July 4, 2020

"É recuo tático. Me cansa alguém dizer que Bolsonaro foi domado"


Para Marcos Nobre, presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), alegar qualquer recuo de Bolsonaro é não compreender a natureza do seu projeto autoritário. (Crédito: Jardiel Carvalho/UOL)


* Por: Murilo Cleto

Ao optar pelo caminho do isolamento político, do negacionismo científico e, sobretudo, da recusa a governar o País, tudo isso durante uma pandemia, o governo Bolsonaro tomou um caminho que, a muitos, soa contraintuitivo. Isso porque não faltam exemplos, mundo afora, de governos impopulares que usaram da crise atual para reconstruir as suas bases e recuperar protagonismo no âmbito doméstico.

Bolsonaro preferiu a via do confronto, mas, à diferença de outros líderes autoritários, como é o caso do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, o projeto hegemonista do presidente brasileiro carece de apoio majoritário na população, o que inviabiliza, por ora, a saída alternativa de usar a crise como pretexto para se perpetuar no poder.

Dadas essas condições, o que explicaria, então, a reação de Bolsonaro à pandemia? Foi essa pergunta que levou o filósofo Marcos Nobre, um dos mais ambiciosos intelectuais do País, a escrever o e-book "Ponto final: a guerra de Bolsonaro contra a democracia", obra publicada em maio pela editora Todavia.
"Para o Bolsonaro, ele enfrentar a pandemia como se deve significaria cometer estelionato eleitoral". Em conversa com o blog, Nobre, que é presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), explicou o cálculo feito pelo bolsonarismo na atual crise, falou sobre o papel das Forças Armadas no governo, as alternativas políticas da oposição e, também, sobre o que tem sido pintado como um novo recuo do presidente.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Antes de discutir o que você efetivamente elabora no livro, eu gostaria que você comentasse quais foram os maiores desafios para a escrita dele, assim, a quente, sobre um personagem tão cacofônico como o presidente Bolsonaro. Quer dizer, o que você fez para que o livro não envelheça rápido?
Essa pergunta é muito importante porque também diz respeito a como a gente analisa o fenômeno político. No meu caso, o que eu tento fazer sempre é me colocar na cabeça do ator político, seja de um movimento social, seja do presidente da Câmara ou do presidente da República, ou de um deputado etc. Sempre é essa a perspectiva. A perspectiva não é a minha. Se eu tivesse no lugar dele, com as informações disponíveis, que caminhos eu teria? Quais seriam as possibilidades?
Essa maneira de ver a política também busca algumas estruturas. Ou seja, você olha o campo de ação que é dado para cada força e diz assim: qual é a margem de ação que tem? Até onde pode ir nos limites que tem? Porque, quando você tem políticos, você tem uma correlação de força. Então, foi isso que eu tentei fazer no livro, buscar as estruturas da situação e não simplesmente uma descrição da situação ou um relato da situação.
Por isso que é possível estender a análise para o além do momento em que o livro foi escrito. Muitas vezes as pessoas perguntam: "E o que aconteceu ontem? E o que aconteceu há 20 minutos?" Calma, se a estrutura estiver certa, a gente consegue interpretar. Você abre a possibilidade para um outro caminho ou não. Foi mais ou menos essa a ideia que e guiou. Agora, só foi possível também porque eu escrevo sobre política cotidianamente. Sobre especificamente o Bolsonaro há um ano e meio já, trabalhando em cima de Bolsonaro com vários artigos. Você vai conseguindo fechar uma interpretação. E vai nesse sentido da estrutura.

Diante da crise do coronavírus, muitos dos prefeitos e até governadores simpáticos ao Bolsonaro não se negaram a prestar solidariedade diante das vítimas e a mostrar serviço na área da saúde – o que, definitivamente, não é o caso do presidente. Além deles, você também tem líderes até com aspirações autoritárias que estavam com a popularidade no chão, como é o caso de Sebastian Piñera no Chile, e que conseguiram multiplicar as taxas de aprovação graças à administração da crise. Por que, afinal, esse não é o caso de Bolsonaro?
Para o Bolsonaro, ele enfrentar a pandemia como se deve significaria cometer estelionato eleitoral. Porque ele se elegeu como candidato antissistema. Acontece que, para enfrentar uma pandemia dessa, você precisa unir o país em torno do presidente e você precisa dirigir o sistema, que é tudo que ele não fez. Ou seja, o Bolsonaro, desde que assumiu, não governou. O projeto dele não é governar. É justamente deixar o governo funcionar, na medida em que os serviços públicos funcionam, mas, ao mesmo tempo, atacar o tempo inteiro o Estado, o sistema etc. Ou seja, é um presidente outsider.
Difícil de entender isso, né? Como é que alguém que dirige o sistema é contra o sistema? Mas é assim que funciona e não é só aqui. Todos os populistas fazem isso. Agora, o Bolsonaro não é só populista. Ele é um populista autoritário. Ele cometeria esse estelionato eleitoral se ele dirigisse o sistema, mas, além disso, ele teria que abrir mão do projeto autoritário dele, que era, de fato, usar esse ímpeto antissistema que tem no país para, aos poucos, destruir por dentro as instituições para, em um segundo mandato, conseguir instaurar um projeto autoritário.
É isso que o diferencia de outros regimes autoritários pelo mundo. Nós temos que pensar que Bolsonaro foi eleito em 2018. Se a gente tomar a eleição do Viktor Orbán, na Hungria, em 2010, a primeira, como uma referência, ele tinha oito anos já de experiência autoritária para ele olhar como faz.
O que acontece é que a pandemia pegou o projeto dele (Bolsonaro) com um pouco mais de um ano de governo. Ou seja, ele não teve tempo de desenvolver o projeto autoritário. E aí, nesse momento, ele estava realmente encurralado no sentido de que, se ele dirigisse o sistema, ele teria que abrir mão do que ele disse na campanha. E ele teria que abrir mão do projeto autoritário dele. E ele não quis abrir mão disso.
Ou seja, de fato, o que Bolsonaro fez foi forçar um golpe. Ele tentou ver se era possível acelerar o projeto dele. Não deu certo. Ele não conseguiu apoio o suficiente ou organização o suficiente para isso. Ele estava construindo. Se a gente olhar o motim das polícias no Ceará em fevereiro, aquilo ali era o começo de algo muito assustador. E que foi interrompido pela pandemia. Líderes autoritários pelo mundo podem usar a pandemia para reforçar o autoritarismo, desde que o autoritarismo já esteja plenamente estabelecido. E não era o caso do Brasil. O projeto foi pego no contrapé.

No início da pandemia, antes mesmo do livro, você disse que um cenário que tornaria plausível a ruptura institucional seria o caos social decorrente da ação ou inação do governo diante da pandemia. Mas esse caos não veio. A que você acha que isso se deve?
São múltiplos fatores. A posição que Bolsonaro tomou desde o início da pandemia, quando ele fez esse diagnóstico, era, de fato, para obrigar contingentes armados em geral a se perfilarem com ele para tentar algo mais grave. Porque justamente o caos social é aquilo que impõe a ordem. Ele fez isso no começo impedindo que existissem medidas de política pública que pudessem compensar as medidas necessárias de isolamento.
Ou seja, os governadores e prefeitos tomam medidas de isolamento, só que, para que elas funcionem, é preciso que você tenha medidas econômicas para proteger os pequenos negócios, as pessoas que estão na informalidade. Você precisa de um monte de política pública para fazer isso. Ele barrou isso, no início. O resultado seria caos social. E aí, o que acontece? O sistema começa a produzir esse tipo de compensação. Vai dizer: "olha, caos social, não".
Você tem, de um lado, o Congresso, que aprova o auxílio emergencial, que é fundamental; que aprova crédito para as empresas – não chegou, mas aprovou –; aprovou uma atuação do Banco Central que é inédita. Houve uma série de aprovações para evitar o caos social. Foi isso, até agora, que impediu. Houve também iniciativas da iniciativa privada mesmo, de doação de alimento, doação de produto, porque estava todo mundo olhando que, se fosse depender do governo, o caos social seria produzido mesmo. Não só porque o governo é inoperante. É porque o governo decidiu ser inoperante. É mais grave que isso.
E, portanto, o que impediu o caos social foi a sociedade brasileira. No fundo, é isso. O isolamento foi imposto a alguém? Não, mas quem pôde ficou em casa. Quem não pôde, não tinha jeito. Redes de solidariedade de formaram na sociedade. Eu tenho enorme esperança de que essas redes de solidariedade agora se tornem institucionais. Ou seja, se tornem política pública.
Que a gente realmente aproveite a imaginação das pessoas para sobreviver, se organizar, se solidarizar e ajudar uns aos outros. Que ela se torne política pública, aproveitando que nós temos eleições municipais à vista. Então, não aconteceu o caos social por causa da sociedade brasileira. Porque a sociedade brasileira teve a responsabilidade que o presidente não teve. E, claro, algumas instituições que responderam a esse clamor da sociedade por solidariedade e por políticas públicas que impedissem o caos social.

No livro, você chama atenção pro fato de que a política foi transformada em guerra. Costuma-se atribuir o caráter bélico e paranóico do governo à influência dos olavistas. Contudo, vemos que as teorias conspiratórias do olavismo, sobretudo o anticomunismo e o antiglobalismo, têm forte adesão do pensamento militar brasileiro. Em que medida essa paranóia funciona como um elo entre as alas olavista e militar do governo?
Eu acho realmente que essa figura que você citou, que mora nos Estados Unidos, é um fantoche. É um boneco de ventríloquo que é usado pela ala mobilizadora para dizer que tem uma pessoa que formula teorias etc. E, dentro das Forças Armadas, a importância dessa figura é muito pequena. Porque é uma figura caricata, folclórica, no sentido de que ele está à altura dos piores quadros que o governo consegue recrutar. Porque, como é um projeto autoritário, para aderir a esse projeto, você precisa realmente ter uma qualidade muito baixa, uma estatura muito baixa em termos políticos.
Então, eu não acho que seja relevante a figura. Eu acho que ela é só usada como fantoche. E ele também gosta de ser usado. De vez em quando faz uma live criticando para ver se consegue mais atenção. Então, eu não acho que isso seja relevante. O que eu acho relevante é essa distinção entre mobilização e organização. O "partido militar" no governo, ou seja, aquela parte das Forças Armadas que foi para o governo – que é muito diferente das Forças Armadas na ativa, é importante sempre manter essa distinção –, essa ala que está com a tarefa de organizar não quer marola. Ela não quer confusão. Porque, se não, ela não consegue organizar, justamente.
É uma coisa desesperadora quando você tem essa ala mobilizadora atrapalhando o serviço de um governo. Porque governar exige que você coordene ações, que você entregue coisas para as pessoas. E, até o momento, esse "partido militar" que está no governo não conseguiu ainda estabelecer essa organização transversal do governo. Eles estão tentando, estão ganhando terreno. Só conseguiram, de fato, se estabelecer como força hegemônica depois que prenderam o (Fabrício) Queiroz. Antes disso, não tinham conseguido.
O meu receio justamente é as pessoas acharem que basta tirar o Bolsonaro. Não, não basta. Nós precisamos muito mais do que isso. Nós precisamos repactuar regras de convivência democrática, que nos últimos anos foram totalmente destroçadas.
Então, você tem um jogo aí entre organização e mobilização em que um não vai sem o outro. Mas, num momento de uma pandemia e de uma recessão econômica brutal, você precisa de um grau de coordenação muito alto. Não dá tempo de você ficar pensando em mobilização. Então a mobilização acabou se reduzindo. Pelo menos essa é a minha maneira de olhar.
O "partido militar", que está no governo, e, mesmo quem está na reserva das Forças Armadas, não precisa dessa figura que mora nos Estados Unidos para ter uma ideologia. Já tem formação o suficiente dentro das próprias Forças Armadas para ter sua opinião. Então não acredito que seja necessária essa influência. Realmente, é necessária só como fantoche para essa parte mobilizadora.

Uma hipótese explorada neste blog é que, talvez, eles tenham forçado essa possibilidade de algo como o que ocorreu no Chile acontecer aqui para dar alguma materialidade a essa paranoia e forçar as Forças Armadas a intervirem…
Você tem toda razão. Porque o que o Bolsonaro estava fazendo até a chegada da pandemia era a mesma coisa que aconteceu antes de 1964. Você faz duas coisas: você fala que tem um fantasma comunista, que tem uma ameaça comunista presente; e você diz que todo mundo é corrupto. Essa coisa da corrupção generalizada e da ameaça comunista ele ficou batendo na tecla o tempo inteiro.
E eles tinham sempre uma saída, que era AI-5, AI-5, AI-5. Eles estavam tentando. Embora pareça totalmente artificial você falar em ameaça comunista num momento como o nosso, ela serviu para mobilizar uma parte, pelo menos, da sociedade brasileira, que é a parte fanática de apoio do Bolsonaro. E a parte da corrupção serviu para a outra parte da base de apoio que ele ainda tem, e que agora está realmente periclitando. Quer dizer, alguém que faz todo o discurso contra a corrupção, que diz que todo mundo é corrupto, que o Centrão é o mais corrupto do mundo, e agora faz acordo com o Centrão. Alguém que fala da corrupção e, quando prendem o Queiroz, está no escritório do advogado dele. Você começa a ficar sem discurso.

Hoje faz exatamente três semanas que as coisas andam bem diferentes em Brasília. Bolsonaro não só anda mais quieto como também tem emitido alguns sinais de normalização. Muita gente interpretou a demissão do Weintraub como um esforço de armistício com o STF (Supremo Tribunal Federal), por exemplo. E o quase-novo ministro da Educação, o Decotelli, apresentava um perfil bem distinto do antecessor. E, bem, coincidentemente, chegamos a três semanas desde a prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). Tem muita gente apostando no potencial destrutivo do advogado Frederick Wassef. Você acha que faz sentido essa hipótese de que talvez o governo esteja tentando se normalizar?
Eu ouço isso desde que o Bolsonaro foi eleito. Toda semana ele faz uma dessa e todo mundo diz "é bravata", "é blefe". Agora, durante a pandemia, acho que ficou muito claro que não é blefe, né? Se tinha alguém que podia dizer que isso aí é só bravata, que isso aí é só blefe, ficou muito claro para todo mundo que não é blefe. Eu ouvir mais uma vez "agora sim ele foi domado" é muita vontade de acreditar numa coisa que não é verdade.
Vamos pensar que o Bolsonaro pode ficar calado por dois anos e meio? Não, ele não vai ficar calado. O que ele está fazendo agora é: ele está em ameaça máxima, por todos os lados; ele não esperava a reação que o STF teve; ele não esperava que o fato de ele tentar instrumentalizar a Polícia Federal tivesse levado as polícias do Rio e de São Paulo a fazer a operação que prendeu o Queiroz, a pedido do Judiciário estadual.
A estrutura do problema é: existe espaço para candidaturas antissistema no país e esse espaço só vai desaparecer se essas pessoas puderem ser incluídas no sistema político, se elas sentirem que elas têm voz, se elas sentirem que têm mecanismos para participar de verdade, que não é conversa fiada, que não é a política de sempre.
Não por acaso, já tem retaliação do Aras, do Procurador-Geral da República, à Lava-Jato. Você tem, de fato, uma disputa para quem controla a polícia, para quem controla o Judiciário, para quem controla o Ministério Público. É essa a disputa. Não é que o Bolsonaro está calado. O Aras está falando por ele. E dizendo: "olha, eu tenho aqui uma disputa. E eu vou controlar a Polícia Federal, eu vou controlar o Ministério Público". E, do outro lado, você tem o Supremo dizendo "não, não vai", os judiciários estaduais dizendo "não, não vai".
É essa disputa que está em causa. Se o Bolsonaro ganhar essa, ou seja, se o Flávio Bolsonaro conseguir o que ele quer; se conseguirem fazer com que o Queiroz não delate, com que a mulher do Queiroz não seja presa – porque agora ninguém mais fala nisso –, ele volta. Ele está só esperando. É uma coisa militar, recuo tático. Ele vai voltar. Me cansa, realmente, alguém dizer que agora finalmente ele foi domado. Não, ele não é domado. O projeto dele continua o mesmo, igualzinho.

Uma das questões mais indigestas do seu livro é o reconhecimento de que qualquer acordo político para o impeachment precisa passar não só por agentes que contribuíram pra ascensão do Bolsonaro, mas também por alguns setores mais importantes para a sustentação dele, como os evangélicos e até as Forças Armadas. Digo que é indigesta porque muita gente tem reagido mal não só às suas, mas às propostas em geral de criação de uma frente ampla. E aí é só olhar para esses grupos de 70% nas redes sociais e ver que, mesmo no interior da esquerda, se perde mais tempo em brigas como "o Lula roubou" ou "o Ciro foi pra Paris" do que em realmente articular essa frente. Então eu queria que você falasse um pouco mais sobre a viabilidade desse acordo.
Quem conteve o Bolsonaro foi a sociedade brasileira. Foi a sua mobilização. Foi o fato de aumentar exponencialmente a rejeição ao Bolsonaro, que antes estava estabilizada em mais ou menos um terço do eleitorado e subiu de uma maneira muito importante. A gente não tem, de fato, pesquisas comparáveis. A gente precisa de uma série de pesquisas de opinião remotas, mas com certeza foi a sociedade brasileira que impediu o golpe do Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, nós temos que pensar o seguinte: não foi suficiente toda essa mobilização da sociedade para, de fato, formar essa frente ampla. Porque você precisa, de fato, atingir, algo como dois terços do eleitorado não só de rejeição mas de apoio ao afastamento do presidente, para que o sistema político se mexa. Porque, para o sistema político enquanto tal, a situação como ela está é confortável.
Está todo mundo tentando garantir a sua posição, pensando na eleição municipal, com quantas prefeituras vai sair. Está todo mundo fazendo cálculo eleitoral. E, no cálculo eleitoral, o Bolsonaro acuado é bom. Então, se houver uma medida – que eu acho que é uma medida absolutamente necessária – de afastar o risco autoritário, que é fazer o impeachment do Bolsonaro e responsabilizá-lo por tudo que ele fez, precisa ter esse movimento da sociedade.
Como você disse, a própria sociedade não está se entendendo. Embora tenha havido movimentos muito importantes, os interesses eleitorais estão se misturando. E estão conseguindo convencer as pessoas a se atirarem entre si, como estão fazendo desde 2014. Está todo mundo atirando entre si e o Bolsonaro ganhou a eleição por causa disso. Ou, de fato, na base da sociedade, se consegue fazer um grande acordo para o afastamento e, nesse momento, diz "olha, não importa a diferença que eu tenho com você, mas preservar a democracia é mais importante".
Agora, não pode ser simplesmente um movimento para tirar o Bolsonaro. Todas as pesquisas sobre o bolsonarismo mostram que o sentimento antissistema é muito forte, então não adianta tirar uma pessoa. Tem que repactuar a democracia de uma tal maneira que as pessoas olhem e falem "esse não é aquele sistema antigo". Porque tudo que as pessoas estão vendo até agora é o sistema antigo. São as mesmas figuras, são os mesmos acordos, é o mesmo Centrão, aquela coisa toda.
Agora vamos para a parte do realismo. Não é indigesto só para você, não é indigesto só para mim. É indigesto para todo mundo. E a última coisa que eu queria na minha vida era fazer um exercício político de realismo político como esse, de dizer "olha, a correlação de forças coloca numa posição em que não é possível simplesmente passar por cima do eleitorado evangélico e das Forças Armadas que estão no governo". Não é possível do ponto de vista do realismo político.
Se alguém me dizer que nós conseguimos fazer um impeachment hoje, em que a gente faça um duplo impeachment, que saia Bolsonaro e saia Mourão… Essa coisa de cassação pelo TSE, isso aí é terceirizar a tarefa política. Isso aí você não faz. Você quer regenerar a democracia, você faz um movimento de massa para chegar a esse objetivo. Então, se alguém me disser "É viável. Olha aqui: tem essa massa aqui que está na rua, que está nas ruas digitais e nas ruas reais. A gente conseguiu 70% de rejeição e apoio ao impeachment e conseguiu empurrar o sistema político", se alguém me disser isso hoje, e disser "olha, dá para fazer", eu aceito na hora.
A última coisa que eu queria na vida era ter que fazer esse reconhecimento e esse pragmatismo político. O problema do ponto de vista da esquerda, eu acho, é que o capitalismo vive bem sem democracia. Ele já demonstrou isso. Mas o socialismo democrático, não. Ele precisa da democracia. Você precisa da democracia para poder aprofundar a democracia. Isso é algo essencial, é algo vital. O meu receio justamente é as pessoas acharem que basta tirar o Bolsonaro. Não, não basta. Nós precisamos muito mais do que isso. Nós precisamos repactuar regras de convivência democrática, que nos últimos anos foram totalmente destroçadas.
É indigesto para você, é indigesto para mim, é indigesto para todo mundo. E eu esperava que eu não estivesse nessa situação, que é uma situação defensiva. Nós estamos na defensiva. Nós estamos defendendo o mínimo. Não é que nós vamos agora avançar. Nós estamos defendendo o básico. Nós estamos numa situação muito difícil. Eu vou ficar contente se alguém me demonstrar o contrário. Eu não consegui ver ainda que nós estamos numa posição na correlação de forças que nos permita dar um enorme salto nesse momento. Não é o que eu vejo.

Há setores à esquerda que defendem a tese dos "dois populismos", no sentido de que a estratégia para derrotar a extrema direita é polarizar à esquerda. Como você vê isso? Caminhar para a esquerda não daria legitimidade a essa "política da guerra" de Bolsonaro?
Teria dado certo, eu acho, seria uma possibilidade real, se tivesse sido essa a posição em Junho de 2013. Em Junho de 2013, nós tivemos essa chance. Nós tínhamos essa chance de canalizar o sentimento antissistema numa direção progressista. E foi perdido. Porque a maior parte da esquerda achou que Junho de 2013 era de direita.
Quando as pessoas que estavam ali tentando encontrar um canal para expressar a sua insatisfação política não encontram forças políticas organizadas de esquerda – algumas encontraram, mas na sua maioria não –, elas vão buscar outras maneiras de se organizar. Outros polos de aglutinação que não a esquerda. Vamos fazer a comparação com o Bernie Sanders. De onde vem o Bernie Sanders? De Occupy Wall Street em 2011, que foi, naquele momento, o Junho americano.
Esse movimento vai ganhando força, vai se organizando, e resolve desaguar institucionalmente numa pré-candidatura democrata, coisa que nós não temos no Brasil. Os partidos minimamente não se abrem para uma coisa chamada prévias. E a gente vê as mesmas pessoas o tempo inteiro. Quem é que sabia quem era Bernie Sanders antes de 2016? Ninguém.
Aí você tem esse movimento, ele mudou a agenda do país. Escolheram a Hillary e elegeram o Trump, mas esse processo continuou. E, depois, entre 2016 e 2020, você teve o Green New Deal, essa nova proposta de revolução ecológica e socialista. Um candidato socialista nos Estados Unidos teve a força que teve. Aí você fala "bom, mas agora escolheram o Joe Biden". Sim, e o Joe Biden já foi e será obrigado a ir para a esquerda por causa da candidatura do Bernie Sanders.
O Biden ganhou porque o eleitorado negro garantiu a vitória dele na primária democrata? Sim, e em seguida você tem todos esses protestos de rua para dizer "caro candidato Joe Biden, não basta ir para a esquerda no sentido do Bernie Sanders sem você considerar a questão racial como central. Então não conte que você vai ter automaticamente o voto do eleitorado negro se você não fizer um movimento de fato para colocar a questão racial no centro".
Os Estados Unidos têm um sistema político que é poroso a esse tipo de coisa e em que essa energia social conseguiu entrar. O Bernie Sanders não ganhou, mas ele muda a agenda. No Brasil, o que a gente tem? Um sistema político que se blindou a Junho de 2013. Aí você vira e fala assim: "agora é a hora". Mas como? Nós estamos na defensiva. Cadê essa energia social toda?
Essa energia social antissistema que podia ter sido utilizada foi parar sabe onde? No lavajatismo, em algumas denominações evangélicas, em outros lugares que não movimentos organizados à esquerda. Como é que, numa situação em que a correlação de forças é desfavorável, em que você está defendendo o mínimo, você vai dizer "agora é hora da ofensiva"? Como?
Só se for uma estratégia como estratégia das duas velocidades. Você diz: "olha, eu vou agora organizar um movimento para ter um efeito lá na frente, mas, no momento, eu tenho que fazer Frente Ampla". As duas coisas não se excluem. Porque esse negócio de Frente Ampla não é que todo mundo vai se abraçar e tudo é bonitinho. São negociações duríssimas e têm que ser duríssimas.
Existe um grau importante em que as polícias estaduais não respondem aos seus governadores. Isso é muito grave. E isso vai continuar. O Bolsonaro não vai deixar de fazer isso.
Tem lá uma faixa "todos pela democracia" e atrás cada um com a sua bandeira. Então pode ter. Claro que pode ter esse movimento. Mas vamos pensar o seguinte: o que está acontecendo durante essa pandemia? Esse tipo de coisa que a gente mencionou no início, dessas redes de solidariedade que se formaram. Isso tem que virar política na frente. E vai acontecer, lideranças comunitárias novas apareceram. Agora como é que elas vão chegar ao sistema político, se o sistema político não deixa elas chegarem? É dramático.
O grau de blindagem do sistema político brasileiro à energia social é uma coisa assustadora. Então, se alguém me disser "vamos começar", estou completamente a favor. Agora, a vontade não basta. Com que energia? Com que pessoas? É o que eu acho nesse momento. Agora, essas coisas podem mudar de uma hora para outra. Junho aconteceu de uma hora para outra. Claro, olhando para trás você vê que não é acaso que tenha acontecido, mas na hora surge como um acontecimento que você não esperava.

Você disse que a cassação pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) "terceiriza" a política. Poderia elaborar isso um pouco melhor? Além disso, você acha que o caminho TSE diminui muito as chances do acordo pela derrubada de Bolsonaro? Pergunto inclusive porque, nesse caso, o poder não cai automaticamente no colo dos militares…
Quando eu falo em terceirizar a política, no caso do TSE, o que eu quero dizer é o seguinte: não adianta você afastar uma chapa, você afastar um presidente, se você não tem repactuação política. A única maneira de você regenerar uma democracia é através de um movimento popular de massa. Você diz "ah, não, pode ter um movimento popular de massa pela cassação no TSE". Ora, como assim você faz um movimento popular de massa para um juiz decidir a seu favor? Não faz o menor sentido.
E, depois, o seguinte, o TSE jamais, nas condições atuais, vai decidir pela cassação da chapa. Isso aí é falta de força política. Quando você não tem, na correlação de forças, massa crítica, quando você não tem capacidade política, você pede para o outro resolver o seu problema. Ou a sociedade é capaz de se organizar, de regenerar a democracia e por isso faz o impeachment, ou então para mim não tem sentido.
Porque sai o Bolsonaro, ou saem o Bolsonaro e o Mourão, e o que entra? Outra candidatura antissistema, que talvez possa ser tão autoritária quanto o Bolsonaro. É até difícil imaginar, mas pode ser porque você não elimina a estrutura do problema. A estrutura do problema é: existe espaço para candidaturas antissistema no país e esse espaço só vai desaparecer se essas pessoas puderem ser incluídas no sistema político, se elas sentirem que elas têm voz, se elas sentirem que têm mecanismos para participar de verdade, que não é conversa fiada, que não é a política de sempre.
É por isso que o requisito é muito exigente. Como é que nós vamos direcionar essa energia antissistema para a esquerda? Com as forças políticas desorganizadas do jeito que estão, não tem nenhum espaço. Eu não estou nem falando de partido. Eu estou falando de uma organização política que seja capaz de fazer isso hoje. É uma questão realmente de correlação de forças, e é horrível falar isso. É muito melhor você fazer o discurso de "vamos pra cima e vamos conseguir tudo". É excelente, eu acho fantástico. Só que você reforça a posição do Bolsonaro. Agora que ele está quietinho fica fácil.

Você vê essa possibilidade de, forçado pela sociedade civil ou pelo sistema, o Bolsonaro acabar se enquadrando de alguma maneira?
Não vejo a menor chance, mesmo porque o tipo de estado de atenção, de alerta, em que está a sociedade hoje, se ele ficar quietinho por seis ou sete meses, as pessoas falam "está tudo certo, ele agora se enquadrou". E, enquanto isso, ele vai fazendo o quê? Ele vai organizando, por exemplo – para dar um exemplo só entre muitos possíveis –, as polícias estaduais em nível federal, que era o que ele tinha começado a fazer. Se a gente for olhar a taxa de letalidade das polícias estaduais na pandemia… Como é que aumenta a letalidade policial se diminui o número de crimes contra o patrimônio, se as pessoas estão em casa? Justamente! É isso, o bolsonarismo venceu nisso.
Existe um grau importante em que as polícias estaduais não respondem aos seus governadores. Isso é muito grave. E isso vai continuar. O Bolsonaro não vai deixar de fazer isso. E o que isso significa? Que as polícias estaduais não compõem uma força incontornável porque elas são estaduais. Se elas tiverem uma organização e responderem a uma organização nacional, em termos de efetivo elas têm o dobro do efetivo das Forças Armadas. É claro que elas não têm a capacidade bélica, de organização, de formação e de treinamento, mas imagine 500 mil pessoas armadas e o que você pode fazer com isso.
E eu vejo, para mim, muito claro que o motim no Ceará em fevereiro foi um ensaio. O Bolsonaro vai deixar de fazer isso? Não vai! E nós ter que esperar isso acontecer de novo? A gente sabe que a escalada autoritária passa por muitas coisas: destruir as instituições, fazer reformas eleitorais, reformas judiciárias para beneficiar quem está no poder, tudo isso. Mas tem uma outra parte, que é a seguinte. Existe uma passagem de grupos armados de milícias que se tornam políticos, entre muitas aspas. Você passa a justificar coisas que são criminosas como coisas políticas. Essa é uma passagem clássica de qualquer fenômeno autoritário.
O Bolsonaro está só ganhando tempo. Não é que ele está reformulando o governo dele. Ele está tentando não ser abatido.
O risco de uma coisa dessa acontecer é muito alto e continua sendo com o Bolsonaro no poder. Esse tipo de coisa nós não podemos permitir. Ele não pode, de novo, ganhar um crédito e dizer "não, agora ele está normalizado, agora ele está amansado". Nós não podemos admitir isso. Porque, quando essas milícias se tornam paramilitares no sentido político, você perdeu. Porque a sociedade não está armada. Quem está armado são esses grupos.
Nós temos que realmente nos mexer de maneira ativa para formar essa grande Frente Ampla para, sim, afastar Bolsonaro. É a única maneira que nós temos. E, claro, essa Frente tem que garantir que, seja lá qual for o governo que vai se seguir, não vai ser um governo autoritário, não vai ser um governo populista, não vai ser um governo de continuidade em relação a nada do que foi o governo Bolsonaro.
É isso que faz parte desse grande acordo interno dessa Frente também. Não é que todo mundo vai participar do governo, nada disso. Mas é garantir o governo não será um governo de continuidade. Isso é essencial. Foi isso que se garantiu no impeachment de Collor, uma garantia de que o governo Itamar não seria uma continuidade em relação ao governo Collor. Essas coisas são muito importantes.

Você acha que teve governador que não decretou lockdown por medo de não ser obedecido pelas polícias?
Ah, eu não tenho dúvida disso. Não tenho dúvida, porque quem é que vai aplicar a lei? Existem graus variados, mas é muito preocupante isso que está acontecendo. Você tem razões variadas. Governadores e prefeitos foram deixados ao Deus dará. E começou uma competição fratricida… quem é que consegue mais respirador. Porque não tem coordenação.
Numa situação em que é, no fundo, guerra de todos contra todos – porque foi o que aconteceu na pandemia, do ponto de vista do sistema, da organização do combate à pandemia, tirando o nosso glorioso SUS, o que a gente teve foi isso –, nesse contexto o poder das polícias é muito grande. Porque eles estão vendo que está tudo fragmentado, que você não tem centralização, que você não tem coordenação e que, portanto – eu não estou falando da cúpula da polícia, porque a cúpula da polícia está sempre com o governador, ela foi indicada pelo governador –, o problema é a base não responder mais à cúpula. Isso é muito grave.

Você acredita que faz sentido essa comparação que alguns analistas têm feito entre o que vive o Bolsonaro agora e a reconversão do lulismo em 2005-06 em virtude dos escândalos?
É um vexame essa comparação. É um vexame. É uma coisa que desonra. Esse tipo de comparação é realmente ultrajante para mim. Você está falando de um presidente que realmente quer implantar o autoritarismo no Brasil, como é o caso do Bolsonaro, e um presidente que deu provas de que é um profundo democrata, que é o Lula.
Primeira coisa: eu não comparo um democrata com um ditador. A segunda é que, do ponto de vista político, o que está acontecendo é que o Bolsonaro está só ganhando tempo. Não é que ele está reformulando o governo dele. Ele está tentando não ser abatido. O que aconteceu ali no governo Lula foi uma repactuação do projeto.
Você pode discordar, como eu discordei. Passei anos escrevendo coluna toda semana para dizer "olha, se não tiver reforma política isso aqui vai para o chão". A comparação, para mim, desonra. Não é possível comparar. O Bolsonaro está tentando se manter no poder de uma maneira desesperada. Não tem projeto ali, por enquanto. Mas seria comprida essa resposta, porque eu teria que fazer uma explanação mais detalhada. Então fica só a manchete.
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July 2, 2020

Esquetes, espetáculos e até mininovelas criados com recursos do celular viram hits do isolamento



Nomes como Pedroca, Mario Júnior e Rafael Infante viralizam conteúdo com muitos filtros de rosto e interação com a câmera Foto: Arte O Globo

Nelson Gobbi e Bolívar Torres

Primeiro surgiu Pipi, gato que desabafa contra atitudes do dono, como furar o confinamento para ir comprar sapatênis. Depois vieram Ivanildo e Letícia, ex-casal que ensaia uma reconciliação em plena quarentena. E assim, o Instagram de Pedroca Monteiro (do humorístico “Fora de hora”) foi ganhando personagens. Todos interpretados pelo ator e diferenciados pelos filtros que o aplicativo joga em seu rosto, eles conversam na sequência de posts — cada vídeo traz uma fala do diálogo. O conjunto de cenas curtas acabou virando uma série, que Pedroca chamou de “Mininovela” e que virou um minihit do isolamento.
Com público fiel, obras com essa dialogam com os códigos das redes, fazendo do celular não só uma ferramenta de captação e transmissão mas também um meio que influencia o conteúdo. Criado para vencer as limitações impostas pela pandemia de Covid-19, esse tipo de produção cresce e permite explorar novas experiências narrativas.
— Eu já usava filtros no (aplicativo) Snapchat, e passei a usar mais no Instagram com a quarentena. Isso me ajuda a ser mais radical no texto do que nos vídeos do meu canal no YouTube, o “Pedroca Desabafa”, mas de uma forma afetiva — observa o ator. — Um gato falando mal do seu dono chega ao público com mais leveza e humor, mesmo abordando assuntos sérios.
Outro ator célebre por sua capacidade de criar personagens e vozes marcantes, Jefferson Schroeder também utiliza o Instagram para desenvolver tipos cômicos, como os ETs Etela e Cocola ou a aspirante a cartomante Teka. O ator — que participou da série “Diário de um confinado”, do Globoplay, gravada à distância na quarentena — combina as vozes que cria com os filtros disponíveis.
— Eles vão me guiando, mas já perdi personagens porque os filtros saíram do app. Agora trabalho com um programador para desenvolver os meus próprios — comenta Schroeder, para quem a autonomia é fundamental. — Às vezes, o ator que é criador vai para a TV e não rende como nas redes. É muita gente envolvida e isso tira a identidade. A partir da quarentena, vemos outras oportunidades de criação.
Também utilizando o Instagram para criar personagens, Rafael Infante viu um tipo interpretado por ele em um esquete do “Porta dos Fundos” de 2015 voltar ao canal graças a aparições no seu perfil na rede. Em alta no canal de humor, o comentarista Carlinhos Avelar tenta explicar ao público fatos como a prisão de Fabrício Queiroz ou briga entre a cantora Anitta e o jornalista Léo Dias, sempre de forma confusa. Para gravar os quadros do “Plantananã”, Infante utiliza seu celular e é dirigido à distância via Zoom.
— Fiz posts do Carlinhos de brincadeira, falando de questões da quarentena, como as faxinas. Estava conversando para voltar ao “Porta” e veio a ideia de trazê-lo — conta Infante. — Crio com a equipe o roteiro, a partir de fatos de repercussão nacional, mantendo o enquadramento do celular em pé. Muita gente me diz que conhece alguém que fala como ele, ou que tem um Carlinhos interior.
Mas as narrativas desenvolvidas a partir do uso do celular não se restringem ao humor e ao Instagram. Uma das maiores celebridades do TikTok no país, Mário Jr, ou Izmaario, tornou-se conhecido por seus vídeos sedutores no formato POV (ponto de vista), em que se dirige à câmera do telefone “interagindo” com personagens imaginárias. Inspirado nas comédias românticas, do qual é fã, ele encarna o “nice guy”, personagem que lhe rendeu em poucos meses quase um milhão de seguidores.
— Meu diferencial é elaborar essas histórias. O TikTok permite criar uma narrativa a partir de uma música, de uma dublagem. Eu peguei as comédias românticas que consumia e trouxe para minha realidade — diz Mário, que trabalha em um hotel na Inglaterra.
O uso do celular também possibilitou que o espetáculo “O filho do presidente” pudesse ser encenado em plena quarentena. Com direção de Natasha Corbelino e texto e atuação de Ricardo Cabral, a peça era ensaiada desde fevereiro, mas com a pandemia passou a incluir o aparelho como dispositivo de cena. Com o telefone na mão, Cabral aproxima e afasta sua imagem do público, que assiste ao espetáculo pelo Zoom, nos três meses em que ele está em cartaz.
— O audiovisual nos habituou com o enquadramento na horizontal. Optamos por enquadrar com o celular em pé, para dar uma bagunçada nesta produção de imagem — destaca Cabral. — É diferente de um teatro filmado, o telefone entra neste jogo lúdico como parte da cena.
Para a cineasta e produtora Camila Cornelsen, especializada em narrativas digitais, a dramaturgia que vemos nas várias plataformas ganhou mais evidência na quarentena, quando houve uma corrida às redes para se manter criativo e produtivo.
— Ferramentas usadas no TikTok já existiam no Snapchat e no Music.ly. As pessoas só não tinham chegado nelas ainda — diz Camila. — Para mim, o importante é entender como as pessoas estão consumindo essas imagens agora. E como fazer com que o material seja visto e absorvido nesse contexto.

O NOSSO LADO GIL

 CORA RONAI


A toda hora alguém escreve — e outros tantos alguéns leem — que só a arte salva. Sabemos que é verdade. Todos já fomos salvos por um poema numa hora de necessidade, por uma boa música num momento ruim. Poucas vezes, porém, se viu exemplo tão perfeito do poder de redenção da arte quanto na live de Gilberto Gil que foi ao ar sexta-feira passada e que, durante quase duas horas, fez brilhar de novo o Brasil de que tanto sentimos falta — um país hospitaleiro e alegre, generoso e humano, que talvez nunca tenha existido de verdade, mas cuja imagem carregamos no coração.

Gil em família, se apresentando com Nara, Preta, Bem e José (mais Bela fazendo as honras da casa), cantando e explicando xotes, baiões e xaxados, com Jorginho Gomes na zabumba e o sanfoneiro Mestrinho, o palco improvisado no sítio em Araras, luzes e bandeirinhas de São João: coisa que, se a gente ouve no estrangeiro, desata a chorar de saudade desesperada.

Estávamos, ao contrário, todos em casa, bem trancados pela quarentena, ainda que ilhados neste Brasil hostil e esquisito que nos espanta várias vezes por dia, todos os dias, fechando a semana com mais uma live perdida num mar de lives, quem é que ainda aguenta lives?

A questão é que, há tempos, Gil deixou de ser apenas Gil.

“Apenas Gil” é uma contradição em termos, mas Gil é mais do que jamais foi, o homem que viu tudo antes de todos, a suavidade em pessoa, o sábio da tribo.

Ver Gil não é bem “ver Gil”; é algo mais perto do “darshan” dos hindus, uma palavra que define o sentimento que se tem diante dos gurus.

De modo que a live começa como começam todas as lives, mas logo nos leva emocionalmente para um lugar melhor do que aquele em que estamos. O Brasil da live do Gil é um endereço superior, um espaço de tal felicidade que, horas depois de terminar, ainda estamos lá, sorrindo, as músicas nossas velhas conhecidas tocando na alma.

O sentimento foi geral.

Minha amiga de Facebook Rubia Coelho, por exemplo, deixou um recado: “Já que você consegue falar com ele, diga-lhe que somente hoje, depois destes quase cem dias de tristeza, pude ficar tão feliz que estou chorando! Dancei o tempo todo! Cantei, me emocionei e queria muito agradecer o bem que ele me fez!”. Jaqueline Oliveira e Lucila Vigneron Villaça confirmaram que se sentiram exatamente assim. Mas de alto a baixo a internet reafirmava essa onda de alegria em milhares de comentários emocionados: “Maravilhosa! Dancei aqui, cantei junto todas as músicas e, por uma hora, esqueci das trevas”, “Foi minha festa junina!”, “Que saudade do meu Brasil!”, “Maravilhosa, emocionante, massagem no coração!”, “Esse é o nosso país!”, “O ar ficou até mais leve! Ainda existe o meu Brasil!”, “Trouxe uma alegria meio perdida, motivo de orgulho para nós brasileiros!”, “ Que presente maravilhoso que ele deu para todos nós!”.

Muito obrigada, querido Gil.

June 28, 2020

Bryan Stevenson on the Frustration Behind the George Floyd Protests


“Changing the way we police, prosecute, judge, and punish is the essence of criminal-justice reform,” the civil-rights lawyer Bryan Stevenson says.


By
Isaac Chotiner
newyorker.com
 
j
The past weekend saw the start of an uprising in dozens of American cities, with tens of thousands of people taking to the streets for peaceful protests and violent encounters with the police. The proximate cause was the killing of George Floyd, an unarmed, handcuffed African-American man, by a Minneapolis police officer, Derek Chauvin. In Minneapolis and other cities, police in riot gear have responded aggressively to protests and looting, pushing and shoving protesters and using an arsenal of crowd-control weaponry. In Louisville, a black restaurant owner was shot dead, under circumstances that remain unclear; in Brooklyn, social media captured an incident in which police officers drove into a crowd of protesters.

On Sunday, I spoke by phone with Bryan Stevenson, a civil-rights lawyer and the founder of the Equal Justice Initiative, a human-rights organization that challenges convictions, advocates for criminal-justice reform and racial justice, and created the National Memorial for Peace and Justice, in Montgomery, Alabama, which honors the victims of lynching and other forms of racial terror during the Jim Crow era. Stevenson, who was the subject of a Profile, by Jeffrey Toobin, in 2016, is also the author of a memoir, “Just Mercy,” which was made into a feature film last year. During our conversation, which has been edited for length and clarity, Stevenson and I discussed the roots of police violence in both slavery and Jim Crow, how to change the culture of policing, and the frustration and despair behind this week’s protests.

What has been your biggest takeaway from the past week?


We need to reckon with our history of racial injustice. I think everything we are seeing is a symptom of a larger disease. We have never honestly addressed all the damage that was done during the two and a half centuries that we enslaved black people. The great evil of American slavery wasn’t the involuntary servitude; it was the fiction that black people aren’t as good as white people, and aren’t the equals of white people, and are less evolved, less human, less capable, less worthy, less deserving than white people.
That ideology of white supremacy was necessary to justify enslavement, and it is the legacy of slavery that we haven’t acknowledged. This is why I have argued that slavery didn’t end in 1865; it evolved. Next month will be the hundred and fifty-fifth anniversary of when black people gathered to celebrate the end of slavery: Juneteenth. They believed they would receive the vote, and the protection of the law, and land, and opportunity, and have a chance to be full Americans. They were denied all of those things because this ideology of white supremacy would not allow Southern whites to accept them, to value them and to protect them, and so, immediately after 1865 and the Thirteenth Amendment, violence broke out. We are going to be releasing a report next month on the horrendous violence that took place during Reconstruction, which blocked all of the progress.
So, for me, you can’t understand these present-day issues without understanding the persistent refusal to view black people as equals. It has changed, but that history of violence, where we used terror and intimidation and lynching and then Jim Crow laws and then the police, created this presumption of dangerousness and guilt. It doesn’t matter how hard you try, how educated you are, where you go in this country—if you are black, or you are brown, you are going to have to navigate that presumption, and that makes encounters with the police just rife with the potential for these specific outcomes which we have seen.

How do you think our current era of criminal justice and policing is a continuation of that past?

I think the police have been the face of oppression in many ways. Even before the Civil War, law enforcement was complicit in sustaining enslavement. It was the police who were tasked with tracking down fugitive slaves from 1850 onwards in the north. After emancipation, it was law enforcement that stepped back and allowed black communities to be terrorized and victimized. We had an overthrow of government during Reconstruction, and law enforcement facilitated that. Then, throughout the first half of the twentieth century, it was law enforcement and police and our justice system that allowed people to be lynched by white mobs, sometimes literally on the courthouse lawn, and allowed the perpetrators of that terror and violence to engage in these acts of murder with impunity. They were even complicit in it. And, as courageous black people began to advocate for civil rights in the nineteen-fifties and nineteen-sixties, when these older, nonviolent black Americans would literally be on their knees, praying, they were battered and bloodied by uniformed police officers. That identity of violence and oppression is not something we can ignore. We have to address it. But, rather than address it, since the nineteen-sixties, we have been trying to distract ourselves from it and not acknowledge it, and not own up to it, and all of our efforts have been compromised by this refusal to recognize that we need to radically change the culture of police.
Now, the police are an extension of our larger society, and, when we try to disconnect them from the justice system and the lawmakers and the policymakers, we don’t accurately get at it. The history of this country, when it comes to racial justice and social justice, unlike what we do in other areas, is, like, O.K., it’s 1865, we won’t enslave you and traffic you anymore, and they were forced to make that agreement. And then, after a half century of mob lynching, it’s, like, O.K., we won’t allow the mobs to pull you out of the jail and lynch you anymore. And that came after pressure. And then it was, O.K., we won’t legally block you from voting, and legally prevent you from going into restaurants and public accommodations.
But at no point was there an acknowledgement that we were wrong and we are sorry. It was always compelled, by the Union Army, by international pressure, by the federal courts, and that dynamic has meant that there is no more remorse or regret or consciousness of wrongdoing. The police don’t think they did anything wrong over the past fifty or sixty years. And so, in that respect, we have created a culture that allows our police departments to see themselves as agents of control, and that culture has to shift. And this goes beyond the dynamics of race. We have created a culture where police officers think of themselves as warriors, not guardians.

Do you think this situation with the policy today has a specific purpose, and what is it?

It does. But the purpose was possible because of our unwillingness to recognize the wrongfulness of this racial hierarchy. Even the abolitionists, many of whom fought to end slavery, didn’t believe in racial equality. So, if you embrace white supremacy, then you are going to use black people and exploit black people and deny black people opportunities, because it advances that purpose. And a lot of white supremacy wasn’t even “purposeful.” What was the purpose of banning interracial marriage? What was the purpose of banning black people from coming into restaurants? It was about maintaining racial hierarchy, and that presumption or narrative that black people are dangerous, that black people can’t be trusted, that black people have to be controlled. And if it didn’t have an economic value, that didn’t mean that it wasn’t purposeful. The purpose was to sustain that hierarchy.
So you take a history like that, and then you combine it with a culture like the culture of policing that we have created, where people are taught to fight and to shoot like soldiers. When the government equips police departments like they’re equipping the military, we undermine healthy relationships between the police and the community. We don’t train them to deëscalate, or deal with people suffering from mental illness or the complexities and anger and frustrations of poverty. And then we bring them in, often to places where they don’t live. We view the police as an occupying military force. That kind of culture gives rise to the violence that we see.
It is possible to create a police department where people think of themselves as guardians. Their commitment is to protect and serve even the people they are arresting. The best police officers will tell you that their job is to make sure that the person who may have just committed a crime is safely encountered, that they keep that person safe, but that is not the way most police officers are trained. And we facilitate it by protecting the whole institution, so no one in this country can tell you how many people were killed by the police last year, because we don’t require that data. People have been trying for two decades to mandate the disclosure of that kind of information, and there is this institutional resistance. And that’s a larger problem—the way we have insulated these institutions from reform.

Should the protests be oriented toward a specific agenda, and, if so, what should that agenda be?

I don’t think it would be fair to ask protesters to solve the problems created by this long history. In many ways, protests are a reaction of frustration and anger to the unwillingness of elected officials to engage in the kind of reforms that need to happen. The protests are a symbol of frustration and despair. I think the answers have to come from elected officials. We can change the culture of institutions in this country. We have done it time and time again. In the nineteen-seventies and nineteen-eighties, if you look at the laws, there was hardly any punishment for people convicted of driving while drunk. We tolerated it. Even though it was catastrophic, it wasn’t something we saw as a priority. Then Mothers Against Drunk Driving began lifting up new narratives, and all of a sudden the political will shifted. We created a new culture, and we now take stronger steps.
Regardless of the wealth or affluence of the offender, we do more. That is a cultural shift that has made death from drunk driving much less frequent than it was fifty years ago.

With domestic violence, it is the same story. In the nineteen-sixties, a woman who called the police could not expect that her spouse would be arrested. The police would come and pull him outside and tell jokes. There was a sympathy for the frustration that led to violence. And then we began changing that narrative. Women and victims of domestic violence started lifting their voices, and the political will changed. And today we have a radically different view of people who engage in domestic violence. Even our most prominent athletes and celebrities, if accused credibly, are going to be held accountable in ways that weren’t true even ten years ago. That is a cultural shift. And we are in the midst of a cultural shift about sexual harassment in the workplace. There is a different tolerance level. In New York, people need to take tests to make sure they can recognize sexual harassment.

We have not engaged in that kind of cultural transformation when it comes to policing. Now, we have the tools. We know how to do it. I spent several months on President Obama’s task force on policing, in 2015, after we had a period of riots. We have forty pages of recommendations. That can change the culture of policing. It begins with training. It begins with procedural justice, and policies, and changing the way police officers are viewed and opening up communities.

Do you think the Obama Administration did enough on this issue, especially before 2015?

No one has done enough. But this is not a federal problem alone. I am critical of the current Administration shelving all of those recommendations, withdrawing from lawsuits where police departments had been sued, and signalling that we do not care about this anymore. But I also don’t believe that excuses what mayors and governors and local officials have failed to do. You don’t need a White House to engage in culture change at your police department. That can be done in cities and communities and states. These reforms need to happen locally. The federal government can and should be playing a bigger role in incentivizing these changes. But anyone looking to the White House and the Presidency exclusively is not going to get it. I also think that, if we allow another five years to go by with no meaningful reform, then we have to stop talking about Washington. Every mayor and governor in this country has a blueprint for changing culture in policing and making things better. Whether they do it or not is the harder question.

You are saying this can’t come from the top alone—but, having someone at the top of the system who talks about shooting people and tells police to get tough, how much does that worry you about the future, even knowing how bad the past has been?

Yeah, I think any time we reinforce this idea that police officers are there to control and dominate and menace, that they should be unapologetic and feared and ready for battle, we are reinforcing the culture and the dynamic that has given rise to so much distrust. It’s not good for public safety. It is not even good for officer safety, and it is certainly not good for creating the kinds of healthy communities that most of us want to live in. It’s the wrong model. It’s like someone coming along and saying, “Doctors don’t need to care for their patients, or talk to their patients, or be polite, or be respectful, or show any interest. They have skills and knowledge, and their job is to treat, and anybody who is asking for more than that is too much.” That mind-set will cause a lot of people to die. They will not get the health care that they need, and doctors will not be successful because it’s the wrong culture for helping people get the cure and treatment that they need.

The same is true for public safety. You can go to other places in the world and see evidence of this everywhere. And we have even done it here. There are police departments in this country that have radically changed their relationship to the community. Camden, New Jersey, fifty years ago, was just a boiling pot, and things would blow up all the time, and relationships between police and community leaders were fraught with tension and conflict. And that has changed radically because of leadership and engagement.

Many of these protests this week have had more white people than the protests five years ago. How do you think that is or is not likely to change the movement?
To be honest, it’s not that hard to protest. It’s not that hard to go someplace. And it doesn’t mean that it’s not important. It doesn’t mean that it’s not critical. But that’s not the hard thing we need from people who care about these issues. We need people to vote, we need people to engage in policy reform and political reform, we need people to not tolerate the rhetoric of fear and anger that so many of our elected officials use to sustain power. We need the cultural environments in the workplace to shift.

Black people in this country have to live this very complex existence when they live and go to work and go to school in these spaces which are largely controlled by white people. They can’t really be their authentic selves. That means that there is this tension and there is this challenge, and at some point you get overwhelmed by that. And when these incidents of police violence take place, and people are killed, literally, on video, right in front of you, and the perpetrators are staring at you, you get angry and you want to express that anger.

It’s not just anger over what happened to George Floyd or Breonna Taylor or Ahmaud Arbery. It is anger about continuing to live in a world where there is this presumption of dangerousness and guilt wherever you go. I’m sixty years old and have been practicing law for thirty-five years. I have a lot of honorary degrees and went to Harvard. And I still go places where I am presumed dangerous. I have been told to leave courtrooms because the presumption was that I was the defendant and not the lawyer. I have been pulled out of my car by police who pointed a gun on me. And I can just tell you that, when you have to navigate this presumption of guilt, day in and day out, and when the burden is on you to make the people around you see you as fully human and equal, you get exhausted. You are tired. And I would argue that the black people in the streets are expressing their fatigue, their anger, and their frustration at having to live this menaced life in America. And that is not the same thing for white people who are supporting them. It doesn’t mean that white people shouldn’t be supporting them, but I don’t think it’s the proper focus of what many of us are trying to give voice to.

Criminal-justice reform has become a bipartisan issue, but it often seems to be spoken of as being distinct from police brutality and police reform. How important is it to bring police reform into the broader context of criminal-justice reform?

I think, for many of us, it has always been at the center of it. Changing the way we police, prosecute, judge, and punish is the essence of criminal-justice reform.
I think people use the phrase “criminal-justice reform” in a pretty lazy way. Modifying the federal sentencing parameters at the edges, so a very small percentage of people in federal prisons might get reduced sentences, is not meaningful criminal-justice reform. Ninety per cent of the prisoners in the United States are in the state system. That is not impacted by what the White House or any President has done. [The Obama Administration amended federal sentencing guidelines in order to reduce the sentences of people convicted of nonviolent drug crimes. In 2017, Jeff Sessions, who was then the Attorney General, overturned those reforms.] The real meaningful reform would have been implementing the task force’s recommendations, changing the way we think about police and prosecutorial accountability, mandating the data disclosure that would allow us to evaluate the nature of this problem. And, when you don’t do those things, everything else you do is going to be compromised.

We had the so-called War on Drugs that was carried out against black and brown people, because the law-enforcement agents that were the people carrying out that war saw black and brown people differently. That’s a policing and prosecutorial problem. The immunity we have created to shield people from accountability is a barrier to shield people from any effective reform. That includes sentencing and all these others things, because, if prosecutors can withhold evidence and wrongly convict people, and police can abuse people and coerce confessions, then nothing else we do at the sentencingor policy level is going to be effective. And that has to change.

 

June 27, 2020

Milton Glaser, Master Designer of ‘I ♥ NY’ Logo, Is Dead at 91

He was also a founder of New York magazine, created a memorable Bob Dylan poster and produced designs for everything from supermarkets to restaurants to “Mad Men.”


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Milton Glaser, a graphic designer who changed the vocabulary of American visual culture in the 1960s and ’70s with his brightly colored, extroverted posters, magazines, book covers and record sleeves, notably his 1967 poster of Bob Dylan with psychedelic hair and his “I ♥ NY” logo, died on Friday, his 91st birthday, in Manhattan.
His wife and only immediate survivor, Shirley Glaser, said the cause was a stroke. He also had renal failure.
Mr. Glaser brought wit, whimsy, narrative and skilled drawing to commercial art at a time when advertising was dominated by the severe strictures of modernism on one hand and the cozy realism of magazines like The Saturday Evening Post on the other.
At Push Pin Studios, which he and several former Cooper Union classmates formed in 1954, he opened up design to myriad influences and styles that began to grab the attention of magazines and advertising agencies, largely through the studio’s influential promotional publication, the Push Pin Almanack (later renamed Push Pin Monthly Graphic).
“We were excited by the very idea that we could use anything in the visual history of humankind as influence,” Mr. Glaser, who designed more than 400 posters over the course of his career, said in an interview for the book “The Push Pin Graphic: A Quarter Century of Innovative Design and Illustration” (2004).
“Art Nouveau, Chinese wash drawing, German woodcuts, American primitive paintings, the Viennese secession and cartoons of the ’30s were an endless source of inspiration,” he added. “All the things that the doctrine of orthodox modernism seemed to have contempt for — ornamentation, narrative illustration, visual ambiguity — attracted us.”
Credit...Milton Glaser
Mr. Glaser delighted in combining visual elements and stylistic motifs from far-flung sources. For a 1968 ad for Olivetti, he modified a 15th-century painting by Piero di Cosimo showing a mourning dog and inserted the Italian company’s latest portable typewriter at the feet of the dead nymph in the original artwork.
For the Dylan poster, a promotional piece included in the 1967 album “Bob Dylan’s Greatest Hits,” he created a simple outline of the singer’s head, based on a black-and-white self-portrait silhouette by Marcel Duchamp, and added thick, wavy bands of color for the hair, forms he imported from Islamic art.
Nearly six million posters made their way into homes across the world. Endlessly reproduced, the image became one of the visual signatures of the era.
“I ♥ NY,” his logo for a 1977 campaign to promote tourism in New York State, achieved even wider currency. Sketched on the back of an envelope with red crayon during a taxi ride, it was printed in black letters in a chubby typeface, with a cherry-red heart standing in for the word “love.” Almost immediately, the logo became an instantly recognized symbol of New York City, as recognizable as the Empire State Building or the Statue of Liberty.
“I’m flabbergasted by what happened to this little, simple nothing of an idea,” Mr. Glaser told The Village Voice in 2011.
After the terrorist attacks of Sept. 11, 2001, T-shirts emblazoned with the logo sold in the thousands, as visitors to the city seized on it as a way of expressing solidarity. Mr. Glaser designed a modified version — “I ♥ NY More Than Ever,” with a dark bruise on the heart — which was distributed as a poster throughout the city and reproduced on the front and back pages of The Daily News on Sept. 19.
Milton Glaser was born on June 26, 1929, in the Bronx, to Eugene and Eleanor (Bergman) Glaser, immigrants from Hungary. His father owned a dry-cleaning and tailoring shop; his mother was a homemaker.
When Milton was a young boy, an older cousin drew a bird on the side of a paper bag to amuse him. “Suddenly, I almost fainted with the realization that you could create life with a pencil,” he told Inc. magazine in 2014. “And at that moment, I decided that’s how I was going to spend my life.”
He took drawing classes with Raphael and Moses Soyer, the social realist artists, before enrolling in the High School of Music & Art in Manhattan (now the Fiorello H. LaGuardia High School of Music & Art and Performing Arts). After twice failing the entrance exam for Pratt Institute, he worked at a package-design company before being accepted by the Cooper Union for the Advancement of Science and Art.
While at the Cooper Union, he and three classmates — Seymour Chwast, Edward Sorel and Reynold Ruffins — rented part of a loft in Greenwich Village and created a company, Design Plus. They completed one project: cork place mats with a silk-screened design, which they sold to Wanamaker’s department store.
After graduating from the Cooper Union in 1951 and working in the promotion department at Vogue magazine, Mr. Glaser won a Fulbright scholarship to the Academy of Fine Arts in Bologna, Italy, where he studied etching with the still-life painter Giorgio Morandi and, in the time-honored way, drew from plaster casts. The experience left him a fervent believer in the discipline of drawing and an enemy of found images and collage in design work.
“A designer who must rely on cutouts and rearranging to create effects, who cannot achieve the specific image or idea he wants by drawing, is in trouble,” he told the magazine Graphis in 1960.
Returning to New York, Mr. Glaser resumed his partnership with his former classmates, who had created the Push Pin Almanack to advertise their work and allow them to experiment. When they founded Push Pin Studios in 1954, Mr. Glaser was named its president. The studio quickly became recognized for its bright colors, surreal juxtapositions and exaggerated, flattened forms, seen in book jackets (Mr. Glaser designed all the covers for the Signet Classic Shakespeare series), magazine illustrations, record covers, television commercials and typography.
He married Shirley Girton, his replacement at the package-design company that first hired him, in 1957. The couple collaborated on the children’s books “If Apples Had Teeth” (1960), “The Alphazeds” (2003) and “The Big Race” (2005). They lived in Manhattan and Woodstock, N.Y.
Mr. Glaser, whom Newsweek once called “one of the few geniuses in the image-making trade,” was widely credited with creating the pudgy, cartoony style known as “Yellow Submarine” art, popularized by the 1968 animated Beatles film but practiced at Push Pin since the late 1950s.
Mr. Glaser joined forces with the editor Clay Felker in 1968 to found New York magazine, where he was president and design director until 1977, imposing a visual format that still largely survives. With his friend Jerome Snyder, the art director of Scientific American, he wrote a budget-dining column, “The Underground Gourmet,” for The New York Herald Tribune and, later, New York magazine. The column spawned a guidebook of the same name in 1966 and “The Underground Gourmet Cookbook” in 1975.
Mr. Glaser started his own design firm, Milton Glaser Inc., in 1974. A year later he left Push Pin, just as he was being given his own show at the Museum of Modern Art.
“At a certain point we were accepted, and once that happens, everything becomes less interesting,” he said in an interview for “Graphic Design in America: A Visual Language History,” an exhibition at the Walker Art Center in Minneapolis in 1989.
He was hired by the British tycoon James Goldsmith in 1978 to redesign the interiors, exteriors and packaging of the Grand Union chain of supermarkets, which Mr. Goldsmith had just acquired. Mr. Glaser designed several projects for the restaurateur Joe Baum, most memorably the Big Kitchen food court on the ground-floor concourse of the World Trade Center, the 1990s redesign of Windows on the World there and the Rainbow Room in Rockefeller Center.
In 1983, with Walter Bernard, Mr. Glaser formed WBMG, a publication design firm that revamped dozens of newspapers and magazines in the United States and abroad, including The Washington Post and O Globo in Brazil. He and Mr. Bernard later collaborated on a history of their design work, “Mag Men: 50 Years of Making Magazines,” which was published in December.
He managed to stay current. In the late 1980s he designed the AIDS logo for the World Health Organization and the logo and packaging for Brooklyn Brewery, using a capital B inspired by the old Brooklyn Dodgers. He designed a logo for “Angels in America,” Tony Kushner’s Pulitzer Prize-winning play, and posters for Vespa’s 50th anniversary in 1996 and for the final season of the television series “Mad Men” in 2014.
Mr. Glaser, whose other books include “The Milton Glaser Poster Book” (1977), “Art Is Work” (2000) and “Drawing Is Thinking” (2008), taught for many years at the School of Visual Arts in Manhattan. He was the subject of the 2008 documentary film “Milton Glaser: To Inform and Delight.”
In 2004 he received a lifetime achievement award from the Cooper-Hewitt National Design Museum (now the Cooper Hewitt, Smithsonian Design Museum), and in 2009 he became the first graphic designer to receive the National Medal of Arts.
“I’m a person who deals with visual material whatever it is — architecture, an object, a set of plates, wallpaper — right now I’m doing T-shirts,” he told Aileen Kwun and Bryn Smith for their book “Twenty Over Eighty: Conversations on a Lifetime in Architecture and Design” (2016). “I know a lot about the way things look, and as a consequence, I try to see how much of that world I can embrace.”
Jenny Gros
s contributed reporting.
© 2020 The New York Times Company.

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June 24, 2020

A aliança desconfortável entre o Facebook e Trump

Presidente do Facebook Mark Zuckerberg Foto: Erin Scott / REUTERS

Ben Smith, do New York Times

Em 20 de novembro passado, a NBC News noticiou que o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, o presidente americano, Donald Trump, e um membro do conselho da rede social, Peter Thiel, haviam jantado juntos na Casa Branca no mês anterior. "Não está claro por que a reunião não foi tornada pública ou o que os três discutiram", ressaltou a reportagem.

Nenhuma informação foi dita desde então; nem a data nem quem organizou o cardápio, o local, os assentos, ou a lista completa de convidados. Muito menos se falou se algum tipo de acordo foi feito entre dois dos homens mais poderosos do mundo. O ciclo de notícias prosseguiu e o jantar se tornou um dos mistérios não resolvidos do poder americano.

No entanto, pude desvendar alguns desses detalhes perdidos na semana passada, conversando com funcionários da Casa Branca, além de empregados atuais e antigos do Facebook e pessoas ligadas ao assunto. A maioria disse que só falaria sob a condição de que seus nomes não fossem divulgados, já que a empresa não está interessada em chamar a atenção para o relacionamento de Zuckerberg com o presidente.


Os relatos dão conta de uma reunião incomum — algo entre um jantar de alto risco entre os líderes de superpotências aliadas e o estranho ensaio de um casamento que deixa ambas famílias um pouco abaladas.

O genro de Trump, Jared Kushner, organizou o jantar em 22 de outubro, pouco tempo depois de saber que Zuckerberg, o fundador do Facebook e sua esposa, Priscilla Chan, estariam em Washington para uma audiência sobre criptomoeda no Capitólio, conforme disse uma pessoa familiarizada com o planejamento. O encontro, segundo essa pessoa, aconteceu no Quarto Azul, no primeiro andar da Casa Branca. A lista de convidados incluía Thiel, grande apoiador de Trump, e seu marido, Matt Danzeisen; Melania Trump; Kushner e Ivanka Trump. O presidente falou a maior parte do tempo, de acordo com uma fonte ligada a Zuckerberg. O clima era agradável, disse outra pessoa que recebeu uma conta do jantar. Trump gosta de bilionários e gosta de pessoas que são úteis para ele, e o CEO do Facebook desempenha esses dois papeis.

Mas sobre o jantar privado há uma pergunta: Trump e Zuckerberg chegaram a algum tipo de acordo? Zuckerberg precisa, e parece estar conseguindo, ser deixado de lado tanto dos tweets raivosos do presidente, quanto pelas sérias ameaças de processos e regulamentos que enfrentam outras grandes empresas de tecnologia. Trump precisa acessar a plataforma de publicidade do Facebook e seu poder de viralização.

Ambos estão conseguindo o que querem, e é justo pensar se isso é um mero alinhamento de interesses ou algo mais.

— Acredito que eles tenham um acordo — disse Roger McNamee, um dos primeiros investidores do Facebook e agora é um crítico feroz da plataforma. Ele acrescenta que "provavelmente estava implícito e não explícito". — O acordo de Mark [Zuckerberg] com Trump é altamente útil. Trata-se basicamente de conseguir liberdade e proteção contra regulamentação. E Trump precisa do Facebook na balança para vencer esta eleição.

Greve na rede:Funcionários do Facebook organizam greve virtual contra política da rede para postagens de Trump

Jesse Lehrich, cofundador da Accountable Tech, um grupo sem fins lucrativos que pressiona o Facebook a reforçar a fiscalização na plataforma, sugeriu que os dois homens tenham um pacto tácito de não agressão.

— Trump pode se enfurecer com a Big Tech e Mark pode dizer que está enojado com as postagens do presidente, mas, no final do dia, o status quo serve aos interesses de ambos— disse Lehrich.
Funcionários do Facebook e do governo zombam da ideia de que haja algum tipo de pacto secreto. E é difícil imaginar que alguém — especialmente Zuckerberg — seria burro o suficiente para fazer algo do tipo com um presidente conhecido por não guardar segredos nem pactos.

Aproximações passadas

Trump e Zuckerberg haviam se visto apenas uma vez antes do jantar, em um encontro no Salão Oval em setembro passado. Depois, o presidente se gabou do número enorme de seguidores na plataforma. No entanto, outubro foi um mês quente para o Facebook: Zuckerberg estava em uma batalha aberta contra uma das principais candidatas presidenciais democratas, a senadora Elizabeth Warren, que ameaçava desmembrar a rede social — o que o CEO da rede chamou de "uma ameaça existencial" para a empresa. Na manhã do jantar, um funcionário britânico de alto cargo exigiu respostas sobre por que o Facebook toleraria falsas propagandas políticas.

De acordo com um executivo do Facebook, Zuckerberg parece ver Trump como um colega. Mas, por outro lado, duas pessoas ligadas ao bilionário afirmaram que ele disse a diversos assessores, em uma reunião em março, que Kushner o estava procurando muito para falar sobre a resposta do governo ao novo coronavírus; algo que ele não aguentava mais.

Um porta-voz do Facebook, Tucker Bounds, disse que o CEO da rede social não se considerava alguém próximo do presidente, mas confirmou a aproximação com o genro de Trump.
— Mark não se considera um colega deste presidente ou de qualquer outro presidente — disse Bounds, acrescentando que Zuckerberg havia iniciado a conversa com Kushner sobre o combate ao coronavírus.

Facebook: Zuckerberg promete rever políticas após mensagens polêmicas de Trump e críticas de funcionários

Zuckerberg jogou a política de alto risco e imprevisível da gestão de Trump, assim como qualquer outro executivo corporativo. E uma semana antes do jantar em outubro passado, ele deixou claro em um discurso que seus interesses e o do chefe da Casa Branca estavam alinhados: Zuckerberg rejeitaria um movimento crescente para limitar as declarações falsas ou inflamatórias do presidente americano.

— Não acho certo que uma empresa privada censure políticos ou notícias em uma democracia — disse Zuckerberg em discurso na Universidade de Georgetown, no dia 17 de outubro. — Não fazemos isso para ajudar políticos, mas porque achamos que as pessoas devem poder ver por si mesmas o que os políticos estão dizendo.

Trump, por sua vez, tem sido notavelmente mais suave contra o Facebook do que em relação a Amazon, Google, Twitter ou Netflix, especialmente em um momento em que seu aparato regulatório frequentemente se concentra nos inimigos políticos que ele cita em seus tweets.

Ainda assim, o Facebook, como outros gigantes da tecnologia, encontra-se em um embate político: os democratas os odeiam e desconfiam deles porque espalham informações erradas da direita e ajudaram a eleger Trump; os republicanos também os odeiam e desconfiam deles, porque são dirigidos por progressistas da Califórnia e apagam algumas publicações da direita. O Facebook, entretanto, evitou essa armadilha hábil nos últimos três anos e meio, movendo-se com mais rapidez e empenho do que seus concorrentes para acalmar os conservadores.

O Facebook sempre teve um ouvido mais aguçado para o lado direito de Washington do que grande parte do Vale do Silício, dirigido em parte por Joel Kaplan, um amigo de Zuckerberg e ex-funcionário do governo Bush que é vice-presidente de políticas públicas globais do Facebook. Porém, a tentativa de conquistar a mídia conservadora começou mais intensamente na primavera de 2016, quando o blog Gizmodo alegou que a moderação do conteúdo no Facebook "suprimiu as notícias conservadoras" — um aparato de direita que passou décadas reivindicando viés da mídia e que voltou sua atenção para a gigante da tecnologia. Zuckerberg deu a resposta que esperavam — ele deu fim a ferramenta de Trending Topics, alvo dos ataques, passou a receber críticos em reuniões e sinalizou que compartilhava das mesmas preocupações.

Rota de colisão

No ano seguinte, Trump continuou a pressionar as normas sobre verdade e civilidade das redes sociais, e as plataformas de mídia social começaram a levar mais a sério os problemas de desinformação e assédio — o que fez com que fosse inevitável o surgimento de uma rota de colisão. A dependência de Trump com o Facebook como veículo de publicidade — ele gastou US $ 44 milhões na plataforma em 2016 e espera-se que exceda o valor neste ano — significa que precisa da empresa tanto quanto ela precisa dele. E, como a equipe do New York Times noticiou em maio, Zuckerberg encarna cada vez mais o seu negócio.

Portanto, o relacionamento caloroso do CEO do Facebook com o presidente e sua família é uma vitória para a equipe de política interna da empresa liderada por Kaplan. Mas a empresa, segundo dizem pessoas envolvidas com a estratégia política da plataforma, está tendo um debate interno sobre equilibrar a realidade do controle republicano das agências reguladoras com o fato de que os democratas são muito mais propensos, a longo prazo, a promover uma nova supervisão ou tente dividir a empresa forçando a venda do Instagram ou WhatsApp. O equilíbrio, no governo Trump, pendeu para a direita. Sheryl Sandberg, chefe de operação do Facebook e uma democrata poderosa, viu suas conexões com os democratas se desgastarem à medida que a rede os desafiava e seu poder na empresa diminuía.


A administração de Trump retribuiu a aproximação. O Departamento de Justiça está atualmente conduzindo investigações antitruste dos gigantes da tecnologia. Mas enquanto o Google e a Amazon enfrentam "investigações sérias", o inquérito do Facebook "não é real", disse uma pessoa familiarizada com o assunto. E o Facebook tem agido como se estivesse livre de preocupações em Washington. Continuou a adquirir empresas, como informou o repórter Mike Isaac na semana passada, e se adaptou para permitir que os usuários enviassem mensagens entre o Messenger, WhatsApp e Instagram — uma fusão dos serviços que poderiam aumentar ainda mais as preocupações com o monopólio. A visão do Facebook é que é muito menos dominante em qualquer mercado do que as outras grandes empresas de tecnologia e tem menos com o que se preocupar do que o Google ou a Amazon.

O verão de 2020 é um daqueles momentos em que Washington corporativo começa a entrar em pânico. O que parecia política hábil da Era Trump agora parece de exposição e risco. Os principais democratas, incluindo Joe Biden e Nancy Pelosi — que ficaram furiosos quando um vídeo distorcido da presidente da Câmara americana viralizou —, destacaram o Facebook como um ator ruim. No momento, Trump é visto pela classe interna de Washington como o provável perdedor da eleição de novembro; embora Biden, candidato democrata, represente uma ameaça menor ao Facebook do que Warren.

Retirada de publicações

Enquanto os executivos do Facebook insistem que a posição de Zuckerberg sobre liberdade de expressão na plataforma é uma questão de planejamento e princípio de longo prazo, não de conveniência política, sua equipe política também reconhece que está distante de um possível governo democrata. E, nos últimos dias, o Facebook estava ansioso para mostrar sua independência da Casa Branca. A empresa tem aplicado, sem hesitação, a política existente contra postagens de Trump, e foi rápida em apontar para a mídia, como fez na última quinta-feira, quando um anúncio do presidente usou um símbolo associado à Alemanha nazista.

Zuckerberg não cedeu, no entanto, à sua insistência central de que Trump deveria ser capaz de dizer o que ele quer na plataforma — incluindo declarações falsas, desde que não sejam enganosas em termos específicos e restritos, e tópicos sensíveis como o censo. Mas ele teria dito a Trump que se opôs, pessoalmente, ao aviso do presidente de que "quando os saques começarem, os tiros começam", sobre as manifestações antirracismo que acontecem nos EUA desde o último mês. Zuckerberg e Chan escreveram a cientistas financiados por sua organização sem fins lucrativos que estavam "profundamente abalados e enojados com a retórica divisória e incendiária do presidente Trump".
Esses gestos podem ter aplacado a força de trabalho do Facebook, mas passaram despercebidos em Washington.

— Todas as grandes empresas aderiram à direita depois que Trump venceu, e o Facebook provavelmente se aproximou mais do que as outras— disse Nu Wexler, um democrata que trabalhou em comunicações políticas para a plataforma em Washington — Mas a política da tecnologia está mudando e as empresas também devem se preocupar com os democratas. Os dias de apenas manter o presidente feliz terminaram

O GLOBO