January 20, 2026

Dilbert sempre foi MAGA

 

Homem de óculos e camisa preta está entre duas pessoas vestidas com fantasias do personagem Dilbert, que usam camisa branca, gravata listrada vermelha e preta e óculos grandes.  
Joel Stein
 The New York Times

Como judeu de uma cidade liberal da Costa Leste, fui privado de ter um tio "Maga" —acrônimo de "Make America Great Again", lema usado por republicanos e apoiadores do presidente americano Donald Trump— com quem discutir.

Para consertar isso, fui atrás de Scott Adams, o cartunista de "Dilbert", amplamente bem-sucedido e sindicalizado que, por volta de 2017, havia declarado apoio a Donald Trump e reunido uma comunidade online que destilava fúria contra as elites progressistas presunçosas.

Isso pareceu uma traição vinda de alguém do nosso próprio grupo. Afinal, ele era um agnóstico pescetariano que fez pós-graduação em Berkeley, morava numa cidade da Bay Area esmagadoramente democrata, instalou painéis solares no telhado e vivia de fazer arte. Por que, de repente, ele se voltaria contra a própria classe?

Adams, morto na última terça-feira, concordou em ser entrevistado para meu livro "In Defense of Elitism: Why I’m Better Than You and You Are Better Than Someone Who Didn’t Buy This Book" —algo como em defesa do elitismo, por que sou melhor que você e você é melhor que alguém que não comprou esse livro. Eu planejava ter um debate político acalorado, de alto nível —do tipo que só um cartunista e um colunista de humor poderiam ter.

Quando entrei na garagem da casa dele em Pleasanton, na Califórnia, no entanto, encontrei um homem sorridente e de fala mansa. Ele me mostrou a casa, o que levou um bom tempo, já que ela tinha cerca de 780 metros quadrados. A esposa havia deixado ele pouco antes de terminarem a construção, e quase todos os amigos tinham se afastado desde que ele virou "Maga", então ele andava sozinho pela casa.

Apesar de enorme, era uma casa do povo —suas características haviam sido definidas por meio da colaboração coletiva de mais de 3.000 fãs que enviaram ideias para o projeto "Dilbert’s Ultimate House" (DUH), resultando em inovações como um banheiro para gatos, um armário para árvore de Natal e uma torre em forma de cabeça do Dilbert, cujas janelas-olhos davam para a piscina. Havia também uma sala de embrulho de presentes que, aparentemente por causa da perda dos amigos, tinha sido convertida em um estúdio de música onde Adams estava aprendendo a tocar bateria.

Personagem de desenho animado com cabeça retangular e topo arredondado, usando óculos redondos, nariz grande, orelhas visíveis e gravata preta, sobre fundo vermelho.

Quando finalmente perguntei a Adams como ele havia se voltado contra seus colegas altamente escolarizados e bem-sucedidos, ele explicou pacientemente que eu o tinha entendido mal. O pai dele era carteiro e a mãe trabalhou por um tempo numa linha de montagem. Ele cursou uma faculdade rural no interior do estado de Nova York, trabalhou como caixa de banco —onde, segundo disse, foi assaltado à mão armada duas vezes—, depois fez um curso de negócios à noite e conseguiu um emprego na Pacific Bell. Quando nos conhecemos, ele não tinha terno e só recentemente havia viajado para fora do país pela primeira vez.

"Dilbert" era um grito de guerra contra a classe gerencial —o sistema de idiotas iludidos para quem você trabalha e que acham que sabem mais. Trabalhadores colavam a tira em seus cubículos como combatentes da resistência pichando "V" nas paredes da Paris ocupada. Mas os chefes também colocavam "Dilbert" em seus escritórios, já que eles próprios também tinham um chefe idiota.

No universo de Dilbert, "é tartaruga em cima de tartaruga até lá em cima", explicou-me Adams quando nos encontramos. Os degraus mais baixos estão cheios de trabalhadores competentes e explorados, oprimidos por uma burocracia infinita de pessoas que sustentam um sistema que não se baseia, de fato, em conhecimento real.

Talvez Adams tenha sido um apoiador precoce de Trump porque o próprio "Dilbert" já era proto-"Maga". As frustrações cotidianas e o cinismo da tira se somavam a uma visão de mundo hoje familiar. "Não existe expertise. Simplesmente não existe", disse o cartunista.

Adams achava que isso se estendia até a questões como o comércio internacional. "Nessas situações grandes e complicadas, ninguém realmente sabe se temos um bom acordo. É melhor negociar a partir da ignorância e torcer para que o outro lado ceda", ele me disse. "No mundo real existe uma névoa. Num mundo em que ninguém sabe, a pessoa mais barulhenta vai conseguir mais."

Do ponto de vista dele, eu havia vivido por tanto tempo entre pessoas cheias de credenciais, perdidas em pensamentos abstratos, que fui enganado a achar que problemas complexos exigem soluções de especialistas. "No seu filme", como ele chamava a minha percepção da realidade, "há um grandalhão incompetente que não conhece os detalhes", ele me disse. "Estou te dizendo que isso é a melhor coisa possível. Quando o presidente Trump age sem todas as informações e seus fatos não estão corretos, ele está operando em um nível mais alto, não mais baixo. Ele está operando no mundo real."

Adams me levou ao cômodo onde, todos os dias, às 7h da manhã, ele fazia a transmissão ao vivo de "Real Coffee With Scott Adams", e seus fãs sintonizavam para o "gole simultâneo". Ali, ele me explicou pessoalmente os tipos de coisas sobre as quais falava online —o perigo das vacinas e a manipulação das eleições.

Em outras ocasiões, eu o ouvi argumentar que os republicanos eram superiores porque ignoravam o impulso democrático feminino, inalcançável, em direção à justiça, e se concentravam na única coisa útil: o poder. Em um post de blog, ele questionou a contagem de judeus mortos no Holocausto. Em 2023, anos depois da nossa visita, ele disse em seu podcast: "Com base na forma como as coisas estão indo atualmente, o melhor conselho que eu daria às pessoas brancas é que se afastem o mais rápido possível das pessoas negras". Seus distribuidores de jornais e editoras de livros o abandonaram.

Comendo uma massa vegetariana num restaurante no centro de Pleasanton, notei seu físico definido. E que ele estava namorando uma modelo do Instagram com metade da sua idade. E as aulas de bateria. Perguntei se ele estava passando por uma crise de meia-idade. Provavelmente, ele disse. Mas sua política, garantiu, não fazia parte disso.

Adams disse que não havia mudado. Em vez disso, os partidos políticos é que tinham mudado. Os liberais costumavam ser os rebeldes, os "outsiders", os que zombavam do establishment sisudo. Ele me lembrou que, 17 anos antes, eu tinha feito uma sessão de perguntas e respostas no qual lhe disse "se quisesse, você poderia desenhar melhor do que isso, certo?"

"Você e eu temos uma marca parecida. Nós zombamos da elite. Isso faz parte do nosso trabalho", disse Adams. "A quantidade de diversão que os apoiadores de Trump têm é enorme. Você acha que está tendo uma conversa, mas um lado está rindo e o outro está chorando. Os memes são ótimos. Eu tenho um cara de memes. Alguns são maldosos demais, então não coloco meu nome neles."

Depois que Adams morreu de câncer de próstata, Donald Trump, nosso comandante e principal criador de memes maldosos, divulgou uma declaração que transformou tudo em algo sobre ele mesmo: "Infelizmente, o Grande Influenciador, Scott Adams, faleceu. Ele era um cara fantástico, que gostava e me respeitava quando isso não era algo da moda."

Fico feliz por ter conhecido Scott Adams. Mas não sei como vocês, que têm tios "Maga", lidam com isso.

 

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