January 11, 2026

David Bowie: 10 anos após a morte, o camaleão ainda fascina o mundo

 

 Foi uma daquelas mortes que você — se tem idade suficiente, claro — lembra exatamente onde estava e o que fazia quando ouviu a notícia. Este sábado, completam-se dez anos que o astro inglês David Bowie fez sua passagem para o firmamento após longa (e muito sigilosa) luta contra um câncer de fígado. 

Dois dias antes, em seu aniversário de 69 anos, ele havia lançado, sem aparições públicas (que haviam ficado raras nos anos anteriores), “Blackstar”, um enigmático e sombrio álbum, feito com músicos de jazz, em que lidava com o tema da mortalidade em músicas como “Lazarus” (single lançado em dezembro e acompanhado, em janeiro, de um perturbador videoclipe). Com a morte, de repente, aquele disco começava a fazer todo o sentido.

— Estava em casa, dormindo, e minha filha viu a notícia na internet. Ela pulou da cama, me acordou, e disse: “Pai, pai, o Bowie morreu!” Daí eu não conseguia mais dormir — recorda-se Thedy Corrêa, cantor do grupo gaúcho Nenhum de Nós, que em 1989 teve em uma versão de “Starman”, o “Astronauta de mármore”, a música mais tocada do ano no Brasil. — Foi como um golpe. Estava com a alegria do fã, de alguém que viu um trabalho novo de um cara que admira, e vem essa notícia. Teve gente que falou: “Isso aí é um truque dele para promover o álbum.” Acho que ele foi o único exemplo de alguém que conseguiu fazer (a união de obra e vida) de maneira tão genial.

Capas de jornais e revistas no dia da morte do cantor David Bowie — Foto: Robert Bodman/AFP
Capas de jornais e revistas no dia da morte do cantor David Bowie — Foto: Robert Bodman/AFP

Mais do que conseguir orquestrar como arte a sua saída de cena, David Bowie foi uma das maiores forças criativas do que, a partir da segunda metade do século XX, ficou conhecido como cultura pop. Nascido em 1947, David Jones viu de perto a revolução do rock e logo percebeu que ela não estava calcada somente na música. Ainda em 1969, produziu “Love you till Tuesday”, uma coletânea de filmes promocionais de suas canções — algo que antecipou em pelo menos 12 anos a MTV. E mudou de personagem como quem muda de roupa ou cabelo.

David Jones virou David Bowie, depois Major Tom (o astronauta de “Space oddity”, a faixa que o pôs no mapa do pop em 1969), Ziggy Stardust (o astro de rock alienígena e bissexual do álbum de 1972), Alladin Sane (do rosto varado por um raio), Thin White Duke, o Homem que Caiu na Terra (do longa-metragem de Nicolas Roeg, o primeiro que estrelou, em 1976), o Goblin King do filme “Labirinto” (1987)... Em permanente experimentação com a música, o sexo, as drogas, o cinema, a dança, o teatro e a literatura, Bowie ganhou a alcunha de camaleão. “Sou um ator, interpreto papéis, fragmentos de mim mesmo”, definiu-se em entrevista de 1972.

Programação

Em São Paulo e no Rio, até a quarta-feira da semana que vem, o cinema celebra Bowie com uma mostra de filmes, para lembrar os dez anos de sua morte.

— Enquanto o pop tiver algum significado para o mundo, existirá o legado de David Bowie ecoando. Desde 2021 realizamos uma mostra de filmes dedicada a Bowie no Cine Belas Artes. Este ano ela acontece na Frei Caneca (em São Paulo) e em Botafogo (na Zona Sul do Rio). Todo ano ainda me impressiono com a quantidade de jovens fãs frequentando. É a prova de sua influência e capacidade de conquistar novas gerações, há décadas — diz Marina Castro Alves, curadora da mostra. — Ele sempre foi visualmente impactante, e muito além de beleza, tinha essa atração magnética que transbordava no Bowie cantor e no Bowie ator. Essa atração com a câmera é inegável no cinema. Não consigo imaginar outro intérprete transmitindo sua plasticidade em “O homem que caiu na Terra”, ou um vampiro tão sensual como em “Fome de viver”.

As homenagens a David Bowie seguem mundo afora. Recentemente, foi lançado o livro “Far above the world — The Time & Space of David Bowie”, ensaio definitivo do biógrafo Paul Morley, e foi exibido o documentário “The final act”, documentário do Channel 4 da BBC sobre o disco “Blackstar”. No dia 17, a Biblioteca Britânica, em Londres, promoverá o evento “David Bowie in time”, um encontro de músicos, escritores, cineastas e críticos que refletirão sobre momentos cruciais da carreira multifacetada e sua fascinação pelo tempo.

Em 2026, a memória de David Bowie continua mais viva do que nunca: o ano começou com o encerramento da série “Stranger Things” sonorizada por um de seus clássicos, “Heroes”. O legado passa de geração a geração, a bordo dos produtos culturais ou como influência.

— Existe eco de Bowie em vários artistas, e indicaria uma em que vejo a inquietude dele de uma maneira muito positiva: a Billie Eilish — crava Thedy Corrêa. — Ela inclusive já citou Bowie e acho que, nos últimos dez anos, foi também quem mais buscou caminhos não usuais para a música, e até para as maneiras de se vestir, de ir contra o mainstream. É uma outra pegada, mas acho que Billie é um exemplo de quem seguiu o espírito do Bowie.

O inglês morreu em uma época em que plataformas de streaming por assinatura, como o Spotify, começavam a se consolidar como meio de consumo de música. Nos dez anos que se passaram de lá para cá, elas não só salvaram a indústria da música gravada (que passou anos temendo os meios de distribuição digital, achando que eles poderiam intensificar a pirataria), como contribuíram para reviver muitas carreiras de velhos astros.

É curioso, portanto, lembrar hoje que, em 1999, com “Hours...”, Bowie se tornou o primeiro grande artista de uma grande gravadora a lançar um álbum em formato digital antes de sua distribuição física. Desde cedo, o artista abraçou com entusiasmo a internet e criou seu próprio provedor de serviços de internet, o BowieNet, em 1998.

Em 1999, ele foi entrevistado por Jeremy Paxman para o programa Newsnight, da BBC, e falou de sua paixão pelas possibilidades da rede. “Acho que ainda não vimos nem a ponta do iceberg, o potencial do que a internet fará com a sociedade, para o bem e para o mal, é inimaginável. Acho que estamos na iminência de algo emocionante e aterrorizante”, disse. No que Paxman objetou que ela era apenas “uma ferramenta”, o inglês devolveu, à sua inconfundível maneira: “Não, não é. É uma forma de vida alienígena!”

As múltiplas contribuições artísticas

Imagens de David Bowie, no livro "Speed of life", do fotógrafo japonês Masayoshi Sukita — Foto: Divulgação/Masayoshi Sukita
Imagens de David Bowie, no livro "Speed of life", do fotógrafo japonês Masayoshi Sukita — Foto: Divulgação/Masayoshi Sukita

Música. Do roqueiro sem maiores brilhos do LP de estreia de 1967, “David Bowie”, ao reluzente jazz noir de “Blackstar”, o astro promoveu reviravoltas no mundo pop. Sem o glam rock andrógino do Ziggy Stardust, a releitura branca do r&b em “Young americans” (1975), a assimilação do rock gélido e eletrônico dos alemães do krautrock na trilogia de discos de Berlim (“Low” e “Heroes”, de 1977; e “Lodger”, de 79) e a reinvenção do pop dançante em “Let’s dance” (1983), dificilmente existiriam da forma que existem o new romantic, o synthpop, e astros como Madonna ou Lady Gaga.

Artes cênicas. Estudante de teatro avant-garde e de mímica de Lindsay Kemp, Bowie pautou seu trabalho inicial pelos personagens que imortalizou nos palcos e nas capas de seus discos: Major Tom, Ziggy Stardust, Alladin Sane, Thin White Duke... Em 1976, ele teve seu primeiro papel de protagonista no cinema em “O homem que caiu na Terra”, longa-metragem de Nicolas Roeg. Participaria depois de filmes como “Eu, Christiane F. — 13 anos, drogada e prostituída” (interpretando a si mesmo), “Fome de viver”, “Furyo - Em nome da honra” e “Labirinto — A magia do tempo”. Em 2015, ele retomou a trama de “O homem que caiu na Terra”, para escrever o musical “Lazarus”.

Tecnologia. Homem que vivia no futuro, David Bowie conseguiu vislumbrar as possibilidades do videoclipe em 1969 e reconheceu as possibilidades da música eletrônica quando elas ainda estavam sendo testadas, nos anos 1970, pelos alemães do Kraftwerk. Em 1999, ele ainda fez do seu “Hours…” o primeiro álbum de um artista de uma grande gravadora a ser lançado em formato digital antes de sua distribuição física.

 O GLOBO 

Wagner Moura's moment is now. He wants to bring all of Brazil with him

 

 

Los Angeles Times · Carlos Aguilar  

 The stakes are high for the characters that Brazilian actor Wagner Moura takes on.

Caught in the grip of challenging sociopolitical backdrops, his magnetic and brooding men — whether bold authority figures, conflicted everyday guys, notorious outlaws or those in positions of power — represent an affront to the status quo. And so does he.

“Regarding injustice, I’m usually explosive and that reflects in the kind of characters that I play,” Moura tells me sitting at Neon’s offices on a rainy Los Angeles afternoon in November. “There’s this energy and this will to break s— down in a lot of them.”

Moura has just arrived back in L.A., where he spends most of his time with his three children and wife, photographer Sandra Delgado, after concluding a run of “A Trial – After An Enemy of the People” on stage in Rio de Janeiro and Salvador. The play is a modern-day update to Henrik Ibsen’s “An Enemy of the People,” conceived by Brazilian director Christiane Jatahy.

His theater engagement overlapped with the fall festivals he attended to present “The Secret Agent,” a Brazilian thriller set in the city of Recife during the 1970s, when the country was under a military dictatorship.

Wagner Moura in the movie “The Secret Agent.”
(Victor Juca)

In the genre-bending period knockout from Kleber Mendonça Filho — one of Brazil’s leading filmmakers — Moura plays Armando, a grieving widower on the run who joins a community of people hiding from their pasts in trying times. Under a new name, he works toward finding an escape for him and his young son, but the powerful bigot he stood up against in his former life as a scientist is getting closer to finding him. A simple man must become a stealth operative in order to survive.

“I love that this is not a film about someone who’s trying to overthrow the government — he’s just a guy who sticks with his values, with who he is,” Moura says about his part. His salt-and-pepper short hair and beard confer an air of seasoned, handsome ruggedness.

Moura, 49, has thus far amassed a body of work that includes the Colombian drug lord Pablo Escobar in the Netflix hit series “Narcos,” a fearless Reuters journalist in the dystopian “Civil War” and diplomat Sérgio Vieira de Mello in the biopic “Sergio.”

“I don’t want to be the Che Guevara of film,” Moura says, aware of the connective tissue of a career still in ascent. “I gravitate towards things that are political but I like being an actor more than anything else.”

For his simmering performance in “The Secret Agent” (opening Friday), Moura won the lead actor prize at the Cannes Film Festival in May. Mendonça Filho also received the directing prize. Their acclaimed crime drama has been selected to represent Brazil at the Oscars — and its chances are good. (It just added two awards from the New York Critics Circle.)

“Wagner is an incredibly intelligent person who has an understanding of life, of society, of human behavior,” Mendonça Filho says via Zoom from New York. “Actors find wonderful ways of representing life, and that’s what he does. [There was] not a lot of directing from me, because we had been talking for so long about the film, the role, about the historic moment of the world and the country, about alcohol and smoking, about talking to children and talking to people in general.”

Moura and Mendonça Filho met for the first time at Cannes in 2005, when the actor was there with his gritty love triangle “Lower City.” At the time, Mendonça Filho was both a film critic covering the festival and a budding filmmaker with a short in competition.

Learning that they were both originally from Brazil’s northeast — Moura from the state of Bahia and Mendonça Filho from Pernambuco — served as an immediate point of connection. A glaring cultural, racial and economic separation exists between the nation’s geographical north and south, the latter the wealthiest and whitest region of Brazil’s massive territory.

“There is a divide, which is quite complex to explain, so when you get to meet an actor and he comes from the northeast, it means something,” says Mendonça Filho.

“As an actor, back in the ’90s, it was like: There’s no way I’m going to work on television,” Moura says. “Because the kind of characters that actors from the northeast would play on TV were stereotypes, like the doorman. If you spoke with a particular accent, there was no way.”

The two crossed paths over the years and expressed a desire to work together. But it was their shared outspokenness during the regime of former president Jair Bolsonaro, recently sentenced to 27 years in prison, that drew them closer. Their public statements made them targets of the country’s virulent right wing.

“The more I bring Brazil with me, the more interesting I am as an artist, instead of trying to blend in and be what I’m not,” says Moura.
(Christina House / Los Angeles Times)

“That put us on a special pedestal for the fascists in Brazil,” says Mendonça Filho. “We ended up calling each other often and saying, ‘How are you dealing with this?’ And we became brothers, just talking about the whole situation.”

“We both suffered the consequences,” Moura recalls. His directorial debut, “Marighella,” a political drama about Carlos Marighella, the Black Brazilian writer-turned-revolutionary, premiered at the Berlin Film Festival in 2019 but didn’t open in Brazil until 2021. “I had my film censored,” he says. “They managed to make it impossible to release it.”

For Moura, “The Secret Agent” represented a cinematic homecoming after not starring in a Brazilian film for over a decade. Bolsonaro’s administration, the COVID-19 pandemic and commitments abroad prevented him from taking on a major acting job in his country and in his native language.

Mendonça Filho admits he initially worried if Moura, after so many years working away from Brazil, would bring some of the “Where’s my trailer?” attitude people assume exists in Hollywood. “He didn’t,” the director says. “He’s intelligent enough to adapt to each project.”

Moura has never gone Hollywood, even though he’s found success in English-language films and TV series since he first crossed over with the 2013 sci-fi epic “Elysium,” acting alongside Matt Damon and Diego Luna.

“I had an agent here who was like, ‘You do this to get that,’ and I was like, ‘That’s not my thing,’” Moura remembers. “I’m proud to say that since I was a young actor, even when I had to pay the rent, I’ve never done anything that I was like, ‘Oh, man, this is embarrassing but I have to do this in order to get there,’ or ‘I have to pay the bills.’”

Not every actor can say that about their career, I suggest.

“Don’t get me wrong, I’ve done s— things but the intention was right,” he backtracks modestly. “You just never know how it’s going to turn out. I only did things in my life for the sole purpose of thinking: This is going to be great. I’ve never done anything for money or as a step to get to something else, or because ‘Oh, this film is going to be seen by so many people.’ I’ve never cared about that.”

That mentality applies even to the most peculiar entries in his body of work, like “Puss in Boots: The Last Wish,” in which he voiced the villainous Wolf. Even that furry animated adventure served a purpose for him to grow as an actor.

“For a while I was a little self-conscious, not about my accent but about how I speak, like, ‘Am I flowing with these words in English correctly? Do they feel real?’” Moura explains. “Then at some point I was like, ‘Just be yourself.’ Playing Wolf in ‘Puss in Boots’ was great for that.”

Moura’s Wolf has some famous fans. “The other day I saw Ryan Coogler and he was like, ‘You know how I created the eyes of the vampires in “Sinners?” By watching the Wolf in “Puss in Boots”’ — and I was like, ‘What?’” he sputters with a boisterous laugh. Moura’s kids love the movie too.

As someone with increasingly strong ties to the United States, the actor is hyperaware of the parallels between what has happened in Brazil under Bolsonaro and the current political climate in his adoptive country.

“It’s very clear that there is an escalation of authoritarianism in the U.S.,” Moura says. “But it’s in moments like this that an awareness — of how important democracy is — comes. Americans usually take democracy for granted. Here, people think that democracy is a given. And when a government with these kind of tendencies shows up, it’s a wake-up call for people to go, ‘No, democracy is something that we have to fight for every day.’”

Raised in what he describes as a humble environment by a stay-at-home mother and a father who was an air force sergeant, Moura believes his fierce sense of justice stems from the poverty he witnessed as a young person. Today he works as an ambassador against slave labor for the International Labor Organization.

And though he started acting at age 15, joining a theater group for teenagers, he studied journalism in college and worked at a newspaper for a short time.

“Most of my friends are journalists and I was happy to play a journalist in ‘Civil War’ and in a series called ‘Shining Girls,’ because I think that journalism is a very important thing — nowadays, especially,” he says.

Acting was ultimately his calling, though he admits at first it was more about his interest in hanging out with theater people. At home, Moura is best known for two productions. First, there’s the popular 2007 soap opera “Paraíso Tropical,” in which he played an unprincipled businessman. “I did two soap operas and it was great,” Moura says excitedly. “I was feeling like, ‘I’m a Brazilian natural, motherf—.’ This is part of our culture!”

“Wagner doesn’t sell out,” says director José Padilha. “There’s no money that can buy Wagner’s artistic focus.” Moura, pictured in “The Secret Agent.”
(Victor Juca)

And then there’s the ferocious Captain Roberto Nascimento in the visceral 2007 crime thriller “Elite Squad” and its sequel “Elite Squad: The Enemy Within” from director José Padilha, who describes Moura as “a political animal.”

“In the cutting room, I watched the footage and it was apparent that Wagner had stolen the show,” Padilha recalls during a phone call from his home in L.A. “I had to reconstruct the voice-over to move the point of view from one character to another.”

That’s because Moura’s Captain Nascimento was not originally the film’s protagonist, but Moura’s performance demanded more attention. Padilha first saw the actor in Carlos Diegues’ comedy “God Is Brazilian.” And though the tone between that film and “Elite Squad” couldn’t be more different, he thought Moura could do anything.

Moura and Padilha reunited once they both were working stateside. When Padilha met with Netflix’s Ted Sarandos to discuss “Narcos,” the executive asked who he’d cast as Pablo Escobar, to which the director immediately replied, “Wagner Moura,” and assured Sarandos that Moura spoke fluent Spanish. He didn’t.

“It wasn’t like I thought about it deeply,” Padilha says with a chuckle as he reminisces. “It’s almost like if they asked me, ‘Who do you want to be the No. 10 in your soccer team?’ I would say, ‘I want Pelé to be No. 10.’ I don’t even have to think about it.”

On his own dime, Moura traveled to Medellín, Colombia, to study Spanish at the same university Escobar had attended. For the actor, Padilha says, choosing what he wants to do is always instinctual, never premeditated.

“Wagner doesn’t sell out,” says Padilha, emphatically. “There’s no money that can buy Wagner’s artistic focus.”

Moura speaks fast, at least in English, as if rushing to get his message across, but also as if questioning his own answers. When I share with him that I’m originally from Mexico, he briefly switches to Spanish. He finds it ironic that two Latin Americans are doing an interview in a tongue that’s neither our first.

“Cabrón,” he calls me, “you are Mexican and we’ve been here speaking in English all this time,” he says in Spanish with a hint of playful exasperation.

These days, he says he’s trying to allow himself to be himself while acting. That’s what he hopes to investigate further.

“Characters are more and more a reflection of myself, of what I would do if I was in this situation,” Moura explains. “And the fact that Kleber wrote ‘The Secret Agent’ for me means there’s a lot of me already in there — and a lot of him in there too.”

“Kleber is more stoic in a way,” he adds. “Right from the beginning I was like, ‘This is more Kleber’s temperature, this character that needs to be hidden, that needs to protect his kid, that can’t call attention to himself. Everything has to happen within him.’”

As someone straddling languages and latitudes, Moura believes that international actors with career aspirations in the U.S. often try to assimilate, diluting themselves in the process.

“When I first started coming here many times, someone was like, ‘Do you think you could play this with a standard American accent?’ And I was always like, ‘No, this is the way I speak.’” Moura recalls. “The more I bring Brazil with me, the more interesting I am as an artist, instead of trying to blend in and be what I’m not.”

L A TIMES 

A soma de todos os medos

 

Como a democracia chilena foi parar no colo do ultradireitista José Antonio Kast

Roberto Simon, de Santiago

 

É difícil apontar o momento exato em que a candidatura presidencial do ultradireitista José Antonio Kast implodiu, na eleição de 2021. Talvez a gota d’água tenha sido a divulgação na imprensa do documento de filiação de seu pai, um ex-soldado alemão na Segunda Guerra Mundial, ao Partido Nazista. Naquela época, era difícil para a maioria dos chilenos aceitar um candidato que relativizava a ditadura de Augusto Pinochet (“Se estivesse vivo, ele votaria em mim”, disse Kast), defendia a proibição do casamento homoafetivo, rejeitava o direito ao aborto, mesmo em casos de estupro, e justificava a violência policial contra os distúrbios que haviam varrido o Chile. Um pai nazista de carteirinha, literalmente, completava a caricatura.

Mesmo assim, ele chegou ao segundo turno das eleições em dezembro de 2021. Mas talvez seu fracasso já estivesse selado antes. Em maio daquele ano, candidatos de esquerda e independentes tinham levado dois terços dos votos na eleição especial para formar uma Assembleia Constituinte. Na corrida presidencial, Kast disputava o segundo turno contra Gabriel Boric, um deputado de 35 anos, com trajetória no movimento estudantil, braços cobertos de tatuagens e o plano de governo mais à esquerda desde o governo socialista de Salvador Allende, derrubado por Pinochet em 1973. O temor de uma vitória da ultradireita, em meio ao processo constituinte, fez o centro e a centro-
esquerda se moverem na direção de Boric. E Kast levou uma surra: perdeu a disputa final pelo Palácio de la Moneda por 11 pontos.

Saltamos para o final de 2025 – e estamos em um Chile que parece de outro planeta. Cinco anos depois da explosão de uma onda de protestos por demandas sociais, agora o anseio dos chilenos por ordem e controle desembocou na vitória de Kast contra a comunista Jeannette Jara, ex-ministra de Boric, com uma avalanche de votos: 58% contra 42%.

Quem fez a campanha ao longo de 2025 foi um Kast de fala serena, zeloso por projetar uma imagem mais moderada. Tornou-se o candidato mais votado da história chilena. Em março, ele inaugurará o governo mais à direita no país desde a ditadura de Pinochet, entre 1973 e 1990. Sua legenda – o Partido Republicano (PR), criado em 2019 – será a maior da Câmara dos Deputados, com 31 cadeiras. Mas seu bloco de apoio, com 42 das 155 cadeiras da Câmara, não terá controle da casa. A coalizão de Jeannette Jara, formada por sete partidos, levou 61 cadeiras. Das 52 restantes, porém, a divisão favorece Kast, pois 48 assentos ficaram com partidos ideologicamente mais próximos da direita, e 3, com os verdes, que votam mais à esquerda (além de 1 independente). No Senado, onde 23 cadeiras estavam em disputa, o grupo de Kast levou 6, a centro-direita ficou com 5 e a esquerda e os verdes, com 12. Unidas, as direitas chilenas terão exatamente a metade da casa, 25 dos 50 senadores.

Com sua votação consagradora, Kast recebeu um mandato amplo para pôr em prática suas promessas de mano dura contra a criminalidade e a imigração, e de encontrar novos rumos para uma economia que continua a espremer a classe média. O caminho à frente, entretanto, é estreito. Uma agenda radical fora desses trilhos não terá apoio do Congresso, em um país dividido e cujas instituições pressionam presidentes a migrar ao centro em busca de governabilidade – como ocorreu, aliás, com Boric.

Regionalmente, em meio à guinada imperial dos Estados Unidos na América Latina, mais um franco aliado de Trump chega ao poder na região, dessa vez em Santiago. “A detenção de Nicolás Maduro é uma grande vitória”, celebrou Kast no X, logo depois que as primeiras imagens do ditador venezuelano, algemado e vestindo um abrigo cinza da Nike, inundaram as redes sociais.*

O novo presidente não tem a piromania antidemocrática de Donald Trump, Javier Milei, Nayib Bukele ou Jair Bolsonaro, apesar de manter laços ideológicos com os quatro. Em sua campanha não prometeu demolir o sistema político nem obliterar adversários. No discurso de vitória, fez um apelo ao “respeito” à oposição, subindo o volume da voz para abafar as vaias da plateia quando citou Jara. “Alguém pode ter uma ideologia distinta, mas é uma pessoa como todos nós”, disse. Quando Boric lhe telefonou para dar os parabéns pela vitória, Kast pediu que o diálogo se estenda mesmo depois de o presidente em exercício deixar o poder. “A grande referência internacional de Kast hoje é a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, o que indica algo sobre o modo como vai se conduzir no governo do Chile”, me disse Sebastián Hurtado-Torres, professor de relações internacionais da Universidade San Sebastián, de Santiago. Oriunda da ultradireita, líder de um partido herdeiro do fascismo italiano, Meloni se aliou à centro-direita no Parlamento para conseguir governar e, em nome do pragmatismo, podou os ramos mais radicais de sua agenda.

Ideologicamente, Kast está muito além da direita tradicional que governou o Chile por duas vezes, com Sebastián Piñera (1949-2024). O PR nasceu de uma costela à direita da União Democrata Independente (UDI), legenda conservadora formada nos anos 1980, depois de uma cisão na base de apoio da ditadura. Kast foi deputado da ala mais radical da UDI por catorze anos, até se rebelar de vez contra o que julgava ser uma deriva do partido em direção ao centro. Em 2019, ele fundou o PR e, ao aglutinar forças da ultradireita, iniciou uma tomada do campo conservador chileno.

A biografia política de Kast é uma linha reta ascendente. Da Baviera ao Chile, seus pais formaram um lar de forte predomínio da cultura alemã e católica na cidade de Buin, na Região Metropolitana de Santiago, onde criaram uma próspera indústria de alimentos. Kast é o caçula de dez filhos (ele, por sua vez, tem nove). Michael Kast, o seu irmão primogênito, foi um dos Chicago Boys – grupo de economistas chilenos egressos da Universidade de Chicago que fariam do Chile, sob Pinochet, um laboratório de experimentação das teorias ultraliberais de Milton Friedman – e serviu como ministro e presidente do Banco Central durante o regime militar.

Advogado de formação, o novo presidente entrou na política em 1996, quando se elegeu vereador em Buin. Em 2002, virou deputado federal. Ao longo de sua carreira, consolidou-se como representante de dois blocos eleitorais. O primeiro vinha do pinochetismo renitente no corpo político chileno, incluindo grupos de militares da reserva que aplaudiam a defesa que Kast fazia dos condenados por violações dos direitos humanos e a sua relativização dos crimes da ditadura. O segundo bloco era formado por setores ultraconservadores e religiosos, entusiasmados com sua cruzada contra o aborto, o casamento homoafetivo, a educação laica e outros temas da agenda moral.

À medida que cresceu a rejeição ao establishment da política chilena, a base de apoio de Kast se espraiou. Em sua primeira campanha presidencial, em 2017, as primeiras pesquisas lhe davam 3% das intenções de voto. Ele teve quase 8%. Em 2021, venceu o primeiro turno com 28% e, embora tenha perdido no segundo turno, obteve 44% dos votos. Quatro anos depois, às vésperas de completar 60 anos, Kast chegou à Presidência com o apoio de quase 3 em cada 5 eleitores.

 

A explicação para o triunfo da ultradireita no Chile tem várias camadas. Primeiro, o próprio Kast passou por uma considerável transformação, pelo menos na fachada: ele soube ler as mudanças do eleitorado e diluiu seu discurso extremista. Nessa última eleição, a estratégia de sua campanha foi mirar inteiramente na tríade de prioridades da esmagadora maioria dos chilenos: segurança pública, imigração e economia (não por acaso, as áreas em que o governo de Boric é mais criticado pela população). O candidato do PR também evitou temas da chamada guerra cultural. Só falava sobre direitos humanos ou questões morais quando indagado pela imprensa. A resposta vinha curta e em tom calmo. Foi a fórmula para se tornar mais palatável aos chilenos que rejeitavam o governo Boric e olhavam em volta em busca de alternativas. O estilo mudou, mas não há sinais de que o novo presidente tenha mudado de posição em temas como aborto, casamento homoafetivo ou os crimes do passado.

A dinâmica da corrida eleitoral também o favoreceu, com Kast sanduichado por outras duas candidaturas no campo conservador. Situado ainda mais à sua direita, o deputado e youtuber Johannes Kaiser falava em voz alta os pontos subentendidos no plano de Kast. Kaiser adotou um discurso xenófobo caricato contra bolivianos, prometeu cortes à motosserra no orçamento, como Milei, e reiterou que apoiaria um golpe militar, “com todas as suas consequências, lamentavelmente”, caso um cenário similar àquele dos anos Allende se repetisse. Diante dos arroubos desse candidato-surpresa, que terminou o primeiro turno com quase 14% dos votos, Kast parecia um ponderado senhorzinho.

Na outra ponta do sanduíche, a centro-direita murchou rapidamente. A preferida dos sindicatos patronais e do mercado era Evelyn Matthei, que fora deputada, senadora, ministra, candidata presidencial em 2013 e prefeita de Providencia, comuna da classe alta de Santiago. Mas Matthei fez uma campanha errática, tentando atrair tanto os votos do centro e de setores da centro-esquerda, quanto os da extrema direita. Ela convocou um respeitado time técnico para elaborar um plano de governo que dava ênfase a políticas sociais, mas em uma entrevista deixou escapar que os assassinatos no início da ditadura Pinochet “eram inevitáveis”. No fim, foi rechaçada por todos os lados. Amargou o quinto lugar.

No segundo turno, Kaiser e Matthei declararam apoio a Kast. O terceiro candidato mais votado, o independente Franco Parisi, um economista e influenciador de perfil liberal, evitou entrar no barco de Kast, mas a maioria de seus eleitores não pensou duas vezes.

No lado oposto do espectro político, a esquerda deu a Kast um presente: uma candidata do Partido Comunista, embora Jeannette Jara (que não tem parentesco com o célebre cantor chileno Victor Jara, torturado e morto pela ditadura de Pinochet) esteja longe de ser uma radical de esquerda. Seu plano de governo não versava sobre a expropriação dos meios de produção ou a coletivização da terra, mas sobre incrementar o salário mínimo, turbinar investimento estatal no sistema de saúde (parcialmente controlado pela iniciativa privada) e dar mais poder ao Estado sobre o sistema de pensões. Como ministra do Trabalho e Previdência Social, Jara foi uma negociadora pragmática e teve papel central na maior conquista do governo Boric, justamente a reforma do sistema de aposentadoria, que deixou de ser unicamente privado e passou a misto, com participação do Estado.

No entanto, o partido de Jara e sua base estavam bem mais à esquerda do que o eleitor médio chileno. Durante o comício de vitória de Jara no primeiro turno, no qual obteve 27% dos votos, três pontos à frente de Kast, a militância protestou contra os carabineiros, cantando: El que no salta es paco (algo como: aquele que não pula é paco, uma gíria pejorativa para policial). O brado destina-se a levar a multidão a ficar pulando em peso. A candidata presidencial sorriu constrangida. A cena pegou mal fora da esquerda chilena. Ela também foi repetidamente cobrada, ao longo da campanha, sobre seu apoio histórico a Cuba e à Venezuela. Passou a dizer que o regime cubano “claramente não é uma democracia” e reservou a palavra “ditadura” à Venezuela. Indagada sobre o Prêmio Nobel da Paz à venezuelana María Corina Machado, Jara hesitou e soltou que a opositora de Nicolás Maduro já havia “participado de uma tentativa de golpe”. Novamente, para chilenos fora da bolha de esquerda, pegou mal.

O que mais explica seu fracasso, porém, é a rejeição de parte da população aos anos Boric. “O paradoxo é que se trata de um governo de esquerda amplamente rejeitado pelos pobres”, me disse Axel Callís, sociólogo especializado em pesquisas de opinião. “Os 30% que apoiam Boric são das classes média e média alta. Não os mais ricos, mas, digamos, os mais ilustrados e conscientes, politicamente.”

Uma pesquisa de Callís no primeiro turno mostrou que a base dos eleitores de Jara era urbana, localizada sobretudo em Santiago, e de renda e escolaridade mais alta. Entre as pessoas dessa classe social, a candidata comunista estava 13 pontos à frente de Kast, mas ficava atrás da soma de pontos dos candidatos conservadores (Kast, Kaiser e Matthei). Entre os eleitores das classes D e E, Kast figurava na dianteira desde o primeiro turno. O contraste entre a esquerda elitizada e a ultradireita popular se consolidou de vez no segundo turno, dando a Kast uma vitória esmagadora.

Em 2022, uma reforma constitucional tornou o voto obrigatório no Chile. Antes, o comparecimento às urnas era, em termos proporcionais, bem mais alto entre as classes de maior renda e instrução. A emenda da obrigatoriedade do voto, uma iniciativa bipartidária da centro-esquerda e da centro-direita que contou com apoio do governo Boric, foi aprovada por 124 votos a favor e 6 contra. Em função da obrigatoriedade do voto, a disputa presidencial de 2025 foi a primeira em que um contingente de chilenos mais pobres e menos escolarizados, que não costumava votar, teve que escolher um candidato. Eles rumaram, em massa, para a ultradireita.

Os setores populares são os que mais rejeitam a esquerda porque são os mais vulneráveis ao aumento da insegurança e da imigração, segundo Callís. “São eles os mais expostos à violência e os que mais convivem com os imigrantes irregulares.” Enquanto os seguidores de Jara ridicularizam os carabineiros, Kast prometeu um Chile da lei e da ordem, com mais poder à polícia e uma nova força para deportar imigrantes, aos moldes do que tem feito Donald Trump.

 

No ano passado, o Chile apareceu em segundo lugar em um ranking da empresa Ipsos sobre o medo do crime e da violência. A pesquisa foi realizada em trinta países da América Latina, Europa, Ásia e África. Entre adultos chilenos, 62% incluíram o tema entre suas maiores preocupações. É notável que a preocupação com a segurança, no Chile, seja maior do que em países latino-americanos bem mais violentos. No Brasil e na Colômbia, por exemplo, 41% disseram ter a mesma preocupação. No México, com uma taxa de homicídios cerca de quatro vezes mais alta do que a chilena, foram 58%. O Chile só perdeu para o vizinho Peru, com 64%. Em outra pesquisa, do instituto Gallup, com 144 países, o Chile apareceu como o sexto país onde as pessoas se sentem menos seguras para caminhar à noite.

Até anos recentes, a segurança era um tema secundário na política chilena. O Chile não só tinha números de criminalidade baixos e sob controle, como os chilenos acreditavam que viviam em maior segurança do que os países à sua volta. Na última década – e, principalmente, depois da pandemia – houve uma mudança. A taxa de homicídios aumentou de 4,5 por 100 mil habitantes em 2018 para 6,7 em 2022, embora tenha recuado depois. Em 2024, ficou em 6,0. Dados da polícia indicam que roubos com violência e furtos tiveram um aumento de 17% e 9%, respectivamente, entre 2019 e 2023.

Não foram apenas os números da segurança que pioraram. O Chile passou a ter um tipo de violência extrema que não existia antes – sinal da chegada do crime organizado, incluindo redes venezuelanas de narcotráfico e extorsão. Nos últimos anos, casos envolvendo grupos venezuelanos do crime organizado no Chile inundaram a imprensa e as redes sociais, como o ocorrido em abril de 2024, em que pessoas em situação irregular no país e supostamente ligadas ao grupo criminoso Tren de Aragua, de origem venezuelana, emboscaram e assassinaram três carabineiros na província de Biobío. Dois meses antes, integrantes do mesmo Tren de Aragua, vestidos como policiais chilenos, haviam sequestrado o ex-militar venezuelano Ronald Ojeda, de 32 anos, em sua casa, em Santiago. Nove dias depois, o corpo de Ojeda, perfurado por vários tiros, foi encontrado dentro de uma maleta, enterrado embaixo de vários metros de cimento, em um bairro residencial da capital.

O aumento de roubos e furtos de celulares, carros, lojas e casas nas grandes cidades chilenas tem sido geralmente atribuído a jovens venezuelanos que não conseguem se inserir na economia formal. Mas não existem dados confiáveis a respeito. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (INE), o número de residentes estrangeiros no Chile mais que quadruplicou em dez anos – majoritariamente venezuelanos, mas também haitianos, peruanos, colombianos e bolivianos. Hoje, os imigrantes representam quase 10% da população e estão concentrados em certas regiões do país, como o Norte, e em alguns bairros pobres de Santiago.

Crime e imigração, assim, entraram no debate político como duas faces da mesma moeda. E a esmagadora maioria da população passou a demandar mudanças profundas. Segundo uma pesquisa do instituto Cadem publicada pouco antes do segundo turno, 82% dos chilenos querem “mais restrições” à chegada de imigrantes e 69% acreditam que a imigração é “ruim” para o país (um ano antes, neste último tópico, o número atingiu 77%, a máxima da série histórica). Quase 3 em cada 5 chilenos defendem “fechar completamente as fronteiras”.

 

A dinâmica da corrida eleitoral e o medo da criminalidade e da imigração ajudam a explicar o triunfo da ultradireita nas eleições presidenciais chilenas. Mas há ainda uma outra camada, mais profunda, relativa ao experimento institucional pelo qual o país passou nos últimos anos.

Em outubro de 2019, num acontecimento semelhante às Jornadas de Junho no Brasil em 2013, um protesto de estudantes secundaristas – que começou com eles saltando catracas do metrô de Santiago para protestar contra o aumento da tarifa de transporte – se transformou na maior manifestação da história do Chile, com 15% da população nas ruas a pedir uma grande mudança no contrato social do país. “Não são 30 pesos, são 30 anos” era um dos slogans do movimento, que ficou conhecido como estallido social. A democracia que nascera depois da queda de Pinochet em 1990 havia prometido muito mais aos chilenos do que conseguira entregar, em termos de acesso a educação, saúde, moradia, trabalho e aposentadoria.

Acuado pela avalanche de protestos, o então presidente Sebastián Piñera  propôs uma nova agenda social e a possibilidade de uma mudança institucional sem precedentes: trocar a Constituição em vigor, imposta durante a ditadura. O Chile embarcava numa montanha-russa de cinco anos.

Um ano depois, em outubro de 2020, 78% dos chilenos votaram a favor de uma nova Constituição e 79% optaram por fazê-lo sem a participação dos parlamentares. Preferiram que houvesse uma nova eleição para escolher os constituintes. Sete meses mais tarde, eles foram eleitos, e menos de um terço era de direita ou ultradireita. O texto final da Constituição tinha 388 artigos – uma das mais longas do mundo. A nova Carta era altamente progressista, fazia do Chile um Estado plurinacional, detalhava direitos sociais e do meio ambiente, e mudava o equilíbrio institucional, com uma Câmara de Regiões, que substituía o Senado. Em setembro de 2022, em plebiscito nacional, 62% dos chilenos rechaçaram o novo texto.

Veio uma segunda tentativa de Constituição, agora via Congresso. Legisladores nomearam uma comissão de 24 especialistas para formular um novo texto constitucional. Um conselho de cinquenta integrantes, eleito pelo voto direto, deveria supervisionar e chancelar o processo. Nas eleições para o conselho, o Partido Republicano de Kast conseguiu 23 das cadeiras. Somadas às 11 que a direita tradicional ganhou, conservadores e reacionários obtiveram o controle absoluto sobre o conselho. Os conselheiros remendaram o texto proposto pelos especialistas, incluindo cláusulas sobre segurança pública, “ideologia de gênero”, centralização política e um modelo econômico pró-mercado. Em dezembro de 2023, em novo plebiscito, 56% rechaçaram a proposta.

Em menos de cinco anos, os chilenos foram catorze vezes às urnas, cinco delas para decidir sobre o processo constituinte. Ao fim, o Chile ficou com a sua velha Constituição, promulgada ainda durante o regime de Pinochet, em 1980 e submetida depois a várias reformas.

Em 2015, o economista Eduardo Engel liderou uma comissão responsável por reformas institucionais criada no segundo governo de Michelle Bachelet, quando uma série de escândalos de corrupção atingiram a credibilidade da política chilena. Para ele, o fracasso das duas tentativas de mudança da Constituição deveu-se, principalmente, à falta de liderança política. A esquerda, que controlava a primeira assembleia constituinte, e o governo Boric, que apoiava a proposta, produziram um texto tão extremado que alienou a maioria dos chilenos. Kast, por sua vez, usou o controle da segunda comissão para “introduzir os pontos da extrema direita” que levaram à nova recusa do texto. “As duas propostas foram extremadas, em direções opostas”, diz Engel.

Mas ele discorda da ideia de que o processo de mudança constitucional, que durou de 2020 a 2023, tenha sido um fracasso completo. Após o estallido social de 2019, diz Engel, a solução para a crise foi institucional, com a mudança da Constituição no centro do processo. Isso garantiu estabilidade política para Piñera concluir o mandato e passar a faixa a Boric, algo que parecia improvável em 2019. Engel argumenta que outros países da região que viveram convulsões sociais similares, como Peru e Argentina, sofreram ainda mais com a instabilidade política.

 

A expectativa é que o futuro governo Kast imponha mudanças profundas nas áreas de segurança pública e imigração. A ultradireita também promete um retorno à filosofia dos Chicago Boys, mas o espaço para austeridade e desregulamentação é limitado. O Chile não é a Argentina que Javier Milei encontrou ao chegar ao poder, com um gasto público fora de controle, subsídios aplicados em toda parte, controles de capital e exportação. Depois dos anos Pinochet, o modelo liberal chileno passou por reformas pontuais, sob governos de centro-esquerda e centro-direita, mas suas bases permanecem.

O Chile tem o terceiro mais alto PIB per capita da América do Sul, atrás apenas do Uruguai e da Guiana, que vive um boom único do petróleo. Mas a prosperidade econômica das últimas décadas concentrou-se no topo: o coeficiente Gini – um medidor da desigualdade – do país andino é similar ao da Bolívia e do Paraguai. Herança dos Chicago Boys, a população chilena enfrenta sistemas privados de saúde e educação cada vez mais custosos, além da falta de seguridade social pública. Sem aumento de arrecadação, o espaço fiscal chileno é limitado. Em nove dos últimos dez anos, o Chile teve um déficit primário.

O plano econômico que Kast apresentou na campanha inclui promessas vagas de corte do gasto público, menos impostos sobre empresas e imóveis residenciais, além de simplificação do sistema regulatório. Dias depois de sua vitória, ele visitou Milei em Buenos Aires e, na saída da Casa Rosada, anunciou que vai morar no próprio Palácio de La Moneda, para não gerar mais gasto ao erário chileno. “Estão por vir tempos muito difíceis”, avisou. O palácio é a sede do governo, mas não a residência do presidente, que costuma morar em sua própria casa em Santiago (como fez Boric) ou em uma casa alugada pelo Estado.

Engel nota a falta de um plano detalhado de austeridade e duvida que Kast promoverá cortes da magnitude que prometeu durante a campanha. Com o Congresso dividido, ele ainda penará para compensar a perda de receita, se for a fundo na redução de impostos.

Há outras áreas, menos conspícuas, onde a mudança se aproxima. A campanha de Kast conseguiu jogar para escanteio o tema dos direitos humanos – relacionado tanto à memória da ditadura, quanto ao presente do Chile. Mas a jornalista investigativa Mónica González, uma das principais vozes sobre o tema no país, acredita que, com o governo de Kast, os chilenos vão se deparar com mudanças antes “impensáveis”. Segundo González, nas últimas décadas, Kast e seu grupo político questionaram repetidamente a veracidade dos relatos de tortura e assassinato cometidos nos anos Pinochet, documentados à exaustão. Tentaram barrar monumentos com referência aos crimes do passado e chamaram de “comércio ilegítimo” a concessão de pensões a vítimas da ditadura. “Kast homenageou, pessoalmente, um dos principais assassinos da polícia secreta do regime militar: o oficial do Exército Miguel Krassnoff, cuja sentença de prisão soma mil anos”, me disse González.

Durante a campanha, apesar da moderação que procurou adotar em seu discurso, Kast voltou a defender uma anistia aos torturadores e assassinos da ditadura com mais de 75 anos ou gravemente enfermos, encarcerados em Punta Peuco, complexo prisional que abriga os condenados por graves violações dos direitos humanos sob a ditadura. Krassnoff, que tem 79 anos, seria um dos beneficiados.

Nas últimas três décadas, o Chile foi visto mundo afora como uma das histórias de sucesso de transição democrática. Depois de o regime Pinochet assassinar milhares de pessoas, torturar dezenas de milhares e exilar centenas de milhares, comissões da verdade investigaram os horrores da ditadura, tribunais civis puniram os torturadores e assassinos, e governos sucessivos – de esquerda e direita – sedimentaram o consenso sobre a necessidade de preservar a memória daqueles anos sombrios. Kast, independentemente da voltagem de sua oratória, ora mais moderada, ora mais reacionária, representa uma ruptura inédita. As consequências práticas dessa quebra ainda são incertas.

 

Observado mais de longe, Kast integra uma transformação acelerada da América do Sul. Os ventos andam soprando à direita. Em outubro do ano passado, bolivianos encerraram um ciclo de quase vinte anos de governos de esquerda, e Milei sacou uma vitória inesperada nas eleições parlamentares de meio de mandato. Embora com gradações ideológicas variadas, direitistas também governam Equador, Peru e Paraguai. A continuidade da esquerda no poder na Colômbia, após as eleições de maio, parece improvável. Com seu frágil favoritismo na disputa em outubro próximo, Lula é um ponto fora da curva, juntamente com o governo de centro-esquerda do Uruguai, comandado por Yamandú Orsi.

Nesse contexto sul-americano, Trump reivindica um novo corolário à Doutrina Monroe, a política lançada pelo presidente James Monroe no início do século XIX que pretendia evitar a ingerência europeia nas Américas.

Trump mobilizou a maior força naval em oitenta anos no Mar do Caribe para sequestrar Nicolás Maduro, declarou cartéis de droga “organizações terroristas” e interveio em praticamente todas as eleições na região desde que entrou na Casa Branca*.

Semanas antes do segundo turno, o novo embaixador de Trump em Santiago, o ex-policial de fronteira Brandon Judd, soltou que, com um governo Kast, seria “mais fácil trabalhar”. Judd pode não ter sido diplomático – a chancelaria chilena lhe enviou uma nota de protesto contra o ato de ingerência –, mas foi sincero.

Sob o prisma geopolítico, o Chile oferece minerais estratégicos à economia do futuro, sobretudo o lítio e o cobre, e serve como uma das pontes sul-americanas com a China, via Oceano Pacífico. A militarização da luta contra o crime organizado e as políticas anti-imigração criam uma sincronia especial entre Santiago e Washington, inclusive em relação à Venezuela, país de origem da maioria das pessoas não documentadas que hoje vivem em solo chileno. “É muito provável que o Chile, sob o governo Kast, assuma uma posição ativa numa transição pós-Maduro, apoiando o governo Trump naquilo que ele quiser”, afirma o professor Hurtado-Torres. Ele não acredita, porém, que Kast vá se lançar em uma cruzada ideológica fora do país. Sua diplomacia provavelmente será um desdobramento de sua agenda doméstica. Hurtado-Torres afirma que o objetivo com vizinhos como Peru e Bolívia será levar adiante sua política anti-imigração. Kast tampouco deverá hostilizar a China, um dos principais investidores no país no setor de mineração e destino de cerca de 40% das exportações chilenas (os Estados Unidos, em um distante segundo lugar, respondem por 15%).

Lógica similar deverá ser aplicada às relações com o Brasil de Lula, aposta Hurtado-Torres: haverá um esfriamento bilateral, mas não um antagonismo aberto. Uma intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela testará os limites desse novo equilíbrio – o Brasil certamente condenará a ação, enquanto o Chile ficará agora ao lado de Trump.

Em 2018, o então candidato presidencial Jair Bolsonaro recebeu a visita de Kast, em Brasília, e ganhou a camisa nº 17 da Seleção chilena. Pouco depois da eleição no Brasil naquele ano, Eduardo Bolsonaro esteve em Santiago com Kast, e os dois abriram um canal direto de diálogo. Em 2022, o chileno foi a Campinas para a reunião da Conferência de Ação Política Conservadora (Cpac, na sigla em inglês) que Eduardo organizou. Os dois dividiram o palco com um argentino ainda pouco conhecido pela plateia brasileira: Javier Milei, um deputado que dois dias antes havia lançado uma improvável campanha presidencial.

Nos últimos meses, a relação entre Kast e os Bolsonaro parece mais distante. Indagado sobre a condenação do ex-presidente brasileiro, Kast defendeu o aliado e culpou a “ideologia muito clara” dos juízes do Supremo Tribunal Federal – e não usou as palavras “democracia” ou “golpe”. Mas o tema não ganhou relevo em sua campanha. Eduardo Bolsonaro, por sua vez, celebrou o triunfo do velho amigo no Chile, postando no X mapas do avanço da direita na América do Sul e uma montagem de vídeo das várias vezes em que esteve com Kast. A legenda dizia: “Em 2026, será a vez de Flávio Bolsonaro no Brasil.”

PIAUI 

 

 

January 10, 2026

Wagner Moura Stays Outspoken, Even When Trouble Follows

 

 

The Brazilian star of “The Secret Agent” is a major Oscar contender, though some at home turned against him for criticizing the right-wing government.

 

he new Brazilian drama “The Secret Agent” takes place in 1977, a period the opening titles describe as a time of “great mischief.” That phrase is a loose English translation of pirraça, a Portuguese word that the film’s star, Wagner Moura, recently tried to define for me.

“It’s like when a kid does something that he knows his parents are not liking but does it anyway,” he said. As he described that tendency, Moura grinned.

“I have that,” he said.

For Moura, that mischievous streak has emerged whenever he sensed expectations about how a Latino actor should behave in Hollywood. After his breakout role as Pablo Escobar 10 years ago on Netflix’s “Narcos,” Moura frustrated his agents by turning down many of the high-profile, lucrative projects that came his way.

ImageA portrait set outdoors against dark trees shows a man in a white shirt loosened at the collar, skinny tie and tweed trousers. He’s tossing what looks like an orange in the air.
“Politically, I’ve never shied away from saying what I thought was right, even if I had to pay the consequences of that,” Wagner Moura said.

“They were like, ‘Oh, you are a Brazilian actor, you should be so happy with that offer,’” he recalled. “And there was a part of me that felt some sort of pleasure to say, I’m not going to do that.”

Ironically, by sticking to his convictions and picking idiosyncratic projects like “The Secret Agent,” Moura now appears poised for the biggest global moment of his career. The rambunctious political thriller has already earned him a Golden Globe nomination and lead-performer prizes from the Cannes Film Festival and New York Film Critics Circle. Though he is facing a competitive field of best-actor contenders that includes Leonardo DiCaprio, Timothée Chalamet and Michael B. Jordan, many pundits believe Moura will score his first Oscar nomination for the film.

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In a movie scene, three woman and a man stand close together at a dilapidated opening in a building.
Moura in “The Secret Agent” with, from left, Suzy Lopes, Fafá Dantas and Geane Albuquerque.Credit...Neon

Forging a coherent acting career across two continents is no easy task, but the 49-year-old Moura has managed it, bringing warmth and intelligence to politically minded material like 2024’s “Civil War,” the Apple TV series “Dope Thief,” and an adaptation of the Ibsen play “An Enemy of the People” that he recently performed in his native city, Salvador. The director Kleber Mendonça Filho, who conceived “The Secret Agent” with Moura in mind, praised his progressive clarity as an artist.

“His star power comes from how constant he is,” Mendonça Filho said.

Moura credits that steadfastness to his late father, an Air Force sergeant. “He wasn’t politically active, but there was a matter of values, the way you should behave as a person,” he said. “I don’t want to sell myself as a moral compass, but I stick to who I am and the things that I believe are right.”

Playfully, he added, “That’s kind of a cocky thing to say, but I will say it anyway. I’m almost 50, so [expletive] it.”

Just before Christmas, I met Moura in Los Angeles, where he has lived for several years with his longtime partner, the photographer Sandra Delgado, and their three sons. In conversation, he was lively and opinionated with a cheeky sense of humor, his boyish face offset by graying hair and a voice so deep and resonant that it sounded like a special effect.

“This film doesn’t have to be in Dolby Atmos,” Mendonça Filho joked, “because Wagner’s voice has it.”

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A man in a loosened tie, white shirt and tweed trousers sits on a windowsill with his bare feet on the tile roof below.
Kleber Mendonça Filho conceived “The Secret Agent” with Moura in mind. “His star power comes from how constant he is,” the director said.

Even so, “The Secret Agent” uses that asset sparingly, drawing even greater power from Moura’s watchful, sympathetic eyes. He plays Armando, a widowed father on the run during Brazil’s military dictatorship. Pursued by hit men, Armando assumes a new identity and takes shelter with other political refugees while awaiting safe passage out of the country. Until then, he faces the near-impossible task of staying calm and inconspicuous in a place where violence can erupt without warning.

After the Brazilian drama “I’m Still Here” won last year’s international-film Oscar, many in Moura’s home country hope “The Secret Agent” will become another awards-season triumph. Still, he knows that not everyone in Brazil is cheering him on. Just a few years ago, when Jair Bolsonaro was president, he helped turn much of the population against Moura for openly criticizing the right-wing government.

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In a black-and-white portrait, the same man raises one hand an lowers the other.
Moura is up for a Golden Globe for his turn in “The Secret Agent”: “This is a film about a country that has a problem with memory,” he said.

“Politically, I’ve never shied away from saying what I thought was right, even if I had to pay the consequences of that,” Moura said.

In that way, he could empathize with Armando, who is not a guerrilla fighter but a former professor who will not bend to government-sanctioned corruption. Simply for holding firm to his values, this ordinary man is branded an enemy of the state.

“And I felt like that in Brazil many times,” Moura said.

DESPITE THOSE EXPERIENCES, Moura speaks about his home country with deep affection. Brazil made him famous twice over, first through soap operas, then as the star of a hugely successful crime drama, “Elite Squad,” which many Brazilians can still quote by heart.

The day I met Moura, he was preparing for a family holiday back in Salvador, which he described as one of the most diverse places on the globe. “The Brazilian passport is the most wanted passport on the black market because everyone can be Brazilian,” he said. “You don’t look at the passport and go, ‘I don’t think so.’ Everyone can be Brazilian — you, me, everybody.”

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The same man in the previous portraits wields a long-handled tool to pick an orange from a tree.
Moura is a star twice over in Brazil, for soap operas and the crime drama “Elite Squad.”

But for all he loves about Brazil — like the warmth of its people and cultural icons like the singers Caetano Veloso and Gilberto Gil — Moura will not hesitate to confront its problems or the politicians who exploit them.

“It’s beautiful, but also Brazil is violent, it’s elitist, it’s misogynist, it’s homophobic,” he said. “And Bolsonaro is a manifestation of all that.”

As artists like Moura and Mendonça Filho became more vocal about Brazil’s conservative turn, they also faced right-wing backlash from Bolsonaro’s government and on social media. “When they say that we artists are this intellectual elite that’s against the people, people buy that,” Moura said. “It’s like the old manual of fascism where they attack press, artists, universities, things like that. And he was very effective.”

Moura felt that hostility most acutely after making his directorial debut with “Marighella,” a political biopic that was also set during Brazil’s military dictatorship. Though the movie premiered at the Berlin Film Festival in early 2019, Bolsonaro’s government effectively blocked its release in Brazil until the end of 2021. By then, Moura had been painted in such a controversial light by the right wing that some theaters installed metal detectors when he attended screenings.

“What the far right is afraid of is not what we say, it’s what we do,” Moura noted. “If I had social media, I could have spent every day saying he was a fascist, but that wouldn’t bother him as much as the film I did.”

National attitudes began to shift after Bolsonaro lost the presidential election four years ago and was convicted of planning a coup to stay in power. Still, Mendonça Filho believes that even today, if Brazilians were polled on the street, about a quarter would continue to view him and Moura negatively.

“One segment of Brazilian society looks at us as if we were communists,” he said.

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A portrait of the same man shows him standing next to a multitiered fountain with water bubbling in it.
Moura will direct his first English-language film, “Last Night at the Lobster,” with Brian Tyree Henry and Elisabeth Moss.

That feeling of political persecution informed “The Secret Agent,” set during the late period of Brazil’s violent military dictatorship, which began with a 1964 coup and persisted for 21 years. “This is a film about a country that has a problem with memory,” Moura said, pointing out that when the military regime ended, an amnesty law let perpetrators off the hook.

“Bolsonaro would never have been possible without that law,” he said.

More recently, however, Moura has sensed signs of reconciliation. In November, when “The Secret Agent” was released in Brazil, it was met with major fanfare. “We sold a million tickets for it, it’s a big success,” Moura said. “And I love the fact that this film is being released in Brazil in a moment where we are finally getting sort of even with our memory.”

Moura pointed out that, like President Trump, Bolsonaro claimed the election was stolen from him and encouraged his supporters to storm the capital. The crucial difference came afterward, when the Supreme Court responded by sentencing Bolsonaro to house arrest and blocking him from pursuing political office until 2060.

“It was fascinating how Brazil was super fast in sending people to jail, finding the financiers, and taking away Bolsonaro’s political rights,” Moura said. “Are the institutions in Brazil stronger than the U.S.? I don’t think so. But in my opinion, that happened because Brazilians know what a dictatorship is.”

And if there are people who don’t remember the lessons learned in the wake of Brazil’s military regime, Moura hopes films like “The Secret Agent” and “I’m Still Here” will stand as a reminder. It’s harder to bury history when filmmakers are determined to bring it to vivid life, he argued, adding that the shelf life of a country’s politicians can pale in comparison to that of its artists.

“They all go away, it’s just a wave,” he said. “Bolsonaro is now in jail, so in the history books, he’s going to be this fascist elected by Brazilians that tried a coup d’état. Whereas Caetano Veloso will always be Caetano Veloso.”

WHEN MOURA FIRST began working in Hollywood, an agent told him to be less selective, arguing that every job is meant to lead to the next. But even then, Moura had a healthy skepticism about playing the Hollywood game.

“Maybe it’s some sort of anti-colonialism thing,” he joked. “I’ve never done anything for money or because it’s a big Hollywood thing that everybody’s going to see. And especially after ‘Narcos,’ I don’t want to do anything that would stereotype Latinos.”

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A black-and-white portrait shows the same man standing in a arched doorway.
“I’ve never done anything for money or because it’s a big Hollywood thing that everybody’s going to see,” he said.

Perhaps because of his willingness to say no, Moura never became Hollywood’s No. 1 Latino draft pick. But he wasn’t exactly angling for that, either.

“I want to go for the same characters that white American actors my age are going for,” he said. “I want to play characters named Michael who speak the way I speak.”

And if Hollywood can’t provide that, he’ll make it happen himself. Later this year, Moura will direct his first English-language film, “Last Night at the Lobster,” about the final shift at a soon-to-close chain restaurant. “It’s a very political film,” Moura said, noting that he will star opposite Brian Tyree Henry and Elisabeth Moss. “It’s an anticapitalism Christmas movie.”

In the meantime, there are awards shows to attend. “This campaigning thing, it’s intense, isn’t it?” he said.

Though Moura was previously nominated for a Golden Globe for “Narcos,” this time feels different, he said. Maybe it’s because he’s getting older, and these things matter in a new way. Or maybe it’s because “The Secret Agent” is such a personal, distinctly Brazilian project, and all this global attention feels like an unexpected but lovely affirmation.

Still, he doesn’t want to lose himself to a season where egos often become supersized. When the awards campaign began this fall, Moura was tied up with his monthslong commitment to the Ibsen play in Salvador, limiting his availability for press. “Everybody was like, ‘You have to get rid of the play and go campaign. Do you understand how important this moment is for you?’” he recalled.

As you might imagine, that pressure only stoked Moura’s defiant sense of pirraça, and he remained with the play. “This is something I’m proud of,” he said. “I don’t compromise.”

If “The Secret Agent” does lead to new Hollywood opportunities, he hopes that those projects will want him for that steadfast character, not because there’s an expectation he’ll assimilate. So far, staying true to himself seems to have served him well.

“Someone said to me once that success is when you do what you always did, but people suddenly start to pay attention,” he said.

 

THE NEW YORK TIMES