December 16, 2009

Choque de ordem: uma fórmula antipática e ineficaz

A idéia de que a ordem social se transforma a partir de uma atitude de impacto não se comprova na prática.

A prática demonstra que choques de ordem funcionam no momento em que são aplicados mas não implicam em melhorias continuadas da ordem. Essas só ocorrem com projetos de longa duração, com investimentos de fluxo contínuo, com a constante presença do Estado junto à comunidade sob a forma de boas instalações e de funcionários bem formados.

Todas essas medidas que vemos anunciadas nos jornais com estardalhaço, algumas ridículas como o recolhimento dos brinquedos em algumas praças, outras atacando apenas os setores menos capazes de opor resistência, como os vendedores ambulantes; ou destruindo instalações de bares de alguns desapadrinhados, visam apenas a publicidade e o voto dos desavisados. E são desmoralizadas, por exemplo, pela volta dos moradores de rua aos mesmos lugares no dia seguinte. Sinal de que essa não é a solução para o problema da população de rua. É preciso achar uma outra política.

Não é assim que o Rio vai mudar para melhor.

Esse progresso só será alcançado a partir de um planejamento consciencioso e articulado das políticas públicas de longo prazo que contemplem as questões urbanas em seu conjunto: transportes, circulação, iluminação pública, limpeza das ruas, escoamento das águas, segurança e, é claro, saúde e educação.

Sem esquecer o planejamento ordenado do crescimento da cidade e, este é um problema que, no momento, diz respeito à expansão especulativa que se volta para a Zona Oeste e que pretende se beneficiar dos recursos públicos destinados às Olimpiadas de 2016.

- Isabel Lustosa


December 13, 2009

Sonho de cinema por trás dos muros

Menores infratores do Instituto João Luiz Alves, na Ilha, fazem filme sobre futebol



Tulio Brandão

Para os menores infratores do Instituto João Luiz Alves, na Ilha do Governador, o melhor da vida é a ficção.

Pelas retinas de cada um deles, escorrem lembranças de violência, colapso familiar, perdas. Para mudar as imagens dessa sala escura, eles ganharam de presente a oportunidade de fazer um filme. Decidiram, claro, não escrever sobre seus dramas reais, mas contar a história do mundo em que eles gostariam de viver. “Sonho de futebol” — que está sendo dirigido por Zelito Viana, Cris D’Amato e Cininha de Paula — narra as dificuldades de jogadores de um time de terceira divisão do Rio.

O filme — resultado do Projeto Oficinas Culturais Cine Degase, patrocinado pela Oi — tem cenas sendo rodadas neste momento no próprio Instituto João Luiz Alves. A Justiça só autorizou a participação dos menores no projeto com a condição de que eles aparecessem maquiados ou ganhassem uma caracterização de personagem.

A adaptação foi feita a partir de sugestões dos próprios garotos pelo maquiador Vavá Torres. José Renato Monteiro, um dos coordenadores da oficina, espantou-se com a reação de garotos que normalmente têm cara de mau ao ficar diante das câmeras: — A primeira pergunta é: “eu estou bem”? Alguns falam em continuar no ofício de ator, quando ficarem livres.

Um abismo separa os dois mundos.

X, de 16 anos, oscilava entre o sonho do galã e a dura realidade que o aguarda fora dos muros do instituto.

— Não tenho ilusão. No crime uma hora a casa cai: você morre, fica aleijado ou vai preso. Por isso vou mudar, mas antes tenho que resolver umas paradas sérias lá fora — diz ele. — Depois, vou procurar as pessoas para fazer um curso. Tudo o que eu quero, consigo.

Para a psicanalista Leila Ripoll, que apoia o grupo durante o projeto, eles têm pressa: — Nas filmagens, há uma intolerância muito grande à espera. Eles querem jogar bola, mas são obrigados a parar o tempo todo para filmar. Dizem que, assim, com interrupções, não tem graça. A questão do tempo, para eles, é muito complexa. Mas, ao mesmo tempo, gostam da experiência do cinema.

Um deles me disse que a filmagem é o único momento da vida em que ele não sofre.

A falta de paciência contrasta com o esforço dos menores em chegar preparados às filmagens. A diretora Cris D’Amato, que dirigia as cenas do campo de futebol, driblou com categoria os problemas da filmagem: — Encontrei pessoas delicadas, que decoram os textos e, literalmente, vestem a camisa para fazer um filme.

A arte é importante porque contribui para tirar esses jovens de uma realidade cruel, e oferece o lúdico, o amor, a esperança.

O talento salta os muros altos do instituto. Um dos menores confinados fez um rap sobre o filme. Virou a trilha sonora.

O filme deve ser finalizado até dezembro.

Os produtores ainda não sabem se haverá lançamento comercial. Só uma coisa é certa: cada menor infrator ganhará uma cópia, em DVD, para eternizar, ao menos na televisão da família, o sonho de uma vida longe do crime.

O Globo, 7 de dezembro de 2009

 





December 12, 2009

Solar Del Rei, em Paquetá, vive seus dias de plebeu




Imóvel que já hospedou Dom João VI está interditado e espera reforma emergencial para não desabar por completo


Jaqueline Costa

foto de Custódio Coimbra


Depois de ter sido a mais suntuosa propriedade de Paquetá e de ter hospedado por diversas vezes Dom João VI , o Solar Del Rei, em Paquetá, vive tristes dias. Logo na entrada, uma placa adverte sobre a interdição e o risco de desabamento. O imóvel, que abriga a única biblioteca da ilha, foi fechado pela prefeitura em 27 de outubro, após anos de abandono. A construção está caindo aos pedaços.

Em decorrência dos problemas no telhado, infiltrações e rachaduras se espalham por toda parte, o forro do teto está empenado e ameaça cair, e estão podres as esquadrias de madeira. O muro da propriedade também corre o risco de ruir. Nas salas que abrigam duas carruagens do século XIX, a água escorre pelas paredes internas nos dias de chuva.

Para garantir a restauração do imóvel histórico, o Ministério Público Federal está movendo uma ação civil pública contra a Fundação Anita Mantuano de Artes do Rio (Funarj), proprietária do solar. Mas a instituição informa que, como o imóvel está cedido para o município do Rio por prazo indeterminado desde 1976, cabe à prefeitura fazer a manutenção dele.

O município reconhece a responsabilidade e informa que está prevista uma obra emergencial, que inclui parte da cobertura, esquadrias e o muro. Mas ainda não há data para começar, já que os R$ 667 mil orçados ainda não foram liberados. Segundo Paulo Vidal, coordenador da Subsecretaria municipal de Patrimônio Cultural, está prevista uma restauração completa, financiada pelo BNDES.

— A reforma emergencial deve durar seis meses e visa a dar segurança ao solar, ao acervo e às pessoas que lá trabalham. Em seguida, assim que os trâmites do financiamento estiverem resolvidos, começará uma reforma completa, incluindo a parte de paisagismo, que custará cerca de R$ 1.900 — explica Paulo.

Em 21 de outubro, o Iphan realizou uma vistoria no local e constatou que o principal ponto de deterioração é o telhado. Foi feito um novo ofício à prefeitura para que obras emergenciais sejam iniciadas logo. Segundo o laudo, o imóvel está em franco estado de degradação interna e externa. A visita anterior da instituição ao solar ocorreu em 2006, quando já haviam sido feitas recomendações para cessar o processo de ruína.



Ameaça de multa pelos anos de abandono
Tentativa de acordo para a reforma do imóvel fracassou

Além da restauração do solar, o Ministério Público Federal (MPF) quer que a Funarj pague uma multa correspondente ao dobro dos prejuízos causados pelo abandono. Se não houver recursos suficientes para as obras necessárias, o MPF pede ainda que o Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional (Iphan) se responsabilize pelas reformas.

— O MPF tentou resolver a questão por meio de um acordo, um termo de ajustamento de conduta, mas as instituições não se manifestaram — disse a procuradora da República Gisele Porto, responsável pela ação civil pública.

Cláudia Luna, coordenadora da ONG Nosso Papel, responsável pelo projeto Ponto de Cultura de Paquetá, lamenta o fechamento da biblioteca não só pela decadência do patrimônio histórico, mas pela interrupção do atendimento na biblioteca. Ela foi uma das organizadoras de um abaixoassinado entregue na última segunda-feira à Secretaria municipal de Cultura.

A Biblioteca Popular funcionava desde 1977 na construção.

O acervo, com cerca de 15.300 títulos, ainda está lá, assim como parte da memória da Ilha de Paquetá, que inclui fotografias antigas.

— O solar é fundamental para a educação das crianças da ilha porque, além dos livros, o espaço abriga exposições, lançamentos e cursos. A ilha tem cerca de quatro mil moradores, sendo cerca de 700 crianças e adolescentes. Eles são desprovidos de opções de lazer e cultura e vivem isolados até por conta do preço das passagens das barcas — argumenta Cláudia.

Bens tombados, porém tombados

Em Paquetá, há 17 bens tombados em níveis diferentes — um deles é um conjunto de ilhas próximas. A Escola Municipal Pedro Bruno, um dos dez imóveis tombados pelo município, é outra construção da ilha que carece de restauração.

Na fachada lateral, há infiltrações e muitas janelas estão com os vidros quebrados.

O palacete, em estilo neoclássico, foi a terceira e última sede da Fazenda São Roque e, desde da década de 60, funciona como escola. Paulo Vidal, da Subsecretaria municipal de Patrimônio, diz que há um projeto em curso para reformar toda a escola.

Em frente à escola, há um singelo coreto, na Praça São Roque, feito de alvenaria, com colunas toscanas e guarda corpo em cobogós cerâmicos.

No alto, há um beiral recortado em madeira. Alguns pedaços estão faltando.

No Parque Darke de Mattos, na Praia José Bonifácio, quase todas as luminárias e brinquedos estão quebrados. O lugar, tombado pelo Inepac, foi parte de uma antiga residência. Seus jardins têm árvores centenárias, túneis, mirantes e trilhas.

O Globo, 6 de dezembro de 2009

December 2, 2009

Mercado de armas no Rio e em SP é lucrativo

Grande fluxo bélico para os dois principais mercados do país segue por via rodoviária, vindos do Paraguai e da Bolívia

RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL

O contrabando de armas para criminosos segue as mesmas regras comuns da economia legal, regulado pela mais básica das leis: a da oferta e da procura. O mercado está tão lucrativo que a novidade do momento no Brasil é a utilização esporádica de pequenos aviões para contrabandear armas como fuzis automáticos. Previamente, apenas cargas mais valiosas, como drogas, justificariam o uso de aeronaves.

O grande fluxo de armas para os dois principais mercados do país -criminosos da Grande São Paulo e do Grande Rio- segue mesmo é por via rodoviária, vindos da mesma direção básica: as porosas fronteiras com Paraguai e Bolívia.

Lotes maiores chegam misturados a cargas de caminhões. Os frigoríficos são boas opções, pois é difícil que um policial rodoviário queira se embrenhar no meio de carcaças de bois para vasculhar um eventual contrabando. Caminhões-tanque também são boas opções: as armas vão bem embrulhadas dentro do líquido.

O armamento, segundo se depreende pelas amostras apreendidas, tem origem muito variada.
Os fuzis automáticos preferidos são dos dois calibres mais comuns no mundo ocidental, o 5,56 mm padrão Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) -caso do M-16 ou sua versão semiautomática vendida livremente nos EUA, o AR-15- e 7,62 mm padrão Otan (caso das várias versões do fuzil belga FAL, utilizado pelo Exército). No momento, apenas Chile e Brasil produzem fuzis na América do Sul.

A Argentina chegou a produzir sua versão do FAL, mas sua produção está parada. Fuzis FAL argentinos já foram apreendidos no Brasil com criminosos, assim como armas que eram dos exércitos da Bolívia e Paraguai.

Mesmo uma arma razoavelmente antiga -como um fuzil americano BAR, que a Força Expedicionária Brasileira usou na Segunda Guerra- continua sendo potente hoje nas mãos de criminosos. Conforme o popular clichê da imprensa, "é capaz de derrubar helicópteros" (caramba, uma pedrada bem colocada basta para derrubar um helicóptero sem blindagem!). E certamente perfuraria um carro-forte se armado com a munição adequada.

As Forças Armadas brasileiras são uma pequena fonte de armas. Além de elas estarem bem vigiadas internamente, atacar um quartel é uma medida rara e arriscada para obtenção de armas. Em 2009, apenas 16 armas foram roubadas ou furtadas do Exército; e 12 já foram recuperadas.

Algumas armas do crime vêm direto de Miami por navio para os países vizinhos antes de começarem a jornada por terra. Fuzis Ruger, por exemplo, são apenas fabricados nos EUA.
Uma outra rota de contrabando, usada principalmente no Rio, é aquela feita por navios. Como os "clientes" estão nos morros ali perto, fica fácil usar uma lancha ou um aparentemente inocente pesqueiro para receber o armamento antes mesmo de o navio atracar. Por não ter "fregueses" tão próximos, Santos, não costuma estar na rota.

A rota por mar tende a ser mais usada por contrabandistas de um modelo de arma mais raro no país, mas que começa a se fazer presente: os fuzis russos da série AK, conhecidos como "a Coca-Cola das armas", pois estão em toda a parte, são produzidos em muitos lugares, e a quantidade produzida foi prodigiosa: 60 milhões.

O russo Mikhail Kalachnikov -o "K" do nome; o "A" é de "automática"- produziu uma arma robusta e simples de usar, também calibre 7,62 mm, mas disparando uma munição mais curta que a do padrão Otan. A AK-47 (que data de 1947), sua versão melhorada AKM, e uma versão de calibre menor (AK-74, calibre 5,45 mm), costumam ser contrabandeadas de países do leste europeu (os ex-satélites do mundo comunista), e de países africanos que viveram guerras civis, como Angola, onde uma arma dessas é vendida literalmente a preço de banana. O preço, claro, aumenta quando chega nos morros cariocas. Questão de mercado, de oferta e de procura

Folha, 22 de novembro de 2009


 

December 1, 2009

Traficantes utilizam via turística

DOS ENVIADOS ESPECIAIS A CORUMBÁ (MS)


Os 120 km de terra da turística estrada Parque, que atravessa o Pantanal sul-matogrossense, são uma rota alternativa segura para os traficantes de drogas e armas que ingressam no Brasil a partir da fronteira com a Bolívia.

Com o piso ainda em bom estado, embora a temporada de chuvas já tenha começado, a estrada dá acesso às grandes fazendas pantaneiras e aos hotéis rurais que exploram as atrações oferecidas pelas planícies alagadas.

O motivo da preferência do tráfico pela rota turística é a absoluta falta de policiamento e vigilância. Recentemente, chamou a atenção dos policiais o aumento da frequência de caminhões.

"É uma estrada exclusivamente para o turismo, não há razão para caminhões de mercadorias passarem por ela. O que fazem os caminhões ali? Não é comum. Tem alguma coisa errada nisso", afirmou o delegado Hausner Helmut Voss, diretor-regional da Polícia Civil em Corumbá.

Como a falta de policiamento, a imensidão ajuda o tráfico. A estrada começa e termina na BR-262, em pontos diferentes, fazendo uma espécie de arco.

Os caminhões com armas e drogas não precisam nem deixar a estrada com o carregamento. Basta seguir para alguma propriedade, onde aviões de pequeno porte e helicópteros decolam sem qualquer vigilância, em direção aos centros urbanos da região Sudeste.

SERGIO TORRES
JOEL SILVA

ENVIADOS ESPECIAIS A PUERTO SUÁREZ (BOLÍVIA) E CORUMBÁ (MS)

Folha, 22 de novembro de 2009

 

November 29, 2009

Sem policiamento, Pantanal "exporta" armas para o Rio

Falta de fiscalização na região da fronteira faz de Corumbá um entreposto de armas ilegais que abastecem traficantes

Folha atravessou a fronteira com a Bolívia de carro pelo menos 20 vezes sem ser abordada por policiais federais ou pela alfândega

SERGIO TORRES
JOEL SILVA
ENVIADOS ESPECIAIS A PUERTO SUÁREZ (BOLÍVIA) E CORUMBÁ (MS)


Não existe policiamento na fronteira Brasil-Bolívia na região de Corumbá (MS), cidade no Pantanal sul considerada pela Secretaria de Segurança do Rio a porta de entrada de parte dos armamentos em poder do tráfico em favelas.

No posto oficial da fronteira entre os dois países só há um destacamento da Receita Federal. A Polícia Militar de Mato Grosso do Sul mantém um homem de plantão para proteger os técnicos alfandegários. Não cabe a ele abordar suspeitos. Nem a ninguém. Não há policiais federais no posto.

A fronteira pode ser atravessada de carro e a pé. São cerca de mil veículos por dia e um número impreciso de pedestres. Não é preciso mostrar passaporte ou outro documento. Ninguém pergunta para onde você vai ou o que carrega no carro ou caminhão.

Segundo a Polícia Civil fluminense, metralhadoras ponto 30 e fuzis, que podem ter derrubado um helicóptero no Rio em outubro, entram por Corumbá. Desde 2007, 40 metralhadoras do tipo já foram achadas com traficantes; quatro com o brasão da Bolívia.

Durante oito dias a Folha cruzou a fronteira ao menos 20 vezes de carro. Só viu fiscalização no último dia 10, quando o Exército fiscalizou as fronteiras com Bolívia e Paraguai.

Naquele dia, apreenderam 50 kg de bananas, com um boliviano. Nem armas nem drogas. Liberadas à tarde, as bananas voltaram à Bolívia.

Na Bolívia, há um posto da Polícia Fronteiriça e a alfândega. Mas é como não existissem. Veículos e pessoas transitam livremente. Ninguém vigia, aborda, demonstra interesse em policiar a ponte de 10 metros sobre o arroio Conceição.

De um lado do córrego é Brasil; do outro, Bolívia. Se quiser evitar a ponte, basta seguir pelas "cabriteiras", trilhas ao lado da Receita, sem fiscalização.

Apesar da facilidade, quem prefere não se arriscar opta por estradinhas, atalhos, rios, o espaço aéreo e a imensidão do Pantanal. Nada é policiado.

A PF em Corumbá tem 40 policiais, dos quais 18 novatos, de outros Estados. Pouco sabem sobre a região, fala o delegado-chefe Mario Nomoto. Ele diz que para uma ação mais eficiente, precisaria, no mínimo, do dobro do efetivo.

Na estatística da delegacia consta neste ano a apreensão de só um fuzil, argentino. Não por agentes federais, mas por PMs que suspeitaram de um homem numa "cabriteira". Essa ação decorreu da sorte, não de planejamento

Planejamento que não passa pela ocupação da fronteira com pessoal e equipamentos, disse o diretor de Combate ao Crime Organizado do Departamento de PF, Roberto Troncon Filho.
O que a PF tem feito, diz, é acordos de cooperação com Paraguai e Bolívia. Fará com o Peru. Com o Paraguai está funcionando, segundo ele. Com a Bolívia, ainda não. Daí a fronteira em Corumbá servir para a entrada de armas.

Embora haja múltiplas opções de ingresso, só há uma estrada pavimentada para escoar a carga do tráfico. Armas e drogas entram por terra, ar e água, mas para chegar ao Sudeste o caminho é único: a BR-262.

Nela, que sai de Corumbá, há um prédio em bom estado da Policia Rodoviária Federal. Por falta de pessoal, permanece fechado. A PRF de Mato Grosso do Sul diz ter 400 profissionais, o que representa um terço do efetivo ideal para a corporação, de 1.200. Essa a razão de o posto não funcionar.

 Folha, 22 de novembro de 2009


 
 

November 12, 2009

Should Writing, Like the Butterflies, be Free?

With the rise of many great free fiction websites, we wonder: Are we are headed toward a future where fiction writing is largely an unpaid labor of love? Will an expectation grow among readers that writing 'should' be free?

Right now, many writers publish for free to gain recognition, and one day hope to sell the novel that will get them paid. But with advances for literary novels going down to $5,000 - $10,000 we can see that hope become less and less justified. Is the abundance of free content contributing to that decline?

Many have an ethical stance that free is better - a cultural conversation and free exchange of ideas that we all benefit from. But does that makes writing a hobby, or a vocation for the trust-funded? Writing is a craft which can require a lifetime to master. If novelists are squeezing writing in after day jobs, will literature suffer?

Or, will the proliferation of free material make people need editors and aggregators they trust more than ever? Will readers be willing to pay to support that effort? What do you think?

Is it a problem? If so, is there a solution?

Electric Literature

November 7, 2009

Drama do lotação em cartaz no Rio olímpico

Promessas se atrasam para Jogos Escolares por falta de ônibus da Suderj

< Ary Cunha e Gian Amato





foto de Ivo Gonzales


Na longa estrada até 2016, o Rio já comete imprudências na condução de suas jovens promessas. Convocados para representar o estado nas Olimpíadas Escolares, que começam hoje, em Maringá e Londrina (PR), cerca de 90 atletas, entre 15 e 17 anos, se apresentaram com suas bagagens por volta das 15h da última terça-feira, sem saber que protagonizariam um roteiro de desrespeito e constrangimento, num cenário emblemático.

Ao contrário do que havia sido prometido pela Suderj, não havia ônibus os esperando em frente ao portão 13 do Maracanã, palco das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos, daqui a sete anos.

Se entre os competidores o abatimento era indisfarçável, entre os pais dos atletas, que acompanharam o episódio, o clima era de revolta.

— Tratam estes jovens como gado e depois vão querer desempenho igual ao das potências olímpicas em 2016. É assim que começou a preparação dos talentos para a nossa Olimpíada? Quem está aqui hoje, será o futuro nos Jogos do Rio — desabafou Luiz Marcos de Souza, pai do judoca Luiz Marcos de Souza Freire Filho, campeão estadual e vice-campeão brasileiro sub-17 e sub-20 na categoria até 55kg.

Suderj joga responsabilidade para empresa de ônibus

Foram cerca de nove horas de espera e nenhum esclarecimento oficial até que a delegação fosse convidada a ocupar seus assentos nos dois ônibus fretados, por volta das 22h. Mas a alegria durou pouco. Alegando que a Suderj não enviara as autorizações para a viagem dos menores, a empresa de ônibus contratada não permitiu que seus veículos partissem e todos tiveram de desembarcar e voltar para casa. O descaso se repetiu ontem, com mais 50 minutos de atraso, na saída remarcada para as 13h. A delegação carioca, última entre as 28 inscritas a se apresentar, só chega aos locais de competição hoje de manhã, um dia após o previsto. Os competidores de judô e xadrez seguem para Maringá, enquanto os do handebol e da natação ficam em Londrina. Até ontem à noite, o comitê organizador das Olimpíadas Escolares, que vão até o dia 15, não havia sido informado sobre o atraso dos atletas do Rio. Os atletas correm risco de eliminação se nenhum representante da delegação comparecer ao congresso técnico, hoje, às 10h.

— Teremos apenas cerca de 12 horas antes da luta depois de toda a viagem — lamentou Carolina Fernandes, de 16 anos, campeã estadual de judô meio pesado e terceiro lugar no Brasileiro sub-17 deste ano. — Alguns atletas talvez desistam do esporte se continuar assim. Se numa competição estudantil já fazem isso, imagine numa adulta...

De acordo com os organizadores, ligados ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB), o “transporte até as sedes é de inteira responsabilidade de cada uma das delegações”. A Suderj, porém, tentou empurrar a culpa pelo atraso à empresa de ônibus que ela mesma contratou.

Através de sua assessoria de imprensa, a entidade informou que “toda responsabilidade pelo transporte e deslocamento dos alunos é de responsabilidade da empresa Normandy”. Ainda, de acordo com a nota divulgada, a Suderj teria notificado os realizadores das Olimpíadas “para as devidas providências, inclusive as penalidades cabíveis”.

Representantes da Normandy não foram encontrados ontem para comentar a nota da entidade.

O Globo, 5 de novembro de 2009

November 5, 2009

Ensino particular, circo e zoológico

ESCUTA AQUI

Álvaro Pereira Júnior 

Não foi o vestido, afinal nem tão curto. Foi o tamanho da multidão o que mais me impressionou nos vídeos do YouTube sobre a aluna hostilizada numa universidade paulista na semana passada.

Enquanto a estudante de turismo sai da faculdade escoltada por PMs, a câmera sobe e mostra uma cena dantesca: como numa arena romana, milhares de alunos berram e gesticulam.

O mundo do ensino "universitário" privado brasileiro, especialmente à noite, é um amálgama triste de circo com zoológico.

Estão lá filhinhos de papai que poderiam estudar numa faculdade melhor, mas por burrice e/ou preguiça acabaram em alguma boca de porco, período noturno. Estão lá as pessoas de classe média/média baixa que fizeram com sacrifício os ensinos básico e médio, ganharam uma formação cheia de falhas e agora veem numa faculdade de quinta categoria e chance de um diploma superior.

Estão lá também as exceções das exceções, alunos com bom potencial, que sentam na frente, estudam, tentam se motivar -mas são solapados pela mediocridade geral do ambiente e pelas necessidades imediatas da vida real.

Eu podia arriscar aqui comentários rasos sobre psicologia de massa, podia tentar falar de moralismo e de falso moralismo. Podia tentar entender por que uma aluna de vestido mais ou menos curto fez disparar tamanha reação de ódio em cadeia.

Mas prefiro focar na cena da multidão, naquele momento animalesco. Como uma universidade pode ter tantos alunos assim? Que tipo de ensino esses caras recebem? Será que dá para chamar de ensino? Um diploma obtido desse jeito, e num lugar desses, vale tanto assim?
Perto de casa, há uma universidade desse naipe. No começo e no fim das aulas, as ruas são tomadas pela horda de estudantes. Não há, literalmente, espaço para os carros passarem. Nessa universidade, minha vizinha, existe até curso de medicina. Como dizem no Twitter: #medo.

Folha, 2 de novembro de 2009

 

November 4, 2009

O FUTURO DA NAÇÃO


ALLAN SIEBER


Pois é, eu também fiquei chocado, mais precisamente enojado com essa notícia.
Que gente(?) é essa?
E não estamos falando de garotos do Primeiro Grau ou do Segundo Grau, não, é gente que está na FACULDADE.
Esse episódio explicita duas coisas bem nojentas e muito em voga:


1 - O atual movimento de prolongar a adolescência ad eternum. Ninguém mais quer ser adulto, todo mundo quer ser adolescente a vida toda, jogar videogame, usar boné, se vestir como garotos propaganda da Adidas, Nike ou Puma, chamar as meninas de puta.
2 - O espírito de turba. Numa multidão qualquer fascistinha dá vazão a seus impulsos e a barbárie tem lugar, é só o primeiro idiota gritar "lincha!" e o resto vai atrás. Por isso eu não gosto de  torcida de futebol. É o mesmo espírito. Ninguém tem coragem de SOZINHO ir lá na frente do jogador e xingar a mãe dele ou a mãe do cara da torcida adversária, mas num coro de "machões" todo mundo é super corajoso.
É tudo muito nojento. 


 



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