June 24, 2020

K-pop é o novo punk? Fã-clubes surpreendem com ativismo antirracista — e afirmam ter enganado Trump

O grupo de de k-pop BlackPink se apresenta em Seul Foto: Chung Sung-Jun / Getty Images

Gustavo Cunha e Luiza Barros

Com uma pandemia ainda fora de controle e o democrata Joe Biden à frente das pesquisas, o republicano Donald Trump precisava de uma demonstração de força. A oportunidade parecia ser um comício em Tulsa, no estado de Oklahoma — segundo a equipe do presidente americano, que busca a reeleição em novembro, 1 milhão de pessoas manifestou interesse. Só que não foi como o planejado.

Daebak: Um glossário para entender as gírias do k-pop

No último domingo, apenas 6.200 apoiadores do republicano apareceram no ginásio com capacidade para 19 mil pessoas. Inesperadas na arena política, as fotos do evento esvaziado não surpreenderam os fóruns de k-pop, música sul-coreana que ganhou o mundo com bandas como BTS e Blackpink. Pode ter sido o medo da Covid-19, mas fãs do gênero alegam que o fracasso foi orquestrado por eles, majoritariamente contrários às ideias conservadoras de Trump. Milhares teriam reservado ingressos on-line — e, claro, não apareceram.
O interesse dos k-poppers na política americana não impressiona quem acompanha o fenômeno de perto.
— Os fãs de k-pop sempre participaram de várias causas sociais — conta a professora de coreano Tássia Monteiro de Lucena. — Eles sempre fizeram doações para causas como meio ambiente, contra a homofobia e o racismo.

Ela mesma uma fã da banda Day6, Tássia conta que já ajudou a organizar, no Brasil, doações de cestas básicas para ONGs dos direitos dos animais. Praticadas há anos pelos fã-clubes ao redor do mundo, as boas ações ajudam a divulgar os nomes dos cantores favoritos, fazendo com que eles tenham um ganho em popularidade.


Não é travessura

Uma das autoras do livro “K-pop — Manual de sobrevivência”, Érica Imenes conta que na Coreia do Sul é comum que sejam feitas campanhas de arrecadação de arroz ou, no inverno, de pastilhas de carvão, para comemorar os aniversários dos ídolos.
— É comum que se façam ações importantes para quem precisa em nome do fandom (fã-clube) ou do próprio artista. É uma forma de tornar aquele ídolo conhecido por ser uma pessoa boa, e também de retribuir o carinho.
Para Imenes, é um erro acreditar que o fracasso do comício de Trump seja apenas uma travessura de adolescentes. Ela lembra que, embora o k-pop só tenha se tornado extremamente popular nos últimos anos, há mais de uma década os fãs do gênero se organizam on-line. É justamente essa experiência que explica o surpreendente sucesso de ações coordenadas no mundo virtual.


Apoiador de Donald Trump no comídio do presidente americano em Tulsa Foto: Leah Millis / REUTERS
Apoiador de Donald Trump no comídio do presidente americano em Tulsa Foto: Leah Millis / REUTERS
— Há fãs de k-pop na faixa dos 30 anos. Todo esse fandom foi forjado na internet 2.0, entendendo o que era marketing de influência e como funcionava a ação dos algoritmos em cada rede social.
Um exemplo é o de Douglas Passos, de 23 anos. Dono de uma produtora de eventos relacionados a cultura sul-coreana, ele começou a mobilizar fãs de k-pop em 2013.
— Criamos os grupos virtuais porque não tínhamos espaços físicos para socializar — relembra Passos. — A ideia era juntar as pessoas para fomentar alguns eventos. E tudo foi crescendo muito rápido: das páginas do Facebook partimos para os grupos, e dos grupos criaram-se grandes redes.
Todos os entrevistados lembram que esses grupos reúnem jovens pertencentes a minorias, e possuem fortes engajamentos com causas raciais ou LGBT. Por isso, é natural que entrem em embates contra Trump, que costuma atacar esses segmentos da sociedade.
Outro episódio recente de militância k-popper foi durante os protestos contra a morte de George Floyd. No começo de junho, a polícia de Dallas, no Texas, criou um canal para que usuários mandassem denúncias de atividades “ilegais” durante as manifestações do movimento Black Lives Matter. Eis que o canal foi inundado com vídeos de k-pop, o que fez o serviço sair do ar. No Brasil, houve mobilização semelhante quando o deputado Douglas Garcia (PSL) instigou seus apoiadores a enviarem para seu e-mail oficial dados de militantes antifascistas.

Festival on-line

Professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Thiago Soares lembra que esse engajamento dos fãs com pautas políticas ocorre num momento em que, por sua vez, a própria política emula o comportamento dos fã-clubes na internet, com a adoção de comportamentos mais passionais e técnicas de mobilização em redes. Soares lembra que, antes de entrar na linha de frente contra Trump, os kpoppers já haviam vencido uma batalha nos EUA: o reconhecimento das bandas pela mídia americana.
— As pautas do k-pop são o oposto da pauta conservadora. O ídolo coreano é um homem sem pelos e que dança, rompendo com um certo binarismo de gênero. Além disso, não haveria k-pop se não fosse a globalização, que se opõe ao nacionalismo dos conservadores — analisa.
Segundo a Embaixada da República da Coreia no Brasil — que seleciona, a cada ano, dez brasileiros para viver e estudar no país asiático —, a onda coreana já é surfada por cerca de 70 milhões ao redor do mundo. E esse comportamento cresce a passos largos: de 2014 pra cá, o número de fãs mais que triplicou.
Para suprir uma demanda crescente, a embaixada prepara um festival on-line inédito que acontecerá entre 20 e 24 de julho, com palestras, oficinas e concursos.
— Diminuiu a distância psicológica entre os povos. Por isso, as relações em diversas áreas como política, economia e cultura serão cada vez mais aprofundadas — ressalta o embaixador Kim Chan-woo.
De fato, a globalização dos artistas e da estética do k-pop reflete uma gradual abertura dos sul-coreanos para assuntos ainda tidos como tabu no país asiático, como questões de gênero e liberdade de expressão. E isso representa uma retomada do caráter político da própria indústria pop sul-coreana, surgida na década de 1990, quando estudantes ainda enfrentavam policiais nas ruas de Seul reivindicando mais democracia.
— Num processo contínuo, o viés político do k-pop volta a ganhar força — argumenta Krystal Urbano, que analisou o tema em sua tese de doutorado em Comunicação na UFF, em 2018. — Há uma mudança nos modos de consumo, e fãs se apropriam dessa cultura para veicular pautas identitárias.

June 21, 2020

Brasil, sala de roteiro

Ilustração de dois homens dentro de uma banheira, um de cada lado e uma máquina de escrever entre eles. Um homem é mais velho e está sem camisa, ele escreve com caneta vermelha em cima de um papel já datilografado, há uma caneca do The Godfather perto dele. O outro homem veste camisa e gravata e passa a mão no cabelo

Antonio Prata

Roteirista-chefe: “Gente, por favor, vamos concentrar? É importante: a cena final do último episódio da penúltima temporada. Prisão do Queiroz: quem tava escondendo o cara esse tempo todo?”. Estagiário: “O advogado da família Bolsonaro!”. Roteirista-chefe: “Não, Enzo. Soa inverossímil. O advogado da família Bolsonaro nunca ia esconder a principal prova contra a família. A gente tá fazendo ‘House of Cards’, não ‘Detetives do Prédio Azul’!”. Roteirista 1: “Você disse a mesma coisa quando eu sugeri a cena do Joesley gravando o Temer de madrugada no estacionamento do palácio e foi dos episódios mais vistos daquela temporada”.

Roteirista-chefe: “Ibope não é sinônimo de qualidade! Vamos tentar ser mais criativos? Vamos mudar o foco. Em vez de quem escondeu o Queiroz: onde ele pode estar escondido? Num ferro-velho? Num barco abandonado nas docas? Num motel em Macapá?”. Roteirista 2: “Num sítio em Atibaia!”. Roteirista-chefe: “De novo? Suposto caso de corrupção do Lula: sítio em Atibaia. Suposto caso de corrupção do Bolsonaro: sítio em Atibaia! Até o Adriano da Nóbrega você queria mocozar num sítio em Atibaia!”. Roteirista 2: “É que eu tenho um sítio em Atibaia. Você sempre diz pra gente escrever sobre o que a gente conhece. E a produção ia gostar, já tem cenário pronto”.

Roteirista 1: “Sei lá, tava pensando aqui mais na cena da prisão, mesmo. Se não for bom, esquece, tá? Tô só jogando... Imaginei que a polícia entra aí nesse bunker que a gente não sabe onde é, aí tem um baita poster ‘AI-5’ bem em cima de uma lareira! Pá!”. Roteirista-chefe: “Sei. Como se o vilão tivesse um crachá no peito escrito ‘vilão!’? Que mais você quer? Uns bonequinhos de bandidos numa bancada? Tipo uns Tony Montana, do Scarface???”. Estagiário: “Eu curto uns bonequinhos do Scarface!”. Roteirista 2: “Não faz sentido o Queiroz ser fã do Tony Montana porque o Tony Montana é tráfico, o Queiroz é milícia. E o Tony Montana recebe os inimigos atirando e a gente quer que o Queiroz seja preso, né? Pra ter a prisão dos Bolsonaro na última temporada”.

Estagiário: “Ele pode receber a PF atirando. Morre. Aí a gente começa a próxima temporada mostrando que aquele na verdade era o irmão gêmeo do Queiroz”. Roteirista-chefe: “Pelo amor de Deus, gente! Isso aqui não é novela mexicana! Vamos fazer um negócio decente, coerente, fino?”.
Silêncio constrangedor. Roteirista-chefe: “Que foi?! Por que o climão?”. Roteirista 1: “Na boa. É que faz tempo que a gente perdeu o pé”. Roteirista 2. “Desde 2013 a série tá bem zoada.”. Roteirista 1: “Fazem até meme. Ah, Moro é herói, ah, moro é vilão, ah, Globo é fascista, ah, Globo é comunista! Ator pornô vira deputado. Cai presidente, sobe presidente...”.

Roteirista-chefe desaba e começa a chorar: “Eu sei! Eu sei! Não tem sido fácil. A Ana Sílvia me abandonou em junho de 2013. Vocês sabem do meu problema com álcool. Eu ia escrever, não sabia mais se as cenas de passeata eram de esquerda, de direita, troquei MPL por MBL... Misturava Cynar com Gardenal e escrevia aqueles discursos da Dilma. Toda a cena do impeachment eu escrevi cheiradaço. Depois entrei pro AA. A série ficou meio morna: temporada do governo Temer. Aí fui pro Daime e essa temporada do Bolsonaro eu escaletei inteira numa bad trip de ayahuasca. Mas não importa! Mesmo nos meus dias mais doidaraços eu jamais faria prenderem o Queiroz num sítio em Atibaia que pertence ao advogado dos Bolsonaro e que tem poster do AI-5 com bonequinho do Scarface. É um roteiro vagabundo demais. Vamos lá, vamos começar de novo: onde a gente pode esconder o Queiroz?”.

FOLHA DE SÃO PAULO

June 20, 2020

Rediscovering One of the Wittiest Books Ever Written



By
Dave Eggers
newyorker.com


Wit leaps centuries and hemispheres. It does not collect dust, and, when done right, it does not age. “The Posthumous Memoirs of Brás Cubas,” by Joaquim Maria Machado de Assis, is a case in point. Long forgotten by most, it’s one of the wittiest, most playful, and therefore most alive and ageless books ever written. It is a love story—many love stories, really—and it’s a comedy of class and manners and ego, and it’s a reflection on a nation and a time, and an unflinching look at mortality, and all the while it’s an intimate and ecstatic exploration of storytelling itself. It is a glittering masterwork and an unmitigated joy to read, but, for no good reason at all, almost no English speakers in the twenty-first century have read it (and I first read it only recently, in 2019).

But it survives, and must be read, for the music of its prose and, more than anything else, for its formal playfulness. A new translation, by Flora Thomson-DeVeaux, is a glorious gift to the world, because it sparkles, because it sings, because it’s very funny and manages to capture Machado’s inimitable tone, at once mordant and wistful, self-lacerating and romantic. Its narrator, Brás Cubas, is dead. He tells the story of his life from the grave, and maybe because he has nothing left to lose—being dead and all—he tells the story precisely as he wants to, convention be damned. The novel unfolds in brief, bright chapters, brightened further with endless self-referentiality and self-doubt. “I am beginning to regret that I ever took to writing this book,” Brás Cubas writes in a chapter called “The Flaw in the Book.” “Not that it tires me,” he continues. “I have nothing else to do, and dispatching a few meager chapters into the other world is invariably a bit of a distraction from eternity.”

The story, at its core, is almost conventional, a nineteenth-century aristocratic love triangle. Brás Cubas hovers at the edges of Rio de Janeiro’s moneyed classes but lacks the will to marry (his sister’s obsession) or the ambition to rise within the government (his father’s wish). He passes on a chance to marry the beautiful Virgília and be catapulted into public life by her powerful father. Instead, an honorable man named Lobo Neves takes both Virgília’s hand and her father’s mentorship, and it’s only then that Brás Cubas begins to feel drawn to Virgília. They begin an affair, and try—not so hard, really—to keep it hidden from Virgília’s too trusting husband. Soon everyone in Rio’s society seems to know, with the danger of discovery only drawing the lovers closer.

Meanwhile, Brás Cubas contemplates the meaning of life (from the grave), aided by his friend Quincas Borba, who is trying to popularize a philosophy called Humanitism, designed, Machado writes, “to ruin all the rest.” At its core is a belief in the rightness of anything human. Brás Cubas admits that it’s Panglossian but finds a certain comfort in the radical notion that humans should be allowed to do anything humans naturally do, that whatever we do we are meant to do—with special reverence for the making of more humans. “Love, for example,” he writes, “is a priesthood; reproduction, a ritual. Since life is the greatest benefit the universe can bestow . . . it follows that the transmission of life, far from being an occasion for gallanting, is the supreme hour of a spiritual Mass. Hence there is truly only one misfortune in life: never being born.”

Machado veers between the book’s love story and its metaphysical interludes with ease, in part because though the book is about earnest things—love, life itself, the finality of death—it never takes itself seriously. In Chapter IV, “The Fixed Idea,” Machado begins a grand analogy comparing lesser human endeavors to those that echo through the ages. “To offer a poor analogy, it is like the rabble, sheltered in the shadow of the feudal castle; the castle fell and the rabble remained. Indeed, they became grand in their own right, a veritable stronghold . . . No, the analogy’s really no good.” The chapter titles themselves are disarming. One chapter, aptly called “Sad, but Short,” is followed by “Short, but Happy,” which is both. There is a chapter dedicated to boots, another to the author’s legs, while another is called “Not to Be Taken Seriously.” Chapter CXXX is titled “To Be Inserted Into Chapter CXXIX,” and at the end of it, the author asks that the reader insert it between the first and second sentences of the previous chapter. There’s also a long hallucination involving a hippopotamus.

Somehow none of the gags and intertextual fun does anything to diminish the power of the story. The romance between Brás Cubas and Virgília is convincing and wildly lyrical. The feeling we have for the unwitting Lobo Neves is real, and the crime that the narrator and Virgília commit on him is never punished—in life or death. And this is key. This is an atheistic book, where there is no judge but one’s conscience, and where the offender lies alone, in a box permeated by worms, recounting his life and failures without any heavenly consequence. It’s funny, too. It is wholly original and unlike anything other than the many books that came after it and seem to have knowingly or not borrowed from it.

Readers are an amnesiac species, and so, every few decades, we wake up to believe that an author addressing the reader directly, or playing with form, or including references to the author or the book within that book, is new and should be labelled post or meta or whatever unfortunate and confining term will come next. But the fact is that an outsized number of the classics of the world employ one or many of these so-called post/meta devices. It began with Cervantes, who allowed Don Quixote and Sancho Panza to be aware, in Book II, that they were characters in Book I. “Candide”—which Machado references many times—is endlessly self- aware, and Thackeray, in “Vanity Fair,” makes so many references to the author’s presence and powers and omniscience that a reader loses count. Joyce and Austen and Nabokov and Sterne—also referenced by Machado—and Stein and Pessoa and legions more have experimented with the form of the novel, have inserted and questioned their authorial authority, and their willingness to experiment, and to have some fun with the relationship between writer, reader, and the book itself, have kept the form fresh and surprising, and so have kept it alive.

But now it is different. Now strangely—so strangely—we live in times of profound traditionalism in literature, and it’s difficult to explain why. I had the enormous pleasure a few years ago to judge a contest to name the year’s best novel, and the committee I was part of had an unexpectedly good time doing the job. There were so many brilliant books. But, of the four hundred or so American novels we were asked to read that year, only a few dozen could be called funny, only a few could be called playful, and I counted exactly two that were in any significant way experimental. If that’s not an indication of a general fear of the new, a hesitation to take chances, and a startling and ill-advised self-seriousness about the novel, I’m not sure what is. This isn’t to say that all novels, or even most, should be, or could be, as playful as this one, but it wouldn’t hurt to have a few more that allow h
umans—characters, readers, authors even—to laugh. Denying the jokes in life, and the joke of life itself, is too sad.

This essay was drawn from the introduction to “The Posthumous Memoirs of Brás Cubas,” which is out in June from Penguin Classics.

June 19, 2020

Numa das mais deprimentes noites da história do Maracanã, o futebol foi detalhe

Visão geral do Maracanã antes de Bangu x Flamengo Foto: MAURO PIMENTEL / AFP


Carlos Eduardo Mansur

Um dos argumentos a favor da volta dos jogos tratava da possibilidade de criar uma bolha de segurança em torno dos profissionais envolvidos nas partidas. Poderosa, a tal bolha. É capaz até de isolar o futebol do mundo ao seu redor, do senso de realidade, de qualquer gota de sensibilidade e empatia. Por alguns momentos, o Flamengo x Bangu jogado no Maracanã pareceu um exercício de gente disposta a provar que o drama que o Brasil atravessa não lhes diz respeito.

Em meio a tanto açodamento para fazer a roda girar, este Flamengo x Bangu foi marcado com pouco mais de 48 horas de antecedência e confirmado de véspera. Mas houve tempo para cumprir todos os compromissos comerciais: as placas de publicidade reluziam, o pórtico do Campeonato Carioca que aguarda os times estava em seu lugar antes do jogo... Mas não sobrou lugar, fosse ao redor do campo, fosse nas arquibancadas vazias, para qualquer referência às famílias enlutadas. Tampouco, por incrível que pareça, aos profissionais de saúde que se expõem ao risco e se submetem a uma maratona com alto custo físico e mental para tentar salvar vidas. Nem os uniformes dos times, com seus tantos patrocinadores, preservaram um lugar para a solidariedade ou um sinal de luto — só o Bangu carregava uma fita na manga da camisa. Toda a noite pareceu planejada como uma desconcertante frieza.

Foi certamente uma das mais deprimentes noites da história do Maracanã. A noite do futebol a qualquer custo para satisfazer interesses comerciais e tramas políticas poderosas. Não parecia importar, sequer, que, no hospital de campanha montado no interior do complexo do estádio, a poucos metros do campo, morreram duas das 274 pessoas vitimadas ontem, dia do jogo, pela Covid-19.

Tudo parecia fora de lugar. A chegada dos times coincidiu com a troca de turno dos funcionários do hospital. Incomparável, neste momento, a importância da missão de uns e de outros. Por outro lado, é importante registrar que o entorno do Maracanã não deixava dúvidas: o futebol é apenas uma das faces de uma cidade que decretou por conta própria o fim da pandemia. Ciclovia cheia, pequenas aglomerações, gente sem máscara e um pequeno grupo reunido para ver o ônibus do Flamengo chegar. O Rio saiu da quarentena e o futebol pegou carona por conveniência.

A única referência à maior tragédia do país em um século foi o protocolar minuto de silêncio, que interrompeu a música de boate do sistema de som do Maracanã. Uma vez respeitado, voltou à total vigência a lei segundo a qual o futebol não tem tempo para dramas que extrapolem o seu universo. Nem o racismo teve vez. Não houve jogador de joelhos ou qualquer outra menção à luta global cotra o preconceito e a opressão.
Jorge Jesus orienta o time; ao fundo, staff do Flamengo mantém distanciamento na arquibancada Foto: RICARDO MORAES / REUTERS
Jorge Jesus orienta o time; ao fundo, staff do Flamengo mantém distanciamento na arquibancada Foto: RICARDO MORAES / REUTERS
Por mais irrelevante que pareça a esta altura, houve um jogo no gramado do Maracanã, vencido pelo Flamengo por 3 a 0. Então, é dever dedicar algumas linhas ao campo. Foi quase um exercício de ataque contra defesa, que permitiu avaliar que os três meses de inatividade não tiraram algumas características do time de Jorge Jesus. Mas também, ficou claro que, por mais que o Flamengo tenha antecipado sua volta aos treinos e tenha se preparado bem, seria anormal repetir todas as suas virtudes após tanto tempo sem jogar.

O que o Flamengo não perdeu foi a capacidade de sufocar o rival contra sua área. Com a linha defensiva rubro-negra jogando por vezes além do meio-campo, o Bangu não conseguia sequer respirar. Os rubro-negros pressionavam como de hábito, recuperavam rapidamente a bola e faziam o jogo ocorrer em metade do campo.

No entanto, o time tinha muito volume e poucas chances reais. O Bangu se fechava com uma linha de cinco defensores e o Flamengo rodava a bola sem encontrar tantas brechas para infiltrar. Pouco antes dos 15 minutos, Jorge Jesus fez Arrascaeta jogar mais pelo centro, próximo a Gabigol, abrindo Bruno Henrique à esquerda. Foi por ali que o uruguaio encontrou o rebote de um cruzamento de Rafinha. A ideia talvez fosse fazer Arrascaeta flutuar entre as linha de defesa do Bangu e tentar o último passe em profundidade. Mas o Flamengo tinha dificuldade de transformar o volume em chances.

Um panorama que não se alterou no segundo tempo, apesar do controle absoluto. Mas bastou o Bangu conseguir sua primeira finalização que, como efeito colateral, ofereceu ao Flamengo a primeira chance de encaixar uma jogada em transição rápida. E com espaço, é ainda mais difícil parar o time rubro-negro. Eram 20 minutos do segundo tempo quando Gabigol cruzou para Bruno Henrique ampliar.

O Bangu abriu mão dos três zagueiros, desmontou sua linha de cinco e até encerrou a inatividade pós pandemia de Diego Alves, que pegou sua primeira bola no jogo perto dos 30 minutos. Mas assumia o risco de oferecer a chance de o Flamengo jogar em velocidade. O terceiro gol, aliás, veio no lance mais bem construído da noite, com Gabigol outra vez no papel de assistente: ele achou Pedro Rocha para o 3 a 0.


É possível que, encerrado o jogo, defensores da bolha do futebol declarem vitória. Mas muita gente os fará lembrar que, entre interesses comerciais e políticos, instituições populares, importantes, cheias de história e de fortes vínculos com suas comunidades foram conduzidas a protagonizarem uma noite mórbida, de mau gosto. E acima de tudo insensível.

O GLOBO

June 18, 2020

Os limites da reação de Bolsonaro

Jair Bolsonaro no lançamento do Plano Safra 2020-2021: presidente é cobrado por seguidores à medida que inquérito das fake news avança  / Crédito: Adriano Machado / Reuters


Nos últimos dias, o clima nos grupos de WhatsApp bolsonaristas é de desolação. Conforme as investigações sobre fake news e atos antidemocráticos se aproximam do Planalto, a cobrança por uma ação concreta do presidente aumenta. Querem um golpe militar. Que Bolsonaro não entrega. Há inúmeras explicações — mas, mesmo que Bolsonaro conseguisse o apoio do Exército Brasileiro para dar um golpe, suas chances de sucesso seriam mínimas.

Golpes de Estado estão entre os assuntos mais estudados pela ciência política. Inúmeros golpes que deram certo e que deram errado foram estudados ao longo dos anos e existe um motivo para que sejam muito raros hoje em dia. É que a internet não deixa.


Um golpe de sucesso é, de certa forma, um truque. Golpes que dão certo convencem todo mundo, muito rápido, que o novo grupo está no poder. Se ocorre hesitação e, após um ou dois dias, a hesitação persiste, o golpe acaba. Em 1964, João Goulart escolheu não resistir. Em 1955, o marechal Henrique Lott optou por resistir. Quando há resistência, o ruído na comunicação gera dúvida. Mais recentemente, em 2016, os militares tentaram derrubar o presidente turco Recep Erdogan. Durante a madrugada, transmitindo numa live que a TV local pôs no ar, Erdogan resistiu, se apresentou como presidente. Causou ruído.


Este seria o desafio de um golpe militar no Brasil. Haveria uma cacofonia de vozes — ministros do Supremo, parlamentares, governadores, cada qual em sua live atacando os golpistas. Na confusão, o golpe não teria força para se sustentar.

E há o segundo fator necessário para o sucesso de um golpe: o reconhecimento do novo governo pelos principais parceiros comerciais e países vizinhos. Nenhum governo sul-americano reconheceria um governo golpista por natural receio de contágio. Os principais parceiros comerciais são China — que o atual governo só ataca —, União Europeia — com quem o atual governo está em conflito — e os EUA. Donald Trump tem uma reeleição difícil pela frente, e apoiar um golpe militar na América Latina não faria sentido político.

O GLOBO

June 16, 2020

Brasil já teve presidente em hospital público

No Brasil, o último presidente a se tratar na rede pública foi João Baptista Figueiredo. Foto: Otávio Magalhães / Agência O Globo

Guilherme Amado

Quando Boris Johnson foi à televisão britânica no domingo de Páscoa para contar que estava curado da Covid-19 e encher de elogios o Serviço Nacional de Saúde (NHS), no qual se tratou, foi inevitável lembrar de nosso Sistema Único de Saúde (SUS), muito maior e mais abrangente do que seu equivalente britânico, e me perguntar: que presidente brasileiro se internaria em um hospital do SUS?

Pois houve um tempo, não muito distante, em que era na rede pública que o chefe do Executivo se tratava, porque era lá que estava a medicina de ponta. Aos 72 anos, o Hospital Federal dos Servidores do Estado (HSE), o maior federal do Rio de Janeiro, internou e tratou cinco mandatários: José Linhares, Café Filho, Juscelino Kubitscheck, João Goulart e João Baptista Figueiredo. Todos, portanto, antes da criação do SUS, em 1988. O que houve de lá para cá? Por que os presidentes hoje preferem o Einstein ou o Sírio-Libanês e não o HSE, adornado com mármore carrara e com uma exclusiva ala presidencial, com baixelas de prata, louça fina e a privacidade que permitia que Golbery do Couto e Silva levasse até sua gaiola de passarinho quando era internado? Claro que o HSE e diversos outros hospitais se deterioraram, mas, paradoxalmente, o SUS não deixa de ser uma vitória. Especialistas da saúde pública e privada são unânimes: sem ele, a pandemia no Brasil seria uma hecatombe. Com todos os problemas, foi ele que conseguiu universalizar o acesso à saúde. É com o SUS que 75% da população conta. E é dele que deveria ser o maior legado do combate ao vírus.

O NHS é um sistema público de saúde que há 72 anos é mantido com impostos de 66 milhões de britânicos para atender todo o país, sem nada a ser pago pelo usuário na ponta. Era discutido desde o começo do século passado, mas só em 1948, com um Reino Unido devastado pela Segunda Guerra Mundial, saiu do papel. É o segundo maior sistema de saúde pública do mundo, perdendo apenas para o SUS, que nasceu exatos 40 anos depois e guarda algumas diferenças que devem ser sublinhadas.
O SUS recebe cerca de R$ 105 bilhões por ano e atende 75% da população brasileira, o equivalente a 153 milhões de pessoas — o restante recorre aos planos de saúde. O NHS atende menos da metade disso e recebe anualmente US$ 170 bilhões de investimento.

Políticos e críticos do SUS costumam destacar a corrupção e a má gestão como as principais causas para as deficiências do sistema, mas há um indiscutível subfinanciamento, mesmo se a comparação se restringir ao Brasil. A saúde suplementar, que atende só 25% dos cidadãos, investe cerca de R$ 90 bilhões por ano. Ou seja: os gastos por paciente são, em média, três vezes mais altos na saúde privada do que na saúde pública. E todo ano há milhares de pacientes de planos que recorrem ao serviço público, sem que as operadoras reembolsem devidamente o Estado.
“A relação da sociedade inglesa com seu sistema de saúde também é diferente. O NHS é visto como parte da identidade britânica”
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O país tem orgulho de seu sistema de saúde e o próprio Johnson foi acusado durante sua jornada para chegar a primeiro-ministro por ter defendido cortes — um dos momentos mais tensos de sua campanha foi quando ele, candidato, foi confrontado com o vídeo de um menino deitado no chão de um hospital, devido à falta de leito. Entretanto, no domingo de Páscoa, fez uma defesa apaixonada do serviço e de seus profissionais.

“O NHS salvou minha vida, sem dúvida. É difícil encontrar palavras para expressar minha dívida. Estamos progredindo na luta nacional porque o povo inglês formou um escudo humano em torno do maior ativo do país: nosso Serviço Nacional de Saúde. Entendemos e decidimos que juntos poderíamos manter o NHS seguro, se conseguíssemos impedir o NHS de ficar sobrecarregado. (...) É graças a essa coragem, devoção, a esse dever e amor que nosso NHS tem sido imbatível”, rasgou-se.
A rainha Elizabeth fez o mesmo, em seu quinto discurso na TV em 70 anos (breve registro: Bolsonaro fez dez em um ano e três meses), e outdoors estão espalhados pelas ruas do país com agradecimentos aos profissionais de saúde.

O NHS, entretanto, não é perfeito. Há uma demora grande na marcação de consultas, baixos salários, e, mesmo sendo um país rico, financiamento insuficiente. E tampouco o SUS é o horror que muita gente pinta. O sistema sofre com críticas em parte justas, porque de fato tem problemas graves, mas também por interesses em desmantelá-lo, com uma agenda de privatização que ganha espaço pouco a pouco, especialmente do governo Michel Temer para cá.


Boris Johnson agradeceu ao NHS, o SUS britânico, por ter salvado sua vida. Foto: Pippa Fowles / 10 Downing Street / AFP
Boris Johnson agradeceu ao NHS, o SUS britânico, por ter salvado sua vida. Foto: Pippa Fowles / 10 Downing Street / AFP
Em 2017, Ricardo Barros (PP), então ministro da Saúde de Michel Temer, defendeu o que chamou de Projeto de Plano de Saúde Acessível. O programa, que não emplacou, tinha o objetivo de ampliar a cobertura de planos de saúde à população, por meio do barateamento. Entre as propostas, estavam a de exigir que os pacientes passassem em clínicos antes de especialistas e a coparticipação do beneficiário no pagamento dos serviços usados. Seria o maior golpe ao SUS em sua história, vendendo a ilusão de qualidade no serviço privado, que todos que têm plano de saúde sabem que não é garantida.

E falta dinheiro no SUS, muito dinheiro. Roberto Medronho, epidemiologista, chefe da Divisão de Pesquisa do Hospital Universitário da UFRJ (HU), aponta o que o subfinanciamento representa na ponta: hoje, há 120 leitos a menos no HU, em comparação com 1978, quando foi aberto. E a população fluminense, neste período, claro, aumentou.

O Ministério da Saúde informou à coluna que os investimentos para enfrentar o novo coronavírus e que ficarão de legado para o SUS representam R$ 12 bilhões. Sem entrar no mérito de que a cifra desmente a propaganda da Secom, que fala em R$ 15 bilhões, houve erros por parte da pasta, conforme apontou o próprio Medronho: “Está acontecendo uma corrida internacional por insumos para combater a pandemia. O Ministério da Saúde sabia há semanas da epidemia. Por que não comprou antes? Agora, estão sendo gastos bilhões com material alugado, que depois não ficará para o SUS”.

Nada indica, entretanto, que tenha mudado a percepção da sociedade e muito menos do governo sobre a importância de aumentar repasses e melhorar a gestão do SUS. E também não parece provável que Jair Bolsonaro e outras autoridades topem trocar o Einstein pelo HSE.

Com Eduardo Barretto e Naomi Matsui

REVISTA ÉPOCA 

 


June 15, 2020

Os generais em seu labirinto

Christian Edward Cyril Lynch - Professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj)

Christian Edward Cyril Lynch



Com a escalada da crise política, o general Mourão tem multiplicado suas manifestações públicas. Sua leituras, bem como a transcrição da reunião ministerial de 22 de abril, deixam transparecer a posição dos generais palacianos. Eles se empenham na defesa do governo porque acreditam que, diante da anarquia dos últimos anos, o Brasil precisaria de um “freio de arrumação”, materializado em um experimento “conservador”. Moro era o candidato ideal, mas quis o destino que fosse Bolsonaro.

Os militares passaram o primeiro ano subalternos dentro da coalizão governamental, face ao protagonismo dos reacionários e dos neoliberais. Em fevereiro, porém, diante da realidade do fracasso, Bolsonaro entregou a coordenação do governo aos generais, tidos como peritos em política e administração.

Desde a nomeação de Braga Netto para a Casa Civil, os militares acreditam, portanto, ter tomado o poder —e se sentem responsáveis por ele. É essa crença que leva Mourão a apresentar o governo como ideologicamente de “centro-direita”, minimizando o golpismo da ala reacionária.

Os generais reconhecem que Bolsonaro não passa de um demagogo incapaz, mas precisam dele para o “freio de arrumação”. Ele seria um “Lula da direita”, e Braga Netto seria Palocci. Então, quando o general Mourão diz “deixa o cara governar”, ele está, na realidade, afirmando: “Deixa a gente tentar”. É esse “peixe” da racionalidade político-administrativa que os generais vendem aos líderes do Congresso e aos ministros do STF, quando se encontram a portas fechadas. O golpismo não passaria de “retórica inflamada” para manter a base mobilizada. Afinal, Lula também não mandava chamar o “exército do Stédile”

A esta altura, já podemos inferir por que os militares relutam em abandonar Bolsonaro. Ficam contrafeitos com o fato de que uma tempestade imprevista —a pandemia— tenha aumentado a chance de um naufrágio, justo quando estavam no comando do navio. Pensam que o carisma do capitão lhes permite tocar a administração, sem a usura que a ocupação direta da Presidência traria à corporação militar como um todo. Crendo que Mourão teria menos condições de conter as “forças anárquicas” da sociedade, ainda veem o “Lula da direita” como a melhor garantia contra o Lula verdadeiro. Eles não descartam, claro, a opção representada pelo vice, mas a guardam para o caso de a situação de Bolsonaro se tornar insustentável. Nem por isso admitem “desordem” das ruas ou pressão de juízes “ativistas”.

Infelizmente, nossos generais subestimam Bolsonaro. Acham que o exploram para seu projeto, quando é ele que os explora para o seu. Esquecem que, para o presidente, todos os colaboradores são descartáveis. Ao contrário de Lula, um moderado que se fazia de radical, Bolsonaro é um radical incapaz de ser moderado. Assim que a tempestade passar, vai se livrar de Braga Netto, como já se livrou de Santos Cruz, Mandetta e Moro.

Mais grave, os generais não percebem que, na utopia regressiva de Bolsonaro, não há lugar para o Exército brasileiro. O presidente sonha com um Brasil de “povo armado”, dominado por novos “bandeirantes” que exploram a terra de modo predatório, liderados por uma oligarquia de empresários inescrupulosos. Nele, não há espaço para um Estado que assegure o interesse público, nem para o Exército que detenha o monopólio do exercício da força legítima. Como na Venezuela, as Forças Armadas serão braços das milícias bolsonaristas. Mais do que desarrumação, será um freio de destruição.

Convido nossos militares a refletirem se, sustentando Bolsonaro hoje, não estariam dando asas à cobra que os engolirá amanhã.









June 10, 2020

Felipe Neto diz que gabinete do ódio tem inteligência de uma geladeira frost free | Diario de Cuiabá

 O youtuber e influenciador Felipe Neto



 "Nesse momento não há que se debater protagonismo, liderança ou eleições. É união contra fascistas, ponto final. Ou você está contra o fascismo, ou está a favor dele, não há muro quando o assunto é autoritarismo e repressão. Não é hora de se fazer politicagem, é hora de enfrentar o fascismo, custe o que custar. Depois nós analisamos o cenário e debatemos sobre o que fazer em seguida."

leia entrevista feita por Maurício Meireles​

 

Felipe Neto diz que gabinete do ódio tem inteligência de uma geladeira frost free | Diario de Cuiabá

The Police Are Rioting. We Need to Talk About It.



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If we’re going to speak of rioting protesters, then we need to speak of rioting police as well. No, they aren’t destroying property. But it is clear from news coverage, as well as countless videos taken by protesters and bystanders, that many officers are using often indiscriminate violence against people — against anyone, including the peaceful majority of demonstrators, who happens to be in the streets.

Rioting police have driven vehicles into crowds, reproducing the assault that killed Heather Heyer in Charlottesville, Va., in 2017. They have surrounded a car, smashed the windows, tazed the occupants and dragged them out onto the ground. Clad in paramilitary gear, they have attacked elderly bystanders, pepper-sprayed cooperative protesters and shot “nonlethal” rounds directly at reporters, causing serious injuries. In Austin, Texas, a 20-year-old man is in critical condition after being shot in the head with a “less-lethal” round. Across the country, rioting police are using tear gas in quantities that threaten the health and safety of demonstrators, especially in the midst of a respiratory disease pandemic.

None of this quells disorder. Everything from the militaristic posture to the attacks themselves does more to inflame and agitate protesters than it does to calm the situation and bring order to the streets. In effect, rioting police have done as much to stoke unrest and destabilize the situation as those responsible for damaged buildings and burning cars. But where rioting protesters can be held to account for destruction and violence, rioting police have the imprimatur of the state.


What we’ve seen from rioting police, in other words, is an assertion of power and impunity. In the face of mass anger over police brutality, they’ve effectively said So what? In the face of demands for change and reform — in short, in the face of accountability to the public they’re supposed to serve — they’ve bucked their more conciliatory colleagues with a firm No. In which case, if we want to understand the behavior of the past two weeks, we can’t just treat it as an explosion of wanton violence; we have to treat it as an attack on civil society and democratic accountability, one rooted in a dispute over who has the right to hold the police to account.

African-American observers have never had any illusions about who the police are meant to serve. The police, James Baldwin wrote in his 1960 essay on discontent and unrest in Harlem, “represent the force of the white world, and that world’s real intentions are simply for that world’s criminal profit and ease, to keep the black man corralled up here in his place.” This wasn’t because each individual officer was a bad person, but because he was fundamentally separate from the black community as a matter of history and culture. “None of the police commissioner’s men, even with the best will in the world, have any way of understanding the lives led by the people they swagger about in twos and threes controlling.”

Go back to the beginning of the 20th century, during America’s first age of progressive reform, as the historian Khalil Gibran Muhammad does in “The Condemnation of Blackness: Race, Crime, and the Making of Modern Urban America,” and you’ll find activists describing how “policemen had abdicated their responsibility to dispense color-blind service and protection, resulting in an object lesson for youth: the indiscriminate mass arrests of blacks being attacked by white mobs.”

The police were ubiquitous in the African-American neighborhoods of the urban North, but they weren’t there to protect black residents as much as they were there to enforce the racial order, even if it led to actual disorder in the streets. For example, in the aftermath of the Philadelphia “race riot” of 1918, one black leader complained, “In nearly every part of this city peaceable and law-abiding Negroes of the home-owning type have been set upon by irresponsible hoodlums, their property damaged and destroyed, while the police seem powerless to protect.”

If you are trying to understand the function of policing in American society, then even a cursory glance at the history of the institution would point you in the direction of social control. And blackness in particular, the historian Nikhil Pal Singh argues, was a state of being that required “permanent supervision and sometimes direct domination.”

The simplest answer to the question “Why don’t the American police forces act as if they are accountable to black Americans?” is that they were never intended to be. And to the extent that the police appear to be rejecting accountability outright, I think it reflects the extent to which the polity demanding it is now inclusive of those groups the police have historically been tasked to control. That polity and its leaders are simply rejected as legitimate wielders of authority over law enforcement, especially when they ask for restraint.

A New York Police Department that worked enthusiastically with the Republican mayors Rudy Giuliani and Michael Bloomberg — mayors who found their core support among the white residents of the city — then rejected the authority of Bill de Blasio, a Democrat backed by blacks and Hispanics, who had emphasized police reform when he was a candidate. Or compare the contempt for President Barack Obama from representatives of law enforcement to their near-worshipful posture toward President Trump.

Yes, some of this reflects partisan politics — it’s in the nature of policing that many of its practitioners tend to be more conservative than most — but I think it’s also influenced by a sense that neither Obama nor his appointees, like Eric Holder or Loretta Lynch, had the right to criticize them or hold them to account.


If that is the dynamic at work, then we should not be surprised when the police respond, in the main, with anger and contempt to demands for change from the policed. Nor should we be surprised by their willingness to follow the lead of a figure like Trump, who has incited America’s police forces to be even more violent with protesters (to say nothing of his past praise for police abuse).

Trump explicitly rejects the legitimacy of nonwhites as political actors, having launched his political career on the need for more and greater racial control of Muslims and Hispanic immigrants. Even without his tough-guy posturing, Trump is someone who embodies the political and social order the police have so often been called to defend.

Which is all to say that the nightly clashes between protesters and the police are, to an extent, a microcosm of larger disputes roiling this nation: the pressures and conflicts of a diversifying country; the struggle to escape an exclusive past for a more inclusive future; and our constant battle over who truly counts — who can act as a full and equal member of this society — and who does not.

June 5, 2020

Brazil’s losing battle against covid-19






ON MAY 18TH Bruno Covas, the mayor of São Paulo, Brazil’s biggest city, announced an unscheduled five-day holiday to discourage people from going out. The residents of Paraisópolis, a favela of perhaps 100,000 people in southern São Paulo, where covid-19 deaths are rising at a faster rate than anywhere else in the city, saw the festive side. A popcorn vendor set up shop to serve the stream of patients entering a clinic. School-aged boys flew kites nearby. “Brazil adapted well to this new reality,” joked one, pointing to crowded rooftops and the dancing diamonds overhead.

Brazil’s covid-19 curve looks like a kite string. On May 28th it had 411,821 confirmed cases and 25,598 deaths. The United States, the only country with more cases, barred Brazilians from entering from May 26th. The World Health Organisation has declared South America “a new epicentre”, with Brazil the worst affected country. A study in 133 cities by the Federal University of Pelotas in the southern state of Rio Grande do Sul concluded that Brazil’s caseload is seven times the official number.

Brazil entered the pandemic with strengths. Like the United States it has a federal system. Governors (and mayors) have the power to declare lockdowns. Brazil’s free Unified Health System (SUS), modelled on Britain’s National Health Service, serves 80% of the population, though poorly in some regions. In earlier crises, such as the H1N1 (“swine flu”) epidemic in 2009 and the mosquito-borne Zika outbreak in 2015, the three levels of government and the SUS co-operated effectively.

More contagious than H1N1, covid-19 exploits Brazil’s weaknesses. Rich travellers brought the virus, but it is now concentrated in poor neighbourhoods like Paraisópolis, where people are packed together and have jobs without contracts or benefits. That makes social distancing hard. A monthly benefit of 600 reais ($110) introduced in April has helped millions of informal workers, but long queues of people unable to obtain it are still forming at banks.

What makes social distancing harder is that Brazil’s populist president, Jair Bolsonaro, scoffs at the medical establishment and its advice. He has quarrelled with and lost two health ministers since the crisis began. His attitude to covid-19 resembles that of President Donald Trump: both tout hydroxychloroquine, a malaria drug that is useless against covid-19 and can be dangerous, according to a new study in the Lancet.

Mr Bolsonaro’s attitude causes more damage, however. Brazil’s federal system is more president-centred than America’s. To work well in a crisis, all levels of government must co-operate. Luiz Henrique Mandetta, Brazil’s health minister when the outbreak began, held daily meetings with state and municipal health secretaries to plan for getting and distributing money, tests and equipment to combat the pandemic. But after Mr Bolsonaro sacked him on April 16th those meetings ended. “The SUS is a three-legged animal,” Mr Mandetta says. “If you cut off one of its legs, it starts to go in circles.”

Rich states with relatively strong health systems are coping better. In the state of São Paulo co-ordination among municipal and state health agencies and the private sector helped open thousands of hospital beds, including in stadiums and convention centres. Even so, in the city more than 90% of intensive-care beds are occupied. Douglas Cardozo, an auxiliary nurse at Hospital do Campo Limpo, south of Paraisópolis, says that staff lack bodysuits and other necessities. At least 50 patients a day check in with covid-19 symptoms, he says. Two colleagues have died from it.

In poorer regions of Brazil the health system is buckling. Less than a month after the first covid case was reported on March 13th in Manaus, a city of 2m in the Amazon rainforest, the mayor said that its system had collapsed. A promised field hospital has failed to materialise and mass graves are being dug for victims, some of whom are dying on boats en route to the city.

The weaker the health system, the more it needs the protection of strict lockdowns. But Mr Bolsonaro has made these a wedge issue. He shows up at weekly protests in Brasília, the capital, against quarantines. Unlike in some European countries, Brazilians do not come to their front doors and windows to applaud health workers. Their covid clamour signals conflict. When Mr Bolsonaro says something incendiary, his fans drive around blasting car horns in approval while his critics bang pots and pans. In municipalities where support for Mr Bolsonaro is strong, adherence to social distancing is correspondingly weak, according to a recent paper by Nicolas Ajzenman, an economist, and two other authors.

This forces governors and mayors to fight on several fronts. Mr Bolsonaro mounted a legal challenge to their quarantine orders, which the Supreme Court rejected on April 15th. João Doria, the centre-right governor of São Paulo state, says that to implement a strict lockdown “would mean a clear confrontation with millions of Brazilians” who support Mr Bolsonaro. (Critics say he wants to avoid angering businessfolk.) Some Brazilians are merely confused. They ask themselves: “whom should I listen to, the governor or the president?” says Mr Doria.

This adds to the economic and cultural forces that jam people together even as the president divides them. Just half in São Paulo are adhering to lockdown rules. To stop the virus’s spread 70% is needed, says the state’s government. On bustling Avenida Senador Teotônio Vilela on the city’s southern periphery more than 20 shoppers browse in a variety store, ducking in and out under half-lowered metal shutters. Reinildo Carneiro, a construction worker, donned a puppy-print mask and popped into a bar in Paraisópolis for a game of snooker. “You’re more vulnerable if you get depressed from staying at home,” he says. Beer kills the virus, he read on WhatsApp.

Mr Bolsonaro will not set him straight. His presidency is consumed by melodrama. In a two-hour video of a cabinet meeting released by the country’s Supreme Court and watched by millions of Brazilians, he gave himself over to unhinged and profanity-filled rants against police investigations of his sons but had little to say about protecting citizens from the pandemic. Widespread testing, a precondition for easing lockdowns safely, is not happening. By May 26th Brazil had processed fewer than 500,000 tests, just a tenth of the number acquired by the health ministry. Its testing rate is far lower than that of European countries and the United States.

Governors are yielding to pressure anyway. Mr Doria announced plans to begin opening parts of his state, including the city of São Paulo. At the city’s São Luis cemetery 3,000 fresh graves await covid-19 victims. Several hundred have been filled. The cemetery’s old average of 11 burials a day has jumped to more than 40, says a gravedigger. Most graves are covered with flowers but unmarked due to a backlog in engraving the plaques. A banner warns about Zika. None is needed for covid-19, says the gravedigger. “Once people lose a family member, they finally believe.”■

iTHE ECONOMIST