
Como a democracia chilena foi parar no colo do ultradireitista José Antonio Kast
Roberto Simon, de Santiago
É difícil apontar o momento exato em
que a candidatura presidencial do ultradireitista José Antonio Kast
implodiu, na eleição de 2021. Talvez a gota d’água tenha sido a
divulgação na imprensa do documento de filiação de seu pai, um
ex-soldado alemão na Segunda Guerra Mundial, ao Partido Nazista. Naquela
época, era difícil para a maioria dos chilenos aceitar um candidato que
relativizava a ditadura de Augusto Pinochet (“Se estivesse vivo, ele
votaria em mim”, disse Kast), defendia a proibição do casamento
homoafetivo, rejeitava o direito ao aborto, mesmo em casos de estupro, e
justificava a violência policial contra os distúrbios que haviam
varrido o Chile. Um pai nazista de carteirinha, literalmente, completava
a caricatura.
Mesmo assim, ele chegou ao segundo turno das eleições em dezembro de
2021. Mas talvez seu fracasso já estivesse selado antes. Em maio daquele
ano, candidatos de esquerda e independentes tinham levado dois terços
dos votos na eleição especial para formar uma Assembleia Constituinte.
Na corrida presidencial, Kast disputava o segundo turno contra Gabriel
Boric, um deputado de 35 anos, com trajetória no movimento estudantil,
braços cobertos de tatuagens e o plano de governo mais à esquerda desde o
governo socialista de Salvador Allende, derrubado por Pinochet em 1973.
O temor de uma vitória da ultradireita, em meio ao processo
constituinte, fez o centro e a centro-
esquerda se moverem na direção de Boric. E Kast levou uma surra: perdeu a disputa final pelo Palácio de la Moneda por 11 pontos.
Saltamos para o final de 2025 – e estamos em um Chile que parece de
outro planeta. Cinco anos depois da explosão de uma onda de protestos
por demandas sociais, agora o anseio dos chilenos por ordem e controle
desembocou na vitória de Kast contra a comunista Jeannette Jara,
ex-ministra de Boric, com uma avalanche de votos: 58% contra 42%.
Quem fez a campanha ao longo de 2025 foi um Kast de fala serena,
zeloso por projetar uma imagem mais moderada. Tornou-se o candidato mais
votado da história chilena. Em março, ele inaugurará o governo mais à
direita no país desde a ditadura de Pinochet, entre 1973 e 1990. Sua
legenda – o Partido Republicano (PR), criado em 2019 – será a maior da
Câmara dos Deputados, com 31 cadeiras. Mas seu bloco de apoio, com 42
das 155 cadeiras da Câmara, não terá controle da casa. A coalizão de
Jeannette Jara, formada por sete partidos, levou 61 cadeiras. Das 52
restantes, porém, a divisão favorece Kast, pois 48 assentos ficaram com
partidos ideologicamente mais próximos da direita, e 3, com os verdes,
que votam mais à esquerda (além de 1 independente). No Senado, onde 23
cadeiras estavam em disputa, o grupo de Kast levou 6, a centro-direita
ficou com 5 e a esquerda e os verdes, com 12. Unidas, as direitas
chilenas terão exatamente a metade da casa, 25 dos 50 senadores.
Com sua votação consagradora, Kast recebeu um mandato amplo para pôr em prática suas promessas de mano dura
contra a criminalidade e a imigração, e de encontrar novos rumos para
uma economia que continua a espremer a classe média. O caminho à frente,
entretanto, é estreito. Uma agenda radical fora desses trilhos não terá
apoio do Congresso, em um país dividido e cujas instituições pressionam
presidentes a migrar ao centro em busca de governabilidade – como
ocorreu, aliás, com Boric.
Regionalmente, em meio à guinada imperial dos Estados Unidos na
América Latina, mais um franco aliado de Trump chega ao poder na região,
dessa vez em Santiago. “A detenção de Nicolás Maduro é uma grande
vitória”, celebrou Kast no X, logo depois que as primeiras imagens do
ditador venezuelano, algemado e vestindo um abrigo cinza da Nike,
inundaram as redes sociais.*
O novo presidente não tem a piromania antidemocrática de Donald
Trump, Javier Milei, Nayib Bukele ou Jair Bolsonaro, apesar de manter
laços ideológicos com os quatro. Em sua campanha não prometeu demolir o
sistema político nem obliterar adversários. No discurso de vitória, fez
um apelo ao “respeito” à oposição, subindo o volume da voz para abafar
as vaias da plateia quando citou Jara. “Alguém pode ter uma ideologia
distinta, mas é uma pessoa como todos nós”, disse. Quando Boric lhe
telefonou para dar os parabéns pela vitória, Kast pediu que o diálogo se
estenda mesmo depois de o presidente em exercício deixar o poder. “A
grande referência internacional de Kast hoje é a primeira-ministra da
Itália, Giorgia Meloni, o que indica algo sobre o modo como vai se
conduzir no governo do Chile”, me disse Sebastián Hurtado-Torres,
professor de relações internacionais da Universidade San Sebastián, de
Santiago. Oriunda da ultradireita, líder de um partido herdeiro do
fascismo italiano, Meloni se aliou à centro-direita no Parlamento para
conseguir governar e, em nome do pragmatismo, podou os ramos mais
radicais de sua agenda.
Ideologicamente, Kast está muito além da direita tradicional que
governou o Chile por duas vezes, com Sebastián Piñera (1949-2024). O PR
nasceu de uma costela à direita da União Democrata Independente (UDI),
legenda conservadora formada nos anos 1980, depois de uma cisão na base
de apoio da ditadura. Kast foi deputado da ala mais radical da
UDI por catorze anos, até se rebelar de vez contra o que julgava ser uma
deriva do partido em direção ao centro. Em 2019, ele fundou o PR e, ao
aglutinar forças da ultradireita, iniciou uma tomada do campo
conservador chileno.
A biografia política de Kast é uma linha reta ascendente. Da Baviera
ao Chile, seus pais formaram um lar de forte predomínio da cultura alemã
e católica na cidade de Buin, na Região Metropolitana de Santiago, onde
criaram uma próspera indústria de alimentos. Kast é o caçula de dez
filhos (ele, por sua vez, tem nove). Michael Kast, o seu irmão
primogênito, foi um dos Chicago Boys – grupo de economistas chilenos
egressos da Universidade de Chicago que fariam do Chile, sob Pinochet,
um laboratório de experimentação das teorias ultraliberais de Milton
Friedman – e serviu como ministro e presidente do Banco Central durante o
regime militar.
Advogado de formação, o novo presidente entrou na política em 1996,
quando se elegeu vereador em Buin. Em 2002, virou deputado federal. Ao
longo de sua carreira, consolidou-se como representante de dois blocos
eleitorais. O primeiro vinha do pinochetismo renitente no corpo político
chileno, incluindo grupos de militares da reserva que aplaudiam a
defesa que Kast fazia dos condenados por violações dos direitos humanos e
a sua relativização dos crimes da ditadura. O segundo bloco era formado
por setores ultraconservadores e religiosos, entusiasmados com sua
cruzada contra o aborto, o casamento homoafetivo, a educação laica e
outros temas da agenda moral.
À medida que cresceu a rejeição ao establishment da política chilena,
a base de apoio de Kast se espraiou. Em sua primeira campanha
presidencial, em 2017, as primeiras pesquisas lhe davam 3% das intenções
de voto. Ele teve quase 8%. Em 2021, venceu o primeiro turno com 28% e,
embora tenha perdido no segundo turno, obteve 44% dos votos. Quatro
anos depois, às vésperas de completar 60 anos, Kast chegou à Presidência
com o apoio de quase 3 em cada 5 eleitores.
A explicação para o triunfo da
ultradireita no Chile tem várias camadas. Primeiro, o próprio Kast
passou por uma considerável transformação, pelo menos na fachada: ele
soube ler as mudanças do eleitorado e diluiu seu discurso extremista.
Nessa última eleição, a estratégia de sua campanha foi mirar
inteiramente na tríade de prioridades da esmagadora maioria dos
chilenos: segurança pública, imigração e economia (não por acaso, as
áreas em que o governo de Boric é mais criticado pela população). O
candidato do PR também evitou temas da chamada guerra cultural. Só
falava sobre direitos humanos ou questões morais quando indagado pela
imprensa. A resposta vinha curta e em tom calmo. Foi a fórmula para se
tornar mais palatável aos chilenos que rejeitavam o governo Boric e
olhavam em volta em busca de alternativas. O estilo mudou, mas não há
sinais de que o novo presidente tenha mudado de posição em temas como
aborto, casamento homoafetivo ou os crimes do passado.
A dinâmica da corrida eleitoral também o favoreceu, com Kast
sanduichado por outras duas candidaturas no campo conservador. Situado
ainda mais à sua direita, o deputado e youtuber Johannes Kaiser falava
em voz alta os pontos subentendidos no plano de Kast. Kaiser adotou um
discurso xenófobo caricato contra bolivianos, prometeu cortes à
motosserra no orçamento, como Milei, e reiterou que apoiaria um golpe
militar, “com todas as suas consequências, lamentavelmente”, caso um
cenário similar àquele dos anos Allende se repetisse. Diante dos
arroubos desse candidato-surpresa, que terminou o primeiro turno com
quase 14% dos votos, Kast parecia um ponderado senhorzinho.
Na outra ponta do sanduíche, a centro-direita murchou rapidamente. A
preferida dos sindicatos patronais e do mercado era Evelyn Matthei, que
fora deputada, senadora, ministra, candidata presidencial em 2013 e
prefeita de Providencia, comuna da classe alta de Santiago. Mas Matthei
fez uma campanha errática, tentando atrair tanto os votos do centro e de
setores da centro-esquerda, quanto os da extrema direita. Ela convocou
um respeitado time técnico para elaborar um plano de governo que dava
ênfase a políticas sociais, mas em uma entrevista deixou escapar que os
assassinatos no início da ditadura Pinochet “eram inevitáveis”. No fim,
foi rechaçada por todos os lados. Amargou o quinto lugar.
No segundo turno, Kaiser e Matthei declararam apoio a Kast. O
terceiro candidato mais votado, o independente Franco Parisi, um
economista e influenciador de perfil liberal, evitou entrar no barco de
Kast, mas a maioria de seus eleitores não pensou duas vezes.
No lado oposto do espectro político, a esquerda deu a Kast um
presente: uma candidata do Partido Comunista, embora Jeannette Jara (que
não tem parentesco com o célebre cantor chileno Victor Jara, torturado e
morto pela ditadura de Pinochet) esteja longe de ser uma radical de
esquerda. Seu plano de governo não versava sobre a expropriação dos
meios de produção ou a coletivização da terra, mas sobre incrementar o
salário mínimo, turbinar investimento estatal no sistema de saúde
(parcialmente controlado pela iniciativa privada) e dar mais poder ao
Estado sobre o sistema de pensões. Como ministra do Trabalho e
Previdência Social, Jara foi uma negociadora pragmática e teve papel
central na maior conquista do governo Boric, justamente a reforma do
sistema de aposentadoria, que deixou de ser unicamente privado e passou a
misto, com participação do Estado.
No entanto, o partido de Jara e sua base estavam bem mais à esquerda
do que o eleitor médio chileno. Durante o comício de vitória de Jara no
primeiro turno, no qual obteve 27% dos votos, três pontos à frente de
Kast, a militância protestou contra os carabineiros, cantando: El que no salta es paco (algo como: aquele que não pula é paco,
uma gíria pejorativa para policial). O brado destina-se a levar a
multidão a ficar pulando em peso. A candidata presidencial sorriu
constrangida. A cena pegou mal fora da esquerda chilena. Ela também foi
repetidamente cobrada, ao longo da campanha, sobre seu apoio histórico a
Cuba e à Venezuela. Passou a dizer que o regime cubano “claramente não é
uma democracia” e reservou a palavra “ditadura” à Venezuela. Indagada
sobre o Prêmio Nobel da Paz à venezuelana María Corina Machado, Jara
hesitou e soltou que a opositora de Nicolás Maduro já havia “participado
de uma tentativa de golpe”. Novamente, para chilenos fora da bolha de
esquerda, pegou mal.
O que mais explica seu fracasso, porém, é a rejeição de parte da
população aos anos Boric. “O paradoxo é que se trata de um governo de
esquerda amplamente rejeitado pelos pobres”, me disse Axel Callís,
sociólogo especializado em pesquisas de opinião. “Os 30% que apoiam
Boric são das classes média e média alta. Não os mais ricos, mas,
digamos, os mais ilustrados e conscientes, politicamente.”
Uma pesquisa de Callís no primeiro turno mostrou que a base dos
eleitores de Jara era urbana, localizada sobretudo em Santiago, e de
renda e escolaridade mais alta. Entre as pessoas dessa classe social, a
candidata comunista estava 13 pontos à frente de Kast, mas ficava atrás
da soma de pontos dos candidatos conservadores (Kast, Kaiser e Matthei).
Entre os eleitores das classes D e E, Kast figurava na dianteira desde o
primeiro turno. O contraste entre a esquerda elitizada e a ultradireita
popular se consolidou de vez no segundo turno, dando a Kast uma vitória
esmagadora.
Em 2022, uma reforma constitucional tornou o voto obrigatório no
Chile. Antes, o comparecimento às urnas era, em termos proporcionais,
bem mais alto entre as classes de maior renda e instrução. A emenda da
obrigatoriedade do voto, uma iniciativa bipartidária da centro-esquerda e
da centro-direita que contou com apoio do governo Boric, foi aprovada
por 124 votos a favor e 6 contra. Em função da obrigatoriedade do voto, a
disputa presidencial de 2025 foi a primeira em que um contingente de
chilenos mais pobres e menos escolarizados, que não costumava votar,
teve que escolher um candidato. Eles rumaram, em massa, para a
ultradireita.
Os setores populares são os que mais rejeitam a esquerda porque são
os mais vulneráveis ao aumento da insegurança e da imigração, segundo
Callís. “São eles os mais expostos à violência e os que mais convivem
com os imigrantes irregulares.” Enquanto os seguidores de Jara
ridicularizam os carabineiros, Kast prometeu um Chile da lei e da ordem,
com mais poder à polícia e uma nova força para deportar imigrantes, aos
moldes do que tem feito Donald Trump.
No ano passado, o Chile apareceu em
segundo lugar em um ranking da empresa Ipsos sobre o medo do crime e da
violência. A pesquisa foi realizada em trinta países da América Latina,
Europa, Ásia e África. Entre adultos chilenos, 62% incluíram o tema
entre suas maiores preocupações. É notável que a preocupação com a
segurança, no Chile, seja maior do que em países latino-americanos bem
mais violentos. No Brasil e na Colômbia, por exemplo, 41% disseram ter a
mesma preocupação. No México, com uma taxa de homicídios cerca de
quatro vezes mais alta do que a chilena, foram 58%. O Chile só perdeu
para o vizinho Peru, com 64%. Em outra pesquisa, do instituto Gallup,
com 144 países, o Chile apareceu como o sexto país onde as pessoas se
sentem menos seguras para caminhar à noite.
Até anos recentes, a segurança era um tema secundário na política
chilena. O Chile não só tinha números de criminalidade baixos e sob
controle, como os chilenos acreditavam que viviam em maior segurança do
que os países à sua volta. Na última década – e, principalmente, depois
da pandemia – houve uma mudança. A taxa de homicídios aumentou de 4,5
por 100 mil habitantes em 2018 para 6,7 em 2022, embora tenha recuado
depois. Em 2024, ficou em 6,0. Dados da polícia indicam que roubos com
violência e furtos tiveram um aumento de 17% e 9%, respectivamente,
entre 2019 e 2023.
Não foram apenas os números da segurança que pioraram. O Chile passou
a ter um tipo de violência extrema que não existia antes – sinal da
chegada do crime organizado, incluindo redes venezuelanas de
narcotráfico e extorsão. Nos últimos anos, casos envolvendo grupos
venezuelanos do crime organizado no Chile inundaram a imprensa e as
redes sociais, como o ocorrido em abril de 2024, em que pessoas em
situação irregular no país e supostamente ligadas ao grupo criminoso
Tren de Aragua, de origem venezuelana, emboscaram e assassinaram três
carabineiros na província de Biobío. Dois meses antes, integrantes do
mesmo Tren de Aragua, vestidos como policiais chilenos, haviam
sequestrado o ex-militar venezuelano Ronald Ojeda, de 32 anos, em sua
casa, em Santiago. Nove dias depois, o corpo de Ojeda, perfurado por
vários tiros, foi encontrado dentro de uma maleta, enterrado embaixo de
vários metros de cimento, em um bairro residencial da capital.
O aumento de roubos e furtos de celulares, carros, lojas e casas nas
grandes cidades chilenas tem sido geralmente atribuído a jovens
venezuelanos que não conseguem se inserir na economia formal. Mas não
existem dados confiáveis a respeito. Segundo o Instituto Nacional de
Estatísticas (INE), o número de residentes estrangeiros no Chile mais
que quadruplicou em dez anos – majoritariamente venezuelanos, mas também
haitianos, peruanos, colombianos e bolivianos. Hoje, os imigrantes
representam quase 10% da população e estão concentrados em certas
regiões do país, como o Norte, e em alguns bairros pobres de Santiago.
Crime e imigração, assim, entraram no debate político como duas faces
da mesma moeda. E a esmagadora maioria da população passou a demandar
mudanças profundas. Segundo uma pesquisa do instituto Cadem publicada
pouco antes do segundo turno, 82% dos chilenos querem “mais restrições” à
chegada de imigrantes e 69% acreditam que a imigração é “ruim” para o
país (um ano antes, neste último tópico, o número atingiu 77%, a máxima
da série histórica). Quase 3 em cada 5 chilenos defendem “fechar
completamente as fronteiras”.
A dinâmica da corrida eleitoral e o
medo da criminalidade e da imigração ajudam a explicar o triunfo da
ultradireita nas eleições presidenciais chilenas. Mas há ainda uma outra
camada, mais profunda, relativa ao experimento institucional pelo qual o
país passou nos últimos anos.
Em outubro de 2019, num acontecimento semelhante às Jornadas de Junho
no Brasil em 2013, um protesto de estudantes secundaristas – que
começou com eles saltando catracas do metrô de Santiago para protestar
contra o aumento da tarifa de transporte – se transformou na maior
manifestação da história do Chile, com 15% da população nas ruas a pedir
uma grande mudança no contrato social do país. “Não são 30 pesos, são
30 anos” era um dos slogans do movimento, que ficou conhecido como estallido social.
A democracia que nascera depois da queda de Pinochet em 1990 havia
prometido muito mais aos chilenos do que conseguira entregar, em termos
de acesso a educação, saúde, moradia, trabalho e aposentadoria.
Acuado pela avalanche de protestos, o então presidente Sebastián
Piñera propôs uma nova agenda social e a possibilidade de uma mudança
institucional sem precedentes: trocar a Constituição em vigor, imposta
durante a ditadura. O Chile embarcava numa montanha-russa de cinco anos.
Um ano depois, em outubro de 2020, 78% dos chilenos votaram a favor
de uma nova Constituição e 79% optaram por fazê-lo sem a participação
dos parlamentares. Preferiram que houvesse uma nova eleição para
escolher os constituintes. Sete meses mais tarde, eles foram eleitos, e
menos de um terço era de direita ou ultradireita. O texto final da
Constituição tinha 388 artigos – uma das mais longas do mundo. A nova
Carta era altamente progressista, fazia do Chile um Estado
plurinacional, detalhava direitos sociais e do meio ambiente, e mudava o
equilíbrio institucional, com uma Câmara de Regiões, que substituía o
Senado. Em setembro de 2022, em plebiscito nacional, 62% dos chilenos
rechaçaram o novo texto.
Veio uma segunda tentativa de Constituição, agora via Congresso.
Legisladores nomearam uma comissão de 24 especialistas para formular um
novo texto constitucional. Um conselho de cinquenta integrantes, eleito
pelo voto direto, deveria supervisionar e chancelar o processo. Nas
eleições para o conselho, o Partido Republicano de Kast conseguiu 23 das
cadeiras. Somadas às 11 que a direita tradicional ganhou, conservadores
e reacionários obtiveram o controle absoluto sobre o conselho. Os
conselheiros remendaram o texto proposto pelos especialistas, incluindo
cláusulas sobre segurança pública, “ideologia de gênero”, centralização
política e um modelo econômico pró-mercado. Em dezembro de 2023, em novo
plebiscito, 56% rechaçaram a proposta.
Em menos de cinco anos, os chilenos foram catorze vezes às urnas,
cinco delas para decidir sobre o processo constituinte. Ao fim, o Chile
ficou com a sua velha Constituição, promulgada ainda durante o regime de
Pinochet, em 1980 e submetida depois a várias reformas.
Em 2015, o economista Eduardo Engel liderou uma comissão responsável
por reformas institucionais criada no segundo governo de Michelle
Bachelet, quando uma série de escândalos de corrupção atingiram a
credibilidade da política chilena. Para ele, o fracasso das duas
tentativas de mudança da Constituição deveu-se, principalmente, à falta
de liderança política. A esquerda, que controlava a primeira assembleia
constituinte, e o governo Boric, que apoiava a proposta, produziram um
texto tão extremado que alienou a maioria dos chilenos. Kast, por sua
vez, usou o controle da segunda comissão para “introduzir os pontos da
extrema direita” que levaram à nova recusa do texto. “As duas propostas
foram extremadas, em direções opostas”, diz Engel.
Mas ele discorda da ideia de que o processo de mudança
constitucional, que durou de 2020 a 2023, tenha sido um fracasso
completo. Após o estallido social de 2019, diz Engel, a
solução para a crise foi institucional, com a mudança da Constituição
no centro do processo. Isso garantiu estabilidade política para Piñera
concluir o mandato e passar a faixa a Boric, algo que parecia improvável
em 2019. Engel argumenta que outros países da região que viveram
convulsões sociais similares, como Peru e Argentina, sofreram ainda mais
com a instabilidade política.
A expectativa é que o futuro governo
Kast imponha mudanças profundas nas áreas de segurança pública e
imigração. A ultradireita também promete um retorno à filosofia dos
Chicago Boys, mas o espaço para austeridade e desregulamentação é
limitado. O Chile não é a Argentina que Javier Milei encontrou ao chegar
ao poder, com um gasto público fora de controle, subsídios aplicados em
toda parte, controles de capital e exportação. Depois dos anos
Pinochet, o modelo liberal chileno passou por reformas pontuais, sob
governos de centro-esquerda e centro-direita, mas suas bases permanecem.
O Chile tem o terceiro mais alto PIB per capita da América do Sul,
atrás apenas do Uruguai e da Guiana, que vive um boom único do petróleo.
Mas a prosperidade econômica das últimas décadas concentrou-se no topo:
o coeficiente Gini – um medidor da desigualdade – do país andino é
similar ao da Bolívia e do Paraguai. Herança dos Chicago Boys, a
população chilena enfrenta sistemas privados de saúde e educação cada
vez mais custosos, além da falta de seguridade social pública. Sem
aumento de arrecadação, o espaço fiscal chileno é limitado. Em nove dos
últimos dez anos, o Chile teve um déficit primário.
O plano econômico que Kast apresentou na campanha inclui promessas
vagas de corte do gasto público, menos impostos sobre empresas e imóveis
residenciais, além de simplificação do sistema regulatório. Dias depois
de sua vitória, ele visitou Milei em Buenos Aires e, na saída da Casa
Rosada, anunciou que vai morar no próprio Palácio de La Moneda, para não
gerar mais gasto ao erário chileno. “Estão por vir tempos muito
difíceis”, avisou. O palácio é a sede do governo, mas não a residência
do presidente, que costuma morar em sua própria casa em Santiago (como
fez Boric) ou em uma casa alugada pelo Estado.
Engel nota a falta de um plano detalhado de austeridade e duvida que
Kast promoverá cortes da magnitude que prometeu durante a campanha. Com o
Congresso dividido, ele ainda penará para compensar a perda de receita,
se for a fundo na redução de impostos.
Há outras áreas, menos conspícuas, onde a mudança se aproxima. A
campanha de Kast conseguiu jogar para escanteio o tema dos direitos
humanos – relacionado tanto à memória da ditadura, quanto ao presente do
Chile. Mas a jornalista investigativa Mónica González, uma das
principais vozes sobre o tema no país, acredita que, com o governo de
Kast, os chilenos vão se deparar com mudanças antes “impensáveis”.
Segundo González, nas últimas décadas, Kast e seu grupo político
questionaram repetidamente a veracidade dos relatos de tortura e
assassinato cometidos nos anos Pinochet, documentados à exaustão.
Tentaram barrar monumentos com referência aos crimes do passado e
chamaram de “comércio ilegítimo” a concessão de pensões a vítimas da
ditadura. “Kast homenageou, pessoalmente, um dos principais assassinos
da polícia secreta do regime militar: o oficial do Exército Miguel
Krassnoff, cuja sentença de prisão soma mil anos”, me disse González.
Durante a campanha, apesar da moderação que procurou adotar em seu
discurso, Kast voltou a defender uma anistia aos torturadores e
assassinos da ditadura com mais de 75 anos ou gravemente enfermos,
encarcerados em Punta Peuco, complexo prisional que abriga os condenados
por graves violações dos direitos humanos sob a ditadura. Krassnoff,
que tem 79 anos, seria um dos beneficiados.
Nas últimas três décadas, o Chile foi visto mundo afora como uma das
histórias de sucesso de transição democrática. Depois de o regime
Pinochet assassinar milhares de pessoas, torturar dezenas de milhares e
exilar centenas de milhares, comissões da verdade investigaram os
horrores da ditadura, tribunais civis puniram os torturadores e
assassinos, e governos sucessivos – de esquerda e direita – sedimentaram
o consenso sobre a necessidade de preservar a memória daqueles anos
sombrios. Kast, independentemente da voltagem de sua oratória, ora mais
moderada, ora mais reacionária, representa uma ruptura inédita. As
consequências práticas dessa quebra ainda são incertas.
Observado mais de longe, Kast integra
uma transformação acelerada da América do Sul. Os ventos andam soprando
à direita. Em outubro do ano passado, bolivianos encerraram um ciclo de
quase vinte anos de governos de esquerda, e Milei sacou uma vitória
inesperada nas eleições parlamentares de meio de mandato. Embora com
gradações ideológicas variadas, direitistas também governam Equador,
Peru e Paraguai. A continuidade da esquerda no poder na Colômbia, após
as eleições de maio, parece improvável. Com seu frágil favoritismo na
disputa em outubro próximo, Lula é um ponto fora da curva, juntamente
com o governo de centro-esquerda do Uruguai, comandado por Yamandú Orsi.
Nesse contexto sul-americano, Trump reivindica um novo corolário à
Doutrina Monroe, a política lançada pelo presidente James Monroe no
início do século XIX que pretendia evitar a ingerência europeia nas
Américas.
Trump mobilizou a maior força naval em oitenta anos no Mar do Caribe
para sequestrar Nicolás Maduro, declarou cartéis de droga “organizações
terroristas” e interveio em praticamente todas as eleições na região
desde que entrou na Casa Branca*.
Semanas antes do segundo turno, o novo embaixador de Trump em
Santiago, o ex-policial de fronteira Brandon Judd, soltou que, com um
governo Kast, seria “mais fácil trabalhar”. Judd pode não ter sido
diplomático – a chancelaria chilena lhe enviou uma nota de protesto
contra o ato de ingerência –, mas foi sincero.
Sob o prisma geopolítico, o Chile oferece minerais estratégicos à
economia do futuro, sobretudo o lítio e o cobre, e serve como uma das
pontes sul-americanas com a China, via Oceano Pacífico. A militarização
da luta contra o crime organizado e as políticas anti-imigração criam
uma sincronia especial entre Santiago e Washington, inclusive em relação
à Venezuela, país de origem da maioria das pessoas não documentadas que
hoje vivem em solo chileno. “É muito provável que o Chile, sob o
governo Kast, assuma uma posição ativa numa transição pós-Maduro,
apoiando o governo Trump naquilo que ele quiser”, afirma o professor
Hurtado-Torres. Ele não acredita, porém, que Kast vá se lançar em uma
cruzada ideológica fora do país. Sua diplomacia provavelmente será um
desdobramento de sua agenda doméstica. Hurtado-Torres afirma que o
objetivo com vizinhos como Peru e Bolívia será levar adiante sua
política anti-imigração. Kast tampouco deverá hostilizar a China, um dos
principais investidores no país no setor de mineração e destino de
cerca de 40% das exportações chilenas (os Estados Unidos, em um distante
segundo lugar, respondem por 15%).
Lógica similar deverá ser aplicada às relações com o Brasil de Lula,
aposta Hurtado-Torres: haverá um esfriamento bilateral, mas não um
antagonismo aberto. Uma intervenção militar dos Estados Unidos na
Venezuela testará os limites desse novo equilíbrio – o Brasil certamente
condenará a ação, enquanto o Chile ficará agora ao lado de Trump.
Em 2018, o então candidato presidencial Jair Bolsonaro recebeu a
visita de Kast, em Brasília, e ganhou a camisa nº 17 da Seleção chilena.
Pouco depois da eleição no Brasil naquele ano, Eduardo Bolsonaro esteve
em Santiago com Kast, e os dois abriram um canal direto de diálogo. Em
2022, o chileno foi a Campinas para a reunião da Conferência de Ação
Política Conservadora (Cpac, na sigla em inglês) que Eduardo organizou.
Os dois dividiram o palco com um argentino ainda pouco conhecido pela
plateia brasileira: Javier Milei, um deputado que dois dias antes havia
lançado uma improvável campanha presidencial.
Nos últimos meses, a relação entre Kast e os Bolsonaro parece mais
distante. Indagado sobre a condenação do ex-presidente brasileiro, Kast
defendeu o aliado e culpou a “ideologia muito clara” dos juízes do
Supremo Tribunal Federal – e não usou as palavras “democracia” ou
“golpe”. Mas o tema não ganhou relevo em sua campanha. Eduardo
Bolsonaro, por sua vez, celebrou o triunfo do velho amigo no Chile,
postando no X mapas do avanço da direita na América do Sul e uma
montagem de vídeo das várias vezes em que esteve com Kast. A legenda
dizia: “Em 2026, será a vez de Flávio Bolsonaro no Brasil.”
PIAUI