Fabio Brisolla
O humorista do Casseta & Planeta critica as limitações da Lei Eleitoral, que obriga o programa da Rede Globo a tratar o noticiário político de forma distante, pelas beiradas. E lamenta não poder brincar com assuntos relevantes da forma como gostaria.
Como vocês estão lidando com as restrições contidas na Lei Eleitoral?
HELIO: Estamos diante de um momento fundamental para a vida do país e a cobertura de humor sofre restrições justamente agora. É um problema muito sério para a gente. Somos obrigados a ter tanto cuidado com essas regras que não podemos tirar proveito do assunto. Não podemos brincar com uma notícia na proporção que ela tem para a população.
Qual é a saída para continuar falando de eleição?
HELIO: Procuramos inventar personagens fictícios. Lançamos, por exemplo, o polvo da Copa como candidato à Presidência. Já criamos a Dilmandona, o José Careca e a Magrina Silva, mas tivemos que encostá-los no momento em que os candidatos estão mais em evidência. Isso é uma tentativa de tomar conta da cabeça do eleitor.
O Casseta & Planeta sempre procurou abordar os assuntos do noticiário da semana. Ficou mais difícil?
HELIO: Sem dúvida. Um programa de humor, além de brincar com o fato, realça o fato. Leva as pessoas a questionarem: por que será que os caras estão falando isso? E esse papel, não podemos fazer.
Algum partido chegou a reclamar das imitações dos presidenciáveis apresentadas durante a pré-campanha?
HELIO: Não, porque sempre tomamos cuidado. Quando citamos um candidato, os outros dois apareciam também. Nunca houve intenção de prejudicar um ou outro candidato. Por ser uma emissora com visibilidade, os partidos tendem a achar que a Globo pode influir no resultado. E aí acabam levando muito a sério o que é só um programa de humor.
Na Copa, o acesso de humoristas aos jogadores da Seleção foi negado. Agora, vocês têm a lei eleitoral pela frente...
HELIO: Pois é... Dunga não nos dava bom dia. Agora, nem os candidatos podem nos dar bom dia. Mas vamos driblando e fazendo nossas piadas.
O Globo, 25 de julho de 2010
July 27, 2010
July 12, 2010
Ezequiel Neves, produtor musical, 74 anos

foto de Ana Branco
O ano era 1976. Um foca chega à precária redação da revista “Rock: A história e a glória”, da qual Ezequiel Neves era um dos editores, ao lado de Ana Maria Bahiana e Tárik de Souza, e pergunta ao então já lendário crítico musical se ele também fazia literatura.
Com o habitual raciocínio veloz e sarcástico, e o tom de voz sempre alguns decibéis acima do normal, Zeca Jagger (um dos pseudônimos que costumava usar na época) responde: “Garoto, tudo o que eu escrevo é ficção!” Personagem fundamental para a cultura brasileira das últimas quatro décadas, Ezequiel Neves morreu no início da tarde de ontem, aos 74 anos, no mesmo dia em que, há 20 anos, também partiu seu maior parceiro e amigo, o cantor Cazuza. O produtor estava internado desde janeiro na Clínica São Vicente, na Gávea, lutando contra um tumor no cérebro, e seu corpo será cremado, provavelmente, amanhã.
Com seu humor ferino e sua fértil imaginação, Ezequiel fez “novo jornalismo” muito antes de o gênero ser reconhecido. E em quase duas décadas de atuação no setor, passando pela grande imprensa (revistas “Playboy” e “Pop” na Editora Abril, “Jornal da Tarde”, de São Paulo) e pela alternativa (a edição pirata da “Rolling Stone”, que circulou no início dos anos 70, as revistas “Som Três” e “Música do Planeta Terra”, o “Jornal da Música”), fez escola, inspirando dezenas de jovens a ingressarem no jornalismo cultural. Carreira que o próprio tratou de abandonar, trocando-a pela de produtor musical (e eventual letrista) a partir do início dos anos 80, quando apostou no talento bruto do Barão Vermelho. Foi devido à insistência de Ezequiel que João Araújo, então presidente da gravadora Som Livre, concordou em lançar o grupo que tinha como cantor e letrista seu filho, Cazuza, ao lado de Roberto Frejat (guitarra), Guto Goffi (bateria), Dé Palmeira (baixo) e Maurício Barros (teclados).
Além de ter coproduzido os discos do Barão e os da carreira solo de Cazuza, Ezequiel foi o coautor de clássicos do rock brasileiro como “Por que a gente é assim?”, “Codinome beija-flor” e “Exagerado”.
No período em que atuou como produtor da Som Livre, também trabalhou com ícones da MPB como Elizeth Cardoso e Cauby Peixoto. Ele ainda colaborou em programas musicais da Rede Globo e foi corroteirista do filme “Rio Babilônia”, dirigido por Neville de Almeida, de quem era amigo desde a juventude, em Belo Horizonte.
Uma figura fascinante — e também incômoda para muitos, o verdadeiro “Exagerado” de sua parceria com Cazuza e Leoni —, José Ezequiel Moreira Neves viveu intensamente.
Nascido em Belo Horizonte, em 30 de novembro de 1935, filho de um cientista e parente de Tancredo Neves, cedo se envolveu na vida cultural da capital mineira. O escritor Silviano Santiago, contemporâneo de Ezequiel em Belo Horizonte, conta que, na adolescência, o amigo sonhava uma carreira literária: —Encontrei Ezequiel quando tínhamos 15 anos, ele conhecia literatura muito mais do que todos em nosso grupo. Era afilhado espiritual de uma musa dos escritores dos anos 1940, Vanessa Neto.
Uma contista, sobrinha de Lúcio Cardoso, linda e carismática, que mostrou muita coisa a ele. Andávamos tateando, e Ezequiel já desfilava a sua cultura literária.
Seus contos traziam influências de Clarice Lispector e Jean Cocteau.
Entre 1956 e 58, Ezequiel publicou alguns desses contos na revista literária “Complemento”, que co-editou junto a Silviano Santiago e o escritor Ivan Ângelo. Ele também frequentava assiduamente o Clube de Cinema; o Teatro Experimental, dirigido por Carlos Kroeber; e o grupo de dança de Klaus Vianna e Angel Vianna. Entre os jovens artistas e intelectuais de Belo Horizonte circulavam ainda o escritor Affonso Romano de Sant’Anna, os atores Jonas Bloch e Rodrigo Santiago e o hoje deputado federal Fernando Gabeira.
Graças ao teatro, em 1965, Ezequiel Neves trocou Belo Horizonte por São Paulo, após atuar com seu grupo mineiro numa montagem de “Sonhos de uma noite de verão”, de Shakespeare. Em seguida, integrado ao elenco do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), trabalhou com Cacilda Becker e participou de uma montagem de “Zoo story”, de Edward Albee. Ainda em São Paulo, foi para o grupo de Antunes Filho, em “A megera domada”, e, depois, atuou em “Julio Cesar” ao lado de Jardel Filho.
Apesar do talento para o teatro, a paixão pela música bateu mais alto. Em fins dos anos 60, o disco de estreia do grupo The Doors converteu-o ao rock — até então, ele só ouvia jazz, de Billie Holiday e Frank Sinatra a Miles Davis, e artistas brasileiros como Elizeth Cardoso e João Gilberto, paixões que a acompanharam até o fim — e, aos poucos, Ezequiel trocou o palco pelas redações, virando crítico de música do recém-criado “Jornal da Tarde” (então o veículo vespertino do “Estado de São Paulo”). Em entrevista ao GLOBO, ao completar 60 anos, Ezequiel Neves relembrou, com sua habitual sinceridade, essa passagem: — Tomei um ácido lisérgico e descobri que, se eu não conseguia ser eu mesmo, não tinha porquê tentar ser outros personagens. A experiência aconteceu em 1969, ainda tentei ficar no palco até 1970, quando fui para Londres fazer teatro. Foram três meses de desbunde. Na volta, ainda fiz “A última peça”, de José Vicente. Um espetáculo totalmente anárquico, todo mundo fumava maconha e tomava ácido. Para mim, foi realmente a última peça.
Em 1971, nova mudança.
Ezequiel aceitou o convite de Luiz Carlos Maciel e veio para o Rio com a missão de co-editar a versão brasileira, e pirata (sem licença dos donos nos Estados Unidos) da revista “Rolling Stone”, que durou um ano. Em seguida, ao lado de Ana Maria Bahiana e Tárik de Souza, criou a revista “Rock: A história e a glória” (que, em 1976, daria lugar ao “Jornal de Música”). É desse período os pseudônimos Zeca Jagger (homenagem ao seu maior ídolo, Mick Jagger, dos Rolling Stones), Zeca Zimmerman (este, o sobrenome de batismo de Bob Dylan) e Angela Dust.
Incansável festeiro, sempre a mil por hora, Ezequiel conviveu nos últimos cinco anos com um tumor benigno no cérebro, enfisema e cirrose.
Sem filhos, deixa duas irmãs em Belo Horizonte, sobrinhos e sobrinhos netos. E muitos órfãos entre os amantes do rock no Brasil.
O Globo, 8 de julho de 2010
May 25, 2010
Somos todos desempregados
João Paulo
Por muito tempo, o ideal da economia de mercado era a sociedade de pleno emprego. Em tal paraíso sociológico, as pessoas teriam autonomia, dignidade e liberdade. A remuneração garantida funcionaria como colchão ético, um estado de segurança que permitiria a cada cidadão fazer planos, pensar no futuro, não barganhar seus princípios. A consequência dessa realidade seria uma sociedade pacificada, capaz de produzir serviços de qualidade, que seriam adquiridos no mercado. No caso dos produtos ditos sociais, como saúde e educação, eles seriam fornecidos por um Estado rico em razão da própria funcionalidade da economia. Um jogo de ganhador-ganhador.
O chamado Estado de bem-estar social era herdeiro desse projeto. Capitalista na produção e socialista na distribuição, parecia trazer para seu núcleo o melhor dos dois mundos. Da mesma forma que incorporava ideologias aparentemente antagônicas – como liberalismo e igualitarismo –, o funcionamento desse modelo social colocaria no mesmo processo ferramentas típicas da democracia liberal e do socialismo. Assim, o pleno emprego só se manteria operante com forte estrutura sindical; a democracia de massas só se manteria com a liberdade de organização.
De uma hora para outra, o equilíbrio se rompeu. Antes de a chamada social-democracia surgir como solução, o emprego era quase um problema para o setor produtivo. As pessoas trabalhavam, no sistema fordista, como peças de máquina que precisavam ser vigiadas. Todas as teorias aplicadas ao campo do trabalho eram voltadas para controle, estandartização, obediência, verticalismo e reforço da autoridade. Quanto mais ditador, melhor patrão. Assim, o pleno emprego não era visto como ameaça, apenas como um estágio de maior cobrança de competência dos feitores.
A fase seguinte foi a de esgarçamento desse olhar controlador, apostando na capacidade de manifestação das pessoas, na busca de climas de cooperação, nas chamadas parcerias produtivas. Nesse tempo, falava-se em círculos de controle de qualidade, os empregados eram chamados de colaboradores, todo mundo era cliente de todo mundo. A amortização dos conflitos queria fazer crer que os interesses eram os mesmos dos dois lados do balcão: numa empresa rica, todos ganham. A mensagem de paz só era possível com o tacão da castração da liberdade de organização dos trabalhadores, ainda que por mecanismos ideológicos.
Na dinâmica da história, esse momento foi também ultrapassado com a percepção de que, no cenário da produção, o homem perdeu a centralidade. Foi o tempo do downsizing, da flexibilização das normas, da valorização da informalidade, da busca de burla da legislação trabalhista em nome de uma vicária garantia do mercado de trabalho para a maioria das pessoas. Para manter o máximo de empregos, o mínimo de garantias. O que era solidariedade entre trabalhadores se tornou competição entre indivíduos-empresas. Eu S/A.
É chegado agora, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o momento da modernidade líquida. Já não importam tanto os controles e panópticos. As funções administrativas ortodoxas se esgotam em nome de ameaça muito mais forte, porque internalizada: o medo do desemprego e da inutilidade social. O primeiro passo foi convencer parte da humanidade de que ela é desnecessária; em seguida, ameaçar a outra porção de que ela pode ser a próxima da fila. O gasto é muito menor e a eficácia bem maior. As pessoas se tornam capazes de tudo para manter seus empregos, até mesmo de deixar de ser pessoas.
Os funcionários e empregados hoje aprenderam com o que de pior a história recente do mercado de trabalho realizou no mundo ocidental. Do fordismo, herdaram a obediência rigorosa às normas e a alienação produtiva; dos círculos de controle de qualidade, o descaso com a organização sindical em nome de interesses corporativos inconfessáveis; da modernidade líquida, o comportamento beligerante com o outro, no limite da deslealdade.
Treinadores e sábios Atualmente, o candidato ideal a um emprego é aquele que vende a si mesmo como produto. E que convence aos outros, que o contratam, que tem algo de novo a entregar. A obsessão pela novidade e criatividade (os chamados comportamentos inovadores), na verdade, vão na contramão do processo educativo que desenvolveu o próprio setor produtivo. Conhecimentos antigos, que exigem tempo e dedicação para se sedimentarem como comportamento moral, se tornaram inúteis. Saem os professores, entram os treinadores. A ética é o oposto da eficácia.
Quem acompanhou a escalação da Seleção Brasileira por Dunga teve um exemplo de como essa movimentação ocupa todos os setores, das empresas aos times de futebol. Dunga é um homem que expõe seus valores com desassombro: gosta de obediência, não admite opiniões contrárias, é conservador, não valoriza o passado, tem medo do futuro. Para tal comportamento, escolheu um estilo de administrar a equipe que tem como único critério o resultado e como método a tirania.
As pessoas, hoje, são pequenos Dungas, mesmo quando reclamam da falta de Ganso na Seleção: todos querem fazer parte da equipe, mesmo às custas de abrir mão da criatividade e de outros valores; aceitam se submeter a um pensamento menor para garantir a estabilidade; trocam o conhecimento pela esperteza; preferem treinadores a sábios por trás de suas decisões. Somos, nesse sentido, todos portadores do medo. Almas de desempregados.
Não é casual que no mundo corporativo, cada dia com mais poder, entrem em cena os chamados coachers, treinadores de carreira. Eles ensinam comportamentos, estratégias de ascensão, marketing pessoal e outros atributos competitivos. Quando tudo dá errado, tornam-se consultores de recolocação, profissionais que mudam o nome do desemprego para oportunidade. E se põem a vender pessoas. Os antigos sábios, guias de uma sociedade que buscava se aprimorar na herança iluminista do bom uso da razão, são hoje intelectuais desprezados pelo passadismo. Além disso, conhecimento humanista não dá dinheiro, logo não deve ser boa coisa.
A Seleção de Dunga é nosso horizonte de civilização. Nada que uma boa derrota não ajude a resolver.
Estado de Minas 15 de maio de 2009
Por muito tempo, o ideal da economia de mercado era a sociedade de pleno emprego. Em tal paraíso sociológico, as pessoas teriam autonomia, dignidade e liberdade. A remuneração garantida funcionaria como colchão ético, um estado de segurança que permitiria a cada cidadão fazer planos, pensar no futuro, não barganhar seus princípios. A consequência dessa realidade seria uma sociedade pacificada, capaz de produzir serviços de qualidade, que seriam adquiridos no mercado. No caso dos produtos ditos sociais, como saúde e educação, eles seriam fornecidos por um Estado rico em razão da própria funcionalidade da economia. Um jogo de ganhador-ganhador.
O chamado Estado de bem-estar social era herdeiro desse projeto. Capitalista na produção e socialista na distribuição, parecia trazer para seu núcleo o melhor dos dois mundos. Da mesma forma que incorporava ideologias aparentemente antagônicas – como liberalismo e igualitarismo –, o funcionamento desse modelo social colocaria no mesmo processo ferramentas típicas da democracia liberal e do socialismo. Assim, o pleno emprego só se manteria operante com forte estrutura sindical; a democracia de massas só se manteria com a liberdade de organização.
De uma hora para outra, o equilíbrio se rompeu. Antes de a chamada social-democracia surgir como solução, o emprego era quase um problema para o setor produtivo. As pessoas trabalhavam, no sistema fordista, como peças de máquina que precisavam ser vigiadas. Todas as teorias aplicadas ao campo do trabalho eram voltadas para controle, estandartização, obediência, verticalismo e reforço da autoridade. Quanto mais ditador, melhor patrão. Assim, o pleno emprego não era visto como ameaça, apenas como um estágio de maior cobrança de competência dos feitores.
A fase seguinte foi a de esgarçamento desse olhar controlador, apostando na capacidade de manifestação das pessoas, na busca de climas de cooperação, nas chamadas parcerias produtivas. Nesse tempo, falava-se em círculos de controle de qualidade, os empregados eram chamados de colaboradores, todo mundo era cliente de todo mundo. A amortização dos conflitos queria fazer crer que os interesses eram os mesmos dos dois lados do balcão: numa empresa rica, todos ganham. A mensagem de paz só era possível com o tacão da castração da liberdade de organização dos trabalhadores, ainda que por mecanismos ideológicos.
Na dinâmica da história, esse momento foi também ultrapassado com a percepção de que, no cenário da produção, o homem perdeu a centralidade. Foi o tempo do downsizing, da flexibilização das normas, da valorização da informalidade, da busca de burla da legislação trabalhista em nome de uma vicária garantia do mercado de trabalho para a maioria das pessoas. Para manter o máximo de empregos, o mínimo de garantias. O que era solidariedade entre trabalhadores se tornou competição entre indivíduos-empresas. Eu S/A.
É chegado agora, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o momento da modernidade líquida. Já não importam tanto os controles e panópticos. As funções administrativas ortodoxas se esgotam em nome de ameaça muito mais forte, porque internalizada: o medo do desemprego e da inutilidade social. O primeiro passo foi convencer parte da humanidade de que ela é desnecessária; em seguida, ameaçar a outra porção de que ela pode ser a próxima da fila. O gasto é muito menor e a eficácia bem maior. As pessoas se tornam capazes de tudo para manter seus empregos, até mesmo de deixar de ser pessoas.
Os funcionários e empregados hoje aprenderam com o que de pior a história recente do mercado de trabalho realizou no mundo ocidental. Do fordismo, herdaram a obediência rigorosa às normas e a alienação produtiva; dos círculos de controle de qualidade, o descaso com a organização sindical em nome de interesses corporativos inconfessáveis; da modernidade líquida, o comportamento beligerante com o outro, no limite da deslealdade.
Treinadores e sábios Atualmente, o candidato ideal a um emprego é aquele que vende a si mesmo como produto. E que convence aos outros, que o contratam, que tem algo de novo a entregar. A obsessão pela novidade e criatividade (os chamados comportamentos inovadores), na verdade, vão na contramão do processo educativo que desenvolveu o próprio setor produtivo. Conhecimentos antigos, que exigem tempo e dedicação para se sedimentarem como comportamento moral, se tornaram inúteis. Saem os professores, entram os treinadores. A ética é o oposto da eficácia.
Quem acompanhou a escalação da Seleção Brasileira por Dunga teve um exemplo de como essa movimentação ocupa todos os setores, das empresas aos times de futebol. Dunga é um homem que expõe seus valores com desassombro: gosta de obediência, não admite opiniões contrárias, é conservador, não valoriza o passado, tem medo do futuro. Para tal comportamento, escolheu um estilo de administrar a equipe que tem como único critério o resultado e como método a tirania.
As pessoas, hoje, são pequenos Dungas, mesmo quando reclamam da falta de Ganso na Seleção: todos querem fazer parte da equipe, mesmo às custas de abrir mão da criatividade e de outros valores; aceitam se submeter a um pensamento menor para garantir a estabilidade; trocam o conhecimento pela esperteza; preferem treinadores a sábios por trás de suas decisões. Somos, nesse sentido, todos portadores do medo. Almas de desempregados.
Não é casual que no mundo corporativo, cada dia com mais poder, entrem em cena os chamados coachers, treinadores de carreira. Eles ensinam comportamentos, estratégias de ascensão, marketing pessoal e outros atributos competitivos. Quando tudo dá errado, tornam-se consultores de recolocação, profissionais que mudam o nome do desemprego para oportunidade. E se põem a vender pessoas. Os antigos sábios, guias de uma sociedade que buscava se aprimorar na herança iluminista do bom uso da razão, são hoje intelectuais desprezados pelo passadismo. Além disso, conhecimento humanista não dá dinheiro, logo não deve ser boa coisa.
A Seleção de Dunga é nosso horizonte de civilização. Nada que uma boa derrota não ajude a resolver.
Estado de Minas 15 de maio de 2009
May 21, 2010
O discurso patrioteiro
JOSÉ GERALDO COUTO
A convocação burocrática e inercial de Dunga para a Copa assusta menos do que a fala retrógrada que a justifica
O QUE MAIS me deixou preocupado, na convocação da seleção brasileira, não foi tanto a escolha óbvia e inercial dos jogadores, mas o discurso patrioteiro de Dunga. Ouvir o treinador justificar suas opções foi como entrar no túnel do tempo e cair nos piores anos da ditadura militar.
No mais acabado estilo "Ame-o ou deixe-o", o que Dunga disse, com quase todas as letras, foi: quem não gosta da minha seleção não gosta do Brasil. Por nossas críticas à convocação, Juca Kfouri, Xico Sá e eu fomos tratados (via e-mail ou comentários na Folha Online) como inimigos da pátria por leitores mais exaltados, embalados pelo ufanismo reinante.
Na visão de Dunga e seus seguidores, jogar na seleção é como fazer serviço militar, e a Copa do Mundo é uma guerra suja, como todas as guerras. Sinto muito, mas não é essa a minha visão.
Copa do Mundo, para mim, é ou deveria ser o momento em que os melhores futebolistas do planeta, defendendo seus respectivos países, fazem o espetáculo esportivo supremo. É, ou deveria ser, um espaço de arte e encantamento, em que o futebol justifica seu estatuto de esporte mais amado em todo o mundo.
Foi nesse espaço, nessa espécie de Olimpo transitório, que brilharam figuras como Pelé, Garrincha, Cruyff, Beckenbauer, Platini, Maradona, Romário, Ronaldo, Zidane.
..
Alijar do evento os jogadores mais talentosos do país, em favor dos mais disciplinados e leais ao chefe, é um crime contra o próprio futebol e uma traição a um dos traços mais ricos da cultura brasileira, que é o nosso jeito de jogar bola. Outros países têm uma dificuldade danada de renovar seus elencos.
Muitos deles recorrem a brasileiros naturalizados para reforçar seus times. O Brasil, ao contrário, revela continuamente novos craques. E por conta de um patriotismo rançoso e retrógrado os desperdiça.
Quem melhor escreveu, a meu ver, sobre a dimensão política e cultural da convocação foi Fernando Barros e Silva, na página 2 da Folha, na quarta-feira passada. Peço licença para transcrever aqui um trecho eloquente de seu texto.
"O clamor patriótico de Dunga parece ser sincero (o que não o torna melhor), mas também soa oportunista e marqueteiro quando se sabe que ele próprio o utiliza para vender cerveja a preço de ouro numa campanha de TV em que aparece berrando bordões do tipo "eu quero raça!". Vender a alma não é isso? Há um jeito esclarecido, cosmopolita, de gostar do Brasil. E há um patriotismo tosco, burrinho, que costuma servir de válvula de escape para pendores autoritários e fanatismos afins. Em seus piores momentos, é esse o sentimento que o futebol mobiliza e atrai."
Eu não teria nada a acrescentar, mas me lembrei de um diálogo que diz tudo o que resta a dizer.
Durante a transmissão de Grêmio 4 x 3 Santos pelo Sportv, diante de uma atuação esplendorosa de Paulo Henrique Ganso, o locutor Milton Leite diz: "Pelo jeito, o Ganso não sentiu o fato de não ter sido convocado". E o comentarista Maurício Noriega responde: "Quem vai sentir o fato de ele não ter sido convocado somos nós".
Aliás, dificilmente veremos na Copa uma partida linda como essa.
Folha, 15 de maio de 2010
A convocação burocrática e inercial de Dunga para a Copa assusta menos do que a fala retrógrada que a justifica
O QUE MAIS me deixou preocupado, na convocação da seleção brasileira, não foi tanto a escolha óbvia e inercial dos jogadores, mas o discurso patrioteiro de Dunga. Ouvir o treinador justificar suas opções foi como entrar no túnel do tempo e cair nos piores anos da ditadura militar.
No mais acabado estilo "Ame-o ou deixe-o", o que Dunga disse, com quase todas as letras, foi: quem não gosta da minha seleção não gosta do Brasil. Por nossas críticas à convocação, Juca Kfouri, Xico Sá e eu fomos tratados (via e-mail ou comentários na Folha Online) como inimigos da pátria por leitores mais exaltados, embalados pelo ufanismo reinante.
Na visão de Dunga e seus seguidores, jogar na seleção é como fazer serviço militar, e a Copa do Mundo é uma guerra suja, como todas as guerras. Sinto muito, mas não é essa a minha visão.
Copa do Mundo, para mim, é ou deveria ser o momento em que os melhores futebolistas do planeta, defendendo seus respectivos países, fazem o espetáculo esportivo supremo. É, ou deveria ser, um espaço de arte e encantamento, em que o futebol justifica seu estatuto de esporte mais amado em todo o mundo.
Foi nesse espaço, nessa espécie de Olimpo transitório, que brilharam figuras como Pelé, Garrincha, Cruyff, Beckenbauer, Platini, Maradona, Romário, Ronaldo, Zidane.
..
Alijar do evento os jogadores mais talentosos do país, em favor dos mais disciplinados e leais ao chefe, é um crime contra o próprio futebol e uma traição a um dos traços mais ricos da cultura brasileira, que é o nosso jeito de jogar bola. Outros países têm uma dificuldade danada de renovar seus elencos.
Muitos deles recorrem a brasileiros naturalizados para reforçar seus times. O Brasil, ao contrário, revela continuamente novos craques. E por conta de um patriotismo rançoso e retrógrado os desperdiça.
Quem melhor escreveu, a meu ver, sobre a dimensão política e cultural da convocação foi Fernando Barros e Silva, na página 2 da Folha, na quarta-feira passada. Peço licença para transcrever aqui um trecho eloquente de seu texto.
"O clamor patriótico de Dunga parece ser sincero (o que não o torna melhor), mas também soa oportunista e marqueteiro quando se sabe que ele próprio o utiliza para vender cerveja a preço de ouro numa campanha de TV em que aparece berrando bordões do tipo "eu quero raça!". Vender a alma não é isso? Há um jeito esclarecido, cosmopolita, de gostar do Brasil. E há um patriotismo tosco, burrinho, que costuma servir de válvula de escape para pendores autoritários e fanatismos afins. Em seus piores momentos, é esse o sentimento que o futebol mobiliza e atrai."
Eu não teria nada a acrescentar, mas me lembrei de um diálogo que diz tudo o que resta a dizer.
Durante a transmissão de Grêmio 4 x 3 Santos pelo Sportv, diante de uma atuação esplendorosa de Paulo Henrique Ganso, o locutor Milton Leite diz: "Pelo jeito, o Ganso não sentiu o fato de não ter sido convocado". E o comentarista Maurício Noriega responde: "Quem vai sentir o fato de ele não ter sido convocado somos nós".
Aliás, dificilmente veremos na Copa uma partida linda como essa.
Folha, 15 de maio de 2010
March 28, 2010
Livro foca vida de mulheres vítimas do regime militar
Governo publica histórias de 27 sobreviventes e de 45 mortas ou desaparecidas
Publicação será lançada hoje, seis dias antes de o golpe completar 46 anos, e é a terceira da série "Direito à Memória e à Verdade"
ELIANE CANTANHÊDE
COLUNISTA DA FOLHA
Em meio à tensão gerada dentro do próprio governo com a criação da comissão da verdade para investigar torturas, mortes e desaparecimentos durante a ditadura militar (1964-1985), as secretarias de Direitos Humanos e de Políticas para as Mulheres lançam hoje o terceiro livro da série "Direito à Memória e à Verdade", desta vez focado nas mulheres vítimas do regime.
Sob o título "Luta, Substantivo Feminino", a publicação intercala as histórias de 45 mulheres mortas ou desaparecidas e os relatos de 27 sobreviventes de diferentes organizações de resistência à ditadura, armadas ou não. Algumas estavam grávidas, outras amamentavam, todas foram torturadas e, não raro, estupradas.
O primeiro livro da série era sobre as vítimas em geral e foi lançado pelo presidente Lula no Planalto, em agosto de 2007, gerando reações nas Forças Armadas. O atual será divulgado na PUC-SP, seis dias antes de o golpe de 31 de março de 1964 completar 46 anos.
Entre os depoimentos, não consta o da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que também foi militante da esquerda armada, presa e torturada e hoje é candidata à Presidência pelo PT. A explicação é que os autores quiseram dar um caráter suprapartidário ao trabalho, sobretudo em ano eleitoral.
Na apresentação, o ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos), que é o principal responsável pelo 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, faz um apelo velado às Forças Armadas, ao dizer que a publicação "pode mudar opiniões de quem ainda resiste à elucidação profunda de todos esses episódios como passo necessário a uma reconciliação nacional".
Em seguida, a ministra Nilcéa Freire (Mulheres) defende ampla apuração da verdade: "A superação dos fantasmas que ainda assombram nossa história recente exige confrontá-los. Para exorcizá-los, será preciso retirá-los dos lugares onde estão escondidos, nomeá-los, olhá-los nos olhos e compreender os mecanismos que os permitem surgir".
As mortas e desaparecidas são divididas em três grupos: de 1964 a 1974, incluindo o período agudo da repressão; de 1974 a 1985, já no processo classificado de "distensão"; e a Guerrilha do Araguaia, no final da década de 1960 e início da de 1970, na região do rio Araguaia.
Todas são acompanhadas de fotos mostrando rostos jovens, alguns quase infantis, como o de Aurora Maria Nascimento Furtado (1946-1972), que estudava Psicologia na USP e militava na UNE (União Nacional dos Estudantes) e na ALN (Ação Libertadora Nacional).
Conforme o livro, "Aurora foi submetida a pau de arara, choques elétricos, espancamentos, afogamentos e queimaduras, além da "coroa de Cristo", fita de aço que vai sendo apertada aos poucos e esmaga o crânio. Morreu no dia seguinte". Seu corpo, porém, foi encontrado no subúrbio do Rio crivado de balas.
Entre os depoimentos de sobreviventes, há o de Damaris Lucena, que hoje vive em São Paulo. Era feirante e militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Foi presa quando seu marido foi morto a tiros à queima-roupa, em 1970.
"Minha boca ficou toda inchada, cheia de dentes quebrados (...). Minha vagina ficou toda arrebentada por causa dos choques. Meu útero e minha bexiga ficaram para fora. Eu tive de fazer operação em Cuba, levei 90 pontos e estou viva por milagre", relata.
O livro é mais um esforço para apuração e divulgação da verdadeira história da repressão política na ditadura, enquanto o governo expande a procura de restos mortais de desaparecidos para além da região do Araguaia.
Folha, 25 de março de 2010
'Tô pensano...' - Uma reflexão sobre as drogas e o Daime
ARNALDO BLOCH
E stive pensando em como a questão das drogas, por si só, provoca distorções de percepção, por mais careta que seja, ou esteja, a pessoa que se envolve em discussões sobre o assunto. Por exemplo, o Jojó entorna uns chopes, dá dois num baseado e passa uma cantada grosseira numa senhora de boa família. A grande maioria dos observadores dirá que o Jojó agiu assim por causa do bagulho e da gelada. Só uns gatos pingados dirão que o Jojó é assim mesmo, inconveniente, que o goró tem pouco, ou nada, a ver com o caso.
Se, por outro lado, o Jojó for para casa e, antes de puxar um ronco, telefonar para o Retiro dos Artistas anunciando uma doação gorda para a Páscoa dos velhinhos, os que souberem de seu ato dirão que o Jojó é generoso, um cara legal, um santo. Poucos atribuirão seu impulso à maconha e ao álcool, a não ser, é claro, que o Jojó seja um tremendo mão-deporco que só coça o bolso quando bebe e fuma.
Assim caminha o senso comum.
E o senso comum é ótimo quando não exclui a inteligência. Quando manipulado para criar verdades absolutas sem reflexão, tornase uma arma perigosa. Difundir em massa, por exemplo, que a morte do cartunista Glauco é uma evidência incontestável de que o Daime produz assassinos impiedosos é manipular o senso comum. Quantos assassinos os círculos que tomam o chá “produziram” nas últimas décadas? Há outros casos suspeitos relatados? Por outro lado, quantas são, comparativamente, as mortes provocadas por uso indevido de remédios e álcool? Alguém já investigou a influência de surtos de ansiedade por ingestão de litros de café por jornada de trabalho num comportamento criminoso? Dizer que o ayahuasca (a bebida indígena utilizada pelo Daime e outras congregações, a maior parte religiosas) agrava surtos de esquizofrenia (doença da qual o assassino de Glauco sofria) é chover no molhado. A ingestão de qualquer substância que amplie os sentidos pode agravar uma psicose.
Um indivíduo diagnosticado como esquizofrênico deve ser resguardado de ingerir qualquer coisa que não sejam as drogas receitadas por seu psiquiatra. Se, contudo, a família decide que ele pode frequentar cultos de Daime e seus líderes o recebem com o propósito de curá-lo, é um risco calculado por todos. Isto, é claro, não garante, nem de longe, que o ato que levou à morte de Glauco esteja associado ao processo que ele viveu naquela comunidade, inclusive porque o assassino, usuário de cocaína e crack, drogas que consumiu a caminho do local da tragédia. Usar tais correlações categóricas para questionar o fato de o ayahuasca ser hoje uma bebida legalmente utilizada é tão irresponsável quanto o eventual mau uso da substância.
Já tomei o chá em dois âmbitos. Da primeira vez, com uma tribo no Acre, durante uma noite inteira, no meio da floresta, sem qualquer ligação com o culto do Santo Daime. Interessavame mais beber com os índios, num ambiente dissociado do caráter sincrético-religioso que em muito desvirtua o sentido de seu uso original. Da segunda vez, no Rio, participei de uma celebração do Daime com quase trinta pessoas. Não experimentei, nas duas ocasiões, nem êxtase nem desespero. Não senti alterações na noção do tempo. O que vivi, ao contrário, foi um longo percurso de exame existencial em estado de alta consciência, e, em paralelo, um conjunto de visões que, entre si, formavam uma lógica de integração dessas percepções individuais com o que estava à minha volta (sobretudo na Amazônia, embalado pelos sons e o céu da floresta).
Nas duas experiências, só vi, no comportamento dos outros, ímpetos de comunhão e busca de paz. A culpa que havia ali estava na consciência de cada um, confrontada com um sentido ampliado do inconsciente e da ancestralidade.
O que chamo de ancestralidade, independentemente de estar ou não relacionada com espíritos ou entidades (como creem os índios) ou com Jesus e Maria (como creem os cultores do Daime) integra o conjunto de símbolos que constroem a psique humana em sua marcha civilizacional, transmitida de geração em geração. Símbolos que, estimulados pela bebida, desfilam ante o pensamento, que traduz as metáforas num léxico que muito ensina sobre o que somos, o que fomos e o que podemos vir a ser. A maioria de pessoas que tomaram o chá com quem conversei relatam, em essência, a mesma coisa. Algumas creem que divindades estão presentes. Outras, como eu, pensam que isso nada tem de sobrenatural.
E que tem tudo a ver com evolução.
Foi a experiência mais significativa que vivi.
Se eu morrer hoje, já terei visto aquilo que precisava ver. Sou judeu e tenho uma tendência ao agnosticismo que inclui ciclos de maior e menor aproximação com a ideia de Deus.
Bem sei das mazelas que a religião, com ou sem chá, podem provocar. Bem sei, também, que o ayahuasca pode precipitar, em alguns casos, problemas psíquicos ainda não manifestos num indivíduo, como outros estímulos, químicos ou emocionais, podem fazer.
Sei também que, embora entorpeça e provoque vivências dolorosas dentro desse exame que uns chamam de “trabalho”, não intoxica, não pesa no fígado, e, na maior parte das vezes só traz boas emanações, num espectro coletivo. Por incrível que pareça, não conheço relato de alguém que tenha burlado a proibição de se vender o ayahuasca, o que é um tanto misterioso. E raríssimos relatos de uso individual, sem assistência, desta poderosa poção que se populariza mundo afora.
Glauco, certamente, sabia disso. A infelicidade que se abateu sobre sua família e sua comunidade não justifica invalidar-se, com meia dúzia de loquazes fórmulas preconceituosas, tudo de bom que se acumulou através do uso de um chá milenar, já conhecido de civilizações pré-colombianas de alto saber, e que tem muito mais história que as vozes desejosas de parar o tempo através da amplificação consciente do medo e da ignorância.
O Globo, 27 demarço de 2010
E stive pensando em como a questão das drogas, por si só, provoca distorções de percepção, por mais careta que seja, ou esteja, a pessoa que se envolve em discussões sobre o assunto. Por exemplo, o Jojó entorna uns chopes, dá dois num baseado e passa uma cantada grosseira numa senhora de boa família. A grande maioria dos observadores dirá que o Jojó agiu assim por causa do bagulho e da gelada. Só uns gatos pingados dirão que o Jojó é assim mesmo, inconveniente, que o goró tem pouco, ou nada, a ver com o caso.
Se, por outro lado, o Jojó for para casa e, antes de puxar um ronco, telefonar para o Retiro dos Artistas anunciando uma doação gorda para a Páscoa dos velhinhos, os que souberem de seu ato dirão que o Jojó é generoso, um cara legal, um santo. Poucos atribuirão seu impulso à maconha e ao álcool, a não ser, é claro, que o Jojó seja um tremendo mão-deporco que só coça o bolso quando bebe e fuma.
Assim caminha o senso comum.
E o senso comum é ótimo quando não exclui a inteligência. Quando manipulado para criar verdades absolutas sem reflexão, tornase uma arma perigosa. Difundir em massa, por exemplo, que a morte do cartunista Glauco é uma evidência incontestável de que o Daime produz assassinos impiedosos é manipular o senso comum. Quantos assassinos os círculos que tomam o chá “produziram” nas últimas décadas? Há outros casos suspeitos relatados? Por outro lado, quantas são, comparativamente, as mortes provocadas por uso indevido de remédios e álcool? Alguém já investigou a influência de surtos de ansiedade por ingestão de litros de café por jornada de trabalho num comportamento criminoso? Dizer que o ayahuasca (a bebida indígena utilizada pelo Daime e outras congregações, a maior parte religiosas) agrava surtos de esquizofrenia (doença da qual o assassino de Glauco sofria) é chover no molhado. A ingestão de qualquer substância que amplie os sentidos pode agravar uma psicose.
Um indivíduo diagnosticado como esquizofrênico deve ser resguardado de ingerir qualquer coisa que não sejam as drogas receitadas por seu psiquiatra. Se, contudo, a família decide que ele pode frequentar cultos de Daime e seus líderes o recebem com o propósito de curá-lo, é um risco calculado por todos. Isto, é claro, não garante, nem de longe, que o ato que levou à morte de Glauco esteja associado ao processo que ele viveu naquela comunidade, inclusive porque o assassino, usuário de cocaína e crack, drogas que consumiu a caminho do local da tragédia. Usar tais correlações categóricas para questionar o fato de o ayahuasca ser hoje uma bebida legalmente utilizada é tão irresponsável quanto o eventual mau uso da substância.
Já tomei o chá em dois âmbitos. Da primeira vez, com uma tribo no Acre, durante uma noite inteira, no meio da floresta, sem qualquer ligação com o culto do Santo Daime. Interessavame mais beber com os índios, num ambiente dissociado do caráter sincrético-religioso que em muito desvirtua o sentido de seu uso original. Da segunda vez, no Rio, participei de uma celebração do Daime com quase trinta pessoas. Não experimentei, nas duas ocasiões, nem êxtase nem desespero. Não senti alterações na noção do tempo. O que vivi, ao contrário, foi um longo percurso de exame existencial em estado de alta consciência, e, em paralelo, um conjunto de visões que, entre si, formavam uma lógica de integração dessas percepções individuais com o que estava à minha volta (sobretudo na Amazônia, embalado pelos sons e o céu da floresta).
Nas duas experiências, só vi, no comportamento dos outros, ímpetos de comunhão e busca de paz. A culpa que havia ali estava na consciência de cada um, confrontada com um sentido ampliado do inconsciente e da ancestralidade.
O que chamo de ancestralidade, independentemente de estar ou não relacionada com espíritos ou entidades (como creem os índios) ou com Jesus e Maria (como creem os cultores do Daime) integra o conjunto de símbolos que constroem a psique humana em sua marcha civilizacional, transmitida de geração em geração. Símbolos que, estimulados pela bebida, desfilam ante o pensamento, que traduz as metáforas num léxico que muito ensina sobre o que somos, o que fomos e o que podemos vir a ser. A maioria de pessoas que tomaram o chá com quem conversei relatam, em essência, a mesma coisa. Algumas creem que divindades estão presentes. Outras, como eu, pensam que isso nada tem de sobrenatural.
E que tem tudo a ver com evolução.
Foi a experiência mais significativa que vivi.
Se eu morrer hoje, já terei visto aquilo que precisava ver. Sou judeu e tenho uma tendência ao agnosticismo que inclui ciclos de maior e menor aproximação com a ideia de Deus.
Bem sei das mazelas que a religião, com ou sem chá, podem provocar. Bem sei, também, que o ayahuasca pode precipitar, em alguns casos, problemas psíquicos ainda não manifestos num indivíduo, como outros estímulos, químicos ou emocionais, podem fazer.
Sei também que, embora entorpeça e provoque vivências dolorosas dentro desse exame que uns chamam de “trabalho”, não intoxica, não pesa no fígado, e, na maior parte das vezes só traz boas emanações, num espectro coletivo. Por incrível que pareça, não conheço relato de alguém que tenha burlado a proibição de se vender o ayahuasca, o que é um tanto misterioso. E raríssimos relatos de uso individual, sem assistência, desta poderosa poção que se populariza mundo afora.
Glauco, certamente, sabia disso. A infelicidade que se abateu sobre sua família e sua comunidade não justifica invalidar-se, com meia dúzia de loquazes fórmulas preconceituosas, tudo de bom que se acumulou através do uso de um chá milenar, já conhecido de civilizações pré-colombianas de alto saber, e que tem muito mais história que as vozes desejosas de parar o tempo através da amplificação consciente do medo e da ignorância.
O Globo, 27 demarço de 2010
March 11, 2010
Abaixo a repressão
JOSÉ GERALDO COUTO
HÁ QUEM CONDENE a jogada de efeito "desnecessária". Perguntam: para que essa pedalada que não sai do lugar? Esse chapéu no meio de campo? Esse toque entre as canetas perto da lateral?
Discordo radicalmente. Entre a firula e sua repressão, fico com a firula. Por dois motivos. Primeiro: quem define o que é necessário ou não?
Dirão: necessária é a jogada que redunda em situação de gol. Ora, que pobreza de espírito.
O futebol é não apenas um confronto de técnica e estratégia mas também uma disputa, digamos, moral (no sentido amplo da palavra). Os fatores psicológicos ou emocionais contam muito na definição da supremacia de um jogador ou de um time sobre seu adversário.
Sempre me lembro de uma história contada por Djalma Santos. Já em fim de carreira, o grande lateral do Palmeiras tinha de vez em quando pela frente o então jovem e endiabrado ponta Edu, do Santos.
Quando isso acontecia, Djalma, logo nos primeiros minutos, tratava de aplicar um drible humilhante sobre o rapaz, para "aquietá-lo". Era como se dissesse: "Sabe com quem você está falando?". A tática, segundo ele, dava certo. Outros laterais, mais limitados, tentavam em vão parar Edu na porrada.
Gostei da resposta de Neymar quando o zagueiro Chicão, no último Santos x Corinthians, disse que ia "quebrá-lo no meio". O atrevido atacante respondeu: "Vem. Se você me achar...".
E olhe que Chicão não é nenhum brucutu. Como diria o Neto, é um baita jogador. Por sorte, não "achou" Neymar naquela tarde. Sorte de quem? De Neymar e dos santistas, claro, mas também de todo mundo que gosta de futebol bonito.
E aqui entramos no segundo motivo pelo qual defendo a chamada firula. Entre muitas outras coisas, futebol é diversão. O público quer ver coisas espetaculares, surpreendentes, desconcertantes. O torcedor pode até se irritar momentaneamente quando o drible é contra o seu time, mas é essa promessa de encantamento que faz a gente ir ao estádio.
Será que o torcedor corintiano não se diverte ao rever hoje, oito anos passados, a série de pedaladas que Robinho deu sobre Rogério no Brasileirão de 2002? Na hora doeu, mas hoje é possível contemplar com deleite aquela explosão de talento e ousadia.
Fico assustado ao ver a reação castradora de atletas, técnicos e boa parte da crônica esportiva diante de lances de irreverência e habilidade.
Garrincha, se atuasse hoje, seria executado em praça pública.
Será que esse impulso repressivo não faz parte, de algum modo, da onda de moralismo que assola o esporte, em termos mundiais? Assim como a condenação pública dos atletas que "pulam a cerca", a censura ao drible expressa, a meu ver, uma nada saudável aversão ao prazer.
Folha, 6 de março de 2010
A firula, mesmo quando "desnecessária", faz parte do futebol como espetáculo e como disputa moral |
HÁ QUEM CONDENE a jogada de efeito "desnecessária". Perguntam: para que essa pedalada que não sai do lugar? Esse chapéu no meio de campo? Esse toque entre as canetas perto da lateral?
Discordo radicalmente. Entre a firula e sua repressão, fico com a firula. Por dois motivos. Primeiro: quem define o que é necessário ou não?
Dirão: necessária é a jogada que redunda em situação de gol. Ora, que pobreza de espírito.
O futebol é não apenas um confronto de técnica e estratégia mas também uma disputa, digamos, moral (no sentido amplo da palavra). Os fatores psicológicos ou emocionais contam muito na definição da supremacia de um jogador ou de um time sobre seu adversário.
Sempre me lembro de uma história contada por Djalma Santos. Já em fim de carreira, o grande lateral do Palmeiras tinha de vez em quando pela frente o então jovem e endiabrado ponta Edu, do Santos.
Quando isso acontecia, Djalma, logo nos primeiros minutos, tratava de aplicar um drible humilhante sobre o rapaz, para "aquietá-lo". Era como se dissesse: "Sabe com quem você está falando?". A tática, segundo ele, dava certo. Outros laterais, mais limitados, tentavam em vão parar Edu na porrada.
Gostei da resposta de Neymar quando o zagueiro Chicão, no último Santos x Corinthians, disse que ia "quebrá-lo no meio". O atrevido atacante respondeu: "Vem. Se você me achar...".
E olhe que Chicão não é nenhum brucutu. Como diria o Neto, é um baita jogador. Por sorte, não "achou" Neymar naquela tarde. Sorte de quem? De Neymar e dos santistas, claro, mas também de todo mundo que gosta de futebol bonito.
E aqui entramos no segundo motivo pelo qual defendo a chamada firula. Entre muitas outras coisas, futebol é diversão. O público quer ver coisas espetaculares, surpreendentes, desconcertantes. O torcedor pode até se irritar momentaneamente quando o drible é contra o seu time, mas é essa promessa de encantamento que faz a gente ir ao estádio.
Será que o torcedor corintiano não se diverte ao rever hoje, oito anos passados, a série de pedaladas que Robinho deu sobre Rogério no Brasileirão de 2002? Na hora doeu, mas hoje é possível contemplar com deleite aquela explosão de talento e ousadia.
Fico assustado ao ver a reação castradora de atletas, técnicos e boa parte da crônica esportiva diante de lances de irreverência e habilidade.
Garrincha, se atuasse hoje, seria executado em praça pública.
Será que esse impulso repressivo não faz parte, de algum modo, da onda de moralismo que assola o esporte, em termos mundiais? Assim como a condenação pública dos atletas que "pulam a cerca", a censura ao drible expressa, a meu ver, uma nada saudável aversão ao prazer.
Folha, 6 de março de 2010
February 28, 2010
Geisy na folia
FERNANDO DE BARROS E SILVA
SÃO PAULO - Com a palavra, o apresentador do "Fantástico": "A polêmica acabou em samba. Lembra da Geisy, aquela do vestidinho rosa que provocou um rebuliço numa universidade em São Paulo? Ela está de volta, modificada, revista e ampliada". Assim começava a reportagem do dominical da Globo sobre a lipoescultura a que se submeteu a estudante Geisy Arruda. Tratava-se de mostrar em primeira mão o "novo visual" que a musa acidental da Uniban iria exibir durante os festejos momescos.
"Samba, vestidinho rosa, rebuliço" -as expressões engraçadinhas do locutor dão o tom acafajestado do suflê destinado a entreter os lares no final do domingão.
Uma das coisas que mais chamam a atenção no caso Geisy é a conversão do trauma em oportunidade, da humilhação em dinheiro, da selvageria em diversão de massa. A passagem entre uma coisa e outra se deu de maneira instantânea, sem que houvesse tempo para a elaboração do luto ou preocupação em refletir sobre o que aconteceu.
Depois de dizer que cinco litros de gordura foram pelo ralo, que "a barriga virou bumbum" e que Geisy ganhou quase meio litro de silicone em cada peito, o repórter pergunta: "Será que uma lourona dessas passa despercebida nas ruas?"
Vemos então miss Uniban desfilar pelos bares, entre marmanjos ouriçados a emitir sons de aprovação e correr para clicar a "nova Geisy" com os celulares. A cena lembra a turba em fúria nos corredores da universidade.
Aquilo que a escola prometia como perspectiva remota (uma vida melhor com o canudo na mão), Geisy alcançou num estalo, não pelo que aprendeu, mas como vítima da estupidez e da atrocidade do ambiente de ensino que frequentava.
Talvez ainda exista a tentação de criticar o deslumbramento da garota com sua fama descartável. Mas por quê? Ela não é mais vulgar do que as apelações da mídia a seu respeito. Ela não é mais frívola do que o jornalismo de celebridades e seus espectadores.
Folha, 15 de fevereiro de 2009
SÃO PAULO - Com a palavra, o apresentador do "Fantástico": "A polêmica acabou em samba. Lembra da Geisy, aquela do vestidinho rosa que provocou um rebuliço numa universidade em São Paulo? Ela está de volta, modificada, revista e ampliada". Assim começava a reportagem do dominical da Globo sobre a lipoescultura a que se submeteu a estudante Geisy Arruda. Tratava-se de mostrar em primeira mão o "novo visual" que a musa acidental da Uniban iria exibir durante os festejos momescos.
"Samba, vestidinho rosa, rebuliço" -as expressões engraçadinhas do locutor dão o tom acafajestado do suflê destinado a entreter os lares no final do domingão.
Uma das coisas que mais chamam a atenção no caso Geisy é a conversão do trauma em oportunidade, da humilhação em dinheiro, da selvageria em diversão de massa. A passagem entre uma coisa e outra se deu de maneira instantânea, sem que houvesse tempo para a elaboração do luto ou preocupação em refletir sobre o que aconteceu.
Depois de dizer que cinco litros de gordura foram pelo ralo, que "a barriga virou bumbum" e que Geisy ganhou quase meio litro de silicone em cada peito, o repórter pergunta: "Será que uma lourona dessas passa despercebida nas ruas?"
Vemos então miss Uniban desfilar pelos bares, entre marmanjos ouriçados a emitir sons de aprovação e correr para clicar a "nova Geisy" com os celulares. A cena lembra a turba em fúria nos corredores da universidade.
Aquilo que a escola prometia como perspectiva remota (uma vida melhor com o canudo na mão), Geisy alcançou num estalo, não pelo que aprendeu, mas como vítima da estupidez e da atrocidade do ambiente de ensino que frequentava.
Talvez ainda exista a tentação de criticar o deslumbramento da garota com sua fama descartável. Mas por quê? Ela não é mais vulgar do que as apelações da mídia a seu respeito. Ela não é mais frívola do que o jornalismo de celebridades e seus espectadores.
Folha, 15 de fevereiro de 2009
A incultura de todo dia
TEIXEIRA COELHO
ESPECIAL PARA A FOLHA
A cultura cristalizada, objetivada (museu, cinema, folclore) recebe atenção no Brasil. Não muita: alguma. É antes objeto de discussão que de apoio real. Mas recebe.
A microcultura, porém, que forma as relações humanas, a cultura interiorizada, modo de pensar e viver, continua à margem. Rala, esburacada, em frangalhos. A cultura formal e a cultura cotidiana seguem rotas paralelas que deveriam ser pelo menos convergentes.
Sinal claro é o Índice de Desenvolvimento Humano do país: 75º entre 182. Atrás de Sérvia, Rússia, Romênia, México, Uruguai, Argentina, Chile, Barbados, Hong Kong, Singapura, Bahamas, Costa Rica, Líbia... Índices falham. Mas algo mostram.
Integram esse índice a alfabetização e a escolaridade: quantos sabem ler e escrever, quanto tempo passam na escola. Quando se examina o conteúdo de uma e outra, a situação aqui assusta ainda mais. Nos últimos dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), os estudantes brasileiros estão na 53ª posição em matemática, entre 57 países; e na 48ª, entre 56, em compreensão de texto.
Um abismo existe entre a cultura objetivada e a cultura vivida. O resultado é o autoritarismo em todas as suas formas (incluindo a corrupção) de humilhação e abuso cotidianos -do ônibus que não para junto ao meio-fio para recolher passageiros ao lixo espalhado nas ruas e às pessoas que, no metrô, querem entrar nos vagões antes que os outros desembarquem, como se os outros não existissem. A incultura faz isso: torna os outros invisíveis. Irrelevantes.
A violência crua é o modo duro da incultura. Com a ausência do Estado em uma de suas funções indelegáveis, as pessoas, desesperadas, querem proteger-se como possível. Terceirizar parece a saída. Ninguém quer saber se os contratados são capacitados. Passa-se a responsabilidade adiante e pronto. Tudo é questão de aparência. E a aparência, aqui, é violência. O Estado passa sua responsabilidade aos que já pagaram por ela e esses a repassam a terceiros, pagando de novo, sem ocupar-se do "produto". Se algo acontecer, a culpa é do terceiro. Não é. Mas todos pretendem que sim. Resultado, "o segurança" é, ele mesmo, não raro, fator de insegurança e da violência que deveria evitar.
É evidente que falo do assassinato de um jovem pelo "segurança" de uma padaria num bairro de classe média alta, ao lado de um ótimo hospital ao qual esse jovem não pôde chegar com vida. Tragicamente emblemático.
Enquanto isso, um economista diz que o Brasil logo será a quinta economia do mundo e que então terá sua autoestima. Não terá. Sem a cultura como lastro e tecido, o país não se moverá um centímetro do horror que tentamos não ver.
Cruzar a ponte entre a cultura formal e a cultura interiorizada, que juntas sugerem, senão o amor, pelo menos o respeito pelo outro, não é o maior desafio: é o único desafio. A educação foi vista como panaceia universal. Não é. Educação sem cultura, como aqui, nada é.
Cultura tampouco é panaceia. É apenas, e não é pouco, a alavanca restante.
Este texto é uma homenagem, ínfima, aos que em 2009 caíram sob o peso da incultura brasileira.
TEIXEIRA COELHO é professor da ECA-USP, autor de "Dicionário Crítico de Política Cultural", crítico e curador do Masp (Museu de Arte de São Paulo)
Folha, 29 de dezembro de 2009
Canal pago acolhe o que Holywood baniu
RAUL JUSTE LORES
DE PEQUIM
As dez maiores bilheterias do cinema americano no ano passado não deixam dúvidas de que temas adultos, roteiros elaborados e atores com mais de 30 anos têm mais chance na TV do que em Hollywood.
"Transformers 2", "Harry Potter 6", "Se Beber, Não Case", "Up", "Lua Nova" e "Avatar" têm algo em comum, saltos tecnológicos à parte: uma escritura sem ossos ou espinhas para que adolescentes, os maiores frequentadores dos cinemas, possam mastigá-los sem medo.
"Não existem papéis tão intensos no cinema", reclama o ator Ted Danson, da série Damages. "Nos filmes de US$ 100 milhões, o investimento está nos efeitos especiais e no marketing, não no roteiro", diz.
A depressão da América pós-crise financeira ("Hung", "Damages"), os desafios morais da guerra ao terror ("24"), a América sexista e racista pré-revolução sexual ("Mad Men"), a indústria das drogas e suas insuspeitas ramificações ("The Wire") ou a intolerância ("True Blood") ganham generosos roteiros, produção em película, cenas de sexo e drogas banidas de Hollywood e um status único na cultura pop.
O jornal "El País" perguntou a famosos escritores espanhóis o que achavam da atual safra de seriados. "Se Dumas ou Balzac estivessem vivos, estariam na TV, onde é feita boa parte da melhor narrativa no mundo", compara Carlos Ruiz Safón.
"As sete temporadas de "Os Sopranos" foram pouco", reclama o fã Javier Marías. E o filósofo Fernando Savater diz que "Os Simpsons" não se limitam à sátira social, mas "que praticam com ácido entusiasmo a purificação antropológica".
A rede de TV franco-alemã Arte dedicou o documentário "Hollywood, o Reino das Séries", à era dourada da TV americana. No programa, destaca-se o poder dos roteiristas-produtores sobre o dos diretores e o cuidado com o texto.
O métier já se deu conta disso. Grandes atores hollywoodianos que não encontravam bons papéis na indústria-pipoca migraram para a TV. Glenn Close, Kathy Bates, Holly Hunter, Kiefer Sutherland, Martin Sheen e Rachel Griffiths se mudaram para a telinha, assim como nomes quentes do cinema independente, como Tim Roth, Gabriel Byrne, Patricia Clarkson, Mary Louise Parker e Chloe Sevigny.
Cineastas como o argentino Juan José Campanella ("O Filho da Noiva") e o norte-americano Bryan Singer ("Os Suspeitos") trabalham como diretor e produtor executivo da série "House" (Universal Channel).
Alan Ball, que levou o Oscar por "Beleza Americana", se consagrou mesmo com os seriados "A Sete Palmos" e "True Blood". O escritor Dennis Lehane escreveu roteiros para "The Wire", e o cineasta Rodrigo García, filho de Gabriel García Márquez, dirigiu episódios de "A Sete Palmos", "Big Love" e "In Treatment".
O riquíssimo mercado televisivo americano ajudou a revolução: 55% da audiência está nos canais a cabo, que chegam a 100 milhões de domicílios que pagam pela assinatura e são o público mais cobiçado pelos anunciantes. Se as TVs abertas visam a massa, o cabo precisa achar o seu nicho.
Por isso uma série como "Mad Men", a mais premiada nos últimos três anos no país, pode se contentar com apenas 2 milhões de espectadores por episódio. Por trás de sucessos como "True Blood", "Sex and the City" e "A Sete Palmos", a HBO arrebanhou 40 milhões de assinantes. Sua maior concorrente, Showtime, investiu em seriados ainda mais polêmicos, como "Dexter", "Queer as Folk", "Californication", "The Tudors" e "The L Word".
Roteiristas do seriado "The Wire" já participaram de festivais literários no Reino Unido e na China, onde outros escritores os tietavam. Para esses intelectuais, o esterco cultural não está no cabo.
Folha, 18 de fevereiro de 2009
DE PEQUIM
ilustração de Caco Galhardo
As dez maiores bilheterias do cinema americano no ano passado não deixam dúvidas de que temas adultos, roteiros elaborados e atores com mais de 30 anos têm mais chance na TV do que em Hollywood.
"Transformers 2", "Harry Potter 6", "Se Beber, Não Case", "Up", "Lua Nova" e "Avatar" têm algo em comum, saltos tecnológicos à parte: uma escritura sem ossos ou espinhas para que adolescentes, os maiores frequentadores dos cinemas, possam mastigá-los sem medo.
"Não existem papéis tão intensos no cinema", reclama o ator Ted Danson, da série Damages. "Nos filmes de US$ 100 milhões, o investimento está nos efeitos especiais e no marketing, não no roteiro", diz.
A depressão da América pós-crise financeira ("Hung", "Damages"), os desafios morais da guerra ao terror ("24"), a América sexista e racista pré-revolução sexual ("Mad Men"), a indústria das drogas e suas insuspeitas ramificações ("The Wire") ou a intolerância ("True Blood") ganham generosos roteiros, produção em película, cenas de sexo e drogas banidas de Hollywood e um status único na cultura pop.
O jornal "El País" perguntou a famosos escritores espanhóis o que achavam da atual safra de seriados. "Se Dumas ou Balzac estivessem vivos, estariam na TV, onde é feita boa parte da melhor narrativa no mundo", compara Carlos Ruiz Safón.
"As sete temporadas de "Os Sopranos" foram pouco", reclama o fã Javier Marías. E o filósofo Fernando Savater diz que "Os Simpsons" não se limitam à sátira social, mas "que praticam com ácido entusiasmo a purificação antropológica".
A rede de TV franco-alemã Arte dedicou o documentário "Hollywood, o Reino das Séries", à era dourada da TV americana. No programa, destaca-se o poder dos roteiristas-produtores sobre o dos diretores e o cuidado com o texto.
O métier já se deu conta disso. Grandes atores hollywoodianos que não encontravam bons papéis na indústria-pipoca migraram para a TV. Glenn Close, Kathy Bates, Holly Hunter, Kiefer Sutherland, Martin Sheen e Rachel Griffiths se mudaram para a telinha, assim como nomes quentes do cinema independente, como Tim Roth, Gabriel Byrne, Patricia Clarkson, Mary Louise Parker e Chloe Sevigny.
Cineastas como o argentino Juan José Campanella ("O Filho da Noiva") e o norte-americano Bryan Singer ("Os Suspeitos") trabalham como diretor e produtor executivo da série "House" (Universal Channel).
Alan Ball, que levou o Oscar por "Beleza Americana", se consagrou mesmo com os seriados "A Sete Palmos" e "True Blood". O escritor Dennis Lehane escreveu roteiros para "The Wire", e o cineasta Rodrigo García, filho de Gabriel García Márquez, dirigiu episódios de "A Sete Palmos", "Big Love" e "In Treatment".
O riquíssimo mercado televisivo americano ajudou a revolução: 55% da audiência está nos canais a cabo, que chegam a 100 milhões de domicílios que pagam pela assinatura e são o público mais cobiçado pelos anunciantes. Se as TVs abertas visam a massa, o cabo precisa achar o seu nicho.
Por isso uma série como "Mad Men", a mais premiada nos últimos três anos no país, pode se contentar com apenas 2 milhões de espectadores por episódio. Por trás de sucessos como "True Blood", "Sex and the City" e "A Sete Palmos", a HBO arrebanhou 40 milhões de assinantes. Sua maior concorrente, Showtime, investiu em seriados ainda mais polêmicos, como "Dexter", "Queer as Folk", "Californication", "The Tudors" e "The L Word".
Roteiristas do seriado "The Wire" já participaram de festivais literários no Reino Unido e na China, onde outros escritores os tietavam. Para esses intelectuais, o esterco cultural não está no cabo.
Folha, 18 de fevereiro de 2009
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