February 28, 2009
Rubem Grilo revela suas escavações
Suzana Velasco
O gravador Rubem Grilo levou um susto quando se deu conta de que havia talhado formas geométricas na madeira.
— Achei que estava entrando em choque com todo o meu trabalho anterior. Linha todo mundo faz, é muito simples. E, para mim, o fato motivador do trabalho é a expressão da particularidade — diz ele. — Foi muito difícil fazer uma linha que fosse minha. Entrei em desespero.
Desenhei umas 200 até que uma me tocou.
Eram meados dos anos 1980, e Grilo acabara de deixar o emprego de ilustrador na imprensa para se dedicar somente à xilogravura. Nesse período, paralelamente às formas geométricas, o artista manteve seu viés expressionista, aquele que temia trair. Essas duas facetas de sua obra poderão ser vistas pelo público a partir de terçafeira, na exposição “Rubem Grilo xilográfico (1985 a 2009)”, que reúne 167 gravuras em madeira, na Caixa Cultural.
— Na imprensa, sempre havia um tema proposto, um desafio que vinha de fora. Eu quis desenvolver um trabalho de dentro — afirma o artista.
— O jornal foi meu tempo de formação. Queria firmar uma certeza, ganhar convicção. O trabalho era raivoso, e eu era raivoso comigo também. O período posterior foi de transformação.
Saí das gravuras grandes, que tinham uma temática mais dramática, e caí em algo mais poético. É uma exposição de um ciclo de trabalho, de um processo mais autônomo de linguagem.
Fora do epicentro artístico da década de 1970 Grilo passou a criar xilogravuras em miniaturas, com referências à ironia e ao humor desenvolvidos na imprensa.
Em outras obras, também em pequeno formato, o artista desenvolveu uma linguagem que parece construtiva, mas que, segundo ele, carrega no fundo as questões existenciais do expressionismo, que o formou como gravador. Ele conta que a tal linha que o tocou foi uma linha incompleta, que lhe permitiu desenvolver um trabalho coerente com sua trajetória — ainda que visualmente contrastante com as figuras densas criadas em jornais como “Opinião” e “Movimento” — publicações independentes que combatiam o regime militar.
— Aceitar fazer figuras geométricas parece quase uma implosão de uma linha de trabalho.
Dentro de uma visão estratificada de arte, a impressão é de que houve uma ruptura do ponto de vista formal — afirma Grilo. — Quando alguém que vem de um berço expressionista entra numa área assim, só de linhas, parece que existe uma esperança, uma racionalidade.
Mas eu criei formas geométricas incompletas, insuficientes, num esforço de encontrar alguma irregularidade dentro da regularidade.
Ao se olhar de perto, as formas geométricas incompletas aparecem também em outras séries de xilogravuras, que mantêm algo da dramaticidade das ilustrações dos anos 1970 e 80, então propulsionada pela ditadura militar. Desde então, figuras com um tom misterioso dão o tom de obras com um cunho mais denso, barroco, segundo palavras do próprio Grilo.
Formado em agronomia, o artista começou na gravura justamente num momento em que os suportes tradicionais eram implodidos no meio artístico, que procurava outros caminhos, através da arte conceitual, em instalações, vídeos e objetos. Apesar de político nas ilustrações irônicas dos jornais, Grilo foi apolítico em relação às discussões sobre os rumos da arte na época.
— Cheguei à festa quando todos já estavam de ressaca — resume. — Estava entusiasmado, mas não queria resolver o problema da arte. Queria resolver o meu problema.
Por vias avessas, o artista acabou adotando uma postura política, pela resistência em trabalhar com a xilogravura, alheio às últimas novidades, trabalhando o dia todo em seu ateliê, nos fundos de casa, em Copacabana, e só parando à noite, para ver um filme.
— Estar aqui já é deixar o mundo lá para fora. Deixo a briga para quem tem musculatura — diz ele. — O sistema de arte hoje é um sistema de mercado, e o problema da gravura começa e termina aí. A utilidade da obra de arte atualmente é absorver valor financeiro, e a gravura não tem valor de mercado. Nessa incompatibilidade, ela fica meio à margem, e pode ser loucura eu dizer isto, mas eu gosto.
Grilo gosta do ofício de se concentrar na madeira e fazer entalhe por entalhe, linha por linha, sem que um produto externo faça o trabalho por ele — como o ácido que corrói o metal. Grilo gosta da precariedade do material, e do fato de que não há erro, cada traço é definitivo. Esse tempo de registro na madeira, apesar de ser o que mais exige do artista, não pode ser visto no resultado final, a própria gravura. E é por isso que, na exposição, Grilo vai mostrar 13 matrizes que ainda não receberam tinta, ou seja, que ainda não foram transferidas para o papel e transformadas em gravuras.
“O trabalho não é progressivo, ele é circular” O artista diz que não quer ser didático ao expor as matrizes, mas mostrar uma etapa do trabalho que se perde para o espectador, e que pode ser considerada uma obra em si.
Essas matrizes também são de diferentes épocas e, como as gravuras, expostas sem cronologia — já que sua produção não tem um desenvolvimento em fases. Nesses 25 anos, Grilo criou um universo recorrente, sem uma evolução com um sentido de progresso.
— Há reincidências, e ao mesmo tempo há transformações.
A obra aprende quando retrocede e quando recupera terreno, não só quando ganha terreno — sustenta. — O trabalho não é progressivo, no sentido linear, ele é circular. Ao refazer algo que fazia nos anos 1980, estou revisitando permanentemente minha experiência, aprofundando-a cada vez mais. Ruptura para mim é uma mudança de estado. Mas eu sou telúrico, e o que você pode fazer na terra é cavar.
O Globo, 28 de fevereiro de 2009
February 21, 2009
Leitor voraz e destrutivo, Hitler tinha 16 mil livros
Jacinto Antón
Do El País
Hitler queimava livros, mas também os lia. E o fato de fazer ambas as coisas — além de detonar a II Guerra Mundial e comandar o extermínio dos judeus — o torna um leitor muito especial.
Sua relação com os livros, inclusive com os que não queimava, não era amável. Incapaz de relações profundas e sinceras de amor e amizade — mesmo o que sentia por Eva Braun e por sua cadela Blondie seriam afetos envenenados —, Hitler tampouco nutria carinho pelos livros, uma marca dos bibliófilos decentes.
Da mesma forma que fazia com os países, as instituições e as pessoas, Hitler depredava os livros. Essa era sua forma de lê-los. Ele mesmo explicou seu método de leitura abusivo e oportunista em “Mein kempf” (Minha Luta).
“Ler não é um fim em si mesmo, mas sim um meio para alcançar um fim.” A leitura, em geral, servia para confirmar opiniões que já tinha. “Tiro dos livros o que necessito”, disse certa vez. Não lia nunca por prazer, embora lesse muito. “Os livros eram seu mundo”, escreveu seu amigo de juventude August Kubizek. Hitler chegou a Viena muito pobre, mas com quatro caixas repletas de livros. Em sua época de agitação política, quando não estava fazendo discursos ou andando pelas cervejarias, passava o tempo lendo.
Almanaques e enciclopédias
“Claro que ler muito não significa ler bem”, frisa Ian Kershaw, em sua monumental biografia “Hitler”. “Ler não era algo que fizesse para se ilustrar ou para aprender, mas sim para confirmar seus preconceitos.” Kershaw questiona ainda a ideia de que Hitler tenha lido tudo o que havia colecionado. Parece que, dos clássicos da literatura, teria lido bem pouco. Não gostava de romances. Por outro lado, apreciava muito o subgênero antisemita (o que não surpreende).
Gostava muito das enciclopédias e dos almanaques, de onde podia extrair, para impressionar, muita informação em pouco tempo. E ainda as obras sobre ocultismo. Foi encontrado entre seus livros — e isso não é uma piada — o título “A arte de tornar-se um orador em poucas horas”. Hitler tinha um fraco, e talvez essa seja sua única faceta sincera como leitor, por relatos do explorador Sven Hedin e pelos faroestes de Karl May. Isso não impedia que acendesse os cigarros de oficiais nazistas com páginas em brasa das obras de May.
Muito já se escreveu sobre a biblioteca de Hitler, de cerca de 16 mil volumes, sua composição, as obras que de fato leu, e os livros que contribuíram para afirmar suas (más) ideias. Agora, um livro apaixonante, “A biblioteca privada de Hitler — os livros que moldaram sua vida”, de Timothy W. Ryback, rastreia com habilidade detetivesca e pulso literário, as obras que teriam sido decisivas, por seu significado emocional ou intelectual, na vida do Hitler leitor.
O líder nazista chegava a ler um livro por noite, revela o autor, mas era superficial.
Muito pouco de Shakespeare, quase nada de Nietzsche e Schopenhauer.
Muita coisa de Nostradamus.
EUA: militares suspeitos de fraude no Iraque
No que pode se tornar a maior fraude da História dos Estados Unidos, autoridades americanas começaram a investigar o papel de militares de alta patente no uso indevido de US$ 125 bilhões destinados à reconstrução do Iraque após a queda de Saddam Hussein. É possível que nunca se descubra a soma exata que desapareceu, mas um relatório do Inspetor Geral dos EUA para a Reconstrução do Iraque (Sigir, na sigla em inglês) sugere que ela pode exceder US$ 50 bilhões - tornando-a um roubo ainda maior do que o esquema de pirâmides de Bernard Madoff.
- Acredito que o verdadeiro saque após a invasão foi feito por funcionários americanos e empreiteiros, e não por pessoas das favelas de Bagdá - disse um empresário envolvido com o Iraque desde 2003.
Auditores descobriram que US$ 57,8 milhões foram enviados em notas de cem para o empreiteiro responsável pelo centrosul iraquiano, Robert J. Stein Jr, que foi fotografado com o monte de dinheiro. Ele é um dos poucos americanos que devem ser condenados por fraude e lavagem de dinheiro.
Apesar das altas somas para a reconstrução, não há guindastes visíveis em Bagdá, exceto pelos utilizados na nova embaixada dos EUA. Líderes iraquianos estão convencidos de que o roubo ou desperdício do dinheiro de ambos os lados só poderia acontecer se funcionários americanos estivessem envolvidos.
Em 2004 e 2005, o orçamento de US$ 1,3 bilhão saiu do Ministério da Defesa iraquiano para comprar helicópteros soviéticos de 28 anos, obsoletos demais para voar, e veículos blindados que podiam facilmente ser perfurados por balas de fuzis. Iraquianos foram responsabilizados pelo roubo, mas militares americanos controlavam grande parte do Ministério.
Em janeiro, investigadores requisitaram a ficha bancária do coronel Anthony B. Bell, que era responsável por contratos para a reconstrução em 2003 e 2004.
Segundo o “New York Times”, estão sendo investigadas também as atividades do tenentecoronel Ronald W. Hirtle, da Força Aérea, responsável por contratos em Bagdá em 2004. Os dois alegam inocência.
Dinheiro era entregue em caixas de pizza
O fim do governo Bush deu novo impulso às investigações.
No início da ocupação, republicanos bem relacionados foram premiados com empregos no Iraque. Um jovem de 24 anos de uma família republicana foi posto no comando da bolsa de valores de Bagdá, que teve que fechar porque ele teria esquecido de renovar o aluguel do prédio.
Estão sendo reexaminadas informações dadas por Dale C.
Stoffel, que foi assassinado em Taiji, ao norte de Bagdá, em 2004. Stoffel, um negociante de armas, havia obtido imunidade após dar informações sobre uma rede de suborno ligando empresas e funcionários americanos na Zona Verde de Bagdá.
Ele contou que propinas de milhares de dólares eram entregues em caixas de pizzas enviadas a funcionários americanos.
Até o momento, americanos que foram processados estavam envolvidos com casos menores de corrupção.
Ministros iraquianos admitem a corrupção desenfreada no governo. Mas também há forte suspeita da cumplicidade de americanos ou da escolha de testas-de-ferro iraquianos. Em muitos casos, empreiteiros sequer começaram ou terminaram as obras. O fracasso em fornecer eletricidade, água corrente e sistema de esgoto durante a ocupação americana foram cruciais para afastar os iraquianos do regime pós-Saddam.
Patrick Cockburn
January 25, 2009
Na sala com The Edge, Page e White
Myrna Silveira Brandão
ESPECIAL PARA O JORNAL DO BRASIL, DE PARK CITY, EUA
Um dos destaques da mostra Documentário Espectrum, o longa It might get loud, de Davis Guggenheim, gerou muitos comentários no Festival de Sundance (cujos vencedores serão conhecidos na madrugada de hoje), a despeito de sua abordagem. Não se trata de uma biografia, não é um filme-concerto e, embora esteja classificado como um documentário, está um tanto distante do formato, pelo menos no sentido mais convencional do termo. Os próprios organizadores do festival o estão chamando de documentário spotlight.
O filme é simples assim: três ícones da guitarra são postos numa sala e convidados a tocar, bater papo e falar sobre seu trabalho. Eles são nada menos do que Jimmy Page (Led Zepelin), The Edge (U2) e Jack White (White Stripes). Guggenheim confirma que tinha uma idéia em mente, mas queria realmente fazer algo novo.
– Quase todos os documentários sobre música a que assisti me frustraram, porque tinham uma tendência de serem enciclopédicos ou laudatórios – analisa o diretor. – Para escapar dessa armadilha busquei três pessoas que amamos e que são artistas no mais pleno sentido do estado da arte.
De qualquer forma, tendo a guitarra elétrica como elemento central, o diretor do panfleto ecológico Uma verdade inconveniente fez um filme muito interessante que foi além da música e entrou em outros temas relacionados com cultura, processo artístico, resgate de memória e retrato pessoal.
A começar, é claro, pela ênfase na personalidade de cada um dos participantes. Page, o mais velho de todos, assume os cabelos brancos de seus 64 anos e parece bastante confortável no papel. The Edge, 47, deixa aflorar o tempo todo a personalidade sensível que é. Jack White, 33, se expressa num misto de contradições e incertezas. Cada um escolheu a própria forma para narrar sua história, contando como decidiram ser guitarristas, como é o processo de criação que utilizam e outras amenidades que, aparentemente, foram surgindo no decorrer das filmagens.
O objetivo, como informa o cineasta, era exatamente deixá-los à vontade, como se a câmera não existisse.
– Nós apenas juntamos os três músicos, trouxemos as guitarras, ligamos os amplificadores e fomos conversando e tocando durante três dias – contou Guggenheim , acrescentando que o astro mais difícil de conseguir foi Page. – Foi preciso ir a Nova York algumas vezes para negociar sua participação, que felizmente acabou acontecendo.
Isoladamente e em cenas específicas, cada membro do trio recupera lembranças de suas trajetórias. Page percorre uma casa de campo inglesa, onde o quarto álbum do Led Zeppelin foi gravado. The Edge visita o ginásio onde pela primeira vez teve contato com o U2. E Jack White volta no tempo indo a uma fazenda no Tennessee.
– Queria que cada um dos três contasse sua própria história e acho que as melhores entrevistas foram realizadas apenas comigo, sem a equipe de filmagem. Foram dois dias com cada um e eu fiquei muito satisfeito com os resultados.
25 de julho de 2009 : 01h00m
January 16, 2009
Onde quer que eu vá, ouço as mesmas comparações gastas
[se preferir ler no original sem a condensação do globo, clique aqui]
Robert Fisk
Tudo depende de onde se vive.
É a geografia da propaganda israelense, projetada para mostrar que nós — liberais vivendo em nossas seguras casas ocidentais — não compreendemos o horror das 20 mortes israelenses em dez anos e os milhares de foguetes e o trauma de viver perto de Gaza.
Esqueçam os mil palestinos mortos; viajar dos dois lados do Atlântico nestas semanas tem sido uma experiência instrutiva — para não dizer estranhamente repetitiva.
Eu estava em Toronto quando abri o “National Post” e vi Lorne Gunter tentando explicar como é se sentir sob o ataque de foguetes palestinos.
“Suponha que você viva no subúrbio de Don Mills, em Toronto”, escreve Gunter, “e moradores de Scarborough disparem cem foguetes por dia contra o seu quintal, a escola de seu filho”. Entendeu a mensagem? As pessoas de Scarborough são menos privilegiadas, geralmente imigrantes — muitos do Afeganistão — enquanto que os moradores de Don Mills são de classe média.
Nada como enfiar a faca na sociedade multicultural do Canadá para mostrar como Israel está sendo justo ao revidar.
Dias depois estou em Dublin.
Abro “The Irish Times” e uma carta do embaixador israelense tenta explicar como é ficar sob o ataque de foguetes palestinos. Já sabe o que vem a seguir? “O que você faria”, pergunta Zion Evrony, “se Dublin fosse alvo de oito mil foguetes...” E por aí vai. Desnecessário dizer que estou esperando que os mesmos escritores perguntem como nos sentiríamos se ficássemos sob ataque de aviões supersônicos e tanques e milhares de soldados que bombardeiam 40 mulheres e crianças numa escola e em uma semana matam centenas de civis.
Na Irlanda, minha justificativa jornalística favorita veio de Kevin Myers. “O número de mortos em Gaza, claro, é chocante.
Mas não se compara ao número de israelenses caso o Hamas seguisse seu curso.” Entendeu? O massacre em Gaza é justificado porque o Hamas faria o mesmo se pudesse, mesmo que não tenha feito.
Isso fez Fintan O’Toole, do “Irish Times”, dizer o impronunciável: “Quando vai expirar o mandato para vitimar? Quando o genocídio de judeus deixará de livrar Israel das exigências da lei internacional?” Tive um momento interessante numa palestra em Derry, quando uma pessoa na plateia perguntou se os Acordos da Sexta-feira Santa continham lições para o Oriente Médio. Sugeri que acordos de paz locais não são bons viajantes.
Terminei a semana numa discussão na BBC na qual um sujeito do “Jerusalem Post”, um da Al-Jazeera, um acadêmico britânico e Fisk dançaram os passos habituais em torno da catástrofe de Gaza. O momento em que mencionei as centenas de palestinos mortos e os 20 israelenses foi grotesco. Ouvintes pró-Israel me condenaram por sugerir (o que não fiz) que apenas 20 israelenses morreram em dez anos. Naturalmente, centenas de israelenses fora de Gaza morreram — mas também milhares de palestinos.
Meu momento favorito veio quando disse que jornalistas deveriam ficar do lado dos que sofrem. Se estivéssemos cobrindo o comércio de escravos no século XVIII, não daríamos tempo igual para o capitão do navio negreiro na cobertura.
Se fosse a libertação de um campo de concentração nazista, não daríamos o mesmo tempo para a SS. Nesse ponto, um jornalista do “Jewish Telegraph”, em Praga, respondeu que “o Exército israelense não é Hitler”. Mas quem disse que era?
Extremismo é o pior inimigo palestino
Por não ser especialista em assuntos militares, me absterei de julgar se o bombardeio israelense a Gaza poderia ter sido mais direcionado, menos intenso. E depois de décadas em que não me vi capaz de distinguir entre os bons mortos e os maus mortos ou, como Camus costumava dizer, entre as "vítimas suspeitas" e os "executores privilegiados", sinto-me também profundamente perturbado pelas imagens de crianças palestinas que foram mortas. Isso posto, e levando em conta que certos veículos de mídia se deixaram outra vez carregar pelos ventos da sandice -como costuma ser o caso sempre que Israel está envolvido-, gostaria de lembrar a todos alguns fatos:
1. Nenhum outro governo, nenhum país -a não ser o vilipendiado Israel, sempre demonizado- toleraria ter suas cidades como alvo de milhares de obuses a cada ano. A coisa mais notável nisso tudo, a verdadeira surpresa, não é a "brutalidade" de Israel, mas sim, literalmente, sua paciência.
2. O fato de que os mísseis Qassam e agora Grad do Hamas tenham causado tão poucas mortes não prova que são artesanais, inofensivos nem nada assim, mas sim que os israelenses se protegem, que vivem emparedados nas cavernas de seus edifícios, em abrigos: uma experiência fantasmagórica, suspensa, em meio ao som das sirenes e explosões. Já estive em Sderot; sei do que falo.
3. O fato de que, inversamente, o bombardeio israelense tenha causado tantas vítimas não significa, como proclamam zangadamente os oponentes, que Israel esteja envolvido em um "massacre" deliberado, mas que os líderes de Gaza optaram pela atitude oposta e estão expondo sua população, confiando na velha tática do "escudo humano". O que significa que o Hamas, como o Hizbollah dois anos atrás, está instalando seus postos de comando, suas casamatas, seus arsenais, nos porões de edifícios residenciais, hospitais, escolas, mesquitas. Eficiente, mas repugnante.
4. Há uma diferença crucial entre os combatentes que aqueles que desejam ter uma ideia "correta" sobre a tragédia e sobre as maneiras de pôr fim a ela precisam admitir. Os palestinos abrem fogo contra cidades, ou, em outras palavras contra civis (o que a lei internacional define como "crime de guerra"); os israelenses tomam por alvo objetivos militares e causam, sem que o desejem, baixas civis horríveis (o que a linguagem da guerra define como "dano colateral" e, embora terrível, indica uma verdadeira assimetria estratégica e moral).
5. Porque precisamos colocar os pingos nos is, recordemos uma vez mais um fato que a imprensa pouco citou e do qual não conheço precedente em qualquer outra guerra ou da parte de qualquer outro exército. Durante a ofensiva aérea, o Exército israelense apelou constantemente a moradores de Gaza que vivem perto de alvos militares para que deixassem essas áreas. Um ministro israelense disse que 100 mil pessoas foram contatadas. Isso não altera o desespero de famílias cujas vidas foram dilaceradas pela carnificina, mas não se trata de um detalhe totalmente desprovido de sentido.
6. Por fim, quanto ao famoso bloqueio total imposto a um povo faminto ao qual falta tudo nesta crise humanitária "sem precedentes": uma vez mais, a definição não é factualmente correta. Desde o começo da ofensiva terrestre, os comboios de assistência humanitária vêm cruzando incessantemente a passagem de Kerem Shalom. Segundo o "New York Times", em 31 de dezembro cerca de cem caminhões transportando suprimentos de comida e remédios entraram no território. E aproveito para invocar, nem que seja apenas para preservar a lembrança dessa verdade (pois creio que seria desnecessário dizê-lo, ou talvez seja melhor dizê-lo de vez), o fato de que os hospitais israelenses continuam a receber e tratar palestinos feridos, a cada dia. Nossa esperança deve ser a de que os combates se encerrem rapidamente. E que, ainda mais rápido, esperemos igualmente, os comentaristas recuperem o bom senso.
Eles descobrirão, quando isso acontecer, que Israel cometeu muitos erros ao longo de muitos anos (oportunidades perdidas, a longa negação quanto às aspirações nacionais palestinas, unilateralismo), mas que os piores inimigos dos palestinos são os líderes extremistas que jamais quiseram a paz, jamais quiseram um Estado e jamais pensaram em criar um país para o seu povo, ao qual preferem ver como instrumento e como refém. (Considerem a sinistra imagem do líder supremo do Hamas, Khaled Meshaal, que, quando a escala da resposta israelense tão ardentemente desejada ficava clara, limitou-se a declarar uma retomada das missões suicidas -e isso de seu confortável exílio e sua sinecura generosa em Damasco.) Restará uma de duas opções. Ou os líderes do Hamas restabelecem a trégua que violaram, e aproveitam para declarar nula uma agenda que se baseia na pura rejeição à "entidade sionista" -e ao fazê-lo se reintegrem ao vasto partido que favorece um compromisso e que (Deus seja louvado) jamais deixou de avançar na região-, permitindo que a paz seja estabelecida; ou eles continuarão a encarar o sofrimento dos civis palestinos apenas em termos das paixões que isso acalenta, de seu ódio insano, niilista, além das palavras. Se for este o caso, serão não apenas os israelenses, mas os palestinos, que precisarão ser liberados da escura sombra do Hamas.
O francês BERNARD HENRI-LÉVY é filósofo. Este artigo foi distribuído pelo New York Times Syndicate
Tradução de PAULO MIGLIACCI
A guerra perdida
Notem que digo “raciocínio”, porque me parece impossível, nas atuais circunstâncias, chegarmos a qualquer coisa sequer remotamente parecida com “razão”.
No momento, nada que se diga ou se mostre em favor de Israel terá qualquer efeito.
Para além da presente guerra propriamente dita, há outra que, há tempos, foi perdida pelo país — cuja capacidade de fazer propaganda, ao contrário do que acredita tanta gente, é inversamente proporcional ao seu poderio militar.
Além da amizade com os Estados Unidos, vilão preferido de meio mundo, e do questionável rótulo de “direita” que lhe foi pespegado, há uma série de fatores culturais e políticos que atuam permanentemente contra Israel. Para ficar apenas num ponto de óbvio apelo emocional, seus mortos e feridos nunca são filmados ou fotografados, salvo em hospitais ou caixões e, ocasionalmente, pela imprensa estrangeira. Os mortos tampouco são exibidos em procissões; eles têm sido, atentado após atentado, guerra após guerra, mortos que se contam em números — mas o que é um número diante da foto de uma criança morta?! Ao mesmo tempo, ao longo dos últimos anos, quando foguetes do Hamas eram lançados sobre o sul de Israel, as crianças iam para abrigos subterrâneos, e não para o meio da rua, providencialmente armadas com estilingues.
Ora, a foto de uma escola (vazia) destruída por um “míssil caseiro” (seja isso lá o que for) não tem uma fração do impacto da foto de um garoto de estilingue diante de um cenário de destruição.
Isso não justifica matança alguma, seja de um lado, seja de outro; mas o fato é que se criou, assim, a singular percepção de um povo intrinsecamente mau e sanguinário, que ataca criancinhas por pura maldade, contra um povo intrinsecamente bom e coitado, que só explode civis por falta de escolha.
Por ser um país desenvolvido cercado de vizinhos em diferentes estágios de “civilização”, Israel paga, guardadas as devidas proporções, o preço que a classe média paga, no Brasil, em relação à criminalidade nas comunidades carentes: para uma certa visão míope, é sempre a culpada, porque, em tese, nessa forma enviesada de análise, os bandidos são sempre inocentes — são apenas pobres reagindo à desigualdade social (o que, claro está, é uma baita ofensa à imensa maioria dos pobres, que sofrem na miséria sem nunca pensar em delinquir). Enquanto isso, os verdadeiros culpados pelas desigualdades, lá como cá, não são mencionados nem en passant — e, ainda que o fossem, continuariam onde sempre estiveram, ou seja, nem aí.
Já os líderes mundiais que não perderam tempo em se declarar contra a “reação desproporcional” de Israel pouco estão se lixando para o sofrimento das vítimas. Se a sua preocupação fosse realmente humanitária, o Sudão, por exemplo, não sairia das manchetes; só que as vítimas do Sudão não dão ibope.
Quando a China entrou de sola no Tibete, ainda outro dia, ouviram-se, no máximo, ligeiros resmungos protocolares — e, ainda assim, só porque o Dalai Lama é um veinho carismático, com bom trânsito em Hollywood.
Isso sem falar no antissemitismo, que, invariavelmente, aproveita para dar as caras quando tem a ótima desculpa de uma guerra para acobertá-lo. “Israelense” e “judeu” não são sinônimos: há incontáveis cidadãos israelenses que não são judeus, como há milhões de judeus que não são israelenses. Ainda assim, os dois termos se equivalem para efeitos de noticiário, de artigos, de posts enraivecidos em blogs. Seria até compreensível se a mesma equivalência servisse para “palestinos” e “muçulmanos”, mas esta é sempre cuidadosamente evitada. Às vezes, o uso (ou a omissão) das palavras revela muito mais do que o seu significado.
Apoiar os palestinos, o Hamas, o Hezbollah e os países árabes de modo geral é chique, é bacana e é uma garantia de popularidade com a soi-disant “esquerda”. Israel não terá o apoio da intelligentsia — que em geral é de uma extrema covardia e ignorantsia — nem se for completamente aniquilado, como quer o Hamas.
Aí ainda vamos ouvir o “fizeram por onde” que tanto se disse em relação ao ataque ao WTC; as Nações Unidas vão fazer tsk, tsk, o Papa vai condenar vagamente o exagero — e estaremos conversados.
Mas a verdade é que eu nem devia estar falando sobre isso. Minha opinião é descartada de saída em qualquer discussão a respeito do Oriente Médio: como venho de uma família dizimada pelo Holocausto, sou suspeita e, portanto, não posso me manifestar.
Cansei de ouvir isso até de pessoas supostamente inteligentes — e, de cansada, não discuto mais. Se o que você diz não vale nada a priori, o mais sensato é seguir os conselhos do professor Higgins e falar apenas sobre o tempo e a saúde.
Como é, tem feito muito calor por aí?
Cora Rónai
(O Globo, 15 de janeiro de 2009)
December 30, 2008
A autoflagelação israelense
Leia aqui a versão deste artigo na íntegra (em ingles)
Johann Hari
O mundo não está apenas vendo o governo de Israel cometer um crime em Gaza; estamos assistindo a uma autoflagelação. Esta manhã, amanhã e a cada manhã até os bombardeios punitivos terminarem, os jovens da Faixa de Gaza estarão mais cheios de ódio e mais determinados a revidar, com pedras, vestes suicidas ou mesmo foguetes.
Os líderes israelenses se convenceram de que, quanto mais duro for o golpe contra os palestinos, mais mansos eles ficarão. Mas quando isso tudo acabar, a raiva contra os israelenses terá aumentado muito e os mesmos velhos compromissos estarão ainda esperando, à margem da História, sem encaminhamento.
Para entender o quão assustador é ser um cidadão de Gaza esta manhã, você precisaria estar nessa minúscula e claustrofóbica selva de pedra às margens do Mediterrâneo. Desempregados, famintos, eles vivem praticamente uns em cima dos outros. Quando as bombas começam a cair, não há para onde correr.
A guerra que se segue agora é sobre a história dessa guerra. O governo de Israel diz: “Nos retiramos de Gaza em 2005 e, em troca, temos o Hamas e os foguetes Qassam sendo lançados sobre nossas cidades. Dezesseis civis foram assassinados.
Quantos mais devemos sacrificar?” É uma narrativa plausível e há fragmentos de verdade nela. Mas está repleta de buracos.
O governo israelense realmente se retirou da Faixa de Gaza em 2005, mas para poder intensificar seu controle na Cisjordânia. O principal assessor de Ariel Sharon então, Dov Weisglass, não deixou dúvidas sobre este ponto.
Horrorizados com isso e com a corrupção de seus próprios líderes do Fatah, os palestinos votaram no Hamas. E o Hamas ofereceu a Israel um longo cessar-fogo e a aceitação da idéia dos dois estados, se Israel retornasse a suas fronteiras legais.
Em vez de aproveitar a oportunidade para testar a sinceridade do Hamas, o governo de Israel decidiu reagir punindo toda a população civil, ao bloquear completamente a região. Segundo a Oxfam, apenas 137 caminhões de comida entraram em Gaza no último mês para alimentar 1,5 milhão de pessoas. É hipócrita da parte de Israel falar agora em segurança de civis quando vem aterrorizando civis como política de estado.
Por que Israel age desta forma? O governo quer paz, mas apenas a imposta por seus próprios termos, baseada na aceitação da derrota pelos palestinos. Negociações são uma ameaça para essa visão: Israel teria que ceder mais do que quer. Mas uma paz imposta não é paz e não interromperá nem o ódio nem os foguetes. Será preciso conversar com as pessoas que sofrem o bloqueio, que estão sendo bombardeadas hoje e se comprometer com elas. Nas palavras do escritor israelense Larry Derfner, “a bola não está no campo do Hamas, mas sim no nosso”.
December 29, 2008
Este é o país
Na primeira, ficamos sabendo que a Suprema Corte deste país é presidida por um empresário, cujos interesses pecuniários se satisfazem muito graças à sua mais alta posição no reino judiciário. Já chegaria para embrulhar o estômago, não? Mas o estômago vira de vez com certos detalhes. Gilmar tem participação no controle acionário do Instituto Brasiliense de Direito Público, IDP, que desde 1998 organiza palestras, seminários, treinamentos, cursos superiores, e faturou entre 2000 e 2008 quase 2 milhões e meio de reais em serviços prestados a órgãos federais, tudo contratado sem liciração. Entre os professores do IDP figuram advogados de peso, alguns defensores de clientes com ações que correm no STF presidido pelo empresário Gilmar; ministros de Estado e de tribunais superiores, inclusive colegas de Gilmar no STF - Carlos Alberto Direito, Carmem Lucia Rocha, Carlos Ayres de Britto, Eros Grau e Marco Aurélio Mello. Tem mais coisas de engulhar, mas chega.
Na segunda reportagem, Leandro vai a Diamantino, a 208 quilômetros de Cuiabá, Mato Grosso. Na terra natal de Gilmar, "o ministro é a parte mais visível de uma oligarquia nascida à sombra da ditadura militar". O prefeito Francisco Mendes, 50 anos, irmão caçula de Gilmar, mantém-se no cargo há oito anos com uma forcinha do mais velho. Na campanha de 2000, como advogado-geral da União, e na de 2004, como ministro do STF, Gilmar levou a Diamantino autoridades federais para inaugurar obras e prometer outras.
Em outubro de 2008, finalmente, o notário Erival Capistrano, do PDT, derrotou a família Mendes e seu candidato Juviano Lincoln. Outro irmão de Gilmar, Moacir Mendes, mandou avisar a Erival que ele não toma posse em 1 de janeiro de 2009: antes dessa data vai matá-lo, segundo denunciou ao repórter o próprio Erival. Pesado, hem? Como é que a imprensa gorda, que tem todos os recursos, não nos informa dessas coisas? Estamos falando da mais alta autoridade jurídica da nação. A reportagem de Leandro, condensada nos fatos mais escabrosos, é de dar frio na espinha.
Na reta final da campanha eleitoral de 2000, a estudante Andréa Paula Pedroso Wonsoski, 19 anos, que trabalhava como cabo-eleitoral do atual prefeito Francisco Mendes, registrou BO na delegacia. Alegou que o candidato acusou-a de traição por "denunciar a troca de cestas básicas por votos". Tal denúncia, na verdade, havia sido feita por sua irmã mais velha, Ana Paula. No BO, Andréa registra que, ao tentar explicar isto a Francisco durante um comício, "gente do grupo de candidato" avisou-lhe "Tome cuidado". Um mes depois, já efeito prefeito Francisco Mendes, Andréa participou de um ato de protesto contra abuso do poder econômico nas eleições. E desapareceu. Trabalhadores encontraram a ossada tres anos depois, enterrada às margens de uma avenida, a 5 quilômetros do centro de Diamantino. Mataram Andréa com um tiro na nuca. Estava nua, "provavelmente estuprada antes". Chega, não? Este é o país.
Mylton Severiano
Carta Capital, dezembro 2008
December 26, 2008
Milionários russos pagam para ter dia de pobre
Vivian Oswald
Correspondente
MOSCOU. Em “O jogo” (1997), filme de David Fincher, o empresário bem-sucedido e entediado Nicholas Van Orton (Michael Douglas) ganha de presente de aniversário do irmão (Sean Penn) um convite para participar de um jogo misterioso. Uma série de episódios — que seriam considerados apavorantes por uns e instigantes por outros — mudaria sua vida para sempre.
Fora das telas de cinema, na mesma época, Sergei Knyazev criou na capital russa brincadeiras que ofereciam adrenalina à rotina de milionários pós-soviéticos que já não sabiam mais como gastar suas fortunas.
Onze anos depois, os 50 jogos de Knyazev continuam fazendo sucesso. Para tentar curar o tédio, celebridades, políticos e pessoas influentes de todo o país procuram o empresário. Pagam o que for preciso para se submeter a todo tipo de situação.
Passam o dia vestidos de mendigos e músicos a pedir esmola nas estações de trem de Moscou ou em locais turísticos.
Há quem prefira trabalhar como garçom ou garçonete em restaurantes sórdidos para uma clientela nem um pouco simpática.
Como tudo é um jogo, vence aquele que juntar mais trocados ao final do dia.
— Às vezes, apesar da maquiagem, dá para reconhecê-los.
Os rostos são familiares e, a poucos metros de onde estão pedindo dinheiro, vêem-se estacionados seus carrões de luxo, com motoristas e seguranças – conta Knyazev, que trocou a psicologia pelo mundo do entretenimento e hoje é um empresário rico e conhecido.
No país em que a Revolução Bolchevique de 1917 aconteceu justamente para dar fim à diferença entre as classes sociais, fica cada vez maior a distância entre ricos e pobres. Estima-se em 120 mil o número de milionários na Rússia. Capital mais cara do mundo, Moscou foi eleita também a cidade que reúne mais bilionários (84), tendo passado à frente de Nova York. Na Rússia moderna, até mesmo brincar de pobre custa caro. Pelo menos US$ 5 mil por pessoa, dependendo do jogo escolhido.
— Se for barato, ninguém participa. Quanto mais caro, mais as pessoas acreditam no potencial de diversão — divertese Knyazev.
O preço da brincadeira é proporcional à adrenalina. Muitas vezes, mais do que dinheiro, é preciso ter sangue frio. Um dos jogos mais arriscados é também o mais complicado de se organizar, segundo Knyazev. Os homens vestem as suas mulheres de prostitutas e as assistem na rua negociando com possíveis clientes. O empresário afirma que há aqueles que se preocupam durante a aproximação.
Mas há ainda outros que ficam nervosos ao ver que as suas mulheres têm menos sucesso do que as de outros colegas. Vão lá melhorar o ajuste do decote ou consertar o penteado.
— A infra-estrutura para este jogo tem que ser enorme e, por isso, ele custa caro — conta Knyazev.
Para tentar minimizar os riscos, o empresário contrata seguranças e ainda mantém um carro da polícia sempre a postos.
Quando vê que o programa pode sair, a equipe de organizadores aciona a viatura policial, que acende as sirenes e manda todo mundo sair do local.
— Também não é fácil convencer os policiais. Um presente sempre resolve.
Festas nababescas para adultos e crianças Os jogos estão longe de ser a principal fonte de receita do empresário, que organiza festas nababescas em todo o país para pessoas físicas ou jurídicas. Todos os anos, sua empresa realiza um grande festival de fogos à beira do Rio Moscou para milhares de convidados de uma multinacional.
Recentemente, montou um aniversário hollywoodiano em Nice, na França.
Por incrível que pareça, foi para uma criança de 3 anos a festa de aniversário mais cara que já montou: US$ 1,5 milhão.
Transformou um terreno baldio em um gigantesco parque de diversões, com direito a labirintos, pontes, portas misteriosas e salas de gelo, em pleno verão, para apenas dez crianças e 20 adultos.
Para o terceiro casamento de um cliente, organizou um cenário cinematográfico, com celebridades e surpresas para os noivos, como o imenso bolo de luxo que vai ao chão no momento em que o garçom tropeça em fios ao cruzar o salão.
Para a alegria da noiva, que não tinha idéia do que estava acontecendo, havia um bolo reserva. Em uma festa corporativa, o primeiro participante a matar uma barata com um revólver ganhava um apartamento.
Knyazev não tem medo da crise econômica que tanto assombra os russos neste momento.
Estima-se que, de agosto até o mês passado, os homens mais ricos do país tenham perdido nada menos que US$ 230 bilhões.
— Quem realmente tem dinheiro vai poder continuar se dando a estes luxos. Tem dinheiro fora do país, por exemplo.
Talvez as empresas diminuam um pouco o tamanho das festas.