August 20, 2022

Guerra santa

 


Bolsonaro inicia ofensiva para demonizar Lula. A campanha petista vacila em relação à melhor forma de dialogar com o eleitorado evangélico


Por Maurício Thuswohl...


Ao considerar apenas a preferência do eleitorado evangélico, Jair Bolsonaro obteve 11,5 milhões de votos a mais que o petista Fernando Haddad no segundo turno das eleições presidenciais de 2018. A diferença nesse segmento foi maior que os 10,7 milhões de votos que separaram os dois adversários na contagem geral e, levados em conta somente os votos válidos, representou um placar de 69% a 31% a favor do ex-capitão, bem mais elástico que o 55,1% a 44,9% registrado no total. Na análise de numerosos especialistas, o católico ex-capitão jamais teria sido eleito presidente se não fosse o apoio massivo dos evangélicos. Desse segmento o então candidato absorveu o discurso religioso ao longo da campanha ao mesmo tempo que os pastores inflamavam os ouvidos dos fiéis com notícias falsas, entre elas a distribuição de um suposto kit gay nas escolas públicas, quando Haddad era ministro da Educação.

Quatro anos depois, é novamente a aposta no voto evangélico que move Bolsonaro na tentativa de levar a disputa ao segundo turno, uma vez que Lula, segundo a pesquisa Ipec divulgada na segunda-feira 15, véspera do início oficial da campanha, ainda pode liquidar a fatura na primeira etapa. Mais uma vez apoiado por Silas Malafaia, Edir Macedo, Marcos Feliciano e outros influentes pastores midiáticos, Bolsonaro, atualmente no PL, busca beneficiar-se de uma ofensiva que passa pela demonização – metafórica e literal – de Lula e do PT. Neste início de campanha, o discurso de ódio tem na primeira-dama Michelle Bolsonaro seu principal vetor e nas últimas semanas tem ganhado força nos sermões e grupos de WhatsApp com uma profusão de fake news e mensagens de intolerância religiosa.

De acordo com o Ipec, Bolsonaro pa-
rece colher os frutos dessa ofensiva:
47% dos eleitores que se identificam co-

mo evangélicos disseram ter a inten-
ção de votar por sua reeleição, enquan-
to 29% afirmaram preferir Lula. Em vo-
tos válidos, a distância entre os dois can-
didatos cresce, com 56% para Bolsona-
ro e 35% para Lula. Segundo o institu-
to, 28% do total de entrevistados se de-
clararam evangélicos, aí incluídas as di-
versas denominações. O resultado nesse
segmento é bem diferente daquele regis-
trado em dezembro pelo Datafolha (39%
a 33% a favor de Lula) e acendeu o sinal
de alerta no comando da campanha do
petista, que parece ainda não ter encon-
trado a forma adequada de dialogar com
essa parcela de eleitores.


A vantagem que Lula apresentava na
virada do ano é atribuída por pesquisa-
dores ao setor denominado como “elei-
torado evangélico oscilante”, ou seja,
aqueles que votaram em Bolsonaro em
2018, mas não são ultraconservadores
ou radicalizados e estão desiludidos ou
frustrados com seu governo. “Essa par-
cela se sente atraída por Lula pela ques-
tão da memória e do legado econômico,
mas seu voto ainda não está definido”,
observa a socióloga Esther Solano, co-
ordenadora de uma pesquisa qualitati-
va sobre o tema realizada pelo Observa-
tório Democracia em Xeque. “Esse elei-
tor olha para o Lula e lembra que vivia
melhor, tinha mais dignidade econômi-
ca. Mas também olha para Bolsonaro e se
sente mais atraído pela questão dos cos-
tumes e pela agenda moral.”

A PRIMEIRA DAMA É
A PRINCIPAL ARMA
DO CAPITÃO PARA
RECONQUISTAR OS
FIÉIS DESILUDIDOS
COM SEU GOVERNO


Trata-se, portanto, de um grupo de-
cisivo para definir os rumos da eleição.
Nessa corrida, Bolsonaro largou na fren-
te enquanto a campanha petista ainda
procura acertar o passo. “Nas últimas
semanas, percebemos que há um movi-
mento orgânico e militante pelo voto em
Bolsonaro em algumas igrejas evangéli-
cas, principalmente nas pentecostais e 

neopentecostais. De um lado, há um dis-
curso messiânico em relação a Bolsona-
ro, que seria o legítimo representante dos
cristãos no Brasil. De outro, um discurso
muito forte de demonização do PT e de
Lula”, afirma Solano. O principal boato
espalhado nos últimos dias nos cultos e
grupos de WhatsApp afirma que, se elei-
to, Lula mandará fechar os templos evan-
gélicos. Outra fake news muito difundida
dá conta de que os pastores serão obriga-
dos pelo governo do PT a casar pessoas do
mesmo sexo durante os cultos.


“Conversamos sobre o risco de perse-
guição que pode culminar no fechamen-
to de igrejas”, admitiu no domingo 14 o
deputado federal Marcos Feliciano, do
PL, pastor da Assembleia de Deus. Em-
bora não haja proposta alguma de fecha-
mento de igrejas, o que, inclusive, seria
inconstitucional, a mentira é repeti-
da à exaustão nos templos de outras de-
nominações, como Igreja Universal do
Reino de Deus, Igreja Mundial do Poder
de Deus, Igreja Internacional da Graça,
Renascer em Cristo, Igreja do Evange-
lho Quadrangular, Sara Nossa Terra e
Presbiteriana. O objetivo é manter Lu-
la no alvo. “Tenho que alertar meu re-
banho de que há um lobo nos rondando,
que quer tragar nossas ovelhas através
da enganação e da sutileza”, resume Fe-
liciano, que voltou à carga na terça-feira
16 ao dizer que Lula “usará a Receita Fe-
deral” para perseguir as igrejas. Não por
coincidência, no dia seguinte, Bolsonaro
anunciou a ampliação dos benefícios fis-
cais aos pastores, isentos do recolhimen-
to de contribuição previdenciária.
Alguns vídeos que circula-

ram nas últimas semanas
no WhatsApp são de dar
inveja à incrível história
da “mamadeira de piro-
ca” difundida em 2018 entre os evangéli-
cos. Um deles mostra uma suposta escola
de “cidade governada pelo PT” na qual me-
ninos e meninas de diferentes idades fre-
quentam o mesmo banheiro sob o incen-
tivo de professores “de esquerda”. Em ou-
tro vídeo, mulheres de biquíni defendem
o poliamor e os relacionamentos abertos
e são identificadas como “feministas do
PT”. Às vésperas do início oficial da cam-
panha, a demonização ganhou as ruas. Em
Goiânia, Porto Alegre e Ribeirão Preto fo-
ram publicados outdoors nos quais apare-
cem lado a lado um Lula carrancudo so-
bre fundo vermelho e enfumaçado e um
Bolsonaro com a expressão plácida sobre
um verde patriótico. Abaixo das imagens
são dispostas em oposição palavras como
aborto e vida ou bandido preso e bandido
solto, entre outras. O grupo Prerrogativas,
que reúne advogados e juristas progressis-
tas, fez uma representação contra a propa-
ganda no TSE.


Atento ao dia a dia político das prin-
cipais igrejas evangélicas do País, o jor-
nalista Gilberto Nascimento, autor do li-
vro O Reino: a História de Edir Macedo
e Uma Radiografia da Igreja Universal
(Cia. das Letras), avalia que a campa-
nha de Lula não dá a devida atenção ao
potencial nefasto do material divulgado.
“É muita fake news e muita informação
distorcida. Há fiéis evangélicos que me-
ses atrás tendiam a votar no PT e fala-
vam que Lula fez mais pelos mais pobres,
mas que agora têm colocado essa questão
moral como uma dificuldade”, observa.


Ele dá exemplos: “Esta semana conversei
com dois influentes evangélicos neopen-
tecostais que antes eram pró-Lula, mas
agora estão dizendo assim: quero votar
no Lula, mas não posso concordar que o
pastor seja obrigado a casar pessoas do
mesmo sexo nem que as crianças nas es-
colas sejam orientadas a se tornarem ho

mossexuais. Tudo isso está sendo difun-
dido de uma maneira muito intensa nos
cultos e grupos de WhatsApp”.


No PT, uma disputa interna se dá
em torno do pastor Paulo Marcelo
Schallenberger, ligado à Assembleia de
Deus e alçado à condição de responsável
por “organizar a interlocução” da campa-
nha de Lula com os evangélicos a partir
da produção de um podcast e outras peças
de mídia dedicadas ao segmento. Setores
evangélicos do PT e dos movimentos so-
ciais criticam a escolha de Schallenberger,
que não tem histórico de militância pro-
gressista e, entre outras coisas, propôs que
Lula, assim como Bolsonaro, adotasse um
salmo da Bíblia como lema de campanha:
“O pastor não é o nome ideal e sua saída
deve ser confirmada nos próximos dias”,
afirma uma fonte na direção petista. En-
tre os progressistas, a percepção é a de que
Lula erra ao tentar repetir uma aborda-
gem ao estilo Malafaia. “É grave não en-
tender que há evangélicos aliados à can-
didatura e que estão na caminhada con-
tra a barbárie que se instalou no País. Eles
não conseguem reconhecer esses aliados e
tratam todos nós evangélicos como se fôs-
semos manipulados pelo voto das lideran-
ças midiáticas”, diz Valéria Zacarias, co-
ordenadora da Frente de Evangélicos pe-
lo Estado de Direito.

ENTRE OS
EVANGÉLICOS,
BOLSONARO
LIDERA COM 47%
DAS INTENÇÕES
DE VOTO, SEGUNDO
O IPEC. LULA TEM 29%

Nome mais conhecido do PT entre fiéis
de diversas denominações, a deputada fe-
deral Benedita da Silva, coordenadora do
Núcleo de Evangélicos do partido e tradi-
cionalmente uma opositora à mistura de
política e religião, defende o debate trava-
do no dia a dia como melhor forma de con-
quistar o voto do segmento: “É esclare-
cendo as verdadeiras causas do sofrimen-
to do povo que estamos chegando à base
evangélica. Temos de mostrar que Lula fa-
rá o que já fez em seus dois governos, ga-
rantindo emprego e comida na mesa do
povo e respeitando a liberdade religiosa
assegurada pela Constituição”. A deputa-
da repudia as fake news: “Basta ver os anos
de governo do Lula e da Dilma para cons-
tatar que eles nunca perseguiram evan-
gélicos nem fecharam nenhuma igreja”.
No comando da campa-
nha existe a consciência
de que Lula tem de traba-
lhar para vencer no pri-
meiro turno e que para
isso todo apoio é importante. Em poucos
dias, a candidatura petista pôde comemo-
rar as adesões do Avante de André Janones
e do PROS, esta última confirmada na ter-
ça-feira 16, após algumas idas e vindas na
Justiça. Com dez partidos em sua coliga-
ção, reverter a ofensiva bolsonarista entre
os evangélicos parece ser uma das priori-
dades do ex-presidente para garantir o que
falta de apoio para bater Bolsonaro logo de

cara: “Haverá um esforço para dar visibili-
dade às lideranças evangélicas que apoiam
Lula e disseminar informações positivas
sobre seu governo que, por exemplo, apro-
vou as leis de Liberdade Religiosa e do Dia
Nacional da Marcha para Jesus”, diz um
dirigente do PT.


Pontos fracos de Bolsonaro reconhe-
cidos pelas eleitoras evangélicas foram
identificados por pesquisas qualitativas
realizadas pelo comando da campanha
petista e serão explorados. Entre eles,
“ser desumano”, “ser grosseiro com as
mulheres” e “não gostar de trabalhar”.
A estratégia de Lula é impedir que o ele-
vado índice de rejeição de Bolsonaro so-
fra uma queda significativa. Nos próxi-
mos dias, serão agendados os primeiros
encontros com lideranças evangélicas
nacionais. Entre os nomes especulados
estão o do pastor Manoel Ferreira, pre-
sidente vitalício da Convenção Nacional
das Assembleias de Deus do Brasil, e o de
seu filho, o também pastor Abner Ferrei-
ra. Não se trata de conquistar apoio, mas
de esclarecer as posições da campanha e
reduzir o impacto das fake news.
Enquanto a nova estratégia
não é adotada, o PT joga na
defensiva. Nas redes so-
ciais circula uma imagem
com Lula juntando as mãos
em forma de oração e a mensagem: “O
bolsonarismo volta a mentir para espa-
lhar terror entre as pessoas de fé”. A pe-
ça publicitária também afirma que Lula
“respeita todas as religiões” e “não vai fe-
char as igrejas”. Em vídeo, a presidente
nacional do partido, Gleisi Hoffmann,
afirmou que, “por não ter propostas pa-
ra o povo brasileiro”, Bolsonaro recorre
às fake news: “Mistura política com reli-
gião e tenta usar a fé das pessoas para ga-
nhar votos. Será que eles acham mesmo
que convencerão o povo de que Lula vai
atacar a liberdade religiosa, o direito de
culto e a família?”, pergunta a dirigente,
antes de elencar as leis aprovadas duran-
te os governos do PT.

Um dos flancos de ataque mais pesa-
dos – e que deverá ser exaustivamente ex-
plorado por Bolsonaro durante a campa-
nha – tem como alvo a mulher de Lula, a
socióloga Rosângela da Silva. Tudo come-
çou quando Janja, como é conhecida, pos-
tou uma foto vestida de branco ao lado de
imagens de orixás de religiões de matriz
africana com os dizeres “Saudades de ves-
tir branco e girar, girar, girar...”. Em seu
ato inaugural de campanha realizado em
São Bernardo do Campo, no ABC paulis-
ta, na terça-feira 16, Lula reagiu: “Bolso-
naro é um fariseu, está tentando manipu-
lar a boa-fé de homens e mulheres evangé-
licos que vão à igreja tratar de sua fé e de
sua espiritualidade”, disse. Em outro mo-
mento, o petista rebateu as notícias de que
ele e Janja teriam “vendido a alma” para
vencer as eleições: “Se tem alguém que é
possuído pelo demônio é esse Bolsonaro”.


A “notícia” sobre as almas vendidas
inundou os grupos bolsonaristas depois
que Michelle Bolsonaro compartilhou
em 9 de agosto um vídeo da participação
de Lula em cerimônia realizada por uma
das mais tradicionais casas de umbanda
do Brasil. O malicioso comentário da pri-
meira-dama – “Isso pode, né? Eu falar de
Deus, não” – somou-se ao post original da
vereadora paulista Sonaira Fernandes, do
Republicanos, que escreveu: “Lula já en-
tregou sua alma para vencer essa eleição”
e bombou nas redes sociais. Em contra-
ponto à “macumbeira” Janja, Michelle é

a principal aposta de Bolsonaro para des-
lanchar de vez no eleitorado evangélico e
tem protagonizado momentos em que po-
lítica, religião, misticismo e preconceito
se misturam, como o discurso “em tran-
se” no lançamento da candidatura do ma-
rido no Maracanãzinho ou as sessões de
orações noturnas para livrar o Palácio
do Planalto do demônio, que, segundo a
primeira-dama, ali habitava até 2018. A
maior parte do eleitorado, dizem as pes-
quisas, discorda do recorte temporal fei-
to por Michelle Bolsonaro. Para muitos, o
capeta ocupou o palácio quatro anos atrás
e ainda não saiu de lá.
Segundo Solano, a aposta po-
de dar certo porque Michelle
tem mais legitimidade para
falar como cristã do que o pró-
prio Bolsonaro. “Ela utiliza o
léxico cristão de uma forma muito na-
tural e é o rosto gentil do bolsonarismo.
Também não apresenta alguns defeitos
que são muito criticados na base evangé-
lica, como a intolerância de Bolsonaro ou
a sua falta de compaixão e humanidade.


LULA, EM
RESPOSTA AOS
ATAQUES: “SE TEM
ALGUÉM POSSUÍDO
PELO DEMÔNIO É
ESSE BOLSONARO”


]
Captamos em nossa pesquisa que há gru-

pos evangélicos que criticam muito isso,
mas Michelle consegue de fato dialogar
com aqueles bolsonaristas evangélicos
mais moderados que não gostam da face
violenta do bolsonarismo. Ela tem uma
cara mais humana e consegue se conec-
tar com essa base desiludida.”

A religião também foi um dos temas
principais no primeiro comício da cam-
panha de Bolsonaro, realizado em Juiz
de Fora, cidade mineira onde o ex-capi-
tão foi esfaqueado em 2018. Chamada pa-
ra o alto do trio elétrico ao fim do discur-
so de Bolsonaro, Michelle foi ovaciona-
da antes de entabular um discurso reple-
to de referências a Deus e à luta do Bem
contra o Mal. “O povo brasileiro será li-
berto da mentira e do engano. Peço sabe-
doria ao povo de Deus, para que não en-
tregue o País nas mãos de nossos inimi-
gos”, disse. Apresentada pelo marido co-
mo “a pessoa mais importante neste mo-
mento”, a primeira-dama também voltou
a insinuar que a esquerda teria partici-
pação no atentado praticado por Adélio
Bispo, possibilidade descartada pelo in-
quérito da Polícia Federal: “Aqueles que
deram a facada são os mesmos que agora
pregam o amor e a pacificação”.


Solano aponta três dificuldades que a
candidatura de Lula terá para confirmar
o voto do eleitorado evangélico oscilante.
A primeira é vencer o estigma causado pe-
la campanha de demonização. A segunda
é estabelecer canais de comunicação mais
efetivos. “Eles têm uma militância orgâ-
nica territorial nas igrejas e o PT não tem
como se equiparar a isso”. A terceira di-
ficuldade é saber utilizar o léxico cristão
pentecostal. “Não se pode falar de femi-
nismo ou de pautas que são caras ao cam-
po progressista como direitos humanos
ou liberdade religiosa.” Para a socióloga,
a campanha de Lula vive hoje um dilema
em relação aos evangélicos: “Se entrar nos
temas conservadores e na pauta moral e
comportamental, terá uma dificuldade
muito grande de enfrentar o aparato dos
pastores que pautam esse debate. E se não
entrar, os deixará falando sozinhos com
toda essa carga demonizadora”.

Para Valéria Zacarias, é preciso tra-
zer o discurso para a realidade cotidiana.
“Ninguém é somente evangélico. O indi-
víduo evangélico também é afetado pelo
alto custo de vida, pelo desemprego e pe-
la violência nas comunidades. Esses se-
riam os pontos de aproximação que mi-
nariam as forças das lideranças midiáti-
cas comprometidas com esse projeto de
poder que está reinando de forma abso-
luta no Brasil.” Ela pede pressa: “Há ca-
minhos, mas o tempo está ficando curto.
É preciso acordar, mas ainda não é tarde
para fazer essa disputa”. •

CARTA CAPITAL 








August 14, 2022

Jean-Jacques Sempé, Cartoonist of Droll Whimsy, Dies at 89

 Sempé, as he signed his name and was known universally, at work in his home studio in Paris in 2015. He created timeless storytelling without words, a kind of pictorial haiku.

France-Presse — Getty Images
Jean-Jacques Sempé, the French cartoonist known in America for children’s book illustrations and for covers for The New Yorker portraying tiny, gentle people with big noses at poignant moments, often dwarfed by monumental backgrounds, died on Thursday. He was 89.

His wife, Martine Gossieaux Sempé, announced the death to Agence France-Presse. His biographer, Marc Lecarpentier, said Sempé — as he signed his work and was known universally — died at a vacation home, but did not specify where that was, AFP reported. Sempé had a home and studio in Paris.

In a nighttime panorama of sleeping city skyscrapers, Sempé illuminated a ballerina in a window. On the soaring span of the Brooklyn Bridge, a lone Sempé bicycle rider churned bravely. And before a large blackboard choked with Einstein calculations, his scruffy little genius soft-boiled an egg


It was timeless storytelling without words, a kind of pictorial haiku, the droll whimsies of an illustrator who never attended art school but who, for a half-century at the drawing board, had bypassed life’s meanspirited realities for a mythical world of mischievous schoolboys, daydreamers, nosy neighbors, holidaymakers and swooning lovers.

Image
Sempé’s series of children’s books about Le Petit Nicolas (Little Nicholas), a collaboration with the writer René Goscinny, became an international classic.
Credit...Charles Platiau/Reuters

bELOVED IN fRANCE, popular around the world and one of America’s favorite cartoonists, Sempé drew more than 100 covers for The New Yorker in an association that began in 1978. His cartoons also appeared in other magazines and newspapers and were collected in dozens of anthologies.

And in a collaboration with the writer René Goscinny begun in 1959, he illustrated a series of children’s books based on the escapades of Le Petit Nicolas (Little Nicholas), a nostalgic version of postwar French childhood. Their first volume was an overnight success, then came four sequels, and in time the series became an international classic, reprinted in France, the United States and many other countries.

Sempé, who also composed graphic children’s novels, eventually produced or collaborated on more than 30 books, which were translated into 37 languages and sold millions of copies worldwide.


Ruddy and white-haired, he lived and worked in Saint-Germain-des-Prés in Paris, but he often traveled to New York to confer with editors and publishers and to collect ideas for his spidery pen-and-ink drawings, which made generous use of vivid watercolors or white space. His long and wide perspectives took in sweeps of sea and sky, great forests or monumental rooms that dwarfed the small dramas that were his focus.





His subjects were office workers, housewives, delicate little girls, frustrated commuters, pretentious intellectuals, musicians, roller skaters and bike riders, whom he adored because he was one of them. His men were likely to be portly and balding, with tidy mustaches and sometimes wearing berets; the women were often double-chinned matrons in polka-dot frocks.


“He’s a national institution who has acquired an almost universal appeal by remaining quintessentially French,” Charles McGrath wrote in The New York Times in 2006. “His precise, elegant drawings are often set in a Paris that even Parisians dream of: a city of mansard roofs, high windows and wrought-iron balconies, where all the cars still look like Deux Chevaux or 1950s Citroëns.”

Each New Yorker cover was like a scene from a larger story, and Sempé’s enormous backdrops exaggerated the effect. On Oct. 24, 2005, it was a tiny dancer in a tutu, waiting to be called while sitting on a bench under the statue of a great ballerina in a gigantic performing space. On Nov. 14, 2011, it was a small boy with a violin case, looking in at a studio of towering basses, huge drums and a menacing maestro pounding a grand piano.

On the gentler side were the Sempé cats. One luxuriated on a fluffy bedspread by a picture window overlooking Manhattan; another perched on a banister newel post, master of his empty household. One multi-panel Sempé cartoon showed a single autumn leaf spiraling to the ground from a tree, and a hand throwing it over into another yard.


He offered touches of modernity — a cellphone or a computer — but bicycles and roller skates more often kept his drawings stubbornly in a retro age, and the worlds of classical music and the performing arts lent timelessness to his work. Any concertgoer could recognize the symptoms.




Spoofing orchestral performers’ habitual use of the arm wave to deflect credit to others onstage as an appreciative audience roars, Sempé portrayed an entire orchestra in a daisy chain of arm-waving that began with the conductor and pianist, wound back through the ranks of strings and horns, and finally ended far in the rear, where a small percussionist beamed and bowed.

With the caption “C’est La Vie!” he drew four couples in separate boats on a fishing vacation — the men in the bows facing the points of the compass with their lines out; the women gossiping in the sterns, which were lashed together.

To illustrate the pride of the French housewife dedicated to cleanliness, Sempé drew madame polishing the tracks of a railroad line that ran just outside her front gate.

For sheer joy, he drew a girl skipping rope on a tenement roof with the great city rising behind her like an audience of the future. 


And for sheer glad-to-be-alive happiness, there was Sempé’s man in the dunes, alone at the beachfront at the end of a perfect September day, tipping his hat at the incoming Atlantic.





“Vulnerability is la condition humaine, and my vulnerability is reflected in that of the people I draw,” Sempé told The Times in 1980. “You must see inside the people you draw to be a good artist — or a good humorist.”

Jean-Jacques Sempé was born in Pessac, a suburb of Bordeaux, on Aug. 17, 1932, to Ulysse Sempé and Juliette Marsan. As a boy he liked to doodle, but he was an indifferent student and was expelled from school for being undisciplined. He took exams for jobs at the post office, a bank and a railroad, but failed them all. He sold tooth powder door to door and delivered wine for a time.

At 17, in desperation, he lied about his age and joined the French Army.

“That was the only place that would give me a job and a bed,” he told The Times.


CAUGHT  doodling on guard duty and reprimanded, he was sent to the stockade when his age was discovered. Discharged, he moved to Paris, where he won an award for young artists in 1952. He began selling illustrations to the magazines Paris Match and L’Express and the comic book Le Moustique, in which he drew a schoolboy called Nicolas.  Mr. Goscinny suggested collaborating on a book, and the result was “Le Petit Nicolas,” told from the boy’s vantage. Sequels were produced. An American edition appeared in 1962, and many volumes were published over the succeeding decades. 


 Sempé was married three times and divorced twice. His first wife was the painter Christina Courtois.  He and his second wife, the artist-illustrator Mette Ivers, had a daughter, Inga Sempé, born in 1968. Since 2017, he had been married to Martine Gossieaux, a gallery owner who had also been his agent.  Complete information on survivors was not immediately available.  


The cartoons of Charles Addams, Saul Steinberg and James Thurber inspired Sempé to draw for The New Yorker. Anthologies of his cartoons include “Nothing Is Simple” (1962), “Everything Is Complicated” (1963), “Sunny Spells” (1999) and “Mixed Messages” (2003).  He also wrote graphic novels: “Monsieur Lambert” (1965), about friends in a bistro; “Martin Pebble” (1969), about a boy who blushes; and “The Musicians” (1980), with whimsical glimpses of the music world.  


Sempé found his métier in the past. “I love to draw street scenes, and that means that you have to draw cars, but I hate drawing modern cars,” he told the British newspaper The Independent in 2006. “They are very fast and very efficient, but they have no charm.  “For me, he added, “the modern world lacks charm. I am not saying that things were always better in the past. They weren’t. But things looked better, or at least more interesting, to me.”