March 5, 2024

Infiltrado no pasto

 

R


 Como me fantasiei de gado e fui à
Paulista acompanhar o discurso do capitão

 
P O R  R O N A L D O  L AG ES

 
Recebi a convocação pelo
Facebook: “Quem defende
a democracia não foge à lu-
ta”. Naquele grupo, alguns
nutriam grandes expecta-
tivas em relação aos rumos do movimen-
to: “O agro e os caminhoneiros vão parar
o Brasil”. Outros não disfarçavam o can-
saço com as infrutíferas mobilizações
anteriores, a exemplo dos patriotas goia-
nos que pediam doações via Pix para fi-
nanciar a viagem até São Paulo. “Cara-
vana pela última vez”, anunciaram, em
tom de súplica. Diante do esforço dos
meus colegas na rede social, senti vergo-
nha por ter cogitado usar o domingo pa-
ra descansar, ainda mais vivendo tão per-
to do palco da batalha. Resgatei do fun-
do da gaveta uma desbotada camiseta
amarela, envolvi o pescoço com uma flâ-
mula verde-amarela e parti feito um fo-
guete em direção à Avenida Paulista.
Bem... Era isso o que pretendia, mas
o transporte coletivo não colaborou.

 
Em São Paulo, aos domingos, não se pa-
ga mais a tarifa do ônibus, até porque se
tornou quase impossível encontrar um
circulando após o anúncio da gratuida-
de. Como de hábito, sobravam passagei-
ros desamparados no terminal da Lapa.
Meio sem jeito, um fiscal da SPTrans
culpou o congestionamento causado
pelo levante democrático. Contraria-
do, comprei o bilhete de trem. Não po-
deria decepcionar meus colegas goianos,
que também poderiam estar presos no
trânsito após uma desgastante viagem
de quase mil quilômetros. Durante a bal-
deação na estação Barra Funda, perce-
bi que a mobilização foi bem-sucedida.
Os vagões do Metrô estavam repletos de
patriotas, devidamente uniformizados
com a camisa da CBF.

 
Exasperada, uma moça manifestava
preocupação com a “presença de infil-
trados” no ato, a exemplo do que acre-
ditava ter ocorrido em Brasília em 8 de
janeiro de 2023, quando “baderneiros
do MST” teriam invadido as sedes dos
Três Poderes, enquanto

ocupavam pacificamente os improduti-
vos gramados da Esplanada dos Minis-
térios. Ao meu lado, um simpático casal,
Débora e Marcos, dizia se insurgir con-
tra um tenebroso vilão apelidado de “Ca-
beça de Roll-On”. Esse “déspota”, segun-
do me contaram, estaria “mancomuna-
do com George Soros” para prender Jair
Bolsonaro. Não tive tempo de perguntar
a motivação dessa sórdida conspiração
internacional. Por qual razão o megain-
vestidor húngaro estaria interessado na
captura do ex-presidente, que teve de en-
tregar o passaporte à Polícia Federal no
início do mês? Estava com a pergunta na
ponta da língua, mas as portas se abri-
ram e fomos arrastados pela multidão
para fora do vagão.

 
Do lado de fora da estação, um ruido-
so grupo não parava de repetir, aos ber-
ros: “Eu vim de graça, eu vim de graça”.
Era uma provocação aos militantes de
esquerda, que, segundo eles, só compa-
reciam a manifestações mediante paga-
mento de “pão com mortadela”. Imaginei
que o comentário poderia soar indelica-
do para os patriotas goianos. A vaquinha
cobriria apenas as despesas do transpor-
te ou também o lanchinho no trajeto?
Inútil especular, até porque o pessoal já
havia mudado o foco da cantoria: “Nos-
sa bandeira jamais será vermelha, nossa
bandeira jamais será vermelha!”

 
O incômodo com a cor parecia uma
verdadeira obsessão. Pobre do vende-
dor ambulante de camiseta escarlate,
que não se atentou ao dress code da ma-
nifestação e acabou virando alvo de re-
correntes piadas e provocações. Naque-
la massa verde-amarela, somente outras
duas cores eram bem-vindas: o azul e
branco da bandeira de Israel, efusiva-
mente aplaudida e reverenciada. Car-
tazes com a estrela de Davi quase sem-
pre apareciam com mensagens em in-
glês: “Freedom”, “Sorry”... O pedido de
desculpas era pelas declarações do pre-
sidente Lula, que nos últimos tempos
intensificou as críticas ao morticínio
de palestinos na Faixa de Gaza. “Legíti-
ma defesa a ataques terroristas”, diziam
alguns. Outros apelavam para uma con-
fusa associação religiosa, a exemplo da
senhora que viralizou nas redes sociais
por defender com entusiasmo o Estado
judeu: “Somos cristãs como Israel”. Do
alto do carro de som, a ex-primeira-da-
ma Michelle Bolsonaro contribuiu para
reforçar o sincretismo religioso: “Aben-
çoamos Israel em nome de Jesus”.

 
Muitos patriotas fizeram questão de
posar para fotografias na frente de um
mural com as fotografias de Bolsona-
ro e do premier israelense, Benjamin
Netanyahu. Levou algum tempo para a
turma perceber que se tratava de uma
pegadinha de infiltrados. Entre os dois
retratos, havia uma inscrição em hebrai-
co: (“genocida”, segundo escla-
receu o Google Tradutor). Além das co-
res, os manifestantes pareciam obceca-
dos em tirar selfies. Na pós-modernida-
de, explica o sociólogo Gabriel Rossi, es-
pecialista em Marketing Político pela
ESPM, as manifestações têm forte cará-
ter estético. “Isso tem a ver com o ‘mun-
do instagramável’. As pessoas vivem uma
experiência e correm para postar nas re-
des e mostrar aos amigos. Dessa forma,
elas se posicionam e, ao mesmo tempo,
buscam a aceitação do grupo.”

 
Havia ainda um sincretismo de cos-
tumes. Enquanto a ex-primeira-dama
recitava versos bíblicos e o pastor Silas
Malafaia apontava Jair Bolsonaro co-
mo vítima de uma “engenharia do mal,
ao arrepio da lei e da Constituição”, boa
parte do público acompanhava o discur-
so bebericando cerveja, até porque to-
dos são filhos de Deus e o calor estava
mesmo infernal. Governadores e par-
lamentares foram bem mais comedi-
dos que Malafaia nos discursos, evitan-
do qualquer declaração que pudesse ser
interpretada como ataque ao Judiciário
ou às instituições democráticas. De olho
no eleitorado bolsonarista e, ao mesmo
tempo, preocupado com a elevada rejei-
ção ao ex-presidente na capital paulista,
o prefeito Ricardo Nunes marcou pre-
sença no ato, mas manteve a discrição.
Entrou mudo e saiu calado.

 
O tom ameno dos discursos causou es-
tranhamento na militância bolsonaris-
ta, que em outros tempos se plantou na
porta de quartéis para pedir intervenção
militar no País. “Estou achando a mani-
festação muito passiva”, comentou Érica
Rane, que veio de Vila Brasilândia, na Zo-
na Norte de São Paulo, para renovar seu

 apoio ao capitão. A maior parte do público

entendeu, porém, que não era o mo-
mento de esticar a corda. Onipresentes
em outros momentos, os cartazes com
ataques a Alexandre de Moraes, minis-
tro do Supremo Tribunal Federal, e à “di-
tadura do Judiciário”, desapareceram.
Por volta das 3 da tarde, quando Bolso   

naro finalmente pegou o microfone para 

fazer seu discurso, a multidão foi à loucu-
ra. “Mito, mito, mito”, urrava, em compe-
tição com os estrondos de fogos de arti-
fício. Ao meu lado, duas senhoras com a
camiseta do “PL Mulher”, a divisão femi-
nina do partido do ex-presidente, tenta-
ram emplacar outro slogan a plenos pul-
mões: “Imbrochável! Imbrochável! Im

brochável!” Naquele momento, havia 750
mil manifestantes na Avenida Paulista e
ruas adjacentes, segundo as confiabilís-
simas estimativas da Polícia Militar de
São Paulo, estado governado pelo bolso-
narista Tarcísio de Freitas, do Republi-
canos. Já pesquisadores da USP analisa-
ram imagens aéreas e apontaram a pre-
sença de 185 mil patriotas. Pouco impor-
ta quem chegou mais próximo da realida-
de. O ex-capitão provou ainda ter capaci-
dade de levar multidões às ruas.

 
Bolsonaro estava, porém, irreconhe-
cível no carro de som. Orientado por ad-
vogados e conselheiros a evitar ataques
ao Judiciário ou qualquer declaração que
pudesse inflamar a turba, o ex-capitão
fez um balbuciante discurso de rendição.

 
“O que eu busco é a pacificação, é pas-
sar uma borracha no passado. É buscar
uma maneira de nós vivermos em paz. É
não continuarmos sobressaltados”, dis-
se. “Nós já anistiamos no passado quem
fez barbaridades no Brasil. Agora nós pe-
dimos a todos os 513 deputados, 81 sena-
dores, um projeto de anistia para que se-
ja feita justiça em nosso Brasil.”

 
A anistia seria para “aqueles pobres-
-coitados que estão presos em Brasília”,
mas indiretamente o beneficiaria, uma
vez que a PF investiga o envolvimen-
to de Bolsonaro na coordenação da fra-
cassada tentativa de golpe no 8 de Janei-
ro – e também um pouco antes, quando
o ex-capitão discutiu com auxiliares os
termos de uma minuta de decreto, para 

anular o resultado das eleições de 2022
e prender Alexandre de Moraes. E foi ao
comentar esse episódio específico que o
ex-presidente enfiou os pés pelas mãos.

 
“Agora, o golpe é porque tem uma mi-
nuta de um decreto de Estado de Defe-
sa. Golpe usando a Constituição? Te-
nham a santa paciência. Golpe usando
a Constituição”, disse Bolsonaro no car-
ro de som, antes de prosseguir: “Deixo
claro que estado de sítio começa com o
presidente da República convocando os
conselhos da República e da Defesa. Is-
so foi feito? Não. Apesar de não ser gol-
pe o estado de sítio, não foi convocado
ninguém dos conselhos da República e
da Defesa para se tramar ou para se bo-
tar no papel a proposta do decreto do es-
tado de sítio”. Para investigadores da PF,
esta seria a prova de que ele teria aces-
so e conhecimento sobre o conteúdo do
documento apreendido na casa do ex-
-ministro Anderson Torres.

 
Um senhor demonstrava preocupa-
ção com o futuro do ex-presidente, mas
confidenciou que ele próprio estava en-
rascado por marcar presença no ato. Por
Bolsonaro, cortou relações com os netos
e um filho que mora na Austrália, todos
esquerdistas, por quatro anos. Ao rea-
tar laços, percebeu que o distanciamen-
to provocou mágoas indeléveis. “Meus
filhos e netos têm de me respeitar.” Ou-
tro, mais agitado, aguardava com an-
siedade a subida ao trio elétrico do re-
cém-eleito presidente argentino Javier
Milei, que, segundo informações que re-
cebeu pelo WhatsApp, viera ao Brasil pa-
ra apoiar Bolsonaro. “Milei tá levantan-
do a Argentina”, asseverou, minimizan-
do indicadores econômicos ainda des-
favoráveis ao novo mandatário. A infla-
ção, que já era altíssima antes de assumir
o posto, aumentou de 190% ao ano, em
novembro do ano passado, para mais de
250% ao ano em janeiro de 2024.

 
No ato bolsonarista, também havia
quem estivesse ali para faturar uns tro-
cados. Em uma barraquinha improvi-
sada, um livreiro oferecia aos transeun-
tes os exemplares da saga O Mito I, II,
III e IV. Amigas de infância, as jovens
Leidiana da Silva e Aline Rosa atraíram
grande clientela com seus “geladinhos
gourmets”, versão mais encorpada e so-
fisticada dos tradicionais geladinhos fei-
tos com suco em pó. As unidades tinham
preços que variavam de 8 a 15 reais. “É
a primeira vez que vendemos em mani-
festação. Viemos para lutar pela demo-
cracia do nosso País e aproveitamos para
oferecer nossos produtos. Quem empre-
ende vê oportunidade em tudo”, ensina
Aline. Já a colega Leidiana, formada em
Ciências Contábeis, tem planos de mon-
tar uma confeitaria, pois também vende
doces. “Se vendermos tudo, consigo mais
ou menos 700 reais. É um bom dinheiro
para quem vem lá da Zona Leste”.

 
Em meio a tantos astros em busca de
cinco minutos de fama, de um habilidoso
dançarino com óculos escuros a um cover
de Tio Sam com trajes em verde e amare-
lo, quem parecia fazer mais sucesso era o
carismático cão Clóvis, um exemplar da
raça Whippet. Vestindo uma versão ca-
nina da camisa da CBF, Clóvis não preci-
sou fazer mais nada para atrair a atenção
das câmeras de celular e tornar-se uma
celebridade instantânea..

CARTA CAPITAL  

 

 

March 1, 2024

Foliões da tragédia

 

 

 Enquanto João Henrique Caldas e
Arthur Lira caem no samba, as vítimas do
desastre da Braskem seguem à míngua

 
P O R FA B Í O L A M E N D O N ÇA

Na Marquês de Sapucaí, no
Rio, o descontraído desfi-
le do prefeito de Maceió,
João Henrique Caldas, e
do presidente da Câmara,
Arthur Lira, soou como escárnio para as
vítimas da Braskem. O colapso de minas
de sal-gema exploradas pela companhia
provocou afundamento de solo em cin-
co bairros da capital alagoana, obrigan-
do dezenas de milhares de famílias a
abandonar às pressas suas casas, sob ris-
co de desabamento. Boa parte delas ain-
da briga na Justiça para receber indeni-
zação justa da mineradora, que selou um
acordo à parte com a prefeitura. Enquan-
to os desabrigados seguem desassistidos,
Caldas dispôs-se a patrocinar o desfile
da Beija-Flor de Nilópolis, que neste ano
homenageou o engraxate Rás Gonguila,
conhecido como o “imperador do carna-
val de Maceió”. O contrato de 8 milhões
de reais visava, segundo a administração
municipal, aproveitar a vitrine do carna-
val carioca para promover a cidade, um
dos principais destinos turísticos do
Nordeste, mas foi a calorosa recepção
oferecida pelo bicheiro Anísio Abraão
Davi, patrono da escola de samba, que
chamou a atenção no sambódromo.

 
Passada a folia carnavalesca, Caldas e
Lira devem enfrentar a ressaca da CPI da
Braskem, a ser instalada ainda neste mês
no Senado para investigar a maior tra-
gédia socioambiental urbana da atuali-
dade. Sugerida pelo senador Renan Ca-
lheiros, do MDB alagoano, e presidida
por Omar Aziz, do PSD do Amazonas, a
comissão foi criada em dezembro passa-
do, ainda não tem um nome definido pa-
ra relatoria, mas o próprio Calheiros tem
interesse no cargo, replicando a parce-
ria dele com Aziz na CPI da Pandemia.

 
A expectativa é de que algumas vítimas
sejam as primeiras convocadas a depor,
assim como os executivos da minerado-
ra que operou na extração de sal-gema
por mais de 30 anos na capital alagoana,
encerrando a exploração em 2019, após
as minas instaladas, 35 no total, come-
çarem a colapsar. Os primeiros sinais da
tragédia surgiram em 2018, com um tre-
mor capaz de abrir crateras nas ruas e ra-
char as paredes das edificações.

 
A Mina 18 foi a última a colapsar, em
dezembro do ano passado. O risco agora
paira sob as minas 20 e 21, que se fundi-
ram e estão submersas na Lagoa Mun-
daú. Estudos preliminares indicam que
as duas deram origem a uma caverna gi

g ante, com 121 metros de altura e 96 me-
tros de largura. Um estudo de novembro
mostra que a cratera está avançando. A
Defesa Civil afirma que essa movimenta-
ção era esperada e diz que todas as minas
continuam sendo monitoradas constan-
temente. Em nota, a Braskem informou
não haver “registro atípico de sísmica ou
de movimento relevante detectado pelos
equipamentos da rede de monitoramen-
to na área das cavidades 20/21”.

 
Calheiros defende a revisão dos acor-
dos de indenização celebrados pela mi-
neradora. A CPI teria a missão de fazer
justiça às vítimas. “A expectativa é de
um trabalho técnico imparcial e fiel ao
fato determinado no requerimento de
criação da CPI: o desastre ambiental da
Braskem em Maceió. Ele não transbor-
da para nenhum outro tema, até porque
o escopo está muito claramente descrito
no pedido inicial e tem um vetor nitida-
mente humanitário”, diz o emedebista.
“As vítimas serão a prioridade da Comis-
são, bem como a revisão dos contratos
ilegais entre a prefeitura e a Braskem.”

 
O senador cobra uma auditoria para in-
vestigar quanto e a quem a Braskem deve,
incluindo as vítimas, o estado de Alagoas e
os municípios afetados direta e indireta-
mente. Na segunda-feira 12, ele aprovei-
tou a presença de Lira e Caldas no desfi-
le da Beija-Flor para fustigar os adversá-
rios: “As vítimas da Braskem estão aban-
donadas, mas os foliões que coreografa-
ram acordos ilegais deliram na avenida,
inebriados pelo dinheiro público. Preço
tem: 8 milhões de reais da prefeitura de
Maceió torrados no Rio. É desumano e
cruel. Merece nota zero em todos os que-
sitos”, disparou Calheiros. Também nas
redes sociais, Lira definiu sua experiên-
cia no sambódromo como um “momento
histórico para a nossa capital e para o es-
tado de Alagoas”, sem fazer qualquer re-
ferência aos bairros fantasmas de Maceió


Em janeiro, a Agência Nacional de Mi-
neração apresentou um relatório com
exigências para a Braskem cumprir no
prazo de 60 dias, incluindo um parecer
detalhado sobre a Mina 18, causas e con-
sequências do colapso. A ANM cobra ain-
da um estudo sobre a possível ocorrên-
cia de novos eventos de movimentação
do terreno ou abatimentos e colapsos em
outras cavidades. “Todos os dias vemos
um fato novo para justificar a existên-
cia da CPI. São 150 mil vidas afetadas, 6
mil pequenos negócios fechados, famí-
lias destruídas, sonhos enterrados, de-
semprego e, provavelmente, a maior mi-
gração urbana do mundo em tempos de
paz”, enumera Calheiros.

 
As pessoas atingidas relatam, ainda,
um comprometimento da saúde mental.
Obrigada a fechar seu estúdio de pilates
devido ao desastre, a fisioterapeuta An-
dréa Alpoim foi diagnosticada com de-
pressão e transtorno de ansiedade gene-
ralizada. Nem a casa que morava nem o
estúdio, ambos no bairro Pinheiros, fo-
ram indenizados pela Braskem, sob o ar-
gumento de que não faziam parte da área
de risco. “A grande maioria dos meus pa-
cientes morava na região que foi inserida
no mapa e todos saíram do bairro com o
passar do tempo. Fiquei sem clientes da
noite para o dia e comecei a acumular dí-
vidas. Não tive outra alternativa a não ser
fechar as portas, vender o maquinário,
tentar pagar o máximo de dívida”, diz a
fisioterapeuta, acrescentando que seu
pai também adoeceu em decorrência da
tragédia, teve um Acidente Vascular Ce-
rebral que deixou várias sequelas.

 
A especulação imobiliária também

atormenta as vítimas da Braskem. Além
de ter perdido suas casas, as pessoas fo-
ram levadas a procurar bairros menos
valorizados, porque as somas que rece-
beram nas indenizações não são sufi-
cientes para comprar um imóvel com-
patível com o que tinham. Muitos tive-
rem de partir para o aluguel e, mesmo as-
sim, caíram de padrão. “Antes, você pa-
gava num apartamento de 110 metros em
torno de 2 mil reais de aluguel. Hoje, não
é menos de 3,5 mil”, afirma Alpoim. “A
Braskem nunca pagou a indenização jus-
ta aos moradores. Ela usou de expertise
com as tratativas, aproveitando do mo-
mento de pânico da população. A maio-
ria, 90% dos afetados, retroagiu, indo pa-
ra bairros menos valorizados”, completa
Jackson Douglas, morador do bairro de
Bebedouro, evacuado às pressas.

 
A indenização paga pela Braskem é
um dos maiores gargalos da tragédia.
Além da CPI, a Defensoria Pública Es-
tadual e a OAB de Alagoas estão empe-

 nhadas na revisão dos valores pagos. Na
quinta-feira 15, após o fechamento des-
ta edição de CartaCapital, está previs-
ta uma audiência na Justiça de Roter-
dã sobre o desastre da Braskem, já que
a mineradora tem vínculos empresa-
riais na Holanda. Desde 2022, o caso
é analisado no país europeu, paralela-
mente aos processos no Brasil. A previ-
são é de uma análise do mérito da ação
no segundo semestre deste ano. “Vamos
lá colaborar com a Corte holandesa para
tentar buscar uma indenização justa. A
gente quer que a Justiça brasileira tam-
bém dê uma resposta satisfatória. Seria
muito feio para o Brasil se essa justiça
vier lá do outro lado do Atlântico”, res-
salta o defensor público de Alagoas, Ri-
cardo Melro, que viajou à Holanda.

 
Situação ainda mais difícil vivem as
pessoas que moram nas comunidades
que margeiam os cinco bairros fantas-
mas. Os moradores dessas comunidades
ilhadas nem sequer têm direito a indeni-
zação, porque estão fora do mapa de ris-
cos. Com a desocupação dos bairros vi-
zinhos, os serviços que antes operavam
lá deixaram de existir. Escolas, unida-
des de saúde, supermercados, farmácias
e outros serviços foram desativados, com-
prometendo o cotidiano dos moradores
isolados. “São pessoas que vivem da eco-
nomia local, são do comércio informal e
não têm acesso aos serviços básicos, se-
jam públicos ou privados”, destaca a advo-
gada Marluce Furtado, integrante da Co-
missão Especial de Acompanhamento do
Caso Pinheiro da OAB de Alagoas. “Essas
pessoas também precisam ser ouvidas.”


CARTA CAPITAL