September 18, 2009

O Demônio

Luís Fernando Veríssimo

Há dias a CNN mostrou uma mãe americana chorando, preocupada com o que iria acontecer com seus filhos. E o que iria acontecer com seus filhos era terem que ouvir pela TV um discurso do presidente Barack Obama dirigido a estudantes do ensino básico de todo o país, no primeiro dia do ano escolar. Barack recomendaria a todos que fossem bons alunos e tomassem o seu leite, mas a direita histérica criou a expectativa de que ele aproveitaria a oportunidade para doutrinar as crianças sobre os seus programas nazicomunistas, talvez até recorrendo à hipnose. Muitas escolas se recusaram a mostrar a preleção presidencial. A mãe entrevistada pela CNN estava apavorada com o que o demônio negro de fala mansa poderia fazer com a mente dos seus filhos.

A demonização do Obama se deve em grande parte à sua intenção de criar um sistema universal de saúde pública como os que já existem em todos os países civilizados do mundo (e mesmo semicivilizados, não vamos citar nomes), para garantir assistência médica aos mais de 50 milhões de americanos que hoje não têm proteção alguma. As seguradoras, indústrias farmacêuticas e empresas hospitalares que já tinham liquidado com um plano similar do Clinton mobilizaram-se de novo, com a colaboração da imprensa conservadora, de políticos reacionários e de almas simples como a mãe apavorada, e transformaram a ameaça aos seus lucros numa guerra ideológica. Ainda é incerto se o Baraca conseguirá ver seu plano, ou uma versão chocha do mesmo, aprovado. Ou se chegará ao fim do seu mandato, nesse clima.

Dias depois da mãe chorosa a mesma CNN mostrou um pastor do Sul dos Estados Unidos declarando que rezava para Obama morrer de câncer e ir para o Inferno. E a congregação dizendo "Amém!".

o Globo, 17 de setembro de 2009

Como me livro da internet livre?

CLÓVIS ROSSI

 SÃO PAULO - OK, Fernando Rodrigues, você venceu, pelo menos no primeiro tempo: o Senado liberou geral (ou quase) a internet para a campanha eleitoral, tal como você exigiu. Nada contra a liberação, mas agora quero que você me ensine como defender a minha liberdade da liberdade da internet.

Já há essa montanha de "spams" que nem o melhor anti-spam consegue deter completamente. Já há, para jornalistas, a pilha de "press-releases" que antes chegava no papel e agora entope a nossa caixa eletrônica de correspondência.

Não falta a praga dos blogs. Todo blogueiro parece achar que eu não consigo começar o dia (ou terminá-lo) sem ler o seu imperdível blog. É claro que, em época de campanha eleitoral, só pode aumentar a quantidade.

Acho que a legislação e até a Declaração Universal dos Direitos do Homem (e da Mulher) deveria incorporar o seguinte artigo: "Todo ser humano tem o direito inalienável a escolher ele próprio quais blogs quer ler. Quem impuser seu blog à caixa postal alheia cometerá crime de lesa-humanidade".

Não faltam assessores de imprensa zelosos que mandam tudo o que seu chefe diz. Eu recebo diariamente todas as falas, por exemplo, do governador Aécio Neves. Fico aterrorizado só de pensar como será na hipótese de Aécio Neves ser candidato, qualquer que seja o cargo a que concorra.

Recebo também diariamente uma correspondência com o título "Imagens do Piratini". Imagino que seja do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho. Olha, eu adoro o Rio Grande, sei até estrofes dos hinos do Grêmio e do Internacional, mas me reservo o direito de eu mesmo procurar que "imagens do Piratini" me interessam.

Na campanha eleitoral, tudo isso será multiplicado por mil ou mais.

Desse jeito, não vai sobrar tempo para trabalhar. Será esse o preço da liberdade?


Folha, 17 de setembro de 2009

 

September 9, 2009

A cultura das armas

MARCOS NOBRE



O ANO DA FRANÇA no Brasil mostrou a que veio: foi uma oportunidade para fechar grandes negócios com armas. Nada menos que R$ 22,5 bilhões, sem contar o contrato de compra de caças, que pode custar outros R$ 10 bilhões e que deve ir também para a França.

A discussão sobre os contratos continua em banho-maria. As explicações oficiais seguem sendo insuficientes. Joga-se a nuvem do antinacionalismo e do antipatriotismo contra quem exige esclarecimentos, quando qualquer nacionalista e patriota só merece esse nome se fizer valer antes de tudo a transparência exigida pelas instituições democráticas que o país com tanta dificuldade conseguiu construir.

Uma coisa é um aparelhamento adequado das Forças Armadas brasileiras que seja compatível com a extensão do país e com o atual patamar de armamento sul-americano. Coisa muito diferente é um projeto de se tornar potência hegemônica regional inconteste. Os contratos com a França representam o primeiro passo para isso.

A realização desse projeto inclui a tentativa já fracassada outras vezes de instalar uma indústria bélica de importância no país. Já parece suficientemente assustadora a ideia de usar dinheiro público para financiar a produção e exportação de armas para destruir vidas. Mas essa nem é ainda toda a história.

Tornar-se potência militar significa gastar muito mais recursos do que o necessário para manter o equilíbrio bélico regional. É esse gasto excedente que rouba recursos da luta contra a miséria e a desigualdade. E que terá por consequência produzir tensões onde hoje elas não existem e obrigará países vizinhos a tomarem o mesmo caminho desastroso. Não bastasse isso, serão preciosos recursos do pré-sal que acabarão por financiar, direta ou indiretamente, esse projeto militarista.

A cultura francesa foi hegemônica no Brasil por pelo menos um século e meio, até os EUA lhe tomarem essa posição. Mas esse tombo em nada abalou o velho colonialismo francês, que, condescendente, continua a oferecer ao povo brasileiro a oportunidade de degustar os biscoitos finos que fabrica.

E são mesmo muitas vezes biscoitos de sonho. Só que, como sempre, a França continua sem dar a receita. Práticas reais de cooperação e intercâmbio passaram longe da lista de mais de 400 eventos culturais do Ano da França no Brasil.

Figuras renomadas vêm, fazem seu show e se vão.

O que fica são armas. Para essas, o governo francês promete ensinar a receita. Transformou as armas da cultura no prelúdio enganoso de uma cultura das armas.

Folha, 8 de setembro de 2009 

August 24, 2009

Presidente Sarney, um município entre os piores

Terra natal de senador tem baixos índices em saúde e renda

Raimundo Garrone* Enviado especial


Crianças na caminhonete que serve de transporte escolar
(foto de Gilson Teixeira)

PRESIDENTE SARNEY (MA). Ao ser emancipado em 1997, o povoado de Pimenta, no município de Pinheiro (MA), mudou de nome, mas não atraiu o interesse do homenageado por sua terra natal. Hoje, Presidente Sarney amarga uma das piores posições no Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM).

Dos 5.560 municípios brasileiros, ele está em 5.542º lugar no IFDM, que mede dados de emprego, renda, saúde e educação.

Dos presidentes homenageados no Maranhão (Dutra, Juscelino, Vargas e Médici), Sarney é o pior colocado. Mas a pobreza não se limita ao município que leva o nome do atual presidente do Senado. Das 20 piores colocações no IFDM, sete estão no Maranhão, governado há 40 anos pela família Sarney ou seus aliados, com breves interrupções.

Presidente Sarney não tem abastecimento de água e depende dos poços de algumas casas e do da praça, que é perene. A esperança é a ligação com o Rio Turi, distante nove quilômetros.

— Aqui tem muito cano enterrado.

Os políticos dizem na campanha que vão trazer água, mas ela só chega no inverno — diz Oswaldo de Jesus Souza, de 62.


O lixo é recolhido de tres em tres dias.

(foto de Gilson Teixeira)


Na única avenida da cidade, lixo e animais soltos
'Emprego, só na prefeitura e se for aliado do prefeito'

Sem saneamento básico, água encanada, emprego e hospital, Presidente Sarney é o retrato do abandono. Porcos, bois, cavalos, cachorros e bodes passeiam pela única avenida da cidade, a Padre Rios, onde também se acumula o lixo, que só é recolhido de três em três dias. A secretária de Saúde do município, Jamily Soares, conta que todas as crianças têm vermes.

A população enfrenta outras doenças da pobreza, como tuberculose e desnutrição. O atendimento é apenas ambulatorial.

Os partos são feitos na cidade vizinha de Pinheiro, e casos graves têm de ir para a capital, São Luís, a mais de 80 quilômetros e ainda 90 minutos de barco.

No quesito emprego e renda, Presidente Sarney tem a pior nota do IFDM: 0,0782. Pela pesquisa, até 0,4 está abaixo da linha de desenvolvimento. Farinha de mandioca e pesca são as principais fontes de renda. Muitos homens partem em busca de trabalho, deixando as famílias.

— Emprego aqui, só na prefeitura e se for aliado do prefeito — diz Oswaldo de Jesus Souza.

Escola funciona em uma antiga estrebaria A falta de perspectiva começa na escola. A única de ensino médio tem 900 vagas e funciona à noite em salas emprestadas pela prefeitura ao governo do estado.

As condições das 54 escolas são precárias. Na comunidade do Pirinã, a 13 quilômetros, os alunos estudam em uma antiga estrebaria, coberta de palha.

— Os pais preferem isso a colocar seus filhos em risco nessas (caminhonetes) D20 que fazem o transporte escolar — explica o líder comunitário Raimundo de Moraes, enquanto as crianças pedem um ônibus.

A Secretaria de Educação do município explica que os recursos para o transporte escolar estão bloqueados no Ministério da Educação porque a administração anterior não prestou contas.

Já a biblioteca pública não tem previsão de funcionamento.

— Fizemos um ofício em março para o gabinete do senador Sarney, pedindo ajuda para conseguir um acervo para nossa biblioteca, e sequer recebemos resposta — lamenta a chefe do gabinete da Secretaria de Educação, que se identificou apenas como Iranilde.

(Raimundo Garrone, especial para O GLOBO)

Veja mais fotos de Presidente Sarney no Extra Online


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August 20, 2009

Jornal move ação contra blogueiro


Sérgio Matsuura, de São Paulo

“A livre manifestação de pensamento não é direito que pode ser exercido de modo absoluto e sem restrições”. Essa passagem é praxe em processos contra veículos de comunicação. Entretanto, ela foi retirada de uma ação movida pelo jornal Folha da Manhã, de Campos dos Goytacazes (RJ). O réu é o blogueiro Roberto Moraes. O motivo: dois comentários postados por leitores no blog.

“Ao autorizar a postagem e divulgação de comentários que depreciam e violam a honra da Autora, ainda mais quando mencionadas acusações despidas de veracidade, o Réu carreia para si a responsabilidade de indenizar a Autora nos danos morais por esta experimentados”, diz a ação, que pede a retirada dos comentários sob pena de multa diária de R$ 1 mil.

O jornal também pede que o blogueiro “se abstenha de autorizar postagem de comentários depreciativos à honra da autora”.

“Isso é censura prévia. É muito estranho um veículo de comunicação querer calar alguém”, afirma Moraes, que, além de blogueiro, é professor no Instituto Federal Fluminense.

Em sua opinião, interesses econômicos estão por trás da ação movida pelo jornal. Segundo ele, a Internet criou um espaço que não foi ocupado pelos veículos tradicionais e, agora, os jornais estão tentando reaver esse lugar.

“Isso é uma tentativa de não perder o controle da informação no município”, diz.

Moraes ainda não apresentou sua defesa, o que deve acontecer nos próximos dias. Motivado pelo processo, Moraes criou um outro blog, o “Não aceito censura aos blogs”, no qual disponibiliza os processos movidos contra blogs no Norte e Noroeste fluminense.


Jornal da Imprensa, 19 de agosto de 2009

Os "caras" do companheiro Obama

ELIO GASPARI

Má notícia para a torcida do companheiro Obama.

A jornalista americana Michelle Malkin botou na rua o livro “Cultura da corrupção — Obama e seu time de pilantras, sonegadores e cupinchas” e em apenas uma semana ele ocupou o primeiro lugar da lista de mais vendidos do “The New York Times”. No chute, isso significa uma circulação de 50 mil a 100 mil exemplares. Como John McCain teve 60 milhões de votos, esse número ainda não é motivo para se arrancar os cabelos.

Malkin bate pesado, mas cada adjetivo é acompanhado por fatos. Ela lista os maus passos de algo como 50 estrelas do firmamento de Obama.

Pilantras? Bill Richardson, seu secretário do Comércio, desistiu da indicação por conta das investigações a que estava submetido. (Noves fora o pecado venial de maquiar o currículo esportivo, como o vice Joe Biden, que maquiara o acadêmico.) Uma ONG dirigida por Patrick Gaspard, atual diretor da seção de assuntos políticos da Casa Branca, tomou a terceira maior multa já aplicada a malfeitorias eleitorais, US$ 775 mil.

Sonegadores? O senador Tom Daschle desistiu de ser secretário da Saúde por má contabilidade tributária.

Foi substituído por Kathleen Sebelius, que errou as contas com a Receita em três anos sucessivos. Timothy Geithner, secretário do Tesouro, esqueceu de pagar US$ 43 mil dólares ao Imposto de Renda.

Cupinchas? A mulher mais poderosa da Casa Branca, depois de Mme.

Obama, é Valerie Jarrett, amiga e guia do casal na política e na cleptocracia dos democratas de Chicago. Ela é sobrinha do poderoso lobista Vernon Jordan, que arrumou um emprego para Monica Lewinsky, tentando mantê-la de boca fechada.

Todos os episódios e culpas narrados em “Cultura da corrupção” já apareceram na imprensa ou na blogosfera.

Malkin montou o painel, usou tintas fortes e mostrou uma paisagem onde se misturam velhas figuras de Wall Street, companheiros sindicalistas truculentos e vorazes, com ONGs tisnadas por escroques. Isso e mais Chicago, o berço político de Obama, uma espécie de Maranhão rico e industrializado. Malkin demonstra que o discurso antilobista de Obama estava mais para lero-lero. (O procurador-geral Eric Holder é lobista registrado, como o secretário da Agricultura e, de certa forma, o diretor da CIA.) A retórica da transparência, prometida durante a campanha, foi esquecida em poucas semanas.

Na mão da xará, Michelle Obama come o pão que Asmodeu amassou.

Malkin mostra que sua secretária social ganhou US$ 1 milhão trabalhando para duas companhias de gás no ano da graça de 2008, o da eleição. A carreira profissional de Michelle tem duas lombadas. Ela foi contratada pelo Centro Médico da Universidade de Chicago para um cargo que não existia, extinto com sua saída. Mais: quando o marido era um político promissor seu salário ficou em US$ 122 mil anuais. Depois que ele se elegeu senador, subiu para US$ 317 mil.

Com menos de um ano de governo, só a má vontade pode instruir a suspeita de que a qualquer momento surgirá o neologismo Obamagate. Nada aconteceu na Casa Branca que possa lembrar a licenciosidade de John Kennedy, a paranoia de Richard Nixon, a plutofilia do casal Clinton ou o imperialismo irresponsável de George W. Bush. Contudo, se algo parecido acontecer, o livro de Michelle Malkin será lembrado. Ela avisou.


Globo & Folha, 19 de agosto de 2009


August 16, 2009

Uma saída para Sarney

JOSÉ ROBERTO TORERO


CARO EX-PRESIDENTE da República e atual presidente do Senado José Sarney, é possível que nos próximos dias o senhor perca seu cargo. Acho isso difícil, já que os seus companheiros são muito, digamos, compreensivos com os erros alheios. De qualquer forma, pode ser útil já ir pensando num novo trabalho, e é por isso que lhe escrevo. O desemprego é uma coisa triste e não o desejo a ninguém. Ficar em casa vendo TV seria muito ruim para uma pessoa tão ativa. E escrever seria pior ainda. Para todos.

Por isso, examinei atentamente sua história recente e me pus a pensar qual profissão seria mais indicada a Vossa Excelência. Cheguei a uma interessante conclusão: a saída é tornar-se presidente de um clube de futebol.

As vantagens são imensas. A primeira e mais óbvia é continuar a ser chamado de "presidente". É um termo que afaga o ego, que satisfaz a vaidade, que vicia. Afinal, o presidente é aquele que está acima de todos, que manda em tudo, é aquele que tem o poder.

Mas há outras coisas boas. Por exemplo, não há que prestar contas a ninguém. Sim, às vezes existe um conselho fiscal, um grupo de diretores ou coisa assim, mas é muito raro que eles criem problemas.

Geralmente são do seu próprio grupo. No futebol, o fato de Vossa Excelência receber irregularmente um auxílio-moradia de R$ 3.800 seria deixado de lado.

Para algumas das tarefas do presidente do clube, o senhor estaria mais que gabaritado. Eles adoram, por exemplo, mudar os estatutos para poderem governar por mais tempo. E não podemos esquecer que Vossa Excelência, quando mandatário máximo do país, conseguiu prorrogar seu mandato em mais um ano.

Muitos presidentes também adoram misturar suas coisas particulares com as do clube. Às vezes, o dinheiro, às vezes os funcionários.

Assim, por exemplo, não haveria problema em que o mordomo da casa da sua filha Roseana fosse pago pelo Senado.

As prestações de contas dos clubes também são um tanto obscuras e imprecisas. Assim sendo, os boletins administrativos secretos seriam uma inovação muito bem-vinda ao futebol. Neste caso, a publicação de coisas como a nomeação de seu neto João Fernando, de sua sobrinha Vera Portela ou mesmo do namorado de sua neta para integrar o quadro de servidores do Senado não causaria problemas.

Mas há mais coincidências entre os dois empregos, muitas mais. Li que a Fundação Sarney recebe um bom dinheiro de empresas estatais como a Petrobras, que repassou R$ 500 mil para patrocinar um projeto cultural que nunca teria saído do papel. Pois os clubes, mesmo devendo uma nota preta, recebem uma boa grana da Timemania.

Também é muito comum entre os dirigentes esportivos que amigos tornem-se inimigos e vice-versa. Ora, Vossa Excelência está mais que acostumado com isso. Antes, tinha Lula e Fernando Collor na conta dos adversários ferrenhos. Hoje, são fiéis companheiros seus. Nos clubes e na política, nunca se diz nunca.

Enfim, fica aqui o conselho: caso o Senado o dispense, sempre há o futebol.

Folha, 11 de agosto de 2009


August 14, 2009

Vida descarrilada

JOSÉ GERALDO COUTO



Pedrinho, que pendurou as chuteiras anteontem, foi vítima da cultura da truculência e da estupidez


UMA SEMANA depois de o argentino Juan Pablo Sorín anunciar sua aposentadoria, desligando-se do Cruzeiro, agora quem pendura as chuteiras é Pedrinho, ex-Vasco, ex-Palmeiras e ex- -uma porção de times do Brasil e da Arábia. Sorín tem 33 anos. Pedrinho acaba de fazer 32.
Ao anunciar a rescisão de seu contrato com o Figueirense e a decisão de abandonar os gramados, Pedrinho tinha o ar de um pugilista que, depois de muito apanhar, joga finalmente a toalha.

Segundo o agora ex- -jogador, acabou a paciência dele próprio e das pessoas à sua volta com suas sucessivas contusões, que há anos o impediam de exercer com eficácia o seu ofício.

Dono de um enorme talento, Pedrinho conviveu durante a maior parte da carreira com o estigma mais terrível que pode pesar sobre um futebolista profissional, o de "bichado". Os torcedores dos clubes pelos quais atuou alternavam um carinho quase paternal por ele com momentos de desconfiança, quando não de irritação. Já os adversários só vinham com ironia e crueldade.

O fato é que ninguém nasce "bichado". O calvário de Pedrinho teve início numa data precisa. Em 6 de setembro de 1998, num jogo pelo Vasco, dois dias antes de se apresentar à seleção, uma entrada violentíssima de um certo Jean Elias, do Cruzeiro, rompeu o ligamento cruzado anterior de seu joelho direito.

Aos 21 anos, Pedrinho vivia seu melhor momento. Tinha sido decisivo para a conquista da Libertadores daquele ano pelo Vasco. Jogaria pela primeira vez na seleção. Um único pontapé fez sua biografia tomar outro rumo, como um trem que descarrila. Nunca mais retornaria aos trilhos certos. A vida que poderia ter sido estava perdida para sempre.

Num de seus vários retornos, depois de uma cirurgia e da penosa recuperação subsequente, viveu uma cena que julgo emblemática.

Era a final da Taça Guanabara de 2000. Pedrinho, que tinha feito o último gol na goleada de 5 a 1 do Vasco sobre o Flamengo, recebeu uma bola junto à lateral do campo e a conduziu pelo alto em direção à área adversária. Uma "embaixadinha" em movimento, em suma.

O gesto, que expressava sua alegria por voltar a jogar e a vencer, despertou a ira rubro-negra. O zagueiro Juan deu-lhe um carrinho criminoso, vários flamenguistas avançaram contra ele, o tempo fechou.

À beira do campo, o então técnico do Vasco, Abel Braga, apressou-se em dizer ao treinador adversário que apoiava a agressão flamenguista a Pedrinho, pois este tinha ferido a assim chamada "ética" dos boleiros, que proíbe a "provocação". Na TV, locutores e comentaristas engrossaram o coro de censura a Pedrinho. Só faltou gritarem: "Lincha".

Naquele momento ficou claro, para mim (e certamente para Pedrinho), que vivemos sob o império da truculência e da estupidez. "Neste país é proibido sonhar", escrevera Drummond seis décadas antes.

Em outubro de 2002, em outro de seus renascimentos para o futebol, Pedrinho, então no Palmeiras, foi pego no antidoping, por conta do antidepressivo que tomava.

Esclareceu-se depois que o remédio era ingerido com a anuência da CBF. Pedrinho, afinal, tinha motivos de sobra para se deprimir.

Folha, 8 de agosto de 2009

August 13, 2009

Produtos eróticos com selo verde ganham as vitrines

Cresce o mercado para lingerie, cremes e brinquedinhos ecológicos

Que a revolução verde está tomando conta de vários segmentos, todo mundo sabe. Pois, agora, é a vez dos produtos eróticos ecologicamente corretos.
Apesar de ainda representarem uma fatia pequena dentro da dimensão do mercado do sexo — que no Brasil já movimenta anualmente R$ 900 milhões, com crescimento médio na ordem de 10%, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico (Abeme) —, peças produzidas com materiais biodegradáveis ou recicláveis começam a chegar ao país e representam uma boa oportunidade de negócio.
Algumas dessas novidades poderão ser conferidas na 15aedição da Erótika Fair, que acontecerá de 9 a 12 de outubro no Mart Center, em São Paulo. O evento comporta até 40 expositores e tem atraído em média 20 mil visitantes por edição, sendo 10% do público voltado para negócios.
Além de inovações tecnológicas — como o masturbador masculino japonês Tenga (que conta com três velocidades e forças de sucção diferentes) e a 3ageração do OhMiBody, que vibra de acordo com som ambiente —, o evento trará opções criativas na área sustentável.

Vibrador com selo do Greenpeace

— Há uma nova geração de empresários do ramo preocupados com a questão ecológica. Percebemos o uso de tecidos e bases cosméticas naturais substituindo as sintéticas, que são de difícil decomposição. Nesse contexto, entram as roupas íntimas feitas com fibra de bambu e as loções e cremes com óleos vegetais, ao invés de derivados de petróleo — diz Evaldo Shiroma, organizador da feira e presidente da Abeme.
Boa parte desses artigos ainda não ultrapassaram as fronteiras da Europa e dos Estados Unidos. Mas nem por isso empresários do ramo têm desistido de investir no segmento.

— As pesquisas e os produtos que já existem no mercado aliam preservação do meio ambiente com o bem-estar promovido por materiais inovadores, mas muitos ainda são trazido lá de fora — informa Shiroma, acrescentando que 70% dos produtos eróticos comercializados no Brasil hoje são importados.
Na loja Over Sexy, no shopping Città America, Barra da Tijuca, os mais antenados já encontram os vibradores da marca sueca Lelo, que aposta em materiais não tóxicos e formatos inspirados nas curvas femininas. A preocupação com a sustentabilidade está no uso de baterias internas recarregáveis, que dispensam pilhas. Dependendo do modelo, o preço pode chegar a R$ 1.573.
Há no mercado, ainda, chibatas de couro ecológico (R$ 60) e lingerie com fibra de bambu (R$ 90), que possui alta elasticidade e ainda é anti-bacteriológica.
Para garimpar novidades, a proprietária da Over Sexy, Izabela Berg, frequenta feiras e eventos internacionais.

— Acaba de ser lançado na Irlanda um vibrador que não utiliza bateria e tem o selo do Greenpeace. Para fazer vibrar é preciso “dar corda” manualmente.
E o mais legal é que a potência que não é utilizada fica armazenada — explica a empresária, que também é apresentadora do programa “Boa de cama”, do canal Sexy Hot, onde dá dicas sobre brinquedinhos eróticos.
Ralf Furtado, gerente comercial da A2 Conveniências Eróticas, em Ipanema, também não abre mão de viajar para conhecer as tendências do mercado. De malas prontas para visitar a StorErotica 2009, no mês de setembro, em Las Vegas, o empresário aposta na comercialização de óleos de massagem vegetais e biodegradáveis — que diferentemente dos minerais não obstruem as glândulas de excreção e são menos poluentes (R$ 69,70) — e vibradores feitos de cyberskin (R$ 457,90), que imita pele humana e não tem ftalato (composto difícel de ser biodegradado).
A loja vende até um consolo de vidro (R$ 529,70), que é hipoalergênico e pode ser reciclado diversas vezes, diferentemente do plástico.

— Como utilizam tecnologias diferenciadas, os produtos eróticos sustentáveis ainda têm custo de fabricação mais elevado, o que aumenta em pelo menos 30% o valor de venda. A procura ainda é pequena, pois os brasileiros ainda não estão ligados no assunto. Por isso precisamos chamar a atenção para o negócio de formas inteligentes — afirma Furtado.

Lingerie feita de látex ecológico

Antenada com a nova tendência, a empresária Suzana Leal, da Pselda, vai usar na próxima coleção um tecido ecológico feito de látex sustentável — extraído sem causar danos à natureza — para fazer leggings, sutiãs e calcinhas.
Parece couro sintético, mas a diferença é que não agride o meio ambiente.

— Aqui, essa preocupação faz parte da rotina. Nossas embalagens são ecobags, e os saquinhos de calcinhas são de filó.


O Globo, 9 de agosto de 2009

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Musa pornô vira caso de segurança nacional

Governo indiano usa lei para tirar da internet primeira HQ do gênero no país

Florência Costa

NOVA DÉLHI. Com seus longos cabelos negros, seu sári colado ao corpo curvilíneo e um apetite sexual insaciável, a bela dona de casa indiana Savita Bhabhi era a maior inspiração das fantasias sexuais de milhões de indianos. Ela nasceu há um ano, ganhou vida na internet e se transformou na primeira estrela pornô em quadrinhos online da Índia. Mas Savita ganhou um poderoso inimigo: o governo do país a considerou obscena e inaceitável. Assim, as aventuras sexuais dessa “cunhada” indiana — o sobrenome Bhabhi significa mulher do irmão mais velho — chegaram ao fim.

O mais curioso foi que o governo decidiu exterminar a estrela pornô valendose de uma lei usada para casos de segurança nacional, decretada após o ataque terrorista ao sistema de trens de Bombaim em 2006. A legislação permite ao Estado censurar sites que ameaçam a integridade do país e possam perturbar as relações de amizades da Índia com os países vizinhos.

“O que Savita fez para merecer isso?”, era a chamada de um dos muitos artigos da mídia indiana sobre o assunto. Os tradicionalistas acusaram Savita de ser um atentado contra os valores mais arraigados da conservadora sociedade hindu. O flerte com a cunhada mais velha é tema tradicional na cultura popular indiana.

Savita era um símbolo de pensamentos impuros, sonhos sexuais, fantasias, infidelidade. Ela seduziu os indianos: o site atraiu 60 milhões de pessoas por mês, 70% dos quais indianos.

A cada dia havia uma nova história no site. Mesmo casada, ela tinha escapadas sexuais com vários homens: vendedores ambulantes, adolescentes e até juízes de concurso de miss. Um dos últimos episódios mostrava-a seduzindo um personagem que lembra o ator Amitabh Bachchan, ícone de Bollywood.

O autor do quadrinho erótico é um empresário britânico de origem indiana, Puneet Agarwal, de 38 anos. Ele explicou que sua intenção era mostrar a sensualidade das mulheres indianas: — Elas também têm desejo sexual.

Os que criticaram a censura alegam que outros sites pornôs continuam no ar, mesmo com a pornografia proibida no país. Então por que o governo aplicou a lei somente com relação a Savita? A sedutora cunhada usava todos os adereços de uma indiana típica: o sári, o bindi no meio da testa, o mangalasutra (colar que sinaliza o status de casada). Há quem aposte que foi por isso mesmo — por simbolizar a sociedade indiana — que ela acabou vítima da pena de morte.

A vida breve e a morte repentina de Savita provocaram um debate sobre a reprimida sexualidade na terra do Kama Sutra, o milenar tratado erótico indiano.

Para alguns, o episódio revelou a problemática relação dos indianos com o sexo. Muitos achavam que Savita era um símbolo de liberdade, poder e sexualidade da reprimida mulher indiana.

— Isso mostra que somos uma sociedade hipócrita e sexualmente reprimida, ainda que tenhamos monumentos como Khajuraho, com pedras esculpidas há milênios com cenas eróticas — disse o publicitário e comentarista de TV Suhel Seth.

Logo após a censura, no início de junho, o criador de Savita organizou uma campanha de ressurreição de sua criatura: “Salve Savita online”. Foi um sucesso. Mas, na semana passada, o empresário jogou a toalha. Nem ele teve forças para resistir à pressão da conservadora família indiana: — Lamento os problemas causados a todos os blogueiros e fãs que apoiaram essa causa. Questões pessoais e familiares me obrigam a encerrar essa campanha — publicou Punnet Agarwal recentemente em sua página.

O Globo, 9 de agosto de 2009

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