April 26, 2009

Redes sociais dão justa causa



Redes sociais
Empresas checam os sites e demitem, em caso de exposição que consideram indevida

Rodrigo March

ilustração de Cruz

Cuidado com o que você anda escrevendo no Twitter, Facebook, MySpace, comunidades da qual participa no Orkut, vídeos que divulga no YouTube, fotos em blogs etc. A exposição de empresas, funcionários e clientes nas chamadas redes sociais já provoca demissões. Os casos são polêmicos, porque vão desde situações claras para dispensa a outras nem tão óbvias assim, ou quando o empregado não tem a intenção de prejudicar terceiros. Além disso, a discussão envolve questões como privacidade e anonimato.


Nos Estados Unidos, uma professora de artes do Texas teve sua aposentadoria antecipada, depois que alunos descobriram fotos dela nua no Flickr. Ela disse que se tratava de arte. Mas veja esse exemplo que aconteceu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Um motorista de uma empresa de ônibus foi demitido, em 2007, sob o argumento de que integrava uma comunidade que hostilizava a companhia no Orkut, onde também teria feito um comentário ofensivo contra a mesma.


O motorista tenta reverter a demissão por justa causa na Justiça do Trabalho, mas já perdeu em duas instâncias. Ele alega que qualquer pessoa poderia ter cadastrado o seu nome de forma indevida na comunidade.

Em dezembro, os desembargadores da região confirmaram a decisão do juiz de primeiro grau, que entendeu que havia provas suficientes para responsabilizá-lo. Ele se identificava com o mesmo ícone que aparecia em seu perfil no Orkut, no qual havia informações detalhadas sobre sua vida, inclusive fotos de família.

Nada de falar de colega ou cliente

— Hoje temos muitos casos como esse nos tribunais. Não são poucos não — observa o advogado Leandro Bissoli, sócio do escritório Patrícia Peck Pinheiro Advogados.

Segundo Bissoli, empregados que criam comunidades da empresa onde trabalham ou que falam mal de algum colega nas redes sociais estão entre os mais demitidos: — Normalmente, essas são as situações mais comuns. Temos ainda funcionários, como operadores de telemarketing, que fazem chacota de clientes em fóruns de discussão.

Marcia Galdino, gerente da ARK, rede distribuidora de óculos, demitiu um estoquista que estava fazendo um blog em nome da empresa sem autorização. O fato foi considerado um agravante, já que ele vinha faltando seguidamente, ressalta ela: — Acho até bacana a iniciativa, mas ele deveria ter nos comunicado, para que o orientássemos. O blog trazia fotos em que apareciam armações de concorrentes nossos.
Poderia ter nos prejudicado.


A consultora de RH Ana Carolina Mafra, diretora da Equipe Certa, acha que o comportamento nas redes sociais é apenas um fator que colabora para a demissão: — Ainda não vi um caso de um ótimo empregado que tenha cometido um deslize nas redes sociais.

Mas há exemplos de pessoas que cometem deslizes sem intenção, conta Leandro Bissoli: — Tem gente que participa de comunidades ligadas à tecnologia ou a áreas relacionadas à empresa e acaba, até sem querer, revelando informações confidenciais.

Daniela Braun, editora-executiva do site IDG Now!, lembra que já existem ferramentas para identificar quem faz um comentário na rede, mesmo que no anonimato: — No Twitter, alguns pesquisadores descobriram como reconhecer perfis falsos. Se uma pessoa revela uma informação que poucos sabem, não é difícil descobrir quem foi.


Daniela percebe que as pessoas estão se expondo mais nas redes sociais, por causa da crise: — Em épocas assim, todos querem se mostrar, vender o seu peixe, até mesmo os empregados, que querem aparecer para ver se surge alguma nova oportunidade.

O fato é que as empresas estão cada vez mais atentas às mancadas na internet. Elas monitoram as redes por conta própria (caso de grandes organizações ou as que lidam com a segurança da informação) ou contratam o serviço. O escritório de Bissoli tem uma área específica para fazer esse trabalho: — Também damos consultoria a departamentos jurídicos e de RH, dizendo se tal conduta é ou não passível de demissão. As redes sociais são muito dinâmicas e as empresas não conseguem acompanhá-las.


Como se comportar no mundo virtual, então? Especialistas dão um conselho básico: adote a mesma postura profissional do ambiente físico.
Quanto às empresas, a sugestão é que divulguem regras claras


ROTINA CHATA: Na Inglaterra, a adolescente Kimberley Swann, de 16 anos, foi demitida este ano, três semanas após ser contratada, depois de escrever no Facebook que achava chata sua rotina na Ivell Marketing & Logistics. A mãe da jovem diz que ela sequer mencionou o nome da companhia e foi injustiçada.

COLEGAS EM PAUTA: A designer Heather Armstrong, de Utah, nos EUA, foi demitida, em 2002, um ano após começar a escrever um blog, que incluía histórias sobre pessoas da empresa. O blog ainda existe, mas agora traz um recado: “Nunca escreva sobre trabalho na internet, a menos que seu chefe saiba”.

ÓDIO AOS ALUNOS: Uma professora da CharlotteMecklenburg Schools, nos Estados Unidos, acabou sendo suspensa, no ano passado, porque declarou no Facebook que odiava seus alunos.

O Globo, 26 de abril de 2009


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April 23, 2009

Ronaldo,, o Brahmeiro

JOSÉ ROBERTO TORERO

Ronaldo, o brahmeiro

Comparar as heroicas voltas de Ronaldo ao futebol com o suor da cerveja é chamar o espectador de estúpido


BEBERRAZ leitor, alcoofilista leitora, vocês viram o comercial do Ronaldo? O comercial da Brahma? Para quem não viu, faço um resumo: ele aparece driblando vários obstáculos, faz um trocadilho entre o suor dele e o suor da cerveja e acaba dizendo, com um copo na mão, que é um "brahmeiro".

Como assim? Um atleta importante fazendo comercial de cerveja? Ou pior, um atleta ainda gordo, em recuperação, fazendo comercial de cerveja? Não entendi. E não entendi porque me parece uma propaganda ruim para os dois.

Para a cerveja, porque eu, vendo o comercial, penso: "Poxa, cerveja engorda pra caramba!". Para o jogador, porque mostra que ele não é um atleta sério. É um cara que bebe mesmo ainda estando longe da sua melhor forma.

A Brahma e Ronaldo já estiveram juntos em outros comerciais. É uma parceria antiga, desde que ele tinha 17 anos. Mas ela já foi mais sutil e inteligente. Lembro que houve uma propaganda chamada "Guerreiro" em que apenas aparecia o rosto do jogador e havia um bom texto ao fundo. Outra trazia Ronaldo como um toureiro, driblando um touro várias vezes até que o vencia e abria a garrafa nos chifres do animal.

Mas este novo comercial está bem abaixo dos anteriores. Agora há uma ligação direta entre futebol e álcool. E obviamente os dois não combinam. A campanha ainda teve o azar de vir logo depois do anúncio de aposentadoria (talvez compulsória) de Adriano, que tem seu nome associado a problemas com bebidas. Estou longe de ser uma virgem vestal, defensor da pureza absoluta ou abstêmio radical. Até sou a favor da liberação de drogas leves (o que existe em parte, já que as bebidas alcoólicas são drogas leves), mas jogador fazer propaganda explícita de cerveja não dá. Passa da conta.

A legislação permite que as propagandas de bebidas abaixo de 13 graus GL (Gay-Lussac) sejam exibidas em qualquer horário. Por isso é que vemos comerciais de cervejas e dessas vodkas ice a toda hora. Porém, em maio de 2007, Lula assinou um decreto que classificou como alcoólica toda bebida com mais de 0,5 grau GL. Só que, inexplicavelmente, esse decreto não restringiu a propaganda de cerveja.

Voltando ao comercial, que foi criado pela agência África, no texto o atacante afirma que tem orgulho de "cair e se levantar". O redator não devia estar sóbrio quando o escreveu. É uma frase muito infeliz. Uma piada pronta. Tanto que, na mesma hora, o amigo com quem eu via o jogo comentou: "Cair e se levantar não é grande coisa. Qualquer bêbado consegue isso". E comparar o esforço heroico de Ronaldo para voltar três vezes ao futebol com o suor da cerveja é chamar o espectador de estúpido. É fazer troça da fantástica recuperação do jogador, que deveria falar "Eu sou artilheiro" e não "Eu sou brahmeiro".

A publicidade brasileira, que já foi das melhores do mundo, vem piorando nos últimos anos. Mas, agora, se superou. Acho que, pelo menos, para desencargo de consciência, esta nova propaganda deveria vir com um daqueles avisos no final, algo do tipo: "O Ministério da Saúde adverte: Cerveja dá barriga e faz você confundir mulher com similares".

Folha, 14 de abril de 2009

March 28, 2009

Robin Hood, o malvado

Ladrão roubaria de pobres e ricos para si mesmo e não teria nada de nobre, diz historiador

Fernando Duarte Correspondente • LONDRES

Julian Luxford é o primeiro a admitir que Robin Hood tem sido uma mina de ouro para o mundo acadêmico no que diz respeito à projeção e à polêmica.

Mas para o australiano, professor do Departamento de História da Universidade de St. Andrew’s, na Escócia, o interesse pelo homem apelidado de príncipe dos ladrões não está ligado às discussões sobre sua existência. Luxford é fascinado pelo que chama de processo de revisionismo religioso e ideológico de uma figura que, diferentemente do que há séculos se conta, pode não ter sido heróica e tampouco nobre em suas andanças pela floresta de Sherwood, perto da cidade inglesa de Nottingham.

Luxford é o autor de um polêmico artigo publicado no início do mês na revista “Journal of Medieval History”. Com base na descoberta de anotações no rodapé de um dos volumes da “Polycrhonychon” (uma enciclopédia histórica com origens no século XIV) feitas por um monge católico, o historiador alega que Robin Hood e seu bando estavam longe de ser figuras populares entre os pobres e oprimidos.

Especialmente porque os mais desvalidos também faziam parte do rol de vítimas das ações dos bandidos, diferentemente da tão alardeada preferência por métodos mais drásticos de distribuição da renda obtida em pilhagens das grandes fortunas dos nobres ingleses.

— Em vez de descrever o herói revolucionário que hoje conhecemos, a inscrição fala em como um fora-da-lei conhecido como Robin Hood infestava Sherwood e outras áreas da Inglaterra com seus asseclas — conta Luxford, em entrevista ao GLOBO. — Trata-se não apenas da primeira referência histórica real medieval que temos sobre Robin Hood, fora os elementos de folclore, como também a primeira evidência sobre o contexto em que ele viveu.

A última frase é uma alusão ao debate sobre o período que em Robin Hood teria vivido. O historiador descobriu as anotações do monge anônimo durante uma pesquisa sobre desenhos medievais na biblioteca de Eton, a famosa escola particular britânica. Luxford afirma que o fato de a inscrição ter sido feita num trecho do livro que descreve o período entre 1294 e 1299 da história inglesa sugere que o bandido passou por esse mundo durante o reinado de Eduardo I (1239-1307). Uma datação diferente do período que anteriormente servia de pano de fundo histórico para as ações de Robin Hood — o reinado de Ricardo I (1189-1199), mais conhecido pelo apelido de “Coração de Leão”.

A construção do mito romântico

Embora assegure não duvidar da existência de que alguém real tenha inspirado a lenda de Robin Hood, Luxford vai reanimar a polêmica envolvendo o mito e o ladrão. A primeira menção escrita sobre o larápio-arqueiro está num poema de 1377, de autoria atribuída a William Langland. É uma referência breve, mas a invenção da imprensa multiplicou as citações, ao ponto de no século XVII já haver 200 menções de seu nome em poemas, romances e peças. Havia até homenagens de bandidos que adotavam as alcunhas de Robin e outros supostos integrantes do bando.

Para aumentar a confusão, para alguns historiadores Robin Hood era um apelido dado a bandidos comuns, abrindo a hipótese de que mais de um tenha vivido na mesma época e em regiões diferentes da Inglaterra. Mas, para o historiador australiano, a maior curiosidade é a construção do mito que chegou aos nossos dias.

— Não estou questionando a existência de Robin Hood, mas sim a percepção exageradamente romântica de sua figura. Existe uma grande tendência de idealização da Idade Média em relatos pós-Reforma, sobretudo os de origem protestante. E o fato de os documentos disponíveis sobre o período serem muito raros torna ainda mais fácil o fortalecimento de mitos, ainda mais com o folclore — explica Luxford. — No século XIX, por exemplo, Robin Hood era um típico herói da classe trabalhadora, por mais que não haja nenhuma evidência que ele roubava dos ricos e dava aos pobres.

Mas o historiador tampouco despreza o fascínio que a figura do ladrão ainda exerce em pleno século XXI. Ao lado do Rei Arthur, Robin Hood é a única figura de autenticidade questionada a constar no dicionário biográfico britânico publicado pela Universidade de Oxford.

O Globo, 28 de março de 2009

March 9, 2009

Liberdade enquadrada e impressa em madeira

O xilogravador Rubem Grilo exibe sua fase mais autoral e subjetiva

Táia Rocha


O limite estético sempre foi associado a uma ameaça para as artes plásticas. Contudo, se a idéia de que é preciso liberdade total para criar uma obra parece ser consenso universal, o xilogravador mineiro Rubem Grilo só considera e reconhece seu trabalho artístico a partir de 1973, ano em que passou a ilustrar jornais e fascículos periódicos. Se para muitos artistas a demanda formal da imprensa seria um desestímulo à criação, para Grilo representou a redenção:

– Me formei em agronomia, nunca fiz faculdade de belas artes. Não gostava da academia, sentia uma atmosfera de crítica e repressão a cada passo dado ali. No jornal, era livre para criar sem ficar me perguntando se o que estava fazendo era bom a cada minuto – conta.

Grilo – que inaugura nesta terça-feira a exposição Xilográfico, na Caixa Cultural, com 170 gravuras figurativas e abstratas, da fase que vai de 1985 até 2009 – permaneceu na imprensa até 1985, quando a ditadura militar chegou ao fim.

– A democracia voltou e pensei: "Perdeu a graça. Agora não há o que contestar, vai se tornar apenas mais uma opção profissional, como as outras". – explica o artista de 63 anos.

Processo ancestral

Foi quando a nova fase de seu trabalho, maduro para ser livre, começou a despontar. Os 25 anos seguintes foram de experimentação. A xilogravura havia sido adotada por unir as duas técnicas que mais encantavam o artista: a escultura e o desenho.

– Quando comecei com a gravura, a academia rejeitava as técnicas mais rudimentares, e não há nada tão manual quanto a xilo. Eu diria que é um processo quase ancestral – define. – Escolhi a técnica por isso, e essa pressão por estar fora do mercado, de tudo ser mais difícil para uma arte menos reverenciada, acabou me estimulando a insistir.

Grilo conta que, para criar, se inspira nas experiências passadas, que reaparecem em novos trabalhos.

– Como a matriz de madeira é um registro físico da experiência, volta e meia revisito o passado. As experiências não se repetem: elas abraçam as antigas. – analisa.

O artista, que só começou a desenhar aos 23 anos devido à timidez que o tomava ao se comparar com a mãe (artista) e o irmão (bom desenhista) na infância, é considerado hoje um dos maiores xilogravadores do país.

– A criação nos jornais me fortaleceu, mas a produção livre me fez crescer como artista. A exposição, a maior já feita no Rio, representa um ciclo na busca pelo amadurecimento.


Jornal do Brasil, 1 de março de 2009

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March 6, 2009

SOS Cultura

Patrocinadores fogem da Lei Rouanet, governos têm verbas contingenciadas e eventos importantes são cancelados: um pacote emergencial pode sair do MinC

Jotabê Medeiros


A exemplo das montadoras de automóveis, seguradoras e dos bancos americanos, socorridos pelo seu governo, o Ministério da Cultura brasileiro está trabalhando num pacote anticrise, tentando amenizar o impacto da turbulência econômica na cultura nacional. A notícia do pacote anticrise foi adiantada ao Estado por Alfredo Manevy, ministro interino da Cultura, que esteve em São Paulo esta semana para anúncio dos investimentos de um instituto cultural (o ministro Juca Ferreira está fora do País).

"A gente está preparando isso. Um pacote de medidas, no campo cultural, que tenha um efeito anticíclico em relação à economia. Incluirá reformas de espaços culturais, que geram construção civil, ampliação do parque exibidor cinematográfico e tudo o que for apresentado e gerar um impacto na economia, com interface no campo cultural. O presidente Lula já sinalizou que está disposto a incorporar o investimento estratégico este ano. E a gente está preparando o pacote", disse Manevy.

O sistema de financiamento da cultura no País está perto da asfixia. A Lei Rouanet, maior mecanismo de fomento federal, enfrenta desistências de patrocinadores importantes desde o final do ano passado. A verba investida decorre de renúncia fiscal - ou seja: as empresas usam dinheiro do seu Imposto de Renda que seria pago à Receita Federal. Mas, para ter dinheiro no caixa em tempos incertos, patrocinadores importantes estão cancelando compromissos pré-agendados com produtores culturais.

"Já é sabido, desde o fim do ano passado, que as empresas, sem capital de giro, ou para manter liquidez (mesmo não precisando botar a mão no bolso, porque é renúncia fiscal), mesmo assim estão cortando patrocínios que já estavam anunciados", admitiu Manevy. "Então, a expectativa do ministério é conclamar as empresas para confirmarem seu compromisso com a cultura num momento de crise, porque num momento de bonança é tranquilo. O patrimônio simbólico que os artistas e produtores culturais passam para as empresas é enorme. As marcas, a visibilidade. Num momento de crise, é momento de as empresas afirmarem esse compromisso."

O cenário é desanimador. A maior estatal em investimentos culturais, a Petrobrás, está retirando verbas de patrocínios (para festivais de teatro e até para escolas de samba, como a Viradouro, que perdeu R$ 7 milhões). Outras estatais estão cautelosas - estão entre as seis maiores patrocinadoras do País (Petrobrás, Banco do Brasil e Eletrobrás), que representam quase 40% do total das 500 maiores empresas brasileiras.

Governos municipais, como o de São Paulo, contingenciam verbas para a área, comprometendo programas (a verba para a Virada Cultural, este ano, foi cortada em 30%). No governo estadual, o orçamento da Secretaria de Estado da Cultura será um pouco menor este ano, R$ 534 milhões, ante R$ 540 milhões em 2008.

Outro problema que pode agravar tudo é o próprio orçamento do Ministério da Cultura, que foi contingenciado (teve recursos retidos) em cerca de 75%, a exemplo de todos os ministérios federais. Se for efetivamente cortado o orçamento direto, que tinha crescido cerca de 20% em relação a 2008 (foi destinado R$ 1,2 bilhão ao MinC), o ministério perderá a capacidade de fazer investimentos este ano.

O Ministério acha que a medida ainda não atingiu projetos e programas da pasta. "No começo do ano, os ministérios ainda não estão executando. Então essa liberação, na verdade, vai permitir que os projetos tal como estão desenhados sejam executados: o Mais Cultura, os editais, todos com os cronogramas tal como foram desenhados. A gente não sentiu ainda o impacto no nosso orçamento."

A cautela não inibiu ainda todos os grandes patrocinadores que se utilizam da Lei Rouanet. No início desta semana, o Itaú Cultural informou que vai investir cerca de R$ 40 milhões em 2009, ante R$ 37,5 milhões no ano passado. "Temos mantido um crescimento progressivo do investimento, usando sempre o princípio da contrapartida - ou seja: não é só dinheiro da lei, mas também dinheiro do banco", diz Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.

Segundo Manevy, há uma retração sensível na área, que ainda não é sentida em estatísticas mas é diariamente levada ao governo por produtores e artistas. Ele aposta no pacote para inverter a tendência. "Se esse pacote impactar na geração de empregos e ocupação das áreas que são delicadas, o governo será plenamente favorável. A crise também é uma oportunidade. Se o Brasil investir em educação e cultura nesse momento, a oportunidade de sair reposicionado da crise é maior, em termos de capacitação, treinamento, capacidade de lidar com problemas da contemporaneidade, é investimento estratégico. E o governo reconhece que isso é relevante. Tanto que o orçamento do ministério tem crescido significativamente".

Manevy diz que não é possível medir ainda o tamanho da crise na cultura, e que isso só será possível "mais pelo meio do ano", prevê. "Mas é notório, pelo que nos chega por meio das conversas, da maneira como os produtores passam a procurar o Ministério com projetos que estavam predefinidos com patrocinadores e não vão mais ser patrocinados. Então a gente está se mobilizando com as estatais, com o setor privado, para que mantenham o compromisso. Não faz sentido tirar da cultura porque não vai impactar efetivamente as contas das empresas."


Fuga de patrocínio já afeta eventos do calendário no país


Alguns indicadores que apontam para um refluxo da atividade cultural e do seu financiamento no País em 2009:

O TIM FESTIVAL E O PRÊMIO TIM DE MÚSICA foram "descontinuados", eufemismo usado pelo seu patrocinador, para dizer que não serão realizados em 2009.

A 18.ª EDIÇÃO DO FESTIVAL DE CURITIBA, tradicional evento do calendário de artes cênicas do País, entre 17 e 29 de março, perdeu cerca de R$ 350 mil do patrocínio da Petrobras, que vinha contribuindo regularmente com o evento. Seu orçamento total é de cerca de R$ 3 milhões.

A VIRADA CULTURAL, um dos principais eventos do calendário de São Paulo, foi cortada em um terço em sua edição 2009, devido ao contingenciamento de 33% na verba da Secretaria Municipal da Cultura (outras áreas também sofreram cortes). Marcada para os dias 2 e 3 de maio, a Virada terá neste ano R$ 4,5 milhões (em 2008, foram R$ 6 milhões gastos em 800 atrações e 26 palcos só no centro da cidade. Por conta disso, não haverá programação no Parque D. Pedro e na Avenida Rio Branco.

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO diminuiu em R$ 6 milhões o orçamento da sua Secretaria da Cultura para 2009.

O GOVERNO FEDERAL contingenciou em 75% o orçamento do Ministério da Cultura. O ministério mantém a confiança em um descontigenciamento significativo desse quantia. "Nosso orçamento é muito pequeno para contribuir num processo generalizado. Tirar da gente é impactar muito a gente, e ajudar muito pouco no contingenciamento. Nosso orçamento chega a um bilhão", diz Alfredo Manevy, ministro interino

O Estado de São Paulo, 6 de março de 2009

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February 28, 2009

Rubem Grilo revela suas escavações

Mostra na Caixa Cultural apresenta 167 xilogravuras e 13 matrizes criadas pelo artista nos últimos 25 anos

Suzana Velasco

O gravador Rubem Grilo levou um susto quando se deu conta de que havia talhado formas geométricas na madeira.
— Achei que estava entrando em choque com todo o meu trabalho anterior. Linha todo mundo faz, é muito simples. E, para mim, o fato motivador do trabalho é a expressão da particularidade — diz ele. — Foi muito difícil fazer uma linha que fosse minha. Entrei em desespero.
Desenhei umas 200 até que uma me tocou.

Eram meados dos anos 1980, e Grilo acabara de deixar o emprego de ilustrador na imprensa para se dedicar somente à xilogravura. Nesse período, paralelamente às formas geométricas, o artista manteve seu viés expressionista, aquele que temia trair. Essas duas facetas de sua obra poderão ser vistas pelo público a partir de terçafeira, na exposição “Rubem Grilo xilográfico (1985 a 2009)”, que reúne 167 gravuras em madeira, na Caixa Cultural.

— Na imprensa, sempre havia um tema proposto, um desafio que vinha de fora. Eu quis desenvolver um trabalho de dentro — afirma o artista.
— O jornal foi meu tempo de formação. Queria firmar uma certeza, ganhar convicção. O trabalho era raivoso, e eu era raivoso comigo também. O período posterior foi de transformação.
Saí das gravuras grandes, que tinham uma temática mais dramática, e caí em algo mais poético. É uma exposição de um ciclo de trabalho, de um processo mais autônomo de linguagem.

Fora do epicentro artístico da década de 1970 Grilo passou a criar xilogravuras em miniaturas, com referências à ironia e ao humor desenvolvidos na imprensa.

Em outras obras, também em pequeno formato, o artista desenvolveu uma linguagem que parece construtiva, mas que, segundo ele, carrega no fundo as questões existenciais do expressionismo, que o formou como gravador. Ele conta que a tal linha que o tocou foi uma linha incompleta, que lhe permitiu desenvolver um trabalho coerente com sua trajetória — ainda que visualmente contrastante com as figuras densas criadas em jornais como “Opinião” e “Movimento” — publicações independentes que combatiam o regime militar.

— Aceitar fazer figuras geométricas parece quase uma implosão de uma linha de trabalho.
Dentro de uma visão estratificada de arte, a impressão é de que houve uma ruptura do ponto de vista formal — afirma Grilo. — Quando alguém que vem de um berço expressionista entra numa área assim, só de linhas, parece que existe uma esperança, uma racionalidade.
Mas eu criei formas geométricas incompletas, insuficientes, num esforço de encontrar alguma irregularidade dentro da regularidade.

Ao se olhar de perto, as formas geométricas incompletas aparecem também em outras séries de xilogravuras, que mantêm algo da dramaticidade das ilustrações dos anos 1970 e 80, então propulsionada pela ditadura militar. Desde então, figuras com um tom misterioso dão o tom de obras com um cunho mais denso, barroco, segundo palavras do próprio Grilo.
Formado em agronomia, o artista começou na gravura justamente num momento em que os suportes tradicionais eram implodidos no meio artístico, que procurava outros caminhos, através da arte conceitual, em instalações, vídeos e objetos. Apesar de político nas ilustrações irônicas dos jornais, Grilo foi apolítico em relação às discussões sobre os rumos da arte na época.

— Cheguei à festa quando todos já estavam de ressaca — resume. — Estava entusiasmado, mas não queria resolver o problema da arte. Queria resolver o meu problema.

Por vias avessas, o artista acabou adotando uma postura política, pela resistência em trabalhar com a xilogravura, alheio às últimas novidades, trabalhando o dia todo em seu ateliê, nos fundos de casa, em Copacabana, e só parando à noite, para ver um filme.

— Estar aqui já é deixar o mundo lá para fora. Deixo a briga para quem tem musculatura — diz ele. — O sistema de arte hoje é um sistema de mercado, e o problema da gravura começa e termina aí. A utilidade da obra de arte atualmente é absorver valor financeiro, e a gravura não tem valor de mercado. Nessa incompatibilidade, ela fica meio à margem, e pode ser loucura eu dizer isto, mas eu gosto.

Grilo gosta do ofício de se concentrar na madeira e fazer entalhe por entalhe, linha por linha, sem que um produto externo faça o trabalho por ele — como o ácido que corrói o metal. Grilo gosta da precariedade do material, e do fato de que não há erro, cada traço é definitivo. Esse tempo de registro na madeira, apesar de ser o que mais exige do artista, não pode ser visto no resultado final, a própria gravura. E é por isso que, na exposição, Grilo vai mostrar 13 matrizes que ainda não receberam tinta, ou seja, que ainda não foram transferidas para o papel e transformadas em gravuras.

“O trabalho não é progressivo, ele é circular” O artista diz que não quer ser didático ao expor as matrizes, mas mostrar uma etapa do trabalho que se perde para o espectador, e que pode ser considerada uma obra em si.

Essas matrizes também são de diferentes épocas e, como as gravuras, expostas sem cronologia — já que sua produção não tem um desenvolvimento em fases. Nesses 25 anos, Grilo criou um universo recorrente, sem uma evolução com um sentido de progresso.
— Há reincidências, e ao mesmo tempo há transformações.

A obra aprende quando retrocede e quando recupera terreno, não só quando ganha terreno — sustenta. — O trabalho não é progressivo, no sentido linear, ele é circular. Ao refazer algo que fazia nos anos 1980, estou revisitando permanentemente minha experiência, aprofundando-a cada vez mais. Ruptura para mim é uma mudança de estado. Mas eu sou telúrico, e o que você pode fazer na terra é cavar.

O Globo, 28 de fevereiro de 2009

February 21, 2009

Leitor voraz e destrutivo, Hitler tinha 16 mil livros

Biblioteca nazista
Leitor voraz e destrutivo, Hitler tinha 16 mil livros

Jacinto Antón
Do El País

Hitler queimava livros, mas também os lia. E o fato de fazer ambas as coisas — além de detonar a II Guerra Mundial e comandar o extermínio dos judeus — o torna um leitor muito especial.
Sua relação com os livros, inclusive com os que não queimava, não era amável. Incapaz de relações profundas e sinceras de amor e amizade — mesmo o que sentia por Eva Braun e por sua cadela Blondie seriam afetos envenenados —, Hitler tampouco nutria carinho pelos livros, uma marca dos bibliófilos decentes.


Da mesma forma que fazia com os países, as instituições e as pessoas, Hitler depredava os livros. Essa era sua forma de lê-los. Ele mesmo explicou seu método de leitura abusivo e oportunista em “Mein kempf” (Minha Luta).


“Ler não é um fim em si mesmo, mas sim um meio para alcançar um fim.” A leitura, em geral, servia para confirmar opiniões que já tinha. “Tiro dos livros o que necessito”, disse certa vez. Não lia nunca por prazer, embora lesse muito. “Os livros eram seu mundo”, escreveu seu amigo de juventude August Kubizek. Hitler chegou a Viena muito pobre, mas com quatro caixas repletas de livros. Em sua época de agitação política, quando não estava fazendo discursos ou andando pelas cervejarias, passava o tempo lendo.

Almanaques e enciclopédias

“Claro que ler muito não significa ler bem”, frisa Ian Kershaw, em sua monumental biografia “Hitler”. “Ler não era algo que fizesse para se ilustrar ou para aprender, mas sim para confirmar seus preconceitos.” Kershaw questiona ainda a ideia de que Hitler tenha lido tudo o que havia colecionado. Parece que, dos clássicos da literatura, teria lido bem pouco. Não gostava de romances. Por outro lado, apreciava muito o subgênero antisemita (o que não surpreende).
Gostava muito das enciclopédias e dos almanaques, de onde podia extrair, para impressionar, muita informação em pouco tempo. E ainda as obras sobre ocultismo. Foi encontrado entre seus livros — e isso não é uma piada — o título “A arte de tornar-se um orador em poucas horas”. Hitler tinha um fraco, e talvez essa seja sua única faceta sincera como leitor, por relatos do explorador Sven Hedin e pelos faroestes de Karl May. Isso não impedia que acendesse os cigarros de oficiais nazistas com páginas em brasa das obras de May.


Muito já se escreveu sobre a biblioteca de Hitler, de cerca de 16 mil volumes, sua composição, as obras que de fato leu, e os livros que contribuíram para afirmar suas (más) ideias. Agora, um livro apaixonante, “A biblioteca privada de Hitler — os livros que moldaram sua vida”, de Timothy W. Ryback, rastreia com habilidade detetivesca e pulso literário, as obras que teriam sido decisivas, por seu significado emocional ou intelectual, na vida do Hitler leitor.


O líder nazista chegava a ler um livro por noite, revela o autor, mas era superficial.
Muito pouco de Shakespeare, quase nada de Nietzsche e Schopenhauer.
Muita coisa de Nostradamus.

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EUA: militares suspeitos de fraude no Iraque

O Globo - 17/2/2009

No que pode se tornar a maior fraude da História dos Estados Unidos, autoridades americanas começaram a investigar o papel de militares de alta patente no uso indevido de US$ 125 bilhões destinados à reconstrução do Iraque após a queda de Saddam Hussein. É possível que nunca se descubra a soma exata que desapareceu, mas um relatório do Inspetor Geral dos EUA para a Reconstrução do Iraque (Sigir, na sigla em inglês) sugere que ela pode exceder US$ 50 bilhões - tornando-a um roubo ainda maior do que o esquema de pirâmides de Bernard Madoff.

- Acredito que o verdadeiro saque após a invasão foi feito por funcionários americanos e empreiteiros, e não por pessoas das favelas de Bagdá - disse um empresário envolvido com o Iraque desde 2003.

Auditores descobriram que US$ 57,8 milhões foram enviados em notas de cem para o empreiteiro responsável pelo centrosul iraquiano, Robert J. Stein Jr, que foi fotografado com o monte de dinheiro. Ele é um dos poucos americanos que devem ser condenados por fraude e lavagem de dinheiro.

Apesar das altas somas para a reconstrução, não há guindastes visíveis em Bagdá, exceto pelos utilizados na nova embaixada dos EUA. Líderes iraquianos estão convencidos de que o roubo ou desperdício do dinheiro de ambos os lados só poderia acontecer se funcionários americanos estivessem envolvidos.

Em 2004 e 2005, o orçamento de US$ 1,3 bilhão saiu do Ministério da Defesa iraquiano para comprar helicópteros soviéticos de 28 anos, obsoletos demais para voar, e veículos blindados que podiam facilmente ser perfurados por balas de fuzis. Iraquianos foram responsabilizados pelo roubo, mas militares americanos controlavam grande parte do Ministério.

Em janeiro, investigadores requisitaram a ficha bancária do coronel Anthony B. Bell, que era responsável por contratos para a reconstrução em 2003 e 2004.

Segundo o “New York Times”, estão sendo investigadas também as atividades do tenentecoronel Ronald W. Hirtle, da Força Aérea, responsável por contratos em Bagdá em 2004. Os dois alegam inocência.

Dinheiro era entregue em caixas de pizza

O fim do governo Bush deu novo impulso às investigações.

No início da ocupação, republicanos bem relacionados foram premiados com empregos no Iraque. Um jovem de 24 anos de uma família republicana foi posto no comando da bolsa de valores de Bagdá, que teve que fechar porque ele teria esquecido de renovar o aluguel do prédio.

Estão sendo reexaminadas informações dadas por Dale C.

Stoffel, que foi assassinado em Taiji, ao norte de Bagdá, em 2004. Stoffel, um negociante de armas, havia obtido imunidade após dar informações sobre uma rede de suborno ligando empresas e funcionários americanos na Zona Verde de Bagdá.

Ele contou que propinas de milhares de dólares eram entregues em caixas de pizzas enviadas a funcionários americanos.

Até o momento, americanos que foram processados estavam envolvidos com casos menores de corrupção.

Ministros iraquianos admitem a corrupção desenfreada no governo. Mas também há forte suspeita da cumplicidade de americanos ou da escolha de testas-de-ferro iraquianos. Em muitos casos, empreiteiros sequer começaram ou terminaram as obras. O fracasso em fornecer eletricidade, água corrente e sistema de esgoto durante a ocupação americana foram cruciais para afastar os iraquianos do regime pós-Saddam.

Patrick Cockburn

January 25, 2009

Na sala com The Edge, Page e White

Bate-papo entre três guitarristas de gerações distintas vira documentário transgressor

Myrna Silveira Brandão

ESPECIAL PARA O JORNAL DO BRASIL, DE PARK CITY, EUA

Um dos destaques da mostra Documentário Espectrum, o longa It might get loud, de Davis Guggenheim, gerou muitos comentários no Festival de Sundance (cujos vencedores serão conhecidos na madrugada de hoje), a despeito de sua abordagem. Não se trata de uma biografia, não é um filme-concerto e, embora esteja classificado como um documentário, está um tanto distante do formato, pelo menos no sentido mais convencional do termo. Os próprios organizadores do festival o estão chamando de documentário spotlight.

O filme é simples assim: três ícones da guitarra são postos numa sala e convidados a tocar, bater papo e falar sobre seu trabalho. Eles são nada menos do que Jimmy Page (Led Zepelin), The Edge (U2) e Jack White (White Stripes). Guggenheim confirma que tinha uma idéia em mente, mas queria realmente fazer algo novo.

– Quase todos os documentários sobre música a que assisti me frustraram, porque tinham uma tendência de serem enciclopédicos ou laudatórios – analisa o diretor. – Para escapar dessa armadilha busquei três pessoas que amamos e que são artistas no mais pleno sentido do estado da arte.

De qualquer forma, tendo a guitarra elétrica como elemento central, o diretor do panfleto ecológico Uma verdade inconveniente fez um filme muito interessante que foi além da música e entrou em outros temas relacionados com cultura, processo artístico, resgate de memória e retrato pessoal.

A começar, é claro, pela ênfase na personalidade de cada um dos participantes. Page, o mais velho de todos, assume os cabelos brancos de seus 64 anos e parece bastante confortável no papel. The Edge, 47, deixa aflorar o tempo todo a personalidade sensível que é. Jack White, 33, se expressa num misto de contradições e incertezas. Cada um escolheu a própria forma para narrar sua história, contando como decidiram ser guitarristas, como é o processo de criação que utilizam e outras amenidades que, aparentemente, foram surgindo no decorrer das filmagens.

O objetivo, como informa o cineasta, era exatamente deixá-los à vontade, como se a câmera não existisse.

– Nós apenas juntamos os três músicos, trouxemos as guitarras, ligamos os amplificadores e fomos conversando e tocando durante três dias – contou Guggenheim , acrescentando que o astro mais difícil de conseguir foi Page. – Foi preciso ir a Nova York algumas vezes para negociar sua participação, que felizmente acabou acontecendo.

Isoladamente e em cenas específicas, cada membro do trio recupera lembranças de suas trajetórias. Page percorre uma casa de campo inglesa, onde o quarto álbum do Led Zeppelin foi gravado. The Edge visita o ginásio onde pela primeira vez teve contato com o U2. E Jack White volta no tempo indo a uma fazenda no Tennessee.

– Queria que cada um dos três contasse sua própria história e acho que as melhores entrevistas foram realizadas apenas comigo, sem a equipe de filmagem. Foram dois dias com cada um e eu fiquei muito satisfeito com os resultados.

25 de julho de 2009 : 01h00m

January 16, 2009

Onde quer que eu vá, ouço as mesmas comparações gastas

[se preferir ler no original sem a condensação do globo, clique aqui]


Robert Fisk

Tudo depende de onde se vive.


É a geografia da propaganda israelense, projetada para mostrar que nós — liberais vivendo em nossas seguras casas ocidentais — não compreendemos o horror das 20 mortes israelenses em dez anos e os milhares de foguetes e o trauma de viver perto de Gaza.


Esqueçam os mil palestinos mortos; viajar dos dois lados do Atlântico nestas semanas tem sido uma experiência instrutiva — para não dizer estranhamente repetitiva.


Eu estava em Toronto quando abri o “National Post” e vi Lorne Gunter tentando explicar como é se sentir sob o ataque de foguetes palestinos.


“Suponha que você viva no subúrbio de Don Mills, em Toronto”, escreve Gunter, “e moradores de Scarborough disparem cem foguetes por dia contra o seu quintal, a escola de seu filho”. Entendeu a mensagem? As pessoas de Scarborough são menos privilegiadas, geralmente imigrantes — muitos do Afeganistão — enquanto que os moradores de Don Mills são de classe média.
Nada como enfiar a faca na sociedade multicultural do Canadá para mostrar como Israel está sendo justo ao revidar.


Dias depois estou em Dublin.
Abro “The Irish Times” e uma carta do embaixador israelense tenta explicar como é ficar sob o ataque de foguetes palestinos. Já sabe o que vem a seguir? “O que você faria”, pergunta Zion Evrony, “se Dublin fosse alvo de oito mil foguetes...” E por aí vai. Desnecessário dizer que estou esperando que os mesmos escritores perguntem como nos sentiríamos se ficássemos sob ataque de aviões supersônicos e tanques e milhares de soldados que bombardeiam 40 mulheres e crianças numa escola e em uma semana matam centenas de civis.


Na Irlanda, minha justificativa jornalística favorita veio de Kevin Myers. “O número de mortos em Gaza, claro, é chocante.
Mas não se compara ao número de israelenses caso o Hamas seguisse seu curso.” Entendeu? O massacre em Gaza é justificado porque o Hamas faria o mesmo se pudesse, mesmo que não tenha feito.


Isso fez Fintan O’Toole, do “Irish Times”, dizer o impronunciável: “Quando vai expirar o mandato para vitimar? Quando o genocídio de judeus deixará de livrar Israel das exigências da lei internacional?” Tive um momento interessante numa palestra em Derry, quando uma pessoa na plateia perguntou se os Acordos da Sexta-feira Santa continham lições para o Oriente Médio. Sugeri que acordos de paz locais não são bons viajantes.


Terminei a semana numa discussão na BBC na qual um sujeito do “Jerusalem Post”, um da Al-Jazeera, um acadêmico britânico e Fisk dançaram os passos habituais em torno da catástrofe de Gaza. O momento em que mencionei as centenas de palestinos mortos e os 20 israelenses foi grotesco. Ouvintes pró-Israel me condenaram por sugerir (o que não fiz) que apenas 20 israelenses morreram em dez anos. Naturalmente, centenas de israelenses fora de Gaza morreram — mas também milhares de palestinos.


Meu momento favorito veio quando disse que jornalistas deveriam ficar do lado dos que sofrem. Se estivéssemos cobrindo o comércio de escravos no século XVIII, não daríamos tempo igual para o capitão do navio negreiro na cobertura.
Se fosse a libertação de um campo de concentração nazista, não daríamos o mesmo tempo para a SS. Nesse ponto, um jornalista do “Jewish Telegraph”, em Praga, respondeu que “o Exército israelense não é Hitler”. Mas quem disse que era?