November 4, 2016

No enem, desidratar a resistência pesou mais do que se abrir ao diálogo

Flávia Oliveira

 

É a política, não a matemática

Em vez de dialogar com os estudantes, o MEC preferiu adiar o Enem

Matematicamente, a conta é tão simples que está na grade curricular do ensino fundamental. É de 2,2% a proporção de estudantes que farão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) um mês depois do previsto, em razão das ocupações nas escolas. São 191.494 num universo de 8,6 milhões de inscritos; dois em cada cem. Difícil crer que o aparelho burocrático do Ministério da Educação não teve tempo ou habilidade para remanejar os locais de prova de dois centésimos dos estudantes. Por trás do adiamento está a decisão política de retaliar a reação dos jovens à medida provisória da reforma do ensino médio e aos efeitos da PEC 241 (renumerada no Senado para PEC 55) no orçamento da educação.

Responsável pela aplicação do Enem, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Texeira (Inep) anunciou na noite da última terça-feira o adiamento da prova para alunos lotados em 304 unidades ocupadas no Brasil até 31 de outubro. São três centenas de estabelecimentos tomados numa rede que soma 190 mil escolas públicas e privadas, segundo o Censo Escolar 2013 do próprio MEC. Paraná, com 74 colégios, e Minas Gerais, com 59, são os estados mais afetados; cerca de 84 mil farão a prova mês que vem. No Rio, pouco mais de sete mil alunos serão submetidos ao exame nos dias 3 e 4 de dezembro, em vez de no próximo fim de semana. 

O movimento de ocupação de escolas brasileiras germinou em São Paulo, um ano atrás, contra a reorganização dos ciclos de ensino pelo governo de Geraldo Alckmin (PSDB). A intenção era transferir 300 mil alunos, distribuindo-os em escolas dedicadas aos anos iniciais e finais do ensino fundamental e ao nível médio. Com isso, 92 unidades fechariam as portas. Os protestos começaram nas ruas e desaguaram nas ocupações. 

Uma cartilha elaborada por estudantes chilenos e argentinos inspirou os ativistas do Brasil. Em 2011, secundaristas ocuparam mais de 700 escolas no Chile para cobrar passe livre nos transportes públicos e melhorias na educação. Qualquer semelhança... O documento recomenda realização de assembleia para organizar a entrada na escola e divisão dos alunos em comissões com tarefas predeterminadas, como limpeza, alimentação, segurança, imprensa. Sugere ainda que faixas de protestos sejam postas na frente dos colégios para tornar públicas as razões do movimento. Salvo radicalizações isoladas, é essa a tônica das ocupações.

O movimento se espalhou por São Paulo, alcançou Goiás, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais. As reivindicações mesclam agendas locais e questões nacionais. No Rio, por exemplo, os protestos de alunos começaram no início do atual ano letivo, em razão da crise aguda nas finanças do governo fluminense. Professores, com décimo terceiro e salários parcelados, ficaram em greve por quase cinco meses. Estudantes tomaram escolas em apoio aos docentes, mas também por mudanças no currículo e na qualidade na educação. Hoje, o movimento está concentrado em unidades do tradicional Colégio Pedro II, da rede federal, contra medidas do governo de Michel Temer, caso da MP do ensino médio e da PEC do teto de gastos. A pauta nacionalizou-se.

As autoridades lidaram mal com as ocupações desde o primeiro momento. O governo de São Paulo, em vez de dialogar, preferiu usar a polícia contra os estudantes, criminalizando o movimento. Errou ao empurrar o debate sobre educação para delegacias. No Distrito Federal, uma decisão judicial determinou o corte de água, luz e gás e proibiu a entrada de alimentos numa escola de Taguatinga tomada por alunos em 27 de outubro. Reprime-se muito, dialoga-se pouco com a juventude que engatinha no ativismo político. 

Agora, diante do movimento robusto de oposição às medidas federais na educação, o MEC preferiu o adiamento do Enem para parte dos inscritos. Fração no conjunto de estudantes aptos à prova, os 191 mil prejudicados — ou beneficiados, sob o ponto de vista de quem enxerga um mês a mais de estudos em relação aos demais — estão em quantidade suficiente para lançar a opinião pública contra os manifestantes. Fora do Enem deste fim de semana estão brasileiros em número equivalente à população de cidades médias como Angra dos Reis ou Nova Friburgo (RJ), Araçatuba, Ferraz de Vasconcelos ou Santa Bárbara d’Oeste (SP), Guarapuava (PR), Lauro de Freitas (BA), Sobral (CE), Luziânia (GO), Parauapebas (PA). 

É pouca gente no conjunto da população, mas muita gente a ter a vida prejudicada pelos ativistas. Os estudantes com a prova adiada e suas famílias têm motivos de sobra para se indignar. O que está mal explicada é a ação tão drástica do governo. Uma semana atrás, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) mineiro, em acordo com ocupantes de sete escolas, demarcou o espaço de mobilização e garantiu a realização do segundo turno das eleições municipais, sem transtornos. No Enem, desidratar a resistência pesou mais do que se abrir ao diálogo.

O GLOBO, 4 DE NOVEMBRO DE 2016 

October 16, 2016

Trumpismo sobrevierá



Adriana Carranca

É possível que as chances de Donald Trump chegar à Casa Branca tenham sido enterradas com os escândalos sexuais envolvendo o republicano. Enquanto estavam no campo das ideias e das palavras, as ofensas podiam ser compreendidas como verborragia de um falastrão inconsequente em busca de popularidade e votos a qualquer custo. Quando mulheres decidiram denunciar abusos praticados pelo magnata, os argumentos contra Trump ganharam outro peso.

Nas últimas duas semanas, líderes republicanos desembarcaram da campanha, doadores pediram o dinheiro de volta, um representante da ONU declarou que o candidato, se eleito, seria uma ameaça ao mundo. 

Foto: REUTERS/Carlo Allegri
 
Donald Trump
Trump. Soluções equivocadas
Trump pode sair de cena, mas o trumpismo sobreviverá. Ele foi o mais votado da história nas primárias republicanas – o recorde anterior era de George W. Bush, em 2000. Mais de 40 milhões mantêm-se fiéis a ele, apesar de seus comentários racistas, xenófobos, machistas, de sua inexperiência política e de todas as acusações sobre ele, da sonegação de impostos aos abusos sexuais. É o equivalente à população da Espanha ou da Argentina, disposta a validar tudo com o voto.
É preciso compreender este fenômeno. À espera do discurso de Trump na Pensilvânia, na terça-feira, um homem bradava o slogan do magnata: “Trump fará os EUA grandes de novo”. Em outro palanque, uma mulher esperava para ouvir o candidato vestindo uma camiseta com a frase: “Trump, fale baixarias para mim”. Isso, um dia depois de o New York Times publicar o depoimento de mulheres que teriam sido abusadas sexualmente por ele.

Lou Dobbs, âncora da Fox Business Network, compartilhou para seus 800 mil seguidores no Twitter o link de um site conservador e o post que revelavam o endereço e o telefone de Jessica Leeds, uma das vítimas. Criticado, ele apagou tudo. Também esta semana, a página da Wikipédia da democrata Hillary Clinton foi vandalizada com imagens de pornografia e mensagens pró-Trump.
 
As mulheres que acusaram o republicano de abuso o fizeram após o candidato declarar, no segundo debate, que o áudio em que foi flagrado contando vantagem por abusar de mulheres era apenas “conversa de vestiário”. Duas falaram ao New York Times. Uma ex-repórter da revista People revelou que Trump tentou abusar dela em 2005 e uma ex-candidata a Miss Teen EUA disse ao BuzzFeed que ele invadiu o camarim onde elas se trocavam. A CBS divulgou um vídeo de 1992 em que Trump faz comentários insinuantes sobre uma menina de 10 anos.

Trump reagiu desenterrando casos de abuso sexual contra o ex-presidente Bill Clinton. Seus eleitores logo saíram às ruas exibindo cartazes e inundaram as redes sociais com posts dizendo: “Hillary é casada com um estuprador”, mas ignorando as acusações contra o próprio Trump. Sobre o áudio de 2005, um engenheiro elétrico, eleitor de Trump, comenta: “A única coisa que a gravação mostra é que ele é um heterossexual saudável.”

Em uma série de entrevistas conduzidas pelo New York Times, quase todos desconsideraram as acusações contra Trump, questionando as intenções das acusadoras. Uma das entrevistadas disse acreditar que Trump agiu “como todos os homens ricos agiam décadas atrás”, referindo-se ao relato de uma mulher que o acusou de tocar seus seios e colocar a mão por baixo de sua saia. “São oportunistas. Nenhum homem ataca uma mulher a menos que ela pareça estar pedindo”, disse.

A maioria dos eleitores se mostrou cética sobre as denúncias. Alguns justificaram as acusações com teorias conspiratórias. Outros disseram que o comportamento de Trump não importava, que ele deveria ser eleito por tudo o que representa. Mas o que Trump representa? No longo prazo, o resultado das eleições é menos relevante para o futuro dos EUA do que responder a esta pergunta.

August 7, 2016

Pra tudo começar na sexta-feira

Apesar de todas as mazelas, existe um Brasil que canta e é feliz e que o mundo viu na cerimônia de abertura da Rio-2016


MARCELO BARRETO

  É um desafio ter orgulho de um país que figura no topo dos rankings de má distribuição de renda e corrupção enquanto vai para a parte de baixo da tabela em índices que medem a qualidade de vida, a saúde, a educação, a segurança de seus cidadãos. Mas o Brasil é mais do que isso. É também esse Brasil que canta e é feliz que o mundo viu na cerimônia de abertura da Rio-2016.

Seguindo os passos de Londres e deixando para trás o gigantismo de Pequim, a cidadesede quis mostrar o processo de criação de um país ainda em formação. O que se viu sobre a tela gigante no gramado do Maracanã não foi, é verdade, uma denúncia do extermínio da população indígena ou da vergonha de termos sido os últimos a abolir a escravidão. Mas também não foi uma romantização do cadinho de raças. Se a palavra-chave da concepção artística era gambiarra (menos desgastada pelo uso do que “jeitinho brasileiro”), a do roteiro poderia ser transformação.

O país do futuro exaltou também alguns dos grandes nomes do seu passado e do seu presente. É sempre uma estratégia arriscada. Cada um terá sua lista de ausências — a minha começa por Machado de Assis, que o mundo pode não conhecer tão bem quanto Gisele Bündchen, mas radiografou a alma brasileira que a cerimônia quis mostrar. A parte esportiva ficou sem Pelé, que poderia ter sido lembrado de outra forma mesmo sem estar presente fisicamente. Nosso maior atleta não é olímpico, e ainda não temos lendas dos Jogos como Michael Phelps, que passou carregando a bandeira americana. Mas temos gente que gosta genuinamente do esporte, que entende a importância dessa forma de expressão do ser humano. De Nalbert a Flávio Canto, eles estavam lá, aplaudindo a sorridente chegada de Guga, talvez o maior exemplo desse amor.

No fim, a simplicidade de Vanderlei Cordeiro de Lima, um ex-boia fria que se transformou na encarnação do espírito olímpico em Atenas, resolveu com delicadeza a ausência do Rei. A simplicidade de Vanderlei foi o fecho perfeito para uma festa plebeia, que teve uma mulher nordestina como porta-bandeira do Brasil, que se preocupou com a inclusão de crianças e portadores de deficiência, que celebrou a cultura negra. E que, sem medo de clichê, acabou em samba.
Não concordo com a visão expressa no “New York Times” de que a cerimônia escondeu por quatro horas os problemas de um país mergulhado numa terrível combinação de crise política com estagnação econômica. Essa abordagem deprimida de que não se deve festejar nos momentos difíceis, típica dos países do Primeiro Mundo, nunca pegou no Brasil. Por aqui, meu compadre Aydano André Motta diz que o ano é aquele longo e aborrecido intervalo entre dois carnavais. A festa faz parte do nosso calendário, nos anos bons e nos ruins.

A alegria do esporte também pode coexistir com as outras coisas da vida. Por que cidades e países movem mundos e fundos para organizar grandes competições esportivas?, perguntam o jornalista Simon Kuper (um grande crítico do COI e da Fifa) e o economista Stefan Szymanski em “Soccernomics”, um livro que tenta explicar com fórmulas matemáticas os grandes dilemas do futebol. E, depois de fazerem as contas, concluem: porque querem ser felizes por algumas semanas.

Respeito quem pensa que não se deve gastar o que se gasta para isso. Respeito quem não gosta de carnaval ou de Olimpíada. Respeito quem acha que o Brasil e o Rio de Janeiro não têm motivos para festejar. Mas na sexta-feira à noite, no Maracanã, eu fui feliz.l

August 6, 2016

Olimpiada: Quanto mais Franco, melhor


Esportes com torneios profissionais bilionários ficam espremidos nos parâmetros da Olimpíada. Ou melhor, eles não cabem

É uma pena que os membros da “família olímpica” e demais responsáveis pelo megaevento quadrienal não tenham o hábito de exercitar a franqueza do norte-irlandês Rory McIlroy. Se o fizessem, haveria menos sobressaltos, desperdício, cinismo e desvios de propósito nas cidades-sedes.
McIlroy, como se sabe, é um dos grandes astros do golfe da atualidade. Ocupa o quarto lugar no ranking mundial e é um dos profissionais de ponta que optaram por ignorar a reestreia do golfe, ausente dos Jogos desde 1904.
Ele fez o oposto de Jordan Spieh, o atual número 1 do mundo que se escudou em tortuosas justificativas para explicar o forfait. Enquanto o americano Spieh se dizia dilacerado por ter de assistir de casa ao torneio no Rio, o norte-irlandês manifestou pouco interesse em acompanhar a competição olimpica do esporte que pratica. Nem à distância.
— Provavelmente vou assistir a provas de atletismo, natação, coisas assim, modalidades que realmente importam — contou ao “New York Times". Para ele, olímpicos são atletas que treinam sem trégua, muitas vezes de forma anônima, para poderem competir no evento máximo de seu esporte — os Jogos.
Já para golfistas profissionais que disputam o topo do ranking, a Olimpíada pode ser um transtorno no recheado calendário de torneios altamente rentáveis e valorizados.
Ao votar pelo retorno do golfe após um hiato de 112 anos, os membros do Comitê Olímpico Internacional (COI) quiseram ampliar a curiosidade e o interesse globais pela modalidade apostando na popularidade dos Jogos e na participação dos maiores golfistas.
Tudo indica, porém, que terá sido um tiro no pé, cujo preço o Rio acabará bancando sozinho. Se, de fato, essa ressurreição olímpica for efêmera e a modalidade sequer sobreviver os Jogos de 2020 , o já tão polêmico e danoso campo de golfe esculpido na Barra se transformará num monumento a veleidades passageiras.
— Não decidi jogar golfe para disseminar a prática — resumiu McIlroy — Me esforcei para vencer torneios, e vencer os que mais contam.
Esta semana, o próprio mundo do golfe profissional foi surpreendido com uma notíciabomba: a Nike, maior fabricante mundial de material esportivo, vai fechar sua linha de tacos e bolas, mantendo apenas a linha de indumentária. A concorrente alemã Adidas já havia feito o mesmo poucos meses antes. Desde que o incomparável Tiger Woods arruinou sua vida pessoal em 2009 , perdendo o toque mágico que fizera dele o primeiro esportista bilionário da história, o circuito PGA se esforça sem êxito a recuperar o lustre.
Também na reintrodução do tênis como esporte olímpico na Olimpíada de Seul, em 1988 , houve uma ostensiva abstenção de grandes astros mundiais, a começar por John McEnroe, e pelos mesmos motivos. Esses motivos não mudaram de lá para cá, apenas estão mais edulcorados: o que vale são os grandes torneios do Grand Slam. Mesmo aficionados capazes de recitar os dez últimos vencedores de Wimbledon ou Roland Garros têm dificuldade para lembrar quem levou o ouro na final em Atlanta, Sydney ou em Atenas, três olimpíadas atrás.
Há quatro anos, o ala/armador Dwyane Wade, nome idolatrado do Miami Heat e quarto maior salário da NBA, foi outro que falou bem claro sobre a dimensão de uma Olimpíada no universo de jogadores de elite. Foi o primeiro a fazê-lo, por sinal.
Somados os patrocínios à época, Wade embolsava US$ 27 milhões ao ano (hoje ganha mais). Não era, portanto, um necessitado quando decidiu defender a tese que gerou torrentes de indignação a poucos meses do início dos Jogos de Londres.
Maior pontuador nas partidas que consagraram a seleção dos Estados Unidos em Pequim (2008), Wade explicou não querer mais brincar de olimpíada: achava errado competir apenas pelo amor à pátria, sem ser remunerado.
Seu arrazoado tinha lógica. Formulada em tom mais polido e conteúdo menos cru, é a mesma que levou colossos como LeBron James e Stephen Curry a não participar do Rio-2016.
Quem atravessa a extenuante temporada da NBA até o final tem apenas duas semanas de descanso antes de se juntar à seleção americana, se convocado, para iniciar o treinamento olímpico. É muito pouco para recompor a família, relaxar o corpo, limpar a cabeça.
— Não se trata de só jogar em troca de dólares — explicou Wade — É que você faz um monte de coisas por uma Olimpíada, inclusive vender camisas. Realmente acho que deveríamos ser compensados.
Ele apenas esqueceu de acrescentar que, à parte o bônus de U$ 25 mil que todo medalhista de ouro do Time USA recebe, ele tem contrato anual de U$ 12 milhões com a Nike, fabricante das tais camisas de basquete cujas vendas dão um salto durante os Jogos.
(Se existisse uma justa escala salarial olímpica, o nadador Michael Phelps, sozinho, seria capaz de afundar os cofres do COI com suas 18 medalhas de ouro, 22 no total, e outras mais a caminho esta semana).
Em resumo, assim como uma Olimpíada parece sufocar a vida urbana de cidades-sedes como o Rio, Atlanta ou Atenas, esportes com torneios profissionais bilionários ficam espremidos nos parâmetros que a tornam tão universal e única. Ou melhor, eles não cabem. A seleção americana do astro maior Kevin Durant (U$ 56,2 milhões de faturamento em 2015) só sairá do transatlântico Silver Cloud onde está alojada para entrar em quadra.
Na sua forma atual, escreveu na “New Yorker” o editor Reeves Wiedeman, os Jogos Olímpicos produziram a versão capitalista de um sistema esportivo bem azeitado, à base, essencialmente, de mérito. Para fazer parte do 1% que se sobressai é necessário sair vencedor tonitruante em um esporte de grande audiência, ou conquistar a vitória de alguma forma dramática, memorável. Ainda assim há remuneração para os 99% restantes. E ela não tem preço. Participar de uma Olimpíada ainda vale bem mais do que o custo de ter chegado até lá.

DORRIT HARAZIM

 

o globo, 6 de agosto de 2016  

May 27, 2016

Falsa ruptura


PAULO SÉRGIO PINHEIRO 
Os primeiros dias do governo interino não deixaram dúvidas -seus objetivos se limitam a acalmar os mercados e a garantir governança com uma sólida base legislativa. Aos opositores, a total indiferença.
Quando os protestos, mesmo pacíficos, chegam perto dos atuais donos do poder, sobram cacetadas, jatos de água e gás por tropas de choque da Polícia Militar.

As gravações do agora ex-ministro Romero Jucá reveladas pela Folha expõem uma conspiração para a tomada do poder, revelando como os mais baixos recônditos do sistema político brasileiro prosseguem firmes em sua esperança de sufocar a consolidação do Estado de Direito e da democracia no país.

O impeachment surge como um sinistro pacto a portas fechadas urdido pelas forças mais retrógradas, desesperadas para manter seu poder. Uma aberração institucional que custará muito caro ao Brasil.

A reeleição de Dilma Rousseff, em 2014, foi um acidente inaceitável para o establishment econômico e político brasileiro. Dilma era o risco permanente. Seja risco aos mercados, que sabiam que sua única base real estava à esquerda, seja o risco aos corruptos de sempre, que não sentiam ter um escudo seguro.

Entregando a cabeça de Dilma, acreditavam que tudo voltaria ao normal: ordem e progresso, como nos bons tempos da ditadura militar.

O demorado e bizarro julgamento das pedaladas fiscais nos obriga a discutir uma patética infinidade de detalhes num processo que já estava decidido. Não por qualquer sombra de análise jurídica, mas nas idas e vindas dos mais dignos representantes de nossa elite ao Palácio do Jaburu, residência ocupada pelo presidente interino Michel Temer.

A ausência de mulheres no ministério do governo interino é o exemplo maior do grotesco descolamento da realidade do grupo que agora nos governa. O rebaixamento dos ministérios de Ciência e Tecnologia e Direitos Humanos foi também um caminho totalmente natural para um grupo que viveu e floresceu eternamente na sombra dos gabinetes, a léguas de distância do pensamento crítico e da sociedade civil organizada.

Para agregar um caráter ainda mais sinistro, a administração interina conseguiu também nomear para a secretaria de Segurança Institucional o general do Exército Sérgio Etchegoyen, justamente o único oficial de alta patente que, abertamente, confrontou o relatório da Comissão Nacional da Verdade.
Ao fim e ao cabo, a chegada do PMDB ao poder representa a tentativa de sobrevivência da base mais profunda que deu sustentação à nossa transição democrática lenta, gradual e, como agora vemos, insegura.

A grande vítima da conspiração reinante é, ironicamente, a Constituição de 1988 que o presidente interino disse defender. Vários projetos de lei já estão no Congresso para desmontar os direitos conquistados na esteira da constitucionalidade.

Espero que rapidamente acordemos desse transe e novas eleições sejam promovidas para reestabelecer um mínimo de espaço para nossa tão desmoralizada República.

E que as futuras gerações estudem com afinco os infinitos erros da minha geração, que lutou contra a ditadura e se iludiu tantas vezes com aparentes mudanças que, na verdade, jamais lograram transformar o autoritarismo profundamente incrustado no sistema político e na sociedade.
 FOLHA DE SÃO PAULO, 25 DE MAIO DE 2016

May 26, 2016

Temer, a solução que virou problema

elio gaspari

 

Temer pareceu uma solução e tornou-se um problema porque depois da revelação do conteúdo da escandalosa conversa do senador Romero Jucá com o ex-colega Sérgio Machado, cobriu-o com os seguintes adjetivos: "competente", dotado de "imensa capacidade política" e "excepcional" formulador de medidas econômicas.

Segundo Temer, o ministro "solicitou" seu afastamento. Tudo bem, fez isso depois de se aconselhar com Elvis Presley, que está vivo. Sua ausência estaria relacionada com "informações divulgadas pela imprensa". Falso. O repórter Rubens Valente não divulgou apenas informações, transcreveu áudios e colocou-os na rede. Jucá tentou embaralhar a discussão e foi prontamente desmentido pela própria voz.
Temer nomeou Jucá para o Ministério do Planejamento sabendo quem ele era. O doutor celebrizou-se comemorando de mãos dadas com o notável Eduardo Cunha o fugaz rompimento do PMDB com o governo.

É impossível acreditar no que o governo disse na segunda-feira, mas é plausível supor que Temer e Jucá, homem de "imensa capacidade política", compartilhem visões da crise. O senador foi repetidamente apresentado como um dos cinco grandes conselheiros do vice-presidente, integrante do seu "Estado-maior".

Em sua conversa com Machado, Jucá produziu um retrato perfeito e acabado da oligarquia política ferida pela Lava Jato: "Tem que resolver essa porra. Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria".

Pergunte-se, o que quer "essa porra"? "Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura."

Desde que aderiu à fritura de Dilma Rousseff, Temer deu diversos sinais de antipatia objetiva e simpatia retórica pela Lava Jato. Pena.

Um trecho da fala de Jucá é significativo e preocupante:
"Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar."
Jucá teve seu momento de vivandeira.

Os "caras" garantem a ordem no cumprimento da Constituição e não precisavam conversar com o doutor para reiterar esse compromisso. É bom que monitorem o MST e aquilo que Lula chamou de "o exército" de João Pedro Stédile. Contudo, salta aos olhos que para Jucá era conveniente misturar a manutenção da ordem com uma trama política escandalosa em relação à qual os militares nada podem fazer, pois a Lava Jato é assunto do Judiciário.

Felizmente Machado era um grampo ambulante. Ele chocou o país com a conversa e haverá de chocá-lo muito mais revelando o que sabe do PSDB, do PMDB e da Transpetro, que presidiu por dez anos, abençoado por Lula e pelo PT.

A primeira quinzena do atual governo pode ser malvadamente comparada à lua de mel de Marcello Mastroianni com Claudia Cardinale no filme "Il Bell'Antonio".

A ideia de que o atual governo possa aumentar impostos, mexer em leis trabalhistas e alterar os prazos para as aposentadorias de quem já está no mercado de trabalho é uma perigosa ilusão.

Se Temer tivesse formado o ministério de notáveis prometido pelo seu departamento de efeitos especiais, talvez isso tivesse sido possível. Jucá, um investigado pela Lava Jato, deixou o ministério e no seu lugar, interinamente, ficou um cidadão investigado pela Operação Zelotes.

O GLOBO, 25 DE MAIO DE 2016

ilustração andré mello 



May 11, 2016

CONTINUAREMOS


Em um país em transe, a ampliação potente da democracia — indo muito além da frágil falácia da transformação social como simples ampliação do acesso a bens de consumo — pressupõe o falar de muitas vozes, o descortinar de miradas e a ousadia de experimentar rumos que libertem as mulheres e os homens da nossa crônica doença do desencanto, nascida na negação da potência do que podemos ser.

Somos um país forjado em ferro, brasa, mel de cana, pelourinhos, senzalas, terras concentradas, aldeias mortas pelo poder da grana e da cruz, tambores silenciados, arrogância dos bacharéis, inclemência dos inquisidores, truculência das oligarquias, chicote dos capatazes, cultura do estupro, naturalização de linchamentos e coisas do gênero.

Acontece que, no meio de tudo isso e ao mesmo tempo, produzimos formas originais de inventar a vida onde amiúde só a morte poderia triunfar. Um Brasil forjado nas miudezas de sua gente, alumbrado pela subversão dos couros percutidos, capaz de transformar a chibata do feitor em baqueta que faz o atabaque chamar o mundo. Um Brasil produtor incessante de potência de vida, no arrepiado das horas e no chamado de uma pluralidade de deuses bonitos como as mulheres e os homens.


A luta por esse segundo Brasil, ao meu juízo, não me enreda porque acho que ela será vitoriosa: eu estou na briga porque acho que ela é necessária. 


Continuarei na rinha pela revolução do despacho na encruza, do reconhecimento do poder das senhoras e da alteridade da fala: língua do congo, canto nagô, virada de bugre na aldeia. Escrevo pela necessidade de outras gramáticas de compreensão do Brasil. Minha arma é o alfange do deus que é meu pertencimento, o senhor do mariô que mora em mim, iluminando, ao cortar os intolerantes, o meu mundo na viração da vida plena.


É hora de temperar a porta brasileira com dendê e apimentar o padê dessa canjira.


LUIS ANTONIO SIMAS

May 8, 2016

De boca na mortadela



Marcio Tavares D’Amaral

Dois países não podem conviver no mesmo território

“Nós” e “eles” prevaleceu. O tempo vai passar, haveremos de nos lembrar do tempo em que nos fazíamos boa companhia, e há de se restaurar um “nós” hoje (provisoriamente?) posto na geladeira. Preservado no frio da cordialidade suspensa. Apesar de tudo, melhor a geladeira. Ou dá bicho, e temos de nos jogar fora. No lixo de um ódio que, então, terá se tornado nosso novo modo de ser povo. Essa, sim, seria uma derrota. Uma para chorar. Se é que o ódio encontra motivos para chorar.

Hoje, tudo que se diga que vise ao estabelecimento de algum frangalhozinho de verdade encontra inevitavelmente a cantilena enjoada das crianças que precisam justificar junto à mãe os sopapos que meteram no irmão: “Foi ele que começou!”. Ainda vamos assistir a isso por muito tempo. Aliás, quem começou o quê? De que estamos falando quando a presidente da República e seu partido são acusados de terem “começado”? Lembro-me sempre do mapa de saída das eleições de 2014: o azul do Brasil e o vermelho da Nova Cuba. O impeachment começou ali. Dois países não podem conviver no mesmo território. Um deles fatalmente é invasor. E aos invasores, a guerra. Fez-se a guerra. O começo mais recente foi ali.

Já muito se disse, mas repito: num regime presidencialista a eliminação de um presidente é uma violência constitucional. Constitucional, mas violência. No parlamentarismo, o primeiro ministro, chefe do governo, não é eleito. Seu partido saiu das eleições em condições de governar, e o primeiro ministro será aquele ou aquela que tiver a sorte, ou o azar, de estar na posição eventual de líder da maioria. Primeiro ministro não tem mandato. Pode ser convidado a ir para casa por qualquer motivo, o mais tolo que seja, desde que a favor desse motivo se forme uma maioria eventual. De ocasião. O motivo pode ser tão bobo quanto não gostar de mortadela.

“Não gostar”, no regime presidencialista, não serve. Não tem nada a ver. A violência constitucional de jogar no chão uma pessoa eleita por prazo determinado precisa de fundamentos tão firmes que mesmo quem seja cego para eles possa ver. Fundamentos, nesse caso, significa: fatos gravíssimos, crimes inequívocos, vinculáveis direta e pessoalmente ao, ou à, presidente. É preciso haver um nexo gritante de causalidade. Dito de maneira simples: o fato não precisa só ser criminoso — ele precisa ser prévio. Já estar lá. Ser descoberto. E aí, porque há fato e possível atribuição de autoria, instaurar-se um processo.

Essa estrutura necessária é uma das formas que restaram do antigo amor que tivemos à verdade, e, parece, está em extinção junto com as baleias e os micos-leão dourados. Em falta de nome melhor, proponho chamá-la de “modelo judiciário da verdade”. Funciona assim. Dá-se um fato estranho. Ele não é natural, como uma tsunami, nem casual, como um pé torcido na travessia de uma rua movimentada. Alguém o produziu. É preciso saber com certeza quem. E estabelecer um certíssimo vínculo causal entre o fato e o feito. E então, sim, avaliá-lo. Conhecer sua verdade. Nutrir-se do gosto bom da verdade.

Quando esse fato pode ser considerado um crime, instaura-se um processo. É no processo que se verifica o objeto e se demonstra, ou não, a autoria. Isso quer dizer: se estamos falando da verdade, o objeto precede o processo. Se não é do desejo de verdade que se trata, a vontade de processo antecede. Fica no ar, equilibrando-se em nada, à procura do que possa morder. E como o equilíbrio em nada é muito desconfortável, morde na primeira aparência de objeto que venha ao seu campo de visão. O desejo de processo, quando é prévio, não está interessado na verdade, tem gosto de sangue. Há quem goste. Quando se trata de política, é uma perversão. Já muito se disse que na guerra a primeira vítima é a verdade. Quando a guerra é política, a primeira vítima é a democracia. E a democracia é só o que se interpõe entre a convivência, desejada ou tolerada, não importa, e a incivilidade. Entre a legitimidade, que pode até ser contestada, e a usurpação inconteste. Quando o processo antecede o objeto, o resultado é sempre uma violência. E não há Constituição que a cubra e legitime.

Há muitíssimas coisas que vão mal no Brasil. Crimes a rodo, lançados na roda todos os dias. São fatos. Antecedem os processos que precisam ser abertos para apurá-los. Justificam esses processos. E as sanções que decorrem deles. Que são necessárias e bem-vindas. Mas o que temos visto é um processo babando à busca de um objeto qualquer. Encontrou um, pulou sobre ele. Era do passado, não servia. Pegou outro. A fome era grande, e o desejo de verdade, nenhum. Montou-se um processo retardado, frágil, que só passaria mesmo movido por uma maioria eventual. Como no parlamentarismo. E deu-se o bote.

Caiu-se de boca na mortadela. Francamente.

 
O GLOBO, 23 DE ABRIL DE 2016 

May 7, 2016

Ocupação



Flávia Oliveira


Os professores da rede estadual do Rio de Janeiro entraram em greve no início de março. Foi reação aos cortes orçamentários impostos pelo governador licenciado Luiz Fernando Pezão, diante do caixa minguado, que já não dá conta de salários, aposentadorias, pensões. Três semanas depois, alunos do Colégio Prefeito Mendes de Moraes, na Ilha do Governador, ocuparam a unidade, em ato para apoiar a paralisação dos docentes e cobrar melhorias na rede pública de ensino. Na sexta-feira imprensada no feriadão de 21 de abril, quando a ocupação completara um mês, estive na escola.

Foi o Movimento Mapa Educação que organizou a roda de conversa com os secundaristas. Fomos Átila Roque, diretor da Anistia Internacional Brasil, Maria Antonia Goulart, do Movimento Down, e eu. O encontro, inicialmente, duraria hora e meia. Em verdade, passou de três horas, tamanho o apetite dos alunos por ouvir e, principalmente, serem ouvidos. Naquela tarde de outono infernal num auditório sem refrigeração, ficou provado que ocupação, definitivamente, rima com educação.

Antes do debate, que reuniu 30 jovens, circulamos pela escola. As instalações são confortáveis, exceto pela piscina mal cuidada. Os estudantes isolaram secretaria, laboratório de ciências, biblioteca. No corredor principal, montaram uma bancada com livros doados pós-ocupação. Eles varrem, limpam, cozinham. Não houve danos ao patrimônio público.

Os alunos não isolaram a escola. Professores que não aderiram à greve entram e lecionam; cursos ali sediados foram mantidos. Voluntários têm orientado atividades extracurriculares (de plantio de horta a oficinas de grafite e hip-hop) indisponíveis no calendário regular. No feriadão, foi organizada a minimaratona de rodas de conversa sobre democracia, cidadania, direitos humanos. Superada a desconfiança inicial, o encontro se transformou numa conversa franca sobre temas que preocupam a juventude, mas a escola ignora.

Os estudantes perguntaram sobre racismo, integração de pessoas com deficiência, machismo, feminismo, família, acolhimento, ativismo, futuro, direitos, caminhos. Os jovens brasileiros carecem de políticas públicas; estão expostos às maiores taxas de desemprego; são sobrerrepresentados no sistema carcerário; registram os maiores índices de evasão escolar. Rapazes são as principais vítimas de homicídios; moças não são informadas sobre como evitar a gravidez na adolescência. É perturbador constatar o quanto o diálogo anda afastado do ambiente escolar, o quanto a construção de pontes entre autoridades, sociedade civil, professores e estudantes não parece ser prioridade do sistema educacional.

No mês de mobilização estudantil, mais de 70 escolas foram ocupadas no Estado do Rio. As seguidas demandas por atividades letivas resultaram na ação “Doe uma aula” (aqui o link: http://bit.ly/1VBT8rl). Trata-se de uma campanha virtual em que cidadãos de qualquer formação se inscrevem para transmitir conhecimentos aos alunos da rede pública. É iniciativa não apenas bem-vinda, mas com potencial de se estender para os tempos sem greve.

Na última segunda-feira, a professora Anick Elias, de Língua Portuguesa, postou numa rede social a experiência do aulão especial de redação para o Enem 2016 que deu no Colégio Estadual Dom Helder Câmara, no Engenho de Dentro, ocupado havia uma semana. Na saída, uma aluna uniformizada pediu que ela falasse com a mãe ao telefone.

“Alô, professora? Está tendo aula mesmo? Ela disse que está na escola, que está tendo aula, mas eu não acreditei. Aula com greve? Nunca vi isso”, indagou a mãe ressabiada. “Fique tranquila. Estamos em greve, mas está tendo aula. Os alunos estão cuidando da escola. Eles fazem a comida, cuidam da limpeza, organizam o horário das atividades e acertam as aulas com os professores”, respondeu Anick.

O diálogo seguiu: “Tudo o que a gente quer é ver o filho estudando. Se a senhora está dizendo, fico mais tranquila”, devolveu a mãe. “Fique tranquila. Mas fique orgulhosa também. Sua filha está aprendendo mais do que em qualquer ocasião. Venha vê-la, venha sentir orgulho de sua menina”, completou a mestre.

Ao fim do depoimento, Anick Elias escreveu que o episódio ensinou a professora, aluna e mãe o significado da expressão comunidade escolar. Dois dias depois, a Secretaria estadual de Educação anunciou a antecipação para maio das férias escolares marcadas para agosto, sob o argumento de preservar o calendário letivo.

Ontem, alunos do também ocupado Colégio Estadual André Maurois, na Gávea, informaram que, desde o início da semana, estão sem créditos no passe de ônibus. Sem o vale transporte, os estudantes não terão como chegar às escolas. As ocupações serão desidratadas. E as autoridades fluminenses perderão a oportunidade de compreender (e aplicar) o conceito de comunidade escolar. É pena.


O GLOBO, MAIO DE 2016

May 3, 2016

Uma ponte para o passado


Em meio à profunda crise pela qual passa o Brasil, Michel Temer e seu partido, o PMDB, preparam-se para assumir o Palácio do Planalto e já discutem a composição do novo governo. Fingem não ter qualquer responsabilidade pelo governo Dilma e apresentam-se como salvadores da pátria. Até parece que nunca estiveram no poder e com as mãos em ministérios estratégicos, como Agricultura e Energia, por tanto tempo.

O partido tem até um rascunho de plano de governo: o documento “Uma ponte para o futuro”, produzido em outubro. Esse programa difere em quase tudo do plano de governo apresentado em 2014 por Dilma Rousseff. E supera o plano da quase-ex-presidente em pelo menos um detalhe: a ausência total de menções a desenvolvimento sustentável.

Nas 19 páginas do documento peemedebista, as expressões “meio ambiente”, “mudança climática”, “energia renovável” e “baixo carbono” não aparecem. Nenhuma vez. A ausência de qualquer menção a compromissos com estas agendas estratégicas é um péssimo agouro.

O pacote de maldades do PMDB, disfarçado de agenda para “reconstruir o Estado”, traz, entre outras, medidas como desvinculação de gastos da União com saúde e educação, desindexação de salários (inclusive o mínimo), ajuste fiscal, privatizações e desregulamentação ampla, geral e quase irrestrita. É neste ponto que se insere a única e indireta menção ao meio ambiente na “Ponte para o futuro:” a proposta de aumento da “segurança jurídica (...) para a realização de investimentos, com ênfase nos licenciamentos ambientais”. Nem precisa ser tão bom entendedor para saber que a frase significa flexibilizar os licenciamentos.

Quem duvida pode olhar o documento-irmão da “Ponte para o futuro”, a Agenda Brasil, de Renan Calheiros, que cria a figura do licenciamento ambiental “a jato” para obras de “interesse nacional”. Nada mais absurdo e nada mais PMDB. No Brasil da Samarco, de Mariana e do Rio Doce, quanto pior, melhor.

Os dois documentos refletem uma concepção de meio ambiente do século 19, totalmente apartada do desenvolvimento. Ou que, quando aparece, é como um entrave, que precisa ser eliminado para o bem do “ambiente de negócios”. Tal visão é um risco e um desperdício.

Um risco porque não é mais possível falar em desenvolvimento no Brasil sem fatorar os impactos das mudanças climáticas. Só no ano passado, 28% dos municípios brasileiros decretaram estado de emergência ou calamidade por desastres naturais ligados ao clima mais hostil. Do planejamento energético à produção de alimentos, tudo precisa ser revisto. Nenhuma retomada do crescimento poderá ser sustentada se não for também sustentável.

Um desperdício porque existem oportunidades para superar a crise econômica em setores como o de biocombustíveis, energias renováveis e agropecuária de baixa emissão de carbono. Que o diga a indústria de energia eólica nacional, que gerou cem mil empregos no ano passado enquanto o país mergulhava numa recessão de 3,8%, e que prevê a geração de mais 50 mil novos postos de trabalho em 2016, mesmo com agravamento da crise econômica.

Os governantes e aspirantes a governantes do Brasil fariam bem em olhar para a China neste momento. O país asiático, que entende de crescimento como ninguém, acaba de publicar seu Plano Quinquenal apostando em quatro eixos: serviços, inovação, redução das desigualdades e sustentabilidade ambiental — gerar empregos de qualidade no setor de tecnologias limpas.

O PMDB é um partido que sempre gostou muito de construir grandes obras, iguais às investigadas na Lava-Jato. Mas as pontes que seus caciques ora propõem ao Brasil nos conduzem ao passado, não ao futuro.

Carlos Rittl é secretário-executivo do Observatório do Clima

O GLOBO, 3 DE MAIO DE 2016