Viúva de Lennon é tema de uma mostra em Londres que a celebra como pioneira do feminismo na cena artística e propõe uma nova visão sobre sua relação com o beatle
FELIPE BRANCO CRUZ
A HISTÓRIAsobre como John Lennon e Yoko Ono se co- nheceram é indissociável do imaginário sobre os Beatles. Em 9 de novembro de 1966, o cantor visitou uma exposição numa galeria londrina. Lennon afirmava não saber quem era Yoko, mas a artista japonesa sabia quem ele era, claro, e o acompanhou pessoalmente no tour. Lennon se interessou por obras como uma modesta maçã verde num pedestal. Ao perguntar quanto custava, Yoko jogou o valor lá em cima: 200 libras (pouco mais de 1 200 reais). Atrevido, o roqueiro pegou a fruta e mordeu — e a artista não gostou. Outra peça que chamou a atenção foiCeiling Painting,que consistia nu- ma escada com uma lupa para olhar um pedaço de papel no
teto com a inscrição “sim”. Ele ficou maravilhado ao ler algo tão positivo. Mas a obra que fez os olhos do beatle se pren- derem em Yoko foiPainting to Hammer a Nail In (Nº 9). Tratava-se de uma placa na parede na qual era possível mar- telar pregos. Lennon perguntou se poderia bater num deles. Yoko disse que custaria alguns centavos. “Vou dar a você 5 xelins imaginários e martelar um prego imaginário”, ele respondeu. Ela sorriu — e ambos nunca mais se separaram.
Algumas das obras que contribuíram para o engate do famoso romance integram o acervo deYoko Ono: Music of the Mind,exposição que acaba de entrar em cartaz na Tate Modern, em Londres — e é a maior retrospectiva da artista já feita no Reino Unido. Mais que espiar os bastidores do re- lacionamento dela com Lennon, a mostra é uma oportuni- dade para examinar algo menos óbvio: qual o valor, afinaL
do legado de Yoko Ono como artista plástica? Com 91 anos completados no domingo, 18, ela até hoje é vista por muitos como a megera responsável por separar os Beatles e minar a carreira do marido — ainda por cima, ganhando fama com isso. Os 200 itens em exibição em Londres — incluindo ob- jetos, textos, instalações, filmes, músicas e fotografias — lançam uma provocação que inverte essa lógica: e se, na ver- dade, foi justamente o casamento com Lennon que inibiu a carreira de uma mulher destinada a brilhar nas artes? Embora a premissa seja controversa, a exposição resga- ta indícios de que Yoko foi de fato uma artista pioneira e capaz de romper barreiras quando ainda não conhecia o beatle. Vídeos do início dos anos 1960 recuperam perfor- mances criadas e protagonizadas por ela que são exempla- res do que viria a ser chamado de arte feminista — bem antes de a tendência surgir. É o caso deCut Piece,de 1965, em que Yoko entrava numa sala vestida, entregava uma te- soura ao público e deixava que cortassem pedaços de sua roupa até ela ficar nua. A artista tinha uma sensação real de violação, mas o que lhe importava eram os questiona- mentos que surgiam no público.
Yoko foi uma mulher ousada numa seara que, apesar de moderna e liberal, ainda era dominada por homens. Tanto que ela se irritou quando seu nome não foi credita- do entre os criadores de um de seus primeiroshappenings — a forma de arte contemporânea em que é impossível dissociar a experimentação estética da pura piração. O
único crédito que lhe deram foi como dona do loft onde a coisa toda acontecia em Nova York. Ainda assim, Yoko foi se impondo — em trabalhos solo ou no grupo Fluxus — como desbravadora da então nascente arte conceitual, al- tamente influenciada pelo trabalho iconoclástico do fran- cês Marcel Duchamp (1887-1968).
Quando Yoko se uniu a Lennon, veio o efeito colateral: a parceria potencializou não seu ímpeto inovador, mas a auto- complacência tão comum entre artistas contemporâneos, realçando certa obviedade pueril de suas obras. A obsessão pela paz, que nasceu dos traumas de infância no Japão du- rante a Segunda Guerra, converteu-se numa militância ri- ponga e algo demagógica junto do marido (canções como Imaginetinham ressonância inegável em sua época, mas ho- je podem soar ingênuas). De artista de vanguarda, ela pas- sou a surfar na fama — e daí vieram lances lamentáveis co- mo a tentativa de virar cantora em discos ao lado de Len- non. De uma coisa, contudo, Yoko não pode ser acusada: de ter enriquecido à custa do beatle. Vinda de uma família abastada, ela é herdeira de um dos maiores bancos do Japão e estudou com filhos do imperador do país. Imagine se ti- vesse sido Yoko Ono, apenas.
Varia, de conflito a conflito, o momento exato em que a avalanche de informações e imagens começa a pro- duzir o efeito inverso. De repente, não mais do que de repente, a indignação transforma-se em indife- rença. Os ucranianos experimentam essa sensação faz tempo. A invasão russa ultra- passou a marca dos 500 dias e, apesar das promessas dos aliados ocidentais, a Ucrâ- nia nunca esteve tão à mercê do Kremlin.
Nos Estados Unidos, os republicanos blo- queiam o envio de armas e dinheiro. Na União Europeia, o entrave tem sido a Hun- gria de Viktor Orbán. Desfeita a ilusão – ou a propaganda – de uma decantada vitó- ria sobre a Rússia, quase ninguém se lem- bra do sofrimento da população ucrania- na, em mais um inverno sem energia e sem perspectiva. Enquanto isso, Volodymyr Zelensky cumpre o vaticínio do chance- ler russo, Sergey Lavrov. Tornou-se, a con- tragosto, no “mendigo de Kiev”. Quanto mais implora a Washington e a Bruxelas, menos migalhas recebe. Zelensky é obri- gado a se contentar com tapinhas na cos- ta e declarações de incentivo.
A caminho do quarto mês, o conflito na Faixa de Gaza parece seguir o mes- mo traçado. Diariamente, os corpos dos palestinos continuam a ser empilha- dos às centenas e um processo na Cor- te de Haia, aberto a pedido da África do Sul, vai determinar se Israel pratica ou não genocídio no enclave (análise de Reginaldo Nasser à pág. 14), mas a con- tagem do número de vítimas reverbera um processo mecânico. Na segunda-feira 15, segundo as autoridades de saúde pa- lestina, eram 24.118 mortos e mais de 60 mil feridos. No dia seguinte, os ataques israelenses acrescentaram cerca de 200 vítimas às estatísticas. Ao mesmo tem- po, o Hamas divulgou nas redes sociais a imagem de dois reféns israelenses mor- tos em cativeiro. Há ainda 132 prisionei- ros em poder do grupo islâmico – não se sabe quantos vivos. Quem se comove?
O martírio está longe do fim. As duas primeiras semanas do ano estabelece- ram uma nova dinâmica na região e, a es- ta altura, o mundo encontra-se mais perto
de assistir a um conflito generalizado no Oriente Médio do que à retirada das tropas israelenses do território palestino, embo- ra o ministro da Defesa, Yoav Gallant, te- nha, na terça-feira 16, anunciado para bre- ve o fim da ofensiva em “alta intensidade” na Faixa de Gaza. Parênteses: na noite do anúncio de Gallant, mísseis e soldados is- raelitas mataram 163 palestinos em Gaza e sete na Cisjordânia. Na fronteira norte, o Hezbollah, grupo armado xiita libanês, mantém a prontidão e faz ataques fortui- tos às tropas israelenses. O Irã destruiu su- postas “bases de espionagem do Mossad” no Iraque e na Síria. Outra ação de Teerã provocou um incidente diplomático com o Paquistão, que acusa o regime dos aia- tolás de matar duas crianças em seu ter- ritório durante o lançamento de mísseis contra aparentes redutos do grupo sunita Jaish al-Adl, acusado de assassinar 11 poli- ciais iranianos. “A responsabilidade pelas consequências recairá diretamente sobre o Irã”, protestou em nota o Ministério das Relações Exteriores paquistanês.
A mais recente e preocupante frente de tensão desenrola-se, no entanto, no Mar Vermelho. Os bombardeios norte-ameri- canos, apoiados pelo Reino Unido, a alvos militares no Iêmen não foram suficientes para dissuadir os rebeles houthis (repor- tagem à página 16). Em solidariedade aos palestinos e com a bênção dos aiatolás ira- nianos, o grupo xiita tem infernizado, des- de o fim de 2023, as rotas comerciais no es- treito de Bab-el-Mandeb, por onde trafe- gam 15% dos produtos enviados pela Ásia à União Europeia. Em seu mais recente relatório, o Banco Mundial alerta para os efeitos da instabilidade sobre a recu- peração da economia global. “Os recen- tes ataques a navios comerciais começa- ram a perturbar as principais rotas marí- timas”, descreve o texto, “o que desgasta
a folga nas redes de abastecimento e au- menta a probabilidade de estrangulamen- tos inflacionários. Em um cenário de con- flitos crescentes, o fornecimento de ener- gia também poderá ser substancialmente perturbado.” Grandes empresas e opera- dores de logística suspenderam o trânsi- to de mercadorias até segunda ordem, en- quanto os houthis prometem intensificar os ataques em retaliação aos bombardeios ordenados por Washington. Na terça-fei- ra 16, afundaram uma embarcação de ban- deira grega. “O navio não precisa neces- sariamente estar em direção a Israel para que possam atingi-lo. Basta que seja norte- -americano. Os EUA estão à beira de per- der a sua segurança marítima”, ameaçou Narsuldeen Amer, porta-voz dos rebeldes.
O único beneficiário de uma conflagra- ção regional é o primeiro-ministro de Is- rael, Benjamin Netanyahu. Quanto maio- res as chances de o conflito envolver ou- tras nações do Oriente Médio, mais forte se torna o argumento em favor da manu- tenção de um governo de coalização na- cional, o que adiaria não só o fim do man- dato de Bibi, a quem a maioria dos compa- triotas culpa pelos atos do Hamas em 7 de outubro, mas o afastaria por tempo inde- terminado do acerto de contas com a Jus- tiça israelense, em decorrência das acusa- ções de corrupção. Netanyahu agradece e mantém o fósforo aceso perto do rastilho de pólvora. O Parlamento israelense aca- ba de aprovar um aumento de 15 bilhões de dólares (cerca de 75 bilhões de reais) no orçamento militar, para fazer frente à promessa de uma longa operação em Ga- za, sem data para acabar.
Os alertas das entidades de direitos humanos, por sua vez, continuam per- turbadores. A despeito dos acordos pa- ra a entrada de ajuda humanitária, o úl- timo anunciado pelo Catar na quarta- -feira 17, a escassez de alimentos é outra forma de punir os palestinos. “A guerra trouxe a fome com uma velocidade in- crível para a frente das linhas”, afirmou Martin Griffiths, subsecretário-geral das Nações Unidas. No Fórum Econô- mico Mundial, em Davos, o chefe de Gri- ffiths, António Guterres, voltou a pedir um cessar-fogo: “O mundo está de braços cruzados, enquanto civis, na sua maioria mulheres e crianças, são mortos, mutila- dos, bombardeados, forçados a abando- nar suas casas e lhes é negado o acesso ao apoio humanitário”. Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom, define a situação como uma “mistura letal de doença e fome”.
Um relatório de especialistas da ONU, divulgado na terça-feira 16, detalha a cala-
idade de modo instrutivo e acusa Israel de usar o bloqueio como arma de guerra. Eis alguns trechos: “Atualmente, toda a população passa fome e luta para encon- trar comida e água potável (...) As mulheres grávidas não recebem nutrição e cuidados de saúde adequados, colocando suas vidas em risco. Além disso, todas as crianças com menos de 5 anos – 335 mil – correm alto risco de desnutrição grave, à medida que (...) as condições de fome continuam a aumentar. Uma geração inteira corre o ris- co, agora, de sofrer de nanismo. Isso pre- judicará a capacidade de aprendizado”.
Os especialistas prosseguem: “Nenhum lugar é seguro em Gaza. Desde 9 de outubro, Tel-Aviv declarou e impôs um ‘cerco total’, privando 2,3 mi- lhões de palestinos de água, ali- mentos, combustível, medicamentos e for- necimentos médicos, isso no contexto de um bloqueio israelense de 17 anos, que an- tes da guerra fez com que metade da popu- lação de Gaza sofresse de insegurança ali- mentar e mais de 80% dependesse de aju- da humanitária (...) É sem precedentes fa- zer com que toda uma população civil pas- se fome de forma tão completa e rápida”.
ISRAEL USA A FOME COMO ARMA DE GUERRA, ACUSAM ESPECIALISTAS EM DIREITOS HUMANOS DA ONU
Diante da perspectiva de um conflito regional de consequências incertas, as conversas em torno do futuro do enclave após o fim da incursão militar israelense, quando e se vier, têm sido infrutíferas. Em entrevista à CNBC, Antony Blinken, se- cretário de Estado norte-americano, que pela quarta vez desde o início do conflito realizou umtourpelo Oriente Médio pa- ra tentar evitar uma guerra generalizada, afirmou que os países árabes se recusam a assumir os custos da reconstrução de Ga- za por uma razão simples: a possibilida- de de Israel voltar a pôr abaixo o territó- rio em pouco tempo. De forma mais dire- ta, o xeque Mohammed bin Abdulrahman al Thani, primeiro-ministro do Catar, expressou o horror e a desconfiança do mundo árabe ante a destruição: “Gaza não está mais lá. Quer dizer, não há nada lá. Há bombardeios em todos os lugares”. O melhor para o governo de Netanyahu e seus aliados de extrema-direita e o pior para o resto do planeta é o conflito tomar outra proporção, a ponto de tirar o foco da responsabilidade israelense pelo mas- sacre e transformar-se em palco de uma disputa geopolítica de maior amplitude.
Os ataques a navios no Mar Vermelho pe- los houthis têm sido usados como pretexto à retórica beligerante de governos ociden- tais claudicantes e desesperados. É o caso do Reino Unido, onde a mal avaliada ad- ministração do Partido Conservador, em posição de aviso prévio até as eleições par- lamentares do segundo semestre, busca uma bandeira de campanha capaz de ge- rar esperança de vitória. Parceiro dos Es- tados Unidos nos bombardeios a instala- ções dos rebeldes do Iêmen, Grant Shapps, secretário de Defesa da Grã-Bretanha, dis- cursou na segunda-feira 15 a uma plateia de oficiais e lideranças políticas. Embora os meios de comunicação estrangeiros te- nham dedicado notas de rodapé ao evento, as declarações de Shapps condensam o es- pírito dos tempos atuais – não só em Lon- dres. “Acabou-se a era dos dividendos da paz”, afirmou o secretário, ao defender o aumento urgente e substancial nos gastos de defesa no Ocidente, em resposta à nova “Guerra Fria”, e prometer um incremento no orçamento militar da Inglaterra de 2% para 2,5% do PIB. “Daqui a cinco anos, po- deremos olhar para vários lugares, entre eles a Rússia, a China, o Irã e a Coreia do Norte. Pergunte-se: é mais provável que esse número aumente ou diminua? Sus- peito que todos sabemos a resposta. Pro- vavelmente, crescerá. Portanto, 2024 deve marcar um ponto de inflexão.”•
If you look at images of Gaza now, instead of cities where thousands of people lived, all you’ll see is rubble.
The remnants of homes and apartment buildings lie strewn about, mangled
beyond recognition. Shops, hospitals, schools, universities, religious
buildings, whether ancient or new (it makes little difference now)—all
have been reduced to unsalvageable heaps of rock and steel, some bombed
beyond recognition, legible now only in the memories of those who knew
them. There is a word for when buildings and cities are destroyed as
part of a campaign of ethnic cleansing: “urbicide.”
It is a tactic used to make sure there is nothing left to return to,
nothing that can be cherished or latched on to. Its goal is a total
colonization of the landscape that erases whatever used to be.
Since Israel began its assault on Gaza in the wake of Hamas’s October
7 attack, one of the most devastating architectural victims has been a
historic, centuries-old mosque. Initially constructed as a Byzantine church in the fifth century, it became known as the Great Omari Mosque
in the seventh century, the first-ever mosque to be established in Gaza
during the period of Islamization. Gaza’s strategic coastal location
has allowed it to bear witness to many changes: 11th-century Crusaders
converted the mosque back into a church, which was converted to a mosque
again a century later. The region has weathered much conflict, having
played a role in many different empires.
“Gaza was actually a sizable city under the Byzantines and, before
them, the Romans, and was a [political] center…for the Mamluk Empire in
the 13th through 15th centuries. And that’s when it probably reached its
highest level of administrative power,” Nasser Rabbat, the director of
the Aga Khan Program for Islamic Architecture
at MIT, tells me. “Gaza was the place where the [Mamluk] army would
congregate on the way to their campaigns in northern Syria, in the
Euphrates region, or in Anatolia against its host of enemies.”
The Great Omari Mosque reflected this history. It had been damaged
and rebuilt many times over the centuries: attacked by the Mongols in
the 13th century, battered by an earthquake a few decades later,
restored and expanded in the Ottoman era, and partially destroyed by
British bombs in World War I, only to be restored once more. Now it’s
been effectively obliterated;
only some walls and one minaret remain. This is—make no mistake—a
deliberate element of the Israeli campaign to erase all traces of
Palestinian life.
After news of its destruction was reported, multipletweets
went viral comparing the widespread outcry over the 2019 fire that
claimed part of the Notre-Dame Cathedral in Paris with the relative
silence over the loss of the historic mosque. There’s undoubtedly
something to this, and it’s symptomatic of Islamophobia and the
ignorance of Islamic culture in the West more broadly. Yet there’s a
deeper point to be made about architectural loss as it relates to war.
Notre-Dame, after all, is a unique case: It is widely famous in mass
popular culture (very few buildings have a Disney movie made about
them), and the fire was a simple accident, not a deliberate act of
demolition.
Meanwhile, we have been living with at least a century of rhetoric
associated with continued episodes of mass destruction. If the fire at
Notre-Dame was the result of an accident, war—while always a destroyer
of the built environment—has increasingly been seen as a legitimate
reason for architectural destruction. Blatant attacks on sites of
cultural heritage are justified using Cold War terminology like
“preemptive strike” or “in the interest of national security.” The
devaluation of tangible culture, of course, is premised on the same
treatment of the people who built it: as tragic but necessary losses.
Buildings and people are both denuded, depersonalized, reduced to
statistics. Twenty-three thousand are dead in Gaza at the time of this
writing. The Great Omari Mosque was nearly 1,500 years old. These
figures inure us to the horror of destruction, as the numbers grow
bigger and more unfathomable, abstracted.
In times of war, we cling to art, architecture, and other forms of
culture for many reasons: to show that things and people mattered, that
culture was meant to endure, that the evisceration of something
priceless is a shameful crime. We are shocked by losses such as the
Great Omari Mosque not only because they are terrible and sad, but also
because we believed that those in power might have more respect for art
and for history deemed legitimate by their own institutions than they do
for human life. But, of course, this is not true: If human life is
worth nothing, then neither is architecture, itself the cumulative
achievement of and testimony to countless human lives. In a campaign of
urbicide, nothing matters. The end goal is a blank slate.
Not all buildings are historic or priceless, but in a way, each is
irreplaceable. The loss of any building that sheltered people or gave
them spiritual sustenance, that served as a backdrop of everyday life
and stability, is terrible. The destruction of the Great Omari Mosque is
not so different from that of an apartment complex: The same crime is
being committed against the same people for the same reason. The
destruction of both must be seen within the context of urbicide and
ethnic cleansing, not separated into crimes against cultural heritage
versus inevitable collateral damage to the landscape during a conflict.
The destruction of both are choices made by Israel and aided and abetted
by the United States. The slaughter of Palestinians and the
evisceration of their cultural sites are part of the same goal of
destruction, which we must do everything in our power to stop.
Quando Keith Richards foi conhecer os pais de sua namorada (e atual
esposa) Patti Hansen, em novembro de 1980, levou um amigo a tiracolo.
Nervoso, o astro dos Rolling Stones queria impressionar os futuros
sogros, americanos conservadores. E chegou para o encontro trazendo um
“príncipe de verdade, em carne e osso”, como descreve em sua
autobiografia: Stanislas Stash Klossowski de Rola — ou príncipe Stash,
simplesmente. Filho do pintor franco-polonês Balthus e da aristocrata
suíça Antoinette von Wattenwyl, Stash era velho conhecido de Richards e
de todos os Stones — assim como dos Beatles. Durante a década de 1960,
ele conviveu e compartilhou um punhado de experiências artísticas e
aventuras com eles, Jimi Hendrix e o Pink Floyd, no auge da Swinging
London.
Hoje aos 81 anos, Stash é sensação no TikTok e no Instagram, com
cerca de 500 000 seguidores e milhões de views graças a postagens
divertidas sobre seu passado rock’n’roll e seus outros assuntos
prediletos: o oculto, arte, memorabilia da I Guerra Mundial e filosofia.
O cenário das postagens — feitas com esmero e linguagem visual que mira
o público jovem — costuma ser seu castelo na Itália, a uma hora e meia
de Roma. Mas ele também tem residências nas montanhas da Suíça e em
Malibu,
na Califórnia.
Quando Keith Richards foi conhecer os pais de sua namorada (e atual
esposa) Patti Hansen, em novembro de 1980, levou um amigo a tiracolo.
Nervoso, o astro dos Rolling Stones queria impressionar os futuros
sogros, americanos conservadores. E chegou para o encontro trazendo um
“príncipe de verdade, em carne e osso”, como descreve em sua
autobiografia: Stanislas Stash Klossowski de Rola — ou príncipe Stash,
simplesmente. Filho do pintor franco-polonês Balthus e da aristocrata
suíça Antoinette von Wattenwyl, Stash era velho conhecido de Richards e
de todos os Stones — assim como dos Beatles. Durante a década de 1960,
ele conviveu e compartilhou um punhado de experiências artísticas e
aventuras com eles, Jimi Hendrix e o Pink Floyd, no auge da Swinging
London.
Hoje aos 81 anos, Stash é sensação no TikTok e no Instagram, com
cerca de 500 000 seguidores e milhões de views graças a postagens
divertidas sobre seu passado rock’n’roll e seus outros assuntos
prediletos: o oculto, arte, memorabilia da I Guerra Mundial e filosofia.
O cenário das postagens — feitas com esmero e linguagem visual que mira
o público jovem — costuma ser seu castelo na Itália, a uma hora e meia
de Roma. Mas ele também tem residências nas montanhas da Suíça e em
Malibu, na Califórnia.
FURACÃO - Ao centro, com Brian Jones: preso com o roqueiro por uso de drogas (Keystone/Hulton Archive/Getty Images)
Alto, magro, barbudo, os cabelos brancos enrolados em dreads grossos,
a voz grave e curtida cativando o ouvinte com histórias bem contadas,
vestindo caftans, túnicas, batas e muitos anéis, Stash parece feito sob
medida para o mundo das redes sociais. Mas sua reação inicial àquele
novo universo foi a pior possível. “Achei o primeiro vídeo (no TikTok)
tão desanimador”, ele recorda, numa chamada de vídeo com VEJA, direto
de seu castelo. Entretanto, o formato “mostrou-se algo muito divertido”,
e Stash agora parece à vontade entre os objetos que apresenta nas
postagens: máscaras de exorcismo, livros raros, sabres, seu guarda-roupa
exótico.
Curiosamente, ele lamenta as limitações impostas pelas plataformas e
pela caretice dos tempos atuais. “Vivemos em uma época terrível, de
conteúdo moralista neopuritano”, diz. “Precisamos desfocar as capas de
meus livros sobre alquimia para evitar serem sinalizados como mostrando
nudez. Tudo precisa ser pasteurizado e sanitizado.” Faz sentido: ele é
de uma época “de uma espontaneidade alegre”. Conforme conta, “pulava-se
na cama com todo tipo de gente, não se tinha medo, o sexo era perigoso,
não era para ser seguro. Todas essas coisas que você não pode falar no
TikTok”.
O passado rock de Stash é seu principal atrativo nas redes. Ele participou de gravações com os Beatles — faz percussão em You Know My Name (Look Up My Number) e Baby, You’re a Rich Man — e com os Rolling Stones — está em Dandelion e We Love You.
Conta que Paul McCartney se empenhou em alavancar sua carreira musical
em 1967, a ponto de começar a retrabalhar uma gravação antiga sua
cantando Message to Pretty, sucesso do grupo Love. Enquanto
isso, Brian Jones e Stash gravaram faixas descritas pelo príncipe como
“proto-rap”, que para ele poderiam ter entrado em discos dos Stones ou
virado parte de seu trabalho solo. Mas o destino quis que as fitas de
ambas as gravações desaparecessem.
HISTÓRIA - No estúdio (ao centro) com McCartney e Richards: testemunha do pop (./.)
A juventude de Stash tem episódios memoráveis. Ele lembra do passeio à
casa de John Lennon, no Rolls-Royce de Brian Jones, em que Brian
Epstein, empresário dos Beatles, dispensou o motorista “imprestável” que
os conduzia, assumiu o volante e passou a dirigir “fazendo as maiores
barbaridades”. Por pouco, não se tornou um dos Monkees (recusou o
convite para integrar a banda na TV). A vida amorosa foi movimentada:
flertou com beldades como a cantora Nico e teve namoro ruidoso com a
atriz e modelo Romina Power (hoje, vive no castelo com uma esposa
discreta e o filho). No reverso da moeda, Stash foi preso junto com
Brian Jones por uso de drogas, quando o fundador dos Stones caiu nas
garras da polícia, determinada a dar fim à banda — considerada na época
uma ameaça à sociedade.
Stash tem, ainda, uma conexão mais recente com o Brasil. Cita como um
de seus “melhores amigos brasileiros” Antonio Patriota, hoje embaixador
no Reino Unido, “um pianista muito bom”. Personagem de muitas facetas, o
príncipe teve o privilégio de estar no olho do furacão no melhor
momento da cultura pop do século XX. Mas o verdadeiro Stash jura ser
mais complexo. “Embora eu usasse a máscara do príncipe playboy
publicamente, sempre estive envolvido em pesquisas acadêmicas para
adquirir o conhecimento dos antigos.” Ninguém é nobre por acaso.
hings in Gaza have been in constant deterioration. Every single day
that passes, new crises are compounded over the crises that already
exist. It’s been over 40 days of non-stop bombardment. I’ve been saying
many times throughout my coverage that what we have seen in this war,
what we are witnessing is unlike any other war in any other place that
anyone else has witnessed or lived through. The bombardments of
hospitals, of UNRWA schools, residential homes—there’s no place that is
not under fire. There’s no place that is not targeted from day one.
And the amount of people, the amount of casualties, the numbers of
civilians that are being killed in this war is just enormous. It’s a
crisis in itself that the entire world is watching all these civilians
being killed and not doing anything about it and justifying for Israel
that it is actually defending itself. This is not defending itself. I’ve
said it many times, in many interviews: This is not a war against Hamas
militants or against Palestinian fighters. This is a war on the
civilians of Gaza. This is a genocide.
No one is spared in this war. Journalists are being deliberately
attacked and deliberately killed. There are no crossings; there’s no
food in the Strip. We’re talking about over 2.5 million people who are
systematically being starved. There’s no water, no electricity. Any
means of life in the Gaza Strip are running out. We’re struggling to
eat. We’re literally struggling to drink, to find water to drink. We’re
struggling to find water to bathe. The amount of pressure that this war
is conducting on people is not just physical; it’s not just the fear of
bombardment; it’s emotional, psychological, mental, you name it. You’re
asking thousands to live together in open tents without water, without
electricity, without any means of life, and diseases are spreading. My
kids are at home but I fear every single time I go back home that I
could transmit a disease to my kids.
It’s indescribable. Not finding a place that you can call safe, or
that you can leave your family in safely—this is something that we have
never experienced before. Having to leave your homes and evacuate all
the way to the south on foot—this is something that we would have never
imagined could ever happen to us. The press vest and the press helmet
that we wear—we think that we’re protected as journalists, [but] almost
50 now have been killed in over 40 days of war. This hasn’t happened
anywhere else in the world. No matter how [many] wars we’ve covered
before, no matter how [many] escalations, no matter how bad they were,
nothing compares to what we have been living these past 40 days.
The first time the disconnection of all communications and Internet
happened, it was chaos. We didn’t know what to do. This is [now] the
fourth time, in over 40 days that the communications have been
completely disconnected. We’ve had to buy multiple eSIMs
from abroad to be able to stay connected, because every single time
there is an eSIM and Israel finds out that it’s connected from Gaza
through an Israeli signal, they completely block it. I’ve had four or
five Israeli eSIMs, and they were all blocked. This is like number six
that I’m using now. Electricity was easier at first, because there were
still some solar panels available, especially when we were in Gaza City.
Then Israel ended up targeting all solar panels on every single rooftop
in the north and in Gaza City. So we completely got disconnected. We
couldn’t charge any batteries. We couldn’t charge our phones. Now, what
people are going with is that whoever has a solar panel in the south, or
through hospitals, people can charge their batteries, and through these
batteries they can charge their phones.
This war has brought us back to the Stone Age. We’re using wood for
cooking because there’s no gas. We’re using LED lights that are
generated through a battery to have some light in our homes. In normal
situations, eSIMs with very poor Internet connections wouldn’t be
sufficient for us. But now, here in Gaza, every little thing is better
than nothing.
This war has spared no one and nothing. Just like hospitals, medical
staff, medical teams, defense teams were all targeted and are under
fire, journalists are as well. I got a threatening call saying that my
family is in danger if they don’t evacuate instantly. And after Wael
Dahdouh, my colleague, lost his family in an attack, I felt really afraid.
Every single time I saw the crazy bombardments around my home and my
neighborhood, I couldn’t stop myself from filming, but I had this fear
inside me. I’m afraid for my family, I’m afraid for my kids, and I know
that there’s nothing that’s going to protect them; if they do get
targeted, like Wael’s family was targeted, no one is going to do
anything about it. Okay, people are going to cry, people are going to be
sad, but I’m going to lose my family. I might be lost with them as
well. I’ve seen many journalists, other colleagues who have lost their
families in many of the bombardments and the attacks. I felt constant
fear. That even affected my work a little bit—I felt like I was always
breaking down.
Despite all this, my family is living. You can’t imagine that you
have to wake up in the morning and start your struggle by finding water.
Today, they spent the entire day without water. And on top of all that,
we’re displaced now. We left our home. We barely took anything with us.
The weather is getting cooler and I can’t even find clothes for my
kids.
The only thing that’s really keeping me standing, keeping me going to
work every day and standing in front of the camera to speak, is the
suffering that I’m seeing, the constant bombardments that never stop,
the ongoing killing of people and civilians around me. If I let these
people down, who is going to speak out for them? Who’s going to tell the
world their stories? Who’s going to tell the world that Gaza is still
under constant attack, that people are being killed every single day,
that there is fear of ongoing bombardments through the night, that
people are still under the rubble, that hospitals are under siege, that
there is not enough humanitarian aid entering the Strip, that the
struggle is real, that diseases are spreading widely among people, that
the despair in the eyes of children is the only thing that you can see?
Who’s going to tell the world? Once a story is not told for a day or
two, it’s forgotten. If I don’t stand in front of the camera and just
give a little update about the things that are happening, how is the
world going to know? And this is what I tell myself every day. I tell
myself, Youmna, you’ve got to get up, you’ve got to go to work, you’ve
got to stand in front of that camera and tell the people what is
happening here, because it’s not fair that, after the entire world has
abandoned Gaza and its people, they would even forget what is happening
here.