mulheres que o cruzavam pela vizinhança faziam questão de atravessar a rua ostensivamente. Sua existência passou a ser muito mais isolada. Casou-se novamente em 1999 e viveu o resto da vida no mesmo apartamento onde Ana morreu. E isso, nos basta?

O que pensamos dessas duas histórias, a da vida real e a da ficção, diz muito mais sobre nós do que sobre a história, ou as tramas, em si. Podemos achar, como eu acho, que Carl Andre matou Ana Mendieta, e que Sandra Voyter não matou Samuel Malenski. O caso ficcional é suicídio, o real é feminicídio.

Mas isso não passa de uma opinião, a minha opinião, baseada no que vi e li nos dois casos, e também nas minhas crenças e no meu conhecimento de mundo. Especialmente o meu conhecimento sobre a dinâmica de gênero e poder num casal heterossexual numa sociedade patriarcal. Mais do que culpa ou inocência, mais do que condenação ou absolvição, cadeia ou liberdade, é sobre essa dinâmica que precisamos refletir. É isso que precisa mudar.

QUATRO CINCO UM 

 

 
 

April 6, 2024

Uma advogada nos porões da tortura

 

 

 Diários de defensora de presos políticos durante a ditadura são publicados em livro e inspiram monólogo com Andrea Beltrão 

Helena Aragão

Em 1965, recebi um telefonema avisando-me que havia uma ordem de prisão contra mim. Quando desliguei bateram na porta, era a polícia. Abri e disse: vou me trocar. Sentaram-se na sala. No quarto fiz um bilhete para Dona Pepe, mãe de Ivo Valença, coloquei-o numa garrafa, e desci pela varanda recomendando meu filho recém-nascido. Tirei os lençóis do berço, para evitar que meu bebê sufocasse. Fui mais uma vez conduzida para a Secretaria de Segurança Pública.

Assim, Mércia Albuquerque narra a quarta de suas doze prisões. Elas estão listadas no final do livro Diários 1973-74 escritos por Mércia Albuquerque Ferreira. Nascida em Pernambuco em 1934, ela era recém-formada em direito, em 1964, quando viu uma cena que mudou sua vida: o líder comunista Gregório Bezerra estava sendo torturado no meio da rua, no Recife. Horrorizada, ela chegou em casa e anunciou para o marido, Octávio, que se dedicaria à defesa de presos políticos. Assim foi feito, e fragmentos expressivos dessa experiência foram registrados numa escrita íntima repleta de revolta, angústia, mas também de ternura e até, eventualmente, de humor.


Os relatos de Diários 1973-74 escritos por Mércia Albuquerque Ferreira dão atenção primordial a mães e pais anônimos, de Pernambuco e de outros estados nordestinos

As páginas de Mércia intercalam descrições sobre o estado deprimente dos presos depois de sessões de torturas, conversas duras com militares e policiais e, sobretudo, momentos de atenção e carinho com mães desesperadas que batiam à sua porta, quase todos os dias, em busca dos filhos desaparecidos. Depois de confiar, num momento de aflição, seu recém-nascido a uma vizinha, ela tentou cuidar dos filhos de outras famílias como se fossem seus.

Preocupações

De modo geral, Mércia escrevia pouco sobre si mesma. Deixou um poema aqui e ali, ou momentos de preocupação com o marido, o filho único ou com a saúde. Em 25 de novembro de 1974, relatou uma visita ao médico: “Deixou claro que só poderei engravidar se deixar de advogar. Meu estado emocional perturba o metabolismo. É por demais cômico, luto pelos filhos dos outros, entram em minha vida, amarguram-me a existência e ainda me privam de ter filhos”.

Os diários foram publicados em livro pela editora Potiguariana em 2023, e pouco antes da publicação chegaram às mãos da atriz Andrea Beltrão e da diretora Yara de Novaes. Impactadas com o conteúdo, elas convidaram a dramaturga Silvia Gomez para criar um monólogo a partir dos relatos de Mércia.

O resultado foi a peça Lady Tempestade, que ficou em cartaz entre janeiro e fevereiro deste ano no Rio de Janeiro, em temporada concorridíssima. O título vem de uma frase em que Mércia se compara à mãe — “mulher terna e acomodada, totalmente diferente de mim. Enquanto sou tempestade, ela é bonança”.

Paralelos

A saída de Silvia Gomez para transformar os relatos em dramaturgia foi fazer uma espécie de diário dentro do diário: uma mulher chamada A. recebe as páginas pelo correio, de um certo R. No programa do espetáculo, Beltrão analisa: “Contar e recontar uma história, muitas e muitas vezes, é uma maneira de impedir que o horror aconteça de novo. O silêncio só interessa aos que deveriam ter sido julgados, mas não foram. O silêncio é o parceiro do medo. Um diário guarda vários segredos e um deles é o desejo secreto de ser encontrado”.

Na peça, uma frase é recorrente: “Essas coisas acontecem, aconteceram, acontecerão”. Os paralelos com o presente e o futuro são feitos o tempo todo, inclusive com a inserção de um áudio verídico de uma mãe que teve o filho assassinado pela polícia em 2022, na Bahia. O motivo para uma atuação tão consistente como a de Mércia não ter ganhado notoriedade é claro para a dramaturga: “Tantos homens são reverenciados com nome e sobrenome por seus feitos heroicos… O sistema trabalha muito bem para certos nomes serem apagados”.

 

O remetente do diário, na vida real, foi Roberto Monte, economista e diretor do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular, no Rio Grande do Norte, a quem foi confiado todo o acervo de Mércia por seu viúvo Octávio, depois que ela morreu, em 2003.

Foi só em 2023 que Monte conseguiu verba para publicar os diários em livro — pela editora Potiguariana, criada também por ele, e que conta com outras obras sobre a atuação do regime militar no Nordeste em seu catálogo. Demorou, mas, na opinião dele, tudo aconteceu na hora certa. A visibilidade é inédita no momento em que são lembrados os sessenta anos do golpe militar.

Os relatos têm muitas críticas aos militares, mas também sobra para o partidão, o PCB

Parte do acervo, que além do diário tem cartas e documentos jurídicos, está acessível no site www.dhnet.org.br. A esse conjunto se somou, recentemente, um material novo, com informações sobre pessoas defendidas por Mércia, numa espécie de memorial.

Enquanto na peça os militares são citados de modo genérico como “gafanhotos”, alcunha que de fato ela usava vez ou outra no diário, no livro eles aparecem com nome e sobrenome, e há no final uma lista de torturados e de torturadores. Sobre estes últimos, Monte observa: “Em geral, tudo nome de rua, de avenida”.

A plateia do espetáculo se tornou, por vezes, ponto de encontro de ex-presos políticos, ou de familiares dos que morreram. No fim de janeiro, um grupo de parentes estendeu uma faixa na plateia cobrando do governo a reinstalação da comissão de mortos e desaparecidos. Dora Santa Cruz foi além: levou uma foto do seu irmão Fernando Santa Cruz, desaparecido político desde 1974. Convidada a ir ao centro do palco por Beltrão ao fim do monólogo, ela contou a história dele, e citou outras vítimas dos militares, com a plateia gritando “presente!” a cada nome. Foi como um ritual.

Cortes e vazios

Os relatos de Mércia têm muitas críticas aos militares (há diversas páginas rasuradas ou até cortadas), mas também sobra para o PCB (Partido Comunista Brasileiro). “Estou preocupada com a mãe de Maria de Messias, sozinha com um filho excepcional, num quitinete passando muita privação, e nenhum comunista vai lá levar ajuda. Como os homens são iguais”, desabafa em 18 de junho de 1974.

Havia, para ela, uma classe ainda mais abandonada: os camponeses. É o caso do relato de 15 de setembro de 73: “Um pobre camponês, preso há dez anos, vítima da esquerda e da direita. Dei atenção a ele mais de uma hora, afinal alguém precisa ouvi-lo; deixei-o despejar toda a amargura que o machuca há muito tempo”.

Também há elogios a algumas figuras públicas, como Dom Hélder (“fiquei comovida com a ternura com que fala dos problemas do povo”) e Sobral Pinto (“Li uma carta corajosa feita pelo pai das liberdades, Sobral Pinto, ao Ministro da Justiça, que poderá trazer consequências ao velho jurista”). Mas sua atenção primordial é a mães e pais anônimos, de Pernambuco e de outros estados nordestinos.

Mércia se arriscou ao denunciar más condições nas prisões e até partir para o embate direto

Dizia que jamais mentia a uma mãe, preferia até ficar em silêncio. Mesmo em momentos difíceis, como o relatado em 10 de maio de 1973: “Nem bem o dia amanheceu, Dona Rosália chorando me perguntava pelo filho. Já não me animei e falei-lhe dos meus temores. (…) Então a velhinha me deu uma lição: ‘Doutora, a senhora precisa se controlar para ajudar a nós’. Fez-me prometer que acharia o filho, vivo ou morto, o que cumpri”.

Em 29 de novembro daquele ano, descreveu poeticamente outro diálogo, repleto de vazios:

Recebi o pai de Ramires, aflito com a notícia da morte do filho. () O velho me falou: ‘Sinto como se o mundo caísse; estou partido, mas se ele voltasse a viver, e quisesse trilhar o mesmo caminho, não o impediria’. O Sr. Francisco estava pálido, eu comovida; era a dor muda, sem blasfêmias nem lágrimas, era a amargura que tira a doçura da vida e a tranquilidade dos lares. Apertei-lhe a mão e chorei; senti que o silêncio era mais prudente. Abri a porta, e o velho mergulhou na noite.

Se o silêncio era o recurso possível na conversa com parentes em desalento, Mércia se arriscou muitas vezes ao denunciar más condições em prisões e até ao partir para o embate direto: “O Dr. Ednaldo disse-me que mais lhe dói a morte de um cavalo do que a de um preso político. Ao que repliquei: ‘Faz muito bem em defender a sua espécie, eu defendo a minha, os homens’”.

E defendeu até o fim. No posfácio, Maria do Amparo Araújo, fundadora do grupo Tortura Nunca Mais de Pernambuco, conta que, décadas depois, Mércia se tornou ouvidora na Secretaria de Justiça de Pernambuco e foi encarregada de ouvir depoimentos de testemunhas na comissão criada para indenizar sobreviventes. Mais uma vez, ajudou a manter viva a memória dessa página infeliz da nossa história.

QUATRO CINCO UM

 

 

 

 

 

April 3, 2024

Marionetes

 

 OS MILITARES, INSUFLADOS PELOS SENHORES,
DERAM O GOLPE. MAS QUEM PUXAVA AS
CORDAS ERAM OS NORTEAMERICANOS

 Luiz Gonzaga Belluzzo  

 No início dos anos 60, a sociedade brasileira vivia uma era de saudável e promissora agitação política. Batizado, na época, como “luta de classes”, o fenômeno era decorrência inevitável de quatro décadas de industrialização, modernização econômica e rápida transformação social. O progresso material das sociedades modernas suscita inconvenientes e transtornos, mas é mobilizador de energias e ideias. Os sindicatos, as associações de classe e as organizações estudantis fervilhavam. Os centros acadêmicos, a UEE e a UNE participavam ativamente do debate nacional.
 
Ainda não se sabe se a despeito ou por conta do jogo estratégico entre as duas grandes potências, o pós-Guerra foi generoso com alguns países da periferia, sobretudo com o Brasil. Entre seus pares, o país tropical era líder no campeonato de taxas de crescimento e de incorporação de novas atividades e de trabalhadores ao mundo da indústria e das cidades. Havia entusiasmo e, provavelmente, muita ilusão. Mas já disse alguém que as ilusões são necessárias e, em muitos casos, estimulantes.
 
 Era, então, possível e razoável imagi-
nar o País cada vez mais próximo de uma
sociedade justa e contemporânea, expur-
gada da herança colonial e de seus humo-
res subalternos. Alguns chamavam essa
esperança de socialismo. Outros almeja-
vam que a utopia se assemelhasse às con-
dições de vida e aos padrões de convivên-
cia que estavam em construção na Euro-
pa Ocidental com o avanço do Estado do
Bem-Estar Social.
 
Na outra ponta do espectro político es-
tava a malta do fazendão subdesenvolvi-
do que combinava cosmopolitismo ame-
ricanista com a reconhecida ojeriza pe-
la difusão da luz elétrica e da água enca-
nada para o povo mais pobre. Seja como
for, a bandeira das forças progressistas
foi desfraldada na defesa das reformas de
base – agrária, urbana, bancária, traba-
lhista e previdenciária. As hostes conser-
vadoras e reacionárias, que nunca aban-
donaram a luta contra o projeto nacio-
nal de industrialização, brandiam os
chavões da ameaça comunista, do ouro
de Moscou, da “cubanização” do Brasil.
 
Sessenta anos depois, é recomendável
alguma frieza na análise: como todos os
periféricos, éramos, à esquerda e à direi-
ta, protagonistas dos conflitos que se de-
senvolviam nos palcos globais da Guerra
Fria. Vou retomar um texto já publicado
em nossa CartaCapital para amparar mi-
nhas digressões a respeito da importância
da participação norte-americana no golpe
civil-militar de 1964. Terça-feira, 7 de ja-
neiro de 2014, foi anunciada a “descober-
ta” de uma gravação reveladora. Nos idos
de 1963, o então presidente dos Estados
Unidos, John F. Kennedy, gravou a conver-
sa com seu embaixador no Brasil. Kennedy
perguntou a Lincoln Gordon se os EUA po-
deriam “intervir militarmente” no Brasil
para depor o presidente João Goulart. Às
vésperas do famigerado golpe, surgiu um
slogan premonitório: “Basta de interme-
diários, Lincoln Gordon para presidente”.
 
Em seu livro A Segunda Chance
do Brasil, subtítulo A Caminho
do Primeiro Mundo, publicado
em 2002, Gordon relata um
encontro na Casa Branca com
o presidente Kennedy: “Durante a reunião
na Casa Branca, eu alertei o presidente
Kennedy sobre a possibilidade de algum
tipo de ação pelos militares brasileiros e
ele perguntou qual deveria ser a nossa ati-
tude”. Depois de tergiversar, enrolar com
considerações a respeito da admiração de
Goulart pelo presidente norte-americano,
Gordon foi ao que interessava e concluiu:
“O mais importante é ao mesmo tempo or-
ganizar as forças tanto políticas quanto
militares para reduzir o poder de Goulart
[...] ou, em uma situação extrema, desti-
tuí-lo, se as coisas chegarem a esse pon-
to, o que dependeria de uma ação explíci-
ta de sua parte”. Minutos depois, o subse-
cretário para Assuntos Interamericanos,
Richard Goodwin, observou: ‘Podemos
muito bem querer que eles (militares bra-
sileiros) assumam o poder no fim do ano,
se eles puderem fazer isso”.
 
Na nota de rodapé da página 325 da pri-
meira edição do livro publicado pela Edi-
tora Senac, Gordon escreve: “Para minha
surpresa, revelou-se recentemente que o
presidente Kennedy tinha instalado um
aparelho de gravação no Salão Oval. Nes-
sa conversa de 30 de julho, que incluiu
também Richard Goodwin, foi a primei-
ra reunião a ser gravada. A transcrição
tem muitos hiatos (sic), alguns por ra-
zões de segurança, outros porque certas
passagens não puderam ser decifradas. A
maior parte desse material está disponível
agora nas páginas 9 a 25 de Timothy Naf-
tali (Org.) The Presidential Records, John
F. Kennedy, The Great Crisis, Vol. 1, 2001.”
 
Gordon conspirava abertamente com
as “forças democráticas” nativas, aquelas
que estão permanentemente a arquitetar
a supressão da democracia. Da conspirata
participavam naturalmente os homens
de bem: ricos de todos os gêneros, parte
da classe média ilustrada, semi-ilustrada
e deslustrada. Até mesmo os habitantes
de outras galáxias sabiam que senhores
da mídia tupiniquim estavam metidos
até a raiz dos cabelos nas conversações e
maquinações conspiratórias articuladas
por Gordon. É surpreendente que manifestem 
surpresa com as palavras de Ken-
nedy registradas na gravação.
 
Segue o enterro: a situação política,
continua Gordon, “me levou a endos-
sar a sugestão da CIA de que fornecesse
dinheiro a candidatos amigáveis”. Para
tanto, a agência norte-americana de es-
pionagem e informação valeu-se do Ibad,
o Instituto Brasileiro de Ação Democrá-
tica, criado em 1959 por um certo Ivan
Hasslocher com o propósito de comba-
ter o governo Juscelino Kubitschek, que,
sabem todos, era um perigoso aliado do
comunismo internacional.
 
Os Estados Unidos haviam
 patrocinado a deposi-
ção de Jacobo Árbenz na
Guatemala e instigaram a
queda de Juan Domingo
Perón na Argentina. O suicídio de Getúlio
Vargas, em 1954, e a coragem do então ge-
neral Henrique Batista Duffles Teixeira
Lott, ministro da Guerra, em 11 de novem-
bro de 1955, abortaram as tentativas de
interrupção da normalidade institucional
no Brasil. Mas, em março de1964, o País
entrou finalmente no roteiro dos “golpes
democráticos” gestados em Washington.
 
Está mais do que provado há tem-
pos que a participação da CIA e de ou-
tras agências norte-americanas no gol-
pe foi decisiva. Washington foi genero-
sa na transferência de tecnologia: envia-
ram experts nas técnicas de tortura, con-
forme depoimento insuspeito e digno de
muitos oficiais brasileiros que se recu-
saram a compactuar com os torturado-
res. Na Terra Brasilis, a camarilha do vi-
ra-latismo preparou seu arsenal golpis-
ta, amontoando os argumentos de sem-
pre para brecar o avanço dos movimen-
tos reformistas e progressistas. Ontem
como hoje, sacam da algibeira o nheco-
-nheco do “perigo comunista”.
 
No excelente livro 1964: História do Re-
gime Militar Brasileiro, Marcos Napolita-
no observa na lógica particular da classe
média brasileira, a ascensão dos “de baixo”
é sempre vista como ameaça àqueles que
estão nos andares de cima do edifício so-
cial. Como os que estão na cobertura têm
mais recursos para se proteger, quem es-
tá mais perto da base da pirâmide social
se sente mais ameaçado. Não por acaso, o
fantasma do comunismo encontrou mais
eco nesses segmentos médios. As classes
médias, bombardeadas pelos discursos
anticomunistas da imprensa e de várias
entidades civis e religiosas reacionárias,
acreditaram piamente que Moscou tra-
mava para conquistar o Brasil, ameaçando
a civilização cristã, as hierarquias “natu-
rais” da sociedade e a liberdade individual.
 
Vou relembrar a Marcha da Família
com Deus pela Liberdade, entre tantas
manifestações que alertavam para os ri-
cos da derrocada da sociedade brasileira
no abismo do socialismo ou coisa pareci-
da. No dia 19 de março de 1964, as ruas de
São Paulo foram tomadas por uma mul-
tidão capitaneada por entidades conser-
vadoras, entre tantas a União Cívica Fe-
minina, que abrigava em seu comando se-
nhoras da alta e da média-alta sociedade.
 
A multidão reuniu-se na Praça da Repú-
blica e marchou até a Praça da Sé, atraves-
sando o Centro da cidade. Observei a tigra-
da percorrendo a Rua Barão de Itapetinin-
ga. Lancei o olhar desde um andar do edi-
fício da Editora Brasiliense, na companhia
do meu companheiro de todas as horas, o
professor João Manuel Cardoso de Mello.
 
Terminada a procissão dos patriotas,
dona Stella, irmã do conhecido Paulo
Machado de Carvalho e admiradora de
Adolf Hitler, partiu em visita à família
Cardoso de Mello. Dona Adelaide, mãe
do professor João Manuel, indagou Stella
a respeito da Marcha:
– Stella, com foi a marcha das grã-finas?
 
Resposta:
– Grã-finas? Nada disso. Tinha até uns
pretos
 
Pano Rápido.
 
CARTA CAPITAL